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sábado, 15 de março de 2014

Crônicas do Quarto Poder

Praia de Imbetiba, Macaé, anos 50.

Sobre a história da pacata Macaé, no interior do Rio de Janeiro, achei um fato bem curioso. O político Eduardo Serrano, vindo de Niterói e com fortes laços políticos na Capital, se candidatou a prefeito desta cidade e foi eleito em 1959 para ser cassado em 1960. O motivo: sua sexualidade. Acontece que os jornais exploraram a sua até então discreta preferencia por companheiros do mesmo sexo e batendo na tecla da moral e dos bons costumes, o prefeito teve seu mandato cassado.
Encontrei na internet um trabalho bem interessante da estudante Evelyn Soares Valente sobre o episódio que explora o peso da mídia como formadora de opinião, usando aqui ainda que marginalmente o conceito de construção do consenso presente em Noam Chowsky e adaptado por Bernardo Kucinski ao contexto brasileiro.
*Falando em prefeitos, outro dia andando pelo centro de Macaé encontro um sujeito em cima de um caixote com roupas amarrotadas prometendo mundos e fundos. Descobri pelo jornal O Rebate de José Milbs que se trata de uma figura super conhecida na cidade: Mariola, o vendedor de mariolas que desde 2011 está se candidatando a prefeito. Muitas de suas propostas eram interessantes: chamar a polícia de Campos para patrulhar a cidade, criar um batalhão especial para expulsar o tráfico de Malvinas e Nova Holanda e incentivar a venda de mariolas.

domingo, 2 de março de 2014

Marx, tradições, Mujica e Terceira Via

"Marx deu um tiro no pé com O Capital".
(Bruno Pacífico x Anália Ferreira, sendo mediados por Fernando Fernandes)
Bora dar um rolezinho no fuscão do Mujica?


Nos reunimos na Cachaçaria do Dedé certa sexta feira e do nada percebemos que a conversa estava esquentando do lado de lá da mesa. Anália havia dito que Marx deu um tiro no pé ao escrever O Capital, pois ao revelar as vísceras do capitalismo e como derrotá-lo teria dado de bandeja aos seus defensores os meios de se perpetuar no poder. Foi mais ou menos assim o debate:
-Ele deu a receita para o sistema se reproduzir! Pode ver que O Capital é mais lido por economistas neoliberalíssimos que por militantes.
-Mas ele também disse os meios de combater esse sistema, forneceu subsídios pra luta continuar.
-E a luta continua?
-Claro que sim: veja a América Latina.
-Posso até estar enganada, mas muitos governos da América Latina são mais reformistas que revolucionários.
-E o Uruguai pode ser chamado de reformista? O que o Mujica tem feito lá é uma revolução. Legalizar o aborto, a maconha. Isso tudo para um mundo tão conservador quanto a América Latina é uma mudança muito radical.
Fernando falou um pouco sobre essa questão da manutenção das tradições, de como elas se repaginam para continuarem sendo perpetuadas, associando aqui a possível derrota do marxismo á essa capacidade camaleônica do capitalismo. Como o próprio Bruno questionou: será que o marxismo foi derrotado mesmo?
Ele também se adaptou aos novos tempos.
Desde os anos 80 no Brasil os escritos de Lênin, o defensor das vanguardas, foi perdendo espaço para as obras de Gramsci, o pai dos intelectuais orgânicos. Hoje não se fala mais em revolução, mas em medidas revolucionárias. Entende-se que o marxismo tem de se acostumar com a democracia liberal, que é até mesmo saudável a ele ser orientado por esse espírito democrático para não incorrer nos erros totalitários de um Stálin.
Slazov Zizek, em um artigo (ficarei devendo o nome para vocês, crianças), se pergunta: seria o capitalismo indestrutível? O que podemos fazer? Quem poderá nos salvar? Ele mesmo responde que existem muitos caminhos para se resistir a ele. A Terceira Via pode parecer um deles, mas a cada dia ela se amolda mais e mais a um discurso desideologizador. Uma esquerda democrática, ciente dos caminhos e descaminhos do regime, seria o mais adequado para aqueles que querem uma mudança realmente profunda, dizia o filósofo.
Queria ter contribuído mais para o debate e queria também reproduzir mais pontos dele aqui, mas por enquanto só me lembro disso. Talvez os amigos colaborem aqui com mais pontos de vista.

Amores serão sempre amáveis


Passando aqui para recomendar o ótimo post do historiador Valdei Araújo sobre o passado e o futuro hoje: Distopias, futuros adiados e transcendência. A partir de uma música do Chico Buarque (Futuros Amantes), ele reflete sobre como nos apropriamos do passado e como projetamos o futuro hoje, depois da Queda do Muro de Berlim e depois que o gigante acordou e voltou a dormir.
*Em tempo: sempre me incomodou essa expressão "o gigante acordou". Me cheira a ufanismo barato, mas enfim...

Segundo Valdei, a modernidade consagrou dois modos de se ver o futuro: utópico e distópico. O futuro como o melhor dos mundos ou então como o pior dos mundos. A utopia tem muito de nostalgia, afinal procura-se voltar ao que era "antes", sendo esse "antes" um passado sempre idealizado. A distopia bebe muito no niilismo; as coisas não darão certo não apenas por conta da ausência de sentido da história, mas também pelo homem, egoísta por natureza.
Mas o historiador elenca aí uma terceira concepção de futuro, aquela esposada por Chico em sua letra: o futuro adiado, um projeto de realidade que fica suspenso por quanto tempo for necessário até ser chamado a ser realizado.
Muitos tem falado na desintegração da experiência (o maior exemplo aqui pode ser Walter Benjamin) diante da modernidade, mas o que o autor sugere aqui é uma outra percepção de experiência que transcende o presente para encarar a modernidade, para impedir que seja desintegrada.
Na canção, o amor desses dois amantes é sempre remarcado, mas não há angústia nisso. Há aqui serenidade, e é isso em poucas palavras que Valdei propõe como forma de resistir á uma modernidade pulsante e frenética. 
Essa discussão sobre historicidade e temporalidade rende muito. Pretendo debater mais isso em post futuros.
**Além de Chico, Valdei adora Alan Moore e se você cavucar um pouco mais no blog dele vai achar análises de Watchmen e o tempo histórico.

domingo, 31 de março de 2013

"A velha e boa ditadura..."

Fortuna.


31 de março caiu em um dia santo esse ano. Então você me pergunta: sim, e daí? Acontece que há mais de 40 anos atrás algo muito importante aconteceu em 31 de março e se você não sabe a que estou me referindo aconselho a dar uma "googlada". Vou até facilitar pra você: procure por "Golpe de 1964" ou então "Revolução de 1964", enfim, você escolhe. Enquanto muitos comemoravam a Páscoa, outros comemoravam este fato.
Como pesquisador, procuro entender 1964 e os anos posteriores como um processo multifacetado onde atores sociais (militares, classe média, empresariado, sacerdotes, camponeses, políticos, etc) lutaram contra, se aliançaram ou negociaram construíram aquele contexto.
Como cidadão, procuro entender como as pessoas podem sentir falta desta época. É natural a qualquer pessoa sentir saudades do passado. Mas a memória ás vezes nos prega peças. "Naquele tempo não havia corrupção". Claro que havia, você não sabia pelo mesmo motivo que receitas de bolo eram colocadas no lugar de matérias que soassem suspeitas de subversão. "Naquele tempo não havia violência nas ruas". Tampouco liberdade. E outra, a brutalidade policial que temos hoje é filha desse tempo, onde articulações entre governo e grupos de extermínio ajudou a consolidar esses últimos. Não só a brutalidade, mas também o crime organizado: só lembrando, o Comando Vermelho nasceu nas celas da prisão da Ilha Grande. O Jogo do Bicho, aliás, ajudou a máquina de repressão (leia Memórias de uma Guerra Suja de Cláudio Guerra).
Enfim, procuro entender esse tempo, mas sem a mínima vontade que ele volte. Nossa democracia pode parecer falha ás vezes, mas todo regime tem seus defeitos. Creio que não devemos aceitar isso como um aval para sermos conformistas. Precisamos sim melhorar muita coisa. As soluções de força podem parecer mais rápidas, mas com certeza não são o caminho para isso. 31 de março taí para nos lembrar disso.

terça-feira, 19 de fevereiro de 2013

Os historiadores e a Comissão da Verdade


No último dia (13/12/2012) do I Encontro Estadual da ANPUH/AM debateu-se em uma mesa redonda composta pelo jornalista Wilson Reis, os historiadores Hideraldo Costa e Benito Bisso Schmidt a relação entre a Comissão da Verdade e os historiadores. Também participou da mesa, na condição de mediador, o Prof. Dr. Auxiliomar Ugarte.
A Comissão Nacional da Verdade foi criada pela Lei 12528/2011 e começou a se estruturar em maio de 2012 tendo como meta apurar violações de Direitos Humanos entre 18 de setembro de 1946 e 5 de outubro de 1988. Ainda que o recorte seja amplo a maior polêmica tem se concentrado em um espaço de vinte anos, os anos da ditadura militar (1964-1985).

Wilson Reis, jornalista e membro do Comitê da Verdade do Amazonas, nos apresentou as atribuições do grupo e seus desafios. Iniciou sua fala perguntando: Se trata de um mesmo discurso sobre um mesmo fato? Não, a questão é dar voz aos que não tiveram, ou seja, trata-se de reparação histórica e judicial.
Uma vez cientes disso os trabalhos do Comitê estadual começaram. Uma avalanche de casos apareceram. Qual o mais importante? Qual o mais urgente? O critério para fazer a triagem de casos a serem investigados foi a notoriedade. Assim, as primeiras investigações se debruçaram sobre o suicídio do sindicalista Antogildo Paiva, o desaparecimento do militante Antonio Tomaz Meirelles (Tomazinho) e o massacre dos Waimiri-Atroari.
O relatório deste último caso causou um impacto nacional. Direcionou o olhar da cidade para o campo, dos militantes de esquerda para os indígenas. Logo depois um documentário chileno perdido veio a tona mostrando alguns detalhes de milícias indígenas criadas pela ditadura que também participavam da repressão, ou seja, índios torturando índios.

Hideraldo Costa, historiador e também membro do Comitê estadual, começou sua fala lembrando o velho mito de que a ditadura no Amazonas não foi brutal: não temos desaparecidos, não temos torturados, apenas corruptos foram cassados e jornais censurados e fim de papo. O Comitê está provando que não foi bem assim.
Quando foi instaurado o Comitê em maio do ano passado, além dos organizadores só se fizeram presentes um vereador e um deputado. Hideraldo associa a indiferença da sociedade manauara com um discurso que perpetua uma memória silenciosa e cega sobre a ditadura no Amazonas. O curioso é que os historiadores locais não se sentiram atraídos pelo tema.
O Comitê estadual, assim como a Comissão Nacional, é pautado pela pluralidade: nesse grupo formado por aproximadamente 15 pessoas a maioria são políticos, mas existem jornalistas, geógrafos e um historiador (Hideraldo). Salientou o diálogo necessário entre três áreas do saber (História, Geografia e Comunicação Social) e o intercâmbio mais que urgente com as universidades.  "A minha tarefa no Comitê é mostrar que a dinâmica da pesquisa é diferente da dinâmica da militância". A pesquisa demanda mais tempo e certos cuidados metodológicos e os movimentos sociais clamam por resultados mais imediatos, daí o embate.
Segundo o palestrante, o Comitê estadual está começando a estruturar melhor suas ações por meio da construção de uma agenda. Ressaltou mais uma vez a repercussão dos relatórios do comitê estadual: a questão indígena agora entrou na pauta da Comissão Nacional e ajudou a rever muitos dados consagrados como por exemplo o número de desaparecidos (de 465 agora subiu para 2.000).


Benito Bisso Schmidt, presidente nacional da ANPUH, dedicou-se a pensar alguns aspectos da relação historiador/ Comissão da Verdade:
1) A importância dos comitês regionais: O eixo Rio de Janeiro e São Paulo sempre esteve sob os holofotes, mas agora a diversidade da ditadura aparece nos estudos regionais. No Rio Grande do Sul a questão da repressão ditatorial se relaciona com um contexto mais amplo como os contatos com a Operação Condor. Já no Mato Grosso e no Amazonas temos a questão indígena se imbricando com a política latifundiária e ideológica. E esses são apenas alguns exemplos de casos que podem nos fazer pensar e repensar tudo o que sabíamos sobre a ditadura militar no Brasil;
2) A importância da Comissão da Verdade: O objetivo da Comissão não é julgar, mas reparar e esclarecer. Sendo assim não se trata de revanchismo como quer a direita ou de demagogia política como alega a esquerda, mas de um direito. O direito á verdade. Estas investigações e a reflexão aberta por elas é extremamente necessária porque, na visão do historiador, ajuda a expurgar os demônios da democracia.
3) O papel do historiador é polêmico: Não criamos narrativas oficiais porque não existe verdade absoluta. O que a Comissão procura é apurar a verdade absoluta. E a direção das investigações tem se direcionado sobre militantes da esquerda, endossando uma narrativa já conhecida sobre a ditadura. O historiador Carlos Fico acredita que por conta desses dois pontos o compromisso do historiador com a Comissão seja extremamente problemático. Schmidt confessa que envolve sim uma série de vicissitudes, mas isso não impede o historiador de participar desse grupo. Basta apenas que ele tenha o cuidado de diferenciar a verdade da testemunha, a verdade do Direito e a verdade da História. Quanto ás narrativas canônicas, Schmidt enxerga como um problema a ser superado e oferece o caso do Peru como exemplo: não foi investigado apenas as ações do Estado, mas também do Sendero Luminoso.
5) A relação conturbada entre História e Memória: eis aí mais um elemento problemático, aliás, elemento esse que é um dos eixos da Comissão. A memória está mais ligada ao afeto, daí a exigência dos parentes de desaparecidos, presos e torturados para que seus casos sejam devidamente investigados e reparados. Ao historiador compete um certo distanciamento para não escorregar na visão de verdade absoluta. Isso não quer dizer que ele deva se abster de qualquer compaixão, o historiador não é um robô. Apenas quer dizer que é preciso ter encarar episódios traumáticos á luz da metodologia da História.
Resumindo, o historiador pode participar da Comissão da Verdade? Na visão de Schmidt, sim. Basta que ele mantenha sempre os cuidados requeridos pelo seu ofício.


terça-feira, 12 de fevereiro de 2013

Rapidinhas


O brega chora
faleceu Roberto Makassa,
o bolero em carne e osso
e óculos escuros.
Manaus, 4 de fevereiro de 2013

- notícia sussurrada -
Biblioteca Pública abriu
Manaus, 31 de janeiro de 2013

D. Pedro I abdicou, Collor renunciou
até o papa jogou a toalha
e nada do Robério se coçar.
E Renan taí...

sexta-feira, 8 de fevereiro de 2013

Apenas profissionais ou bons profissionais?

Prof. Dr. Hideraldo Lima abre o I Encontro Estadual de História .

Para mim, o último grande acontecimento de 2012 foi o I Encontro Estadual da Associação Nacional dos Professores Universitários em História (ANPUH) da Seção Amazonas.
O evento ocorreu dos dias 10 a 13 de dezembro no Instituto de Ciências Humanas e Letras (ICHL) da UFAM, sendo organizado pelo presidente da ANPUH regional, Prof. Dr. Hideraldo Lima Costa. O encontro se desdobrou em manhãs, tardes e noites, por isso comentarei aqui apenas alguns episódios do evento.
O grande tema era O Profissional de História: Ensino e Pesquisa. Tema esse que vem em boa hora: a profissionalização do historiador deixou de ser promessa á uma realidade cada vez mais palpável. A regularização não deve servir, no entanto, como ponto de chegada, mas como ponto de partida para novas práticas e questões. 
Alguns minicursos tocaram nesse problemática, outros foram mais específicos. Eu optei por fazer o minicurso Possibilidades de Pesquisa em História da Amazônia no Ensino Básico, ministrado pelo Prof. Dr. Francisco Jorge dos Santos. A oficina se mostrou uma proveitosa conversa com esse grande conhecedor da Amazônia colonial sobre sua experiência não só enquanto professor, mas como escritor do livro didático História Geral da Amazônia.
Francisco Jorge dos Santos em certo momento do minicurso.

Resumo abaixo alguns pontos da aula introdutória do professor:
*O aluno é materialista, quer algo concreto, e o trabalho do historiador é eminentemente intelectual, então como incutir a historicidade na cabeça do menino? Fazendo-o pensar. "Tem que concatenar o cotidiano do aluno à cultura histórica do professor". Desnaturalizar o presente é uma boa tática. Ás vezes até algo inesperado pode nos ajudar como os erros nos livros didáticos (datas ou nomes trocados), porque nos ajuda a desconstruir o livro.
*Em relação á pesquisa em História é preciso ter em mente que ela pertence ao aluno e não ao professor. Não se trata de satisfazer uma curiosidade do professor, mas do aluno. Nós bem sabemos que tarefa de casa ou não é feita ou é deixada para os pais fazerem, em nome de uma boa nota. Estimular a curiosidade é um meio de impedir que o aluno opte por essas duas saídas. Uma vez interessado ele mesmo partirá para a pesquisa.
*Mas é importante saber que a pesquisa não pode ser ampla demais. Por isso, professor, desde o começo delimite o campo de fontes. O aluno não tem a missão de ser um pesquisador, lançando-se a todo tipo de arquivo em busca de algo que talvez nem exista ali. Para que a pesquisa não se torne um tiro no escuro é necessário que o professor estabeleça os locais em que se encontram fontes valiosas para a pesquisa. É uma forma de não traumatizar o aluno com a pesquisa e de não perder o controle desta tarefa.
*Nesse sentido, o professor deve atuar como um orientador, sugerindo rumos que a pesquisa pode tomar. "Ser professor de História não é uma simples profissão. É um estilo de vida". E entramos então no mérito da profissionalização do pesquisador: ora, ela é um passo importante e não o único passo a ser dado. É importante que essa medida venha acompanhada da qualificação das licenciaturas. O ensino não pode ser menosprezado. Afinal, queremos apenas profissionais ou bons profissionais?

quinta-feira, 7 de fevereiro de 2013

Quem tem medo de Arthur Reis?

Por Hélio Dantas e Vinicius Alves do Amaral
Acervo Jornal do Brasil.


Há exatos 20 anos, falecia no Rio de Janeiro, aos 87 anos, o historiador amazonense Arthur Cézar Ferreira Reis. Ao longo de quase nove décadas de existência, Reis exerceu uma considerável atuação como historiador, professor, político e homem público, não só no Amazonas como no restante do Brasil. Até meados da década de 1970, seus livros foram referência básica e obrigatória a quem se interessava pela História da Amazônia. Sua obra é vasta, pois, desde 1930 aos anos 1980 teve livros de sua autoria publicados regularmente, além de inúmeras matérias de jornais, palestras, cursos, artigos e prefácios.
Estudos acadêmicos abordando especificamente sua trajetória e sua obra são recentes e começaram a surgir somente na última década. Em 2001, Sidney Lobato, estudante de História na Universidade Federal do Amapá, abordou a obra de Arthur Reis na monografia “Bricolage da formação nacional: a obra de Arthur Cézar Ferreira Reis (1939-1966)”. O professor Alexandre Pacheco, da Universidade Federal de Rondônia, desenvolveu entre 2008 e 2010 o projeto de pesquisa “Arthur Reis: História, Literatura e Poder (década de 1960)”, que rendeu diversos artigos científicos. Em 2009, surgem mais duas pesquisas: a dissertação de Lademe Correia de Souza “Arthur Reis e a História do Amazonas: um início em grande estilo” e a de Leila Margareth Rodrigues Gomes, “Movimentos Sociais na obra de Arthur Reis”, ambas desenvolvidas no âmbito do Programa de Pós-Graduação em História da UFAM. Nesse mesmo Programa de Pós-Graduação, foi defendida em 2011 a dissertação “Colonização e Civilização na Amazônia: Escrita da História e Construção do Regional na obra de Arthur Reis (1931-1966)”, de Hélio Dantas. Mais recentemente, em 2012, Vinícius Alves do Amaral, defendeu o Trabalho de Conclusão de Curso intitulado “O Seringal e o Seringueiro: a ‘epopeia amazônica’ em Arthur Reis” no curso de História da UNINORTE. Vale lembrar que, em 2006, ano do centenário do nascimento de Arthur Reis, o Instituto Geográfico e Histórico do Amazonas realizou o seminário “Arthur Reis: o intelectual e o homem de ação”.
Nascido em Manaus, em uma família tradicional, Arthur Reis obteve o título de bacharel em Direito no Rio de Janeiro, mas, ao retornar ao Amazonas em 1928, optou por ser professor de História, uma disciplina que, segundo ele, o atraía desde os tempos de ginásio. Entre as aulas de História nos tradicionais colégios locais e a atuação como editor do Jornal do Comércio (sendo este propriedade de seu pai), Reis começou a desenvolver suas pesquisas em História. O primeiro fruto foi seu livro de estreia, História do Amazonas, publicado em 1931.
Arthur Reis orgulhava-se de ter uma vida discreta, mas ainda assim era considerado uma personagem polêmica. Deve-se esse fato tanto à sua carreira enquanto pesquisador da História da Amazônia quanto à sua breve passagem pelo Governo do Estado do Amazonas entre 1964 e 1967.
Em seus escritos percebe-se claramente uma exaltação do caráter civilizatório da ação portuguesa. Para Arthur Reis, a colonização lusitana na Amazônia foi, definitivamente, bem-sucedida. Ao chegar à região, no século XVII, Portugal já teria acumulado a experiência aprendida nas colônias da África, da Ásia e do próprio litoral brasileiro, e, segundo o historiador, serviu de guia tanto para a ação do Estado quanto da “iniciativa privada” do colonizador. No entanto, mesmo com esse cabedal de experiência acumulado, a Amazônia se mostraria peculiar e diferente das outras conquistas coloniais de Portugal. O êxito dos colonizadores só foi possível porque, partindo dessa experiência prévia, não teriam se negado a realizar na região uma conquista que procurou adaptar-se às suas contingências.
Na narrativa histórica de Arthur Reis, a colonização na Amazônia segue sempre essa dupla via do ímpeto conquistador lusitano e de sua experiência adaptativa, uma alimentando a outra. É o que Arthur Reis chama de “realismo português”: o êxtase ante a grandiosidade do quadro físico, que impelem à conquista, logo dão lugar a uma “ação realística”, marcada por disposição, impetuosidade, constância e capacidade realizadora.
Toda a legislação expedida da Corte em relação à Amazônia é utilizada por Arthur Reis para servir de base a tais argumentações. Havendo necessariamente a preocupação geopolítica, que visava proteger a conquista territorial da cobiça de outros povos – preocupação essa demonstrada no aparato militar das fortificações ao longo da fronteira –, não seria somente com essa demonstração de força que Portugal iria impor a legitimidade de sua conquista na região. Para o autor, seria necessário gerir uma sociedade “ativa e modelar”, construída com incentivo à imigração e posteriormente à miscigenação, à fundação de núcleos urbanos, à tentativa de integração do indígena à nova sociedade – e uma política econômica de incentivo à agricultura, a defesa da fauna e da flora contra a atividade predatória excessiva que caracterizava a atividade extrativista, a organização do sistema de trabalho, comércio e exportação. Dessa forma, tinha um caráter de ocupação, de criação de uma “área humanizada” na região: o desenvolvimento de um processo colonizador que não visava unicamente à exploração de suas riquezas.
O esforço teórico de Arthur Reis buscava demandar uma política federal mais atuante, embasada na ciência, que analisasse as possibilidades de desenvolvimento para a região. Para tanto, empenhou-se em demonstrar que os trópicos eram habitáveis, e a possibilidade de desenvolvimento e de civilização na Amazônia, era aceitável: o problema encontrava-se não na natureza, mas na forma como a região era administrada e estudada. Inclusive, para o autor, a própria inércia e desinteresse do Estado brasileiro pela região, deviam-se, em grande parte, à visão distorcida ou idealizada que se tinha dela, que findava por condená-la ao primitivismo.
Para Arthur Reis, se no passado a conquista da região foi efetivada a contento, como um ato de coragem dos colonizadores, no presente, seria o rigor da pesquisa técnico-científica que permitiria um conhecimento exato e minucioso do território. Era preciso, no presente, retomar e plenificar a obra iniciada pelo colonizador lusitano.
A par desse pequeno resumo de sua obra, podemos entender melhor a participação de Arthur Reis em programas governamentais como a Superintendência do Plano de Valorização Econômica da Amazônia (SPVEA) e no Instituto Nacional de Pesquisa da Amazônia (INPA) na década de 1950, que tinham por principal objetivo propor e executar projetos para retirar a região da crise em que se encontrava após o fim do boom da borracha. Mas a morosidade da máquina pública e as poucas verbas concedidas fizeram da SPVEA uma experiência frustrada.
Então em 31 de Março de 1964, com o golpe de Estado que implanta a ditadura civil-militar no Brasil, um novo regime se instala, prometendo moralizar a política e desenvolver o país. Parece que a promessa será cumprida uma vez que a Amazônia é encarada como região-problema dentro da Ideologia da Segurança Nacional – muito espaço, pouco ocupado, na visão dos militares corria o risco de servir de abrigo a guerrilheiros. Mais uma vez, a condição de “especialista em Amazônia” o torna um forte candidato a um cargo público, dessa vez, o de governador do Amazonas.
Mas para Arthur Reis, que assume o cargo de 1964 a 1967, guerrilheiros não eram a única ameaça à integridade da Amazônia. Em 1965, inicia uma campanha na imprensa contra a presença de instituições de pesquisa estrangeiras, instaladas na Amazônia com a conivência do Governo Federal. Entendia tais ações como um atentado à soberania nacional. Não por acaso, havia publicado em 1960 o livro A Amazônia e a Cobiça Internacional, considerado por muitos como sua obra-prima. Nele apresenta o imperialismo sondando a Amazônia desde os tempos coloniais. Isso fez dele um livro aplaudido tanto por nacionalistas conservadores como por militantes da esquerda, tendo sido alvo de sucessivas reedições ao longo dos anos 1960, 1970 e 1980.
Seu governo foi ambíguo: colecionou crises e patrocinou iniciativas ousadas, sendo taxado, paradoxalmente de “autoritário” e “inovador”. Quanto ás crises, estas foram basicamente duas: primeiramente, um atrito com a Assembleia Legislativa e logo em seguida um desentendimento com o Judiciário. A mesma Assembleia que em junho de 1964 tinha aplaudido – com a exceção do então deputado Bernardo Cabral – a posse do novo governador, em agosto o amaldiçoava por ter encerrado uma sessão e ordenado que tropas da polícia cercassem o prédio. O caso estampou as manchetes dos jornais nacionais quando o senador Desiré Guarani o relatou em Brasília. Após uma ameaça de intervenção federal e uma tentativa de renúncia, optou-se pelo “esquecimento” entre ambas as partes.
Em fins do mesmo ano, o juiz Oswaldo Salignac foi aposentado compulsoriamente pelo governador, gerando contenda entre os desembargadores sobre a constitucionalidade dessa medida. A solução? Reis invalidou sua ação e Salignac aposentou-se voluntariamente. O que estava por trás das duas contendas? No primeiro caso, os entraves dos deputados em relação às medidas que Reis propunha, enquanto que no segundo, a absolvição de um destacado membro da administração anterior, Jaime Araújo, pelo juiz em questão, gerou a exoneração de Salignac.
Em sua defesa, o historiador-governador alegava que procurava apenas aprofundar o ideal da “Revolução”, expurgando os elementos corruptos e subversivos do cenário político. No meio do caminho encontrou a resistência dos deputados e dos desembargadores. Antes mesmo de aplicar tais medidas, Reis já era visto pela oposição como uma má escolha por sua inexperiência política. Até então havia se envolvido apenas em cargos de menor teor partidário. Mas agora era diferente, agora ele se encontrava no “olho do furacão” – entre as ordens de um novo regime e os interesses dos políticos regionais. Jornais o comparavam a um macaco em uma sala de porcelana. Não tinha tato político nem popularidade, diziam.
Em seu livro Dois Anos de Governo afirma: “O poder não pode ser exercido com hesitações, fraquezas, medo de agir. Quando ele nos é confiado temos de despir-nos do que nos é o prazer da vida para, no peso do dever, decidir com energia e segurança”. Em outras palavras, estava apenas obedecendo a ordens. Mas talvez suas ações fossem uma resposta a esta descrença na sua habilidade política.
Em compensação, suas obras de infraestrutura refletem um impulso de modernização: a reforma no Porto de Manaus, a batalha pela instalação da Zona Franca de Manaus e a construção da Rodovia Manaus-Itacoatiara, dentre outras. No campo cultural, a promoção de concursos literários, a publicação de obras de autores locais através da volumosa coleção das “Edições do Governo do Estado”, a fundação da Universidade do Amazonas e a realização de festivais de cinema e teatro. Inclusive Glauber Rocha passou por aqui para produzir um vídeo promocional do Estado chamado Amazonas, Amazonas em 1966, quando o diretor ainda estava reunindo recursos para produzir Terra em Transe.
Por sua obra e sua atuação política, encontramos posições diferentes sobre o Arthur Cézar Ferreira Reis. Enquanto o cineasta Aurélio Michiles o aplaude por sua “renascença cultural”, Narciso Lobo, à época jornalista de um dos periódicos empastelados pelo governador, ressalta seu “falso liberalismo”. Celebrado em instituições tradicionais como a Academia Amazonense de Letras ou o Instituto Geográfico e Histórico do Amazonas, criticado nas universidades.
Considerado por mais de uma geração de pesquisadores como um pioneiro e um importante sistematizador do conhecimento sobre a Amazônia, é taxado também como um historiador “positivista”, “conservador”, “autoritário” ou “superado” como se estas categorias fossem o suficiente para defini-lo. Na maioria das vezes, como diria o antropólogo Luiz de Castro Faria, sua obra é mais alvo de reverência do que de referência, sendo mais reconhecida do que efetivamente conhecida. Entretanto, há muito que ser dito, ainda, não só sobre este historiador, mas também sobre o período em que viveu. E este é o momento mais que oportuno para isso. Então, falemos de Arthur Reis!

Hélio Dantas

Mestre em História (PPGH/UFAM) e professor de História da Rede Pública Estadual e Municipal. É autor da Dissertação de Mestrado “Colonização e Civilização na Amazônia: Escrita da História e Construção do Regional na obra de Arthur Reis (1931-1966)”.

Vinicius Alves do Amaral

Licenciado em História pela UNINORTE e Mestrando em História Social (PPGH/UFAM). É autor do artigo “O Seringal e o Seringueiro: a ‘epopeia amazônica’ em Arthur Reis”, defendido como seu Trabalho de Conclusão de Curso.

sábado, 26 de janeiro de 2013

EVOÉ ARMANDO!

Na próxima quinta feira, dia 31, será lançado no Cine Teatro Guarany (ali na Vila Ninita, anexo do Palácio Rio Negro na Av. Sete de Setembro) o curta metragem Nessa cidade todo mundo já bebeu na Bica da diretora Keila Serruya. O documentário trata sobre memórias dos fundadores da Banda Independente Confraria do Armando, um dos mais tradicionais blocos de carnaval de rua de Manaus.
O vídeo de 14 minutos é mais uma grande contribuição para preservar a memória dessa importante instituição de cultura popular. Nos anos 70, Márcio Souza dizia que a historiografia amazonense era a mais oficialista do país. Hoje, depois de tantas águas passarem pelo moinho, creio que o quadro é inteiramente novo, embora continuem resquícios do triunfalismo aqui e acolá. Hoje acredito que não é tanto o oficialismo o maior inimigo de uma história popular, mas o esquecimento. Em uma cidade em que as transformações ocorrem tão rapidamente é muito fácil a memória popular ser engolida pelo esquecimento.
No entanto, aí está a Bica zombando de todos e principalmente do esquecimento.
Por isso celebremos a festa e celebremos a vida.

quarta-feira, 28 de novembro de 2012

Medindo o Oriente II: Inverno Palestino?


Você sabe a diferença entre um cachorro doido e um cachorro brabo? O cachorro doido morde sem razão.  Assim um vizinho me explicou uma vez a diferença entre seu Doberman e um vira-lata com raiva que vivia tocando o terror na nossa rua. Seu cão tinha sido treinado para ser feroz, infelizmente, á base de muitas surras. Assim só restava ao animal duas opções: ser submisso ou ser agressivo.
A imprensa pinta o Estado de Israel como um cachorro doido. Muitos os comparam aos algozes nazistas. Mas vamos tentar compreender algumas coisas antes de prosseguirmos nossa análise. Israel foi criada por uma resolução da ONU no final dos anos 40. Foi decidido que os judeus do mundo todo agora teriam uma nação, ainda que fosse em território ocupado por outros povos como os palestinos. Tal ação originou um sentimento de hostilidade por parte dos demais países vizinhos de maioria árabe. Nos anos seguintes, o apoio dos EUA (como forma de conseguir aliados no Oriente Médio contra a URSS) apenas acirrou o conflito. 
Assim, Israel nasceu sob a égide do conflito. Nos anos 60, a situação se agrava com as guerras dos Seis Dias e do Yom Kippur. Já nos anos 80, temos a Intifada, a série de ataques palestinos contra o domínio israelense. Aos israelenses, a segurança nacional vem em primeiro lugar. Como a hostilidade da região já é antiga, há até um pouco de verdade nesse discurso, no entanto, é sabido que já faz tempo que o discurso da segurança nacional se tornou uma plataforma política. Diante desse quadro pouco otimista, em que os conflitos apenas se multiplicam, as autoridades insistem em continuar nessa via.
Por outro lado, o drama dos palestinos não é oriundo somente do imperialismo israelense, mas também da incapacidade das autoridades locais se articularem. O grupo Fatah de Yasser Arafat, responsável por levar a bandeira da libertação da Palestina para o resto do mundo, começou radical, mas quando assumiu a liderança da Autoridade Nacional Palestina (uma grande conquista, afinal até 1993 a região não tinha o direito de se auto-governar) perdeu um pouco de sua aceitação popular por conta de muitos membros envolvidos em esquemas de corrupção. O Hamas aparece então aos olhos dos palestinos cansados dos mesmos escândalos e opressão como o único grupo comprometido com a libertação da região. Daí a aceitação do Hamas ter crescido, enquanto a Autoridade Nacional Palestina parece se tornar a cada dia mais obsoleta e impopular. O problema é que o Hamas apela inadvertidamente para atentados contra o país vizinho.
Há mais de uma semana, mísseis atravessaram a fronteira israelense o que motivou uma retaliação á Palestina pelos atos do Hamas. Na tentativa de punir os culpados vidas inocentes vão se perdendo. O ódio e o sofrimento se prolongam apenas. Uma solução pacífica parece cada vez mais distante no horizonte com um governo irredutível e um grupo disposto a continuar atiçando lenha na fogueira.
Enquanto o sopro da Primavera Árabe parece sinalizar para uma transformação no Oriente Médio, a relação entre israelenses e palestinos continua quase a mesma. Ambos estão longe de serem cachorros doidos, como a mídia tenta demonstrar, uma vez que possuem motivos para serem "brabos" uns com os outros. A verdade é que julgar os dois lados desse dilema é muito fácil para nós que não conhecemos e principalmente não vivemos essa realidade. Se a lógica até agora tem sido "atacar pra se defender", mesmo com tantos apelos internacionais de diálogo, é porque no meio de tanto sofrimento e medo o "sangue-quente" parece ainda dar as cartas. Num contexto assim, os extremistas (sejam sionistas ou do Hamas) saem vencedores, para infelicidade da Humanidade.

domingo, 18 de novembro de 2012

Medindo o Oriente I: Á Espera da Primavera


O pan-arabismo, movimento político que abalou o Oriente Médio durante os anos 50 a 70, nasceu no Egito com Nasser. O fundamentalismo moderno também, com a estrutura da Irmandade Muçulmana e com o pensamento de Sayd Qtb. A Primavera Árabe começou na Tunísia, mas tornou-se mais emblemática no Egito com a queda de Mubarak que governava o país há mais de 30 anos com a benção dos EUA.
Essa curiosa coincidência é o suficiente para que muitos analistas políticos alegassem que a democracia seria um destino inevitável para o resto do Oriente Médio. Não uma democracia ocidental, como aquela que os EUA tentam empurrar goela abaixo nos países locais há décadas, mas uma democracia árabe, construída e idealizada por eles próprios.
Tenho uma certa bronca com analistas políticos justamente poque eles podem tomar uma coincidência por tendência histórica. Aliás, os historiadores também fazem a mesma coisa. Vejamos o caso do historiador Bernard Lewis, especialista em Oriente Médio e consultor da Casa Branca sobre assuntos dessa região: Analisando a história do Oriente Médio, sempre governado por impérios estrangeiros (Romano, Bizantino, Turco-Otomano, etc.), ele chega a conclusão de que o carma dos povos árabes é ser dominado por potencias de fora. A ascensão do fundamentalismo islâmico seria uma espécie de crise de abstinência - tantos anos sem ser governado por outrem, faz com que eles sonhem em se auto-governarem, mas por meio de atitudes primárias, como ordens religiosas.
É visível aonde Lewis quer chegar: vamos colonizar o Oriente Médio.
Cabos eleitorais de Mohammed Mursi.

Voltemos á Primavera Árabe. Em 2011, ela prometia ser um sopro indestrutível de renovação. No entanto, na Líbia e na Síria encontrou obstáculos poderosos. Ora, o sucesso depende da situação de cada região. Se temos uma classe militar forte na Síria e confederações de tribos ainda leais á Kaddafi na Líbia é claro que o conflito será feio.
Outra coisa: muitos enxergaram na porta aberta pelas revoltas, um passe livre para o fundamentalismo islâmico chegar ao poder. Com medo do sonho virar pesadelo, funcionários do governo e das Forças Armadas no Egito, que ajudaram na transição á democracia, começam a impor uma série de restrições ás atitudes do novo presidente eleito, Mohammed Mursi, membro da Irmandade Muçulmana. A mãe de todas as cédulas terroristas, no entanto, não está mais na "moda": o modelo atual de fundamentalismo se ampara ou no xiismo radical de Khomeini ou na Al Quaeda de Bin Laden. Será que a Irmandade Muçulmana se reinventou, tornando-se uma organização democrática e não mais uma associação terrorista?
A eleição de Mursi foi o bastante para prever um Oriente Médio infestado de governo fundamentalistas legítimos, eleitos pelo povo. Mais uma vez o argumento do Oriente Médio se espelhar no Egito foi usado. Eu honestamente não faço ideia do que acontecerá. Há alguns anos a situação era o menos otimista possível: ditaduras e teocracias era tudo que se enxergava ali. Hoje, por meio dessa ação espontânea e popular, acredito que devemos dar mais crédito ao inesperado. Talvez o futuro do Oriente Médio nos surpreenda, positivamente.

quinta-feira, 15 de novembro de 2012

Comemorar?


Em 15 de Novembro proclamou-se a República. A república que não foi. Hoje, mais que nunca, sabemos disso. Depois de maracutaias, crises e golpes chegamos á uma república embaraçada por não ser tão popular quanto tencionava ser.
O Império reunia uma espécie de valor simbólico ao redor do seu monarca. Aura que blindava o imperador e de quebra conferia unidade ao Brasil, é o que dizem. É importante lembrar que a legitimação da monarquia no Brasil foi iniciada durante o período da Regência por uma equipe de políticos e intelectuais. A unidade territorial foi mantida, mas a forma como ela foi construída (por meio da conciliação de interesses ou então imposição central) acabou por abalar os alicerces desse regime. Províncias como São Paulo ou Rio Grande do Sul abraçaram o republicanismo por conta de sua promessa de autonomia regional.

No entanto, algo não se pode negar: em relação ao Império, os republicanos contavam com menos aceitação popular. Alguns nomes já eram conhecidos e admirados pelo seu papel em eventos das décadas finais do Império, como é o caso do marechal Deodoro da Fonseca que lutou em mais de três batalhas no Paraguai. Ou seja, o novo regime precisava se legitimar como a monarquia o fez durante a Regência e aí temos a garimpagem de heróis e símbolos de ideologias vinculadas ao novo regime, como nos mostra muito bem o historiador José Murilo de Carvalho em A Formação das Almas.
Novos estudos como o de Maria Thereza Chaves Mello, A República Consentida, revisitam o silêncio do povo diante da Proclamação. Por meio da imprensa e de conferencias, líderes republicanos e positivistas conseguiram difamar nosso "Antigo Regime tropical" contribuindo para que a maioria da população não se indignasse com o fim do Império. O silêncio popular foi o silêncio do consentimento. Mas fé no novo regime também não havia. Quando a República sinaliza seu caráter aristocrático, as revoltas pipocam tendo motivos vários como pretexto, como é o caso de Canudos.

Os primeiros anos do novo regime ficaram conhecidos como República do Café com Leite, dada a importância que os estados de São Paulo e Minas (respectivamente, os maiores produtores de café e leite, dois itens que alimentavam o grosso da nossa economia) tiveram em seus arranjos políticos. Hoje nosso sistema político é outro. Depois de várias mudanças constitucionais (algumas até bisonhas), chegamos a um sistema representativo que lembra em muito o das modernas democracias liberais. Ainda assim, a corrupção, o elitismo e a apatia política perduram, claro, com novos nuances.
Por causa desse status quo, vejo muitos argumentos perigosos se desenvolverem e ganharem inúmeros adeptos: primeiro, o de que a transição de regimes não significou nada, uma vez que nada mudou; segundo, hoje estamos pior que antes, já que durante o Império não existiam tantos escândalos. O primeiro desclassifica a transformação histórico, o segundo idealiza um passado que nunca existiu. A corrupção não é uma invenção exclusiva da República, mas uma prática que já nos acompanha de longe. Na realidade, muitos pesquisadores tentam entender como a corrupção se transforma com o tempo, como esse fator estrutural dialoga com o contexto, ou seja, como ela se adapta aos novos tempos.

Quanto á negação de mudanças, tão habitual ao conservadorismo, ela tem suas raízes, nesse caso em especial, na interpretação da corrupção e do autoritarismo como um dado estrutural da nossa sociedade, quase como um órgão monolítico. Claro que o modo como se rouba hoje não representa o mesmo modo como se fazia no passado, embora os motivos para tal crime deem a impressão de que nada mudou. Há outros aspectos, que nos parecem menores á primeira vista, que devem ser levados em consideração, como a gradativa conquista de espaço da população e dos movimentos sociais na política. O reconhecimento do poder da massa e das organizações da sociedade civil fez com que a classe política tentasse cooptá-los de diversas maneiras como foi o caso do trabalhismo e do populismo. Até que ponto conseguiram ou até que ponto o povo se aproveitou disso são outros quinhentos.
Bem, então voltemos á vaca-fria: hoje é 15 de Novembro e o que temos a comemorar? Pouca coisa na verdade, mas nem por isso devemos jogar a República Velha ou todo os 120 anos do regime republicano no lixo. Antes, devemos ter essa longa trajetória em mente para saber o que ainda nos impede de termos um governo democrático e um povo compromissado.

segunda-feira, 12 de novembro de 2012

Corrupteca


Nove em cada dez pessoas acham que o maior problema do Brasil é a corrupção. O que muitos não sabem responder é como ela começou. Será a corrupção de hoje a mesma dos tempos da Colônia? Até mesmo a subvenção tem sua historicidade.
A USP, ou melhor, seu Núcleo de Pesquisa em Políticas Públicas se uniu com o jornal O Estado de São Paulo para construir um banco de dados sobre o assunto. A universidade já conta com 100 mil textos completos extraídos de mais de 4 mil periódicos científicos. E o Estadão entra no projeto om seu acervo de notícias.
A Corrupteca está sendo organizada por meio da plataforma web 3.0, onde os termos e o contexto dos textos são identificados pelo sistema através de palavras-chave.
Mais informações: USP e Estadão lançam biblioteca digital sobre a corrupção.

sábado, 3 de novembro de 2012

O âmago da cidade

Um amontoado de prédios? Uma série infindável de carros? Um barulho, ás vezes ensurdecedor, misto de buzina, motores de veículos, gritos de ambulantes?
É isso a cidade?


Assim pergunta a geógrafa Ana Fani Alessandri Carlos em seu livro A Cidade. Interessada em pesquisar como o espaço urbano é constituído, a autora questiona se podemos entender a cidade por meio desses signos. Sua conclusão é outra: a essência da cidade não está na sua superfície, mas no que se encontra abaixo da sua pele de concreto.
Uma cidade não é feita apenas de prédios, carros e barulho. Uma cidade é mais do que isso. Antes de mais nada, a cidade é humana. É construída por homens e habitada por homens. Sim, o cotidiano em uma grande cidade pode nos dar a impressão de que estamos nos mecanizando, daí sempre enfatizarmos o trânsito e as construções quando pensamos em espaço urbano.
A cidade tem sua história. Ela nem sempre é do jeito como a conhecemos. Seus habitantes a modificam constantemente. Seja material ou culturalmente. O espaço urbano é construído, para Ana Alessandri Carlos, por meio de um jogo entre o Estado, empresariado e cidadãos. Todos sabemos que o mercado imobiliário ou mesmo o comércio e a indústria operam grandes mudanças no traçado urbano. O Estado tenta racionalizar a vida na cidade e o povo... o povo tenta viver na cidade, mas viver em meio á essas imposições e regras, muitas vezes injustas, torna isso mais difícil.
Portanto, a construção da cidade é cheia de tensões. As relações sociais se materializam de forma mais evidente na geografia urbana: bairros nobres, balneários, residenciais de classe média, shoppings, centro comercial. Na cidade temos um conjunto de classes sociais morando lado a lado, por mais que se tentem separar (centro e periferia).
Na cidade também temos uma coleção de tempos e espacialidades diferentes. Cada construção carrega em si estilos diferentes, cada família também possui tradições próprias. Nem todo o perímetro urbano tem características plenamente urbanas. Em alguns casos, a periferia se une com o campo, formando os chamados arrabaldes ou as chácaras.
E além de tudo isso, uma cidade também é cheia de sentimentos e emoções. Impossível negar que somos indiferentes á vida urbana, seus benefícios e suas mazelas. Antes de tudo, vivemos em sociedade. A cidade nos proporciona algumas formas específicas para esse convívio: seja em relação ás instituições que regulam nosso comportamento, seja em relação ás nossas ações. Expressamos essa situação das mais diferentes formas: poemas, grafitti, protestos, confissões, fofocas, músicas, etc. O viver urbano também é cheio de subjetividade.
Seja como for, Ana Alessandri Carlos nos propõe que a cidade deve ser analisada para além de suas formas concretas. Forma e conteúdo não podem ser entendidas se não forem articuladas. Se o pesquisador deseja compreender a sua cidade deve tentar chegar ao seu âmago por meio da análise de seu traçado, de sua história, de suas classes e de sua cultura, sempre respeitando a diversidade e a complexidade.

quinta-feira, 25 de outubro de 2012

O que fazer?


A polêmica dos Guarani Kaiowá coincidentemente estourou uma semana depois da entrega do relatório do caso do massacre Waimiri-Atroari á Comissão da Verdade. Nele trabalharam pesquisadores de várias áreas, destacando-se o missionário Egydio Schwade que vem divulgando o acontecimento há mais de 30 anos.
Na década de 60 e 70, a construção da rodovia BR-174 (Manaus-Boa Vista) em terras dos Waimiri-Atroari. A estrada foi sendo construída aos poucos, entre conflitos armados e mortes. No entanto, o caso foi abafado. Primeiramente, eram os tempos do regime militar. Em segundo lugar, o isolamento geográfico (estamos falando do interior da Amazônia).
Passaram-se mais de quarenta anos. Veio a Constituição de 1988 prometendo uma mudança na relação do Estado nacional e a sociedade brasileira com as etnias indígenas. No entanto, os problemas continuaram. De lá pra cá, a questão indígena continuou se pautando ora em querelas como a recente sobre a Reserva Raposa do Sol, ora em tragédias como o tímido aumento da taxa de suicídios na etnia Guarani Kaiowá.

Hoje, contudo, a visibilidade é muito maior. Quando da construção da usina hidrelétrica de Balbina nos anos 80 a resistência contra o projeto era pequena, restringindo-se á lideranças indígenas, antropólogos e missionários. O caso de Belo Monte se tornou uma causa abraçada por artistas os mais variados, assim como a mudança do Código Florestal. No entanto, a pressão toda não serviu para arquivar o Código Florestal pró-latifúndio e quanto á Belo Monte, a situação continua a mesma. As escavadeiras já removem a terra amazônica.
A mídia tem acompanhado com grande afinco os julgamentos do mensalão, só agora, depois da carta enviada pelos líderes Guarani Kaiowá, que eles se tornaram o centro das atenções. Onde quero chegar: toda a visibilidade que o caso tem alcançado é sinal de que conseguiremos reverter o quadro delicado em que essa etnia vive?
Não sei se é pessimismo, mas tenho enxergado nas redes sociais uma espécie de terceirização da revolta. A indignação se torna alimento para comunidades e programas que produzem abaixo-assinados e manifestações. Não confio na militância digital. Se algum ingênuo que não conhecesse nenhum pouco da realidade brasileira visitasse a rede social tupiniquim estaria convencido de que nesse país todos são politizados e revoltados pela quantidade de mensagens de crítica social e mudança política.

Compartilhamos o sentimentos de indignação e terminamos o dia achando que nosso dever para com o país foi cumprido. Acredito que nada substitui a ação. Manifestações são importantes, mas não devem partir só de uma classe específica, que se acha mais "iluminada". Falta convencermos o resto das pessoas de que índio não é bugre (a velha imagem do selvagem ou do aproveitador indígena, difundida no imaginário de muita gente), de que a questão indígena diz respeito a todos nós, porque ela está intimamente ligada á problemas como a reforma agrária, identidade nacional, violência e sustentabilidade, dentre outros.
Os demais casos recentes demonstraram que de a opinião de artistas e intelectuais não é bastante, falta ainda o grosso da população entender porque o trágico destino que se anuncia para toda uma etnia é tão importante para todos.
Não sei muito bem como ajudar os Guarani Kaiowá, para além da "militância digital", mas posso garantir que quanto maior for o esclarecimento e quanto mais adesões a causa tiver, mais próximo estamos da resolução desse impasse.

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Recomendo o artigo da jornalista e escritora Eliane Brum, Decretem nossa extinção e nos enterrem aqui.

quinta-feira, 11 de outubro de 2012

De Parintins para o esquecimento


Bem, ali estava eu, diante de um homem encurralado, pois com sua organização destroçada Thomaz procurava contato com outros sobreviventes. Mas nada indicava o desespero que certamente vivia: seu comportamento era calmo, tranqüilo, observador. E mais: bem humorado. Naquele tempo, meus interesses eram poucos: o violão, sobreviver com frilas, descolar algum para custear a artesanía de meus cigarros, nada de muito futuro, como se vê. Sob esse ponto de vista, eu e ele tínhamos pelo menos um ponto de contato – nada de muito futuro, já se veria. 

Esse é um trecho do relato do jornalista Marcus Veras sobre a última vez que viu Thomaz Meirelles, o Thomazinho. Envolvido com movimentos de oposição ao regime, inclusive de guerrilha, Thomazinho tem o triste mérito de ser um dos poucos amazonenses na lista de desaparecidos políticos do regime militar. Veras que o abrigou em sua casa por alguns dias faz nesse artigo um depoimento muito interessante. O texto pode e deve ser lido integralmente aqui no blog do Comitê da Verdade do Amazonas: O Cabeludo e o Guerrilheiro.

Os interessados nessa figura que nasceu em Parintins, mas desapareceu no Rio de Janeiro podem também consultar esse artigo de José Ribamar Bessa Freire em Taquiprati, onde é mencionado inclusive que o corpo de Thomazinho foi "sumido" pelo ex-delegado e freelance repressivo do regime na época, Cláudio Guerra: Thomazinho. Aliás, a imagem que encabeça esse texto é parte do site do referido Guerra que tem o mesmo nome do seu livro: Memórias de um Guerra Suja.

terça-feira, 2 de outubro de 2012

O fetichismo da Internet

APRENDER A APRENDER
Celso Castro
O Bibliotecário, Giuseppe Arcimboldo.

Para escrever seus Ensaios, publicados a partir de 1580, o filósofo Michel de Montaigne utilizou quase todo o patrimônio literário greco-romano disponível: menos de trezentos livros. A familiaridade de Montaigne com esse acervo era tamanha que, comparando-se trechos citados nos Ensaios com os originais, podem-se perceber pequenas alterações que sugerem que ele conhecia vários desses livros de cor. Em 1748, Montesquieu publicou Do espírito das leis consultando sua biblioteca pessoal de 3.000 volumes. À média de um livro por semana, levaríamos 55 anos para ler esse total, que podemos tomar como o quase-limite daquilo humanamente possível de se ler ao longo de uma vida. Avançando um século e meio, nos deparamos com uma cena em que o sofisticado Jacinto de Tormes, personagem de Eça de Queirós em A cidade e as serras, fica paralisado diante de sua biblioteca de 70 mil livros. A simples tarefa de escolher um livro para se distrair antes de dormir torna-se sobre-humana perante tamanha oferta de informação.
Contemporâneo de Jacinto, o filósofo Georg Simmel chamou a atenção para essa desproporção crescente entre a cultura objetiva -  aquele acervo material e imaterial disponível no mundo - e a cultura subjetiva, entendida como a proporção desse acervo que, individualmente, podemos processar. Enquanto a primeira cresce sem parar, a capacidade de os indivíduos cultivarem a si mesmos através da interação com as coisas permanece constante. Nesse sentido, à medida em que o acervo à sua disposição aumenta, o indivíduo pode aproveitar uma parcela decrescente dessa riqueza.
Com a popularização da imprensa e, principalmente, com a enorme quantidade de informação disponível pela Internet, a fenda entre nossa capacidade de aprendizado e a quantidade de informações que podemos digerir aumentou exponencialmente, e continua a aumentar sem cessar. A desorientação daí decorrente leva facilmente a um fenômeno que chamo de "fetichismo da Internet": a falsa ideia de que a rede tem vida própria, independente. Mecanismos de busca na Internet tornam-se uma espécie de oráculo moderno: muitas vezes, acreditamos que todas as respostas estão à distância de um clique do mouse.
Não se trata de negar a enorme potencialidade desse acervo de informações à nossa disposição. O que cabe é perguntar como agir, nesse cenário em que podemos processar apenas uma fração decrescente daquilo que existe para ser apreendido. É preciso privilegiar, no processo de formação intelectual, a importância do espírito crítico e a necessidade constante de aprendizado. Aprender é um processo de alargar a percepção de nossa ignorância daquilo que não sabemos, mais do que um ato de se acumular conhecimento. O importante é "aprender a aprender" constantemente, estimulando a imaginação criadora. É esse processo que permite lançar pontes sobre a fenda crescente da cultura humana.

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CELSO CASTRO É PESQUISADOR E DIRETOR DO CPDOC DA FUNDAÇÃO GETÚLIO VARGAS.

In: REVISTA DE HISTÓRIA DA BIBLIOTECA NACIONAL. n. 03, Setembro de 2005, p. 98.

segunda-feira, 1 de outubro de 2012

Gigantes agora adormecidos


Hoje o mundo perdeu um de seus maiores historiadores.
Nem bem tinha aceitado a perda do grande Cyro Resende Filho, lá se vai Eric Hobsbawm. Se nesse canto do Atlântico a comoção se concentrou em São Paulo e Taubaté, dois centros onde a produção e atuação de Cyrão era ativa e reconhecida, a morte do historiador britânico repercutiu em todo mundo.
Hobsbawm (ou Roberval, segundo alguns amigos meus) faleceu com 95 anos, com uma contribuição incontável para a História. Sua série de livros sobre o capitalismo (de A Era das Revoluções a Era dos Extremos) são antológicos. Assim como seus ensaios.
Admirava muito Hobsbawm, principalmente pela sua erudição incrível. O homem parecia um banco de dados ambulante: sabia recitar de cabeça a Ilíada e conhecia todos os grandes e obscuros nomes do jazz norte-americano. Antes de ler seus textos tinha que me preparar para a viagem: uma hora estava em Istambul, então passamos para a Melanésia e antes do fim do parágrafo voltamos á Argentina. Poucos sabem, mas um de seus países favoritos era o Brasil. Seu amor fica mais explícito em A Era dos Extremos em algumas rápidas considerações sobre a nossa grande arte, o futebol.
Conhecimento aprofundado e poder de síntese, duas combinações poderosas que Hobsbawm possuía. Seu estilo era coerente e flexível, livresco e ao mesmo tempo dinâmico. Difícil de explicar. Só lendo mesmo.
Fonte: Angelo Rubim/ Almanaque Urupês.

Quanto á Cyrão, meu professor de História Antiga, Medieval e Econômica durante minha estada na Universidade de Taubaté (UNITAU), possuía quase as mesmas qualidades. Suas grandes obras (História Econômica  Geral, Economia Brasileira Contemporânea e Rommel, a Raposa do Deserto) revelam um estilo objetivo, coerente e dinâmico.
Polêmico, tinha uma visão de mundo bem peculiar. Suas considerações em sala de aula e fora já eram folclóricas na época. Diferente de Hobsbawm, considerado por muitos como neo-marxista, Cyro era gramsciano "na veia". Era confundido por muitos como um carrasco, mas na realidade era apenas um professor exigente. Graças a ele, dentre meus outros mestres, descobri uma concepção de História nova que hoje tomo como bandeira também: mais importante que o fato é o processo, mais importante que a "decoreba" é entender.
Do ponto de vista acadêmico, essa semana começou melancólica portanto.

sábado, 25 de agosto de 2012

Outros Agostos [série]


25 de agosto de 1961. Jânio Quadros, após sete meses de governo, renuncia ao cargo de Presidente da República. As razões desse evento até hoje são nebulosas.

A própria ascensão de Jânio Quadros, de tão repentina, é quase incompreensível para muitos. Seu governo foi polêmico, perdendo só para o governo de Jango Goulart, após sua renúncia.

Jânio nasceu no Mato Grosso do Sul, mas passou boa parte da infância na capital paulista. Lá inicou sua carreira como professor de Português e como político. Na década de 40 se tornara deputado estadual e depois prefeito de São Paulo.

Seus discursos atraíam muita gente. Para o povo, Jânio falava difícil, mas algo na sua fala sensibilizava as pessoas: a promessa de atacar a corrupção, preservar os bons costumes e a Nação.

Jânio tentava se aproximar do povo por meio de alguns truques: fazia questão de não tirar a caspa que caía sobre seus ombros, descia dos palanques para falar com o povo, andava sempre com um sanduíche de presunto no bolso, etc. Isso tudo contribuía para criar uma imagem de "alguém como nós" e ao mesmo tempo de um excêntrico.

A União Democrática Nacional (UDN) não tinha um líder carismático em seus quadros. Carlos Lacerda tinha uma oratória forte, mas não conseguia se livrar da pecha de "inimigo do pai dos pobres" e, por tabela, dos pobres.

Portanto, quando Jânio se filiou ao partido era a chance da UDN finalmente ganhar uma eleição. Na época, a eleição para presidente e vice-presidente era separada, desvinculada. Jânio passou a ser conhecido em boa parte do Brasil por seus discursos e anedotas a seu respeito, enquanto seu vice, Milton Campos, só era conhecido em Minas. O Partido Trabalhista Brasileiro (PTB) apostava no Marechal Lott como presidente e em João Goulart como vice. Lott não era tão popular, apesar de ser reconhecido como homem íntegro, enquanto Jango era popularíssimo. O resultado: Jânio foi eleito presidente e Jango vice.

A campanha de Jânio foi construída em cima do slogan: "varre, varre vassourinha/ varre, varre a bandalheira/ que o povo já tá cansado/ de sofrer dessa maneira". Seu governo, contudo, não foi marcado por uma caça aos "marajás", porque eles já estavam muito bem enraizados no poder. Procurou-se então construir um grupo de político realmente eficientes. Jânio pegou emprestado do primeiro-ministro inglês Winston Churchill o hábito de escrever pequenos e rápidos memorandos para seus funcionários - os bilhetinhos poupavam da lentidão da burocracia.

Aliás, Jânio possuía alguns ídolos que contrariavam sua posição de conservador: Gamal Nasser, presidente do Egito, e Jawarhal Nehru, presidente da Índia. Nasser tinha nacionalizado o Canal de Suez, antes propriedade da Inglaterra que dominava todo o Egito. Nehru tinha continuado com a luta de Gandhi de livrar a Índia do poder da Inglaterra e foi um dos defensores da criação de uma liga de países que não concordavam com a Guerra Fria. Eram dois líderes importantes na descolonização da Ásia, fenômeno que estava longe de acabar na década de 60.

Jânio queria fazer algo parecido com o Brasil: descolonizá-lo economicamente. Convidou Santiago Dantas e Afonso Arinos, dois juristas consagrados, para ajudá-lo. Juntos formularam a Política Externa Independente (PEI) que basicamente defendia que o Brasil não deveria se orientar pelo que o EUA ou a URSS dizia.
Afonso Arinos foi seu executor. Promoveu viagens e acordos com os países africanos e asiáticos (o vice-presidente Jango foi até enviado para a China de Mao Tse Tung para uma missão diplomática).

Nesse ponto o governo de Jânio Quadros foi revolucionário, até então nada desse porte tinha sido feito com sucesso. No entanto, algumas medidas lembravam de sua posição um tanto conservadora: como a proibição do lança-perfume (que tinha lhe feito perder um olho quando criança) nos carnavais, das rinhas de galo e do biquini. Isso demonstra como Jânio era ambíguo: por um lado, moralista, por outro, revolucionário. 

A cúpula da UDN não gostava de sua outra face. Já suspeitavam de que Quadros faria algo que os desagradassem. As primeiras discussões entre Jânio e Lacerda começaram. Lacerda tinha sido eleito governador da Guanabara (até então, o Rio de Janeiro era dividido em Distrito Federal e Estado da Guanabara), mas continuava a transmitir seja pelas ondas de rádio ou pelos comícios seus virulentos ataques á seus opositores. A discussão entre os dois políticos, no entanto, ainda era algo particular. Afonso Arinos era o conciliador, fazendo de tudo para que ambos não rachassem o partido. Mas era inútil, já se percebia que existia uma ala da UDN encantada com o presidente (os janistas) e outra á favor de Lacerda.

A situação piorou quando á 21 de agosto de 1961, Jânio condecorou com a Medalha Cruzeiro do Sul, a mais alta honraria militar, o guerrilheiro e então ministro de Cuba, Che Guevara. Como um homem que se diz de direita pode condecorar um guerrilheiro comunista com uma ordem militar?
Era o que se perguntavam os demais membros da UDN. Lacerda, como provocação, convidou o líder anti-castrista, Manoel Verona, para receber a chave do Estado da Guanabara.

Na realidade, Jânio foi procurado pelo Núncio Apostólico do Brasil que pediu que ele intercedesse por quinze padres e bispos que seriam fuzilados em Cuba. Jânio pediu que Che não os matasse, apenas os exilasse. Atendendo ao pedido do presidente brasileiro, Che foi convidado, como prova da gratidão de Quadros, para ser condecorado. Mas não adiantava mais explicar. O ato em si foi visto como um heresia pelas Forças Armadas e pelos setores mais conservadores que até então apoiavam o presidente. Lacerda já o chamava de golpista.

Quatro dias depois, Jânio entregava ao Congresso Nacional sua carta de renúncia. Dizia que "forças terríveis" obrigaram ele a fazer isso. Alegava que tentou trabalhar pelo Brasil, mas a "reação" foi mais forte.
Cláudio Lembo, que trabalhou com Jânio quando este foi novamente prefeito de São Paulo na década de 80, lembra que em momentos de pressão sempre preparava uma carta de renúncia que depois de um tempo acabava engavetada.
Outros acreditam que a carta de renúncia foi um blefe: sabendo da sua popularidade e do medo da UDN que seu vice, tido como comunista, assumisse, Jânio esperaria que o povo e o Congresso Nacional pedissem para ele ficar.

Nada disso aconteceu. O Congresso aceitou sua renúncia e a UDN e alguns militares trataram de impedir a posse de Jango. Uma junta militar com o apoio do Congresso assumiu o poder. Leonel Brizola, então governador do Rio Grande do Sul e cunhado de Jango, começou uma campanha pelo rádio e imprensa á favor da posse de Jango. Os demais partidos temiam que não houvessem mais eleições e apoiavam a posse de Jango. As duas partes chegaram a um acordo: o Ato Adicional N. 5. Basicamente quem governaria o Brasil seria um primeiro-ministro e não o presidente. O Ato Adicional N. 5 trouxe o parlamentarismo para o Brasil. Só em 1963, com um plebiscito, o parlamentarismo cairia e Jango passaria a governar o país de fato. A experiência foi curta. Em 31 de março de 1964, ele seria deposto por batalhões militares vindo de Minas Gerais.

No meio desses anos tumultuados, onde vivia-se á espera de um golpe (seja da direita como da esquerda), os setes meses de governo de Jânio Quadros foram uma experiência ambígua. E não poderiam acabar de outro jeito senão por meio de uma nebulosa carta de renúncia.