Fusca esfera de Inchwan Noor, 2013.
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terça-feira, 12 de janeiro de 2016
Pecados da Arte Contemporânea
Seja sincero: não te dá um aperto no coração ver esse fusca Wolkswagen 1966, todo lanternado, amassado como uma bola de papel?
domingo, 2 de março de 2014
Artemanhas I
![]() |
| Saul Steinberg. |
Essa eu achei genial.
Um cara fez um livro sobre 50 artistas contemporâneos. E olha que ele caprichou: páginas cheias de biografias, trechos de entrevistas, fotos de suas obras em ótima definição e capa de luxo. Acontece que nenhum deles é real. Todos foram inventados por Bruno Moreschi, o autor do livro, para concluir sua dissertação de mestrado no Instituto de Arte da Unicamp. Quer dizer, o livro é sua dissertação.
A pegadinha aqui faz parte de uma crítica aos dispositivos de consagração da arte atualmente. Moreschi não foi o primeiro: se lembram do Yuri Firmeza que fez a maior badalação na imprensa cearense sobre uma exposição de um artista japonês sensacional que não existia? (Não faz mal, se não se lembra tem um link aqui com mais informações).
Há um tempo conversando com um amigo veio aquela pergunta mais que manjada: o que é arte? Ele veio com essa definição: arte é o que se chama de arte. Parece óbvio, né? Mas experiências como essa de Moreschi e Firmeza comprovam isso. As demarcações, que antes eram ligadas ao conceito de Belo, foram estendidas indefinidamente pelas vanguardas do século XX. A subjetividade comanda, mas não há como deixar de imaginarmos que estas fronteiras frouxas entre arte e cotidiano abrem espaço para charlatanismos. Ora, muitas pessoas enxergam o termo "arte contemporânea" pejorativamente por causa disso.
Mas se tudo é arte, por que excluir o charlatanismo?
*Bem que alguém podia fazer algo parecido sobre o meio acadêmico.
** Me lembrei também de um outro episódio: quando Monteiro Lobato voltou para Taubaté já consagrado nacionalmente como escritor e editor pediram para ele fazer uma palestra na Associação Artística e Literária. O criador de Emília fez um discurso sem qualquer sentido, apenas composto de palavras pomposas tal como "defenestração" e "tuberosidades" e foi aplaudido de pé ao final de sua fala.
*Bem que alguém podia fazer algo parecido sobre o meio acadêmico.
** Me lembrei também de um outro episódio: quando Monteiro Lobato voltou para Taubaté já consagrado nacionalmente como escritor e editor pediram para ele fazer uma palestra na Associação Artística e Literária. O criador de Emília fez um discurso sem qualquer sentido, apenas composto de palavras pomposas tal como "defenestração" e "tuberosidades" e foi aplaudido de pé ao final de sua fala.
sábado, 30 de março de 2013
A escolha pelo autêntico
A
ESCOLHA PELO AUTÊNTICO
Vinicius
Alves do Amaral
Aos
poucos o ambiente se revela: uma sala. Sentado na poltrona está um rapaz. Sobre
a mesa, uma caixa. Ainda que esteja fitando a moeda em suas mãos, o alvo de
suas atenções não é ela. Para ficar mais claro, ele inicia um diálogo com a
caixa. Trata-se de uma aposta. O que está em jogo é a liberdade do que quer que
esteja dentro dessa caixa.
Esse
é o mote de Perpétuo (2012), curta de
Bruno Barrenha. A princípio o próprio título dá uma pista do conteúdo misterioso
da caixa: são chamados de perpétuos os seres que povoam o universo de Sandman,
seres que representam elementos da natureza humana como o Sonho, a Morte, o
Desejo ou o Desespero. No começo da saga criada por Neil Gaiman, Morpheus ou o
Sonho teria sido aprisionado por um mortal engenhoso. Dentro da caixa estaria o
Sonho?
Cara
ou coroa? A moeda é jogada. O rapaz perde. Agora resta cumprir com a palavra. O
perpétuo sai de sua prisão compacta e se revela uma Super-8. Eis aí nosso perpétuo: a Sétima Arte. Como ato
final do carcereiro, este aponta a câmera contra a cabeça, cerra os olhos e a
liga. A seguir, cenas dos primórdios do cinema invadem a tela.
Peço
desculpas por contar o final do curta – pecado capital para os cinéfilos – mas
creio que não posso iniciar minha análise se antes compartilhar com vocês o
roteiro engenhoso dessa produção. Em primeiro lugar, o que dizer do perpétuo
aprisionado? A Super-8 é um tipo de câmera geralmente associada ao cinema
independente, por conta de sua utilização em experimentalismos visuais. Podemos
presumir que o personagem interpretado por Camilo Bicudo seja um jovem
realizador que se pergunta se deve dominar ou ser dominado por sua arte. Ele
deixa para o acaso a tarefa de solucionar o dilema. A moeda aponta a segunda
opção e ele, fiel á sua palavra, deixa-se possuir pela câmera. Os fragmentos
cinematográficos que invadem a cabeça do rapaz são bem pontuais: anteriores ao
cinema falado em sua maioria. Essas imagens soam tanto como uma tradição
esquecida como portadoras de um sentimento quase atemporal: o encanto pelo
cinema. Nada mais revelador.
O
olhar treinado e o coração apaixonado
Bruno
Barrenha tem ambos. É entusiasmante ver alguém tão jovem e ainda assim tão
consciente de suas escolhas. Antes de tudo, Bruno é um cinéfilo. Pertence,
portanto, ao mesmo seleto clube de Scorcese e Reichenbach.
Cauteloso,
inicia seus passos sempre se amparando nos grandes (Scorcese, Leone, Peckinpah).
A admiração é visível aqui e acolá. Claro, sempre há o risco de perder um pouco
da originalidade ao se reverenciar alguém, mas este é um perigo que todo
realizador corre – podemos até considerar como um risco da profissão, por que
não?
Seus
primeiros vídeos são experimentações. Alguns mais ingênuos – como O Bom, o Mau
e o Sujo, onde a referência é escancarada – , mas com o tempo vão se tornando
mais complexos – como O Poeta da
Violência. Nestes, mais recentes,
encontramos um realizador preocupado com cada quadro, com cada ângulo. O
amadurecimento é mais que perceptível.
E
desde já seu tema esboça-se: o vazio. O poeta dilacerado e o misterioso homem
sedento por um abraço (protagonista de Abraços
na Escuridão) parecem se movimenta no mesmo meio: uma existência sem
significados.
Entre
tapas e beijos
No
meio dos experimentos, uma carta de amor. Sim, podemos enxergar Perpétuo como uma declaração de amor á
Sétima Arte. A influência dos quadrinhos é grande, mas não consegue superar o
poder da telona. Apaixonado, Barrenha parece muito menos com o misterioso
protagonista (ou seria coadjuvante?) de seu curta. Acredito que ele não
titubearia em escolher o cinema como modo de vida.
No
entanto, o encanto do cinema parece muito bonito para nós espectadores, mas
pode ser fatal. Talvez seja comparável ao transe das mariposas diante das
lâmpadas. Algumas podem morrer se aproximando demais da sua luz. Morrer pelo
cinema parece-me uma atitude um tanto radical demais, mas desgastar-se por essa
arte é fato conhecido.
Afinal,
fazer cinema no Brasil não é fácil. Ainda mais se você vive no interior de São
Paulo. Existe toda uma carga de trabalho a ser seguida. E para se chegar ao
resultado esperado na maioria das vezes gasta-se muito tempo. Vicissitudes como
essas, próprias deste campo – e acentuadas pelo cinema comercial, principalmente
no que tange á produção e distribuição - podem explicar a feição séria do rapaz
ao encarar a decisão apresentada pela moeda. Ai está um ato poético, mas também
lúgubre.
Morar
em Rio Claro, contudo, tem suas vantagens. Uma delas é a ajuda do grupo
Kino-Olho, de renome internacional, que auxilia jovens diretores amadores a
entender melhor a dinâmica do processo criativo e as técnicas de produção. Abraços na Escuridão é o fruto dessa
parceria entre Barrenha e o grupo. O amadorismo continua presente nesta obra,
mas o domínio das técnicas narrativas parece mais firme também. Em se tratando
de parcerias há que se considerar também os amigos Camilo Bicudo e Thierry
Vasquez, seja em colaborações na frente ou atrás das telas.
Crise?
Mas que crise?
Ora,
nunca fomos tão criativos! Falo aqui de iniciativas como as de Bruno Barrenha
que chegam até nós graças ás novas mídias que, dizem, ameaçam o cinema. O
cinema nunca esteve ameaçado, Hollywood sim. A indústria cinematográfica tenta
cooptar e imitar traços desses realizadores na tentativa de sobreviver. O que
falta á ela, contudo, é difícil de se comprar: paixão.
O
artista completo conjuga paixão e técnica. Só assim sua expressão parece
autêntica. Por isso o cinema independente geralmente é visto como representante
legítimo da Sétima Arte atualmente. Barrenha, que assume sua filiação a este
campo por meio da Super-8, e toda uma geração de artistas que estão surgindo
agora, em boa parte por conta dessa cultura do compartilhamento, fizeram essa
escolha pelo autêntico. E se depender deles continuaremos como mariposas diante
da “telona”: hipnotizados.
Manaus,
19 de Março de 2013.
__________________
O crédito de todas as fotos presentes nesse artigo pertencem ao site Lumi7.
segunda-feira, 15 de outubro de 2012
Velozes e melancólicos
Ah, o existencialismo! Uma das filosofias de vida mais populares deste século (os hipsters, classificariam como "mainstream"). Eis que vejo Drive (2011) e percebo, além do caldeirão de referência ao cinema de ação, esse nosso colega.
O motorista sem nome (Ryan Gosling) encontra o sentido de sua vida, violenta e perigosa, na casa ao lado. Uma família a espera de um novo pai e um novo marido. E ele a procura de uma mulher e um filho. No entanto, as coisas nem sempre são perfeitas. No meio do caminho está o marido que saiu da cadeia, o roubo mal sucedido e dois mafiosos truculentos. O motorista sem nome então tem de usar seu sangue frio e sua violência para proteger quem ama (sim, clichê, mas bom).
O roteiro é pobre, mas a narrativa e os personagens, meu amigo... Drive usa violência explícita, mas de forma "moderada". Os diálogos são poucos, as interpretações são ricas. E é assim, cultivando paradoxos, que o filme constrói sua identidade.
E que identidade seria essa? Drive está a meio caminho entre o thriller e o sonho. A estética do filme, sempre privilegiando o brilho falso das luzes da cidade e a noite, e o figurino dos atores remete a um universo um tanto retrô (a década de 80 pra ser mais preciso). Ao mesmo tempo, esse é o presente: o layout dos carros deixa isso bem claro. É essa união de tempos que dá a sensação de estarmos pisando em um sonho, o casamento de duas eras distintas.
Ah, voltando ao existencialismo. Talvez essa incerteza temporal tenha sido planejada. Afinal, como dissemos antes, nosso herói é um aventureiro existencialista. Em seu mundo, tudo parecia vazio, menos os momentos que passou com Irene (Carey Mulligan) e seu filho. Daí a sua frieza e calculismo, a ausência de palavras e de afetos. A adrenalina e o dinheiro perdem o valor quando ele encontra uma família.
Aliás, esse tipo de vida não é privilégio do personagem principal. O mafioso cruel (Albert Brooks) não é muito diferente do protagonista. Leva a mesma vida melancólica do herói e também não se esconde atrás da adrenalina. O mecânico manco (Brian Cranyston) é um homem ganancioso, mas simpático. Vacila aqui e ali. Sua relação com o rapaz é sempre pautada pelos negócios, o espaço para a afetividade é relativamente pequeno.
No universo de Drive tudo parece ser indiferente e distante, por mais radical e violento que seja. O fato de não apelar, como os blockbusters fazem, faz com que se tenha dois tipos de reações possíveis diante do filme: ou se odeia ou se ama. No meu caso, foi a segunda opção. Ainda assim não acho que o filme seja tudo isso que estejam falando. Há críticos que dizem que esse filme é um divisor de águas. Penso que também não é assim.
Nicolas Winding Refn constrói um filme-tributo a todo um gênero, assim como faz Tarantino. A diferença é que o resultado aqui é menos divertido e menos explícito. As referências tem de ser garimpadas.
A trilha sonora? Música eletrônica. Em alguns momentos tenho a sensação de que é muito retro para o estilo dos filmes de ação, mas essa é a intenção. Os mafiosos parecem meio anacrônicos, assim como nosso protagonista. O mundo marginal do filme é tem um charme, uma aura cult.
Interessante o modo como o diretor privilegia a face de Ryan Gosling. Lembra os longos close-ups dos bang bangs de Sérgio Leone. É um cineasta sem medo de perder alguns minutos com uma mesma cena, não se deixa levar pelo frenesi, por isso a violência aqui parece muito orquestrada. Novamente outro elemento que me lembra Leone.
Falando no protagonista, ali está o clichê em pessoa. O cara durão de poucas palavras, que sabe brigar, tem sempre um plano. Só o que muda é a jaqueta. E se ficou alguma dúvida de que ele é um cara durão, ali está o palitinho na boca pra comprovar. Se o símbolo de Stallone já foi uma cobra, esse aqui utiliza um escorpião. Outro animal peçonhento e perigoso. Se ele parece gente boa perto de Irene, basta que um antigo cliente venha lhe perturbar com um novo serviço numa má hora que ele mostra suas garras. E quando é preciso agir, solta todo seu veneno.
Ele é desconstruído, aos poucos. Continua enigmático, mas sabemos que é violento, sensato e carente. Tão carente que o nível de amor para com Irene é quase platônico. Lembra e muito os cavaleiros errantes retratados pelos trovadores. Ao mesmo tempo em que é um bandido é um herói. É cruel e violento, mas também é romântico e amável. É a brincadeira com os lugares comuns. Isso não é nenhuma novidade, como falamos isso já vem sendo feito por inúmeros diretores.
A grande originalidade do filme está em fazer isso com uma refinação própria. Ao invés de seguir a escola de Tarantino ou de David Lynch (pra pegar o outro extremo do cinema), Refn faz seu filme de uma maneira diferente, apostando nesse olhar melancólico e anacrônico. Isso é inapropriado para um filme de ação?
Penso que a melancolia, assim como o humor, estão presentes nesse gênero. O que os novos cineastas tem feito é salientar essas características menores desses filmes em suas produções. Em Tarantino e Robert Rodriguez temos um filme sem vergonha de se assumir tosco. Em Refn, temos um filme que assume sua tendência existencialista. A marginalidade aqui parece fatalista, amarga. Substitua a tecno music pelo jazz, o motorista pelo escritor e então percebemos que estamos mais perto de Truffaut e Goddard do que Leone e Fuller. Por escolher ficar entre a Nouvelle Vague e o cinema de ação, Drive revela ser um filme que vale a pena ser assistido.
terça-feira, 11 de setembro de 2012
Luto
CANTIGA DO AMANHECER
Luiz Bacellar
O ovo do sol
canta nas landes
uma cantiga de gemas
com as claras nuvens
batidas de ventos.
Ovo da nhambu
a casca azul do céu
se abre em passarinhos
que já chilreiam
no choco desse ovo louro.
Pelo pasto verde claro
vai aquele touro novo
em seu cortejo
de borboletas
retouçando o dia
que começou quando o vôo
do ovo se derramou.
Luiz Bacellar
O ovo do sol
canta nas landes
uma cantiga de gemas
com as claras nuvens
batidas de ventos.
Ovo da nhambu
a casca azul do céu
se abre em passarinhos
que já chilreiam
no choco desse ovo louro.
Pelo pasto verde claro
vai aquele touro novo
em seu cortejo
de borboletas
retouçando o dia
que começou quando o vôo
do ovo se derramou.
No dia 4 de setembro, Luiz Bacellar tinha feito 84 anos de vida dedicada á poesia. No dia 8 de setembro, Luiz Bacellar se tornou a própria poesia.
quinta-feira, 19 de julho de 2012
Saxofonista de shopping
Chegou. Era hora do almoço. Esse era o combinado. Deixou a bolsa no canto da mesa. Colocou o paletó. Agora a boina. Todos brancos, contrastando com sua pele. A gravata vem por último. Branca também.
Pega o instrumento. Lustra um pouco. Toca algumas notas, só para afinar o sax. Pede á atendente do balcão ali perto que cuide de sua bolsa.
Começa a tocar. Pela introdução é difícil dizer de que música se trata. O certo é que é chorinho. Lentamente entra na praça de alimentação. Agora sim a canção se desenrola em algo familiar. Os mais velhos (com bons aparelhos auditivos) saberão: Carinhoso.
O som vai se deformando á medida que caminha. Não é culpa sua, mas dos garfos, dos risos altos e dos toques de celular. Todos se empanturrando de comida. Ninguém sequer olha para o saxofonista passando pela mesa. O mais estranho é que ele está sorrindo. Não é falsidade, mas uma forma estranha de felicidade mesmo. Um profissional calejado como ele sabe que essa é a prova de que é um artista de verdade. Pois essa é a sina do bom artista: ser invisível até se tornar ausente.
(10-06-2012)
(10-06-2012)
sexta-feira, 8 de junho de 2012
Dois movimentos, duas ações
Os homens são em um mesmo tempo submetidos a dois movimentos: o terror que intimida, e a atração, que comanda o respeito fascinado. O interdito e a transgressão respondem a esses dois movimentos contraditórios: o interdito intimida, mas a fascinação introduz a transgressão.
Mário Vargas Llosa, escritor peruano.
quarta-feira, 6 de junho de 2012
A Grande Arte
-Publicado no Recanto das Letras em 11 de Junho de 2011.
Outro dia me lembrei daquela polêmica do blog da Maria Bethânia ( a cantora baiana tinha ganhado quase dois milhões para manter o seu blog pelo programa de incentivo á cultura) e comecei a pensar nessa relação conflituosa entre arte e dinheiro.
Inegável que o dinheiro tem um papel fundamental na arte: seja a sua presença ou a falta dela. Peter Gay, historiador alemão, ao se debruçar sobre a arte moderna acredita que a condição de marginal é um das principais características do artista moderno - ele vivia sempre ás custas de um mecenas generoso ou tentando se manter com as próprias pernas em outros serviços menos nobres.
Segundo o mesmo historiador, hoje a situação se inverteu: o artista é valorizado. A maior vitória do artista moderno, segundo ele, é a conquista de um campo próprio, a arte agora possui sua autonomia ao invés de se vincular á política, religião, etc. Mas que tipo de artista é valorizado?
Acostumamos com duas expressões norte-americanas hoje quando se fala de arte, cultura, entretenimento, etc: mainstream e underground. Mainstream é aquela produção que conta com o apoio da mídia. Ela tem mais recursos e é voltada para mais pessoas, mas exatamente por isso ela perde em criatividade (é o que Adorno chama de indústria cultural). O Underground é o contrário: é mais limitado, tem menos qualidade técnica, mas mais criatividade.
Meu amigo Diego Gatto em um post de seu blog Fagocitando São Paulo discutiu essas duas faces da mesma moeda e destacou muito bem a complexa relação que uma nutre pela outra: não é simples oposição, afinal, o mainstream queria ser criativo como o underground, enquanto o underground queria tero alcance e os recursos do mainstream.
Dizer que ambas são imiscíveis, feito água e óleo, é um pouco perigoso. Acho interessante como de um tempo para cá a indústria cultural tem tentado digerir o underground adotando inclusive sua cara e seus temas (o que podemos encontrar principalmente no cinema com a avalanche de histórias sobre família disfuncionais ou fracassados). Há também obras que se tornam undergroundo acidentalmente, são o caso, por exemplo, de muitos filmes e livros tidos hoje como "cult".
O cineasta Francis Ford Coppola há um tempo declarou na imprensa que acredita que o artista não deveria ser remunerado pelo seu trabalho. Não estava com isso tentando defender um projeto de transformação dos ateliês e estúdios em senzalas, mas criticando justamente a política de financiamento das artes. O patrocinador possui algum direito sobre a obra. O artista, na visão de Coppola e de muitos, fica refém do patrocinador e assim a sensibilidade artística e o brilho autoral vai para o beleléu.
O que Coppola defende é uma utopia. O artista nunca foi tido como um sábio, ele sempre foi refém dos poderosos, e parece que a situação não vai mudar. Mas mesmo assim é interessante como a política de incentivo cultural de muitos países tenta sempre passar uma imagem de que ela amparará todos os artistas e, no entanto, sempre privilegia uns e esquecem outros.
Esses "outros" tem que encetar uma verdadeira luta para divulgar sua obra, para despertar a sensibilidade do público, para ter reconhecimento. Uma luta na qual ele dá muito de seu sangue, suor e até lágrimas. O escritor Antônio Carlos Villaça se referia á uma Grande Arte como uma instância no mundo cultural onde residia o brilhantismo e a sensibilidade. Segundo ele, a Grande Arte exige muita força e dedicação de seus sacerdotes. Talvez a maior vingança desses artistas anônimos, que vivem á margem do mainstream, seja justamente essa: no final das contas, eles são os sacerdotes da Grande Arte.
quinta-feira, 12 de abril de 2012
O Dilema de narrar
Tudo hoje é narrativa. O autor que se põe a narrar no estilo, digamos, padrão, confronta séculos de histórias bem contadas. Por isso precisa estar atento para não desaguar nos clichês e lugares comuns da produção literária. A história narrada, arrisco, deve ter a cara do hoje, os conflitos de hoje, como um tapa, de luvas ou não, na face oculta da vida contemporânea.
Eduardo Sabino, escritor, em Sobre Histórias e Abismos.
quinta-feira, 9 de fevereiro de 2012
"Aula de hoje: Obladi Oblada. Peguem seu vinil e ouçam a faixa 10, classe..."
Se você está cansado de ser apenas um beatlemaníaco seus problemas acabaram: o Departamento de Letras da PUC-RJ irá abrir inscrições para um curso de extensão em Beatles. Infelizmente nós não somos pioneiros em Beatlogia: a Universidade Hope de Liverpool foi a primeira a formar uma mestranda na famosa banda inglesa. A beatlóloga se chama Mary-Lu Zahalan Kennedy e veio do Canadá para a terra do quarteto justamente por sua paixão pela banda.
Se acha que estou brincando é só conferir: o link para a notícia está aqui.
Não pude deixar de lembrar dessa gag das Olívias:
Bem, enquanto não temos um bacharelado em João Bosco ou Djavan, você pode aproveitar o curso sobre os Beatles. Deixando as brincadeiras de lado, os Beatles realmente são um divisor de águas na música internacional. Eles influenciaram não só a música, como o comportamento de uma geração. Tiveram no início um apelo mais juvenil, depois amadureceram musical e politicamente falando e até tiveram seu momento psicodélico. Seja como for, em todas essas fases sempre fizeram música de qualidade, unindo letra e melodia perfeitamente.
A ideia de ministrar um curso sobre os garotos de Liverpool, portanto, tem um bom respaldo. Eduardo Brocchi, professor do Departamento de Letras da PUC-RJ, se entusiasmou com a iniciativa da canadense Mary-Lu Kennedy e colocou as mãos na massa. Depois de três anos, finalmente conseguiu. O valor para se inscrever em "Beatles: História, Arte e Legado"? Uma bagatela de R$ 1860. O próprio Brocchi achou o preço salgado demais. Mas foi esse o meio-termo a que chegaram os professores e a universidade. Fazer o quê?...
Só sei de uma coisa, de abril a junho, os inscritos terão uma "hard day night" bem interessante.
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terça-feira, 7 de fevereiro de 2012
Homens e muros (parte III)
![]() |
| Foto: Raphael Alves, A Crítica. |
Em 1954, debaixo de um mulateiro na Praça da Polícia nascia um movimento literário que prometia balançar a cidade de Manaus. Em pouco tempo o pequeno grupo de escritores, pintores e jornalistas ali reunidos teriam conquistado seu espaço na imprensa e na cultura amazonense com contribuições no campo da literatura, da pintura, escultura e do pensamento social. Era o Clube da Madrugada.
Bem, estávamos de arte urbana, grafitti e pichações. Qual a ligação entre o Clube da Madrugada e a arte urbana. Simples. A ligação se chama Poesia de Muro. Foi um das experimentações dos madrugeiros, tendo como seu maior entusiasta o poeta e jornalista Jorge Tufic. O grupo de artistas e pensadores, como falamos, estava interessado em criar uma linguagem nova, amazônica, mas ao mesmo tempo se alimentava de todos os movimentos artísticos do momento. Um deles era o concretismo de Décio Pignatari e dos irmãos Augusto e Haroldo de Campos que pregava o uso visual do poema e a manipulação lúdica da palavra.
![]() |
| Pós-Tudo, Augusto de Campos, 1984. |
Influenciados pelo concretismo alguns poetas amazonenses decidiram fazer uma arte que alcançasse mais as pessoas. Era o ano de 1965 e Aluísio Sampaio, segundo Tufic, foi quem deu a ideia. Tiraram seus poemas das páginas dos jornais e colocaram nos muros. Falando assim não parece tão ousado a empreitada dos madrugeiros: simplesmente mudaram o veículo de suas obras. Tufic, dentre outros, perceberam que não era bem assim: o muro é uma plataforma diferente do papel e por isso demanda técnicas e conteúdo diferentes.
Em ensaio sobre as diretrizes da Poesia de Muro, o poeta nascido no Acre, mas naturalizado amazonense nos aponta algumas características básicas dessa vertente: o anonimato, a construção visual do poema e o engajamento estético e político. Ora, são caracteristicas que encontramos na moderna arte urbana também. O anonimato hoje, com a valorização do grafitti e das intervenções artísticas, não é tão forte como era no século passado, mas o engajamento estético e político ainda se faz muito presente.
"A poesia de muro se funda numa outra 'realidade' para não dizermos num outro estado de espírito do mundo contemporâneo. Funda-se na desmitificação do fenômeno cultural", nos afirma Tufic, lembrando que o poeta é "um homem que tem fome como qualquer outro homem". Por isso o poeta de muro se vale do anonimato. Uma vez no muro o verso é livre, é público, é de todos. É apenas um verso que pode ter sido escrito por qualquer um.
O poeta enxerga nessa tática uma espécie de resposta ao mundo da publicidade que se apropria dos espaços da cidade para propagar consumismo. Ora, porque não divulgar poesia então? Ou política? Como tudo que produziram, os membros do Clube da Madrugada dedicados á poesia de muro também se dedicaram á explorar em suas criações temas regionais. Infelizmente, a Poesia do Muro não resistiu á modernização da cidade após a Zona Franca e os versos foram engolidos por novas mãos de tinta. Como mostramos na segunda parte desse nosso artigo, existem hoje mensagens e estilos interessantes de arte urbana pelas ruas de Manaus, principalmente em se tratando de grafitti, mas aposto que estes jovens artistas nem desconfiam que a capital baré foi pioneira no reconhecimento da arte urbana.
O Movimento Madrugada continuou, mas a Poesia de Muro definhou. A nova cidade nascida com a Zona Franca ajudou um pouco. Uma pena que não podemos ter acesso ao que foi escrito nos muros da Manaus dos anos 50 e 60, mas podemos encontrar felizmente no ensaio de Tufic, com o título Por uma Poética do Muro que pode ser encontrado no seu livro Clube da Madrugada: 30 anos (1984), alguns exemplos. Dentre eles destaco o poema abaixo que fechará nosso artigo.
Sou contra a
paz sem pão
Sou contra a
rima em ão
se ela não brota
do coração
Sou contra a
fala que não
venha do
lodo.
Sou contra a
parte que não
lembre o
todo.
Sou contra o
bafo dos eruditos
(de nada ser-
vem nestes
conflitos).
Sou contra o
poema que
não seja
muro,
Sou contra a
fala que
morre no
escuro.
![]() |
| Jorge Tufic. Foto: Mauri Marques. |
O poeta enxerga nessa tática uma espécie de resposta ao mundo da publicidade que se apropria dos espaços da cidade para propagar consumismo. Ora, porque não divulgar poesia então? Ou política? Como tudo que produziram, os membros do Clube da Madrugada dedicados á poesia de muro também se dedicaram á explorar em suas criações temas regionais. Infelizmente, a Poesia do Muro não resistiu á modernização da cidade após a Zona Franca e os versos foram engolidos por novas mãos de tinta. Como mostramos na segunda parte desse nosso artigo, existem hoje mensagens e estilos interessantes de arte urbana pelas ruas de Manaus, principalmente em se tratando de grafitti, mas aposto que estes jovens artistas nem desconfiam que a capital baré foi pioneira no reconhecimento da arte urbana.
![]() |
| Poesias de Paulo Leminski pichadas em muros de Curitiba. |
O Movimento Madrugada continuou, mas a Poesia de Muro definhou. A nova cidade nascida com a Zona Franca ajudou um pouco. Uma pena que não podemos ter acesso ao que foi escrito nos muros da Manaus dos anos 50 e 60, mas podemos encontrar felizmente no ensaio de Tufic, com o título Por uma Poética do Muro que pode ser encontrado no seu livro Clube da Madrugada: 30 anos (1984), alguns exemplos. Dentre eles destaco o poema abaixo que fechará nosso artigo.
Sou contra a
paz sem pão
Sou contra a
rima em ão
se ela não brota
do coração
Sou contra a
fala que não
venha do
lodo.
Sou contra a
parte que não
lembre o
todo.
Sou contra o
bafo dos eruditos
(de nada ser-
vem nestes
conflitos).
Sou contra o
poema que
não seja
muro,
Sou contra a
fala que
morre no
escuro.
segunda-feira, 16 de janeiro de 2012
segunda-feira, 12 de dezembro de 2011
Homens e muros (parte II)
Dando um passeio por Manaus é meio que inevitável não perceber o que está escrito ou desenhado em seus muros. Se limitando na área, digamos assim, central (Adrianópolis, Centro Histórico, Coroado, Praça 14) encontraremos grafittis e pichações, segundo a classificação que abordamos antes, convivendo junto.
A verdadeira febre ultimamente tem sido a frase "ÉORAP" e suas variações (EORAP...3R, É EORAP..., etc). Como uma epidemia, estas palavras parecem ter infectado cada muro da cidade. Nem o Encontro das Águas escapa, numa montagem feita no Facebook. O que significa? Uma brincadeira cujo significado só meia dúzia de gatos pingados sabe? Pode ser. Como dissemos, o anonimato e a possibilidade de ter muitos significados é uma característica dessa prática urbana, o que produz algumas frases obscuras como essa.
Em um muro na Rua Major Gabriel, antes de se chegar ao conjunto de casinhas pré-moldadas do Igarapé de Manaus (acho que uma quadra antes) podemos ler, entre as rachaduras do reboco: "Só peixe morto que nada com a correnteza". Uma mensagem interessante de inconformismo.
Na Avenida Paraíba, na altura do ponto de ônibus em frente á Escola Ida Nelson, atrás da parada, uma imagem da logomarca da TV Globo acompanhados da frase: "Cuidado! Veículo de Alienação em Massa!" Indo na direção do hospital Check Up encontraremos um desenho de um homem carrancudo dizendo "Manaus Reallity Show!" Este último é assinado por Buiú e Zé, uma dupla que já assinou outros trabalhos pela cidade, principalmente no bairro de Adrianópolis.
Há também os mais bairristas: num muro branco na Rua Leonardo Malcher, atravessando a Rua Japurá, podemos ler "Sou Bairo 14!" Desculpando a falta do segundo "r", até que é uma declaração válida de orgulho por pertencer á essa comunidade. Será que foi feita na época do carnaval, quando as rivalidades das Escolas de Samba afloram? Não se sabe.
Ainda na Leonardo Malcher, mas próxima da Rua Tapajós e da escola Lato Sensu, em um muro sem graça, há um desenho de um rapaz com uma rosa saindo de um de seus dedos e uma estrela de David do outro. Ao lado uma mensagem escrita: "Vamos Amar Mais" (se não me engano).
Pena que não carrego comigo sempre uma câmera fotográfica para registrar estes desenhos para vocês, mas espero que tenha dado uma boa mostra do que se esconde pelos muros de Manaus, no meio de declarações de amor, nomes de grupos ou gangues e até mensagens religiosas. O que eu apenas gostaria de salientar aqui, antes de terminar esse trecho, é que os muros de Manaus tem uma tradição de experimentalismo, mais antiga do que se pode imaginar. Basta dizer que o Clube da Madrugada, movimento cultural que surgiu nos anos 50 em Manaus, teve um papel muito importante nisso. No próximo tópico falaremos mais sobre isso.
sábado, 3 de dezembro de 2011
Homens e muros (Parte I)
Os versos de Anibal Beça nos serviram como uma bela introdução para o tema que pretendemos abordar hoje: os muros de Manaus. Melhor, o uso artístico dos muros de Manaus.
Na realidade, faremos aqui uma viagem: do presente ao passado, do passado ao presente. Confrontaremos alguns dizeres inscritos nestas telas em branco ao ar livre. Mas antes precisamos iluminar alguns pontos: primeiro, por que o muro? Por que as pessoas gostam tanto de soltar a imaginação nos muros?
Ora, para registrar algo de seu cotidiano, para passar adiante alguma gracinha ou uma mensagem engajada. São várias as respostas. O lugar escolhido é o muro porque ele é uma das tantas dimensões de nossa vida pública. Nós passamos por eles todos os dias. É inevitável; alguma hora você vai prestar mais atenção nele. É o cantinho perfeito pra quem precisa de visibilidade, afinal, não é a toa que muitos cartazes e outdoors lhe enfeitam.
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| A botinha preta, marca de Alex Vallauri. |
Não falaremos sobre o uso comercial do muro, mas sobre o uso artístico. Mais uma pergunta se impõe: desenhar/escrever em um muro é arte ou poluição visual? Quando a depredação de um espaço público se torna arte? Bem, as fronteiras não estão tão bem demarcadas assim. Há aqueles que acreditam que há um lado artístico nessa prática urbana e que há um lado criminoso também. Criou- se a divisão entre grafitti e pichação. Enquanto a pichação é mais tosca e agressiva, o grafitti é mais elaborado, esteticamente, e consciente de que pode passar uma mensagem poética ou uma denúncia social. Contudo, há aqueles que colocam tudo no mesmo saco.
Essa discussão se iniciou no final dos anos 60. Maio de 1968 foi muito importante nisso porque os muros foram utilizados pelos entusiasmados jovens franceses para denunciarem o conservadorismo em que viviam. "É proibido proibir", "Seja realista: peça o impossível!", esses e outros tantos dizeres estampavam as paredes de Paris, enquanto nas ruas do Rio de Janeiro podia-se ler "Abaixo a Ditadura" ao lado de "Celacantos provocam maremotos".
Você deve estar procurando no Google agora o que quer dizer celacanto, mas vou logo adiantando para você que esse peixe pré-histórico nada tem a ver com os anos de chumbo da ditadura militar. Era apenas uma brincadeira, como tantas que vemos por aí. O fato é que teve gente que até chegava a fazer toda uma interpretação simbólica da frase: "celacantos" seriam os políticos caquéticos e os "maremotos" as crises econômicas. Se era isso, ninguém sabe. Essa é uma das características dessa prática urbana: ela é anônima, na maioria das vezes, e de livre interpretação.
Mas, enfim, estávamos falando da importância de Maio de 1968 para a valorização do grafitti. A verdade é que o grafitti foi beneficiado também por outro fato histórico: desde o começo do século XX, com as infinitas vanguardas artísticas, passou a se questionar o que se entendia por arte, tornando esse conceito muito mais flexível. Até então só uma escultura que seguisse os padrões estéticos gregos era considerada arte. Na virada do século XIX vários artistas começaram a questionar isso e a propor novas formas de arte.
Os sonhos podiam se transformar em arte, segundo os surrealistas, e obetos industrializados também, de acordo com os papas da arte pop. Então, por que não o grafitti? Os olhares passaram a se voltar para os muros das cidades.
No final dos anos 70, em Nova York, o pintor Basquiat deixou em muitos muros pela cidade alguns desenhos seus. Dizia que preferia expor suas obras nas ruas que nas galerias, embora nunca tenha deixado de pintar telas. Nós também tivemos nosso Basquiat: o desenhista e gráfico italiano, mas radicado brasileiro Alex Vallauri que pintou por toda a cidade de São Paulo, entre 1980 e 1990, uma botinha preta de couro e suas peripécias. Não é a toa que o dia do grafitti é comemorado em São Paulo no dia de seu falecimento: 27 de março (1989).
Enfim, por causa de todos esses fatores, o grafitti hoje é reconhecido como uma arte urbana, democrática e engajada. Se resta alguma dúvida, o prestígio que grafiteiros conhecidos dispõem hoje pode corroborar isso: Os Gêmeos (Gustavo e Otávio Pandolfo) já expuseram seus trabalhos em galerias de San Francisco e Nova York e um documentário sobre o anônimo grafiteiro britânico Banksy até já ganhou o Oscar.
Os sonhos podiam se transformar em arte, segundo os surrealistas, e obetos industrializados também, de acordo com os papas da arte pop. Então, por que não o grafitti? Os olhares passaram a se voltar para os muros das cidades.
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| Basquiat |
Enfim, por causa de todos esses fatores, o grafitti hoje é reconhecido como uma arte urbana, democrática e engajada. Se resta alguma dúvida, o prestígio que grafiteiros conhecidos dispõem hoje pode corroborar isso: Os Gêmeos (Gustavo e Otávio Pandolfo) já expuseram seus trabalhos em galerias de San Francisco e Nova York e um documentário sobre o anônimo grafiteiro britânico Banksy até já ganhou o Oscar.
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| Banksy |
quarta-feira, 23 de novembro de 2011
Homens e muros (Introdução)
O MURO
Aníbal Beça
(1946-2009)
Para Margarete Vernieri
o muro está adormecido
Apenas o verde limo vive.
O muro vegeta sombras
Cinzentas sombras de cinza e carvão.
o muro está quase caindo
como pétala de rosa
quando murcha
quase morta
temerosa.
Mas
o muro ainda vive,
ás vezes um castelo range
com o rachado do muro
(e os musgos cansam por abafar).
o muro está adormecido
Apenas o verde limo vive.
E na sua inércia
Confundiram-se com um cemitério,
um frio cemitério de sombras.
Mas
o muro vive
o muro tem olhos,
suas lágrimas
fecundam trepadeiras
que trepam no tempo
fluindo com a superfície do muro.
O muro cresceu
e germinou no silêncio.
Embora a sombra da memória
persista em criar
elementos que empatam
o crescimento do muro.
Penso
que o muro cansado cansou-se do verde.
Agora
mais que em tempo
o muro precisa de uma cor,
cor viva
que corra como o vermelho do sangue
uma cor com sabor alegre e livre
como a cor da papoula.
Para que o muro não caia
Para que o muro não morra.
Urge que se mudem as cores
porque o muro
fartou-se do verde.
Publicado em O Jornal de 28 de Maio de 1967.
Aníbal Beça
(1946-2009)
Para Margarete Vernieri
o muro está adormecido
Apenas o verde limo vive.
O muro vegeta sombras
Cinzentas sombras de cinza e carvão.
o muro está quase caindo
como pétala de rosa
quando murcha
quase morta
temerosa.
Mas
o muro ainda vive,
ás vezes um castelo range
com o rachado do muro
(e os musgos cansam por abafar).
o muro está adormecido
Apenas o verde limo vive.
E na sua inércia
Confundiram-se com um cemitério,
um frio cemitério de sombras.
Mas
o muro vive
o muro tem olhos,
suas lágrimas
fecundam trepadeiras
que trepam no tempo
fluindo com a superfície do muro.
O muro cresceu
e germinou no silêncio.
Embora a sombra da memória
persista em criar
elementos que empatam
o crescimento do muro.
Penso
que o muro cansado cansou-se do verde.
Agora
mais que em tempo
o muro precisa de uma cor,
cor viva
que corra como o vermelho do sangue
uma cor com sabor alegre e livre
como a cor da papoula.
Para que o muro não caia
Para que o muro não morra.
Urge que se mudem as cores
porque o muro
fartou-se do verde.
Publicado em O Jornal de 28 de Maio de 1967.
sexta-feira, 18 de novembro de 2011
Senghor
O texto abaixo é apenas um fragmento de um ensaio escrito por Ieda Machado Ribeiro dos Santos para o site do movimento literário Quilombhoje. O texto na íntegra pode ser encontrado aqui.
(1906-2001)
Ieda Machado Ribeiro dos Santos
Introdução
Certo dia, eu saía para trabalhar quando a vizinha me chamou:
— Espere, Ieda. O Dr. Fulano vai para o Campo Grande e pode lhe dar uma carona.
O Dr. Fulano era um senhor grisalho, muito cheio de mesuras e gentilezas.
— Professora, estou encantado em conhecê-la. Soube que a senhora sabe tudo sobre a África.
— Ninguém sabe tudo sobre nenhum assunto — retruquei.
Mas ele não deu nenhuma importância à minha interrupção porque, de fato, aquilo era um mero preâmbulo à cretinice que veio logo em seguida.
— Já que a senhora sabe tudo sobre a África, não acha que, sendo o cérebro do negro comprovadamente menor do que o do branco, ele é, naturalmente, menos inteligente?
Confesso que me senti tão irritada quanto vocês estão se sentindo agora, ao ler esta idiotice. Mas parece que o velho Oxalá jogou o seu alá sobre mim e eu permaneci bastante calma, respondendo com outra pergunta:
— O senhor já ouviu falar em Léopold Senghor?
— Não, nunca ouvi.
Então eu comecei a falar sobre Léopold Sédar Senghor, africano, filho de pai e mãe africanos (porque se for mestiço eles dizem que a inteligência vem do lado branco). Contei como Senghor, muito jovem, lecionou francês, na França, aos franceses. Que ele era membro da Academia Francesa de Letras, vencendo todos os escritores franceses que competiram com ele. Que ele era traduzido para o alemão, o japonês, o inglês e até para o português. Que ele era Doutor em Honoris Causa em mais de 20 Universidades do mundo inteiro, que havia ganho mais de 15 prêmios internacionais de poesia... E, como se tudo isso não bastasse, era um grande estadista, respeitado no mundo inteiro.
Chegando ao nosso destino, mais ou menos uns dez minutos depois, o Dr. Fulano admitiu:
— A senhora me convenceu.
Ao que respondi, com ironia:
— E com um crioulo só.
Gosto de contar essa história como demonstrativo da fragilidade do racismo e também de que, às vezes, uma argumentação tranqüila e bem fundamentada funciona melhor do que nossos gritos de cólera, embora essa cólera seja mais que justificada.
Mas, quando começo a escrever sobre Senghor, vejo que toda a sua vida foi exatamente isto: negar, e não apenas para os brancos, como querem os seus inimigos, mas para os próprios negros, principalmente os negros da diáspora, quanta falácia foi escrita e "cientificamente comprovada" sobre nossa inferioridade intelectual, sobre não termos História, Civilização ou Cultura. (...)
sexta-feira, 30 de setembro de 2011
Algumas músicas interessantes do Segundo Festival Amazonas de Música:
Anjo de Cor
(Compositor e intérprete: Afonso Toscano de Melo)
Ê São Benedito
Chegou a hora de abençoar
Nosso irmão Nestor
É um anjo de cor
A sua força não pode faltar
É Nestor Nascimento
Que por nascimento
Nasceu brasileiro
De Luanda, de Angola,
Da Praça 14 de Janeiro
Ele é filho de xangô
Qual o pai é um guerreiro
Na resistência da raça
Foi sempre o primeiro
Ê São Benedito
Foi mamãe Sofia
Que lhe ensinou a soletrar,
Com sua tia Lurdinha
Compreendeu o ritual
De Benedito, do mastro
De Fátima, da procissão
O tambor do candomblé
Festa no jaquerão
Mil amores, mil donzelas
Cada donzela um varão
Ê São Benedito...
Batalha do Calabouço
Defendendo a nação
Encarando a polícia
Do ditador de plantão
Briga de estudante
Chupando manga com cão
Dentes quebrados, surdez
Quase perda da visão
Nestor, meu anjo de cor
Nada disso, foi em vão.
Amazônia Terra de Ninguém
(Compositor e intérprete: Ivan Nunes Moraes de Melo)
Ontem eu andei pela floresta encantada
E de repente ouvi todo o temor da macacada
Pássaros voando em revoada
E o homem destruindo toda mata.
Ontem acordei até mais cedo
E vi todo deserto pelo espelho
um clarão na selva se formando
E nossa Amazônia se acabando.
Que coisa triste, quantos deslizes
A selva mais bonita do planeta
Agora está virando uma espoleta.
U.S.A. montando as bases
Amazônia só disfarces
U.S.A. montando as bases
Amazônia só disfarces
Amazônia terra de ninguém
Amazônia estamos refém
Amazônia pátria mãe querida
Amazônia ainda tem saída.
No Reino das Palafitas
(Compositor e intérprete: Cileno de Oliveira Conceição)
É... A feira da Panair já foi Pan-Air.
A fúria do Prosamim secou igarapés
O expresso passou tão ligeiro e eu a pé
A espera de um tal de monotrilho, se vier...
Ei... O porto privatizado já foi Rodoway
No Cine Ypiranga me vi na Broadaway
Bandido, mocinho, um herói fora da lei
No reino das palafitas eu era um rei.
Sim, Manaus é saudade, é Praça da Matriz
Passeio de bonde, banho de chafariz
Eu, curumim, um moleque, mas feliz
Sim, Manaus do encontro das águas pontual
Teatro Amazonas, amigos de quintal
Estórias e lendas de boto e coisa e tal...
Sim, Manaus é mais que "porto de lenha" e "liverpool"
Mais que Zona Franca, Zona Norte, Zona Sul
É o coração de uma gente batendo tum tum tum.
(Compositor e intérprete: Afonso Toscano de Melo)
Ê São Benedito
Chegou a hora de abençoar
Nosso irmão Nestor
É um anjo de cor
A sua força não pode faltar
É Nestor Nascimento
Que por nascimento
Nasceu brasileiro
De Luanda, de Angola,
Da Praça 14 de Janeiro
Ele é filho de xangô
Qual o pai é um guerreiro
Na resistência da raça
Foi sempre o primeiro
Ê São Benedito
Foi mamãe Sofia
Que lhe ensinou a soletrar,
Com sua tia Lurdinha
Compreendeu o ritual
De Benedito, do mastro
De Fátima, da procissão
O tambor do candomblé
Festa no jaquerão
Mil amores, mil donzelas
Cada donzela um varão
Ê São Benedito...
Batalha do Calabouço
Defendendo a nação
Encarando a polícia
Do ditador de plantão
Briga de estudante
Chupando manga com cão
Dentes quebrados, surdez
Quase perda da visão
Nestor, meu anjo de cor
Nada disso, foi em vão.
Amazônia Terra de Ninguém
(Compositor e intérprete: Ivan Nunes Moraes de Melo)
Ontem eu andei pela floresta encantada
E de repente ouvi todo o temor da macacada
Pássaros voando em revoada
E o homem destruindo toda mata.
Ontem acordei até mais cedo
E vi todo deserto pelo espelho
um clarão na selva se formando
E nossa Amazônia se acabando.
Que coisa triste, quantos deslizes
A selva mais bonita do planeta
Agora está virando uma espoleta.
U.S.A. montando as bases
Amazônia só disfarces
U.S.A. montando as bases
Amazônia só disfarces
Amazônia terra de ninguém
Amazônia estamos refém
Amazônia pátria mãe querida
Amazônia ainda tem saída.
No Reino das Palafitas
(Compositor e intérprete: Cileno de Oliveira Conceição)
É... A feira da Panair já foi Pan-Air.
A fúria do Prosamim secou igarapés
O expresso passou tão ligeiro e eu a pé
A espera de um tal de monotrilho, se vier...
Ei... O porto privatizado já foi Rodoway
No Cine Ypiranga me vi na Broadaway
Bandido, mocinho, um herói fora da lei
No reino das palafitas eu era um rei.
Sim, Manaus é saudade, é Praça da Matriz
Passeio de bonde, banho de chafariz
Eu, curumim, um moleque, mas feliz
Sim, Manaus do encontro das águas pontual
Teatro Amazonas, amigos de quintal
Estórias e lendas de boto e coisa e tal...
Sim, Manaus é mais que "porto de lenha" e "liverpool"
Mais que Zona Franca, Zona Norte, Zona Sul
É o coração de uma gente batendo tum tum tum.
sábado, 27 de agosto de 2011
Dalí contra a arte moderna
Os críticos da velha arte moderna foram sobretudo enganados e corneados pelo "moderno" mesmo. De fato, nada envelheceu mais depressa e pior do que aquilo tudo que num momento qualificaram de "moderno".
(...)
Pintor, não te ocupes
em ser moderno.
É a única coisa que,
infelizmente,
não importa o que fizeres
não poderás evitar de ser.
Salvador Dalí, pintor catalão em Libelo contra a Arte Moderna (1956).
(...)
Pintor, não te ocupes
em ser moderno.
É a única coisa que,
infelizmente,
não importa o que fizeres
não poderás evitar de ser.
Salvador Dalí, pintor catalão em Libelo contra a Arte Moderna (1956).
sábado, 30 de julho de 2011
Brasilidade
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| Acervo do Museu de Arte Popular Casa do Pontal (RJ). |
Bráulio Tavares, escritor paraibano, na crônica Drummond: Europa, França e Bahia.
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sábado, 23 de julho de 2011
Tupi or not Tupi?
Oswald de Andrade (1890-1954) foi o homenageado da Flip desse ano. Além das palestras no evento, muito foi falado sobre ele na mídia, impresa ou digital.Vamos falar um pouco dele aqui e fazer uma breve síntese do modernismo como um todo.
Oswald era filho de uma família tradicional paulistana (por sinal, ele, Mário de Andrade e Drummond não eram parentes, como muitos pensam) e assistiu, como muitos da sua geração, a pequena cidade que era São Paulo se transformar em uma metrópole no começo do século XX.
Educado em colégios de renome como o Ginásio Nossa Senhora do Carmo ou o Colégio Modelo Caetano de Campos, Oswald tinha o diploma de bacharel em Humanidades e, mais tarde, o diploma de Filosofia (fez o curso no Mosteiro de São Bento).
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| Foto aérea atual do Mosteiro de São Bento em São Paulo. |
Dedicou-se á muitas coisas: a pintura, á poesia e principalmente ao jornalismo. Reunia seus amigos através dos jornais e revistas que editava ou fundava, como a Revista de Antropofagia e Klaxon. Antes de viajar para a Europa em 1912, já tinha passado algumas temporadas no Rio de Janeiro e Minas Gerais. Se envolveu na Europa com uma estudante francesa, Kamiá, com a qual teve seu primeiro filho.
Oswald teve muitos amores: Maria Lourdes Andrade (Miss Cyclone), Pilar Ferrer e Julieta Bárbara Guerrini são as menos conhecidas. Quando se fala em Oswald de Andrade duas figuras encantadoras nos vêem á cabeça: a pintora Tarsila do Amaral e a jornalista Patrícia Galvão, a Pagu. Tarsila e Oswald se conheceram um ano antes da Semana de Arte Moderna de 1922. Mário de Andrade e Anita Malfatti, seus velhos amigos, lhe apresentaram á essa pintora que eles consideravam uma das maiores artistas do movimento que eles defendiam, o modernismo. No circuito intelectual da "Paulicéia" e sempre com um pé nos jornais, Oswald conheceu Pagu mais ou menos na mesma época, mas quem era o centro das suas atenções era Tarsila. Os dois viajaram muito pelo mundo e colaboraram mutuamente com suas respectivas obras (a maioria dos livros de Oswald eram ilustrados por Tarsila, e seus quadros eram apresentados por Oswald na imprensa).
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| Tarsila do Amaral |
O relacionamento não foi formalizado. Quando terminaram com ele em fins da década de 1920, continuaram se falando ainda por muito tempo. Pagu, a jovem jornalista que adorava o modo polêmico de Oswald se aproximou mais dele, os dois se apaixonaram e chegaram a se casar (excentricamente em um cemitério). A relação com Pagu, militante do Partido Comunista Brasileiro, aproximou Oswald de grandes figuras da esquerda nacional, como Luís Carlos Prestes. O encontro com Prestes significou, segundo ele mesmo revelou anos mais tarde, um divisor de águas em sua vida. Oswald começou a construir uma obra mais engajada, que incitasse á revolução. No momento, Vargas tinha instaurado uma ditadura no Brasil e Pagu e Oswald foram perseguidos. Com a volta da democracia em 1945, Oswald continua a militar publicamente, mas não está mais junto de Pagu.
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| Patrícia Galvão (Pagu) |
Na década de 1950, o modernismo já consagrado (inclusive pelo inimigo político de Oswald, Vargas, que cooptou vários artistas modernistas como Mário de Andrade para sua política cultural), o escritor paulistano começa a publicar mais ensaios e artigos. A maioria saudando velhos amigos e revelando aspectos do movimento que ajudou a desenvolver.
Mas que movimento é esse? O modernismo foi um movimento organizado por intelectuais brasileiros reunidos nos grandes centros urbanos. Até então, a vida intelectual brasileira era basicamente européia, ou seja, os nosso modelos de pensar e agir vinham de fora, principalmente da França. Muitos intelectuais antes dos modernistas já tinham percebido essa incomoda mania, como Monteiro Lobato ou Lima Barreto, mas eram autores isolados (Lobato foi aplaudido por muitos quando criticou o caipira, mas quando propunha uma solução para nosso marasmo intelectual era ignorado; Barreto, por sua origem e por suas idéias, era tido como um louco e veio a falecer em um sanatório com sérios problemas de bebida, sem nenhum tipo de reconhecimento).
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| Capa do Manifesto Pau-Brasil |
Com o modernismo temos um batalhão de artistas ligados pela denúnica de nossa pobreza intelectual e propondo uma maneira de construirmos uma cultura genuinamente brasileira. Como? Oswald de Andrade acreditava que teríamos que buscar nas raízes de nossa cultura, teríamos que voltar ao tempo do descobrimento. São tidos como bíblias do modernismo seus manifestos do Pau-Brasil e da Antropofagia, escritos em 1924 e 1928, respectivamente.
No primeiro ele diz que o Brasil está no caminho certo, já nos libertamos de nossas amarras colonialistas (através da Semana de Arte Moderna), ainda não temos algo totalmente genuíno, mas estamos chegando lá. Aproveita e crítica todas as outras escolas literárias que vieram antes, importadas da Europa, como o naturalismo, o parnasianismo etc. Defende uma poesia que não seja objeto de luxo, mas uma poesia que se encontra em todos os aspectos da nossa vida, inclusive no cotidiano.
No segundo, influenciado pelo quadro Antropofagia de Tarsila, ele defende que o artista brasileiro, se quer fazer uma obra nacional, deve digerir tudo o que vem de fora e vomitar algo novo. Algo que seria uma mistura do que vem de fora com o que temos aqui dentro. O que propõe é uma reinterpretação do mundo que nos cerca segundo a nossa sensibilidade brasileira.
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| Antropofagia de Tarsila do Amaral. |
Oswald era um profundo conhecedor da cultura européia, como todo intelectual brasileiro de família tradicional era naquele período, mas seu espírito inquieto não se contentava em produzir meras cópias do que vinha sendo produzido em Paris. Muito antes de se construir o grupo modernista, ele já criticava essa falta de preocupação com a identidade nacional. Mas até então sua inovação era atacar as bases do que era consagrado com afiadas e cruéis paródias. Daí sua fama de iconoclasta, de polemista. Num segundo momento, quando o grupo já estava consolidado, ele deixa de apenas atacar o velho para propor algo novo. Inspirado pelos movimentos de vanguarda que andavam sacudindo a Europa, Oswald achou que já era a hora de acontecer algo do tipo no Brasil. Já era hora do Brasil tentar ter seu próprio movimento artístico e esse movimento seria o modernismo.
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| Macunaíma de Mário de Andrade. |
O interessante é que sua proposta é nacionalista, mas não exclui a cultura estrangeira. Através da antropofagia a cultura que vem de fora é redimida, basta apenas ela ser reinterpretada por nós. É um projeto diferente do de Mário de Andrade que defendia o resgate de nossas raízes e a sua reatualização. Mário ainda não tinha passado da primeira etapa de seu projeto (como mostra a sua inacabada Enciclopédia Brasiliense e sua Missão de Pesquisas Folclóricas enquanto esteve á frente do Departamento de Cultura de São Paulo) exatamente porque havia muito a ser resgatado ainda. Mas já tentava dar mostras do que seria feito na segunda etapa, quando escreveu Macunaíma em 1928. Macunaíma é quase que inteiramente baseado nos relatos antropológicos do pesquisador alemão Theodor Koch-Grünberg. Mário une lendas indígenas das mais variadas e em certo momento o cenário deixa de ser a selva para ser a floresta - a reatualização.
Os projetos de Oswald e de Mário são, portanto, um tanto diferentes, mas ambos pregam a criação de uma arte nacional. Oswald possui uma obra vasta que vai do teatro á poesia, uma obra que aos poucos foi sendo revelada. Essa Flip atraiu muita gente não só pelos convidados ilustres, mas também por esse carisma que Oswald têm. Ele é frequentemente tido como o mais rebelde dos rebeldes e realmente suas idéias e obras foram revolucionárias. Elas influenciaram não só uma geração, mas várias gerações. Basta lembrar que o concretismo e o tropicalismo, por exemplo, beberam na fonte do autor de O Rei e a Vela.
Bem, por enquanto é só. Oswald de Andrade e o modernismo é um tema muito interessante (e, porque não, divertido) e muitas vezes um breve resumo acaba se tornando quase uma suma literária ou histórica. Mas continuaremos a falar sobre esse assunto nos próximos posts.
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