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terça-feira, 19 de fevereiro de 2013

Os historiadores e a Comissão da Verdade


No último dia (13/12/2012) do I Encontro Estadual da ANPUH/AM debateu-se em uma mesa redonda composta pelo jornalista Wilson Reis, os historiadores Hideraldo Costa e Benito Bisso Schmidt a relação entre a Comissão da Verdade e os historiadores. Também participou da mesa, na condição de mediador, o Prof. Dr. Auxiliomar Ugarte.
A Comissão Nacional da Verdade foi criada pela Lei 12528/2011 e começou a se estruturar em maio de 2012 tendo como meta apurar violações de Direitos Humanos entre 18 de setembro de 1946 e 5 de outubro de 1988. Ainda que o recorte seja amplo a maior polêmica tem se concentrado em um espaço de vinte anos, os anos da ditadura militar (1964-1985).

Wilson Reis, jornalista e membro do Comitê da Verdade do Amazonas, nos apresentou as atribuições do grupo e seus desafios. Iniciou sua fala perguntando: Se trata de um mesmo discurso sobre um mesmo fato? Não, a questão é dar voz aos que não tiveram, ou seja, trata-se de reparação histórica e judicial.
Uma vez cientes disso os trabalhos do Comitê estadual começaram. Uma avalanche de casos apareceram. Qual o mais importante? Qual o mais urgente? O critério para fazer a triagem de casos a serem investigados foi a notoriedade. Assim, as primeiras investigações se debruçaram sobre o suicídio do sindicalista Antogildo Paiva, o desaparecimento do militante Antonio Tomaz Meirelles (Tomazinho) e o massacre dos Waimiri-Atroari.
O relatório deste último caso causou um impacto nacional. Direcionou o olhar da cidade para o campo, dos militantes de esquerda para os indígenas. Logo depois um documentário chileno perdido veio a tona mostrando alguns detalhes de milícias indígenas criadas pela ditadura que também participavam da repressão, ou seja, índios torturando índios.

Hideraldo Costa, historiador e também membro do Comitê estadual, começou sua fala lembrando o velho mito de que a ditadura no Amazonas não foi brutal: não temos desaparecidos, não temos torturados, apenas corruptos foram cassados e jornais censurados e fim de papo. O Comitê está provando que não foi bem assim.
Quando foi instaurado o Comitê em maio do ano passado, além dos organizadores só se fizeram presentes um vereador e um deputado. Hideraldo associa a indiferença da sociedade manauara com um discurso que perpetua uma memória silenciosa e cega sobre a ditadura no Amazonas. O curioso é que os historiadores locais não se sentiram atraídos pelo tema.
O Comitê estadual, assim como a Comissão Nacional, é pautado pela pluralidade: nesse grupo formado por aproximadamente 15 pessoas a maioria são políticos, mas existem jornalistas, geógrafos e um historiador (Hideraldo). Salientou o diálogo necessário entre três áreas do saber (História, Geografia e Comunicação Social) e o intercâmbio mais que urgente com as universidades.  "A minha tarefa no Comitê é mostrar que a dinâmica da pesquisa é diferente da dinâmica da militância". A pesquisa demanda mais tempo e certos cuidados metodológicos e os movimentos sociais clamam por resultados mais imediatos, daí o embate.
Segundo o palestrante, o Comitê estadual está começando a estruturar melhor suas ações por meio da construção de uma agenda. Ressaltou mais uma vez a repercussão dos relatórios do comitê estadual: a questão indígena agora entrou na pauta da Comissão Nacional e ajudou a rever muitos dados consagrados como por exemplo o número de desaparecidos (de 465 agora subiu para 2.000).


Benito Bisso Schmidt, presidente nacional da ANPUH, dedicou-se a pensar alguns aspectos da relação historiador/ Comissão da Verdade:
1) A importância dos comitês regionais: O eixo Rio de Janeiro e São Paulo sempre esteve sob os holofotes, mas agora a diversidade da ditadura aparece nos estudos regionais. No Rio Grande do Sul a questão da repressão ditatorial se relaciona com um contexto mais amplo como os contatos com a Operação Condor. Já no Mato Grosso e no Amazonas temos a questão indígena se imbricando com a política latifundiária e ideológica. E esses são apenas alguns exemplos de casos que podem nos fazer pensar e repensar tudo o que sabíamos sobre a ditadura militar no Brasil;
2) A importância da Comissão da Verdade: O objetivo da Comissão não é julgar, mas reparar e esclarecer. Sendo assim não se trata de revanchismo como quer a direita ou de demagogia política como alega a esquerda, mas de um direito. O direito á verdade. Estas investigações e a reflexão aberta por elas é extremamente necessária porque, na visão do historiador, ajuda a expurgar os demônios da democracia.
3) O papel do historiador é polêmico: Não criamos narrativas oficiais porque não existe verdade absoluta. O que a Comissão procura é apurar a verdade absoluta. E a direção das investigações tem se direcionado sobre militantes da esquerda, endossando uma narrativa já conhecida sobre a ditadura. O historiador Carlos Fico acredita que por conta desses dois pontos o compromisso do historiador com a Comissão seja extremamente problemático. Schmidt confessa que envolve sim uma série de vicissitudes, mas isso não impede o historiador de participar desse grupo. Basta apenas que ele tenha o cuidado de diferenciar a verdade da testemunha, a verdade do Direito e a verdade da História. Quanto ás narrativas canônicas, Schmidt enxerga como um problema a ser superado e oferece o caso do Peru como exemplo: não foi investigado apenas as ações do Estado, mas também do Sendero Luminoso.
5) A relação conturbada entre História e Memória: eis aí mais um elemento problemático, aliás, elemento esse que é um dos eixos da Comissão. A memória está mais ligada ao afeto, daí a exigência dos parentes de desaparecidos, presos e torturados para que seus casos sejam devidamente investigados e reparados. Ao historiador compete um certo distanciamento para não escorregar na visão de verdade absoluta. Isso não quer dizer que ele deva se abster de qualquer compaixão, o historiador não é um robô. Apenas quer dizer que é preciso ter encarar episódios traumáticos á luz da metodologia da História.
Resumindo, o historiador pode participar da Comissão da Verdade? Na visão de Schmidt, sim. Basta que ele mantenha sempre os cuidados requeridos pelo seu ofício.


quinta-feira, 7 de fevereiro de 2013

Quem tem medo de Arthur Reis?

Por Hélio Dantas e Vinicius Alves do Amaral
Acervo Jornal do Brasil.


Há exatos 20 anos, falecia no Rio de Janeiro, aos 87 anos, o historiador amazonense Arthur Cézar Ferreira Reis. Ao longo de quase nove décadas de existência, Reis exerceu uma considerável atuação como historiador, professor, político e homem público, não só no Amazonas como no restante do Brasil. Até meados da década de 1970, seus livros foram referência básica e obrigatória a quem se interessava pela História da Amazônia. Sua obra é vasta, pois, desde 1930 aos anos 1980 teve livros de sua autoria publicados regularmente, além de inúmeras matérias de jornais, palestras, cursos, artigos e prefácios.
Estudos acadêmicos abordando especificamente sua trajetória e sua obra são recentes e começaram a surgir somente na última década. Em 2001, Sidney Lobato, estudante de História na Universidade Federal do Amapá, abordou a obra de Arthur Reis na monografia “Bricolage da formação nacional: a obra de Arthur Cézar Ferreira Reis (1939-1966)”. O professor Alexandre Pacheco, da Universidade Federal de Rondônia, desenvolveu entre 2008 e 2010 o projeto de pesquisa “Arthur Reis: História, Literatura e Poder (década de 1960)”, que rendeu diversos artigos científicos. Em 2009, surgem mais duas pesquisas: a dissertação de Lademe Correia de Souza “Arthur Reis e a História do Amazonas: um início em grande estilo” e a de Leila Margareth Rodrigues Gomes, “Movimentos Sociais na obra de Arthur Reis”, ambas desenvolvidas no âmbito do Programa de Pós-Graduação em História da UFAM. Nesse mesmo Programa de Pós-Graduação, foi defendida em 2011 a dissertação “Colonização e Civilização na Amazônia: Escrita da História e Construção do Regional na obra de Arthur Reis (1931-1966)”, de Hélio Dantas. Mais recentemente, em 2012, Vinícius Alves do Amaral, defendeu o Trabalho de Conclusão de Curso intitulado “O Seringal e o Seringueiro: a ‘epopeia amazônica’ em Arthur Reis” no curso de História da UNINORTE. Vale lembrar que, em 2006, ano do centenário do nascimento de Arthur Reis, o Instituto Geográfico e Histórico do Amazonas realizou o seminário “Arthur Reis: o intelectual e o homem de ação”.
Nascido em Manaus, em uma família tradicional, Arthur Reis obteve o título de bacharel em Direito no Rio de Janeiro, mas, ao retornar ao Amazonas em 1928, optou por ser professor de História, uma disciplina que, segundo ele, o atraía desde os tempos de ginásio. Entre as aulas de História nos tradicionais colégios locais e a atuação como editor do Jornal do Comércio (sendo este propriedade de seu pai), Reis começou a desenvolver suas pesquisas em História. O primeiro fruto foi seu livro de estreia, História do Amazonas, publicado em 1931.
Arthur Reis orgulhava-se de ter uma vida discreta, mas ainda assim era considerado uma personagem polêmica. Deve-se esse fato tanto à sua carreira enquanto pesquisador da História da Amazônia quanto à sua breve passagem pelo Governo do Estado do Amazonas entre 1964 e 1967.
Em seus escritos percebe-se claramente uma exaltação do caráter civilizatório da ação portuguesa. Para Arthur Reis, a colonização lusitana na Amazônia foi, definitivamente, bem-sucedida. Ao chegar à região, no século XVII, Portugal já teria acumulado a experiência aprendida nas colônias da África, da Ásia e do próprio litoral brasileiro, e, segundo o historiador, serviu de guia tanto para a ação do Estado quanto da “iniciativa privada” do colonizador. No entanto, mesmo com esse cabedal de experiência acumulado, a Amazônia se mostraria peculiar e diferente das outras conquistas coloniais de Portugal. O êxito dos colonizadores só foi possível porque, partindo dessa experiência prévia, não teriam se negado a realizar na região uma conquista que procurou adaptar-se às suas contingências.
Na narrativa histórica de Arthur Reis, a colonização na Amazônia segue sempre essa dupla via do ímpeto conquistador lusitano e de sua experiência adaptativa, uma alimentando a outra. É o que Arthur Reis chama de “realismo português”: o êxtase ante a grandiosidade do quadro físico, que impelem à conquista, logo dão lugar a uma “ação realística”, marcada por disposição, impetuosidade, constância e capacidade realizadora.
Toda a legislação expedida da Corte em relação à Amazônia é utilizada por Arthur Reis para servir de base a tais argumentações. Havendo necessariamente a preocupação geopolítica, que visava proteger a conquista territorial da cobiça de outros povos – preocupação essa demonstrada no aparato militar das fortificações ao longo da fronteira –, não seria somente com essa demonstração de força que Portugal iria impor a legitimidade de sua conquista na região. Para o autor, seria necessário gerir uma sociedade “ativa e modelar”, construída com incentivo à imigração e posteriormente à miscigenação, à fundação de núcleos urbanos, à tentativa de integração do indígena à nova sociedade – e uma política econômica de incentivo à agricultura, a defesa da fauna e da flora contra a atividade predatória excessiva que caracterizava a atividade extrativista, a organização do sistema de trabalho, comércio e exportação. Dessa forma, tinha um caráter de ocupação, de criação de uma “área humanizada” na região: o desenvolvimento de um processo colonizador que não visava unicamente à exploração de suas riquezas.
O esforço teórico de Arthur Reis buscava demandar uma política federal mais atuante, embasada na ciência, que analisasse as possibilidades de desenvolvimento para a região. Para tanto, empenhou-se em demonstrar que os trópicos eram habitáveis, e a possibilidade de desenvolvimento e de civilização na Amazônia, era aceitável: o problema encontrava-se não na natureza, mas na forma como a região era administrada e estudada. Inclusive, para o autor, a própria inércia e desinteresse do Estado brasileiro pela região, deviam-se, em grande parte, à visão distorcida ou idealizada que se tinha dela, que findava por condená-la ao primitivismo.
Para Arthur Reis, se no passado a conquista da região foi efetivada a contento, como um ato de coragem dos colonizadores, no presente, seria o rigor da pesquisa técnico-científica que permitiria um conhecimento exato e minucioso do território. Era preciso, no presente, retomar e plenificar a obra iniciada pelo colonizador lusitano.
A par desse pequeno resumo de sua obra, podemos entender melhor a participação de Arthur Reis em programas governamentais como a Superintendência do Plano de Valorização Econômica da Amazônia (SPVEA) e no Instituto Nacional de Pesquisa da Amazônia (INPA) na década de 1950, que tinham por principal objetivo propor e executar projetos para retirar a região da crise em que se encontrava após o fim do boom da borracha. Mas a morosidade da máquina pública e as poucas verbas concedidas fizeram da SPVEA uma experiência frustrada.
Então em 31 de Março de 1964, com o golpe de Estado que implanta a ditadura civil-militar no Brasil, um novo regime se instala, prometendo moralizar a política e desenvolver o país. Parece que a promessa será cumprida uma vez que a Amazônia é encarada como região-problema dentro da Ideologia da Segurança Nacional – muito espaço, pouco ocupado, na visão dos militares corria o risco de servir de abrigo a guerrilheiros. Mais uma vez, a condição de “especialista em Amazônia” o torna um forte candidato a um cargo público, dessa vez, o de governador do Amazonas.
Mas para Arthur Reis, que assume o cargo de 1964 a 1967, guerrilheiros não eram a única ameaça à integridade da Amazônia. Em 1965, inicia uma campanha na imprensa contra a presença de instituições de pesquisa estrangeiras, instaladas na Amazônia com a conivência do Governo Federal. Entendia tais ações como um atentado à soberania nacional. Não por acaso, havia publicado em 1960 o livro A Amazônia e a Cobiça Internacional, considerado por muitos como sua obra-prima. Nele apresenta o imperialismo sondando a Amazônia desde os tempos coloniais. Isso fez dele um livro aplaudido tanto por nacionalistas conservadores como por militantes da esquerda, tendo sido alvo de sucessivas reedições ao longo dos anos 1960, 1970 e 1980.
Seu governo foi ambíguo: colecionou crises e patrocinou iniciativas ousadas, sendo taxado, paradoxalmente de “autoritário” e “inovador”. Quanto ás crises, estas foram basicamente duas: primeiramente, um atrito com a Assembleia Legislativa e logo em seguida um desentendimento com o Judiciário. A mesma Assembleia que em junho de 1964 tinha aplaudido – com a exceção do então deputado Bernardo Cabral – a posse do novo governador, em agosto o amaldiçoava por ter encerrado uma sessão e ordenado que tropas da polícia cercassem o prédio. O caso estampou as manchetes dos jornais nacionais quando o senador Desiré Guarani o relatou em Brasília. Após uma ameaça de intervenção federal e uma tentativa de renúncia, optou-se pelo “esquecimento” entre ambas as partes.
Em fins do mesmo ano, o juiz Oswaldo Salignac foi aposentado compulsoriamente pelo governador, gerando contenda entre os desembargadores sobre a constitucionalidade dessa medida. A solução? Reis invalidou sua ação e Salignac aposentou-se voluntariamente. O que estava por trás das duas contendas? No primeiro caso, os entraves dos deputados em relação às medidas que Reis propunha, enquanto que no segundo, a absolvição de um destacado membro da administração anterior, Jaime Araújo, pelo juiz em questão, gerou a exoneração de Salignac.
Em sua defesa, o historiador-governador alegava que procurava apenas aprofundar o ideal da “Revolução”, expurgando os elementos corruptos e subversivos do cenário político. No meio do caminho encontrou a resistência dos deputados e dos desembargadores. Antes mesmo de aplicar tais medidas, Reis já era visto pela oposição como uma má escolha por sua inexperiência política. Até então havia se envolvido apenas em cargos de menor teor partidário. Mas agora era diferente, agora ele se encontrava no “olho do furacão” – entre as ordens de um novo regime e os interesses dos políticos regionais. Jornais o comparavam a um macaco em uma sala de porcelana. Não tinha tato político nem popularidade, diziam.
Em seu livro Dois Anos de Governo afirma: “O poder não pode ser exercido com hesitações, fraquezas, medo de agir. Quando ele nos é confiado temos de despir-nos do que nos é o prazer da vida para, no peso do dever, decidir com energia e segurança”. Em outras palavras, estava apenas obedecendo a ordens. Mas talvez suas ações fossem uma resposta a esta descrença na sua habilidade política.
Em compensação, suas obras de infraestrutura refletem um impulso de modernização: a reforma no Porto de Manaus, a batalha pela instalação da Zona Franca de Manaus e a construção da Rodovia Manaus-Itacoatiara, dentre outras. No campo cultural, a promoção de concursos literários, a publicação de obras de autores locais através da volumosa coleção das “Edições do Governo do Estado”, a fundação da Universidade do Amazonas e a realização de festivais de cinema e teatro. Inclusive Glauber Rocha passou por aqui para produzir um vídeo promocional do Estado chamado Amazonas, Amazonas em 1966, quando o diretor ainda estava reunindo recursos para produzir Terra em Transe.
Por sua obra e sua atuação política, encontramos posições diferentes sobre o Arthur Cézar Ferreira Reis. Enquanto o cineasta Aurélio Michiles o aplaude por sua “renascença cultural”, Narciso Lobo, à época jornalista de um dos periódicos empastelados pelo governador, ressalta seu “falso liberalismo”. Celebrado em instituições tradicionais como a Academia Amazonense de Letras ou o Instituto Geográfico e Histórico do Amazonas, criticado nas universidades.
Considerado por mais de uma geração de pesquisadores como um pioneiro e um importante sistematizador do conhecimento sobre a Amazônia, é taxado também como um historiador “positivista”, “conservador”, “autoritário” ou “superado” como se estas categorias fossem o suficiente para defini-lo. Na maioria das vezes, como diria o antropólogo Luiz de Castro Faria, sua obra é mais alvo de reverência do que de referência, sendo mais reconhecida do que efetivamente conhecida. Entretanto, há muito que ser dito, ainda, não só sobre este historiador, mas também sobre o período em que viveu. E este é o momento mais que oportuno para isso. Então, falemos de Arthur Reis!

Hélio Dantas

Mestre em História (PPGH/UFAM) e professor de História da Rede Pública Estadual e Municipal. É autor da Dissertação de Mestrado “Colonização e Civilização na Amazônia: Escrita da História e Construção do Regional na obra de Arthur Reis (1931-1966)”.

Vinicius Alves do Amaral

Licenciado em História pela UNINORTE e Mestrando em História Social (PPGH/UFAM). É autor do artigo “O Seringal e o Seringueiro: a ‘epopeia amazônica’ em Arthur Reis”, defendido como seu Trabalho de Conclusão de Curso.

terça-feira, 8 de janeiro de 2013

O Velho faz anos!


Devo ao Hélio Dantas minha eterna gratidão por me lembrar que Arthur Cezar Ferreira Reis faria hoje 117 anos, caso fosse vivo. Imagine que pesquisador displicente eu sou: esquecer o aniversário do meu objeto de estudo! Acontece que só agora estou saindo do clima do fim de ano.

Mas muito bem, falemos de Arthur Reis ou, como gostamos de chamá-lo, o Velho. Nascido em 1906 em Manaus numa família de posses consideráveis, afinal seu pai era dono do Jornal do Commercio e sua mãe era irmã do comerciante de borracha Cosme Ferreira Filho. Diplomado pela Faculdade de Direito do Rio de Janeiro, o jovem bacharel retornava á sua cidade natal para ocupar um cargo no jornal do pai, no Estado ou quem sabe em ambos. Reis, contudo, tinha um interesse especial pela História despertado ainda no tempo do ginasial pelo seu professor de História Geral, cônego Israel F. Silva.
Em paralelo com seu trabalho como professor de História ora no Colégio Dom Bosco ora no Ginásio D. Pedro II, Reis desenvolveu uma pesquisa que resultaria no seu livro inicial, História do Amazonas (1931). Seu campo seria principalmente a História Colonial, ainda que também abordasse outros períodos. Sua tese original era a de que a conquista e colonização da Amazônia foi uma ação empreendida pelo Estado português com tamanho planejamento e eficiência que nos legara um imenso e rico território. Já nos anos 50, Reis desfruta do prestígio de ser um dos pesquisadores amazônicos reconhecido pelos centros culturais nacionais por sua competência e originalidade. Simultaneamente, ocupa inúmeros cargos públicos mais significativos. Dois exemplos: a chefia da Superintendência do Plano de Valorização Econômica da Amazônia e do Governo do Estado. Nos dois casos foi indicado pelo governo federal.
Como superintendente, Arthur Reis deveria estudar e executar projetos destinados a solucionar a crise em que a região se encontrava desde que a borracha deixou de ser a coqueluche da economia local. No entanto, os poucos recursos destinados á tais projetos inviabilizaram a sua execução. Como governador, encontrou maior auxílio da União dessa vez, por um motivo muito interessante: estávamos vivenciando os primeiros anos da ditadura militar e a Amazônia tinha um papel especial no discurso de Segurança Nacional defendido pelos militares. Era preciso integrar, para não entregar. Integrar como? Desenvolvendo. 

Ao primeiro governador indicado após o golpe de 1964 coube o mérito de implantar projetos de modernização do porto e construção de estradas como Manaus-Itacoatiara, mas também a responsabilidade pela série de expurgos encetados contra a oposição ao regime. O próprio governador, em momento de fúria, se envolveu em duas crises: a primeira ainda em 1964 quando mandou a Polícia Militar cercar o prédio da Assembléia Legislativa, atraindo a ira dos deputados locais e chamando a atenção do governo federal; já a segunda ocorreu um ano depois quando Reis aposentou compulsoriamente o juiz Oswaldo Salignac por ter concedido habeas-corpus ao deputado Jaime Araújo, um dos líderes da oposição.
Nas duas ocasiões o Amazonas sofreu a ameaça de uma intervenção federal, solução empregada pelo regime a qualquer Estado que corria o risco de cair na instabilidade ou então se posicionar contra o governo central. No entanto, optou-se pela conciliação nos dois casos. Reis teve que voltar atrás e engolir o orgulho. Justificava suas ações afirmando que tanto os deputados quanto os desembargadores emperravam seus projetos e debochavam de sua competência, afinal ele era um professor de História apenas. Ensandecido, ainda teria mandado empastelar um jornal trabalhista que lhe desferia sérias críticas, zombando de sua imagem.
Curioso que o mesmo homem que incentivava a política cultural ao publicar obras, fundar a Universidade do Amazonas e incentivar festivais de música e concursos literários, também tinha essa faceta mais autoritária em certos momentos. Por essas e outras seu governo é ainda foco de muitas polêmicas. O próprio Reis ao fim do seu mandato deixou o Amazonas e se refugiou no Rio de Janeiro, cansado de tantas polêmicas. Antes de falecer nos anos 90, o historiador ainda teria passado pelo Mestrado em História na Universidade Federal Fluminense na condição de professor. Falecido em 6 de fevereiro de 1993, Reis deixou enquanto contribuição á História local uma obra vasta e dispersa em livros e artigos para a imprensa. Falar de História do Amazonas sem mencionar ainda que marginalmente Arthur Reis é quase inconcebível.

domingo, 18 de novembro de 2012

História hoje


A História no século XIX era centrada na narrativa, privilegiava o aspecto político e factual e tinha um sentido evolucionista, onde o Progresso era tido como o motor da História. Já no século XX, o historiador italiano Arnaldo Momigliano enxerga um painel radicalmente diferente: a História não é mais dominada pela narrativa, os fatos e a política. Agora, se fala em "forças sociais" e não em Progresso.
É inegável que o Positivismo tenha inúmeros defeitos, mas ele também tem seus méritos. Um deles é o de transformar a História em uma ciência. Essa é uma contribuição enorme, porque ajudou a amadurecer os estudos históricos. O grande nome nesse momento é Leopold von Ranke que ao pregar a urgência de se fazer uma "história tal como aconteceu" renegava assim a especulação exagerada que muitos escritores faziam quando se tratava de falar de História. Ao mesmo tempo, essa atitude tornou a escrita da História da Escola Metódica um pouco paranoica com qualquer tipo de reflexão. Assim, os seguidores de Ranke afunilaram seu trabalho na pesquisa e descrição dos dados coletados.

Momigliano nos fala de um momento posterior ao declínio do poder dessa concepção de História. As duas interpretações contrárias ao Positivismo que existiam no século XIX, o Historicismo e o Marxismo, também amadureceram e conquistaram maior espaço no século seguinte. Além disso, tentando conciliar as propostas de uma História interpretativa e ampla com a legitimação da História enquanto ciência, que até então era obra dos positivistas e rankeanos, surge o movimento da Escola dos Annales. Assim, na década de 1950 (momento em que o historiador italiano nos escreve), os nomes de Marc Bloch, Lucien Febvre, Gyorg Lukács e Benedetto Croce, dentre outros, já figuram como pioneiros numa nova concepção de História.
Se os positivistas tornaram a História uma ciência, os historicistas, marxistas e membros dos Annales a transformaram em uma ciência social. Ora, o modelo de ciência que se tinha no século XIX era o das ciências naturais. A História, por seu caráter residual e social, se sentia engessada nesses moldes. Os movimentos que abrocham na virada do século, no entanto, tentam encontrar um paradigma mais humano, mais passível de compreender melhor a complexidade do trabalho do historiador, e cada um a sua maneira ajuda a construí-lo.

Ora, os historicistas relativizam os sentidos da História e discutem a questão da subjetividade com muita propriedade, dando uma contribuição enorme ao campo da Historiografia em específico. A Escola dos Annales nasce com a bandeira da interdisciplinaridade e História-problema, ajudando a revitalizar o caldo conceitual de que os historiadores se valiam e repensando a metodologia da pesquisa. Os marxistas (os mais coerentes, não os "marxistas vulgares" de que tanto Hobsbawm fala) trouxeram á discussão uma concepção da História e um método que tentam captar a complexidade da sociedade e como ela muda. Estamos falando da visão da sociedade em níveis hierarquizados (base, superestrutura, etc.) e a análise das contradições internas (sejam elas de classes ou não) desse sistema por meio do materialismo dialético.
Claro, essas três correntes se assemelham em alguns pontos e discordam em outros. O historicismo, por exemplo, é contrário á uma História total, proposta tanto do marxismo como dos Annales, porque não enxerga a História como um processo que tenha uma direção determinada.

Nas décadas finais do século XX, essas diferenças serão muito mais explícitas. A virada antropológica, o renascimento da narrativa e a recusa de um sentido á História fortalecem mais o viés historicista, que como tudo, mudou também no decorrer dos anos. O foco na linguagem (na análise da cultura e do discurso, por exemplo) se tornou tão popular por englobar a cultura e o indivíduo, conceitos que perdiam espaço em interpretações mais estruturais. Hoje a História está tão ligada á linguagem que há quem diga que ela não passe de narrativa também (como Hayden White).
Se cada corrente deu sua contribuição, qual o mérito dos pós-modernos? Acredito que eles tenham aprofundado as discussões da geração anterior: a subjetividade, em maior medida, hoje é considerada um fator de fundamental importância nos estudos históricos e faz-se uso de conceitos vindos de outras ciências em larga escala. Apenas é renegada a concepção de História Total, por não contemplar a diversidade. Até a visão social hoje, após os atritos iniciais entre pós-modernos e marxistas, é debatida e reaproveitada.
Hoje a História é mais que nunca uma ciência social, que sabe o lugar que ocupa na sociedade.

segunda-feira, 1 de outubro de 2012

Gigantes agora adormecidos


Hoje o mundo perdeu um de seus maiores historiadores.
Nem bem tinha aceitado a perda do grande Cyro Resende Filho, lá se vai Eric Hobsbawm. Se nesse canto do Atlântico a comoção se concentrou em São Paulo e Taubaté, dois centros onde a produção e atuação de Cyrão era ativa e reconhecida, a morte do historiador britânico repercutiu em todo mundo.
Hobsbawm (ou Roberval, segundo alguns amigos meus) faleceu com 95 anos, com uma contribuição incontável para a História. Sua série de livros sobre o capitalismo (de A Era das Revoluções a Era dos Extremos) são antológicos. Assim como seus ensaios.
Admirava muito Hobsbawm, principalmente pela sua erudição incrível. O homem parecia um banco de dados ambulante: sabia recitar de cabeça a Ilíada e conhecia todos os grandes e obscuros nomes do jazz norte-americano. Antes de ler seus textos tinha que me preparar para a viagem: uma hora estava em Istambul, então passamos para a Melanésia e antes do fim do parágrafo voltamos á Argentina. Poucos sabem, mas um de seus países favoritos era o Brasil. Seu amor fica mais explícito em A Era dos Extremos em algumas rápidas considerações sobre a nossa grande arte, o futebol.
Conhecimento aprofundado e poder de síntese, duas combinações poderosas que Hobsbawm possuía. Seu estilo era coerente e flexível, livresco e ao mesmo tempo dinâmico. Difícil de explicar. Só lendo mesmo.
Fonte: Angelo Rubim/ Almanaque Urupês.

Quanto á Cyrão, meu professor de História Antiga, Medieval e Econômica durante minha estada na Universidade de Taubaté (UNITAU), possuía quase as mesmas qualidades. Suas grandes obras (História Econômica  Geral, Economia Brasileira Contemporânea e Rommel, a Raposa do Deserto) revelam um estilo objetivo, coerente e dinâmico.
Polêmico, tinha uma visão de mundo bem peculiar. Suas considerações em sala de aula e fora já eram folclóricas na época. Diferente de Hobsbawm, considerado por muitos como neo-marxista, Cyro era gramsciano "na veia". Era confundido por muitos como um carrasco, mas na realidade era apenas um professor exigente. Graças a ele, dentre meus outros mestres, descobri uma concepção de História nova que hoje tomo como bandeira também: mais importante que o fato é o processo, mais importante que a "decoreba" é entender.
Do ponto de vista acadêmico, essa semana começou melancólica portanto.

sábado, 14 de julho de 2012

Reflexões caiçaras



Consciência Histórica. Esse é um dos temas mais repetitivos desse blog. Já o abordei aqui de várias perspectivas diferentes. Por que falar de novo então? Nunca é demais falar de um assunto essencial, ainda mais se o faremos por novos ângulos.
Bem, o que é ela? O que é a consciência histórica? Para ser curto e grosso, quando alguém tem conhecimento de como o mundo á sua volta, seja de forma geral ou regional, se tornou o que é hoje então dizemos que essa pessoa tem uma consciência histórica. 
Digamos que estamos em uma comunidade de pescadores. Há ali um senhor que está aqui desde o começo da vila e que portanto presenciou tudo o que aqui ocorreu. Esse senhor tem consciência histórica? Podemos dizer que sim, afinal, a experiência a construiu. Quem não viveu esse momento todo adquire como? Através das palavras do ancião, a não ser que um deles saiba onde e o que pesquisar pra saber a origem dessa comunidade.
Você já deve ter percebido algo. Consciência histórica aqui está muito próxima do conceito de memória. O que diferenciou história de memória por muito tempo foi a maior objetividade concedida á história. Hoje isso já é questionável, já que o paradigma da neutralidade foi derrubado. Ora, o historiador também pode idealizar um passado tal qual o ancião da comunidade caiçara faria.
Outra coisa: se alguém de fora chegar na vila e perguntar ao velho se ele sabe quem foi Getúlio Vargas ou o que está acontecendo no Oriente Médio e ele responder que não, ainda assim podemos dizer que ele tem uma consciência histórica? Depende. Sobre um recorte mais amplo talvez não, mas sobre o seu contexto, a sua vila, ele tem sim.

Nosso mundo hoje anda encolhendo e vilas caiçaras já possuem TVs e até internet. Um garoto da vila pode saber tudo o que tá acontecendo lá no Egito, mas não saberia dizer como surgiram as casas de sua terra. Aí temos o exemplo oposto. A consciência histórica regional é perdida. Com a globalização e o avanço tecnológico é muito mais fácil descuidarmos da vida em nossa terra. São tantas informações e tão fáceis de achar. Mas será que temos uma consciência do contexto geral mesmo?
As notícias nos chegam fragmentadas, afinal são notícias. A todo momento algo acontece. O acontecimento por si só é valorizado e as causas são deixadas de lado. O garoto lá na vila, vendo na internet o povo egípcio se libertar de um ditador usando redes sociais não sabe muito mais além disso. Ele tem noção da importância desse fato? Ele sabe que isso representa a queda de um modelo de política no Oriente Médio? Pergunte á alguém na rua o que está acontecendo no Oriente Médio e depois pergunte o que isso representa. Faça esse teste.

O que importa mais? A memória ou a história? O contexto geral ou local? O fato ou o processo? Acredito que todos esses elementos são complementares. A história se alimenta de memória, o geral e o particular se articulam e o processo gera fatos e vice-versa. Acredito que o mais importante aqui é entendermos que na construção de uma consciência histórica hoje devemos levar em conta a subjetividade, a espacialidade e casualidade. Aprendamos com a comunidade caiçara a refletir sobre nosso papel como educadores e historiadores.

quinta-feira, 17 de maio de 2012

Leopold e os muitos Rankes


Leopold von Ranke (1795-1886) é um dos clássicos da Historiografia. É chamado de Pai da História Científica e isso já é o bastante para muitos o classificarem como positivista. Mas precisamos tomar cuidado ao taxar qualquer um de positivista.
Sabe o que é ser positivista em se tratando de História? Não é apenas coletar e enumerar fatos, mas usar esses fatos para criar leis gerais do funcionamento da História. O Positivismo tirou esse método, o de encontrar leis gerais, das Ciências Naturais e incorporou á História.
Ranke não cria leis gerais, pelo contrário, reafirma a singularidade dos fatos históricos. Para ele todo acontecimento histórico é único e a função do historiador é encontrar os motivos de seu surgimento. Nesse ponto ele se aproxima do Historicismo.
O Historicismo, ou Historismo para Sérgio Buarque de Holanda, é uma corrente historiográfica que surgiu no século XIX em oposição ao Positivismo. Defendia que a História não tem sentido, todo acontecimento histórico é singular e é produzido por uma série de processos anteriores a ele. Para os historicistas tudo é histórico, até o próprio conhecimento da História. Já os positivistas acreditam que o conhecimento, desde que seja objetivo e imparcial, é universal e atemporal.

Ranke defende a singularidade dos fatos históricos e vai buscar ela nas causas desse acontecimento. Mas ele também defende que devemos "narrar tal como aconteceu". Sérgio Buarque de Holanda diz que essa frase foi mal interpretada: ao dizer isso, Ranke estaria querendo afirmar o caráter científico da História e não estaria defendendo o Positivismo. Acontece que naquele tempo o ideal de ciência era positivista. Ainda se pensava que a imparcialidade e a objetividade eram possíveis.
Por isso Ranke, mesmo sendo prussiano e luterano, não manifesta em seus escritos os seus pendores cívicos ou a sua devoção religiosa como faziam outros historiadores. Ele buscava explicar os fatos e julgá-los o mínimo possível. Para ele, avaliar os acontecimentos históricos era desconsiderar o contexto em que ele foi produzido e renegar a cientificidade da História. Deixem os julgamentos para os filósofos ou para os escritores, diria ele.
O historiador alemão Peter Gay diz que essa defesa da História como ciência não faz de Ranke um anti-artista.  O modo como ele apresentava seu tema, como escrevia sobre os processos históricos, se assemelha á um romance histórico. Os personagens são apresentados, o cenário é descrito, a ação é narrada. Depois de todo esse drama vem a tese ao invés da lição de moral. Portanto para Peter, Ranke é um cientista e um dramaturgo.

Além do fato de ser profundamente religioso. Dizíamos que ele buscava expressar ao mínimo a sua convicção religiosa em seus escritos, mas é inevitável que em alguns momentos isso fique explícito. Ranke não menciona em seus trabalhos históricos sua opinião política e religiosa, mas ele participou da redação de uma revista na Prússia onde clamava abertamente pela unificação alemã, seja pelas mãos do imperador ou de Deus, quiçá de ambos. A escolha do tema revela um pouco da personalidade de Ranke: seus principais temas foi a construção do povo alemão e o nascimento da religião protestante.
A divisão entre o Ranke pessoal e o Ranke historiador, feita pelo próprio, se manifesta tanto nos seus ideais políticos (se nas suas teses ele vê a História como um processo sem sentido, como queriam os historicistas, nos seus panfletos ele defende a marcha ao progresso) quanto na escolha de seus temas. Além disso é preciso lembrar que Ranke era um funcionário do governo prussiano: foi nomeado Historiador Real e condecorado até com o título de barão.
Enfim, há muito mais em Ranke do que se diz haver.

sábado, 21 de abril de 2012

Entendendo a ordem urbana


Na última quinta-feira, dia 19 de abril, tive a oportunidade de participar de uma palestra da Prof. Msc. Francisca Deusa Costa. Convidada para falar aos alunos do quinto período sobre sua tese "Quando Viver Ameaça a Ordem Urbana", ela foi super-simpática e atenciosa á todos os questionamentos feitos após a sua explanação.
Eu, que entrei de penetra, não poderia deixar de comentar aqui alguns pontos da sua fala. Boa parte dela foi dedicada a explicar quais os caminhos que lhe levaram a chegar a esse tema: da mudança de tema á discussão teórica, da pesquisa empírica á construção da dissertação. Em suma, essa parte foi muito esclarecedora para os alunos do quinto período que agora estão começando a delinear seu projeto de pesquisa.
Mas hoje focarei aqui os aspectos relativos á sua abordagem de Manaus do ponto de vista do trabalhador urbano. Segundo a professora, inicialmente seu estudo falaria especificamente sobre os trabalhadores urbanos, mas graças á sugestão da historiadora Déa Fenelon ela pode perceber que os atores sociais não estão dissociados do espaço em que vivem. O espaço em que habitam também são construções sociais. Existem muros invisíveis para o trabalhador, construídos tanto na Belle Epóque como hoje: lugares onde ele é proibido de entrar não por conta de uma lei oficial, mas de uma regra social.
Quanto á historiografia, a Profa. Francisca Deusa foi influenciada pelo momento em que a universidade passava por estas bandas: do ponto de vista nacional, havia o interesse em demonstrar a contribuição do Amazonas para sua formação, do ponto de vista local, a intenção era revisitar as épocas consagradas da nossa história, revelando atores sociais que foram marginalizados pela Belle Epoque. Nesse último aspecto, nossos pesquisadores encontraram na historiografia neo-marxista uma ferramenta muito útil. O principal nome dessa tendência é o nosso já conhecido E.P. Thompson, o historiador britânico que elege como conceito fundamental para entender como as classes sociais adquirem sua consciência a noção de "experiência". Em outras palavras, o trabalhador se forma enquanto classe, toma consciência de sua condição, com a experiência, com o que vai acontecendo no seu cotidiano.
Thompson não está preocupado em falar do trabalhador engajado, dos líderes do movimento operário, mas no trabalhador comum, que compõe a maioria da classe trabalhadora. Com o neo-marxismo, a resistência explícita deixa de ser a única importante para o estudo. A resistência implícita, aquela que á primeira vista parece fútil e fundada em interesses imediato, adquire importância. Ela é vista como um passo para a formação da consciência de classe.
E é essa resistência implícita que Francisca Deusa encontra no processo de urbanização de Manaus. Enquanto outros estudos, como o de Edinéia Mascarenhas, revelam a segregação espacial que as classes trabalhadoras sofreram, Francisca Deusa, sem negar isso, demonstra que muitos conseguiram burlar o rígido Código de Posturas que ajudou a expulsar as classes mais pobres do centro da cidade. Como? No Código de Posturas havia um padrão a ser seguido de muros e fachadas para as casas do centro, padrão que lembrava muito as construções de Paris. O que muitos proprietários faziam? Respeitavam o Código quanto ás fachadas, mas não em relação ao resto da casa: assim temos cortiços imensos com fachadas belíssimas.
Era nesses cortiços que a maioria dos trabalhadores urbanos de Manaus viviam. Ora, a maioria deles vinha de fora do Estado, basta lembrarmos que estamos falando do boom da borracha, que atraiu para a Amazônia massas de imigrantes, a maioria de nordestinos. Eles viviam no centro da cidade, ainda que em condições precárias, mas isso só já significa uma resistência á esse processo modernizador excludente.
Enfim, há muito ainda que ser dito, que refletir, dessa produtiva palestra, mas por ora ficaremos nestas observações que demonstram a grande contribuição da Profa. Francisca Deusa Costa para a História Social do Trabalho no Amazonas.

quarta-feira, 18 de abril de 2012

Água, fibras e trabalho: Notas sobre História Social do Trabalho na Amazônia


Nas aulas que tenho com o Prof. José Vicente Aguiar sempre me surpreendo com seus relatos sobre a vida dos trabalhadores da juta no interior do Estado, principalmente em Manacapuru. Para mim o cultivo da juta já tinha acabado. Ela movimentou a região no período pós-boom da borracha e pré-zona franca: 12% da arrecadação tributária do Estado vinha dela em 1966. Em relação aos dias atuais, falar em economia da juta para mim soaria anacronismo, uma vez que essa planta era cobiçada justamente por ser a matéria -prima para sacos e com o surgimento das fibras sintéticas ela se tornaria um pouco obsoleta. Mas a juta continua em demanda, menos que antes é verdade, mas ainda assim há uma demanda.
Voltemos ás origens: essa planta asiática foi introduzida na Amazônia por uma Missão Japonesa,um grupo de agrônomos da Terra do Sol Nascente reunidos pelo governo nipônico tinham como objetivo adaptar o cultivo de algum produto conhecido dos asiáticos nesse rincão do Brasil para consolidar a colonização japonesa na região. Depois de várias tentativas eles conseguiram adaptar a juta.
Do ponto de vista empresarial, tudo começou quando industriais paulistas, dentre eles Mário Audrá (não confundir com o Mário Audrá Jr, o Marinho), cientes do sucesso da iniciativa, resolveram fazer um acordo com as poucas colônias de trabalhadores de juta que existiam então, sendo a Vila Amazônia (em Parintins) uma delas. Surgia assim a Fiação e Tecelagem da Amazônia S.A., mais conhecida como Fitejuta. Existiam duas fábricas, uma em Manaus e outra em Taubaté (quem diria!).
Nas fábricas a fibra era prensada, transformada finalmente em sacos, mas a maior parte do trabalho era feito no interior da Amazônia pelos juticultores. Primeiro busca-se uma região da várzea onde possa-se cultivar a planta, então limpa-se o terreno e faz-se a semeadura. Depois é preciso capinar sempre o local, mesmo quando a juta já ter crescido, para que outras plantas na sufoquem as frágeis raízes da juta.
Na hora certa deve-se cortar as hastes, bem rente á raíz, e então deixá-la de molho na água do próprio rio, para que a água e suas bactérias separem o miolo dos talos da fibra, que é o que nos interessa. Após isso, retira-se as hastes da água, bate-as para que saiam as impurezas do rio e seca-as. A partir de então, a juta está pronta para ser mandada para a fábrica, ou no caso de um agricultor autônomo, vendida á algum negociante.

Sobre o trabalho é interessante observar como ele se constitui como um saber familiar muitas vezes, passando de pai para filho. É sempre bom lembrar que muitos juticultores não vivem mais em colônias de trabalho, mas ás suas próprias custas entre as várzeas, perto das plantações, nas curvas dos rios. A dispersão geográfica pode atrapalhar a união do trabalhador e consequentemente a sua consciência de classe, como Barbara Weinstein percebeu ao abordar a vida do seringueiro, mas ela também tinha suas vantagens: a autonomia em relação á um patrão.
Cabe também nos questionar até que ponto essa dispersão hoje impede uma consciência de classe nessa categoria, afinal já existem cooperativas de juticultores, como por exemplo em Manacapuru. Além disso, hoje o próprio isolamento do homem amazônico que vive no interior é relativo diante da presença de meios de comunicação. Já na década de 1940 e 1960 o rádio conseguia conectar famílias ribeirinhas com seus parentes tentando ganhar a vida na cidade grande. O rádio fazia o interiorano entrar em contato com o resto do mundo. Hoje então esse contato deve ser muito maior diante do rádio, do celular e da TV.
O trabalhador da juta conta como ferramente, além do terçado (facão) o próprio corpo. É uma exploração das mais explícitas, pois se percebe seus efeitos na aparência física de seus trabalhadores. O juticultor tem que usar as mãos para medir, colher, carregar a juta e passa a maior parte do seu dia com metade do corpo dentro d'água. Tal condição permite que ele adquira doenças como infecções por fungos ou bactérias, como é o caso de uma espécie de micose chamada popularmente como "rói-rói", sem falar das ameaças do rio: arraias, sucuris, piranhas, jacarés. 

O corte da juta demanda muito tempo e está muito ligado ao clima. Diante das mudanças climáticas provocadas pelo aquecimento global está ficando cada vez mais irregular a colheita da planta, que deve ser feita antes da época das chuvas pesadas. A meteorologia  ajuda o agricultor a se antecipar algumas vezes, mas em via de regra a natureza continua desequilibrada e com ela o regime de cultivo. Em relação ao meio ambiente, a juta sendo uma monocultura (aliás, a própria estrutura física da planta lhe demanda isso ao contrário da cana) empobrece o solo, mas estamos falando do rico solo da várzea amazônica. Adicione a essa plantation em pequena escala a poluição do rio e consequentemente de suas margens pelo mercúrio dos garimpos ou pelo combustível dos barcos e temos um silencioso desastre ambiental.
O que me chamou mais a atenção nesse tema é que ele é muito pouco explorado. Quase nada se ouve falando sobre o juticultor. Parece que a historiografia amazonense está focada em duas categorias de trabalho: o seringueiro ou qualquer trabalhador integrado ao seringal, no interior, e o trabalhador urbano na capital. Dentro da perspectiva do trabalho urbano em Manaus salienta-se os estivadores, os carroceiros, gráficos e até as profissionais do sexo. A categoria dos condutores e motoristas, seja de bondes, ônibus ou táxis, que teve uma união e uma importância muito grande na cidade, ainda está carente de uma boa pesquisa. O mesmo pode se dizer do juticultor ou de qualquer trabalhador amazônico que viva no meio rural.

Claro que em se tratando deste último é muita ingenuidade esperar que se possa encontrá-lo em documentos. Aqui devemos nos usar dos métodos da História Oral, uma vez que estamos falando de experiências de homens e mulheres que não tiveram o privilégio de se alfabetizarem, mas que nem por isso perderam a preocupação em transmitir seu conhecimento para as novas gerações.
Digo isso tudo, pois muito me interessa a História Social do Trabalho e em se tratando de Amazônia vejo que temos aqui um campo muito rico para esta tendência.Claro, tenho minhas opiniões sobre como fazer História Social do Trabalho, todo mundo tem. Antônio Luigi Montenegro e Flávio Santos lembraram muito bem que Thompson, considerado o papa dessa corrente historiográfica, tinha um certa ojeriza com o termo História Vista de Baixo, que se ocupa com todos os grupos sociais que foram marginalizados pela História Oficial, estando, óbvio, os trabalhadores dentre eles. Ojeriza por quê? Porque segundo Thompson isso desprezaria o papel das classes sociais mais abastadas e poderosas no rumo da trajetória dos trabalhadores, afinal se trata de História Social, ou seja, todo homem se relaciona com outro homem e disso decorre que toda classe se relaciona com outra. Portanto, uma História Vista de Cima é o complemento adequado para uma História Vista de Baixo, desde que ela seja crítica.
Qual a importância disto para nós? Ora, não podemos entender a trajetória do juticultor se não entendemos como o seu patrão chegou a ser o seu patrão. Em outras palavras, uma História Social do Trabalho precisa se amparar numa história empresarial local, diante da pequena expressividade desse campo aqui. Outro ponto interessante: também devemos compreender a economia como algo fluído e heterogêneo. A economia regional não está só ligada á economia nacional, mas á outras economias regionais. No nosso caso, a juta interliga duas economias completamente diferentes naquele momento: o extrativismo amazônico com a industrialização paulista da década de 1930 e 1940.

Em relação ao trabalhador em si, creio que devemos documentar dos mais diferentes meios possíveis o seu universo: seja no cotidiano, nas práticas culturais ou na sua afetividade. História hoje não é apenas processos, mas sensibilidades também, enfim, tudo o que compreende a experiência humana. Logo o relato oral é importantíssimo, mas existem outras fontes também: a fotografia, por exemplo. O pesquisador pode se utilizar de uma câmera para adentrar no mundo do juticultor e captar o seu drama social e suas alegrias.
Se focar somente no engajado é um erro que boa parte da historiografia operária reconhece hoje. Não existe dominação absoluta, já dizia Marx. A História hoje relativiza muito bem os conceitos de dominação e resistência, indo além da hegemonia e da rebeldia explícita, manifestada por atos políticos. O trabalhador não precisa ser politicamente engajado para ser um sujeito histórico, essa é a lição que nos fica.
O trabalhador é um sujeito histórico e também é heterogêneo. Mesmo dentro de uma categoria há níveis de hierarquização, alguns impostos pelos patrões outras não. A subjetividade também se faz presente. O que isso tudo significa? Generalizar, nem pensar.
O trabalhador amazônico vivente no coração da mata demanda um outro cuidado historiográfico: não desvincular o meio ambiente do processo de trabalho. Todo trabalho, voltamos á Marx, é uma tentativa de dominar a natureza e remodelá-la ás nossas vontades. Mas entre os povos indígenas o trabalho não possuía esse objetivo maior, até porque a sua cosmovisão entendia a natureza e o homem como parceiros. É de se esperar que essa mentalidade ainda sobreviva em muitos rincões da nossa Amazônia. Além disso, como não considerar a matéria-prima mor da economia amazonense nestes últimos séculos: a natureza amazônica. Em se tratando de um sistema extrativista, as exigências do meio e as mudanças climáticas são essenciais para se entender as condições de trabalho de certa pessoa.

Enfim, não são leis que devem ser seguidas á ferro e fogo. Estas são apenas sugestões de diretrizes para se entender uma História Social do Trabalho preocupada com o trabalhador do interior da Amazônia. Espero dar uma contribuição mais sólida á essa discussão historiográfica, mas no momento é o que tenho a dizer sobre esse tema.

sexta-feira, 13 de abril de 2012

Da série "pequenos e breves resumos"

Vamos analisar aqui hoje, a exemplo do que a minha professora de Teoria da História, Cristiane Manique, fez a escrita da História de vários pesquisadores e historiadores, começando pelos seus maiores pioneiros: Homero e Heródoto.
Voltemos á Grécia, um dos berços da sociedade ocidental.
Lá encontramos Homero narrado em sua Ilíada a história da Guerra de Tróia. Homero é um poeta e a Ilíada é como se fosse uma longa canção. Nela aparecem os deuses regendo os conflitos entre os homens. 
Andemos mais um pouquinho e encontraremos Heródoto de Halicarnasso e seu livro de histórias. Ali está o resultado de sua pesquisa sobre a invasão persa da Grécia. O que teria motivado a guerra aqui seria a cobiça do Império Persa e não os deuses.

O que podemos perceber é que Homero ainda está ligado á uma narrativa mítica, portanto, o sentido da história aqui é cíclico (as coisas acontecem no plano dos deuses onde o tempo é primordial) e ela se baseia na oralidade, no que ouviu falar. Heródoto tenta ser mais pontual: os deuses não são mais o motor das contendas humanas, aqui o sentido da história é mais linear que cíclico e ele utiliza como fontes um pouco da oralidade sim (através dos relatos), mas sempre cruzando informações (relatos dos persas x relatos dos gregos). O que Heródoto queria fazer mesmo era uma investigação. História vem do grego histor que quer dizer investigação. Por isso ele é muitas vezes conhecido como pai da História. Ainda assim ele se prende á narrar os feitos de grandes homens que de tão virtuosos chegam quase a serem excepcionais (se aproximando dos heróis dos mitos, será?).

sábado, 7 de abril de 2012

O beato que deu o que falar

Já falamos aqui em outra oportunidade das interpretações sobre a Guerra de Canudos. Hoje pretendo retornar ao assunto, mas para me focar em um aspecto dele. O que quero é entender esse estranho fascínio de nossas Ciências Sociais pela Guerra de Canudos.
Antônio Conselheiro era apenas mais um dos muitos beatos do sertão nordestino falando na volta de Jesus Cristo e no fim do mundo. O que fez dele o símbolo do messianismo brasileiro foi a dimensão que seu Arraial tomou. O Arraial de Canudos já atraia preocupações por parte da Igreja Católica na Bahia e de alguns coronéis vizinhos a região. O drama de seus moradores ganhou vulto nacional somente com a primeira investida contra o Arraial em 1893.
O que se lia nos jornais era que aquele era um movimento monarquista tentando derrubar a república por meio da revolta armada. Antônio Conselheiro seria apenas uma marionete dos ressentidos monarquistas que lhe financiavam com munição adequada. Só isso poderia explicar o fracasso de todo um batalhão da polícia em vencer os pobres sertanejos.
O que é importante perceber aqui é que Canudos é traduzida para a opinião pública nacional como um fato político. O discurso oficial e da imprensa era este: uma revolta monarquista. Quem leva este acontecimento para o campo dos estudos científicos é justamente um jornalista, Euclides da Cunha. Euclides tenta decodificar Canudos utilizando o conhecimento mais avançado da época: o evolucionismo. Assim ele encontra no determinismo geográfico a razão daquele misterioso e trágico movimento.
Canudos, portanto, já é um marco da nossas Ciências Sociais, antes mesmo delas existirem (o que oficialmente só acontece com a criação das universidades na década de 1930). Ela será revisitada pelos primeiros sociólogos e historiadores porque revisitá-la é revisitar os primórdios das Ciências Sociais no Brasil.
Essa revisão, contudo, leva a mais questões: Canudos não foi um movimento único, determinismo geográfico não explica fatos sociais, Antônio Conselheiro não era louco, etc. Assim, nos anos 70 a Guerra do Contestado, a história da Pedra do Reino, o caso de Jacobina no sul do país, dentre outros, já são conhecidos de um público maior que dos estados onde tais movimentos aconteceram. Agora não se fala em Canudos como um acontecimento isolado, mas como parte de um fenômeno maior - o messianismo sertanejo.
Nesse sentido, Maria Isaura Pereira Queiroz foi o maior nome na sistematização do messianismo brasileiro, classificando os movimentos por seu caráter singular também.Canudos agora não é mais um fato político, nem religioso, mas social. O messianismo é produto do estado de coisas deplorável do sertanejo. Abandonado e dominado pelos chefões locais (como os coronéis) ele se ampara nas promessas dos beatos. Canudos pode ser a demonstração de revolta do sertanejo para com essa situação.
Por mais incrível que pareça, a análise do ponto de vista religioso é mais recente e remonta á Duglas Monteiro. Jaqueline Herrman também nos fala da religiosidade sertaneja e chega a curiosa hipótese de que Antonio Conselheiro era, no fundo, mais ultramontano que muito bispo da época.
Falamos, falamos e falamos e ainda não chegamos no ponto principal: porque essa curiosidade por Canudos? Ora, o fato de ser um tema inicial do pensamento social brasileiro é uma parte da resposta. A outra, creio eu, deve ser buscada no estranhamento que Canudos carregava consigo. Afinal, o Brasil pensante de então se concentrava nas grandes cidades onde se olhava mais para Paris do que para Praça Onze. Do nada, irrompe-se uma revolta de pobres no sertão que consegue vencer da polícia estadual e do Exército. Ninguém compreende porque. O discurso oficial dá suas insuficientes respostas.
Essa necessidade de compreender passou das raias da opinião pública para a academia. Euclides forneceu uma resposta válida para sua época. Os intelectuais que vieram depois tiveram que achar a sua própria resposta, uma vez que o determinismo geográfico havia sido refutado. Portanto, Canudos atraía pelo paradigma euclidiano, que esperava-se superar, e pelo próprio exotismo.
Falar de Canudos é falar do Brasil real, na expressão de Euclides. A própria atmosfera de exotismo que carrega este movimento demonstra o quão os intelectuais estavam desligados de sua terra, compreendendo muito melhor a Europa medieval que o sertão nacional. Hoje Antônio Conselheiro já é uma personagem familiar, seja pela História, Sociologia ou pela Literatura. E também já não é o único: ao seu lado figuram Pedro Quaderna de Ariano Suassuna ou mesmo o Beato Salú, para os mais televisivos. A figura do beato já se consolidou como um personagem popular na nossa cultura e isso se deve ao trabalho de nossos escritores e cientistas sociais. Canudos foi apenas o ponto de partida.

sábado, 26 de novembro de 2011

Resistência Escrava Política da Escravidão e Precarização da Liberdade no Amazonas Imperial

Ygor Olinto Rocha Cavalcante
Foto: Maurílio Sayão.
Esse era o título da palestra ministrada pelo mestrando em História pela UFAM, Ygor Olinto Rocha Cavalcante na segunda noite da Semana de Consciência Negra da Uninorte desse ano.
A fala de Ygor se iniciou com um caso interessante: a fuga de três escravos da propriedade de seu dono em 1851. Ignez, Felipe e Manoel fugiram e se refugiaram no interior da mata, mas uma expedição foi organizada para capturá-los. Uma vez pegos eles são remanejados, remetidos para outras funções.
O interessante é que o jornal A Estrella do Amazonas, um dos primeiros jornais da província, faz um artigo sobre o ocorrido aplaudindo o sucesso da expedição, depositando nessa fuga de escravos um peso muito forte. Esses três escravos foragidos eram encarados como braços que se evadiam da lavoura, enfraquecendo sua produção, e como subversivos do mais alto nível de perigo, pois poderiam invadir a cidade com seus amigos de mocambos a qualquer minuto.
O artigo, é claro, tem um pouco de exagero (temos de lembrar que a Revolução do Haiti, onde negros mataram seus senhores, por muito tempo assombrou a cabeça da elite brasileira), mas existem nele dois pontos interessantes: primeiro, a importância da lavoura era grande aqui, e em segundo, a importância dos escravizados também.
Ora, se o negro era importante porque a historiografia tradicional afirma que ele teve uma contribuição infíma na nossa história? Isso implica uma revisão historiográfica. Como podemos avaliar o real peso do negro na economia amazonense? Uma das respostas são as estatísticas. Através do número de escravos presente na província, Ygor pode verificar que a população negra aumenta na década de 1850 (quando ainda era apenas comarca do Grão-Pará), reflexo da Companhia de Comércio do Grão Pará e Maranhão que a partir de 1750 trouxe escravos para essa colônia.
Um grande mito foi quebrado. O outro seria de que a escravidão no Amazonas foi tão pequena que o senhor de escravos e seus escravos não conviviam por meio de relações autoritárias, ou seja, aqui a escravidão foi branda e amena. Por meio da leitura das notícias policiais e dos relatórios de prisões, Ygor nos apresenta uma sociedade tão paranóica quanto a dos cafeicultores paulistas em relação aos escravos. Se fossem vistos mais de dois escravos juntos em algum local público, já temia-se uma insurreição escrava e acionava-se a polícia. Muitas ordens de prisão de escravos eram expedidas com base nesse medo. Além disso, o aumento da atuação policial coincide com o aumento da exportação do cacau, café e fumo.
O mais interessante é que a mesma preocupação se tinha com os trabalhadores livres: sejam eles imigrantes brasileiros ou estrangeiros, muitas brigas se iniciavam entre eles e seus patrões ou com a polícia por causa do rígido controle que estes mantinham sobre eles. Ações fora do espaço de trabalho eram consideradas subversivas.
De todas essas ações, as fugas dos escravos eram as mais incovenientes e preocupantes para essa elite senhorial, porque elas aumentam as chances de uma revolta contra os senhores. Além de, como o artigo do jornal no começo dizia, retirar braços da lavoura local. Ora, só o ato de fugir das fazendas por si só pode ser encarado como uma evidência muito forte de que no Amazonas a escravidão não foi nada branda.
Essas considerações nos levam á algumas perguntas e certas conclusões. Quanto as perguntas: esse rígido controle social se originou como? Havia uma certa solidariedade entre trabalhadores livres ou não por causa dessa sua condição de serem constantemente vigiados e punidos? Algumas possíveis respostas: a escravidão indígena pode ter sua parte de culpa, mas uma série de acontecimentos no século XIX fez com que as elites senhoriais acreditassem que o Amazonas estava passando por uma crise de mão-de-obra (epidemias, revoltas políticas, fugas de escravos, deserções de trabalhadores livres, etc) e com isso reforçasse o trato com os trabalhadores. Quanto á solidariedade, Ygor nos fala que trabalhadores livres e escravizados se aproximavam sim, mas não se uniam, justamente por uma série de diferenças (culturais e sociais) que levavam ao conflito entre si.
Quais são as conclusões? A mais importante de todas é que a escravidão no Amazonas provincial representou um dado estrutural para se compreender as relações sociais dessa época. O controle social sobre os trabalhadores e a revolta (ainda que difusa) desses trabalhadores comprovam que também tivemos uma elite autoritária. Elite essa que buscará continuar com esse sistema social, mesmo depois da lavoura de cacau e café perderem sua força. O seringal pode ser entendido como uma extensão desse sistema.

A palestra do Ygor foi muito boa, cheia de informações muito úteis e propostas interessantes, por isso, com certeza falaremos mais dela aqui, nesse blog, mais para frente. O que acho essencial na sua fala é que ela busca rever conceitos um tanto errôneos sobre a escravidão na região, dando destaque não só para a força dessa instituição em nossa terra como também valorizando a influência da cultura negra nesse processo histórico. A todos que ficaram interessados com sua fala indico seu artigo "Fugindo, ainda que sem motivo": escravidão, liberdade e fugas escravas no Amazonas Imperial (1850-1888)" que está presente no livro organizado por Patrícia Sampaio, O Fim do Silêncio, que será lançado hoje ás 18h30 no Museu Amazônico.

sexta-feira, 14 de outubro de 2011

Pensando e repensando Javé II

Por abordar a questão da narrativa, como vimos no post anterior, Narradores de Javé pode levantar discussões interessantes á todo tipo de gênero que utilize esse recurso. Desde o conto popular até o cinema, da memória á história.
Todo causo tem um início, um meio e um fim, mas a forma como ele é contado nunca é mesma, pois o narrador nunca é o mesmo. No filme, vemos o caso da história da fundação de Javé. Toda narrativa sobre a fundação começa do mesmo ponto: uma pequena expedição parte em busca de uma terra para viver e acaba encontrando o vale do Javé. O que muda é quem chefiou essa expedição (se Indalécio, Indaléo ou Maria Dina), como ele achou essa terra (se numa batalha, se numa profecia, etc.) e por aí vai.
O estilo de contar uma história ajuda a transformar as narrativas em algo muito plural, mas a origem da história também. Pode ser que Vicentino, por exemplo, conte a história da fundação de Javé a partir do que lhe foi contado por seus pais, sempre reiterando o seu vínculo familiar com o nobre e valente fundador da cidade, e este acrescente alguns detalhes a mais.

Vou dar aqui outro exemplo: meu avô gostava de contar uma das tantas histórias que tinha ouvido sobre Lampião na qual o cangaceiro teria chegado numa cidade do interior do nordeste á procura de um lugar para comer e encontrou a pensão de uma senhora que, ávida para receber a recompensa pela sua cabeça, decidiu envenenar a sopa do rei do cangaço. Lampião, sagaz, sempre comia com uma colher de prata. Assim que colocou a colher na sopa, ela mudou de cor. O cangaceiro sabendo que a sopa estava envenenada teria pedido para a velha tomar um gole, por parecer muita cansada. A senhora teria tomado, literalmente, do próprio veneno e morreu ali mesmo. Fiquei sabendo de outra versão onde o cangaceiro, pintado como homem esperto, mas cruel e desumano, teria fuzilado a senhora assim que viu a cor da colher, que teria tentando matá-lo porque este teria matado seu filho quando entrou na cidade atirando para todos os lados.
É uma narrativa: o causo tem o começo, meio e fim. Em todos alguém tenta envenenar Lampião e acaba morto, só que em um o caráter do cangaceiro é mais nobre e noutro mais desumano. Isso reflete a própria ambiguidade de como Lampião é visto pela história e pela opinião pública: ora herói, ora vilão.
Resumindo, a narrativa popular é tão diversa porque está condicionada pela sua origem social e pela subjetividade do seu narrador. A mesma coisa vale para o historiador ou para o cineasta. A personalidade influi na narrativa cinematográfica, isso todos sabemos - tanto que sobre esse respeito existe até uma certa teoria dos autores.

Essa teoria, criada por críticos franceses, alega que mesmo o cineasta sendo limitado pelos poucos recurso e pelas restrições dos estúdios e produtores, em tudo que faz deixa uma marca da sua personalidade. Mesmo fazendo um filme comercial, o cineasta deixa escapar ali e acolá sua originalidade. Sabemos pelos ângulos da câmara, o foco em determinados personagens e a trilha sonora, por exemplo, quando vemos um filme de Sérgio Leone, o reinventor do faroeste. As imagens panorâmicas, os closes sobre os rostos e olhos sujos dos caubóis e a música grandiosa do maestro Ennio Morricone denunciaria fácil o autor do filme. Leone era um grande apreciador de ópera e muitos dizem que ele levou esse estilo para os faroestes. Seus filmes iniciam de forma minimalista para se tornarem, ao longo do enredo, algo épico. Ora, é um estilo de narrativa.
E na história? A escolha do tema que o historiador se propôe investigar é algo íntimo: ele procura respostas para perguntas, no presente, que lhe angustiem. É preciso afinidade com um tema para se debruçar sobre ele. As inquietações são pessoais, portanto, e a forma como elas são tratadas na hora de expor os resultados da pesquisa também o são.

O historiador suíço Jacob Buckhardt, por exemplo, elegeu como seu tema o Renascimento italiano e apresenta sua pesquisa como se fosse um mestre de cerimônias, abordando a partir de suas obras de arte preferidas determinados períodos e personagens do período. Segundo o historiador alemão Peter Gay que analisou o estilo de Buckhardt, isso demonstra muito da sua personalidade: Buckhardt era um homem conservador que se incomodava com os avanços do mundo moderno (viveu no século XIX) e que teria escolhido o Renascimento como tema, pois este período lhe parecia muito exótico e talvez pudesse explicar como a Humanidade teria chegado á esses novos e caóticos tempos.Buckhardt enxergava o Renascimento como uma época de excessos, algo do qual não gostava tanto. Ainda assim escolheu esse período para investigar por causa do exotismo e da excentricidade que parecia exalar. O modo como aborda o período, como um mestre-de-cerimônias, demonstra a sua austeridade, sua formalidade.
Temos a narrativa mutante do causo, a narrativa épica de Leone e a narrativa formal de Buckhardt nesse texto. Todas demonstram a diversidade desses recursos, diversidade essa que depende dos meios de se contar uma história e da personalidade de quem conta.

quarta-feira, 12 de outubro de 2011

Chumbo grosso

Em dezembro de 1968 é outorgado o Ato Institucional N. 5, conhecido como o começo dos anos de chumbo, o período em que a ditadura militar se tornou mais rígida. Muitos acreditam que o motivo para o famigerado AI-5 tenha sido o discurso do deputado Márcio Moreira Alves em setembro. Nesse discurso o deputado criticava os militares no poder pela conivência com as torturas executadas nas prisões e pedia que as mulheres dos soldados fizessem uma "greve" contra seus maridos e que todos boicotassem o Sete de Setembro. Altamente indignado com as afirmações do deputado, o presidente pedira a cassação de Márcio, porém ela fora negada pela Câmara dos Deputados.

Marechal Arthur da Costa e Silva imita Poncios Pilatos: lava as mãos diante do AI-5. Charge de Baptistão.
O historiador Carlos Fico critica esta visão e propôe uma nova forma de encarar o AI-5. Sim, o AI-5 aumenta o aparato repressivo, aprofunda a ditadura militar, mas sua origem não pode ser encontrada no discurso de Márcio, mas em pontos anteriores á esse. É consenso que o golpe de 1964 não foi feito por todos os militares e eles não tinham uma ideologia única e coerente os guiando. Era o anticomunismo e a insatisfação com o governo Goulart que os movia. Tanto que após concretizado o golpe, o governo levou muito tempo para se organizar, se consolidar. Muitos grupos disputavam a direção de regime, dentre eles o que ficou conhecido como "linha dura", constituído de militares guiados por uma utopia autoritária. Segundo Carlos Fico, utopia autoritária era a idéia de que o Brasil só se desenvolveria e se protegeria do comunismo se um governo autoritário fosse criado.

A história da ditadura militar pode ser encarada como a ascensão, consolidação e decadência da linha-dura. É apenas uma chave de compreensão, não quer dizer que seja a realidade em si. O fracasso do governo Castelo Branco, que se considera líder de um grupo mais moderado, em deter a ascensão da linha dura vem em 1967 com a indicação de Costa e Silva, um dos porta-vozes do grupo. O AI-5 pode ser visto, segundo essa chave de compreensão, como o cume desse processo da linha dura de tentar efetivar sua utopia autoritária.  Fico diz que a linha dura deixa de ser um simples grupo de pressão para se tornar, a partir do governo Costa e Silva, uma comunidade de informações e de segurança. O que significa isso? O grupo chega ao poder e passa a repousar em certas instituições estratégicas, instituições que investigam, censuram e reprimem. Instituições como o Serviço Nacional de Informações (SNI), a política política (que podia se ramificar no poderoso DOI-CODI ou nos serviços de inteligência das Forças Armadas, como o CIE, do Exército, ou o Cenimar, da Marinha) e os departamentos de censura.

Marechal Costa e Silva, general Médici, general Geisel e marechal Castelo Branco (de terno).
O começo do fim vem com a gradativa perda de apoio que o governo adquire por suas ações repressivas. O apoio de parte do empresariado, da Igreja Católica e do próprio povo vai se perdendo com as ações, com o consentimento ou não do governo, como os atentados do Comando de Caça aos Comunistas (CCC) ou da Operação Bandeirantes (OBAN). Além disso, a imagem do Brasil no exterior não é das melhores, por conta das denúncias de tortura nunca investigadas. As organizações de Direitos Humanos iniciam uma campanha rigorosa contra o Brasil. Não bastasse isso, os primeiros efeitos do "milagre brasileiro" encetado pelo governo Médici começam a ser sentido ainda na década de 1970. Em 1974, para piorar, temos a crise do petróleo. A linha dura estava desmoralizada e "encurralada", para usar a expressão do jornalista Elio Gaspari. Daí Ernesto Geisel decretar  início de uma abertura "lentra e gradual". Uma das séries de medidas do Pacote de Abril é justamente a revogação do AI-5.

Carlos Fico
Ascensão e ocaso da linha dura. É uma hipótese interessante afinal. Traz uma nova luz sobre um momento tão rico de nossa história sobre o qual não é muito refletido do ponto de vista historiográfico. Os historiadores, vejam só, são novatos na discussão sobre a ditadura militar. Grande parte da produção sobre o assunto, nos mostra Carlos Fico, vem de cientistas políticos e de memorialistas. O período fica entre o discurso panfletário da direita ou da esquerda e as análises políticas da academia, a maioria internacional (os chamados brasilianistas). Os historiadores chegaram á pouco tempo na discussão, questionando o caráter estrutural (se o papel maior se deve á economia ou á política) ou não do golpe, as práticas culturais ou não das instituições do regime, dentre outros aspectos. O tema está longe de ser esgotado.