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sábado, 15 de março de 2014

Crônicas do Quarto Poder

Praia de Imbetiba, Macaé, anos 50.

Sobre a história da pacata Macaé, no interior do Rio de Janeiro, achei um fato bem curioso. O político Eduardo Serrano, vindo de Niterói e com fortes laços políticos na Capital, se candidatou a prefeito desta cidade e foi eleito em 1959 para ser cassado em 1960. O motivo: sua sexualidade. Acontece que os jornais exploraram a sua até então discreta preferencia por companheiros do mesmo sexo e batendo na tecla da moral e dos bons costumes, o prefeito teve seu mandato cassado.
Encontrei na internet um trabalho bem interessante da estudante Evelyn Soares Valente sobre o episódio que explora o peso da mídia como formadora de opinião, usando aqui ainda que marginalmente o conceito de construção do consenso presente em Noam Chowsky e adaptado por Bernardo Kucinski ao contexto brasileiro.
*Falando em prefeitos, outro dia andando pelo centro de Macaé encontro um sujeito em cima de um caixote com roupas amarrotadas prometendo mundos e fundos. Descobri pelo jornal O Rebate de José Milbs que se trata de uma figura super conhecida na cidade: Mariola, o vendedor de mariolas que desde 2011 está se candidatando a prefeito. Muitas de suas propostas eram interessantes: chamar a polícia de Campos para patrulhar a cidade, criar um batalhão especial para expulsar o tráfico de Malvinas e Nova Holanda e incentivar a venda de mariolas.

quarta-feira, 24 de outubro de 2012

Rapidinhas


Manaus, 50 graus, fez 343 anos. Eu rezando para São Pedro se sensibilizar e abrir a torneira e nada...
O julgamento do mensalão prossegue. A novidade foi a condenação de Marcos Valério á 40 anos de prisão. Em um país sério, eu ficaria contente com isso, mas...
Aliás, esse julgamento perto das eleições municipais é bem curioso, não? O governo, enquanto fazia a dança da cadeira com os ministros e lançava as obras do PAC, deve ter descuidado com a data.
Engraçado como o ministro Joaquim Barbosa, até então relativamente desconhecido, se tornou uma celebridade. Paladino da ética e da justiça pela direita e marionete da oposição para os governistas. Vi uma capa da Veja elogiando a trajetória do ministro e me lembrei que há alguns anos a mesma revista publicou um perfil do juiz, mas em tom menos elogioso. Na realidade, enxergavam a sua nomeação por Lula como mais um ato demagógico. Acusaram o cara de bater na mulher e tudo mais...
Na imprensa de esquerda ele é retratado como alguém que se atrapalha com as suas sentenças e que desconta a sua raiva contra as dificuldades enfrentadas em sua vida nos acusados. Os mesmos jornais que aplaudiram o ministro quando ele acusou o colega Gilmar Mendes de ser um coronel, em um momento em que estava de cabeça quente.
Eu? Não admiro, mas também não crucifico o cara. Aprendi a desconfiar dos paladinos da ética e justiça desde que Demóstenes Torres foi desmascarado. Por enquanto, só acompanho o andar da carruagem.
Outro fato que abalou a semana: a promessa de suicídio coletivo pelos povos Guarani Kaiowá no Mato Grosso do Sul. Na verdade, não falaram em suicídio, mas em dar sua vida pra continuar nessa terra. Na carta que enviaram ao STF demonstram toda a sua descrença com a justiça após terem confirmado mais uma reintegração de posse aos fazendeiros.
A etnia tem um dos índices mais altos de suicídio, daí a confusão geral. A falta de perspectiva e a carência em que vivem explica o porque dessa epidemia assombrosa. Manifestações estão sendo feitas a torto e direito. Será que cairão no esquecimento como o caso de Belo Monte?

sábado, 9 de junho de 2012

Ao mestre com carinho


O jornalista e cronista Ivan Lessa faleceu. Faleceu longe de casa, em Londres. Onde se auto-exilou desde... há muito tempo. Lessa foi e levou consigo um Rio de Janeiro folclórico, idílico. Sempre pensei nele como o irmão-gêmeo de Sérgio Porto e primo de Millôr Fernandes. No que se refere á escrita: sempre ácido, mas com um estilo informal, um jeito muito carioca de se escrever.
O Rio antigo se foi. Lessa se foi. E o que fica? Sua obra. O Rio antigo e Lessa estarão preservados em suas crônicas. E é isso que me conforta por hora.
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Recomendo essa homenagem de Ricardo Acampora ao mestre: O londrino carioca.

sexta-feira, 29 de julho de 2011

Crônicas do Quarto Poder

A imprensa sempre teve uma relação muito ambígua com o poder; ora apoiando-o, ora atacando-o. Uma coisa é indiscutível: a imprensa é um dos espaços privilegiados para se fazer política. Assim, a imprensa pode denunciar muito bem a essência política de certos períodos.
A cidade de Taubaté, por exemplo, teve sua circulação de jornais iniciada ainda no século XIX. No entanto, era uma produção muito artesanal que dependia de investidores isolados e que tinha uma duração muito pequena. Só a partir dos últimos anos do Império que a imprensa realmente se consolidou em Taubaté fazendo parte do viver urbano realmente.
Sobre imprensa e política, lembremos alguns episódios interessantes: o jornal O Paulista foi criado em 1862 e começou como um órgão independente, até que em 1868 tornou-se um defensor do Partido Liberal (a política imperial era coordenada pelos gabinetes, o Partido Conservador e o Partido Liberal se revezavam no controle desses gabinetes; quando o Partido Conservador estava de posse de um gabinete, o Partido Liberal se tornava oposição e vice-versa). Eram diretores do jornal então o Antônio Joaquim Daniel Prado, seu fundador, e Alfredo de Almeida, um membro mais radical do Partido Liberal.
José Francisco Monteiro, Visconde de Tremembé.
Lembrando que chefe do Partido Liberal em Taubaté na época era o então Barão de Tremembé, monarquista convicto. O Partido sobre sua direção se tornara situacionista e Alfredo não gostara disso. Começa a publicar notas atacando esse fato e, segundo Antonio Mello Júnior, os entregadores do jornal começam a ser perseguidos pela polícia. A situação fica crítica em 1870 quando após atritos sérios com o barão Alfredo se desvincula do partido e declara o jornal como orgão republicano. O diretor do jornal é atacado á noite em represália. Alfredo diminui os ataques ao barão, mas adota o slogans "Liberdade é a nossa divisa!" e "Liberdade política e liberdade religiosa". Em 1876 vende seu jornal para seu cunhado Flávio de Carmago e vai para Pindamonhagaba fundar um novo jornal radical, A Democracia.
Em 1888 foi fundado o Jornal do Povo e em 1890 o engenheiro Fernando de Mattos, conhecido líder republicano local, assume sua direção. Fundado no mesmo ano, O Noticiarista era praticamente um órgão informal dos monarquistas, apesar de se dizer imparcial. Ambos se atacavam mutuamente. Difícil saber quem era mais virulento. Fernando de Mattos passa a assinar editoriais em 1893, já na República, atacando os republicanos de última hora como o coronel João Affonso Vieira que era o intendente municipal. Por causa de seus ataques a polícia invade a redação certo dia e fecha o jornal. Algum tempo depois o jornal voltou e adotou o irônico slogan: "Fundado em 8 de julho de 1888. Assaltado em 22 de março de 1893. Empastelado em 8 de junho de 1893. Restaurado em 7 de setembro de 1894".
Félix Guisard
O Jornal do Povo continuou na ativa durante um bom tempo, diferente de seu rival O Noticiarista que foi  fechado em 1894. Meu colega Ângelo Rubim Alves acredita que ele fora substituído pela Associação Artística Literária como veículo da facção conservadora. Algum tempo depois surgiria um jornal que seguiria os princípios desse grupo político, O Norte, quando se tornarem a situação (com o revezamento dos irmãos Costa na prefeitura durante a década de 1910), assim como também surgiria um jornal de oposição, O Libertário, fundado por Félix Guisard para se tornar o porta-voz da oposição liberal.
Agora vamos á capital do Estado do Amazonas. Manaus, assim como Taubaté, se tornara um importante centro urbano graças á uma atividade econômica, a da borracha, e tentava se ordenar e viver como um centro urbano europeu. A pretensão em se tornar uma cidade cosmpolita fazia com que sua insipiente imprensa (nascida na segunda metade do século XIX, mas ainda não possui uma data precisa para seu surgimento) se dedicasse á assuntos extra-locais. Em sua maioria, os jornais obedeciam a lógica dos primeiros anos da imprensa no Brasil: eram artesanais, virulentos e efêmeros. O historiador Arthur Reis lembra que eles eram abertamente partidários - criados pelos dissidentes do Partido Liberal, os maniveiros e os históricos, e do Partido Conservador para se atacarem. O mesmo admite que só a partir de 1870 que eles tentam ser mais "imparciais" e se dedicam á temas mais variados e regionais.
O maior exemplo pode ser o jornal fundado pelo artista gráfico Manuel da Silva Ramos em 3 de maio de 1851: Cinco de Setembro. Ele passaria a se chamar Estrella do Amazonas em 1852 em homenagem á criação da Província do Amazonas. Estrella do Amazonas seria  um dos jornais de maior circulação, justamente por publicar máterias variadas sobre a cidade e seu comércio.
Eduardo Ribeiro
A expansão para outros temas nos jornais manauaras não significou que eles abandonaram a política, mesmo quando diziam ser imparciais. Ora, Eduardo Ribeiro quando fora governador do Amazonas, já na República, publica em Manaus o periódico que tinha fundado no Maranhão quando cadete para defender o positivismo: O Pensador. Com a diferença de que em Manaus, O Pensador defenderia o positivismo, a República e as ações do governo. Aliás, os principais inimigos políticos de Ribeiro, o clã Nery, possuia também o seu jornal: Folha do Amazonas. Nas eleições de 1910, a disputa entre Antonio Bittencourt, apoiado pelo dono do Diário do Amazonas, e Silvério Nery, dono da Folha do Amazonas, se fez na imprensa também. Nas eleições de 1913, a mesma coisa aconteceu entre os jornais O Tempo, apoiando Jonathas Pedrosa, e Amazonas e Gazeta da Tarde, simpáticos á Guerreiro Antony. Quando os tenentes tomaram o poder em 1924 entenderam que também era necessário possuirem seu jornal como propaganda de seu governo e também como forma de transparência (uma de suas bandeiras era a moralização da política).
Os empastelamentos e prisões também foram práticas constantes na história da imprensa no Amazonas. O Jornal do Amazonas, fundado em 1875 como veículo do Partido Conservador, foi empastelado em 1878 quando o Partido Liberal assumiu a presidência da Província. Vicente Reis, redator do tradicional Jornal do Commércio, teve ordem de prisão decretada assim que saía da redação do jornal em 1914 simplesmente por criticar o governador Jonathas Pedrosa. O redator e ex-delegado conseguiu fugir dos policiais, se disfarçando de mulher. Décadas depois, o jornal oficial de Plínio Coelho, Trabalhista, foi atacado por policiais á paisana por criticar a atuação do governador Arthur Reis - isso durante os anos iniciais da ditadura militar, quando Plínio já havia sido cassado e se exilado do país. Outro episódio se tornou até cômico: A Notícia era um jornal independente que em 1965 ironizou o governador Arthur Reis, este foi prender o seu dono, Manoel Andrade Neto, com sua guarda particular. No entanto, Andrade Neto não estava em casa e depois de esperar um tempo, Arthur Reis, furioso, desistiu da idéia. Mas antes de ir embora, decidiu se vingar do desafeto chutando e quebrando vasos de plantas da varanda da casa dele. Graças á Abrahim Aleme, correspondente do Jornal do Brasil no Amazonas, a notícia foi divulgada para todo o país o que deve ter impedido maiores represálias do governado á Andrade Neto, que nos anos seguintes se aproximaria do MDB, a oposição oficial á ditadura. A sede d' A Notícia foi palco para o encontro entre Plínio Coelho e Gilberto Mestrinho, mediado por Andrade Neto, onde se selou uma união para as eleições livres estaduais de 1982, no final da ditadura militar.
Arthur Cézar Ferreira Reis
Como podemos ver, a imprensa diz muito sobre a política de uma época. Os ataques e as perseguições e empastelamentos revelam como era polêmica e violenta a política dessas duas cidades em meados do século XIX. Afinal, estamos falando de cidades que estavam se transformando, uma se urbanizava graças ao café e posteriormente á indústria têxtil, enquanto a outra foi sustentada pela borracha e por pequenas fábricas de serviços e beneficiamentos antes de cosntruir seu distrito industrial. Mesmo assim, ainda sobrevivem alguns elementos daquela política provinciana. A adaptação com a consolidação da imprensa no viver urbano demora um bocado para seus políticos, embora eles já tivessem a adotado como seu veículo de propaganda, como mostramos.
E hoje? O que diz da política nossa imprensa hoje?

sábado, 14 de maio de 2011

Casoys e Bolsonaros

Jair Bolsonaro (PP-RJ).
Tem causado polêmica as opiniões do deputado estadual do Rio de Janeiro Jair Bolsonaro desde que ele concedeu uma entrevista ao CQC há mais de um mês. Defendendo os tempos da ditadura, associando promiscuidade á cor da pele ou o homesseuxalismo á falta de moral e educação, Bolsonaro se tornou assunto de muitos jornais. Apesar de vários pedidos de cassação ele se manteve no cargo.
Apesar dos seus comentários absurdos, Bolsonaro pelo menos manifesta seu preconceito ao vivo e á cores. Muito me preocupa outros colegas dele no governo ou mesmo líderes civis dito liberais que estão cheios de preconceitos do tipo, mas escondem sobre uma capa de polidez e esclarecimento. Coisa de um ano atrás, o jornalista Boris Casoy degradou a profissão de lixeiro, sem saber que ainda estava ao vivo. Apesar de pedidos, Casoy continuou apresentando o jornal após se retratar.

Boris Casoy
O brasileiro é assim: acha que não tem preconceito. Essa é uma construção ideológica muito antiga e já foi mais do que estudada pelos sociólogos e historiadores - o mito da democracia racial e da cordialidade já foi demolido. Demolidos, mas continuam vivos. Interessante como membros de uma dita classe esclarecida conseguem ser arrogantes e ignorantes. Interessante como de uns tempos para cá fomos tomados por uma onda do politicamente correto que na realidade não passa de hipocrisia.
Projetos que dizem defender as minorias tem uma clara intenção de conquistar mais eleitores, de manipular a opinião pública. Por um lado, eles se demonstram bastante produtivos, uma vez que assuntos que antes não podia nem se mencionar agora são debatidos em público, como a questão racial ou mesmo a sexualidade. Ora, a polêmica serve assim para o verdadeiro esclarecimento. Democracia é debate. Por um outro lado, estes projetos ajudam a radicalizar a sociedade. Não estou aqui defendendo a paz social como muitos conservadores e até populistas fazem. Pelo contrário, a sociedade que pretende ser democrática não pode ter medo de conflitos. O que quero dizer é que cada vez mais as pessoas passam a ser rotuladas segundo critérios simplistas demais.
Voltando á vaca fria: Bolsonaro, contudo, tornou-se o porta-voz dos conservadores. Mais uma estratégia política (ou melhor, de politicagem) que uma questão de ideal, na minha opinião. Nas próximas eleições, podem estar certo, o lema de Bolsonaro será o "novo herói da família brasileira". É o velho caso dos nossos representantes que não nos representam, só nos manipulam, mas essa é outra história.
A bolada da vez tem sido o projeto de lei que prevê uma série de medidas para acabar com a homofobia. Entre uma das medidas está uma pequena cartilha que será distribuida nas escolas que apresentará aos alunos o tema da homossexualidade. Qual o objetivo dessa medida? Começar o esclarecimento e o sentimento de respeito sobre o homossexualismo nas escolas, através da educação. Qual o mérito dessa medida, na minha opinião? Nenhum. Ao contrário do que defende Bolsonaro isso não vai transformar nossos jovens em homossexuais e ao contrário do que acreditam os defensores da medida ela não vai conscientizar nossa juventude. Pelo simples fato de que nossa educação está falida. Qualquer tentativa de conscientizar o povo sobre alguma coisa deve passar pela educação e numa educação falida o resultado claramente será nulo.
Um exemplo: há alguns anos lançaram uma cartilha contra o racismo. O simples fato de não enxergarmos na mídia tantas referências ao preconceito racial (sejam nas manchetes como na fala dos funcionários desse meio) significa que o racismo diminuiu ou que ele apenas anda escondido. A onda do politicamente correto produz essa internalização dos preconceitos. A conscientização não vêem com uma cartilha apenas, ela tem de ser feita com todo um acompanhamento da mídia, dos professores e da família, principalmente. Nesse sentido, todos deixam a desejar: a mídia se preocupa mais em atacar que discutir, os professores não estão preparados com o baixo salário e a alta carga de trabalho e as famílias simplesmente não se pronunciam sobre o assunto, por arrogância, preguiça ou indiferença.

Sem um real trabalho de conscientização (que passa pelo ensino e pela discussão) continuaremos nessa situação empobrecedora. Nós estamos falando de questões importantes com uma maturidade e sensatez incrível. Rotulamos e atacamos, seja quem for. Essa é a radicalização de que falava. É algo tremendamente superficial que não contribui muito para a democracia. O que estamos precisando é de nos despir de nossas armas e sentarmos para debatermos questões como a de gênero, respeitando nossos partidários e adversários. Também precisamos agir: cobrar mudanças no sistema educacional, mas não só pressionar. Precisamos apresentar propostas e fazer o papel de fiscal constante da educação se não em nossa comunidade pelo menos em nossa família. A construção do respeito passa pela escola, disso todo mundo sabe, mas não somente por ela. A educação não se restringe aos muros da escola e quando se trata de cada um fazer sua parte pela educação de uma forma geral é aí que começa o problema.

sexta-feira, 4 de fevereiro de 2011

Heroís ou vilões?


Qualquer um aqui que acompanhe os jornais deve saber o que está acontecendo no Egito e em boa parte dos países do Oriente Médio. Mas não é sobre isso que pretendo falar nesse post hoje. Invoco aqui outro acontecimento recente: a prisão do fundador do Wikileaks, Julian Assange, por disponibilizar documentos secretos do governo norte-americano, por exemplo.

Esses últimos acontecimentos levaram a um debate sobre as mídias sociais. Boas ou más?, basicamente é essa a questão principal. Ao disponibilizar informações secretas, Assange ajuda á população á ter ciência do que seu governo faz ou atrapalha operações de fundamental importância? Muitos analistas brasileiros reclamam do esquentado nível dos comentários políticos na blogosfera, nível que se revela mais acentuado nos EUA, como já comentamos antes aqui. Enquanto muitos defendem a democratização da informação pelas mídias sociais e a consolidação do regime democrático por causa das mesmas, o especialistas em mídias sociais Evgene Morozov disse essa semana que "a idéia de que a internet ajuda a democracia é uma tecno-utopia".

Acredito que a questão não é se elas são boas ou más, mas quem as utiliza. As novas mídias sociais são ferramentas que potencializam a expressão individual e a ação coletiva. Realmente as mídias sociais democratizaram a informação (em partes, afinal metade do mundo ainda continua sendo analfabeta e sem acesso a computadores). Ora, vejam a maré de blogs, muitos são intimistas, mas existem, claro, aqueles mais dedicados a certos temas como a política ou a imprensa. E vejam também os movimentos de revoltas no Oriente Médio: os protestos do Egito e da Síria foram organizados por meio das mídias sociais, como o twitter ou o facebook. O poder dessa revolução digital é grande, mas essa tecnologia está nas mãos da Humanidade que, como sabemos, utiliza grandes descobertas para os mais variados objetivos.

Olhando por essa lado, as mídias sociais são dúbias: ora conservadoras, ora revolucionárias. Exemplos não faltam, aliás, muitos estão presentes aqui no corpo do texto. Por causa dessa sua posição, outra questão nos é imposta: devemos controlar esse avanço ou não? Afinal, ondas de ódio podem ser facilmente disseminadas pela internet, como tem acontecido na China quando usuários identificam uma pessoa com a qual abominam e a perseguem (essa espécie de buylling virtual é conhecido como "busca de carne humana"). Já existem, inclusive no Brasil, projetos para uma "polícia da web", mas pelo próprio caráter dessa tecnologia, controle absoluto sobre a rede ainda parece muito difícil. A China, por exemplo, vem tentando barrar esse avanço, temendo as consequências já expostas aqui, mas cada vez mais a internet parece estar se soltando de suas amarras lá.

O que fazer então? Bem, as mídias sociais talvez sejam parte dessa terceira revolução tecnológica que tanto tem se falado ultimamente. Sim, elas nos ajudam e nos atrapalham. Outra coisa também é certa: elas dificilmente sairão de nossas vidas tão cedo. Esses debates demonstram que estamos tentando achar uma maneira de conviver com os novos desafios que ela trouxe. Se acharemos formas de controle ou escapismo, só saberemos com o tempo.

terça-feira, 18 de janeiro de 2011

A onda

Há algum tempo, um rapaz atirou na deputada democrata Gabrielle Gifford e matou um juiz e uma garota de 9 anos durante um comício no Arizona. Semana passada, o grupo Jews Funds for Justice pediu num abaixo-assinado a demissão do apresentador ultraconservador Glenn Beck da Fox News. Qual a ligação entre os dois fatos? A onda.

Não me refiro àquele filme sobre um professor que tenta ensinar de um modo pouco ortodoxo o que é fascismo aos seus alunos (refilmado recentemente), embora tenha alguma ligação com o nosso assunto. Me refiro á onda de ódio disseminada pela direita da direita norte-americana, chamada por alguns como "obamofobia".

Os pontos mais visíveis dessa onda foram, além das denúncias de um suposto plano de islamização do EUA pelo então candidato Obama até os comentários de Glenn Beck sobre matar Michael Moore, o documentarista que fez os ácidos documentários Farheinnt 11 de setembro e Tiros em Columbine.

E daí?, você me pergunta. Não foi Glenn Beck que colocou a arma na mão do atirador. Realmente é verdade. Mas o clima tenso criado tem sua parcela de culpa. A radicalização da política é um traço marcante nos EUA, principalmente agora quando o governo Obama não está bem das pernas com a quantidade de pessoas desempregadas andando pela rua. O jornalista Luiz Carlos Azenha em artigo recente atribui á mídia grande papel nisso, uma vez que, na tentativa de competir com a blogosfera, muitos tenham apostado em comentaristas exaperados.

A radicalização da política, por outro lado, não é próprio dos EUA. Ora, a América Latina possui uma certa tradição em demonizar e sacralizar certos atores políticos. Engana-se quem pensa que isso acabou com a Guerra Fria. Ainda hoje podemos ver muita gente, seja da "esquerda" ou da "direita", repetindo velhas ladainhas e atacando quem quer que discorde consigo.

O extremismo impede um debate sério e uma visão realmente ampla das questões que merecem ser debatidas. Ao invés de soluções e alternativas temos propostas mancas, quando não se desbanca para a pura acusação e briga. Talvez as mortes no Arizona e o atentado façam muitos americanos e brasileiros refletirem sobre isso.

sábado, 11 de setembro de 2010

O monsenhor

Quando ainda estava em Taubaté na minha procura por um tema acabei por esbarrar no nome do monsenhor Antonio Nascimento Castro (1857-1942). Na maioria dos jornais falava-se nele. Á medida que me aprofundei na pesquisa regional descobri que ele era não só um importante homem de imprensa (polemista, principalmente), mas um hábil político.

Nascido em São Luís do Paraitinga, de pai desconhecido (o que levantou suspeitas de sua paternidade ter vindo de um padre local chamado Francisco Calasâncio), Nascimento Castro tinha, até onde sabemos dois irmãos: José Valois de Castro (1856-1939) e Calasâncio de Castro. Valois também veio a se tornar cônego e um dos mais importante nomes do Partido Republicano Paulista, sendo deputado federal e senador diversas vezes.

Nascimento Castro estudou no Seminário Episcopal de São Paulo, ou seja, teve uma formação romanizadora (a romanização ou ultramontanismo era parte de um movimento da Igreja Católica que pregava á volta á ortodoxia e á liturgia e visava expandir a influência da Igreja, diante da ameaça do liberalismo e do socialismo). Em 1881 veio para Taubaté onde se tornou vigário da paróquia de São Francisco das Chagas, hoje conhecida como Igreja Matriz.

Em pouco tempo se tornou uma das figuras mais importantes da comunidade, não só por o seu peso simbólico como o vigário da cidade, mas por suas ações na imprensa e na política.

Nascimento Castro tinha muita admiração pela literatura e pela apológética (formas de defender a ortodoxia religiosa), por isso se envolveu na imprensa. Primeiro passou a colaborar com o jornal conservador O Noticiarista, fundado em 1888, com artigos sobre a Virgem Maria, as liturgias católicas, além de atacar personalidades liberais e maçônicas da cidade. Em 1906 ajudou a fundar o jornal A Verdade, que se dizia um jornal eminentemente católico, e ali assinava artigos virulentos contra o poder municipal, então nas mãos dos liberais. Finalmente em 1910 também participa da fundação do jornal oficial da recém-criada Diocese de Taubaté (formada em 1908), O Lábaro, o qual foi o redator-chefe até a sua morte em 1942.


Na política destacava-se a sua ação em nome do grupo mais conservador, reunido em torno do Visconde de Tremembé, e que tinha como principais porta-vozes os irmãos Câmara Leal. Nascimento Castro foi nomeado vereador em 1892 e se tornou intendente municipal por ocasião de uma viagem forçada que o intendente eleito teve que fazer. Participou, na Câmara, das obras para revitalizar a rede de esgoto da cidade e a iluminação, mas o fato mais polêmico foi, sem dúvida, o seu pedido de 2 contos de réis para reformar a Igreja Matriz. Polêmico porque suscitou um debate entre os liberais e conservadores, aqueles dizendo que a Câmara não tem esse dever para com a igreja, uma vez que a República é um estado laico e estes alegando que a religião católica era parte da própria identidade nacional, sendo impossível separá-la dos nossos deveres cívicos. Nascimento Castro foi implacável, mas os 2 contos de réis não vieram e isso gerou um grande descontentamento na elite local, cindindo até os próprios liberais.


A ação de Nascimento Castro também foi significativa no caso do Visconde de Tremembé. O nobre tinha se envolvido em uma luta com o operário alemão Augusto Kreye, por causa das cabras dele terem invadido a propriedade do Visconde. A discussão terminou em tentativa de assassinato -o Visconde deu um tiro em Kreye, mas pegou em seu chapéu. Kreye abriu um processo contra o nobre, apoiado principalmente por Eugênio Guisard (irmão do industrial Félix Guisard que tinha idéias socialistas), mas o grupo conservador fez de tudo para "melar" as audiências. Inclusive Nascimento Castro, que pediu para verem a ficha do operário na capital, onde ele esteve antes, e ao descobrir que havia sido preso por agitação consegui prende-lo com a ajuda das autoridades paulistanas. O processo acabou em um acordo entre ambas as partes, tão desgastado estava o assunto.


Nascimento Castro, como podemos ver, é um personagem muito rico, pois analisar suas ações nos abre um leque de possibilidades de analisar Taubaté em meados da República. Vimos aqui apenas dois desses aspectos de sua vida, a imprensa e a política, mas existem muitos outros como a educação (participou da fundação e organização de muitas escolas como o Externato São José, o Instituto de Agricultura e Comércio, dentre outros) e a questão social (afinal ele tinha fundado um Centro dos Operários Católicos). De qualquer maneira, Nascimento Castro, desconhecido hoje na memória local, começa a ser compreendido á luz de seu tempo pelo trabalho de grandes pesquisadores como Isnard Albuquerque Câmara Neto, Mauro Castilho Gonçalves e Tiago Donizette Cunha. Espero um dia contribuir para essa compreensão.

terça-feira, 22 de junho de 2010

Liberdade de Imprensa II

Bem, continuaremos falando sobre a liberdade de imprensa.
No post anterior falamos sobre o direito á liberdade de imprensa, um direito criado pela modernidade e conquistado no decorrer dos últimos séculos. Hoje abordaremos um aspecto desse direito atualmente: os limites da liberdade de imprensa.
A luta contra a censura, em muitos países ocidentais, e sua consequente vitória (apesar de ás vezes reaparecer uma fagulha de censura) estabeleceu de uma vez por todas o direito á liberdade de imprensa. No entanto, alguns chegam a uma defesa quase fundamentalista desse direito. Tais defensores esbarram em outros direitos (ao meu ver tão importante e cruciais quanto á liberdade de imprensa) e justificam a quebra deles por meio da liberdade de imprensa. Me refiro principalmente ao direito á privacidade e a tolerância religiosa. Alguns jornais tem utilizado a liberdade de imprensa para justificar a entrada na vida não só de celebridades (embora esse seja o ramo mais rentoso), mas de pessoas envolvidas direta ou indiretamente na vida pública e também para atacar certas comunidades religiosas. A bola da vez é a comunidade muçulmana, em vista do crescimento do fundamentalismo no Oriente Médio e dos lamentáveis incidentes envolvendo membros do jornalismo e radicais (como o caso do assassinato do jornalista holandes Theo Van Gogh por radicais islãmicos). Não estou justificando o radicalismo islâmico (afinal, ele representa apenas um ramo da religião muçulmana), mas enfatizando o direito á qualquer crença religiosa e o respeito á ela, afinal esse é um direito garantido por nossas constituições e importante ferramenta para o desenvolvimento e manutenção da tolerãncia e da convivência.
Se alguns setores da imprensa tem culpa no cartório, muitos leitores também tem, afinal, esse mercado só é grande e lucrativo porque existe um público que adora consumir fofocas e se diverte menosprezando outras religiões e culturas. Mas fofoca e preconceito sempre existiu na história e sempre existirá, o problema é que ambo se tornaram verdadeira febre ultimamente. Estamos tentando construir um mundo menos opressor e mais compreensivo e precisamos que estes radicalismos diminuam. Uma conscientização do público e da imprensa se faz preciso.

domingo, 13 de junho de 2010

Liberdade de imprensa

(Mafalda, Quino)
A liberdade de imprensa sempre foi um objetivo muito perseguido e muito barrado na história da imprensa mundial. Hoje gabamos de termos conseguido alcançá-lo. Mas volta e meia aparece alguma novidade no sentido de cercear a liberdade da mídia.
Durante a ditadura militar existia sempre o medo de novas modificações na chamada Lei de Imprensa, cada vez mais em conformidade com a censura e autoritarismo do AI-5. No Estado Novo quem vigiava os periódicos era o Departamento de Imprensa e Propaganda, o temido DIP, que tinha métodos muito mais sutis de impedir a circulação de certos jornais que não lhe fossem bem vistos, como, por exemplo, cortar seus suprimento de tinta e papel ou aumentar os impostos prediais.
Se a imprensa é um veículo muito marcante e popular, por isso sempre visada e perseguida, o que dirá então da internet? A proposta da internet era justamente a de permitir a comunicação entre as várias partes do mundo, entre as pessoas. E recentemente se tornou mais popular ainda ao criar uma mídia mais colaborativa. Defender um ideal ou desmascarar algumas mentiras (bem como criar outras) é mais viável e poderoso que na imprensa escrita do século passado.
Nem por isso está isenta de ser censurada. Ora, na China, como sabemos, há a censura da internet. No Brasil não faz muito tempo se discutia um projeto de lei para fiscalizar a propaganda política em blogs e outras plataformas. Não sei como anda o status do projeto atualmente, só sei que ele parece ter sido engavetado... por enquanto.

terça-feira, 3 de novembro de 2009

União?

Chamo a atenção para dois fatos curiosos:
No edital d'A Folha, jornal taubateano da década de 1930 de propriedade do jornalista Evaristo Campos, do dia primeiro de novembro de 1931, número 13, fala-se sobre a época áurea da imprensa local (6 jornais de grande circulação dividindo o mesmo espaço!) e levanta a bandeira de organizar os jornalistas da cidade em torno de uma associação que protegesse os interesses dessa classe. Mencionam o fracasso da Associação Norte-Paulista de Imprensa e propõe um modelo de menor abrangência.
No livro Memórias da Mídia Taubateana de Eliane Freire de Oliveira e Francisco de Assis existe uma parte do depoimento de um grande nome da imprensa loca, dentre tantos, chamado Waldemar Duarte (criador dos jornais A Voz da Cidade e A Voz do Vale do Paraíba, entre os anos de 1950 e 1970), que é muito interessante. Comentando a situação da Associação Taubatana de Imprensa e Rádio, que fundou e por isso é seu presidente honorário, ele nos revela que a associação está (ou pelo menos até o começo do ano 2000, quando foi feito o depoimento) sem sede e que não entra quase ninguém mais nela.
Vejam só, a imprensa, uma instância muito importante para a sociedade, enfrenta desde o começo do século passado até agora dificuldades para se reunir e discutir seus problemas. Por quê isso? Waldemar atribui a culpa á descontinuidade dos governos municipais (um incentiva, o outro não e por aí vai) e á visão imediatista e fechada dos novos profissionais que só querem passar na faculdade e ter um emprego. Na minha opinião, essa dificuldade em organizar alguma coisa não é só na imprensa, mas em quase todos os outros setores da sociedade, por causa dessa cultura de não participação formada no nosso país desde os tempos da colônia. Até curá-la desse problema acho que a imprensa local ainda tem muito chão (esburacado) para andar.

quarta-feira, 30 de setembro de 2009

Imprensa ontem e hoje

Pesquisando outro dia os jornais das primeiras décadas do século passado, da excelente Hemeroteca Antônio Mello Júnior do Arquivo Municipal Dr. Félix Guisard Filho, me deparei com a notícia de um Congresso de Imprensa Regional que aconteceu entre 14 e 15 de novembro de 1928, em Caçapava e Taubaté respectivamente.

A finalidade do Congresso era clara: reunir os jornalistas do interior do Estado em torno de uma espécie de sindicato e promover uma maior interação desse "sindicato" para com a sociedade. Na segunda sessão, realizada em Taubaté, tais objetivos puderam ser definidos. Criou-se a Associação Norte-Paulista de Imprensa e apenas alguns dias depois ela já começou o seu trabalho coletando todos os números de todos os jornais de região para criar uma espécie de banco de dados. Se essa idéia frutificou não posso dizer ao certo porque ainda não me aprofundei nessa pesquisa.

Observando esse quadro vemos os primórdios da organização do ofício do jornalista em nossa região. Ofício esse introduzido, segundo a maioria dos historiadores, na segunda metade do século XIX e aprofundado com a riqueza do café e difundido pelo desenvolvimento do centro urbano. Em uma população de pessoas pobres, oriundas do campo e com um baixo nível de alfabetização é o caso de se questionar quem liam esses jornais. No entanto, a imprensa era, naquele momento, o melhor espaço para o debate político, seja pela sua simplicidade, seja pela falta de outros meios para isso.

A imprensa, porém, não era só espaço de exercício da cidadania, mas também a criadora de cidadania, uma vez que a maioria dos redatores e diretores dos jornais da cidade desejavam instruir a população, "civilizá-la". A imprensa fazia parte, portanto, de um projeto modernizador das elites locais, como bem foram em outras regiões do país e de América Latina, que na verdade era um processo de "civilização" para seus operadores. Essa concepção da imprensa como canal disciplinatório está implícito nos próprios editais de anúncio e comemoração do Congresso e nos discursos de seus oradores.

Olhando para os jornais atuais eu me pergunto se essa concepção continuou. Em alguns, nitidamente sim, em outros, ela está muito diluída. Não sei se por falta de recursos para tanto ou por falta de interesse mesmo. No entanto, os jornais atuais tem seus defeitos e suas qualidades.
Comparados com os jornais do começo do século XX, os quais o que mais predominava eram notícias do município geralmente relacionadas á política, os de hoje são muito mais abertos e diversificados. Há muitos que reclamam disso, que por serem cosmpolitas demais perdem a sua função que é informar a comunidade sobre o que acontece nela. A razão disso pode ser o contexto em que vivemos: afinal estamos em um mundo globalizado no qual a velocidade da informação é tanta que mídias tradicionais como o jornal correm risco de desaparecerem.

Avaliar um jornal de hoje em função de um da década de 1930 parece inevitável para qualquer observador da sociedade, porém, para o historiador fazer tal feito significa cometer um dos pecados capitais do ofício: anacronismo. Afinal, tudo que for estudado e avaliado tem que levar em conta o contexto em que tal objeto está inserido; seja na República Velha das oligarquias regionais ou no Brasil atual das multinacionais e multimídias, o contexto explica muito o caráter do que foi produzido nele.