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sábado, 15 de março de 2014

Crônicas do Quarto Poder

Praia de Imbetiba, Macaé, anos 50.

Sobre a história da pacata Macaé, no interior do Rio de Janeiro, achei um fato bem curioso. O político Eduardo Serrano, vindo de Niterói e com fortes laços políticos na Capital, se candidatou a prefeito desta cidade e foi eleito em 1959 para ser cassado em 1960. O motivo: sua sexualidade. Acontece que os jornais exploraram a sua até então discreta preferencia por companheiros do mesmo sexo e batendo na tecla da moral e dos bons costumes, o prefeito teve seu mandato cassado.
Encontrei na internet um trabalho bem interessante da estudante Evelyn Soares Valente sobre o episódio que explora o peso da mídia como formadora de opinião, usando aqui ainda que marginalmente o conceito de construção do consenso presente em Noam Chowsky e adaptado por Bernardo Kucinski ao contexto brasileiro.
*Falando em prefeitos, outro dia andando pelo centro de Macaé encontro um sujeito em cima de um caixote com roupas amarrotadas prometendo mundos e fundos. Descobri pelo jornal O Rebate de José Milbs que se trata de uma figura super conhecida na cidade: Mariola, o vendedor de mariolas que desde 2011 está se candidatando a prefeito. Muitas de suas propostas eram interessantes: chamar a polícia de Campos para patrulhar a cidade, criar um batalhão especial para expulsar o tráfico de Malvinas e Nova Holanda e incentivar a venda de mariolas.

sábado, 27 de abril de 2013

Outrem

O pessoal.
Foto: Maurílio Sayão.

Ninguém se faz sozinho.
A cada dia comprovo mais a veracidade dessa máxima.
Nós somos seres sociais, por mais independente que tentemos ser. Sempre haverá alguém a mais, sempre haverá o Outro. Claro, pra muitos essa constatação é um tanto preocupante: ter se relacionar com os outros é sempre frustrante, pois eles não correspondem ao que esperamos ou queremos deles. Essa é a maior força do Outro. Por ser diferente e a um só tempo igual, o Outro nos enriquece.
Hoje acredito que ter bons interlocutores vale tanto como ter bons valores. Nossa identidade se faz no diálogo com as demais identidades. Fica nítido o motivo de nossas ações, somos levados a reafirmar ou rever nossas opiniões.
Para mim, esse blog e as redes sociais, independente de todas as dificuldades e besteiras que ambos me proporcionam, tem o seu lado enriquecedor que é justamente esse de estabelecer diálogos e pontes. Só por conta dele insisto em ter ainda um blog e um perfil em redes sociais.

quinta-feira, 7 de fevereiro de 2013

Pare, olhe, ouça, pense


Toda cidade deveria ter um cineclube. É um desejo não só meu, mas de colegas cinéfilos. Estudando um pouco da história de cinéfilos de outrora percebemos que existiam inúmeras dificuldades: conseguir uma cópia do filme, conseguir reunir todos, etc. Hoje a maior dificuldade é tirar o cinéfilo de casa.
Ora, podendo baixar todos os filmes a qualquer hora quem se habilita a assistir um filme no cinema ou na casa de fulano? Não é questão de ser nostálgico, mas sempre tenho como referência meus tempos de menino onde os cinemas não tinham se tornado ainda igrejas. Se o filme em questão já tivesse saído de cartaz, o jeito era esperar sair na locadora ou na TV. E quando saía, era o assunto na sala de aula ou numa roda de amigos. "Você viu ontem Parque dos Dinossauros? Vi, que massa, cara!".
E não se trata apenas de filmes. Com tantos sites, música é o que não falta aí esperando ser baixada. Aconselho lerem esse post do guitarrista Mateus Starling sobre essa característica dos nossos tempos. Adianto dizendo que ele coloca a questão nesses termos:O acesso extremamente fácil à música acabou por produzir um ponto negativo que é a falta de qualidade na audição. Um Mp3 player tem fácil 2 mil álbuns de música. A pergunta é: Qual o propósito de se ter 2 mil álbuns novos na sua coleção? A resposta vem a seguir: A situação é muito obvia, se você tem 2 mil álbuns te esperando e a ansiedade é enorme o que vai acontecer? Audição de má qualidade.
O tema aqui é bem nítido: a facilidade em se obter bens culturais como canções e filmes pode democratizar o acesso á artes, mas também podem mercantilizá-las, coisificá-las. E o tema não é novo - Walter Benjamin quando fala da perda da aura da arte nos anos 30 está se referindo a esse processo. Cultivar um espírito contemplativo não faz mal a ninguém e pode ajudar a diminuir um pouco essa apreciação frenética, que de apreciar tem só o nome.

sexta-feira, 25 de janeiro de 2013

Sangue e dinheiro


A vida imita a arte, nem sempre nas boas coisas. O caso do triplo homicídio que aconteceu em Manaus na última semana, por exemplo, me lembrou imediatamente o filme Antes que o Diabo Saiba que Você está Morto, dirigido pelo grande Sidney Lumet.
Na história, dois irmãos planejam um roubo á joalheria dos pais. Mas algo sai errado e a mãe deles é morta no mal sucedido assalto. A diferença no caso de Jimmy Robert é que a intenção desde o começo foi eliminar seu progenitor, por conta de uma gorda herança. A tia e a prima foram mortas por acreditar que elas seriam as primeiras a desconfiar dele.
Alega-se que além do dinheiro estariam envolvidas mágoas em relação ao pai por não aceitar a homossexualidade do filho. Mágoas e ganância: combinação sangrenta.
Problemas familiares sempre existiram e continuarão a existir. Não é incomum alguns se tornarem casos de polícia. Mas o que chama a atenção aqui é que o crime foi motivado mais por indiferença que ódio. Segundo novas informações, Jimmy não teria participado, mas assistido as mortes. Tendo inclusive visto sua prima agonizar em seus momentos finais. Sartre combatia a validade do termo "desumano": tudo que fazemos é próprio de nós, só não queremos admitir isso. Não teríamos criado a brutalidade, mas com certeza a patenteamos. 

segunda-feira, 21 de janeiro de 2013

Vertigem de mim

Cheguei, mas não cheguei de todo.
Espero pacientemente
- em casa, não no aeroporto -
os cacos que faltam desembarcar.
O meu maior medo
é que algo tenha sido extraviado.

manaus, janeiro, dois mil e doze d.C.

quinta-feira, 20 de dezembro de 2012

Doismiledois


Em Hollywood o mundo já acabou milhares de vezes. O canal Syfy preparou uma maratona de filmes por conta do badalado dia vinte e um de "doismiledois". E até que os roteiristas são criativos: nada de meteoros ou invasão alienígena, isso tudo está batido. "Buraco branco", crocodilos gigantes e até Stonehenge entraram na parada.
Por que essa fixação com o fim do mundo? Talvez seja algo ligado ao nosso subconsciente. A psicanálise já diz há algum tempo que a mente humana dialoga com uma série de pulsações e uma delas é a dobradinha Eros/Tanatos (ou, Vida e Morte). 
Vamos tentar simplificar as coisas: aquele momento quase hipnótico em que você olha para um lugar muito alto e pensa "será que se eu pular morro?" seria Tanatos atuando. Aquele momento que vem logo em seguida, quando você conclui "melhor não tentar, vai que eu morro" seria obra de Eros. Nesse caso, o instinto de auto-preservação ganhou do instinto de auto-destruição, colocando as coisas de modo bem grosseiro.

Mas será só isso mesmo? Vamos dar uma olhada no gênero da ficção científica dentro do cinema. Na virada do século XX encontramos narrativas maravilhadas com a tecnologia, narrativas que apostam num futuro melhor. Algumas guerras mundiais depois, o panorama é totalmente diferente. Já no final do mesmo século nada é mais emblemático para a ficção científica que o cyberpunk. O futuro não é mais utópico, mas sombrio e desanimador. A tecnologia não nos libertou, apenas nos tornou mais miseráveis.
Vou usar aqui o melindroso conceito de imaginário coletivo para alegar que a distopia (o contrário da utopia) se enraizou em nossa vida. O desencanto com o futuro, por conta das experiências do presente, levaram muitos a valorizar o passado de maneira surpreendente - só para exemplificar, os hipsters são uma tribo urbana cada vez mais numerosa. Não que isso tenha acabado com qualquer perspectiva de futuro, mas que enxergar um futuro esplendoroso nos pareça um pouco sem sentido agora. Um futuro amargo e fatalista seria muito mais palatável á geração cyberpunk.
O medo é difuso (líquido, diria Zygmunt Bauman) porque hoje qualquer coisa pode ser mortal, desde um pequeno e quase invisível vírus até um rapaz com uma arma. Hoje não sabemos de onde esperar a peia. Essa insegurança justifica o crédito dado ás profecias de Nostradamus, dos maias e de quem mais precisarmos desenterrar para nos assustar.

sábado, 29 de setembro de 2012

Blogosfera Tour


Zanzando pela internet, pulando de blog em blog, cheguei há algumas conclusões. A primeira: existem mais blogs hoje que grãos de areia na praia. A segunda: a maioria gira em torno de informações não pessoais, mas gerais. 
A imagem que temos do blogueiro é aquela do sujeito que relata cada minuto da sua vida na internet. No entanto, nos blogs que dei uma passada (no mínimo uns 127, não parei pra contar) eles estão mais para jornalistas. Claro, os blogs de maior sucesso são aqueles que compartilham notícias e informações específicas (culinária, por exemplo). Há também os de entretenimento (e aqui cabe humor, cinema, seriados, etc.) 
Blogs autorais, ao contrário do que se possa imaginar, não estão extintos. Pelo contrário, proliferaram. Não sei se porque mais deles foram criados ou porque entrei em contato com mais gente que conhecia mais blogs assim. Chegar nos blogs autorais é difícil, a não ser que o dono tenha uma relativa fama. Mas essas páginas costumam ter um público pequeno, porém fiel.
Evidente que isso aqui não é um censo. É só uma impressão que tive. O que nos leva á última conclusão: a inclusão digital tem reforçado um fenômeno: o desenvolvimento de conteúdos "anônimos" e "reduzidos". Muitos blogs se tornam intermediários, verdadeiros entrepostos, apenas repassando uma notícia ou um viral. Tenta se reafirmar a originalidade (ou então a posse do conteúdo) por meio de marca d'águas, mas sua eficiência é cada vez mais obsoleta hoje com os recursos de modificação de imagens. A informação é repassada tantas vezes que não se sabe mais de onde veio. Para que se atraia a atenção do leitor, o ideal é diminuir o tamanho do conteúdo. O limite de 140 caracteres tem ultrapassado o raio de ação do twitter.
O que podemos esperar disso? Pessoas com maior capacidade de assimilação e de síntese? Ou uma geração acomodada com informações esparsas e rápidas? Não ouso arriscar qual das duas opções será a correta.

segunda-feira, 17 de setembro de 2012

sexta-feira, 7 de setembro de 2012

A Catarse cômica ou Rir com desconhecidos


Alguém entra no buzão e conta uma piada ou deixa escapar alguma idiotice. Isso é o máximo que chego de rir com uma pessoa que mal conheço. Não qualquer desconhecido, mas alguém que compartilha conosco temporariamente a companhia. Pode ser o espaço no ônibus, na calçada, na fila do banco ou no cinema.
Existem vários desconhecidos que se avizinham de nós de forma tão rápida que nem nos tocamos mais. Afinal, essa é uma característica do viver na cidade: a multidão, essa massa impessoal onde todos estão juntos, mas separados em pensamento e direção.
Na última quinta participei de uma experiência singular. Numa sessão de cinema senti algo incomum. A sensação de que estava rindo em conjunto. Calma, explico: o riso é algo tanto individual (quem nunca riu sozinho depois de se lembrar de uma piada) como social. Quando se ri coletivamente você está criando um vínculo momentâneo com as pessoas ao seu redor: por um momento partilham do mesmo senso de humor que ti.
Há muitas formas de se rir. Ou o riso forçado, aquele que soltamos para não dar a impressão de que não entendemos a piada, ou o riso involuntário, esse danado que não conseguimos controlar. Ou seja, o riso também é influenciado por convenções: há o momento de rir e o momento de não rir.
Bem, isso não é novidade. Embora poucos sociólogos tenham se preocupado com o estudo do humor (detalhe: não estou querendo fazer aqui uma tese do riso coletivo, só estou relatando uma impressão), já é fato conhecido que o humor é também uma prática social. Quando os trabalhadores de uma gráfica francesa no século XVIII quase mijavam de rir ao matar os gatos da sua patroa isso fica mais explícito, como o trabalho de Robert Darnton demonstra pra gente.
Voltemos á sessão de cinema. Senti uma vibração incomum ali. Estávamos rindo. Até aí nenhuma novidade, afinal era uma comédia. O estranho é que estávamos rindo demais, quase desabando o cinema com nossas gargalhadas. Creio que os responsáveis por isso sejam dois motivos: primeiro, as gags eram muito rápidas, mas seguidas (mal acabava uma, outra vinha, prolongando o riso); em segundo lugar, se tratava de uma comédia de humor negro.

O escritor Bráulio Tavares em uma de suas crônicas, afirmava que a heresia ás vezes pode tomar um tom libertário. Pense num indivíduo que teve uma formação extremamente religiosa, onde a fé quase se torna opressora de sua personalidade, e você entenderá essa afirmação. O humor negro ás vezes pode ser revolucionário também. Lembremos que esta modalidade de humor mexe com tabus e feridas da nossa sociedade. E em tempos de "politicamente correto" dominando a opinião pública, piadas do tipo adquirem um caráter de rebeldia. No caso do filme em questão (era O Ditador, pronto, revelei!), em se tratando de humor não é aquela maravilha, aquela genialidade - apesar de ter achado a sacada final, no discurso do tirano, extremamente boa - , mas cumpre o que se propõe: fazer rir. Ou seja, é um filme competente. O que dá maior graça ao vídeo é que podemos rir aqui do que não podemos rir lá fora, na rua, por exemplo.
Quando se brinca com temas sagrados e estereótipos (e o pai deles, o preconceito) nos acometemos de duas sensações: a primeira, a consciência de que cruzamos a linha do permitido, e a segunda, de que isso de certa forma é libertador. A repreensão e o alívio, lado a lado.
Ou seja, creio que a maioria do pessoal presente ali estava ciente disso, daí essa sintonia, daí essas gargalhadas de "quebrar as costelas". O riso coletivo parece ser mais poderoso e a surpresa com experiências como essa - assistir á uma comédia no cinema ou a um show de stand up, enfim - atestam que elas estão ficando cada vez mais raras.

sábado, 4 de agosto de 2012

Afoturismos



Um, dois, testando! Um, dois, testando! Futuro para passado, futuro para passado, aqui quem fala é Tirésios. Trago boas novas e algumas nem tão boas do século XXV, por favor se preparem.

Como vocês podem deduzir, o mundo não acabou em 2012. Ele acabou em 2112. Mas foi reinaugurado quatro anos depois.

Ah, preciso que vocês compreendam uma coisa: a maioria das coisas que eu disser aqui vocês não compreenderão.

Fiz uma pesquisa em seus documentos históricos e descobri que em se tratando de pensar o futuro vocês são bipolares: ou enxergam futuros perfeitos e animadores ou futuros horrendos e pós-apocalípticos.

Devo dizer que na verdade o futuro não é nem tão bonito nem tão feio assim. Ele é, utilizando seu velho dialeto, "meia-boca".

Na minha cidade, por exemplo, o teletransporte público é um lixo. Outro dia fui materializado sem minha orelha. Por sorte eu tinha uma sobressalente no bolso.

Vocês vão gostar de saber disso: não existem mais guerras. Não com humanos pelo menos. Usamos andróides para resolver os conflitos armados e computadores para selarem os acordos de paz.

Também existem as guerras virtuais, mas elas estão mais raras agora desde que a União Intervirtual de Placas Mães assinou um pacto de não-agressão recíproca. Dá pra entender essas máquinas?

As eleições também mudaram: agora são os computadores que elegem os melhores políticos. Eles analisam a ficha de cada homem á procura de qualidades que façam deles bons líderes. Mas desconfio que haja nepotismo aí, desde que uma vez elegeram uma CPU.

Li que vocês debatiam muito sobre sexualidade. Hoje não há o que discutir: todos são pansexuais. Mas confesso que vez ou outra prefiro os seres humanos.

Engraçado como o tempo é irônico: antes se discutia se era possível existir vida fora da Terra, hoje se discute se é possível existir vida dentro dela.

Não que ela esteja totalmente inabitável: uns 25% ainda se salva. Além disso, o visual da Terra é tão... terreno.

Você deve se perguntar onde vivemos agora. Bem, vivemos nas estrelas. Bem, a maioria ainda não tem recurso, ainda vive em colônias em planetas, mas todo mundo tem o sonho de comprar sua estrela própria.

Os resorts lunares são a quintaessência da diversão. Lá você pode jogar á vontade nos cassinos, praticar golfe nas crateras e participar de safáris nas depressões escuras. O melhor de todos é o Moon D'Carlo, "o satélite que nunca dorme".

Ainda apreciamos boa música, mas desconfio que vocês discordariam disso. Seus ouvidos ainda não estão preparados para a melodia sintética dos minerais (sintéticos). Uma vez chorei num concerto de quartzo.

Em se tratando de nutrição, somos ecléticos. Desde verduras sintéticas até carne humana. Creio que isso assustará muitos de vocês, mas não se preocupem: todos são bem tratados nas fazendas humanas.

Não há mais tanta miséria. A maioria dos indigentes pode gozar de uma ótima moradia e deliciosa comida nas fazendas humanas. Mais uma vez reportando ás suas expressões, "matamos dois coelhos com uma cajadada só".

Os indigentes que optarem por não participar das fazendas, por sua vez, podem continuar vivendo de esmolas por aí. Pedindo um pixel em cada canto.

Trabalhamos duro. Diferente do tempo de vocês, hoje uma pessoa com no mínimo quatro trabalhos é quase considerada uma inválida.

A empresa que não se atém ás normas de segurança pode se dar muito mau. Foi por causa da negligência de uma delas que a grande epidemia de 2225 aconteceu, acabando com a memória rígida de quase um terço da população.

O cinema ainda existe, mas você não precisa ver os filmes. Basta ingerir uma pílula 3D e seu corpo experimentará todas as reações químicas dos personagens, além de visualizar o enredo nas suas retinas. O problema é que um filme ruim pode provocar um desarranjo intestinal.

Amar, ah amar! O amor não mudou nada. Continuamos nos apaixonando intensamente. E, por sua vez, continuamos cometendo loucuras amorosas, como se apaixonar por alguém geneticamente imperfeito por exemplo.

Eu mesmo já sofri isso. Uma vez me apaixonei por uma garota com um cromossomo a menos. Ainda bem que usei um esterilizador sexual, senão hoje poderia ser pai de um incidente genético. Mesmo assim ainda tem gente que diz que tem um clone meu...

Eu fiquei triste com uma notícia que recebi. Um amigo meu foi desclassificado no vestibular. Estou pensando que flores sintéticas depositarei no seu cubículo no velório amanhã.

Enfim, amigos do passado, vou ter de sair agora porque amanhã terei um ciclo galáctico cheio. Até outra oportunidade! Namastê!

(Manaus, 22-02-2012)

domingo, 22 de julho de 2012

Da Amizade



De todas as relações, a amizade é uma das mais misteriosas. Como nos tornamos amigos? Por que parecem conosco ou por que são totalmente diferente de nós? Por que nos fazem rir ou por que nos fazem pensar? Difícil dizer. Generalizar é impossível. Até porque existem diferentes tipos de amigos.
Há pessoas que acreditam ser amigas de você, outros que fingem e aqueles que realmente são. Há amigos que te irritam, mas que você não quer se afastar deles - pelo contrário. Há amigos que te fazem sentir muito bem, apesar de que você não consiga fazer o mesmo por eles. Há amigos que te ajudam a amadurecer e outros que despertam sempre seu lado "criançona". Há amigos que te conhecem melhor que ninguém e aqueles que você não sabe nem o nome completo. Há amigos virtuais, amigos imaginários e amigos reais (ou quase). Há amigos e há melhores amigos.
Então, voltando a pergunta inicial: como surgem os amigos? De que reação química eles são originários? Amizade não brota do nada, ela é construída. Cada um de nós sabe como nossas amizades são construídas. Mas sabemos como preservá-las?

terça-feira, 12 de junho de 2012

www.utopia.com


Na era da informação não são raros os dilemas que surgem aqui e ali por conta justamente da informação. Ou melhor, do jeito como essa informação é transmitida. Creio que seria melhor chamarmos essa como a era da informação compartilhada, uma vez que no século passado a informação ganhou a notoriedade que desfruta hoje graças á imprensa, a TV e o rádio.
Hoje temos a internet e em menos de dois minutos já sabemos o que aconteceu na Birmânia á um minuto atrás. O mundo ficou mais pequeno. E essa é uma das razões da internet fazer parte da utopia da globalização: a informação não tem mais fronteiras, é o que dizem. No entanto, que tipo de informação estamos falando? Não nos iludamos: as grandes corporações também existem no mundo virtual e podem manipular as notícias tanto como os donos dos grandes jornais.
Claro, a capacidade de alguém comum ter maior visibilidade agora é maior do que nos tempos do rádio. Você pode editar conteúdos e até acessar documentos secretos, como os hackers fazem. Um bom exemplo desse lado subversivo da internet foi nos dado pela Wikileaks de Julian Assange que apresentou ao mundo vários relatórios secretos do governo norte-americano.
Mas ainda assim, a internet continua sendo um território cheio de tensão. Nos blogs, principalmente os políticos, em tempo de eleição ou de algum novo escândalo de corrupção, os ataques explodem. Nas redes sociais há a perseguição á pessoas acusadas de terem feito algo terrível. Muitos também, se beneficiando do anonimato ou de uma identidade fake, passam a pintar e bordar por aí.

O otimismo digital voltou á cena quando eclodiu a Primavera Árabe, onde a maioria dos movimentos, principalmente no Egito, foram organizados por meio das redes sociais como o Twitter. O potencial político e emancipador da internet voltou a ser ressaltado. A rapidez e o nível de alcance das mensagens fez com que muitos outras bandeiras fossem defendidas via web.
Hoje já temos pessoas que se definem não só politicamente através do mundo virtual, mas também em outros sentidos. As comunidades no Orkut ou as páginas e grupos no Facebook servem como evidências dos traços culturais e pessoais que os usuários buscam afirmar.
E então? A internet é tudo isso que se tem dito ou não? Eu acredito que sim. Ela pode ser isso tudo e mais um pouco. Levamos um tempo para digerir o impacto dessa invenção, para nos livrarmos de algumas expectativas e criarmos outras. Mas talvez daqui há um tempo o mundo virtual e o mundo real não sejam tão distantes como parecem ser. Eles podem vir a se tornar complementares, como os últimos acontecimentos tem nos provado. Afinal, a internet é apenas uma ferramenta. As ferramentas em si não são nem boas nem más. Isso depende do modo e da intenção em que elas são usadas. A internet pode nos fazer engolir algumas mentiras, assim como também pode esquentar a chapa de alguns ditadores. Ela é ambígua, porque o ser humano é ambíguo.

domingo, 3 de junho de 2012

Balaio de fatos


AS CORES DA CIDADE
Vermelho do tijolo, que nem fratura exposta, na parede sem reboco.
Azul dos céus de domingos preguiçosos.
Cinza da fumaça da churrasqueira velha, chiadeira.
Rosa do shortinho apertado da gostosona acompanhada.
Branco do olhar indiscreto.
Roxo ficou o rosto depois.

A CUECA REPRIMIDA
Acordou com a vontade de colocar uma cueca na cabeça.
Sem mais nem porque. Apenas acordou com esse desejo.
Mas o que diria a mulher, os filhos e o cunhado? Melhor não.
Hoje não se pode ter nem o direito de se passar por idiota.

AS IMPUREZAS DO BRANCO
Manchas vermelhas, semi-apagadas, denunciavam. Perto da manga podia-se ver, com esforço, uma gota de cerveja. O ciúme sempre encontra as impurezas do branco.

SOBRE O PODER DE FATO
-Se eu avançasse sobre você, arrancasse esse seu nariz empinado fora com uma dentada, o que você faria? Queria ver você apelar para sua "autoridade". Sem "autoridade", o que você faria, em?
O sinal tocou e (quase) todos se despediram do professor.

VOYAGE
O disco voador respondeu a pergunta que não quer calar. Ele agradeceu entre um trago e outro.

URBANIZAÇÃO
Na Mata dos Tatus não existe mais tatus. Nem mata. Com sorte, há de haver tatuís e alguma grama.

quarta-feira, 11 de abril de 2012

"Haitianos GO HOME!"


Queria entrar nesse assunto há muito tempo, mas por falta de tempo sempre deixei para outra oportunidade: a imigração haitiana no Amazonas. Bem, não é novidade para ninguém que vive em Manaus que os haitianos em peso estão vindo para o nosso Estado. Eles saíram de sua terra por conta da instabilidade política e da miséria. O terremoto que destruiu quase todo o país ainda não foi de todo superado. Desde então estão migrando para países como o México e Venezuela. No Brasil é para onde vem a maioria. Por quê? Leis de imigração não tão rígidas e a aura que o país goza na América Latina. Pode parecer estranho, mas somos uma potência nessa parte do continente.
Desde os primeiros momentos começaram a marcar presença seja pela língua ou pela sua cor (embora a presença negra seja antiga em Manaus ela sempre foi pequena). Todo mundo nega, mas a cor é o que mais causa estranhamento entre a cabocada da cidade. Sem contar que há toda uma série de estereótipos sobre o Haiti em nossas cabeças (vodu, zumbis, etc.). Mas o discurso daqueles que são contra essa imigração em massa se foca mais no trabalho: segundo eles, os haitianos estão tomando as oportunidades de emprego do povo local.

Até o começo desse ano ouvia esse discurso da boca de gente comum, ás vezes na fila do banco ou no ônibus, mas foi só com o artigo de uma colunista social do higth society que ele foi verbalizado na grande mídia. Mazé Mourão em seu blog publicou um artigo que tinha como título o refrão da famosa canção de Caetano Veloso contra o racismo: "O Haiti não é aqui!" Logo surgiu uma série de pessoas defendendo a posição da mulher e outras atacando-a.
O que gostei dessa polêmica toda foi que o assunto foi abordado com maior seriedade pela mídia, seja ela da região ou fora dela. Claro, alguns jornais reafirmaram velhos preconceitos, outros conseguiram ir para além dos "achismos" e mostrar os dados por trás de todo esse lenga-lenga.
Nada mais típico que um país que se diz livre de preconceitos justificá-los por outros meios. No caso em questão, o pretexto é o roubo das vagas de empregos. Semanas depois de todo esse rebuliço foi apurada no Sistema Nacional de Empregos do Município (SINE) a quantidade de vagas de trabalho disponíveis e eis a grande surpresa: mais de 600 vagas dando bobeira. Claro que se tratavam de empregos com baixa remuneração, mas ainda assim são empregos. Falta de oportunidade não é a melhor desculpa então.

Ora, os imigrantes aceitam empregos com baixa remuneração e até empregos sem carteira de trabalho assinada porque não tem um conhecimento profundo da nossa língua, porque não conseguiram tirar todos os papéis necessários para ter seus direitos aqui garantidos e principalmente porque precisam sobreviver numa terra estranha.
Algumas entidades tem os auxiliado, como ordens missionárias da Igreja Católica ou comunidades evangélicas, é verdade. Mas muitas dessas entidades já faziam serviços parecidos de amparo aos pobres aqui na cidade há tempos, ao contrário do que dizem os anti-imigrantes.
Até certo ponto, concordo com o governador Omar Aziz quando ele disse que a prioridade do governo tem de ser a população local, afinal ele foi eleito por ela para ser seu representante. Agora se ele cumpre o seu papel são outros quinhentos. Em tese, ele deveria fazê-lo e ajudar a melhorar a infra-estrutura da região. A sua plataforma política basicamente é a faraônica Ponte Rio Negro que até agora tem ajudado a diminuir a distância entre as duas margens do rio, mas que por outro lado beneficiou mais os mesmos espertos de sempre que estão já demarcando suas terras do outro lado do rio. Vem especulação imobiliária aí. E ela vem vindo acompanhada de conflitos fundiários. Resumindo, como melhorar nossa infra-estrutura se os homens que deveriam fazer isso estão com os olhos em outra coisa?
O pior não são nem essas velhas raposas, que não tem feito muito por nós nos últimos anos, mas nós que continuamos a elegê-los. Como podemos culpar, então, um pessoal que está chegando agora pela péssima situação em que nos encontramos? E o que é mais engraçado: muitos amazonenses vão para o Sudeste do país para conseguir melhores condições de vida e muitas vezes são discriminados quase da mesma forma. A habitual reclamação do modo como os sulistas tratam o pessoal do Norte diante do modo como vemos os haitianos é até irônica.
Enfim, o Brasil pode até não ter adotado o rígido sistema de imigração dos EUA, mas a sua paranóia e xenofobia sim. O Amazonas nesse sentido tem, infelizmente, o triste fardo de ilustrar isso.

terça-feira, 6 de março de 2012

Sorriso amarelo: polemizando e entendendo o humor de hoje


Agora que vocês conhecem minha concepção de humor e um pouco da história dele na TV, finalmente posso entrar de cabeça na questão. Como dissemos antes, o humor é subjetivo e subversivo. Nem sempre você rir da mesma coisa que teu colega e quando alguém rir de ti você se sente desmoralizado. Por séculos, os tiranos e poderosos tentaram sufocar o riso, temendo serem humilhados. O riso pode ser uma forma de protesto.
Mas o riso também pode ser uma arma muito perigosa. Usamos aqui o exemplo o Buylling em outra oportunidade. Reitero a escolha. Ridicularizar ao extremo o rapaz que tem orelhas grandes significa traumatizar alguém e incentivar a intolerância. O que há de engraçado nesses dois resultados?
O humor hoje continua na moda. A moda de um humor novo. Um humor que seja diferente, subversivo. E o diferente aqui acaba sendo ser desbocado e anárquico, em outras palavras, atacar de frente o politicamente correto, movimento executado pelas minorias contra o preconceito que vem sendo bem recepcionado pela opinião pública e o Estado. Já falei antes, houve um tempo em que a febre nacional entre a garotada era humorista. "Papai, quero ser humorista! Vou zoar todo mundo!". Humor não é simplesmente zoar, já discutimos isso. O que é importante dizer agora é que muitos querem ser comediantes simplesmente pelo prazer de zoar com as pessoas. Claro, não são a maioria, mas é uma parte do todo que acaba manchando a reputação da profissão.
Esse pessoal abusa de duas premissas: a liberdade de expressão e o individualismo. "Eu posso falar o que quiser porque temos liberdade de expressão!" Claro que pode, mas o problema é que essa visão exclui o Outro. O que eu posso falar pode magoar alguém, pode dar margem á alguma coisa interpretação perigosa, enfim, enxergar o direito de liberdade de expressão da noção de respeito mútuo, tão cara á democracia, é uma desvirtuação.

Agora nos voltemos para nossos humoristas de verdade e seus programas: a maioria deles, na TV aberta, se declaram ecléticos, mas em muitos momentos fica nítido que o público-alvo é diferente: alguns são a rapaziada de classe média, outros são o povão mesmo. Se proclamam, ou pelos menos é o que se pode inferir, que são programas inovadores e subversivos. Uma subversão enlatada, pois a maioria dispões de recursos e de ajuda da mídia. Alguns apostam na crítica social como diferencial, mas acabam escorregando numa ideologia um pouco elitista. Alguns humoristas acabam até caindo na armadilha do egocentrismo que se ampara no direito á liberdade de expressão.
Não sou contra que se toquem em temas espinhosos, desde que seja feito isso com o máximo de cuidado. Qualquer assunto pode se tornar uma piada, mas nem sempre uma piada de bom gosto. Afinal, há que se ter em vista o respeito. Nesse ponto, o humor negro é um dos campos mais arriscados de se investir, pois brinca justamente com tabus e questões delicadas. É uma corda bamba. Um movimento em falso e se cai na vulgaridade.
Humoristas apelando para vulgaridade? Isso não é exclusivo de nosso tempo. Houve uma época em que Chico Anysio fez uma brincadeira com Lula, chamando-o com todas as palavras de vagabundo e miserável. Ele teve de se retratar. Ora, comediantes são seres humanos também, não estão imunes de preconceitos e principalmente de erros. A coisa pega quando eles não reconhecem que erraram.

Na minha opinião, Rafinha Bastos errou com sua piada sobre Wanessa Camargo e seu bebê. Nos dois sentidos: fazendo um esforço para ser suficientemente frio, reconheço que a piada não teve graça e, pelo ponto de vista moral, não respeitou a condição de gestante da cantora. Não admitir esse erro é o que mais me decepciona nesse cara que tem tudo para ser um grande humorista.
Ele próprio já admitiu que quer apenas ver o circo pegar fogo. Em uma entrevista revelou que anda pensando se ele continua com essa posição ou passa a aproveitar o seu status de personalidade pública para debater temas interessantes. Afinal, estamos falando do homem que foi considerado o mais influente do mundo, tomando o número de seus seguidores como base. Queira ou não ele está influenciando que o segue ou curte.     Achei interessante ele resolver assumir seu papel como um exemplo respeitável. Mas não sei se essa mudança de fato acontecerá. Rafinha já tem contratos com a Fox e a Rede TV, emissoras ansiosas por seus seguidores.
Mas, sejamos imparciais ou pelo menos tentemos: da outra parte também encontramos uma certa intolerância. Quando Preta Gil foi alvo de piadas de Danilo Gentili em nenhum momento Gilberto Gil utilizou de seu cacife político para despedi-lo da Band. As respostas da cantora e de quem lhe apoiava foi suficiente. Isso faz parte da democracia: erros não se combatem com erros. Por conta de uma abobrinha devo baixar um decreto pedindo a cabeça de fulano? Não é o certo. 
O pior é que já tem até gente pensando em fazer um projeto de lei para definir o que é ilegal no humor. Mais um absurdo. O humor é subjetivo, quando você impõe regras á ele está admitindo que o "bom humor", aquele que você julga ser o melhor, é o único tipo de humor possível, menosprezando assim o gosto de outras pessoas por paródias ou humor negro, por exemplo. Onde fica aí o respeito para com o Outro? Rir é um dos atos de mais pura liberdade e realização da sociedade humana, devemos acorrentá-lo á leis só porque erros foram cometidos? Não tem cabimento.
O que me garante então que não vamos ter vulgaridade gratuita na TV? O bom senso. Há um acordo invisível sobre o que é passível e o que não é passível de ser avacalhado, podemos até chamá-lo de um padrão social.Se esse acordo, se esse padrão não vem sendo seguido então é um dever nosso manifestar nosso descontentamento, pedir que se retratem. Mas daí a querer linchar ou baixar uma regulamentação do humor é viajar na maionese.
Um bom humorista sempre procura ser original. Sempre procura novas maneiras de fazer rir, novos temas para suas piadas e seus shows. Mas é preciso ter em mente que nem tudo é "humorível". É preciso pesar muitas vezes o que vale mais: a gargalhada ou a seriedade do tema ou da pessoa tratada. Esse é um dos dilemas morais da arte de fazer rir, demonstrando que o humor tem sim sua parte séria e não é por ser séria que ela deixa de ser menos interessante, pelo menos para mim.
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terça-feira, 21 de fevereiro de 2012

Nuvens negras sob São Paulo

Foto: Marcos Bezerra.
Não tinha como não ficar sabendo do que aconteceu na apuração de votos das escolas de samba de São Paulo. Apareceu na TV, no Facebook, no rádio, em todos os lugares. Logo me vi  impelido a comentar tal fato. Em primeiro lugar, vamos entender o que aconteceu. Bem, entender eu acho que ninguém entendeu muito bem, então vamos fazer um esforço. Estava a apuração de votos acontecendo com a Mocidade Alegre á frente de todos e a Império de Casa Verde logo atrás, no quarto lugar. Do nada um cara vazou a corrente da segurança, pulou sobre a mesa dos jurados, roubou os votos e os rasgou, fugindo logo em seguida.

O bonitão aí, até onde se sabe, é um dos integrantes da Casa Verde, membros da diretoria inclusive, segundo informações confiáveis (boatos). Se só fosse isso já seria bizarro. Imagine então toda a torcida dos Gaviões da Fiel avançando contra os jurados, o cerco de seguranças e o pessoal de outras escolas. Começou o maior quebra-pau. Para completar, alguém ateou fogo nos carros alegóricos da Pérola Negra e logo uma nuvem de fumaça se levantou no meio da cidade. Com a devida licença poética, essa nuvem negra manchou a cidade.

Preso e interrogado o cara teria dito que fez o que fez porque tinham feito um acordo com os jurados de que nenhuma das principais escolas sairia do Grupo de Acesso. Acontece que dois jurados saíram e seus substitutos não sabiam do trato, dando a vitória para Mocidade Alegre e eliminando a Império de Casa Verde do Grupo de Acesso do ano que vem. Que beleza! Maracutaia na banca de jurados. E até parece que é novidade... Todavia, o "pequeno protesto" do homem incitou um quebra-pau e um incêndio.
Agora me pergunto: o que está havendo de errado? Ora, é normal acontecer desentendimentos no carnaval. Afinal, é uma festa onde o álcool e a farra costuma falar mais alto. Mas nunca um desentendimento dessa proporção. O sujeito não aprecia estar embriagado, assim como boa parte dos torcedores da Fiel. O que aconteceu então? Simplesmente a revolta de terem perdido? Creio que sim. Mas competição de escolas de samba é assim: alguém ganha e alguém perde. Não é a primeira vez que a Casa Verde perde.

A impressão que tenho é que cada vez mais perdemos a esportiva. Não me refiro somente á competições carnavalescas, mas á tudo em geral. Como se o time perder, não se classificar no vestibular ou levar um fora da garota fossem o fim do mundo. As coisas estão muito radicalizadas ultimamente: ou é oito ou é oitenta. Tudo tem de ser levado ao pé da letra. Tudo menos a política poque todos já se desencantaram com a política.
Mas acho que não foi só isso. Acredito que haja dentro de muitos um sentimento de frustração que acaba em revolta, mas uma revolta que não pode aflorar no dia-a-dia. Deixemos então ocasiões onde nos é permitido liberá-la, como no final de semana ou no carnaval, para extravasar. Ás vezes não precisa nem ser numa data certa, basta encontrarmos um gancho e vamos adiante. O caso da Geyse Arruda é um exemplo. Também tem acontecido muito isso na internet, perseguição á pessoas que são acusadas de terem feito algo hediondo. Rapidamente se consegue um número considerável de pessoas atacando o indivíduo e em breve travando sua conta na web ou coisa parecida.

Em outras palavras não direcionamos nossa raiva para um único objeto. A guardamos, a alimentamos e quando encontramos um alvo perfeito pela frente descemos o lenho nele. Com tanta informação em tão pouco tempo sempre há alguma infame personalidade ou fato para ser atacado. Ora, o próprio caso da baderna na apuração dos votos foi o bastante para que fossem colocados no saco todos os corintianos e reafirmados velhos preconceitos contra eles na internet.
Claro que não é uma situação exclusiva da cidade de São Paulo, apesar de que acredito que esse incidente tenha uma particularidade. Em São Paulo, uma cidade rica, formal e muitas vezes estressante, a frustração com certeza é maior. Por isso não me admiro que casos de espancamentos de homossexuais, mortes de mendigos e brigas entre torcidas organizadas aconteçam nessa metrópole. Não estou com isso querendo dizer que a capital paulistana é um viveiro de vândalos, não. O que quero dizer é que aqui há com certeza um nível de estresse e de acobertamento desse estresse muito maior. Freud já dizia: quanto mais você reprimir suas neuroses, com mais força elas voltarão.

E em se tratando de neuroses as grandes cidades brasileiras são campeãs nisso. Engarrafamento, trabalho desgastante, má condição de moradia, péssimo transporte coletivo, falta de luz, etc. Tudo isso se une num caldeirão de descontentamento. O divertimento passa a ser o combustível de todos, mas quando se ameaça cortar o seu fornecimento aí a porca torce o rabo. Ao invés de procurar dosar ou negociar nossas paixões entramos logo na defensiva, melhor, na ofensiva.
Pode ser que eu esteja divagando demais, pode ser que sejam apenas psicologismos fajutos os que estou evocando aqui, mas é a minha sincera opinião sobre tudo que está acontecendo. Uma opinião que eu forjei depois de me inquietar com a violência e discutir com pessoas que também se interessam em entender esse fenômeno. Não é o espelho da verdade o que estou afirmando aqui, mas acredito que posso ter acertado pelo menos um pequeno, minúsculo fragmento dele aqui.

Gostaria de encerrar como de costume com uma impressão e uma provocação. Não é por acaso que o vandalismo é também conhecido como violência gratuita. É assim, em pequenas explosões, que nós tentamos nos manter saudáveis. O problema é que não percebemos que esse é um círculo vicioso: quanto mais explosões, mais pessoas envolvidas e daí é um passo até chegarmos á explosões maiores. Uma má nota num desfile de escola de sambas é motivo para uma guerra civil? Quem sabe, em alguns anos será.

terça-feira, 7 de fevereiro de 2012

Desconectados

Piquenique no Ibirapuera.
Há um ditado, desses que se ouve em conversas com seus amigos de idade avançada na calçada da rua, que diz mais ou menos o seguinte: "Meu pai andou a pé, eu andei de carroça, meu filho anda de carro e meu neto andará a pé". Não entendeu? A ideia básica aqui é simples: as coisas evoluem, até certo ponto, depois elas voltam a ser o que eram. Os caras da banda Devo são um dos adeptos dessa visão de mundo, criaram até a Teoria da Involução - basicamente ela diz que depois que a Humanidade atingir o seu ápice, seja na tecnologia ou no conhecimento, ela vai começar a se emburrecer e voltaremos ao tempo das cavernas. Por essa Darwin não esperava...
Enfim, essa introdução toda para falar de um livro que tem um raciocínio semelhante. Pelo artigo do Tião Gomes na Carta Capital tomei conhecimento desse livro de um jornalista norte-americano sobre a internet e o modo como agimos com ela. O nome do livro é Os Imperfeccionistas e seu autor se chama Tom Rachman. A tese de Rachman é de que toda geração surge refutando a anterior. Se temos uma geração altamente conectada na internet (a chamada Geração Y), logo teremos uma geração de pessoas que renegaram a vida virtual.
Tom Rachman
Mark Mothersbaugh, vocalista do DEVO.












Estas pessoas, que o jornalista chama de "últimos românticos" já possui um número considerável de membros pelo mundo. Ciclistas se aventurando pela noite paulistana, bandas e apreciadores de música indie e folk no Macapá se reunindo para saraus, esses são os exemplos dos "desconectados" que conheço. Alguns usam a internet sim, mas somente para marcar encontros ou combinar de irem juntos á algum evento. Outros, mais radicais, nem isso.
Por que correr da web como o diabo foge da cruz, alguém poderia perguntar. Ora, existem vários motivos. Dentre eles a quantidade incrível de informações, muitas delas inúteis, ou mesmo o desperdício de horas preciosas. Meu amigo Diego Gatto costuma dizer que Facebook parece mala de viajante amnésico: de cinco em cinco minutos tem que checar. E nessa de saber o que seus amigos estão fazendo todo o tempo, você acaba levando horas e horas no computador.
Existem aqueles que enjoam. Afinal, viver  sempre á espera de alguma notícia dos amigos ou se expressando apenas através de 140 caracteres pode ser muito monótono depois de um tempo. Claro, existem pessoas que podem perfeitamente conviver com essa existência virtual e com sua própria vida, ou seja, complementando as duas.
Essa ideia de toda geração refuta a outra (parece aquela lei da química: toda ação leva a uma reação) é uma meia-verdade, na minha opinião. Seres humanos são muito diferentes de substâncias químicas. Há rupturas mais profundas entre algumas gerações, mas geralmente elas readaptam elementos de suas predecessoras. Ora, a tal Geração Y não se valeu de um dos produtos da Geração da Década Perdida, a internet? Isso sem falar das diferentes matizes musicais: punk, rock, pagode, etc.
Quanto á essa previsão de Rachman, concordo em partes. Não acho que vai haver uma desplugagem coletiva. Estamos caminhando cada vez mais para uma convivência moderada com o mundo virtual. Após o primeiro impacto, tudo é novidade, depois ela pode se tornar algo tão banal quanto nossa geladeira. Banal no sentido de já estar entranhada no nosso cotidiano. Bem, pode até existir essa possibilidade dos "últimos românticos" se transformarem em maioria, mas não acredito que seja algo tão duradouro. Se acontecer seria como uma espécie de onda, assim como tem sido a moda das redes sociais.

sexta-feira, 3 de fevereiro de 2012

Conectados


Falar que o jovem brasileiro hoje é totalmente ligado nas redes sociais é chover no molhado. Ainda assim é interessante essa pesquisa feita por um setor da Editora Abril sobre a relação dos adolescentes com as redes sociais. Vou apresentar aqui algumas das conclusões:

-Twitter é a rede social mais popular.
140 caracteres hoje é muito conveniente para pessoas que dizem viver sem tempo. Além disso, o contato com suas celebridades favoritas é mais intenso pelo Twitter.
-O Facebook é mais popular do que o Orkut entre os jovens de 19 a 24 anos, mas entre os jovens de 15 a 18 anos o Orkut ainda é mais forte.
-Música, entretenimento, jogos e revistas foram os temas citados como relevantes em redes sociais pelos entrevistados.
Nesse aspecto o Facebook e o Orkut tem uma vantagem: a capacidade de poder compartilhar informações, sejam músicas ou posts interessantes. Ainda assim, segundo a pesquisa, a maioria utiliza a rede social de Marc Zuckeberg para jogar e usar seus aplicativos.
-85% dizem que não conseguem ficar mais de um mês sem acesso às redes.
É difícil resistir ao vício: todos seus amigos estão nas redes sociais e você deseja conversar com eles enquanto baixa uma música ou vê um vídeo. E elas só ganham mais apoio dos novos celulares, ipods, mobiles e etc que usam tecnologia de convergência (ou seja, eles usam várias comandos num aparelho só: enviar mensagens, conectar á redes sociais, captar ondas de rádio, etc).
-34% conhece alguém que teve informações roubadas ou violadas nas redes sociais. A grande maioria ainda pensa que fornecer informações pessoais nas redes sociais não é seguro, e tem medo de ser vítima de roubo de informações.
Mesmo praticamente vivendo na internet, eles conhecem seus perigos. Vamos ser sinceros: roubar informações hoje não está tão difícil como o era há 10 anos atrás. As redes sociais até ajudam a fornecer dados demais, ou melhor, o suficiente para que uma pessoal mal-intencionada faça uma marvadeza. É claro, em alguns casos a sensatez pode ajudar, mantendo o mínimo de discrição, mas em outros não há como escapar. Um hacker potente pode entrar aonde quiser nas redes sociais.
Essa geração aprendeu a ter duas vidas: a real e a digital. E a próxima? Como será?

SOPA, PIPA... Ahn?

Você que está boiando nesse papo de SOPA, Megaupload, PIPA e o escambau, não se preocupe. Vamos explicar o básico do básico para você:


SOPA é a abreviação de Stop Online Piracy Act.
Já PIPA são as iniciais de Protect Intelectual Property Act. Estes são dois projetos apresentados no Congresso norte-americano no começo do ano que estão causando o maior burburinho.
O que estes projetos pretendem fazer é simples: criar regulamentos e leis para controlar os direitos autorais na terra do Tio Sam, o que implica na proibição da pirataria pela web. Quem propôs o projeto foi um senador republicano (Lamar Smith é seu nome), mas quem está por trás dele, é óbvio, são as grandes gravadoras de música e os mega-estúdios de cinema. Os maiores lesados com os donwnloads gratuitos.
Não é brincadeira: existe mesmo um Partido Pirata Brasileiro.
Se aprovada a lei proibiria que sites locais e com acesso aos EUA baixassem músicas, arquivos, vídeos, tudo. Várias pessoas criticaram o projeto. Dentre elas o próprio criador da internet, Tim Berners-Lee. Enfim, uma pilha de abaixo-assinados era encontrada toda manhã na casa dos senadores, sem falar das manifestações em frente ao Senado. Alguns sites como a Wikipédia e o Google entraram em greve. Enfim, foi uma puta mobilização e, no final das contas, os senadores voltaram atrás. A votação da SOPA foi cancelada e a da PIPA adiada. Mas nem todos os internautas saíram ganhando. O rebu sobre a antipirataria nos EUA veio acompanhado da notícia da prisão do dono do site de downloads Megaupload, Kim Dotcom, por uma operação do FBI contra pirataria.
O que pouca gente sabe ou se lembra, é que já tivemos nossa SOPA aqui, com direito a caldinho mineiro. Desde 2005 o senador do PSDB de Minas, Eduardo Azeredo, tem lutado para que seu projeto de lei sobre infodelitos, dentre eles a pirataria, seja regulamentado. A Lei Azeredo prevê que os provedores monitorem as contas de todos seus usuários, para em caso de um deles cometer algum crime na web foi rapidamente rastreado. A lei foi aprovada pela Comissão de Ciência e Tecnologia, pelo Senado e agora só falta a Câmara dos Deputados, apesar de mais de 140 mil assinaturas em um abaixo-assassinado e de protestos em Brasília e São Paulo.
O assunto é muito, muito complicado mesmo pois envolve várias questões como, por exemplo, a liberdade de expressão, a impunidade de crimes digitais, a violação da privacidade, etc. Quem dera fosse fácil colocar os que são a favor do controle da internet no banco dos vilões e os internautas e nerds nos dos heróis. A realidade é muito mais complexa que isso. O post de hoje é só uma introdução. Nos próximos dias falaremos desses problemas um por um. Vejo vocês até lá.