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domingo, 2 de março de 2014

Marx, tradições, Mujica e Terceira Via

"Marx deu um tiro no pé com O Capital".
(Bruno Pacífico x Anália Ferreira, sendo mediados por Fernando Fernandes)
Bora dar um rolezinho no fuscão do Mujica?


Nos reunimos na Cachaçaria do Dedé certa sexta feira e do nada percebemos que a conversa estava esquentando do lado de lá da mesa. Anália havia dito que Marx deu um tiro no pé ao escrever O Capital, pois ao revelar as vísceras do capitalismo e como derrotá-lo teria dado de bandeja aos seus defensores os meios de se perpetuar no poder. Foi mais ou menos assim o debate:
-Ele deu a receita para o sistema se reproduzir! Pode ver que O Capital é mais lido por economistas neoliberalíssimos que por militantes.
-Mas ele também disse os meios de combater esse sistema, forneceu subsídios pra luta continuar.
-E a luta continua?
-Claro que sim: veja a América Latina.
-Posso até estar enganada, mas muitos governos da América Latina são mais reformistas que revolucionários.
-E o Uruguai pode ser chamado de reformista? O que o Mujica tem feito lá é uma revolução. Legalizar o aborto, a maconha. Isso tudo para um mundo tão conservador quanto a América Latina é uma mudança muito radical.
Fernando falou um pouco sobre essa questão da manutenção das tradições, de como elas se repaginam para continuarem sendo perpetuadas, associando aqui a possível derrota do marxismo á essa capacidade camaleônica do capitalismo. Como o próprio Bruno questionou: será que o marxismo foi derrotado mesmo?
Ele também se adaptou aos novos tempos.
Desde os anos 80 no Brasil os escritos de Lênin, o defensor das vanguardas, foi perdendo espaço para as obras de Gramsci, o pai dos intelectuais orgânicos. Hoje não se fala mais em revolução, mas em medidas revolucionárias. Entende-se que o marxismo tem de se acostumar com a democracia liberal, que é até mesmo saudável a ele ser orientado por esse espírito democrático para não incorrer nos erros totalitários de um Stálin.
Slazov Zizek, em um artigo (ficarei devendo o nome para vocês, crianças), se pergunta: seria o capitalismo indestrutível? O que podemos fazer? Quem poderá nos salvar? Ele mesmo responde que existem muitos caminhos para se resistir a ele. A Terceira Via pode parecer um deles, mas a cada dia ela se amolda mais e mais a um discurso desideologizador. Uma esquerda democrática, ciente dos caminhos e descaminhos do regime, seria o mais adequado para aqueles que querem uma mudança realmente profunda, dizia o filósofo.
Queria ter contribuído mais para o debate e queria também reproduzir mais pontos dele aqui, mas por enquanto só me lembro disso. Talvez os amigos colaborem aqui com mais pontos de vista.

domingo, 29 de julho de 2012

Faculdade da dor - Espaços de aprendizagem da brutalidade durante a ditadura militar



Pau de arara, cadeira do dragão, borrachada no pé, corredor polonês, choques, simulação de afogamento, etc. Palavras que nos parecem estranhas á primeira vista. Depois, percebemos que já temos uma longa história com elas. A ditadura militar não foi o primeiro regime a e utilizar da tortura como instrumento de repressão. Ora, os castigos sofridos pelos escravos nas fazendas e nos pelourinhos podem ser entendidos como o que? Relatos dão conta de casos de tortura na Guerra do Paraguai e no Estado Novo de Vargas.
A tortura é um ato deplorável, mas que sempre acompanhou a Humanidade, assim como outros males. Em quase todos os períodos históricos ela se fez presente. Na maior parte das vezes como ação dispersa, de alguns indivíduos sádicos ou extremistas. No século XX, a tortura passa a ser associada á governos autoritários por conta da experiencia traumática de inúmeras pessoas identificadas como opositoras á esses regimes.
A América Latina, em certo momento, foi um viveiro de ditaduras. Era o tempo da Guerra Fria e o EUA patrocinava ditadores na vizinhança como meio de impedir que a URSS tirasse vantagem de algum furo no bloqueio. O Tio Sam tinha aprendido a lição com Cuba. Dentro desses países, forças conservadoras partiam para o embate com elementos progressistas ou simples opositores. Com o aumento da repressão muitos optaram pela revolta armada. A revolta armada passa a justificar a ação repressiva. Esse círculo vicioso existia somente na cabeça de quem participava da máquina de repressão.

Vejamos o caso do Brasil. Já em 1964, quando as portas para uma possível redemocratização não tinham sido fechadas ainda por um AI-5, temos relatos de torturas. Seguindo a repercussão do golpe, o militante comunista pernambucano Gregório Bezerra é arrastado pelas ruas de Recife, preso á um jipe. O jornalista Márcio Moreira Alves, pesquisando material para a crônica policial carioca, entra em contato com testemunhos de pessoas que foram presas e maltratadas. Reuniu relatos de boa parte do Brasil em um dossiê endereçado ao governo federal que como resposta iniciou uma investigação. Essa foi a chamada Missão Geisel, posto que o general Ernesto Geisel foi encarregado de executá-la. E o general colhe depoimentos não só de presos políticos, mas de torturados que dizem com todas as letras que torturaram. O relatório produzido por Geisel é lido pelo então presidente, Castelo Branco, que, temendo uma reação da linha dura, ignora medidas punitivas aos torturados.

O jornalista Elio Gaspari diz que aí começou o maior acordo do regime: o silêncio do alto escalão e a autonomia cada vez mais os órgão repressores. Muitos oficiais superiores negavam que essa tenha sido uma prática do regime, pois generais não se rebaixariam á uma ação tão vulgar como a tortura. Ou seja, a ação seria exclusivamente de oficiais subalternos ou policiais. Castelo Branco em uma mensagem á Geisel fazia uso justamente desse pensamento: tortura era coisa das delegacias do Estado Novo, dizia ele. Associava assim a tortura com uma prática policial e não militar.
Não há como negar, no entanto, que o Estado Maior tenha sido conivente com esta ação. Se o silencio de Castelo Branco significa isso, o que dizer do apoio explícito de Costa e Silva, Médici e do próprio Geisel á tortura. Geisel acreditava que em uma situação extrema, como a revolta armada das esquerdas, a tortura podia salvar vidas. Na metade dos anos 60, a repressão aumenta. O AI-5 é a certidão de nascimento dos anos de chumbo. A escalada da violência começa. A noção de que os militares e o esquerdistas mais radicais tinham na época era de que estávamos dentro de uma guerra civil subterrânea. No entanto, numa guerra há limites. Pelo menos é o que a Convenção de Genebra garantia.
Limites que não foram obedecidos pela tortura. Não me deterei aqui nos métodos usados. Prefiro me dedicar a um outro aspecto: a formação dessa classe infame, os torturadores. Se na afirmação de Castelo Branco há muito de preconceito, há de se reconhecer também que há nela um pouco de verdade. Cláudio Guerra, membro de um serviço paramilitar auxiliado pelo governo na época, revela em depoimentos que os militares buscaram principalmente no meio policial os membros para formarem seus quadros repressores, porque não tinham experiência no combate.

A guerra não é uma vocação das Forças Armadas brasileiras. Participamos de dois grandes conflitos externos (Guerra do Paraguai e Segunda Guerra Mundial), sem falar de outras batalhas em que a participação foi por meio de pequenos contingentes (como quando enviamos tropas brasileiras pela ONU para participar da Guerra de Suez em 1956). Isso não quer dizer que somos um povo pacífico, como queriam os intelectuais românticos do Império. A quantidade de guerras civis que colecionamos demonstra bem isso. Seja como for, as Forças Armadas ainda não estavam devidamente constituídas em muitos desses eventos e não dispunha de bons recursos na maioria dos casos. O Exército, por exemplo, só foi se consolidar como uma instituição militar poderosa após 1930. No entanto, ele era mais um ator político que uma corporação bélica.
Outra solução viável era a troca de informações com países amigos. Palestras de enviados dos EUA na Escola Superior de Guerra eram frequentes. Não raro era um correspondente pertencer a CIA e o motivo real de sua palestra ser ensinar técnicas modernas de repressão. Mas os norte-americanos não foram os únicos a nos "ajudar". A França, o berço da democracia liberal, tem uma contribuição gigantesca com a difusão da tortura. Oficiais franceses que participaram das guerras de descolonização, como a Batalha de Argel e os conflitos na Indochina, visitaram muitos países latino-americanos para compartilhar as experiências que acumularam.

Um desses oficiais era Paul Aussaresses que foi adido militar francês no Brasil entre 1973 e 1975. O general Aussaresses participou do serviço de espionagem francês, sem falar que foi paraquedista e combatente na guerra da Indochina. Nos seus anos como adido militar poderíamos encontrá-lo nas salas do Centro de Instrução de Guerra na Selva (CIGS), em Manaus, ensinando como infligir uma dor inimaginável em um guerrilheiro sem matá-lo. Aussaresses revela inclusive que durante uma sessão de tortura em Manaus as coisas saíram do controle e uma mulher, suspeita de ter vindo ao país para matar o então chefe do SNI (general João Figueiredo), morreu.

O Centro de Instrução de Guerra na Selva foi criado no começo dos anos 70 justamente como meio para preparar os oficiais para o conflito armado no meio rural. Afinal, o medo era que houvesse mais Guerrilhas do Araguaia pelo Brasil e a Amazônia parecia ser o terreno perfeito para que mais focos guerrilheiros proliferassem. Agora ressalte-se que dentre as preocupações do Centro, que incluíam geopolítica e sobrevivência em ambientes extremos, esteja a tortura. Só a presença de Aussaresses no CIGS faz a imagem da tortura como atitude deplorada pelo governo militar e praticada somente pelos policiais cair por terra. Aqui vemos um esforço de se corromper a ordem militar. Transformar oficiais em torturadores. Aliás, a Operação Condor já denuncia esse esquema. Países vizinhos atuando juntos na eliminação de seus opositores. Maior prova do comprometimento da ditadura militar com atrocidades não há. 

Concordo com o historiador Carlos Fico quando este diz que a tortura é um aspecto essencial para se entender esse novo regime. Por que ela dá a medida de como essa nova ordem que se constituiu no Brasil após 1964 se deixou ser moldada pelo autoritarismo. As propostas ideológicas de modernização e moralização do país só foram executadas diante de uma política repressiva. Na economia, a indústria cresce:  o salário é reduzido para se utilizar esse dinheiro em outros setores. E o trabalhador não faz nada? Quando faz leva porrada na greve ou bronca do patrão. Na política, quem discordasse de um projeto de lei com aval das esferas mais altas do poder era taxado como comunista e corria o risco de ser espionado pelo SNI.
A tortura é apenas o aspecto mais visível desse novo regime. É um meio para um fim. O meio: a brutalização, a violência. O fim: a unanimidade, o apoio incondicional. A tortura ajuda a acabar com a divergência, seja eliminando seus membros ou dando o exemplo para aqueles que pensarem em mudar de lado.
E não se enganem. A brutalização não acabou. Ela só mudou de cara. Pode ser que muitos considerem a violência como instrumento do governo como algo impensável hoje, como se apenas traficantes e esquadrões da morte a utilizassem. Mas pensemos mais um pouco. Pensemos no caso de Pinheirinhos, da reintegração do Bairro da Paz em Manaus, na Marcha pela Maconha, enfim, pensemos em movimentos sociais discordantes do governo, seja ele municipal, estadual ou federal, que foram reprimidos com uma certa força desproporcional á sua ameaça. A polícia, por mais avançada que esteja hoje, continua sendo usada ainda como jagunçada. E isso é preocupante.

Uma das maiores heranças da ditadura militar foi essa brutalização da vida política. O Brasil antes já sofria nas mãos dos coronéis, mas eram poderes localizados. Agora, a repressão é muito mais articulada. E muito mais eficiente, pois não se faz ser sentida como antes. Ora, se nossa participação política fosse maior com certeza ela seria mais explícita. Afinal, diante da indiferença não há porque ela se preocupar.
É sempre oportuno lembrar que a situação sempre é mais complexa do que parece ser. Hoje temos muitos outros canais de expressão, muito mais direitos que naqueles tempos. Em outras palavras, temos a faca e o queijo na mão, ou no caso a água e o esfregão na mão para limpar essa mancha da nossa sociedade.
E no passado, apesar de tudo parecer tão bem articulado, nem tudo era preto no branco. Haviam oficiais realmente contrários á tortura, assim como hoje existem militares que não celebram o golpe de 64. Colocar tudo num mesmo saco também é um grande erro. Temos condições de enxergar a complexidade que foi esse período essencial de nossa história. Tentar enxergar o policial para além do estereótipo do "agente truculento da lei" e desvincilhar o termo "torturador" da palavra "militar" faz parte de toda uma reflexão sobre um século de repressão e política no Brasil.

domingo, 1 de julho de 2012

Terra do Prata em Transe



Por causa das tribulações com o TCC não acompanhei muito bem o que vem acontecendo no Paraguai. Agora, com mais calma e mais tempo, pude me inteirar dos fatos. E vamos á eles:
A) Fernando Lugo foi alvo de um impeachment aprovado pelo Senado, ou seja, ele foi destituído do cargo de presidente por vontade dos senadores.
B)O motivo? Lugo estaria incentivando conflitos agrários, como o último que aconteceu no interior do país que terminou com 17 mortos. Se não incentivando, no mínimo sendo conivente com eles, na avaliação da oposição.
C) O novo presidente, até então vice de Lugo, Frederico Franco tem sofrido acusações do próprio Lugo e dos vizinhos latino-americanos de compactuar com um golpe branco, tanto que o país agora foi suspenso da Mercosul.

O que muito tem se questionado é se isso foi um golpe, ou seja, se a elite paraguaia atropelou a democracia e cortando as asas de um presidente popular. Bem, que Lugo é popular em seu país não é de se duvidar, por conta das medidas que tem feito, sendo uma delas a promessa de uma verdadeira reforma agrária. Algumas outras promessas de campanha não foram cumpridas, abaixando um pouco de sua popularidade inicial, mas mesmo assim ele ainda é mais ovacionado que seus opositores - principalmente aqueles pertencentes ao tradicional Partido Colorado que governa o país há quase 60 anos.
Quanto a questão do impeachment, foi ele legal ou não? Claro que foi legal, a Constituição paraguaia ampara as decisões do Senado como forma de cercear os poderes do Executivo. É aquela velha lei dos três poderes onde cada um barra o outro, equilibrando assim as forças, evitando que um se sobressaía sobre outro. O que está em jogo não é a legalidade, mas a legitimidade. Toda acusação deve vir precedida de uma defesa. Mesmo em caso de impeachment. Lembre-se de Fernando Collor, onde uma CPI foi instaurada e ele teve tempo de responder ás acusações. No caso de Lugo, tudo foi muito rápido.Na quinta o processo foi aberto e já na sexta foi julgado. Uma equipe de cinco advogados foi intimada a comparecer para a defesa ás 13h. Já ás 18h30 mais ou menos, o caso foi votado (quatro votaram a favor de Lugo e 39 á favor de sua saída da presidência).
Quer dizer, essa rapidez e essa unanimidade são muito suspeitas. Os demais países do continente estão se contorcendo, mas não é porque estão diante de uma "ditadura", mas sim porque perceberam que a direita descobriu um meio de manobra na política que não passa necessariamente pela decisão clássica do apelo ás Forças Armadas. Em outras palavras, o que os líderes populistas tinham descoberto 50 anos atrás e foi redescoberto recentemente por uma nova safra de estadistas latino-americanos (de que a democracia pode ser manipulada sem apelar para a força) começou a ser utilizado agora pelas direitas da América do Sul.

sábado, 8 de outubro de 2011

Um pistoleiro ás ordens do capitalismo

Smedley Butler (1881-1942)
Quando se fala em imperialismo, o texto do major-general Smedley Butler é um dos documentos mais emblemáticos. As declarações que o militar norte-americano fez em um livro (War is a Racket) que publicou em 1935 se tornaram conhecidas por sua ironia sobre o serviço dos mariners (fuzileiros navais norte-americanos):

Dediquei trinta e três anos e quatro meses ao serviço ativo de nossa força militar mais ágil: a Infantaria de Marinha. Ascendi do posto de segundo-tenente até o posto de major-general. Durante todo este período dediquei a maior parte do meu tempo a servir aos interesses dos Grandes negócios, a Wall Street e aos banqueiros. Em resumo, fui um pistoleiro às ordens do capitalismo...

Contribuí para converter o México e especialmente Tampico em lugar seguro para os interesses petrolíferos dos norte-americanos em 1914. Ajudei o Haiti e Cuba a se tornarem um lugar seguro para os rapazes do National City Bank efetuarem suas cobranças... Ajudei também a Nicarágua a cumprir seus compromissos com a casa bancária internacional de Brown Brothers em 1919-1922. Em 1916, facilitei os interesses açucareiros norte-americanos na República Dominicana. Contribuí para que Honduras seguisse uma política 'apropriada' para as companhias bananeiras norte-americanas em 1903. Em 1927, servi na China para que a Standard Oil seguisse seu caminho sem ser perturbada.

Durante todos esses anos desfrutei, como disseram os 'rapazes' de magníficas prebendas. Fui premiado com honrarias, medalhas e promoções. Olhando para trás, penso que até poderia ter dado alguns conselhos para Al Capone. Ele, no máximo, pôde operar seus negócios sujos em três distritos da cidade de Chicago, nós marines operávamos em três continentes.

terça-feira, 28 de junho de 2011

América para os (norte)americanos

Carregador de flores, Diego Rivera.
A independência dos Estados Unidos da América, como falamos em post anterior, foi um evento que abalou o mundo. Foi interpretado como uma crítica ao Antigo Regime lá e cá (na Europa e na América) e a base dessa crítica era o direito á liberdade. Ora, quem mais inspirou-se na heróica luta do povo norte-americano foram seus vizinhos latino-americanos.
A sociedade colonial hispano-americana era controlada pela Coroa e por seus emissários diretos no continente - chamados de Chapetones. A sociedade colonial portuguesa por sua vez não era muito diferente, mas sua estrutura era menos rígida (nascidos na colônia poderiam desfrutar dos bens públicos). Como nos indica o historiador peruano Juan Carlos Estenssoro, a sociedade colonial é cosntruída em cima de uma oposição, seja entre brancos e índios, seja entre insulares e nativos.
Com o passar dos anos, contudo, uma pequena elite se formará nas colônias e ela fará o jogo dos poderosos por muito tempo (tendo em vista sempre, claro, seu lucro pessoal e seu status). Na América Hispânica será chamada de Criollos e no Brasil de Homens de Grossa Ventura. O maior interesse desses homens era acabar com o pacto colonial e assim comercializar com qualquer país. A situação tornou-se insustentável para esses homens quando no final do século XVIII uma série de medidas foram tomadas pela Coroa Portuguesa (através do Marquês de Pombal) e Espanhola (através das reformas Bourbons) para se controlar melhor as colônias e explorá-las mais.
General Simón Bolívar: um dos líderes do movimento de independência latino-americano.
Essa elite "nativa" começou a atacar o sistema colonial utilizando como argumento a defesa da liberdade. Era uma liberdade restrita, contudo. Se nos discursos ela contemplava á todos os marginalizados pelo sistema colonial (incluindo a população pobre, mestiça, indígena e negra), na prática ela ficaria nas mãos dos homens de grossa ventura e dos criollos. No México, por exemplo, o movimento de independência foi popular, no entanto, após a conquista da autonomia veio a dominação, agora pelos grandes fazendeiros. A maioria dos demais movimentos, contudo, partiu da elite e do exército, conseguindo êxito em grande parte pela situação em que a Espanha se encontrava (guerras napoleônicas).
Uma vez terminada a guerra com Napoleão e restaurada a Coroa, a Espanha tentou conseguir suas colônias de volta. Contava com o apoio de boa parte da Europa que temia a Revolução Francesa (principalmente por conta do período de Terror que veio com Robespierre e de guerras com Napoleão) e anseava retornar ao Absolutismo. Essa liga de países absolutistas ficou conhecida como Santa Aliança (durou de 1815 até 1848) e uma de suas preocupações era justamente reaver as colônias perdidas. No entanto, nessa época surgia um forte adversário á liga: os Estados Unidos da América.
Após conquistar a independência em 1776, o país começou uma expansão a qual deve boa parte das terras que possui agora (algumas tomadas dos povos indígenas do oeste, outras compradas da Espanha, da Rússia e do México - caso, respectivamente, da Flórida, Alaska e Texas). Enquanto estava se expandindo, o EUA construiu um discurso no qual se colocava como o defensor do liberalismo (que a Santa Aliança tanto temia) e do continente americano. Famosa foi a declaração do senador James Monroe: "América para os americanos". Se a doutrina Monroe, como ficou conhecida, era contra a intervenção estrangeira no continente, por outro lado ela era conivente com a intervenção norte-americana em seus vizinhos.

Batalha de San Juan Hill (1896): Guerra Hispano Americana.
Após a Guerra de Secessão (1861-1865) os EUA finalmente superaram a divisão entre Norte e Sul, fortalecendo-se e assim preparando-se, politica e militarmente, para intervir na região. A primeira prova veio com a Guerra Hispano-Americana em 1898. Os Estados Unidos decidiu defender a independência da pequena Cuba diante da Coroa Espanhola, conseguindo atingir seu objetivo: Cuba tornou-se livre, mas dependente de seu tutor norte-americano.
Foi com o presidente Theodor Roosevelt, já no século XX, que o modelo de intervenção norte-americana se definiu com a política do Big Stick: "fale macio, mas use um porrete". Os EUA poderia agir influenciando assim o processo político de seus vizinhos e, em situações mais graves, invadindo o país. Durante boa parte do século XX o continente assistirá a uma série de golpes e de intervenções militares, principalmente na sua segunda metade quando EUA consolidar sua posição de potência militar e tiver iniciado a Guerra Fria. Assim, uma sociedade que se apresentou ao mundo como uma das primeiras á defender a auto-determinação dos povos passou a ser uma das que mais a manipula.

domingo, 24 de abril de 2011

Uma história sobre duas "surrealistas"

A Caravela, Salvador Dali.
O surrealismo é um movimento artístico que surgiu na França na década de 1920. Como um espécie de reação ao racionalismo que, segundo muitos, tinha provocado a Primeira Guerra Mundial, os surrealistas se amparavam na psicanálise (principalmente de Freud) e elegiam como o principal objeto de sua arte o inconsciente, essa parte de nossa mente que guarda impulsos, instintos e lógicas desconexas.

André Breton
O Manifesto Surrealista de 1924 é considerado a sua certidão de nascimento. Assinado pelo poeta André Breton que nele declara o seu amor pela imaginação ("Imaginação querida, o que sobretudo amo em ti é não perdoares".) e a sua aposta sem receio nela ("Não é o medo da loucura que nos vai obrigar a hastear a meio-pau a bandeira da imaginação".)
O surrealismo, como boa parte das vanguardas artísticas que surgiram no começo do século passado, contestava o conceito de arte: a arte não é só aquilo que vêem das mãos de um virtuose na academia, existem artistas anônimos também. Assim, eles se concentram em aspectos mais primitivos, em algo dedicado á conceitos e não mais representações de imagens, por exemplo.
Breton, por exemplo, tentava libertar seu inconsciente através da escrita automática. O que viesse na cabeça ele escrevia. Salvador Dali escrevia seus sonhos para depois torná-los pinturas. Os surrealistas procuravam libertar a imaginação, valorizavam o inconsciente, mas não se desligavam tanto assim da realidade. Muitas de suas obras iam contra aquilo que chamamos de "a moral e os bons costumes", com suas imagens carregadas de sensualidade e de dessacralização (talvez o melhor exemplo seja Simão do Deserto, filme de Luís Buñuel).

Tróstky, Rivera e Breton em 1937.
Quando Breton visitou o pintor muralista Diego Rivera no México e encontrou na sua casa o líder bolchevique Leon Tróstky resolveu fazer uma espécie de manifesto, demonstrando que o movimento surrealista tinha um comprometimento com a liberdade e com a revolução. Trostky representava a dissidência do stalinismo, do regime totalitário que a União Soviética havia se tornado.
Na mesma visita, o poeta francês conheceu a cultura mexicana e a mulher de Rivera, Frida Kahlo. É sobre ela e uma outra pintora, dita surrealista, que falaremos aqui hoje.

Frida Kahlo
Frida Kahlo era uma mulher marcada por muita dor e angústia. Primeiro, aos seis anos contraiu poliomelite o que fez uma de suas pernas enrijecer demais. Com dezoito anos, e já tendo aulas de pintura, sofre um acidente: o trem em que viajava se choca com um bonde e as ferragens penetram em sua perna e em sua genitália. Ela dizia que com os anos, a dor retornava diversas e diversas vezes, principalmente por não poder mais ter filhos.

Frida e Rivera
Mas ela também foi uma mulher dedicada ao amor. Frida conheceu o pintor muralista nas reuniões do Partido Comunista Mexicano, na década de 1920, e se apaixona. Mesmo ele sendo mais velho, Rivera foi o amor de sua vida. Ambos tiveram uma relação tempestuosa: Kahlo era bissexual e tinha casos com outras mulheres, o que era aceitado por Rivera, e este tinha caso com outras mulheres, uma delas a irmã de Frida, o que causou, aliás, a sua separação.
Em 1940, ambos retornam, mas os casos extraconjugais e as brigas de ambos continuam. Frida falece em 1954 de pneumonia, mas o caráter de sua morte ainda é controverso: alguns apostam em suícidio e outros em assassinato por parte de uma das amantes de Rivera.
A vida de Frida é essencial para entendermos sua obra, pois sua obra é sua vida, literalmente. Os desenhos feitos por Frida retratam seus sentimentos sobre determinados períodos de sua vida. Suas pinturas são quase um diário íntimo. Por isso ela recusou o título de surrealista: "Nunca pintei sonhos. Pintava a minha própria realidade".
Nós podemos ver isso nos quadros a seguir:

Sem Esperança
Sem Esperança, por exemplo, representa o momento de depressão em que a pintora vivia com as constantes dores do acidente que sofreu. Mesmo sentimento pode ser percebido no filho que não pode ter por causa de seu acidente:
Hospital Henry Ford.
Aí vemos o filho que não veio, a bacia fraturada, o hímen perdido e uma flor murcha: nada poderia ser mais objetivo, nada poderia traduzir melhor o que ela sentia.
Nesse quadro, chamado Auto-Retrato em Tijuana com Diego em meus Pensamentos, Frida aparece vestida com trajes brancos simbolizando a pureza e com um pequeno arranjo de flores sobre a cabeça - ambos são elementos típicos da cultura e do folclore mexicano, do qual ela se aproveitava constantemente. E vemos o seu grande amor em sua testa, representando esse homem que não saía da sua cabeça.
A obra de Frida é fácil de ser decifrada e é interessante por nos dar um vislumbre da vida de uma pessoa, dessa artista, através da arte.

Raquel Forner
Agora, falemos da outra pintora - parece um desrespeito aliás essa frase: "outra pintora". Como se o talento de Frida apagasse o talento da argentina Raquel Forner (1902-1988). Mas Frida ainda é uma das maiores artistas da América Latina pelos motivos que expus aqui acima. Raquel Forner é pouco conhecida do público brasileiro (o Brasil continua ensimesmado, como se não fosse parte da América Latina, e com essa ignorância perdemos muito), mas é uma das maiores pintoras argentina, tanto no campo do surrealismo como do expressionismo.
Aliás, Raquel, formada na Academia Nacional de Belas Artes de Buenos Aires e casada com o escultor Alfredo Bigatti, também recusava o título de surrealista e dizia ser mais simpática ao expressionismo. Embora tenha explorado um pouco o surrealismo, produzindo telas primitivas e oníricas, Raquel se dedicou basicamente á uma arte cheia de um simbolismo acessível, uma arte que traduzia e expressava sentimentos e opiniões através de signos conhecidos.

A Torre de Babel
Em A Torre de Babel, por exemplo, vemos alguns rostos femininos chorando ou sendo escondidos com uma lona por pequenos homens que parecem talhar essa pedra bruta onde eles se localizam. Ora, essa é uma alegoria sobre a condição feminina numa sociedade profundamente machista. Ali, a mulher é construída, talhada, pelo homem e com isso sofre e é marginalizada.
O Segredo
Já na tela acima, uma mulher aparece sendo consolada por uma figura misteriosa. Essa figura misteriosa, coberta com os pedaços de tecido pendurados, é o segredo. Alguns dizem que esse segredo simboliza adultério, mas pode ser algo mais simples, qualquer tipo de segredo íntimo ao qual nos amparamos.
Uma das minhas telas preferidas de Raquel é justamente essa abaixo, pois ela consegue resumir um, no dizer de Drummond, um tempo partido, de homens partidos.
A Caída.
Raquel era comunista e vivia numa sociedade muito simpática ao fascimo, afinal a Argentina na década de 1930 era marcada por golpes militares e uma onda conservadora e autoritária na sociedade civil. Por isso a obra de Forner tem muito de trágico, ela é uma voz contra o mundo obscuro, machista e conservador em que vivia. A Caída, por sua vez, reflete o clima de acirramento da política, com o começo da Segunda Guerra Mundial. Forner vê um mundo em ruínas, do qual surgem duas mãos (não sei se em sinal de socorro ou de resignação) com feridas sangrando (seriam chagas, estigmas?), um céu de bombardeio, um homem enforcado, uma mulher chorando e, em primeiro plano, ao lado de um tronco morto, a figura da morte. Esse não é o melhor dos mundos, mas era o que ela vivia naquela época.

Esse texto não é um ensaio crítico artístico - você pode perceber isso nos muitos campos que eu deixei de explorar nos quadros, os demais signos aparentes - , mas apenas uma introdução á arte na América Latina. Começamos falando do surrealismo, mas acabamos falando de duas pintoras que não se consideravam surrealistas: ambas possuem uma obra muito existencial, que denuncia a condição e a vida dessas duas mulheres - seja através da pintura "mexicanizada" ou pelo expressionismo. Por que foram enquadradas como surrealistas então? Porque os papas do surrealismo consideravam a arte na América Latina surrealista. Isso é um grande equívoco: a arte latino-americana não é absurda como queriam eles, mas rica e diferente. Claro, a cultura mexicana, contemplada por Breton, era um material rico para o surrealismo com sua visão mágica do mundo e seu culto á morte, mas ela não era surrealista. Para os mexicanos, não há nada mais natural. Essas definições foram, portanto, fruto de uma certa incompreensão da cultura latino-americana, uma gota de etnocentrismo.
A grande lição que espero trazer com esse texto é que a arte latino-americana é rica, plural e provocadora. Podemos perceber sua riqueza através das duas artistas que falamos aqui, mas existem muitas e muitos mais dos quais gostaríamos de falar aqui, mas, por conta do espaço e do tempo, deixaremos para outra ocasião.

quarta-feira, 6 de abril de 2011

A Música na América Espanhola Colonial

Essa é uma pequena resenha que fiz sobre um artigo sobre música na América Latina colonial:
LP do maestro argentino Ariel Ramírez sobre a Misa Criolla, que reatualiza a música barroca e andina.


STEVENSON, Robert. A Música na América Espanhola Colonial. In: BETHELL, Leslie (org.) História da América Latina. vol. II. São Paulo/ Brasília, DF: Editora da universidade de São Paulo/ Fundação Alexandre Gusmão, 2004.

No texto em questão o autor, musicologista e professor de música na Universidade da Califórnia, abordará um tema pouco conhecido: a música produzida na América Latina, com exceção do Brasil, durante o período colonial. Tentaremos analisar aqui as suas considerações, deixando de lado um pouco seus termos técnicos musicais.
Stevenson, logo de início, nos adianta que a música latino-americana colonial era composta pela música barroca européia, a nativa (dos povos pré-colombianos), a africana e a junção destas três. Já na década de 1550 podemos encontrar essa diversidade musical na Cidade do México com canções de cunho asteca, mas voltadas para a evangelização dos nativos. O autor fala de muitas publicações de músicas sacra com fundo barroco e asteca no México, a maioria patrocinada por missionários. A difusão era tanta que a própria Igreja, no Primeiro Concílio da Igreja Mexicana, baixou um decreto para controlar a sua produção.

Essa miscigenação musical tornou-se costumeira, assim como a figura do maestro de capilla, o religioso encarregado do acompanhamento musical da paróquia, seja através das missas, das festas religiosas ou dos sermões. Os maiores compositores desse período foram Hernando Franco e Gutierre Fernandez Hidalgo, todos vindos da Península Ibérica. Mas havia também compositores mestiços como Gonzalo García Zorro e Diego Lobato de Sosa, sendo o primeiro da Colômbia e o segundo do Peru. Outros, inclusive, não tiveram sucesso em sua carreira, apesar de serem muito talentosos, pela sua condição “racial”: Stevenson nos fala do caso de Juan Matias que por ser índio não conseguiu obter tanto sucesso como seus companheiros mestiços.

No final da década de 1590, há reclamações na Cidade do México da “indecente” música dos negros. Apesar disso, Stevenson nos mostra que muitos padres protegiam os coros de negros. Há casos ainda de maestros, na América do Sul, de associarem em suas composições elementos da música negra, podendo ser encontradas estas composições nas bibliotecas dos seminários tanto do Peru como da Colômbia.

Enquanto na Cidade do México o cargo de maestro de capilla torna-se tradicional e há até casos de salários exorbitantes, com o novo século La Plata, na América do Sul, torna-se, graças ao maestro Juan de Araújo, um grande centro musical. Potosí também e graças ao maestro Antonio Duran de La Mota, que era por sua vez ibérico. Nesse período, o século XVII e o século XVIII, começa a prevalecer no cenário musical compositores vindos de fora da América. A Catedral de Lima, por exemplo, tinha chamado um cantor italiano. Aliás, era costume na Espanha “importar” cantores de outros países.

No México, os músicos locais continuaram a ser incentivados. Manuel de Zumaya, considerado um dos maiores compositores coloniais, por exemplo, era mexicano e mestiço. Mas assim que ele saiu a Catedral da Cidade do México contratou, por quase todo o século XVIII, muitos músicos internacionais. Na mesma época, na Venezuela, podemos ver um grupo de mulatos que se reuniram ao redor de um padre oratoriano produzir inúmeras obras, contudo, com poucos elementos da cultura africana agora. Nas Antilhas, destaca-se a presença do compositor Joseph Boulogne que foi tão valorizado na Europa que emigrou para a França em 1752.

O autor chama a atenção para o repertório colonial venezuelano, pois durante boa parte de sua existência era valorizado e até se comprometeu com a causa nacional. Muitas canções foram usadas pelos seguidores de Simon Bolívar e continuam sendo cantadas até hoje. Retirando o caso da Venezuela, é curioso percebermos como durante um período em que estava se lutando pela independência política e a construção de uma cultura nacional os músicos e compositores locais foram tão pouco valorizados.

O texto é muito denso, por estar cheio de informações e por utilizar muitos termos e expressões próprios da música, no entanto, ele é muito proveitoso por nos mostrar como a musical colonial na América Espanhola era, de início, cheia de uma diversidade cultural, que refletia o processo de colonização, e um vínculo muito grande com a religiosidade. Interessante também é a tese do autor de que com a aproximação das independências latino-americanas essa diversidade vai perdendo espaço para a música européia, com a difusão de músicos internacionais na região.

terça-feira, 2 de fevereiro de 2010

O limbo americano

Nessa semana um grupo de veleiros de alguns países latino-americanos como Argentina, Equador e Venezuela estarão atracados no Pier Mauá no Rio para visitação. Trata-se de um envento chamado Grandes Veleiros 2010 no qual os referidos países comemoram os duzentos anos de sua independência com viagens pelos portos da América do Sul.
Muitos nem devem saber que a maioria dos países da América Latina se tornaram independentes em 1810. Mais improvável ainda é alguém ter ouvido falar no nomes dos revolucionários que ajudaram a libertar essas nações do colonialismo ibérico, como Simón Bolívar, Sucre, San-Martin, dentre outros. No entanto, a guerra de independência dos EUA e a guerra civil são muito mais conhecidas, graças á filmes como O Patriota e Deuses e Generais.
Essa é uma realidade: como nós desconhecemos nossos vizinhos. E como conhecemos nosso grande irmão do norte, graças ao imperialismo. A situação mudou um pouco com essa nova configuração da América Latina com o surgimento de líderes polêmicos e situações inusitadas. Simon Bolívar foi ressuscitado por Chávez (ressuscitado em partes...), o que levou muita gente a pesquisar sobre ele e suas revoluções. Nisso, esse contexto instável tem de bom: a retirada da história latino-americana do limbo.

terça-feira, 3 de novembro de 2009

Civilização

O que Facundo de Domingos Sarmiento e Os Sertões de Euclides da Cunha tem em comum, além é claro de possuirem o status de as maiores e primeiras obras-primas das litetaturas da Argentina e Brasil, respectivamente? Ambos possuiem uma visão muito cara á história da sociedade latino-americana: civilização versus bárbarie.
Em um, o campo é a bárbarie e a cidade (o qual o maior exemplo é Buenos Aires) a civilização; noutro, o interior é a bárbarie e o litoral a civilização. Seria o caso de perguntar porque eles chegaram a tais conclusões. Sarmiento considerava o campo o local da bárbarie, do arcaico e do deplorável por ser o habitat dos caudilhos e da maioria da população nacional, cultivando tradições "ultrapassadas" e sendo manobrada pelos primeiros. Euclides não foi muito longe: para ele o sertão era um local inóspito e selvagem e o litoral o lugar da civilização. Porém, Euclides, diferente de Sarmiento, nutria um pouco de simpatia pelo sertanejo, por ele ter-se feito sozinho, sem ajuda do governo que se dizia o "Reino da Razão" e que agora vinha pela primeira vez até eles para esmagar uma revolta.
Se pensarmos bem, essa dicotomia era muito simples: é o embate entre o que somos e o que queremos ser (na época pelo menos). A Europa estava passando pelo imperialismo e pelo avanço tecnológico, a Segunda Revolução Industrial produziu uma fé desmensurada no progresso como o regenerador das nações e da humanidade. Por isso não é de se estranhar a importação de idéias e de pessoas (incentivo á imigração, por exemplo) do Velho Mundo para o Novo Mundo. No entanto, muitos dos nossos intelectuais foram cegados pelo ideal do progresso e da ocidentalização. Não conseguiram enxergar outros meios de desenvolver seus países e sua população. Se enveredaram pelo autoritarismo e o radicalismo. Se foram astutos em analisar a situação de sua gente, por outro lado, muitos foram arrogantes em se livrar de algumas limitações, como por exemplo o uso da força desnecessária. Sarmiento, por exemplo, grande crítico do autoritarismo e violência dos caudilhos, promoveu um verdadeiro massacre de índios na Argentina para desenvolvê-la através do branqueamento da população.
Mas essa é a verdadeira crônica da história da América Latina: no caminho do desenvolvimento (principalmente social) sempre andamos "aos trancos e barrancos", parafraseando Darcy Ribeiro.

terça-feira, 27 de outubro de 2009

Bárbarie


O escritor argentino Domingos Sarmiento ficou conhecido, na literatura latino-americana, pelo livro Facundo. Nada mais é o livro senão a história de um caudilho, espécie de chefe regional que controlava a vida local. Por retrata a história de Juan Facundo Quiroga, figura histórica real, o romance virou, para muitos, não só um grande exemplar da literatura latino-americana,mas também crônica de um capítulo de sua história.
E esse capítulo se chama caudilhismo, mas poderia se chamar coronelismo ou caciquismo e por aí vai. A palavra caudilho, na origem, designa um chefe político e econômico regional da região do Prata. O maior exemplo de caudilho, com certeza, é o argentino Juan Manuel Rosas. Rosas dominava os pampas da Argentina com mãos de ferro, mas também usava do velho e bom paternalismo ou clientelismo, se preferirem.
Os caudilhos proliferaram na região após as guerras de independência; sem o poder colonial, eles estavam livres para dominarem onde quer que quisessem dominar. A maioria era de militares que atuaram nas guerras e que possuiam muitos latifúndios, ou seja, tinham o status e a riqueza necessário para tanto.
A América dos caudilhos não está muito longe de nós: a figura do coronel, do chefe local, está enraizada também em nossa literatura, dramaturgia e em nossa mentalidade. E a América dos caudilhos precisa ser estudada e analisada, não pela emergência de líderes latino-americanos que meio-mundo chama de novos caudilhos e a outra metade de neo-populistas, mas porque eles demonstram a dificuldade da construção da democracia em nosso continente. Estamos falando de uma população que passou anos sobre o jugo das potências européias e que quando se viu finalmente livre estava numa situação de pobreza e anarquia, á mercê dos líderes autoritários. Esse período da formação da nossa identidade é muito importante, pois nele houve um embate entre o ideal de modernização que se queria implantar aqui (muitas vezes a República nos moldes dos EUA ou da Europa) e a situação real dos países (pobres e comandados por líderes autoritários).

terça-feira, 29 de setembro de 2009

América Latina em transe

Para quem acompanha os noticiários o nome Zelaya já é bastante familiar. Desde que Manoel Zelaya foi deposto da presidência de Honduras pelas Forças Armadas, a Suprema Corte e o Congresso em 28 de junho não se fala em outra coisa. A proporção de notícias sobre o hondurenho aumentou quando este decidiu voltar ao seu país e se abrigar na embaixada do Brasil.
O caso de Honduras é um prato cheio para os jornalistas, mas pode ser um prato maior ainda para os professores de História. Ora, Honduras está inserida num contexto mais amplo que é a moderna configuração da América Latina. A partir dos anos 90 assistimos a hegemonia do neoliberalismo na América do Sul, maiores exemplos são o próprio Brasil e a Argentina. No entanto, com o começo do novo milênio a situação muda e parecem surgir em diferentes países governos mais populares e/ou populistas como alternativa ao neoliberalismo. O processo de consolidação desses governos é conflituoso, como vimos na Venezuela com Chávez e os golpes militares que o depuseram, até por conta de seu caráter populista (aliás, foi uma consulta popular para fazer mudanças na Constituição que motivou a crise em Honduras).
Ou seja, estamos assistindo, acompanhando nos jornais e na internet, esse processo. A necessidade de explicá-lo não pertence somente aos jornalistas, mas principalmente aos professores de História. Tanto a atual situação pode chamar a atenção dos alunos para o estudo da História da América Latina, como o momento histórico anterior (muito similar ao atual em algumas partes como o populismo e o golpismo) pode levar eles a se interessar pelo contexto atual. O professor pode estimular esse interesse trazendo notícias da situação seja em Honduras ou na Venezuela para os alunos, pedindo para relacionar os governos de hoje com os de 50 anos atrás ou incentivando a reflexão sobre os pontos principais da História da América Latina.
Mas sempre com o cuidado de não sacrificar a História para entender o presente. O ensino não pode desprezar a complexidade dessa parte do continente tão rica a favor de uma história mais didática. Podemos sim fazer os alunos entenderem que essa é uma história complexa, sem no entanto fazê-los perder o interesse pelo assunto, dando ênfase á certos países e disponibilizando informações sobre outros para os mais interessados.
É... afinal, o golpe em Honduras serviu para alguma coisa.