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quinta-feira, 14 de janeiro de 2016

A verdadeira dívida


O ator José Lewgoy participou de diversos filmes, desde as chanchadas da Vera Cruz nos anos 50 até a produção da retomada do cinema brasileiro na década de 1990. Foi o seu trabalho no Brasil que ajudou a ganhar fama internacional, sendo convidado para fazer filmes alemães, franceses e britânicos. Por isso muitos amigos perguntavam a ele:
-Lewgoy, você deve muito ao cinema brasileiro, né?
Porém, ele, sarcástico, corrigia:

-Não, meu caro. Eu devo muito por causa do cinema brasileiro.

quarta-feira, 13 de janeiro de 2016

Uma vez Formigão, sempre Formigão


O cantor Cyro Monteiro adorava comer. Não por acaso recebeu o apelido de Formigão. Conta-se que uma vez na casa de uma de suas madrinhas ele começou a passar mal. Repentinamente ficou pálido e reclamava de dores terríveis no estômago. Ele se escorou no corredor da casa esperando a mulher trazer algum remédio. O que ela pode preparar a tempo foi um chá de boldo.
-Toma aqui. Bebe tudo.

-Ué, mas tomar assim? Sem nada para acompanhar o gole?

sexta-feira, 14 de março de 2014

Patrimônio desfalcado

Antes do carnaval, a Biblioteca Nacional foi furtada mais uma vez. Em 2005 um rapaz tinha sumido com algumas obras raras do acervo, agora alguns notebooks foram afanados. Como o prédio ainda está em reforma, sendo protegido por um frágil tapume, o ladrão não precisou se esforçar muito.
Ao que parece tratava-se de um dos muitos viciados em craque que vivem ali perto. Mas na maioria dos casos os responsáveis por desfalques no patrimônio histórico e cultural brasileiro são pessoas com um perfil totalmente distinto. Você que é pesquisador e mora em Manaus vai imediatamente lembrar de uma figurinha mais que manjada nesse meio.
O mais preocupante é que existe toda uma rede de tráfico de obras culturais responsável por retirar inúmeros tesouros do nosso país. Segundo a lista da Interpol, o Brasil tem 1.596 itens roubados. Ontem mesmo descobriram o paradeiro de um livro raríssimo de botânica que foi furtado do Museu Emílio Goeldi no Pará há cinco anos atrás.

domingo, 9 de março de 2014

Para o Bloco dos Reaça é carnaval todo dia


Fico triste ao ver pessoas que descontentes com o governo do PT passam a defender a ditadura civil-militar. Fico triste por que além de recorrem a uma fraudulenta idealização do passado (de que na ditadura não havia corrupção e nem baderna), não conseguem sair de lugares comuns, não elegem uma nova perspectiva de futuro que não seja necessariamente pela via autoritária.
Nesse oceano de desencanto um texto me fez ganhar o dia: Ninguém é a favor de bandido, é você que não entendeu nada de Ramon Kayo. O autor tenta escapar dos velhos clichês conservadores repisados a todo instante na mídia e no cotidiano quando se trata de discutir direitos humanos. O texto não é um primor, mas desconstrói de forma bem lúdica estas pérolas do reacionarismo.
*Aproveitando o momento: além de irônico, acho extremamente engraçado o costume de pensadores dessa direita new age (que de "new" não tem nada) criticar os movimentos sociais como responsáveis por criar uma cultura de vitimização no Brasil enquanto eles repetem a todo momento que são vítimas da falta de liberdade de expressão, de consideração, de isso e daquilo.

domingo, 2 de março de 2014

Amores serão sempre amáveis


Passando aqui para recomendar o ótimo post do historiador Valdei Araújo sobre o passado e o futuro hoje: Distopias, futuros adiados e transcendência. A partir de uma música do Chico Buarque (Futuros Amantes), ele reflete sobre como nos apropriamos do passado e como projetamos o futuro hoje, depois da Queda do Muro de Berlim e depois que o gigante acordou e voltou a dormir.
*Em tempo: sempre me incomodou essa expressão "o gigante acordou". Me cheira a ufanismo barato, mas enfim...

Segundo Valdei, a modernidade consagrou dois modos de se ver o futuro: utópico e distópico. O futuro como o melhor dos mundos ou então como o pior dos mundos. A utopia tem muito de nostalgia, afinal procura-se voltar ao que era "antes", sendo esse "antes" um passado sempre idealizado. A distopia bebe muito no niilismo; as coisas não darão certo não apenas por conta da ausência de sentido da história, mas também pelo homem, egoísta por natureza.
Mas o historiador elenca aí uma terceira concepção de futuro, aquela esposada por Chico em sua letra: o futuro adiado, um projeto de realidade que fica suspenso por quanto tempo for necessário até ser chamado a ser realizado.
Muitos tem falado na desintegração da experiência (o maior exemplo aqui pode ser Walter Benjamin) diante da modernidade, mas o que o autor sugere aqui é uma outra percepção de experiência que transcende o presente para encarar a modernidade, para impedir que seja desintegrada.
Na canção, o amor desses dois amantes é sempre remarcado, mas não há angústia nisso. Há aqui serenidade, e é isso em poucas palavras que Valdei propõe como forma de resistir á uma modernidade pulsante e frenética. 
Essa discussão sobre historicidade e temporalidade rende muito. Pretendo debater mais isso em post futuros.
**Além de Chico, Valdei adora Alan Moore e se você cavucar um pouco mais no blog dele vai achar análises de Watchmen e o tempo histórico.

A sanha never ends


Hoje li n'O Globo um artigo do cientista político Nelson Paes Leme - que pode ser encontrado na íntegra aqui no post do Fernando Brito - com o seguinte título: a UDN não morreu.
O que quer dizer UDN? Calma, titio explica: União Democrática Nacional é o nome de um partido criado em 1945 e extinto em 1966 (já falamos dele em um post anterior) que tornou-se bastião do conservadorismo em terras tupiniquins.
Diz Paes Leme que o udenismo perdura através de um moralismo obtuso. Acho que podemos acrescentar aqui anticomunismo também. Qual a novidade? A sociedade brasileira sempre foi muito conservadora e autoritária. Talvez o mais importante nessa discussão é saber como esse reacionarismo sobrevive. Por meio de que mecanismos ele se adapta aos novos tempos?
O cara do conservadorismo hoje não tem rugas, mas espinhas. Há um descontentamento com o presente e há uma associação, por inúmeros motivos, das mazelas do cotidiano com a participação dos movimentos sociais (principalmente das chamadas minorias) nas políticas públicas desde 2003.
A direita, que havia se queimado pelo apoio á última ditadura, saiu do armário. Antes fosse uma direita inteligente, o que enriqueceria nossa morna democracia, mas não. Ela não propõem nada de novo, não há um projeto de Brasil. Quando há sempre é orientado por uma volta a um passado totalmente idealizado. Há mais uma sanha contra tudo aquilo que abale a moral e a acomodação. Bolsonaro, Feliciano e Sherazade são os testas-de-ferro do "cidadão de bem".
Bem, a UDN foi vítima da autofagia. O autoritarismo que tanto defendeu foi seu fim. E o que será dos udenistas de plantão hoje?

Para entender o "hoje" de 2014

Vem Pra Rua (Manaus, 2013). Foto: Igo Rafael Farias.
Aviso: Não estou fazendo aqui uma lista dos textos essenciais e definitivos para compreender profundamente esse momento tão peculiar por que passamos. Seria muita presunção fazer isso. Afinal, a história e o presente, como queria Walter Benjamin, é feito de muitos "agoras". Por isso estou elencando aqui alguns "agoras" que tem me ajudado a pensar e repensar minhas certezas sobre o que estamos vivenciando.


Esse post foi escrito em 2012 se não me engano no saudoso blog Fagocitando São Paulo do meu amigo Diego Gatto (por isso as referências ao coronel Telhada) e foi revisado recentemente para seu novo blog Check Out Town. O que me cativa aqui além da verve do autor, é esse sentimento de inconformismo com a democracia que não descamba para um saudosismo autoritário. É a sede por coisas novas. É o anseio por fugir das miragens do neoliberalismo. 

Manifestações, Bráulio Tavares
O escritor paraibano me deixou inquieto por todo um dia com esse post. Prenhe de inquietações, todas elas muito bem articuladas com sua escrita lúdica, nos oferecem um posicionamento aquém das usuais visões maniqueístas sobre as manifestações. Não encontramos demonizações aqui, muito menos canonizações.

Ao contrário dos dois primeiros textos, esse aqui se aproxima mais dos ensaios políticos tradicionais ao reunir dados estatísticos e um embasamento teórico referente á movimentos sociais consagrado (refiro-me aqui ás considerações de Eder Sader). Alguns conceitos problemáticos, como classe média ou classe c, aparecem aqui, mas justamente para serem problematizados á luz do momento - note que ele foi escrito um mês depois das grandes manifestações de 2013.

O jornalista condensa aqui uma série de impressões sobre os rolezinhos, tentando fugir de discursos enviesados (embora aqui e ali escorregue em certo moralismo), além de estabelecer uma conexão interessante com várias obras que discutem as ambiguidades da urbanização no mundo contemporâneo sem necessariamente ter aquele discurso academicista.

Por que implicar com o academicismo? Nada contra, apenas acredito que nesse momento os pesquisadores tem se valido de muitos conceitos deslocados e anacrônicos na tentativa de justificar sua posição enquanto peritos, enquanto decifradores do real, quando estamos na hora e a vez da experiência.

domingo, 31 de março de 2013

"A velha e boa ditadura..."

Fortuna.


31 de março caiu em um dia santo esse ano. Então você me pergunta: sim, e daí? Acontece que há mais de 40 anos atrás algo muito importante aconteceu em 31 de março e se você não sabe a que estou me referindo aconselho a dar uma "googlada". Vou até facilitar pra você: procure por "Golpe de 1964" ou então "Revolução de 1964", enfim, você escolhe. Enquanto muitos comemoravam a Páscoa, outros comemoravam este fato.
Como pesquisador, procuro entender 1964 e os anos posteriores como um processo multifacetado onde atores sociais (militares, classe média, empresariado, sacerdotes, camponeses, políticos, etc) lutaram contra, se aliançaram ou negociaram construíram aquele contexto.
Como cidadão, procuro entender como as pessoas podem sentir falta desta época. É natural a qualquer pessoa sentir saudades do passado. Mas a memória ás vezes nos prega peças. "Naquele tempo não havia corrupção". Claro que havia, você não sabia pelo mesmo motivo que receitas de bolo eram colocadas no lugar de matérias que soassem suspeitas de subversão. "Naquele tempo não havia violência nas ruas". Tampouco liberdade. E outra, a brutalidade policial que temos hoje é filha desse tempo, onde articulações entre governo e grupos de extermínio ajudou a consolidar esses últimos. Não só a brutalidade, mas também o crime organizado: só lembrando, o Comando Vermelho nasceu nas celas da prisão da Ilha Grande. O Jogo do Bicho, aliás, ajudou a máquina de repressão (leia Memórias de uma Guerra Suja de Cláudio Guerra).
Enfim, procuro entender esse tempo, mas sem a mínima vontade que ele volte. Nossa democracia pode parecer falha ás vezes, mas todo regime tem seus defeitos. Creio que não devemos aceitar isso como um aval para sermos conformistas. Precisamos sim melhorar muita coisa. As soluções de força podem parecer mais rápidas, mas com certeza não são o caminho para isso. 31 de março taí para nos lembrar disso.

sábado, 30 de março de 2013

A escolha pelo autêntico


A ESCOLHA PELO AUTÊNTICO
Vinicius Alves do Amaral

Aos poucos o ambiente se revela: uma sala. Sentado na poltrona está um rapaz. Sobre a mesa, uma caixa. Ainda que esteja fitando a moeda em suas mãos, o alvo de suas atenções não é ela. Para ficar mais claro, ele inicia um diálogo com a caixa. Trata-se de uma aposta. O que está em jogo é a liberdade do que quer que esteja dentro dessa caixa.
Esse é o mote de Perpétuo (2012), curta de Bruno Barrenha. A princípio o próprio título dá uma pista do conteúdo misterioso da caixa: são chamados de perpétuos os seres que povoam o universo de Sandman, seres que representam elementos da natureza humana como o Sonho, a Morte, o Desejo ou o Desespero. No começo da saga criada por Neil Gaiman, Morpheus ou o Sonho teria sido aprisionado por um mortal engenhoso. Dentro da caixa estaria o Sonho?
Cara ou coroa? A moeda é jogada. O rapaz perde. Agora resta cumprir com a palavra. O perpétuo sai de sua prisão compacta e se revela uma Super-8.  Eis aí nosso perpétuo: a Sétima Arte. Como ato final do carcereiro, este aponta a câmera contra a cabeça, cerra os olhos e a liga. A seguir, cenas dos primórdios do cinema invadem a tela.
Peço desculpas por contar o final do curta – pecado capital para os cinéfilos – mas creio que não posso iniciar minha análise se antes compartilhar com vocês o roteiro engenhoso dessa produção. Em primeiro lugar, o que dizer do perpétuo aprisionado? A Super-8 é um tipo de câmera geralmente associada ao cinema independente, por conta de sua utilização em experimentalismos visuais. Podemos presumir que o personagem interpretado por Camilo Bicudo seja um jovem realizador que se pergunta se deve dominar ou ser dominado por sua arte. Ele deixa para o acaso a tarefa de solucionar o dilema. A moeda aponta a segunda opção e ele, fiel á sua palavra, deixa-se possuir pela câmera. Os fragmentos cinematográficos que invadem a cabeça do rapaz são bem pontuais: anteriores ao cinema falado em sua maioria. Essas imagens soam tanto como uma tradição esquecida como portadoras de um sentimento quase atemporal: o encanto pelo cinema. Nada mais revelador.
O olhar treinado e o coração apaixonado

Bruno Barrenha tem ambos. É entusiasmante ver alguém tão jovem e ainda assim tão consciente de suas escolhas. Antes de tudo, Bruno é um cinéfilo. Pertence, portanto, ao mesmo seleto clube de Scorcese e Reichenbach.
Cauteloso, inicia seus passos sempre se amparando nos grandes (Scorcese, Leone, Peckinpah). A admiração é visível aqui e acolá. Claro, sempre há o risco de perder um pouco da originalidade ao se reverenciar alguém, mas este é um perigo que todo realizador corre – podemos até considerar como um risco da profissão, por que não?
Seus primeiros vídeos são experimentações. Alguns mais ingênuos – como O Bom, o Mau e o Sujo, onde a referência é escancarada – , mas com o tempo vão se tornando mais complexos – como O Poeta da Violência.  Nestes, mais recentes, encontramos um realizador preocupado com cada quadro, com cada ângulo. O amadurecimento é mais que perceptível.
E desde já seu tema esboça-se: o vazio. O poeta dilacerado e o misterioso homem sedento por um abraço (protagonista de Abraços na Escuridão) parecem se movimenta no mesmo meio: uma existência sem significados.
Entre tapas e beijos
No meio dos experimentos, uma carta de amor. Sim, podemos enxergar Perpétuo como uma declaração de amor á Sétima Arte. A influência dos quadrinhos é grande, mas não consegue superar o poder da telona. Apaixonado, Barrenha parece muito menos com o misterioso protagonista (ou seria coadjuvante?) de seu curta. Acredito que ele não titubearia em escolher o cinema como modo de vida.
No entanto, o encanto do cinema parece muito bonito para nós espectadores, mas pode ser fatal. Talvez seja comparável ao transe das mariposas diante das lâmpadas. Algumas podem morrer se aproximando demais da sua luz. Morrer pelo cinema parece-me uma atitude um tanto radical demais, mas desgastar-se por essa arte é fato conhecido.
Afinal, fazer cinema no Brasil não é fácil. Ainda mais se você vive no interior de São Paulo. Existe toda uma carga de trabalho a ser seguida. E para se chegar ao resultado esperado na maioria das vezes gasta-se muito tempo. Vicissitudes como essas, próprias deste campo – e acentuadas pelo cinema comercial, principalmente no que tange á produção e distribuição - podem explicar a feição séria do rapaz ao encarar a decisão apresentada pela moeda. Ai está um ato poético, mas também lúgubre.
Morar em Rio Claro, contudo, tem suas vantagens. Uma delas é a ajuda do grupo Kino-Olho, de renome internacional, que auxilia jovens diretores amadores a entender melhor a dinâmica do processo criativo e as técnicas de produção. Abraços na Escuridão é o fruto dessa parceria entre Barrenha e o grupo. O amadorismo continua presente nesta obra, mas o domínio das técnicas narrativas parece mais firme também. Em se tratando de parcerias há que se considerar também os amigos Camilo Bicudo e Thierry Vasquez, seja em colaborações na frente ou atrás das telas.
Crise? Mas que crise?
Ora, nunca fomos tão criativos! Falo aqui de iniciativas como as de Bruno Barrenha que chegam até nós graças ás novas mídias que, dizem, ameaçam o cinema. O cinema nunca esteve ameaçado, Hollywood sim. A indústria cinematográfica tenta cooptar e imitar traços desses realizadores na tentativa de sobreviver. O que falta á ela, contudo, é difícil de se comprar: paixão.
O artista completo conjuga paixão e técnica. Só assim sua expressão parece autêntica. Por isso o cinema independente geralmente é visto como representante legítimo da Sétima Arte atualmente. Barrenha, que assume sua filiação a este campo por meio da Super-8, e toda uma geração de artistas que estão surgindo agora, em boa parte por conta dessa cultura do compartilhamento, fizeram essa escolha pelo autêntico. E se depender deles continuaremos como mariposas diante da “telona”: hipnotizados.
Manaus, 19 de Março de 2013.

__________________
O crédito de todas as fotos presentes nesse artigo pertencem ao site Lumi7.

domingo, 3 de fevereiro de 2013

Etnografia e serpentina II


Esse é o momento em que podemos ser puramente ridículos. Não ria, momentos assim são preciosos. Hoje somos mais sérios do que antes. Não que não gargalhemos mais - Ora, quantas vezes você já não riu daquele folião bêbado? - mas não rimos mais de nós mesmos.
Rir de si mesmo é uma terapia. Alguém me disse isso, só queria lembrar quem. 
O importante é que assimilei.
Quando nos fantasiamos estamos assumindo essa arriscada tarefa de nos auto-ridicularizar. A não ser que você seja um cosplayer - esses levam a fantasia a sério, eu sei. Mas é que quanto mais sóbrio, mais posudo, mais você é respeitado. Se você brinca com sua própria moda está abrindo um perigoso precedente para que os outros te ridicularizem a qualquer hora, certo? Pode até ser. Seria mais fácil estabelecer limites, mas com tantas linhas na rua e artigos na constituição quem mais quer saber de limites?
Só sei de uma coisa: eu continuo indo no Bloco das Piranhas.

segunda-feira, 21 de janeiro de 2013

Parabéns (com mais de 15 dias de aniversário)...


Belém, nunca te vi
mas me falaram muito bem
de ti
e realmente, 
397 aninhos são para poucos.

quinta-feira, 15 de novembro de 2012

Comemorar?


Em 15 de Novembro proclamou-se a República. A república que não foi. Hoje, mais que nunca, sabemos disso. Depois de maracutaias, crises e golpes chegamos á uma república embaraçada por não ser tão popular quanto tencionava ser.
O Império reunia uma espécie de valor simbólico ao redor do seu monarca. Aura que blindava o imperador e de quebra conferia unidade ao Brasil, é o que dizem. É importante lembrar que a legitimação da monarquia no Brasil foi iniciada durante o período da Regência por uma equipe de políticos e intelectuais. A unidade territorial foi mantida, mas a forma como ela foi construída (por meio da conciliação de interesses ou então imposição central) acabou por abalar os alicerces desse regime. Províncias como São Paulo ou Rio Grande do Sul abraçaram o republicanismo por conta de sua promessa de autonomia regional.

No entanto, algo não se pode negar: em relação ao Império, os republicanos contavam com menos aceitação popular. Alguns nomes já eram conhecidos e admirados pelo seu papel em eventos das décadas finais do Império, como é o caso do marechal Deodoro da Fonseca que lutou em mais de três batalhas no Paraguai. Ou seja, o novo regime precisava se legitimar como a monarquia o fez durante a Regência e aí temos a garimpagem de heróis e símbolos de ideologias vinculadas ao novo regime, como nos mostra muito bem o historiador José Murilo de Carvalho em A Formação das Almas.
Novos estudos como o de Maria Thereza Chaves Mello, A República Consentida, revisitam o silêncio do povo diante da Proclamação. Por meio da imprensa e de conferencias, líderes republicanos e positivistas conseguiram difamar nosso "Antigo Regime tropical" contribuindo para que a maioria da população não se indignasse com o fim do Império. O silêncio popular foi o silêncio do consentimento. Mas fé no novo regime também não havia. Quando a República sinaliza seu caráter aristocrático, as revoltas pipocam tendo motivos vários como pretexto, como é o caso de Canudos.

Os primeiros anos do novo regime ficaram conhecidos como República do Café com Leite, dada a importância que os estados de São Paulo e Minas (respectivamente, os maiores produtores de café e leite, dois itens que alimentavam o grosso da nossa economia) tiveram em seus arranjos políticos. Hoje nosso sistema político é outro. Depois de várias mudanças constitucionais (algumas até bisonhas), chegamos a um sistema representativo que lembra em muito o das modernas democracias liberais. Ainda assim, a corrupção, o elitismo e a apatia política perduram, claro, com novos nuances.
Por causa desse status quo, vejo muitos argumentos perigosos se desenvolverem e ganharem inúmeros adeptos: primeiro, o de que a transição de regimes não significou nada, uma vez que nada mudou; segundo, hoje estamos pior que antes, já que durante o Império não existiam tantos escândalos. O primeiro desclassifica a transformação histórico, o segundo idealiza um passado que nunca existiu. A corrupção não é uma invenção exclusiva da República, mas uma prática que já nos acompanha de longe. Na realidade, muitos pesquisadores tentam entender como a corrupção se transforma com o tempo, como esse fator estrutural dialoga com o contexto, ou seja, como ela se adapta aos novos tempos.

Quanto á negação de mudanças, tão habitual ao conservadorismo, ela tem suas raízes, nesse caso em especial, na interpretação da corrupção e do autoritarismo como um dado estrutural da nossa sociedade, quase como um órgão monolítico. Claro que o modo como se rouba hoje não representa o mesmo modo como se fazia no passado, embora os motivos para tal crime deem a impressão de que nada mudou. Há outros aspectos, que nos parecem menores á primeira vista, que devem ser levados em consideração, como a gradativa conquista de espaço da população e dos movimentos sociais na política. O reconhecimento do poder da massa e das organizações da sociedade civil fez com que a classe política tentasse cooptá-los de diversas maneiras como foi o caso do trabalhismo e do populismo. Até que ponto conseguiram ou até que ponto o povo se aproveitou disso são outros quinhentos.
Bem, então voltemos á vaca-fria: hoje é 15 de Novembro e o que temos a comemorar? Pouca coisa na verdade, mas nem por isso devemos jogar a República Velha ou todo os 120 anos do regime republicano no lixo. Antes, devemos ter essa longa trajetória em mente para saber o que ainda nos impede de termos um governo democrático e um povo compromissado.

segunda-feira, 12 de novembro de 2012

Corrupteca


Nove em cada dez pessoas acham que o maior problema do Brasil é a corrupção. O que muitos não sabem responder é como ela começou. Será a corrupção de hoje a mesma dos tempos da Colônia? Até mesmo a subvenção tem sua historicidade.
A USP, ou melhor, seu Núcleo de Pesquisa em Políticas Públicas se uniu com o jornal O Estado de São Paulo para construir um banco de dados sobre o assunto. A universidade já conta com 100 mil textos completos extraídos de mais de 4 mil periódicos científicos. E o Estadão entra no projeto om seu acervo de notícias.
A Corrupteca está sendo organizada por meio da plataforma web 3.0, onde os termos e o contexto dos textos são identificados pelo sistema através de palavras-chave.
Mais informações: USP e Estadão lançam biblioteca digital sobre a corrupção.

sábado, 3 de novembro de 2012

sexta-feira, 26 de outubro de 2012

Desabafo


O poeta italiano Giuseppe Ungaretti acreditava que o homem está destinado á grandeza. O único problema é largar a pequenez. Por que alguém não desejaria sair da menoridade? Ora, medo ou talvez maior comodidade. Muitas pessoas hoje desejam ser crianças de novo. Menos responsabilidades, menos problemas. É inegável que o conhecimento traga seus dilemas, a maioria complicadíssimos. Por isso, talvez muitos concordem com a visão de outro "poeta" italiano, Mussolini: "a ignorância é uma benção".
Nunca uma benção custou tão caro ao futuro. No Brasil, não há como discordar disso. Ai estão gente eleita pelo povo, esquemas construídos com base na omissão. O que mais me irrita é ouvir certas pessoas dizerem que melhor era na ditadura quando isso não existia. Corrupção sempre existiu, a ditadura não foi nada excepcional nesse aspecto. O que ela fazia no entanto era esconder muito bem os escândalos. E o pior é que quem a defende, sabe disso. Ou seja, o que os olhos não vêem o coração não sente.
É essa a lei que rege o mundo do Dr. Pangloss, o mundo dos otimistas alienados. Para alguém que fique somente na sua zona de conforto e acredite, como São Tomé, que se não vê é porque não existe, o Brasil está bem, muito bem. Não existe racismo aqui, nem vulcões, furacões ou terremotos. Hoje a fome é quase um problema do passado. Nosso sistema eleitoral é o melhor do mundo e nossa democracia hoje é sagrada.
Aquele que se aventurar para além do seu condomínio ou do mundo perfeito da sua imaginação descobrirá que nem tudo é verdade. Nossos problemas só se prolongam porque somos indiferentes á eles, consciente ou inconscientemente. Muita gente ainda precisa abrir os olhos.

quinta-feira, 25 de outubro de 2012

O que fazer?


A polêmica dos Guarani Kaiowá coincidentemente estourou uma semana depois da entrega do relatório do caso do massacre Waimiri-Atroari á Comissão da Verdade. Nele trabalharam pesquisadores de várias áreas, destacando-se o missionário Egydio Schwade que vem divulgando o acontecimento há mais de 30 anos.
Na década de 60 e 70, a construção da rodovia BR-174 (Manaus-Boa Vista) em terras dos Waimiri-Atroari. A estrada foi sendo construída aos poucos, entre conflitos armados e mortes. No entanto, o caso foi abafado. Primeiramente, eram os tempos do regime militar. Em segundo lugar, o isolamento geográfico (estamos falando do interior da Amazônia).
Passaram-se mais de quarenta anos. Veio a Constituição de 1988 prometendo uma mudança na relação do Estado nacional e a sociedade brasileira com as etnias indígenas. No entanto, os problemas continuaram. De lá pra cá, a questão indígena continuou se pautando ora em querelas como a recente sobre a Reserva Raposa do Sol, ora em tragédias como o tímido aumento da taxa de suicídios na etnia Guarani Kaiowá.

Hoje, contudo, a visibilidade é muito maior. Quando da construção da usina hidrelétrica de Balbina nos anos 80 a resistência contra o projeto era pequena, restringindo-se á lideranças indígenas, antropólogos e missionários. O caso de Belo Monte se tornou uma causa abraçada por artistas os mais variados, assim como a mudança do Código Florestal. No entanto, a pressão toda não serviu para arquivar o Código Florestal pró-latifúndio e quanto á Belo Monte, a situação continua a mesma. As escavadeiras já removem a terra amazônica.
A mídia tem acompanhado com grande afinco os julgamentos do mensalão, só agora, depois da carta enviada pelos líderes Guarani Kaiowá, que eles se tornaram o centro das atenções. Onde quero chegar: toda a visibilidade que o caso tem alcançado é sinal de que conseguiremos reverter o quadro delicado em que essa etnia vive?
Não sei se é pessimismo, mas tenho enxergado nas redes sociais uma espécie de terceirização da revolta. A indignação se torna alimento para comunidades e programas que produzem abaixo-assinados e manifestações. Não confio na militância digital. Se algum ingênuo que não conhecesse nenhum pouco da realidade brasileira visitasse a rede social tupiniquim estaria convencido de que nesse país todos são politizados e revoltados pela quantidade de mensagens de crítica social e mudança política.

Compartilhamos o sentimentos de indignação e terminamos o dia achando que nosso dever para com o país foi cumprido. Acredito que nada substitui a ação. Manifestações são importantes, mas não devem partir só de uma classe específica, que se acha mais "iluminada". Falta convencermos o resto das pessoas de que índio não é bugre (a velha imagem do selvagem ou do aproveitador indígena, difundida no imaginário de muita gente), de que a questão indígena diz respeito a todos nós, porque ela está intimamente ligada á problemas como a reforma agrária, identidade nacional, violência e sustentabilidade, dentre outros.
Os demais casos recentes demonstraram que de a opinião de artistas e intelectuais não é bastante, falta ainda o grosso da população entender porque o trágico destino que se anuncia para toda uma etnia é tão importante para todos.
Não sei muito bem como ajudar os Guarani Kaiowá, para além da "militância digital", mas posso garantir que quanto maior for o esclarecimento e quanto mais adesões a causa tiver, mais próximo estamos da resolução desse impasse.

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Recomendo o artigo da jornalista e escritora Eliane Brum, Decretem nossa extinção e nos enterrem aqui.

quinta-feira, 11 de outubro de 2012

De Parintins para o esquecimento


Bem, ali estava eu, diante de um homem encurralado, pois com sua organização destroçada Thomaz procurava contato com outros sobreviventes. Mas nada indicava o desespero que certamente vivia: seu comportamento era calmo, tranqüilo, observador. E mais: bem humorado. Naquele tempo, meus interesses eram poucos: o violão, sobreviver com frilas, descolar algum para custear a artesanía de meus cigarros, nada de muito futuro, como se vê. Sob esse ponto de vista, eu e ele tínhamos pelo menos um ponto de contato – nada de muito futuro, já se veria. 

Esse é um trecho do relato do jornalista Marcus Veras sobre a última vez que viu Thomaz Meirelles, o Thomazinho. Envolvido com movimentos de oposição ao regime, inclusive de guerrilha, Thomazinho tem o triste mérito de ser um dos poucos amazonenses na lista de desaparecidos políticos do regime militar. Veras que o abrigou em sua casa por alguns dias faz nesse artigo um depoimento muito interessante. O texto pode e deve ser lido integralmente aqui no blog do Comitê da Verdade do Amazonas: O Cabeludo e o Guerrilheiro.

Os interessados nessa figura que nasceu em Parintins, mas desapareceu no Rio de Janeiro podem também consultar esse artigo de José Ribamar Bessa Freire em Taquiprati, onde é mencionado inclusive que o corpo de Thomazinho foi "sumido" pelo ex-delegado e freelance repressivo do regime na época, Cláudio Guerra: Thomazinho. Aliás, a imagem que encabeça esse texto é parte do site do referido Guerra que tem o mesmo nome do seu livro: Memórias de um Guerra Suja.

quinta-feira, 13 de setembro de 2012

Lobato racista: a novela continua



Nova querela envolvendo Monteiro Lobato e o racismo.
O Iara (Instituto de Advocacia Racial) e o técnico em gestão educacional, Antônio Gomes da Costa Neto, entraram com um mandato de segurança no STF (Supremo Tribunal Federal) contra a decisão do CNE em liberar a distribuição das obras de Monteiro Lobato, em especial o livro "Caçadas de Pedrinho", alegando conteúdo racista. A audiência, ocorrida ontem (11/09/2012), terminou sem acordo. 
Em entrevist
a ao Estado de São Paulo, de hoje, 12/09, Ivan Junqueira, membro da Associação Brasileira de Letras, afirmou que "Não se deve tomar nenhuma providência com relação a eventuais traços racistas de obras da literatura brasileira, senão não ficaríamos somente em Monteiro Lobato."

Já abordamos tal polêmica aqui em outra oportunidade. Continuo batendo na tecla de que proibir a distribuição dos livros não é nem de perto a solução, mas o problema. Monteiro Lobato tinha lá seus preconceitos como todo mundo e os expunha de forma veemente seja contra negros como contra japoneses e indígenas, mas ainda assim é um escritor essencial para se entender o Vale do Paraíba e o Brasil. Não subestimemos a capacidade dos alunos e dos professores. Com um bom acompanhamento pedagógico pode-se perfeitamente ler textos e discernir e se posicionar, sejam eles sobre o que for.
Sejamos coerentes e lúcidos. Para entender o racismo lobateano precisamos entender seu contexto e sua vida. Não cometeremos o pecado capital do historiador: a anacronia. O politicamente correto daquela época permitia que se falasse em "pessoa de cor" ou "pretinho". Não se trata de absolver o preconceito, mas de reconhecer que mesmo na luta por um mundo menos intolerante há limites. Corre-se o risco, em decisões como essa do Iara e de Costa Neto, de se cair em uma intolerância quase puritana. Felizmente o conhecimento e o bom senso estão aí para nos ajudar.

sábado, 25 de agosto de 2012

Outros Agostos [série]


25 de agosto de 1961. Jânio Quadros, após sete meses de governo, renuncia ao cargo de Presidente da República. As razões desse evento até hoje são nebulosas.

A própria ascensão de Jânio Quadros, de tão repentina, é quase incompreensível para muitos. Seu governo foi polêmico, perdendo só para o governo de Jango Goulart, após sua renúncia.

Jânio nasceu no Mato Grosso do Sul, mas passou boa parte da infância na capital paulista. Lá inicou sua carreira como professor de Português e como político. Na década de 40 se tornara deputado estadual e depois prefeito de São Paulo.

Seus discursos atraíam muita gente. Para o povo, Jânio falava difícil, mas algo na sua fala sensibilizava as pessoas: a promessa de atacar a corrupção, preservar os bons costumes e a Nação.

Jânio tentava se aproximar do povo por meio de alguns truques: fazia questão de não tirar a caspa que caía sobre seus ombros, descia dos palanques para falar com o povo, andava sempre com um sanduíche de presunto no bolso, etc. Isso tudo contribuía para criar uma imagem de "alguém como nós" e ao mesmo tempo de um excêntrico.

A União Democrática Nacional (UDN) não tinha um líder carismático em seus quadros. Carlos Lacerda tinha uma oratória forte, mas não conseguia se livrar da pecha de "inimigo do pai dos pobres" e, por tabela, dos pobres.

Portanto, quando Jânio se filiou ao partido era a chance da UDN finalmente ganhar uma eleição. Na época, a eleição para presidente e vice-presidente era separada, desvinculada. Jânio passou a ser conhecido em boa parte do Brasil por seus discursos e anedotas a seu respeito, enquanto seu vice, Milton Campos, só era conhecido em Minas. O Partido Trabalhista Brasileiro (PTB) apostava no Marechal Lott como presidente e em João Goulart como vice. Lott não era tão popular, apesar de ser reconhecido como homem íntegro, enquanto Jango era popularíssimo. O resultado: Jânio foi eleito presidente e Jango vice.

A campanha de Jânio foi construída em cima do slogan: "varre, varre vassourinha/ varre, varre a bandalheira/ que o povo já tá cansado/ de sofrer dessa maneira". Seu governo, contudo, não foi marcado por uma caça aos "marajás", porque eles já estavam muito bem enraizados no poder. Procurou-se então construir um grupo de político realmente eficientes. Jânio pegou emprestado do primeiro-ministro inglês Winston Churchill o hábito de escrever pequenos e rápidos memorandos para seus funcionários - os bilhetinhos poupavam da lentidão da burocracia.

Aliás, Jânio possuía alguns ídolos que contrariavam sua posição de conservador: Gamal Nasser, presidente do Egito, e Jawarhal Nehru, presidente da Índia. Nasser tinha nacionalizado o Canal de Suez, antes propriedade da Inglaterra que dominava todo o Egito. Nehru tinha continuado com a luta de Gandhi de livrar a Índia do poder da Inglaterra e foi um dos defensores da criação de uma liga de países que não concordavam com a Guerra Fria. Eram dois líderes importantes na descolonização da Ásia, fenômeno que estava longe de acabar na década de 60.

Jânio queria fazer algo parecido com o Brasil: descolonizá-lo economicamente. Convidou Santiago Dantas e Afonso Arinos, dois juristas consagrados, para ajudá-lo. Juntos formularam a Política Externa Independente (PEI) que basicamente defendia que o Brasil não deveria se orientar pelo que o EUA ou a URSS dizia.
Afonso Arinos foi seu executor. Promoveu viagens e acordos com os países africanos e asiáticos (o vice-presidente Jango foi até enviado para a China de Mao Tse Tung para uma missão diplomática).

Nesse ponto o governo de Jânio Quadros foi revolucionário, até então nada desse porte tinha sido feito com sucesso. No entanto, algumas medidas lembravam de sua posição um tanto conservadora: como a proibição do lança-perfume (que tinha lhe feito perder um olho quando criança) nos carnavais, das rinhas de galo e do biquini. Isso demonstra como Jânio era ambíguo: por um lado, moralista, por outro, revolucionário. 

A cúpula da UDN não gostava de sua outra face. Já suspeitavam de que Quadros faria algo que os desagradassem. As primeiras discussões entre Jânio e Lacerda começaram. Lacerda tinha sido eleito governador da Guanabara (até então, o Rio de Janeiro era dividido em Distrito Federal e Estado da Guanabara), mas continuava a transmitir seja pelas ondas de rádio ou pelos comícios seus virulentos ataques á seus opositores. A discussão entre os dois políticos, no entanto, ainda era algo particular. Afonso Arinos era o conciliador, fazendo de tudo para que ambos não rachassem o partido. Mas era inútil, já se percebia que existia uma ala da UDN encantada com o presidente (os janistas) e outra á favor de Lacerda.

A situação piorou quando á 21 de agosto de 1961, Jânio condecorou com a Medalha Cruzeiro do Sul, a mais alta honraria militar, o guerrilheiro e então ministro de Cuba, Che Guevara. Como um homem que se diz de direita pode condecorar um guerrilheiro comunista com uma ordem militar?
Era o que se perguntavam os demais membros da UDN. Lacerda, como provocação, convidou o líder anti-castrista, Manoel Verona, para receber a chave do Estado da Guanabara.

Na realidade, Jânio foi procurado pelo Núncio Apostólico do Brasil que pediu que ele intercedesse por quinze padres e bispos que seriam fuzilados em Cuba. Jânio pediu que Che não os matasse, apenas os exilasse. Atendendo ao pedido do presidente brasileiro, Che foi convidado, como prova da gratidão de Quadros, para ser condecorado. Mas não adiantava mais explicar. O ato em si foi visto como um heresia pelas Forças Armadas e pelos setores mais conservadores que até então apoiavam o presidente. Lacerda já o chamava de golpista.

Quatro dias depois, Jânio entregava ao Congresso Nacional sua carta de renúncia. Dizia que "forças terríveis" obrigaram ele a fazer isso. Alegava que tentou trabalhar pelo Brasil, mas a "reação" foi mais forte.
Cláudio Lembo, que trabalhou com Jânio quando este foi novamente prefeito de São Paulo na década de 80, lembra que em momentos de pressão sempre preparava uma carta de renúncia que depois de um tempo acabava engavetada.
Outros acreditam que a carta de renúncia foi um blefe: sabendo da sua popularidade e do medo da UDN que seu vice, tido como comunista, assumisse, Jânio esperaria que o povo e o Congresso Nacional pedissem para ele ficar.

Nada disso aconteceu. O Congresso aceitou sua renúncia e a UDN e alguns militares trataram de impedir a posse de Jango. Uma junta militar com o apoio do Congresso assumiu o poder. Leonel Brizola, então governador do Rio Grande do Sul e cunhado de Jango, começou uma campanha pelo rádio e imprensa á favor da posse de Jango. Os demais partidos temiam que não houvessem mais eleições e apoiavam a posse de Jango. As duas partes chegaram a um acordo: o Ato Adicional N. 5. Basicamente quem governaria o Brasil seria um primeiro-ministro e não o presidente. O Ato Adicional N. 5 trouxe o parlamentarismo para o Brasil. Só em 1963, com um plebiscito, o parlamentarismo cairia e Jango passaria a governar o país de fato. A experiência foi curta. Em 31 de março de 1964, ele seria deposto por batalhões militares vindo de Minas Gerais.

No meio desses anos tumultuados, onde vivia-se á espera de um golpe (seja da direita como da esquerda), os setes meses de governo de Jânio Quadros foram uma experiência ambígua. E não poderiam acabar de outro jeito senão por meio de uma nebulosa carta de renúncia.

Outros Agostos [série]


Dia 24 de Agosto de 1954. O presidente do Brasil, Getúlio Vargas, se suicida. Fato inédito na nossa história, um presidente se suicidar. Já tivemos atentados, mas suicídios não.
Por que Vargas atirou contra o próprio peito? A resposta pode estar bem no fim de sua carta-testamento: "saio da vida para entrar na História".
Realmente, depois do que fez poucos esqueceriam isso. Seus vários admiradores, sejam eles funcionários públicos que reconheciam sua astúcia ou trabalhadores que viam nele o "pai dos pobres", nunca se esqueceram daquele dia.
Quando souberam da notícia, desconfiaram: "Mataram o velho! Mataram ele!" Muitos gritaram. A fachada do jornal A Tribuna foi depredada; Carlos Lacerda não pode sair de casa com medo da turbe furiosa que o esperava do lado de fora com pedras e paus na mão.

Dois dias antes, Vargas estava, como se dizia nos jornais, "num mar de lama". A UDN (União Democrática Nacional) fazia ferrenha oposição ao seu governo, temendo que ele fizesse um golpe novamente como fizera em 1937 instaurando uma ditadura. O seu maior porta-voz era o jornalista Carlos Lacerda. Denúncias de corrupção eram publicadas no jornal A Tribuna todo dia. Lacerda discursava nos rádios atacando Vargas e sua corte de amigos. A situação piorou quando atiradores tentaram matar Lacerda. O jornalista não foi morto, mas seu amigo Rubem Vaz sim. Vaz era major da Aeronáutica e estava fazendo a segurança de Lacerda.

Logicamente, quem mais se beneficiaria com a morte do "Corvo" (apelido dado pelo jornalista Samuel Wainer á Lacerda) seria Getúlio. A investigação sobre o Atentado da Rua Toneleros (local onde Lacerda morava) foi feita em grande medida pela Aeronáutica no Base Áerea do Galeão. Os atiradores foram encontrados pela polícia e interrogados. Confessaram que o mandante do crime era Gregório Fortunato, segurança pessoal de Vargas e seu amigo íntimo. Era o bastante para se pedir a renúncia do presidente. Era o que exigia a UDN e as Forças Armadas.

O Exército já desconfiava das intenções do "velhinho" assim que concorreu á presidente em 1951. Na realidade, as Forças Armadas, que acabaram com sua ditadura em 1945, estavam divididas: uma parte estava convencida que a melhor maneira de salvar o país era pedindo ajuda ao capital externo, enquanto a outra era mais protecionista. Vargas voltou com um discurso nacionalista atraindo não só esse setor das Forças Armadas como também comunistas.

Falava-se em lutar contra os trustes, as grandes empresas que pretendiam explorar os recursos e a mão de obra do Brasil. Esse era um dos pontos fortes de seu discurso, junto com a defesa do trabalhador. Os primeiros de maio se tornaram épicos: os estádios de futebol ficavam lotados de trabalhadores que assistiam, primeiro, a desfiles e depois eram premiados com as palavras do presidente.
As denúncias abalaram sua imagem. Vargas era um homem muito maquiavélico no sentido real da palavra: se considerava acima do bem e do mal e que os fins justificam os meios. Fortemente influenciado pelo positivismo de sua terra natal, o Rio Grande do Sul, achava que sua missão era salvar o Brasil da situação que ele se encontrava antes, na República Velha: descentralizado, subdesenvolvido, etc. Já tinha ficado no poder por 15 anos antes e não achava que tinha conseguido finalizar sua missão. Na realidade, é bem possível que tivesse se encantado pelo poder também.

Precisava, portanto, sair dessa crise. Não conseguiria sem o apoio do povo e das Forças Armadas. Contudo, a opinião pública já desconfiava dele por conta do atentado e as Forças Armadas estavam divididas. Suicidar-se foi uma maneira de fugir da crise, mas também uma forma de reverter ela. Na carta-testamento dizia que "forças" impediam ele de governar e o Brasil de ser um país grande um dia. Era uma menção aos seus inimigos políticos. Queria dizer que eles não lhe deram outra saída. Com isso não foi só um homem que morreu, mas um Brasil melhor. A carta-testamento de Vargas é, portanto, também um discurso. Um de seus mais inflamados e mais eficientes. Basta nos lembrarmos do quebra-quebra que ocorreu no dia seguinte quando todos souberam da notícia.

Vargas saia, assim, vitorioso. Assim como todos que apoiava. Pesava sobre o quase desconhecido Juscelino Kubistchek a imagem de ter sido amigo do "pai dos pobres". Em Jango Goulart mais ainda: era amigo íntimo de Getúlio e tinha sido seu ministro do Trabalho. Aliás, por ter concedido um aumento de 100% nos salários quando era ministro provocou a ira dos opositores de Vargas que viram nisso demagogia pura. Goulart seria lembrado, no entanto, como mais próximo dos comunistas que de Vargas por conta de sua passagem conturbada pela presidência em 1963. Goulart acabou tendo seu mandato interrompido pelo golpe de 1964, quando um grupo de militares tomou o poder com o apoio da UDN.

Forças Armadas e UDN. Os mesmos personagens que pressionaram a deposição de Vargas se encontrariam novamente em 1964. Muitos acreditam que 1954 foi um ensaio do que seria em 1964. Vale a pena lembrar que nas eleições de 1954 Juscelino foi vitorioso, mas a UDN e alguns setores militares tinham medo de que um dos "herdeiros de Vargas" assume a presidência. Tentaram impedir sua posse por meio de um golpe que não foi realizado graças ás ações de um grupo de militares liderado pelo Marechal Henrique Lott que consideravam esse ato institucional e anti-nacionalista.

Vargas, mesmo morto, tinha dado muito o que falar. Vitórias eleitorais, golpes, contragolpes, etc. Aquele tiro que ceifou a vida de um homem determinou o rumo de uma década (ou décadas).