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quinta-feira, 14 de janeiro de 2016

A verdadeira dívida


O ator José Lewgoy participou de diversos filmes, desde as chanchadas da Vera Cruz nos anos 50 até a produção da retomada do cinema brasileiro na década de 1990. Foi o seu trabalho no Brasil que ajudou a ganhar fama internacional, sendo convidado para fazer filmes alemães, franceses e britânicos. Por isso muitos amigos perguntavam a ele:
-Lewgoy, você deve muito ao cinema brasileiro, né?
Porém, ele, sarcástico, corrigia:

-Não, meu caro. Eu devo muito por causa do cinema brasileiro.

quarta-feira, 13 de janeiro de 2016

Uma vez Formigão, sempre Formigão


O cantor Cyro Monteiro adorava comer. Não por acaso recebeu o apelido de Formigão. Conta-se que uma vez na casa de uma de suas madrinhas ele começou a passar mal. Repentinamente ficou pálido e reclamava de dores terríveis no estômago. Ele se escorou no corredor da casa esperando a mulher trazer algum remédio. O que ela pode preparar a tempo foi um chá de boldo.
-Toma aqui. Bebe tudo.

-Ué, mas tomar assim? Sem nada para acompanhar o gole?

terça-feira, 12 de janeiro de 2016

Vozes da Amazônia - Resenha

BASTOS, Élide Rugai e PINTO, Renan Freitas (orgs.). Vozes da Amazônia: Investigação sobre o pensamento social brasileiro.
Vinicius Alves do Amaral
Mestrando em História Social pela Universidade Federal do Amazonas.
Manaus: Editora da Universidade Federal do Amazonas, 2007. 452p.

Élide Rugai Bastos, reconhecida estudiosa da Ciência Política, salienta em seu prefácio ao livro Vozes da Amazônia o peso de certos momentos históricos para o pensamento social brasileiro. Remete-se á 1930 e 1950, períodos em que o país desenvolve e, através de figuras como Gilberto Freyre ou Antônio Cândido, reflete sobre seu passado, presente e futuro. Mas a Amazônia também tem suas décadas-chave, como 1970 e 1980.
É durante esse período que as discussões sobre o desenvolvimento da Amazônia, á luz dos primeiros efeitos da Zona Franca e da pressão autoritária do regime militar, adquirem um sabor a mais com a consolidação do ambiente universitário na região. É durante esse período que surgem, após a crítica ao pensamento etnocêntrico do qual os estudos amazônicos sempre foram grandes devedores, as primeiras propostas de uma ciência eminentemente amazônica. É durante esse período, ainda, que Renan Freitas Pinto, doutor em Sociologia pela USP e atualmente professor aposentado do Departamento de Antropologia da Universidade Federal do Amazonas (UFAM), e Marilene Corrêa Silva Freitas, doutora em Ciências Sociais pela UNICAMP e professora do Departamento de Sociologia da UFAM, iniciam suas carreiras.
Cito-os porque além de figurarem no livro em questão são os maiores representantes desse esforço de constituição de um espaço acadêmico no Amazonas. Basta lembrar que o curso de Antropologia e os programas de pós-graduação em Sociedade e Cultura na Amazônia e Natureza e Cultura foram criados com sua ajuda. Muitos dos autores de Vozes da Amazônia são oriundos destes programas, representando bem a interdisciplinaridade e o comprometimento com os rumos da Amazônia hoje presentes em tais estudos.
O projeto Vozes da Amazônia, nascido inicialmente como um seminário organizado pela UFAM em 1996, tem o objetivo de contribuir para o estudo do pensamento social brasileiro com as reflexões produzidas á nível regional tanto ontem como hoje. Seguindo essa proposta podemos encontrar artigos que buscam refletir sobre certos temas presentes na tradição de pensamento local ou então oferecer uma releitura de autores consagrados.
Na primeira alternativa, os textos de Ricardo Ossame e Luiz Fernando Souza parecem ser emblemáticos por se deterem em temas tais como as cidades amazônicas ou então o discurso sobre a natureza, respectivamente. Ossame se ocupa dos relatos de alguns viajantes do século XIX, que também aparecem de forma tangencial no estudo de Souza. No entanto, o artigo do primeiro parece muito mais descritivo que reflexivo propriamente. Souza problematiza as diferentes visões da natureza amazônica (construídas e reconstruídas há séculos), encontrando um ponto essencial: a dominação implícita.
Não há como não enxergar uma aproximação com a grande obra do historiador Arthur Cézar Ferreira Reis, A Amazônia e a Cobiça Internacional (1965). Por apresentar um longo histórico de ameaças estrangeiras á região, o livro encontrou acolhida nos mais diferentes meios e sua influência pode ser encontrada tanto no artigo de Souza como no de Luiz Carvalho. No entanto, é necessário não perder de vista que Souza analisa, com a ajuda de Foucault dentre outros, os discursos e que contempla também em sua crítica o projeto colonizador português, que para Reis representava um esforço civilizatório digno.
Há aqueles também que se comprometem a construir conteúdos programáticos, reportando-se á discussão epistemológica sobre uma ciência amazônica. É o caso de Luiz Carvalho que defende que há “(...) uma inconsistência epistemológica dos modelos teóricos disponíveis para formular o conhecimento e a compreensão ambiental amazônica e o da inadequabilidade programática de seus modelos desenvolvimentistas/ subdesenvolvimentistas” (p. 69). Após detida discussão filosófica, Carvalho procura fundar um novo projeto mental e social para a Amazônia que supere a divisão criada pela ciência moderna entre natureza e sociedade.
Quanto aos demais textos, há aqueles que empreendem releituras de clássicos ao analisarem um tema em específico de suas obras. Encontramos no artigo de Heloísa Lara Campos uma amostra desse esforço, quando a pesquisadora elenca como objeto de estudo as representações femininas dentro da obra do escritor paraense Dalcídio Jurandir. Extremamente pertinente o nexo que a autora estabelece entre ideias feministas e a experiência do viver amazônico que podiam estar presentes na criação literária de Jurandir.
Ainda elegendo a literatura como foco, Marco Aurélio Paiva Coelho realiza uma reflexão sobre os limites do modernismo paulista propagado pela Semana de Arte Moderna de 1922 ao abordar a carreira artística e algumas obras do também escritor paraense Abguar Bastos. O autor faz uma desconstrução desse artista geralmente considerado um dos porta-vozes do modernismo  no Norte, mas no sentido de apresentar a sua proposta diferenciada de modernismo. Assim sendo, o herói Bepe de seu livro representaria o oposto do herói sem caráter criado por Mário de Andrade, não por se filiar a um ideal romântico, mas por se aproximar do mito, uma das expressões amazônicas mais autênticas para Bastos. Mas o mito não está desligado da História, como percebemos nas maquinações feitas por um papagaio sobre um fonógrafo (p.364).
Lúcia Ferreira Puga e Odenei Ribeiro nos apresentam pioneiros raramente estudados no pensamento social na Amazônia. Estamos falando de André Araújo e Leandro Tocantins, respectivamente. Minuciosa análise faz Puga demonstrando a visão original de Araújo, uma mescla inesperada entre a questão social da Igreja Católica e a Escola de Sociologia de Chicago, e como o conceito de comunidade é central nela. Para ele, a modernidade destruiria os laços da comunidade, processo esse que pode ser evitado por duas entidades através de suas obras assistencialistas: o Estado e a Igreja Católica. Já Tocantins, como bem mostra Ribeiro, propõe uma modernização que não desconsidere alguns traços essenciais da cultura amazônica, tal como os saberes tradicionais ou a miscigenação.  É previsível a conclusão a que chega Ribeiro de que a obra de Tocantins “(...) cumpre no extremo Norte papel semelhante a que a de Gilberto Freyre cumpriu no cenário nacional” (p. 337).
Júlio Cesar Schweikckardt aponta a importância do sanitarista Alfredo da Matta como pensador amazônico, até então subsumido dentro da discussão regional. Sua presença no panteão de intelectuais locais se deve ás suas considerações decorrentes de sua percepção da saúde amazônica. Para o médico, como pregava o discurso sanitarista da virada do século XIX, os costumes garantiam a permanência das doenças sendo, portanto, necessário uma reeducação, organizada pelo Estado, com vistas á “civilizar” os povos amazônicos.
Importantes releituras empreendem Renan Freitas Pinto e Selda Vale Costa a partir de fontes como a imprensa e a correspondência. Pinto não discute as características intrínsecas de suas fontes – tais como os aspectos da escrita condicionados pelo suporte impresso diário – enquanto Costa se detém em uma breve discussão sobre a validade do estudo das cartas e algumas de suas vicissitudes.
Renan F. Pinto analisa os artigos de jornais de Djalma Batista como uma extensão das reflexões presentes em sua obra magna, Complexo da Amazônia (1977). Seu recorte temporal abrange a década de 1970, mas não considera os artigos como parte do processo criativo do livro, mas sim como um apêndice das questões já analisadas pelo pensador. É importante lembrar também que seu texto é introdutório, elencando temas para análises posteriores.
Selda Vale Costa, por sua vez, estuda a correspondência do etnólogo Nunes Pereira com quatro intelectuais locais: o historiador Arthur Cézar Ferreira Reis, o antropólogo Curt Nimuendaju, o médico Djalma Batista e o diretor do Museu Goeldi Machado Coelho. O objetivo é claro: entender a rede de sociabilidades mantidas por estes intelectuais. O acervo de Nunes Pereira surpreenderia pela riqueza de dados contidos em algumas páginas, guardadas por ele e organizadas por seu secretário. “As epístolas, em síntese, revelam linguagens regionais, preocupações políticas com a região e querelas familiares. Cultura, ciência, política e afeto, eis os ingredientes mais comuns das missivas” (p. 280).
A pesquisadora Giselle Martins Venâncio, no livro Escrita de Si, Escrita da História (organizado por Ângela de Castro Gomes), chama a atenção para o papel das representações nas cartas. Ao analisar a amizade epistolar entre Monteiro Lobato e Oliveira Vianna desvincula-se das tradicionais representações imputadas a tais intelectuais e nos apresenta novas interpretações deles através de suas missivas (VENANCIO, 2004, p. 118). Foucault em estudo antológico situaria este precioso status das correspondências enquanto parte do contínuo exercício pessoal construção de si. Afinal, “é algo mais que um adestramento de si próprio pela escrita, por intermédio dos conselhos e opiniões que se dão ao outro: ela constitui uma certa maneira de cada um se manifestar a si próprio e aos outros” (FOUCAULT, 1992, p. 150).
A antropóloga Selda V. Costa enxerga essa dimensão representativa na troca de missivas: podemos ver a gradação de amizade através das expressões e da grafia, mas mais interessante ainda é ver os diferentes tipos de amizade que Pereira mantém com os referidos intelectuais. Somos apresentados á um Arthur Reis desiludido com Manaus e que oscila entre o tratamento reverencial e a crítica jocosa com seu interlocutor. Djalma Batista se coloca como aprendiz, mas incita seu mestre todo tempo a produzir mais. Sua fala é um tanto institucional, talvez por no momento estar presidindo a Academia Amazonense de Letras da qual Nunes ajudou a fundar. Nimuendaju possui um relacionamento mais formal com o etnólogo, ao contrário de Machado Coelho que o considera um grande irmão e ressente-se das poucas visitas do amigo.
Mais significativa é a representação que Pereira constrói de si. Aqui e acolá assume o perfil de libertino e pornográfico, mas por vezes não hesita em abusar da autoridade que a idade e os centros culturais lhe conferiam. Estas representações são de fundamental importância, pois nelas é perceptível a tensão social e cultural estabelecida entre seus autores. O diálogo, a troca de informações, não discrimina as rivalidades e conflitos que estes homens possuíam. Apesar de ser marcante, mais em uns que outros, o estigma de ser um intelectual amazônico persiste – como é o caso de Coelho que se ressente do amigo, talvez por ter fincado raízes na capital federal, ou então de Reis que recusa qualquer tentativa de ação cultural em sua terra natal.
As considerações finais de Selda Costa são exemplares por não esgotarem as interpretações sobre o provincianismo intelectual amazônico: “Talvez se trate mais de visualizar a província como espaço cultural e evidenciar que o insulamento, o sentir-se só, abandonados pelo governo federal, pelo Brasil, essa temática-lamento constante, talvez seja mais uma armadilha (...)” (p. 306) ou seja, será que o “atraso cultural” da Amazonas não passa de um discurso para reduzir questões próprias do campo artístico e exigir uma intervenção estatal no sentido de subsidiar estes artistas, por exemplo? E esse isolamento talvez seja a força motriz do pensamento e da arte amazônica, sua fonte maior de vigor. Afinal, “esse ilhamento, real ou idealizado, cria as condições para uma migração para dentro de si mesmos, certo ensimesmamento, que cria e recria, elabora e inventa uma ideologia da amazonidade” (p. 306).
Em suma, como afirmamos no início, há uma proposta que subjaz á todos estes artigos tão desiguais entre si (seja no estilo de escrita ou na densidade teórica e metodológica) que é a crítica á modernidade que se impunha já nos anos 70 e 80 e que hoje, ao invés de arrefecer, agudizou-se. A grande riqueza deste livro é não focar apenas no ataque ao projeto modernizador implantado, mas sugerir novos caminhos através inclusive da tradição de pensamento local. A releitura de autores consagrados também aponta uma dimensão necessária do diálogo, muito diferente da atitude que permeou em outros tempos de desqualificação de suas obras através de taxações como “reacionário” ou “conservador”. Seja como for, Vozes da Amazônia é um importante documento sobre o estado atual do pensamento social amazônico.
Referências:
VENANCIO, Giselle Martins. Cartas de Lobato a Vianna: uma memória epistolar silenciada. In: GOMES, Angela de Castro (org.). Escrita de Si, Escrita da História. Rio de Janeiro: Editora da Fundação Getúlio Vargas, 2004.

FOUCAULT, Michel. O que é um autor? Lisboa: Passagens, 1992.

quarta-feira, 19 de março de 2014

Seriados, gangsteres e afins


Episódios-piloto são traiçoeiros. Podemos ser injustos com séries inteiras por causa deles. De duas uma, ou a série é melhor em si é melhor que seu começo ou pior. Raro manter a estabilidade nesse meio televisivo. 
Não sou um seguidor assíduo de séries. Mesmo as que gosto não acompanho regularmente. Preguiça por um lado, falta de tempo por outro. Acho que mais me dediquei a duas: Monk (que assisti até o final) e Lost (que abandonei na quarta temporada).
Hoje se fala numa Era de Ouro da TV americana. A crise na indústria cinematográfica teria feito com que muitos roteiristas e atores migrassem para a telinha, produzindo assim obras mais criativas e de maior qualidade. E cita-se como exemplo Breaking Bad, Game of Thrones, Boardwalk Empire, Dexter, The Walking Dead, etc... Agora a coqueluche do momento é True Detective.
Confesso que só assisti um ou outro episódio de cada uma dessas séries, mas fico me perguntando se não há muito burburinho ou marketing como diz Artur Xéxeo nesse boom de séries "de qualidade". Talvez eu não seja o mais autorizado a fazer essa avaliação, já que meu relacionamento com elas sempre foi bem diletante, mas me parece que muitas dessas produções são pretensiosas demais. Como se cada episódio fosse feito para ganhar um Oscar. Não me entenda mal, a busca por qualidade é saudável. Mas vejo em muitos seriados propostas que afirmam revolucionar o mundo do entretenimento, negando todo o referencial dos gêneros em que se situam (suspense, drama, policial, etc).
Enfim, digo isso porque recentemente assisti o primeiro episódio de Mob City e achei esta uma série despretensiosa, mas que proporcionou - pelo menos no capítulo inicial - uma trama envolvente e que dialoga com todo o universo de filmes e séries do tipo. Aliás, histórias da máfia são quase um fetiche para o mundo do entretenimento americano, não há como não ter em vista os filmes dos anos 30 ou as obras de Scorcese, Coppola e DePalma. Seja como for, é um bom entretenimento que não escorrega tão fácil em mediocridades.

sexta-feira, 14 de março de 2014

Múltiplos 2014s

Esse é um ano bem especial. Falo não apenas por conta da Copa e da infinidade de feriados nacionais que teremos, mas também de quantidade de datas comemorativas cruciais para se entender o Brasil e o Amazonas:

-60 anos do suicídio de Getúlio Vargas;
-60 anos do Clube da Madrugada;
-50 anos do Golpe de 1964;
-40 anos do Pacote de Abril;
-20 anos do Plano Real.

Talvez os mais badalados eventos aqui sejam o terceiro e o último. O próprio Instituto Fernando Henrique Cardoso já cuidou de fazer uma série de palestras sobre o Plano Real, enquanto os debates e até mesmo comemorações sobre o Golpe se proliferam. Há poucas menções, no entanto, sobre o tiro que mudou o destino da República Populista em 1954 e ás leis que acenaram para o fim da ditadura civil-militar em 1974 - com ênfase no "acenaram".
Sobre a fundação do movimento artístico que trouxe á Manaus um sopro de renovação artística há muito menos menções ainda. Aproveitando o ensejo, vou divulgar aqui um artigo meu sobre a ditadura em Manaus publicada na revista Temporalidades da Universidade Federal de Minas Gerais: Vicissitudes de um Heródoto caboclo: Arthur Reis e a ditadura civil-militar em Manaus (1964-1966).
Em 2014 também fazem 50 anos que a Beatlemania se mundializou com o show dos garotos de Liverpool nos Estados Unidos. Um show com vários cantores da atualidade, além de Paul e Ringo, vai ser organizado daqui uns dias.

Patrimônio desfalcado

Antes do carnaval, a Biblioteca Nacional foi furtada mais uma vez. Em 2005 um rapaz tinha sumido com algumas obras raras do acervo, agora alguns notebooks foram afanados. Como o prédio ainda está em reforma, sendo protegido por um frágil tapume, o ladrão não precisou se esforçar muito.
Ao que parece tratava-se de um dos muitos viciados em craque que vivem ali perto. Mas na maioria dos casos os responsáveis por desfalques no patrimônio histórico e cultural brasileiro são pessoas com um perfil totalmente distinto. Você que é pesquisador e mora em Manaus vai imediatamente lembrar de uma figurinha mais que manjada nesse meio.
O mais preocupante é que existe toda uma rede de tráfico de obras culturais responsável por retirar inúmeros tesouros do nosso país. Segundo a lista da Interpol, o Brasil tem 1.596 itens roubados. Ontem mesmo descobriram o paradeiro de um livro raríssimo de botânica que foi furtado do Museu Emílio Goeldi no Pará há cinco anos atrás.

domingo, 9 de março de 2014

Banda desenhada

Essa é para o pessoal que se amarra em quadrinhos: o site Sapos Voadores reuniu aqui uma série de concursos de quadrinhos da internet. Infelizmente, como só abri a mensagem agora, muitos já tiveram seus prazos de inscrição terminados. Mas os dois últimos ainda estão em tempo, portanto, corram e se inscrevam!

Obs: O título não tem nada a ver com o Gorillaz; banda desenha é como são chamados os quadrinhos em Portugal.

sábado, 20 de abril de 2013

Cidade-esfinge


Estava eu sentado num dos milhares de banquinhos que circundam o Largo São Sebastião quando decidi por absoluta falta do que fazer admirar o chão. Sim, o calçamento da Praça é feito de pedras pretas e brancas, simulando as ondas do mar - lembrar muito o calçadão de Copacabana.
Então percebo que não era o único leso contemplando aquele tabuleiro. Do cordão de mangueiras surgiram duas figuras - talvez já estivessem lá e minha miopia não me avisou  - e andaram calmamente até o centro da praça. Lá pararam. O objeto de admiração era outro agora: o monumento de abertura ao portos.
Me chamou a atenção esta dupla pela perfeita união de contrastes que formava: um era mais alto, o outro baixinho; um era negro, o outro brancão; esse era velho, aquele jovem...
Arriscaria dizer que o rapaz era haitiano e o senhor era estrangeiro - possivelmente italiano ou francês. E digo mais: esse velhinho com certeza era um padre. Não precisaria ser um Sherlock Holmes para descobrir: o colarinho denunciou.
Ainda que o sacerdote não fosse de Manaus tenho a impressão de que estava em Manaus já há um tempo, uma vez que era o guia do jovem haitiano. Ele falava do calçamento, do chafariz, as estátuas. Apontava para a nau que representava o continente africano. O rapaz só ouvia. Não disse uma palavra. Seus olhos dissecavam o monumento e a praça acompanhados pela voz cadente do vigário (a essa altura já tinha quase certeza que era vigário... ou então monsenhor?). Espremia os olhos até o bagaço. Um óculos não faria mal, com certeza.
Ousei ir pouco mais longe na minha intromissão e imaginar o que aconteceria daqui há alguns meses: talvez esse mesmo rapaz volte aqui e apresente ao seu primo que acabou de vir do Haiti o calçadão ondulado e o monumento apinhado de sinais. Acreditando que depois disso seu primo poderá ler a cidade sem ter que espremer a visão. O idioma não será mais desconhecido, nem o ambiente tão alienígena. As surpresas, essas sim continuarão. Nem os mais experientes viventes da cidade estão isentos de uma nova lição de Manaus.

sábado, 23 de fevereiro de 2013

E um belo dia... abriu!

Foto: Acervo do jornal A Crítica.

A Biblioteca Pública do Estado do Amazonas estava em reformas desde 2007. E o prazo para a reabertura do prédio era sempre adiado e adiado. E qual a surpresa de todos nós quando em um belo dia de janeiro desse ano encontramos os portões da centenária biblioteca abertos novamente.
Soraia Magalhães, uma das fundadoras do Movimento Abre Biblioteca, fala um pouco do desfecho dessa novela e fala um pouco sobre lugares que se encontram em uma situação parecida neste artigo (Sabor de um sonho realizado) para a Revista Biblioo.

quarta-feira, 13 de fevereiro de 2013

Zé Praga ataca novamente!


Não gosto de carnaval e ponto final. Mas gosto de arrastar a sandália, pelo menos uma vez a cada 10 anos pra desenferrujar. Muito bem, me convidaram para um bloco de rua e aí já comecei a me coçar porque um monte de gente se esfregando um no outro na rua pra mim é suruba legalizada. "Não, é um bloco mais tranquilo, só tem gente de mais idade, aqueles sons de antigamente, bolerão". Foi me agradando, mas relutei pra cultivar minha fama de rabugento. Finalmente confirmei presença.
No dia do bloco, ligo pra um e ligo pra outro. "Ah, não vai dar, eu to passando mau". "Ih, cara vou ter que levar minha mulher lá na casa do chapéu". Pra resumir, todo mundo pulou fora. Senão é minha neurose de ligar antes eu teria feito papel de bobo lá.
Sim, eu podia muito bem ter ido assim mesmo e me divertido - embora não conhecesse ninguém ali e até suspeito que esse tal bloco não é tão calmo assim quanto dizem. Claro, eu podia ter feito isso, mas resolvi fazer melhor: lancei uma praga sara-maligna nesses amigos da onça. Se eu não vou pular carnaval, nem eles iriam: chamei chuva. E olha que São Pedro me ouviu pela primeira vez na vida.
Sábado: chuva. Domingo: chuva. Segunda: chuva. Terça: chuva. Quarta: aquele sol. E o povo que ficou de ir pra Banda do Galo lá na Estrada do Turismo foi trabalhar hoje tudo resfriado. O diabo é que eu também fiquei resfriado. Mas nem ligo! Só o fato da chuva ter sacaneado o pessoal já me deixou em catarse. Quatro dias de chuva, todos os quatro dias de carnaval, é mole? Não conheço minha própria força...

terça-feira, 12 de fevereiro de 2013

Rapidinhas


O brega chora
faleceu Roberto Makassa,
o bolero em carne e osso
e óculos escuros.
Manaus, 4 de fevereiro de 2013

- notícia sussurrada -
Biblioteca Pública abriu
Manaus, 31 de janeiro de 2013

D. Pedro I abdicou, Collor renunciou
até o papa jogou a toalha
e nada do Robério se coçar.
E Renan taí...

segunda-feira, 11 de fevereiro de 2013

Etnografia e Serpentina III


Por mais que você queira destacar, ser "o diferente", haverá algum minuto da sua vida em que você desejará simplesmente se diluir na multidão. Ser engolido pela mesma energia que passa por todos. Haverão poucas oportunidades para que isso realmente aconteça. E hoje é uma delas.
Relaxe e sinta a energia. Não se movimente, deixe o movimento te controlar. Esse é o zen-budismo da folia.

quarta-feira, 30 de janeiro de 2013

Etnografia e serpentina I

A Rainha, Luciana Santos, e o Rei Momo, Vanderson Dinhows Fernandes, do Carnaval 2013 na chegada da Kamélia no Aeroporto Eduardo Gomes.

Nunca fui de pular carnaval. Vou dizer por quê: não gosto de multidão. Acredito que multidão atrai confusão. Além do lado bicho-do-mato, não sou muito de curtir festas. Até sou, mas uma festinha aqui e ali. Não um final de semana inteiro, sabe?
Da minha infância guardo lembranças de carnaval de salão (não sou tão velho assim, apenas vivia perto de um clube muito antiquado) e de rua. Me atraia todo esse universo festivo, mas ao mesmo tempo me assustava. Principalmente os bate-bolas! (Acho que já falei disso aqui...)
Fui construindo todo um discurso, que peguei emprestado de muita gente que conheço, de que o carnaval é mais uma bobagem que um dado de nossa cultura. O carnaval é a ditadura da felicidade, como diria um personagem de Sérgio Biancchi. E realmente é - panis et circense, baby - mas não é só isso.
Mudei minha visão de mundo (principalmente depois que consultei o oftamologista) e consequentemente minha visão do carnaval. Acredito que continuo arisco em relação ás festas, mas não fujo delas. Se divertir não é pecado, mas só querer se divertir já traz alguns probleminhas... Festa não é só alienação. Festa é lazer também e cultura. Ainda que a globalização e o capitalismo tenham retalhado o carnaval, há ainda aquele espírito de festa popular aqui e ali. Principalmente no carnaval de rua.
Para minha surpresa, aportei nessa cidade amazônica onde os blocos de rua tem uma tradição tão antiga quanto a carioca. Por isso, cair na folia aqui, seja nas bandas da Bica, Difusora, Boulevard, Cinco Estrelas, Baixa da Égua, Galo, Caxuxa, do Álcool, dentre tantas outras, é quase que uma pesquisa de campo.

EVOÉ MANAUS!

sábado, 26 de janeiro de 2013

EVOÉ ARMANDO!

Na próxima quinta feira, dia 31, será lançado no Cine Teatro Guarany (ali na Vila Ninita, anexo do Palácio Rio Negro na Av. Sete de Setembro) o curta metragem Nessa cidade todo mundo já bebeu na Bica da diretora Keila Serruya. O documentário trata sobre memórias dos fundadores da Banda Independente Confraria do Armando, um dos mais tradicionais blocos de carnaval de rua de Manaus.
O vídeo de 14 minutos é mais uma grande contribuição para preservar a memória dessa importante instituição de cultura popular. Nos anos 70, Márcio Souza dizia que a historiografia amazonense era a mais oficialista do país. Hoje, depois de tantas águas passarem pelo moinho, creio que o quadro é inteiramente novo, embora continuem resquícios do triunfalismo aqui e acolá. Hoje acredito que não é tanto o oficialismo o maior inimigo de uma história popular, mas o esquecimento. Em uma cidade em que as transformações ocorrem tão rapidamente é muito fácil a memória popular ser engolida pelo esquecimento.
No entanto, aí está a Bica zombando de todos e principalmente do esquecimento.
Por isso celebremos a festa e celebremos a vida.

segunda-feira, 21 de janeiro de 2013

Parabéns (com mais de 15 dias de aniversário)...


Belém, nunca te vi
mas me falaram muito bem
de ti
e realmente, 
397 aninhos são para poucos.

segunda-feira, 17 de dezembro de 2012

Mama África

Tcharan! Tia Lucy (Aryana Monteiro) e Elo Perdido (Augusto Severo) no palco.
Foto: Jhames Bessa.
No primeiro semestre do ano nos aventuramos com o teatro amador com uma peça chamada Nóis Véve a História para abrir a XI Semana de História da Uninorte. Decidimos repetir a dose. Mas dessa vez para abrir a IX Semana da Consciência Negra que teve por tema a história da África.
O Vanderson Dinhows Fernandes e eu ficamos responsáveis por escrever a peça, escalar o elenco e ensaiar com eles. O primeiro passo até que foi fácil. Reunimos um monte de boas ideias e tivemos ainda a ajuda da mente pervertida criativa do Everton Andrade - ele que teve duas participações pequenas, mas super-especiais!
Vinicius Amaral, Vanderson Dinhows e Everton Andrade: os roteiristas.
Foto: Raoni Lopes.
A grande questão era como fazer algo que fale da História da África e que divirta ao mesmo tempo? De início apresentaríamos um breve painel da História da África, na forma de um monólogo, mas desistimos dessa ideia. Ficaria muito maçante. Afinal, são muitas informações e pouco tempo. O fato da história desse continente ser pouco conhecida era um obstáculo, porque precisávamos dialogar com o que o público sabia. Como rir de algo que você não conhece? Por isso, optamos em falar do que conhecemos, das imagens do senso comum.
A proposta era brincar com alguns estereótipos sobre esse continente enquanto apresentávamos alguns pontos pouco conhecidos sobre a história da África (como a presença dos impérios de Gana, Mali, Songai e a relação com o islamismo). Muita gente achou parecido com a peça Hermanoteu na Terra de Godá, outros com as gags do Monty Python.
A primeira dificuldade foi montar o elenco. Estávamos agora trabalhando com uma equipe muito maior que da última peça. Existiam alguns personagens que foram criados para tal pessoa, outros não, precisávamos achar alguém que se encaixasse no seu perfil e que estivesse disponível. O maior problema sempre foi achar pessoas compromissadas e com tempo disponível. E em se tratando de época de prova a coisa só se complica mais.
Mas, por incrível que pareça, conseguimos achar muita gente. Com a exceção de alguns egressos, a maioria dos atores vieram do segundo e terceiro período noturno. Gente que não se conhecia muito bem, apesar de viver se esbarrando pelos corredores da faculdade ou então se enfrentando nos jogos de pingue pongue.
Os ensaios eram feitos aos sábados, geralmente em uma das unidades da faculdade ou então no Largo São Sebastião. Com a aproximação da Semana da Consciência Negra passamos a fazer ensaios durante a semana, entre uma aula e outra.
Primeiro, precisávamos fixar as falas na mente.Depois treinamos a interpretação e a construção das cenas (qual seria a ordem de entrada de cada personagem, onde ele ficaria, como ele reagiria a tal fala, coisas do tipo). E ao fim de cada ensaio aos sábados, uma cervejada. E churrascadas também. Uma antes da peça e outra depois.
O elenco assistindo a peça na churrascada, dias depois.
Foto: Rafael Mota.
Não teríamos conseguido chegar lá, claro, sem o apoio da Profa. Elisângela Maciel, sem o compromisso de todo o elenco, sem o apoio técnico e moral do Everton e sem a garra do Vanderson Dinhows. Ouvi aplausos e elogios, mas creio que a nossa recompensa maior é outra.
Creio que esse tempo juntos ajudou a criar um sentimento de união de forma que a própria galera espera participar de novos eventos da mesma forma e com a mesma equipe. Então que venham os próximos eventos!

domingo, 18 de novembro de 2012

Medindo o Oriente I: Á Espera da Primavera


O pan-arabismo, movimento político que abalou o Oriente Médio durante os anos 50 a 70, nasceu no Egito com Nasser. O fundamentalismo moderno também, com a estrutura da Irmandade Muçulmana e com o pensamento de Sayd Qtb. A Primavera Árabe começou na Tunísia, mas tornou-se mais emblemática no Egito com a queda de Mubarak que governava o país há mais de 30 anos com a benção dos EUA.
Essa curiosa coincidência é o suficiente para que muitos analistas políticos alegassem que a democracia seria um destino inevitável para o resto do Oriente Médio. Não uma democracia ocidental, como aquela que os EUA tentam empurrar goela abaixo nos países locais há décadas, mas uma democracia árabe, construída e idealizada por eles próprios.
Tenho uma certa bronca com analistas políticos justamente poque eles podem tomar uma coincidência por tendência histórica. Aliás, os historiadores também fazem a mesma coisa. Vejamos o caso do historiador Bernard Lewis, especialista em Oriente Médio e consultor da Casa Branca sobre assuntos dessa região: Analisando a história do Oriente Médio, sempre governado por impérios estrangeiros (Romano, Bizantino, Turco-Otomano, etc.), ele chega a conclusão de que o carma dos povos árabes é ser dominado por potencias de fora. A ascensão do fundamentalismo islâmico seria uma espécie de crise de abstinência - tantos anos sem ser governado por outrem, faz com que eles sonhem em se auto-governarem, mas por meio de atitudes primárias, como ordens religiosas.
É visível aonde Lewis quer chegar: vamos colonizar o Oriente Médio.
Cabos eleitorais de Mohammed Mursi.

Voltemos á Primavera Árabe. Em 2011, ela prometia ser um sopro indestrutível de renovação. No entanto, na Líbia e na Síria encontrou obstáculos poderosos. Ora, o sucesso depende da situação de cada região. Se temos uma classe militar forte na Síria e confederações de tribos ainda leais á Kaddafi na Líbia é claro que o conflito será feio.
Outra coisa: muitos enxergaram na porta aberta pelas revoltas, um passe livre para o fundamentalismo islâmico chegar ao poder. Com medo do sonho virar pesadelo, funcionários do governo e das Forças Armadas no Egito, que ajudaram na transição á democracia, começam a impor uma série de restrições ás atitudes do novo presidente eleito, Mohammed Mursi, membro da Irmandade Muçulmana. A mãe de todas as cédulas terroristas, no entanto, não está mais na "moda": o modelo atual de fundamentalismo se ampara ou no xiismo radical de Khomeini ou na Al Quaeda de Bin Laden. Será que a Irmandade Muçulmana se reinventou, tornando-se uma organização democrática e não mais uma associação terrorista?
A eleição de Mursi foi o bastante para prever um Oriente Médio infestado de governo fundamentalistas legítimos, eleitos pelo povo. Mais uma vez o argumento do Oriente Médio se espelhar no Egito foi usado. Eu honestamente não faço ideia do que acontecerá. Há alguns anos a situação era o menos otimista possível: ditaduras e teocracias era tudo que se enxergava ali. Hoje, por meio dessa ação espontânea e popular, acredito que devemos dar mais crédito ao inesperado. Talvez o futuro do Oriente Médio nos surpreenda, positivamente.

segunda-feira, 15 de outubro de 2012

Velozes e melancólicos


Ah, o existencialismo! Uma das filosofias de vida mais populares deste século (os hipsters, classificariam como "mainstream"). Eis que vejo Drive (2011) e percebo, além do caldeirão de referência ao cinema de ação, esse nosso colega.
O motorista sem nome (Ryan Gosling) encontra o sentido de sua vida, violenta e perigosa, na casa ao lado. Uma família a espera de um novo pai e um novo marido. E ele a procura de uma mulher e um filho. No entanto, as coisas nem sempre são perfeitas. No meio do caminho está o marido que saiu da cadeia, o roubo mal sucedido e dois mafiosos truculentos. O motorista sem nome então tem de usar seu sangue frio e sua violência para proteger quem ama (sim, clichê, mas bom).
O roteiro é pobre, mas a narrativa e os personagens, meu amigo... Drive usa violência explícita, mas de forma "moderada". Os diálogos são poucos, as interpretações são ricas.  E é assim, cultivando paradoxos, que o filme constrói sua identidade.
E que identidade seria essa? Drive está a meio caminho entre o thriller e o sonho. A estética do filme, sempre privilegiando o brilho falso das luzes da cidade e a noite, e o figurino dos atores remete a um universo um tanto retrô (a década de 80 pra ser mais preciso). Ao mesmo tempo, esse é o presente: o layout dos carros deixa isso bem claro. É essa união de tempos que dá a sensação de estarmos pisando em um sonho, o casamento de duas eras distintas.

Ah, voltando ao existencialismo. Talvez essa incerteza temporal tenha sido planejada. Afinal, como dissemos antes, nosso herói é um aventureiro existencialista. Em seu mundo, tudo parecia vazio, menos os momentos que passou com Irene (Carey Mulligan) e seu filho. Daí a sua frieza e calculismo, a ausência de palavras e de afetos. A adrenalina e o dinheiro perdem o valor quando ele encontra uma família.
Aliás, esse tipo de vida não é privilégio do personagem principal. O mafioso cruel (Albert Brooks) não é muito diferente do protagonista. Leva a mesma vida melancólica do herói e também não se esconde atrás da adrenalina. O mecânico manco (Brian Cranyston) é um homem ganancioso, mas simpático. Vacila aqui e ali. Sua relação com o rapaz é sempre pautada pelos negócios, o espaço para a afetividade é relativamente pequeno.
No universo de Drive tudo parece ser indiferente e distante, por mais radical e violento que seja. O fato de não apelar, como os blockbusters fazem, faz com que se tenha dois tipos de reações possíveis diante do filme: ou se odeia ou se ama. No meu caso, foi a segunda opção. Ainda assim não acho que o filme seja tudo isso que estejam falando. Há críticos que dizem que esse filme é um divisor de águas. Penso que também não é assim.

Nicolas Winding Refn constrói um filme-tributo a todo um gênero, assim como faz Tarantino. A diferença é que o resultado aqui é menos divertido e menos explícito. As referências tem de ser garimpadas. 
A trilha sonora? Música eletrônica. Em alguns momentos tenho a sensação de que é muito retro para o estilo dos filmes de ação, mas essa é a intenção. Os mafiosos parecem meio anacrônicos, assim como nosso protagonista. O mundo marginal do filme é tem um charme, uma aura cult.
Interessante o modo como o diretor privilegia a face de Ryan Gosling. Lembra os longos close-ups dos bang bangs de Sérgio Leone. É um cineasta sem medo de perder alguns minutos com uma mesma cena, não se deixa levar pelo frenesi, por isso a violência aqui parece muito orquestrada. Novamente outro elemento que me lembra Leone.
Falando no protagonista, ali está o clichê em pessoa. O cara durão de poucas palavras, que sabe brigar, tem sempre um plano. Só o que muda é a jaqueta. E se ficou alguma dúvida de que ele é um cara durão, ali está o palitinho na boca pra comprovar. Se o símbolo de Stallone já foi uma cobra, esse aqui utiliza um escorpião. Outro animal peçonhento e perigoso. Se ele parece gente boa perto de Irene, basta que um antigo cliente venha lhe perturbar com um novo serviço numa má hora que ele mostra suas garras. E quando é preciso agir, solta todo seu veneno. 
Ele é desconstruído, aos poucos. Continua enigmático, mas sabemos que é violento, sensato e carente. Tão carente que o nível de amor para com Irene é quase platônico. Lembra e muito os cavaleiros errantes retratados pelos trovadores. Ao mesmo tempo em que é um bandido é um herói. É cruel e violento, mas também é romântico e amável. É a brincadeira com os lugares comuns. Isso não é nenhuma novidade, como falamos isso já vem sendo feito por inúmeros diretores.
A grande originalidade do filme está em fazer isso com uma refinação própria. Ao invés de seguir a escola de Tarantino ou de David  Lynch (pra pegar o outro extremo do cinema), Refn faz seu filme de uma maneira diferente, apostando nesse olhar melancólico e anacrônico. Isso é inapropriado para um filme de ação?
Penso que a melancolia, assim como o humor, estão presentes nesse gênero. O que os novos cineastas tem feito é salientar essas características menores desses filmes em suas produções. Em Tarantino e Robert Rodriguez temos um filme sem vergonha de se assumir tosco. Em Refn, temos um filme que assume sua tendência existencialista. A marginalidade aqui parece fatalista, amarga. Substitua a tecno music pelo jazz, o motorista pelo escritor e então percebemos que estamos mais perto de Truffaut e Goddard do que Leone e Fuller. Por escolher ficar entre a Nouvelle Vague e o cinema de ação, Drive revela ser um filme que vale a pena ser assistido.

quinta-feira, 13 de setembro de 2012

Lobato racista: a novela continua



Nova querela envolvendo Monteiro Lobato e o racismo.
O Iara (Instituto de Advocacia Racial) e o técnico em gestão educacional, Antônio Gomes da Costa Neto, entraram com um mandato de segurança no STF (Supremo Tribunal Federal) contra a decisão do CNE em liberar a distribuição das obras de Monteiro Lobato, em especial o livro "Caçadas de Pedrinho", alegando conteúdo racista. A audiência, ocorrida ontem (11/09/2012), terminou sem acordo. 
Em entrevist
a ao Estado de São Paulo, de hoje, 12/09, Ivan Junqueira, membro da Associação Brasileira de Letras, afirmou que "Não se deve tomar nenhuma providência com relação a eventuais traços racistas de obras da literatura brasileira, senão não ficaríamos somente em Monteiro Lobato."

Já abordamos tal polêmica aqui em outra oportunidade. Continuo batendo na tecla de que proibir a distribuição dos livros não é nem de perto a solução, mas o problema. Monteiro Lobato tinha lá seus preconceitos como todo mundo e os expunha de forma veemente seja contra negros como contra japoneses e indígenas, mas ainda assim é um escritor essencial para se entender o Vale do Paraíba e o Brasil. Não subestimemos a capacidade dos alunos e dos professores. Com um bom acompanhamento pedagógico pode-se perfeitamente ler textos e discernir e se posicionar, sejam eles sobre o que for.
Sejamos coerentes e lúcidos. Para entender o racismo lobateano precisamos entender seu contexto e sua vida. Não cometeremos o pecado capital do historiador: a anacronia. O politicamente correto daquela época permitia que se falasse em "pessoa de cor" ou "pretinho". Não se trata de absolver o preconceito, mas de reconhecer que mesmo na luta por um mundo menos intolerante há limites. Corre-se o risco, em decisões como essa do Iara e de Costa Neto, de se cair em uma intolerância quase puritana. Felizmente o conhecimento e o bom senso estão aí para nos ajudar.

sexta-feira, 17 de agosto de 2012

O trabalhador das palavras


Quem vê pensa: escrever é muito fácil, pra quem domina essa arte. Na realidade, escrever é um ofício tortuoso. Não é alguém que domina essa arte que está falando, mas um simples observador.
O brasileiro é o povo da oralidade, por isso enxerga a escrita com um certo estranhamento. Como se fosse algo exótico e ao mesmo tempo louvável, sagrado. E os escritores seriam os sacerdotes dessa religião das palavras, dedicando sua vida integralmente á caneta e o papel.
Não é bem assim. Ninguém nasce escritor. Sim, existem pessoas que tem vocação, mas o segredo pra escrever bem não está em uma disposição genética ou espiritual  dos autores e sim na prática. Só se aprende a escrever, escrevendo.
Por isso Alejandro Jodorowsky, artista chileno multimídia, escreve tudo que lhe vêem á cabeça. Os surrealistas também faziam isso, chamavam-na de escrita automática. Não só escreviam o que lhe aconteciam, mas o que sonhavam. Jack Kerouac e Graham Greene, escritores tão diferentes entre si, também faziam coisas do tipo.
Sonhavam genialidades? Não, salvou uma ou outra loucura se mostrava grandiosa, mas o resto... Por que isso então? Trata-se de exercitar a escrita e a criatividade. Para se falar de algo é preciso antes saber do que se está falando. Um escritor trabalha muito antes de produzir um livro. O ritmo de transformação da imaginação em palavras pode diferir para muitos, mas há de se reconhecer que é um processo muito do trabalhoso.
Considero como gênio aquele que, esse sim, cria algo do nada. Aquela pessoa que não trabalha sua criatividade, pelo contrário, ela trabalha para ele, fornecendo insights e epifanias periodicamente. Sim, periodicamente. Até os gênios não são geniais 24 h por dia.