Fusca esfera de Inchwan Noor, 2013.
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terça-feira, 12 de janeiro de 2016
Pecados da Arte Contemporânea
Seja sincero: não te dá um aperto no coração ver esse fusca Wolkswagen 1966, todo lanternado, amassado como uma bola de papel?
quarta-feira, 19 de março de 2014
Seriados, gangsteres e afins
Episódios-piloto são traiçoeiros. Podemos ser injustos com séries inteiras por causa deles. De duas uma, ou a série é melhor em si é melhor que seu começo ou pior. Raro manter a estabilidade nesse meio televisivo.
Não sou um seguidor assíduo de séries. Mesmo as que gosto não acompanho regularmente. Preguiça por um lado, falta de tempo por outro. Acho que mais me dediquei a duas: Monk (que assisti até o final) e Lost (que abandonei na quarta temporada).
Hoje se fala numa Era de Ouro da TV americana. A crise na indústria cinematográfica teria feito com que muitos roteiristas e atores migrassem para a telinha, produzindo assim obras mais criativas e de maior qualidade. E cita-se como exemplo Breaking Bad, Game of Thrones, Boardwalk Empire, Dexter, The Walking Dead, etc... Agora a coqueluche do momento é True Detective.
Confesso que só assisti um ou outro episódio de cada uma dessas séries, mas fico me perguntando se não há muito burburinho ou marketing como diz Artur Xéxeo nesse boom de séries "de qualidade". Talvez eu não seja o mais autorizado a fazer essa avaliação, já que meu relacionamento com elas sempre foi bem diletante, mas me parece que muitas dessas produções são pretensiosas demais. Como se cada episódio fosse feito para ganhar um Oscar. Não me entenda mal, a busca por qualidade é saudável. Mas vejo em muitos seriados propostas que afirmam revolucionar o mundo do entretenimento, negando todo o referencial dos gêneros em que se situam (suspense, drama, policial, etc).
Enfim, digo isso porque recentemente assisti o primeiro episódio de Mob City e achei esta uma série despretensiosa, mas que proporcionou - pelo menos no capítulo inicial - uma trama envolvente e que dialoga com todo o universo de filmes e séries do tipo. Aliás, histórias da máfia são quase um fetiche para o mundo do entretenimento americano, não há como não ter em vista os filmes dos anos 30 ou as obras de Scorcese, Coppola e DePalma. Seja como for, é um bom entretenimento que não escorrega tão fácil em mediocridades.
domingo, 9 de março de 2014
Para o Bloco dos Reaça é carnaval todo dia
Fico triste ao ver pessoas que descontentes com o governo do PT passam a defender a ditadura civil-militar. Fico triste por que além de recorrem a uma fraudulenta idealização do passado (de que na ditadura não havia corrupção e nem baderna), não conseguem sair de lugares comuns, não elegem uma nova perspectiva de futuro que não seja necessariamente pela via autoritária.
Nesse oceano de desencanto um texto me fez ganhar o dia: Ninguém é a favor de bandido, é você que não entendeu nada de Ramon Kayo. O autor tenta escapar dos velhos clichês conservadores repisados a todo instante na mídia e no cotidiano quando se trata de discutir direitos humanos. O texto não é um primor, mas desconstrói de forma bem lúdica estas pérolas do reacionarismo.
*Aproveitando o momento: além de irônico, acho extremamente engraçado o costume de pensadores dessa direita new age (que de "new" não tem nada) criticar os movimentos sociais como responsáveis por criar uma cultura de vitimização no Brasil enquanto eles repetem a todo momento que são vítimas da falta de liberdade de expressão, de consideração, de isso e daquilo.
sexta-feira, 7 de março de 2014
Surpresas geladas
| El pequenino mamute. |
Quase 80% do nosso planeta é feito de água, sendo que boa parte dela se encontra congelada. Muitos acham que as profundezas do mar são o reino de inúmeros mistérios, mas o que dizer do interior das superfícies congeladas? Mamutes congelados já foram encontrados debaixo delas. Recentemente, com o momentâneo degelo dos montes alpinos foram revelados corpos de soldados da Primeira Guerra Mundial macabramente preservados. E agora, mais recentemente ainda, um vírus foi encontrado perto da Rússia. Tão, mas tão bem preservado que bastou aquecerem o gelo para voltar á vida. Os cientistas dizem que ele não é perigoso. E se o que mais tiver debaixo do gelo for? Bem, com o aquecimento global as surpresas devem ser cada vez mais constantes.
domingo, 2 de março de 2014
Marx, tradições, Mujica e Terceira Via
"Marx deu um tiro no pé com O Capital".
(Bruno Pacífico x Anália Ferreira, sendo mediados por Fernando Fernandes)
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| Bora dar um rolezinho no fuscão do Mujica? |
Nos reunimos na Cachaçaria do Dedé certa sexta feira e do nada percebemos que a conversa estava esquentando do lado de lá da mesa. Anália havia dito que Marx deu um tiro no pé ao escrever O Capital, pois ao revelar as vísceras do capitalismo e como derrotá-lo teria dado de bandeja aos seus defensores os meios de se perpetuar no poder. Foi mais ou menos assim o debate:
-Ele deu a receita para o sistema se reproduzir! Pode ver que O Capital é mais lido por economistas neoliberalíssimos que por militantes.
-Mas ele também disse os meios de combater esse sistema, forneceu subsídios pra luta continuar.
-E a luta continua?
-Claro que sim: veja a América Latina.
-Posso até estar enganada, mas muitos governos da América Latina são mais reformistas que revolucionários.
-E o Uruguai pode ser chamado de reformista? O que o Mujica tem feito lá é uma revolução. Legalizar o aborto, a maconha. Isso tudo para um mundo tão conservador quanto a América Latina é uma mudança muito radical.
Fernando falou um pouco sobre essa questão da manutenção das tradições, de como elas se repaginam para continuarem sendo perpetuadas, associando aqui a possível derrota do marxismo á essa capacidade camaleônica do capitalismo. Como o próprio Bruno questionou: será que o marxismo foi derrotado mesmo?
Ele também se adaptou aos novos tempos.
Desde os anos 80 no Brasil os escritos de Lênin, o defensor das vanguardas, foi perdendo espaço para as obras de Gramsci, o pai dos intelectuais orgânicos. Hoje não se fala mais em revolução, mas em medidas revolucionárias. Entende-se que o marxismo tem de se acostumar com a democracia liberal, que é até mesmo saudável a ele ser orientado por esse espírito democrático para não incorrer nos erros totalitários de um Stálin.
Slazov Zizek, em um artigo (ficarei devendo o nome para vocês, crianças), se pergunta: seria o capitalismo indestrutível? O que podemos fazer? Quem poderá nos salvar? Ele mesmo responde que existem muitos caminhos para se resistir a ele. A Terceira Via pode parecer um deles, mas a cada dia ela se amolda mais e mais a um discurso desideologizador. Uma esquerda democrática, ciente dos caminhos e descaminhos do regime, seria o mais adequado para aqueles que querem uma mudança realmente profunda, dizia o filósofo.
Queria ter contribuído mais para o debate e queria também reproduzir mais pontos dele aqui, mas por enquanto só me lembro disso. Talvez os amigos colaborem aqui com mais pontos de vista.
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Amores serão sempre amáveis
Passando aqui para recomendar o ótimo post do historiador Valdei Araújo sobre o passado e o futuro hoje: Distopias, futuros adiados e transcendência. A partir de uma música do Chico Buarque (Futuros Amantes), ele reflete sobre como nos apropriamos do passado e como projetamos o futuro hoje, depois da Queda do Muro de Berlim e depois que o gigante acordou e voltou a dormir.
*Em tempo: sempre me incomodou essa expressão "o gigante acordou". Me cheira a ufanismo barato, mas enfim...
Segundo Valdei, a modernidade consagrou dois modos de se ver o futuro: utópico e distópico. O futuro como o melhor dos mundos ou então como o pior dos mundos. A utopia tem muito de nostalgia, afinal procura-se voltar ao que era "antes", sendo esse "antes" um passado sempre idealizado. A distopia bebe muito no niilismo; as coisas não darão certo não apenas por conta da ausência de sentido da história, mas também pelo homem, egoísta por natureza.
Mas o historiador elenca aí uma terceira concepção de futuro, aquela esposada por Chico em sua letra: o futuro adiado, um projeto de realidade que fica suspenso por quanto tempo for necessário até ser chamado a ser realizado.
Muitos tem falado na desintegração da experiência (o maior exemplo aqui pode ser Walter Benjamin) diante da modernidade, mas o que o autor sugere aqui é uma outra percepção de experiência que transcende o presente para encarar a modernidade, para impedir que seja desintegrada.
Na canção, o amor desses dois amantes é sempre remarcado, mas não há angústia nisso. Há aqui serenidade, e é isso em poucas palavras que Valdei propõe como forma de resistir á uma modernidade pulsante e frenética.
Essa discussão sobre historicidade e temporalidade rende muito. Pretendo debater mais isso em post futuros.
**Além de Chico, Valdei adora Alan Moore e se você cavucar um pouco mais no blog dele vai achar análises de Watchmen e o tempo histórico.
**Além de Chico, Valdei adora Alan Moore e se você cavucar um pouco mais no blog dele vai achar análises de Watchmen e o tempo histórico.
terça-feira, 30 de julho de 2013
Olho mágico
Imaginemos, apenas imaginemos, que existam espalhados pelo universo uma série de estações de observação, tal qual nossos telescópios. Imaginemos ainda que o ponto central de observação se encontre em posse de alguma criatura, a serviço de algo parecido com um governo ou mesmo por razões particulares - talvez curiosidade apenas. Imaginemos que nessa infinita solidão esse observador se interesse não mais por simples fenômenos, mas pelas trajetórias dos muitos seres que suas lentes possam captar. Imaginemos que por acaso a Terra esteja no raio de observação de suas lentes e lá ele acompanhe as pequenas vinte e quatro horas de vida de uma mosca ou então os cinquenta anos de vida de um quitandeiro. Imaginemos que efeito surtiria tal mania em nosso voyeur das estrelas. Alguém que tenha uma visão do todo se encantará realmente com a generalidade, com a perenidade, ou com a singularidade, com o acaso? Mas, não esquente a cabeça, é só imaginação.
sábado, 30 de março de 2013
Mundo, mundo (de)vasto mundo...
Eu ri com o caso da família que se escondeu debaixo da terra com medo do fim do mundo - foi lá no Coroado, mas com certeza em muitos países houve aqueles que se refugiaram em um bunker ou sótão. Mas hoje tenho o medo de ter que morder a língua. O mundo ultimamente vem pegando fogo e ali pelas bandas da Ásia está quase um incêndio. Pelo jeito, abrigos subterrâneos - de preferência, os anti-nucleares - vão entrar de novo na moda.
terça-feira, 12 de fevereiro de 2013
Rapidinhas
O brega chora
faleceu Roberto Makassa,
o bolero em carne e osso
e óculos escuros.
Manaus, 4 de fevereiro de 2013
- notícia sussurrada -
Biblioteca Pública abriu
Manaus, 31 de janeiro de 2013
D. Pedro I abdicou, Collor renunciou
até o papa jogou a toalha
e nada do Robério se coçar.
E Renan taí...
quinta-feira, 7 de fevereiro de 2013
Pare, olhe, ouça, pense
Toda cidade deveria ter um cineclube. É um desejo não só meu, mas de colegas cinéfilos. Estudando um pouco da história de cinéfilos de outrora percebemos que existiam inúmeras dificuldades: conseguir uma cópia do filme, conseguir reunir todos, etc. Hoje a maior dificuldade é tirar o cinéfilo de casa.
Ora, podendo baixar todos os filmes a qualquer hora quem se habilita a assistir um filme no cinema ou na casa de fulano? Não é questão de ser nostálgico, mas sempre tenho como referência meus tempos de menino onde os cinemas não tinham se tornado ainda igrejas. Se o filme em questão já tivesse saído de cartaz, o jeito era esperar sair na locadora ou na TV. E quando saía, era o assunto na sala de aula ou numa roda de amigos. "Você viu ontem Parque dos Dinossauros? Vi, que massa, cara!".
E não se trata apenas de filmes. Com tantos sites, música é o que não falta aí esperando ser baixada. Aconselho lerem esse post do guitarrista Mateus Starling sobre essa característica dos nossos tempos. Adianto dizendo que ele coloca a questão nesses termos:O acesso extremamente fácil à música acabou por produzir um ponto negativo que é a falta de qualidade na audição. Um Mp3 player tem fácil 2 mil álbuns de música. A pergunta é: Qual o propósito de se ter 2 mil álbuns novos na sua coleção? A resposta vem a seguir: A situação é muito obvia, se você tem 2 mil álbuns te esperando e a ansiedade é enorme o que vai acontecer? Audição de má qualidade.
O tema aqui é bem nítido: a facilidade em se obter bens culturais como canções e filmes pode democratizar o acesso á artes, mas também podem mercantilizá-las, coisificá-las. E o tema não é novo - Walter Benjamin quando fala da perda da aura da arte nos anos 30 está se referindo a esse processo. Cultivar um espírito contemplativo não faz mal a ninguém e pode ajudar a diminuir um pouco essa apreciação frenética, que de apreciar tem só o nome.
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domingo, 3 de fevereiro de 2013
Swartzianas
Qual o legado de Aaron Swartz?
Essa foi a pergunta que mobilizou a jornalista Tatiana Dias e o jurista Rafael Zattana em uma mesa redonda mediada por Leandro Chemalle, um dos coordenadores do Partido Pirata, no penúltimo dia do mês de janeiro durante o ciclo de eventos da Campus Party. A videoconferência foi transcrita no blog de Zanatta, o E-mancipação. A leitura é mais que recomendada.
Destaco na fala de Zanatta essa proposta de conhecimento sem limites, que já é antiga mas foi revigorada recentemente, e esse aproveitamento do sistema legal a favor do cyberativismo, estes dois pontos que ele identifica como centrais em Aaron,e que parecem distantes do debate brasileiro. A posse de Renan Calheiros como presidente do Senado então foi um banho de água fria em muitos sentidos, inclusive no cyberativismo tupiniquim.
Essa foi a pergunta que mobilizou a jornalista Tatiana Dias e o jurista Rafael Zattana em uma mesa redonda mediada por Leandro Chemalle, um dos coordenadores do Partido Pirata, no penúltimo dia do mês de janeiro durante o ciclo de eventos da Campus Party. A videoconferência foi transcrita no blog de Zanatta, o E-mancipação. A leitura é mais que recomendada.
Destaco na fala de Zanatta essa proposta de conhecimento sem limites, que já é antiga mas foi revigorada recentemente, e esse aproveitamento do sistema legal a favor do cyberativismo, estes dois pontos que ele identifica como centrais em Aaron,e que parecem distantes do debate brasileiro. A posse de Renan Calheiros como presidente do Senado então foi um banho de água fria em muitos sentidos, inclusive no cyberativismo tupiniquim.
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O Velho Oeste manda lembranças
Não é que eu tenha relutado em escrever sobre Django Unchained por preguiça. Simplesmente não estava certo de como começar esse texto, uma vez que tive inumeráveis impressões sobre esse filme.
Django Unchained ou Django Livre é antes de tudo um filme de Tarantino. Há quem diga que com ele o western ressuscite. Sim, Django (o "d" é mudo) se insere nesse gênero. Entra pela porta da frente para virar tudo de cabeça pra cima. A começar pelo protagonista e seu cenário. Django é um escravo á procura de sua mulher no Sul dos Estados Unidos. E a trilha sonora reafirma: Black Music na área, de Soul á Hip Hop. Nenhum exagero em dizer que a produção se aproxima do blaxploitation, já homenageado por Tarantino em Jackie Brown.
Falando assim pode parecer que Django tenha de western apenas o figurino. Nem tanto, caro leitor. A referência á tradição dos spaguethi westerns está escancarada na adoção do nome do protagonista. Apesar de ser imortalizado na interpretação de Franco Nero como um pistoleiro que enfrenta uma gangue em nome da esposa assassinada, Django é um dos personagens mais plásticos do gênero. A criação de Sérgio Corbucci se tornou lendária, originando, ainda na época, múltiplos filmes. Atores diferentes, enredos diferentes, mas a mesma temática: a busca por vingança.
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| Passado e presente se encontram no balcão: o Django atual (Jamie Foxx) e o Django original (Franco Nero). |
Outro elo com a tradição: a trilha sonora. Se já era evidente que o diretor é apaixonado por faroeste na escolha das canções de seus outros filmes, aqui ele não decepciona: Luis Bacalov, Riz Ortolani e o mítico Ennio Morricone figuram na lista. E não são participações pequenas - cada canção encontra sua cena, uma lição que aprendeu muito bem com Sérgio Leone.
Em Django estamos diante de uma construção meticulosa. Não é só na música que ela se revela, mas no filme como um todo. A calmaria se contrapõem ao frenesi de violência. O humor, como sempre, também está presente e também cumpre sua função: antecipar o próximo estampido. Criticou-se muito a longa duração da produção (e olhe que Tarantino queria prolongar por mais alguns minutos!), mas ela tem sua razão de ser: cultivar a tensão. A viagem á Candyland, por exemplo, é perfeita nesse sentido. Afinal, um filme que não construa e prometa um clímax, prendendo assim o espectador, é digno de ser chamado de "entretenimento"?
Os diálogos polidos de King Schultz e de Calvin Candie são mais um bom exemplo. São bem executados e carregados de informações que não estão ali de graça. O discurso sobre frenologia ou mesmo a referência á descendência do escritor Alexandre Dumas revelam aspectos da história e da História cruciais. Já que estamos falando dos personagens, o que dizer do Django de Jamie Foxx ou do King Schultz de Christoph Waltz? Uma dupla improvável (como personagens e como atores) que se revela forte e coesa, sem apelar para o sentimentalismo. Cada qual, porém , possui seu nêmesis: Candie é o oposto de Schultz, assim como Stephen é o contrário de Django. O rico e sádico fazendeiro interpretado por Leonardo Di Caprio, no entanto, por mais elegante que seja, é um tanto ingenuo, necessitando de seu criado e administrador particular, brilhantemente encenado por Samuel L. Jackson, para abrir seus olhos. Ou seja, juntos são adversários á altura dos nossos dois caçadores de recompensa.
Em meio a tantas interpretações inspiradas, como de Di Caprio e Jackson, encontramos uma Kerry Washington um pouco perdida fazendo Broomhilda, a esposa de Django. Quero crer que isso se deva á edição e não a atuação dessa bela atriz, uma vez que ela teria mais cenas na versão inicial do filme. Talvez quando lançarem uma edição mais longa da produção em DVD ou Blue-Ray poderemos comprovar isso.
Falávamos do calculismo dessa realização. Pois bem, aí reside um grande "porém". O Tarantino iconoclasta e irreverente sai de cena diversas vezes, abrindo espaço para o Tarantino fã confesso de Corbucci, Leone, Peckinpah, dentre outros. A criatividade que o tornou famoso em Cães de Aluguel (que a propósito, fez duas décadas no ano passado) está mais fraca aqui - o final é prova disso. Creio que pelo peso da tradição que o diretor se filia agora, ainda que seu filme seja um western reinventado.
É natural achar que a novidade seja essa reinvenção, mas isso é uma característica da própria dinâmica desse gênero: lembremos dos spaguetthi westerns, uma leitura ao sabor da cultura italiana (aliando neo-realismo e ópera em alguns casos), ou mesmo de Os Imperdoáveis de Clint Eastwood, inovador na temática (culpa e não vingança movimentam o William Munny de Eastwood numa luta contra o homem da lei para se fazer justiça a prostitutas violentadas).Assim, este é um filme de Tarantino onde percebemos em alguns momentos o dedo de outra pessoa. A estética de seu filme está muito reverente aos seus filmes preferidos. É um deslize perfeitamente compreensivo tendo em vista a qualidade e o peso destas obras.
Só queria salientar mais uma coisa: a História é novamente reescrita por Tarantino, ou melhor, por seus personagens. Ainda que aqui os rumos do mundo não tenham sido definidos pela narrativa, como o foi em Bastardos e Inglórios, a mudança não é tão minúscula quanto se pensa: o protagonista incomoda tanto os brancos por abrir espaço para mais Djangos que, se não aparecem no filme, fica implícito que aparecerão em algum momento. A desumanidade da escravidão é apresentada e ao fim, a vingança de Django representa uma justiça histórica: a Casa Grande é explodida pela senzala. Daí inevitáveis comparações com o filme anterior, mas em Django se enxerga uma consciência histórica muito maior. Logo de início sabemos que estamos próximos da Guerra de Secessão, mas os personagens não sabem disso. Django não esperou pela guerra para lutar por sua liberdade e de sua amada. Para ele o painel não parecia tão esperançoso. O abolicionismo não surge aqui como uma grande causa. O mais próximo dele são as atitudes de Schultz, que não é retratado como uma figura dúbia á toa. Resumindo, ao contrário de Spike Lee, acho que esse filme vale a pena.
domingo, 13 de janeiro de 2013
Cyberativismo chora a perda
Se antes hackers eram geralmente gênios anônimos, hoje eles possuem rosto e uma causa: a internet livre. Nos EUA, o projeto conhecido como SOPA gerou tanta polêmica, tanta pressão, que foi vetado. Já no Brasil um projeto similar, o Marco Civil, está sendo proposto.
Os ciberativistas norte-americanos estão de luto por conta do falecimento de um de seus maiores nomes, Aaron Swartz, na sexta feira passada. A imprensa pinta Aaron como um rapaz brilhante - afinal aos 14 anos ajudou a inventar o recurso RSS - mas com problemas psicológicos, afinal a nota oficial diz que o hacker se suicidou.
Não quero levantar mais uma teoria da conspiração, mas é muito estranho que ele tenha se suicidado sem deixar maiores pistas de seu comportamento depressivo além de algumas poucas frases pessimistas em seu blog. Claro, a possibilidade de ser condenado á 35 anos de prisão por roubar 4,8 milhões de artigos científicos dos servidores do Instituto de Tecnologia de Massachusetts (MIT) pode até contar como um agravante. Mas ainda assim parece muito estranho.
Creio que muitos vão dizer que a luta pela internet livre já tem o seu primeiro mártir.
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Surpresa em dose tripla
Vou falar aqui de três filmes que superaram minhas expectativas em 2012: Prometheus, Drive e Looper. Por quê? Explicarei melhor. Prometheus, que foi amplamente divulgado como o prelúdio á Alien, o Oitavo Passageiro, me surpreendeu por ser mais que um rebut. É um filme rápido e complexo, o que pode causar vertigem ao espectador menos desatento e mesmo para os fãs de carteirinha da franquia. Assisti duas vezes e creio que preciso ver mais cinco vezes.
Drive, por outro lado, é um objeto de luxo. É como um fetiche dos fãs de filmes de ação dos anos 80. As referências ali estão muito sutis, ao contrário de Looper. O visual e a trilha sonora denunciam uma improvável união entre passado e presente que nos deixa meio suspensos. O roteiro é muito simples, o que o torna diferente é a forma como a narrativa é contada. O mesmo aviso de Prometheus serve para Drive: se você não está acostumado com filmes que exigem ser garimpados vai achar uma chatice sem sentido. Há ação, mas o grosso mesmo da produção está na sua estética.
Nunca botei muita fé em Looper. "Mais um roteiro sobre viagem no tempo?" Mas após ler uma entrevista do diretor, fiquei instigado a ver. Na entrevista ele revelava um pouco de suas referências - em tempo, ele também é o roteirista. Assisti e me empolguei com a criatividade do cara. Ele criou um mundo abrangente e ao mesmo tempo provável. O que achei mais interessante é que a história brinca com o universo de questões deixadas por filmes do tipo. Você não vai ver ninguém quebrando a cabeça com paradoxos temporais e talvez isso tenha chateado muita gente. Mas a questão aqui é outra. Os paradoxos temporais ficam a cargo do espectador repensar (o título já diz respeito á teorias sobre o tema), já que aos atores e o diretor cabem o entretenimento. Esse filme é antes de tudo uma história de ação, mas que nos empolga por fugir da falta de criatividade porque passa o gênero.
Que a indústria cinematográfica está em crise não é novidade. A cada ano somos presenteados com enlatados filmícos que nem mais cumprem sua função enquanto entretenimento, simplesmente porque já repetem velhas fórmulas á exaustão. Acenando para um futuro pouco atraente no cinema, Hollywood vai buscar soluções no seu inimigo, o cinema independente. Os roteiros, os diretores e até os atores desse universo passam a ser fagocitados pela indústria, mas nem todos. Os filmes que mencionei acima, ainda que sejam do mainstream, me surpreenderam por não incorrerem no mesmo erro ou então por apostar numa saída pseudo-indie. São filmes de referência, seja á ficção científica ou o cinema de ação dos anos 80. São pontes entre o ontem e o agora que antes de tudo não tem vergonha de assumirem isso.
domingo, 6 de janeiro de 2013
Um urubu pousou na minha sorte
*
A mancha. O corpo.
Amanhece sem manchete.
Só mancha.
**
Os olhares vazios, a pele áspera, o ruído da fome, o cheiro da desgraça. Ver isso o tempo todo revirava-lhe o estômago, por isso tapava a visão. Há pessoas que pensam com o estômago. Desse e do outro lado da rua.
***
Pisando nos desejos descartados,
a menina cheia de utopias:
uma vida sem urubus.
quinta-feira, 3 de janeiro de 2013
Minha retrospectiva
Com algum atraso, deixo aqui a minha retrospectiva:
2012, o ano em que me acabei na Banda do Galo. Nunca curti muito carnaval. Ainda mais carnaval de rua - morria de medo dos bate-bolas. Mas estando em Manaus (livre da jurisdição dos bate-bolas) resolvi rever meus conceitos.
Não posso me dizer que não me diverti esse ano. Festas, cervejadas, churrascadas, peças e até as enrascadas, tudo isso foi incrível. E devo isso tudo aos meus amigos, aqueles de longa data e aqueles que descobri há pouco. Os amigos de outro Estado, de outra idade, de outros tempos, todos.
2012 também foi o ano em que (que pretensão!) fizemos História. Mais um documentário feito e uma participação pequena no primeiro encontro regional da ANPUH, sem falar é claro da defesa antecipada da monografia. Mas, a maior surpresa foi guardada para o final do ano: a entrada no Mestrado.
Foi um ano de surpresas, em todos os aspectos. 2012 foi inesquecível para mim. Já 2013 não sei o que dizer, afinal nem fomos apresentados direito ainda. Talvez daqui 365 dias eu possa tecer alguns comentários sobre 2013...
quinta-feira, 20 de dezembro de 2012
Doismiledois
Em Hollywood o mundo já acabou milhares de vezes. O canal Syfy preparou uma maratona de filmes por conta do badalado dia vinte e um de "doismiledois". E até que os roteiristas são criativos: nada de meteoros ou invasão alienígena, isso tudo está batido. "Buraco branco", crocodilos gigantes e até Stonehenge entraram na parada.
Por que essa fixação com o fim do mundo? Talvez seja algo ligado ao nosso subconsciente. A psicanálise já diz há algum tempo que a mente humana dialoga com uma série de pulsações e uma delas é a dobradinha Eros/Tanatos (ou, Vida e Morte).
Vamos tentar simplificar as coisas: aquele momento quase hipnótico em que você olha para um lugar muito alto e pensa "será que se eu pular morro?" seria Tanatos atuando. Aquele momento que vem logo em seguida, quando você conclui "melhor não tentar, vai que eu morro" seria obra de Eros. Nesse caso, o instinto de auto-preservação ganhou do instinto de auto-destruição, colocando as coisas de modo bem grosseiro.
Mas será só isso mesmo? Vamos dar uma olhada no gênero da ficção científica dentro do cinema. Na virada do século XX encontramos narrativas maravilhadas com a tecnologia, narrativas que apostam num futuro melhor. Algumas guerras mundiais depois, o panorama é totalmente diferente. Já no final do mesmo século nada é mais emblemático para a ficção científica que o cyberpunk. O futuro não é mais utópico, mas sombrio e desanimador. A tecnologia não nos libertou, apenas nos tornou mais miseráveis.
Vou usar aqui o melindroso conceito de imaginário coletivo para alegar que a distopia (o contrário da utopia) se enraizou em nossa vida. O desencanto com o futuro, por conta das experiências do presente, levaram muitos a valorizar o passado de maneira surpreendente - só para exemplificar, os hipsters são uma tribo urbana cada vez mais numerosa. Não que isso tenha acabado com qualquer perspectiva de futuro, mas que enxergar um futuro esplendoroso nos pareça um pouco sem sentido agora. Um futuro amargo e fatalista seria muito mais palatável á geração cyberpunk.
O medo é difuso (líquido, diria Zygmunt Bauman) porque hoje qualquer coisa pode ser mortal, desde um pequeno e quase invisível vírus até um rapaz com uma arma. Hoje não sabemos de onde esperar a peia. Essa insegurança justifica o crédito dado ás profecias de Nostradamus, dos maias e de quem mais precisarmos desenterrar para nos assustar.
sábado, 1 de dezembro de 2012
Dez achados da década perdida
- Sábado á tarde, batendo papo no Facebook sobre os anos 80. "Ei, cara, já percebeu que o pessoal fala muito dos anos 80, mas dos anos 90, que é bom, nada?" Pensando nisso, surgiu um desafio: listar os filmes que marcaram essa década e as seguintes. Muito bem, aceitaram o desafio os amigos Augusto Severo, Tarcísio Normando e Vanderson Fernandes (além de mim, claro...). Acompanhe aí abaixo o resultado:
Dez grande filmes de 1990
por Tarcísio Serpa Normando
Perfume de Gardênia - Em 91, ano em que collor acabou com a Embrafilme, este foi o ÚNICO filme brasileiro produzido. Entra na lista pela persistência;
O Poderoso Chefão Parte III - Acabou a segunda melhor trilogia do cinema;
Ronin - A melhor perseguição automobilística dos anos 90 e um Robert de Niro ainda inspirado;
Fogo contra Fogo - Pela primeira vez juntos De Niro e Pacino. Tem a melhor cena de tiroteio dos anos 90;
Dança com Lobos - O último filme que presta do Kevin Costner;
A Excêntrica Família de Antônia - Filme sueco(?) que com toda justiça levou o oscar de filme estrangeiro no lugar do brasileiro Quatrilho;
Cães de Aluguel - Primeiro filme de Tarantino, um espetáculo;
Pulp Fiction - Obra prima de Tarantino;
Despedida em Las Vegas - O filme mais deprê dos anos 90 com uma inexplicável boa atuação de Nicholas Cage;
Ah, quer saber, escolhe qualquer um desses: Central do Brasil, As Bruxas de Salem, Forrest Gump, Seven.
-Matrix: pra mim foi uma revolução tanto no tema (embora o eXistenz e Cidade das Sombras tenham o mesmo tema) como nas técnicas (leia-se efeitos especiais);
-Sexto Sentido: foi o suspense da década, cara!
-Máquina Mortífera: virou até fórmula pronta - a dupla de policiais, um inconsequente, outro bem família e coisa e tal...
-Cães de Aluguel: começo em grande estilo do Tarantino;
-Melhor Impossível: nunca gostei de comédia romântica, mas essa aqui me conquistou. Jack Nicholson atacando de escritor antipático, impagável;
-Rei Leão: eu acho que em se tratando de animação, o Rei Leão tem um grande concorrente que é Toy Story;
-Central do Brasil: cara, eu sempre achei que esse filme ajudou a levantar a auto-estima do cinema brasileiro;
-Bruxa de Blair: pode ver o tanto de cria que esse filme deu hoje, tipo Atividade Paranormal, Rec e o escambau;
-Jurassic Park: Spielberg marcando essa década com mais um filmão;
-Os Imperdoáveis: o último grande western e só com feras (Clint, Morgan Freeman, Gene Hackman, Richard Harris).
Então vamos lá:
1-Armagedon
2-Um Herói de Brinquedo
3-Forest Gump
4-A Bruxa de Blair
5-O poderoso Chefão III
6-Central do Brasil
7-Orfeu
8-Street Fighter (Fã de videogame)
9-Mortal Kombat (Fã de videogame)
10-American Pie (lembra a época dos tempos de escola de todo mundo)
Os 11 (tentei 10, mas não deu) Melhores Filmes dos anos 90
por Augusto Severo
por Augusto Severo
• O Pagamento Final (Carlito’s Way, 1993) de Brian de Palma – Sou colecionador de filmes, e esse é, em minha opinião, o terceiro melhor filme do Al Pacino.
• Pulp Fiction: Tempo de Violência (Pulp Fiction, 1994) de Quentin Tarantino – A década de 90 foi a década de ouro da cultura tarantinesca, e foi difícil ter que escolher qual o melhor dele nesse período. Escolhi o PULP porque, além de pioneiro, é o que mais trouxe consequências diretas pro universo pop do cinema de hoje. Além de uma atuação do Samuel L Jackson e uma trilha sonora que dispensam comentários.
• À Beira da Loucura (In the Mouth of Madness, 1994) de John Carpenter – Como sou nascido e criado no universo dos RPGs, essa foi a primeira dramatização séria que se baseou nos mitos Cthulhunianos de H.P. Lovecraft, e por isso, meu sonho realizado infantil de como deveria ser todo filme de terror. Clássico dos clássicos do rei dos clássicos: John Carpenter!
• Além da Linha Vermelha (The Thin Red Line, 1998) de Terrence Malick – Eu me perguntava como seria um “APOCALIPSE NOW” tendo como base a WW II, e acho que foi o que mais se aproximou. Esse eu vi no cinema!
• O Grande Lebowski (The Big Lebowski, 1998) de Joel e Ethan Coen – O primeiro grande trabalho dos Irmão Cohen. Considero a única grande comédia DEMOCRATA americana da década de 90: aluguei quando moleque!
• O Silêncio dos Inocentes (The Silence of Lambs, 1991) de Jonathan Demme – Desde moleque fui fascinado por terror, até que numa noite de madrugada na globo fui apresentado a este que considero o maior TRHILLER de todos os tempos; praticamente estabeleceu o gênero (suspense com elementos de terror), tão cultuado hoje.
• Clube da Luta (Fight Club, 1999) de David Fincher – Meu filme favorito de todos os tempos.
• Último dos Moicanos (The Last Of The Mohicans, 1992) de Michael Mann – Na minha infância, todo garoto nerd que se preza tinha que ter decorado todas as cenas desse filme. Na época, Eu tinha acabado de ver “Meu Pé Esquerdo”, e pensava que nunca mais veria qualquer outro filme do Daniel Day-Lewis. Até que assisti isso! OBRA PRIMA da fotografia e da trilha sonora.
• A Bruxa de Blair (the Blair Witch Project, 1999), de Daniel Myrick e Eduardo Sánchez – Da época do “Eu Quero a Nota”, fui ao cinema mais por ter sido vítima da propaganda massiva feita em cima desse filme. Acreditei mesmo que os guris tinham morrido! Ese filme popularizou o gênero “Documentário”, tão popular hoje. Pena que as continuações foram um lixo.
• O Exterminador do Futuro 2 – O Julgamento Final (Terminator 2: Judgment Day, 1991) de James Cameron - Filmes de Ação de hoje em dia devem tudo a ele.
• O Sexto Sentido (The Sixth Sense, 1999) de M. Night Shyamalan – Aquele choque de chegar ao final e ser surpreendido – PQP! – tal recurso ja era utilizado em épocas anteriores, mas foi o Sexto Sentido que trouxe de volta a vida essa sensação, fazendo todo mundo sair do cinema falando “vc tem que assistir!” Os filmes de terror atuais devem muito a esse filme.
Coloquei aqui sem ordenar por preferência ou relevância. São os filmes que considero mais relevantes dessa década no que condiz a gerar consequências no mundo pop até hoje! Alguns eu coloquei só porque gosto mesmo!
quarta-feira, 28 de novembro de 2012
Existencialismo de Faroeste
Quem nunca brincou de mocinho e bandido?
Hollywood sempre foi uma vitrine de nossos desejos e instintos. Ela sempre se aproveitou de nosso estranho encanto pelo medo e pela violência. Se por acaso isso é mentira, como explicar o sucesso dos gêneros de terror e western? Ora, estúdios se levantaram em cima desse sucesso: a Universal produziu nos anos 20 e 30 os pesadelos mais clássicos do cinema, como Drácula, o Lobisomem e até Frankeinstein, enquanto a Warner Bros construiu sua fortuna com filmes de gangsteres, principalmente com astros como James Cagney e Paul Muni.
Mas hoje vamos falar do western. Bang-bang, faroeste ou western. Seja como for, onde estiver, quem ver na tela homens rudes e calados se enfrentando na imensidão do deserto na hora associará o filme a esse gênero. Mas faroeste é apenas isso? Homens com armas no deserto?
Me arrisco a criar uma definição para esse gênero, sem ajuda de qualquer crítico. Talvez no início, o western pudesse ser definido assim, no entanto, o século XX deu boas sacudidas no gênero. O tema tem sido constantemente revisto, praticamente desde os anos 40 com diretores clássicos como John Ford e Howard Hawks até hoje. Sendo que considero hoje como faroeste todo filme que lida com dicotomias essenciais. Como assim?
O que se vê nesses filmes constantemente é o processo de "conquista do Oeste", que aconteceu entre os anos de 1840 a 1890. Aqui vemos os Estados Unidos se expandindo a custa dos conflitos entre brancos e indígenas, se unificando a partir da Guerra Civil e, por fim, se civilizando com a industrialização. Basicamente estamos falando de uma região bravia que aos poucos é domada. O gênero já nasce nostálgico, pois é alimentado com esse sentimento de uma era selvagem, lendária e finda.
As lendas do Velho Oeste ajudaram a tornar o faroeste bem sucedido. Lendas como Wyat Earp, o justiceiro, ou Jesse James, o facínora. Fagocitando essas lendas nasce um arquétipo: o homem solitário. Ele, que pode ser tanto um paladino quanto um vilão, não necessita de muitas palavras pra provar sua hombridade. Na realidade, ele só precisa de uma arma. No entanto, a arma é geralmente vista como extensão do caráter do personagem (e isso se faz presente inclusive nos westerns revisionistas), ela apenas endossa suas atitudes. A violência torna-se, portanto, uma ferramenta. Mas nas mãos daqueles que aspiram a violência por prazer, ela se torna um fim em si mesmo.
Aqui encontramos uma primeira dicotomia essencial: caráter versus instinto puro. O "bom" usa a violência como forma de equilibrar as injustiças, enquanto o "mau" cria estas injustiças ao glorificá-la. Você pode me perguntar: se o "bom" é realmente o bom, por que usar de algo tão baixo e primário como a violência? Devemos nos lembrar do ambiente em que as histórias decorrem: as grandes planícies esperando ser conquistadas ou o deserto de gelo quase inabitável (como no caso do filme de Sérgio Corbucci, O Grande Silêncio), ou seja, o espaço selvagem, mais conhecido como "terra sem lei". Num local tão rústico como esse, a linguagem dos brutos é a violência. Ela é apenas sua parte mais visível, uma vez que por trás dela reside toda uma série de regras. Um "código do sertão" digamos assim.
E aqui chegamos a mais uma dicotomia essencial: a regra e a exceção. A lei é generalizante, existe para todos, é um conjunto de regras que deve ser imposto a todos para que haja justiça. No entanto, há outras formas de justiça. O que não está no plano da regra é tido como exceção. Logo, a justiça com as próprias mãos, tema tão caro ao faroeste, é algo condenável. No Oeste impera essa forma de justiça, talvez por estarmos falando de uma sociedade que está se constituindo agora. A vingança pessoal poderia funcionar como uma forma de justiça primária.
Enfim, se nas capitais norte americanas a lei era absoluta, nos espaços selvagens vale a decisão individual. O diretor Sérgio Leone se apaixonou pelo gênero exatamente pelo horizonte de liberdade que o bang bang apresentava aos espectadores. Se na sociedade "civilizada" a ética imana das leis, no Oeste ela imana dos sujeitos. A liberdade de escolha permite que sejam cometidas grandes massacres ou bons acertos de contas.
Acho que já deu pra captar o que entendo como dicotomias essenciais. São aqueles pontos que não se opõem, apenas dialogam entre si. E no meio desse volta-e-trás, se estabelecem os arquétipos e lugares comuns do gênero. Por exemplo, entre o sadismo e o altruísmo se situa o homem solitário, a meio caminho de ambos (pelo menos, o homem solitário que os westerns ajudaram a construir após 1960). Entre a "civilização" e a natureza selvagem, as grandes histórias se desenvolvem. Entre a liberdade e a coerção, o indivíduo. O faroeste é feito dessas tênues e poderosas fronteiras (aliás, o conceito de "fronteira" na cultura norte-americana merece um artigo próprio).
Concordo com o filósofo Gilles Deleuze quando este diz que o western é um gênero mais ético que épico, pelos motivos que enunciei acima. Aliás, acredito até que por conta dessas constantes redefinições de seu tema, o faroeste tenha criado inclusive uma forma de pensar, uma espécie de filosofia de vida. Chamarei apenas de "existencialismo de faroeste". Afinal a questão ética trata-se de uma questão existencial. Se o homem está condenado a liberdade, como queria Sartre, é diante de imensidões como as apresentadas no Oeste que esta situação se torna mais explícita. A pouca força que as leis e outros padrões sociais exercem ali tornam a sensação de liberdade muito maior, bem como o dilema de que decisão tomar, para onde enveredar na escala da decência, dentre outras coisas.
Claro que a adoção da liberdade e da violência não são necessariamente escolhas metafisicamente planejadas pelos roteiristas e realizadores. Quem não gosta de uma boa história de ação? Quem nunca brincou de mocinho e bandido? Alguns aspectos do western estão presentes na nossa lista de fetiches. Na maioria das vezes obedecem ao gosto das massas: se é aventura, liberdade e violência o que querem, que isso seja colocado na tela. No entanto, o que estou fazendo aqui é apenas um exercício de interpretação muito livre (e fuleiro) sobre o gênero. Sim, talvez alguns filmes não tenham tido essa preocupação aparentemente, mas outros tiveram. É um caso a ser estudado.
Parafraseando o grande filósofo Gaguinho: por hoje é só, pessoal. Mas por conta da amplitude do tema e do meu apreço pelo gênero (pronto, falei!) falarei aqui mais vezes sobre westerns e sua filosofia. Até breve!
Medindo o Oriente II: Inverno Palestino?
Você sabe a diferença entre um cachorro doido e um cachorro brabo? O cachorro doido morde sem razão. Assim um vizinho me explicou uma vez a diferença entre seu Doberman e um vira-lata com raiva que vivia tocando o terror na nossa rua. Seu cão tinha sido treinado para ser feroz, infelizmente, á base de muitas surras. Assim só restava ao animal duas opções: ser submisso ou ser agressivo.
A imprensa pinta o Estado de Israel como um cachorro doido. Muitos os comparam aos algozes nazistas. Mas vamos tentar compreender algumas coisas antes de prosseguirmos nossa análise. Israel foi criada por uma resolução da ONU no final dos anos 40. Foi decidido que os judeus do mundo todo agora teriam uma nação, ainda que fosse em território ocupado por outros povos como os palestinos. Tal ação originou um sentimento de hostilidade por parte dos demais países vizinhos de maioria árabe. Nos anos seguintes, o apoio dos EUA (como forma de conseguir aliados no Oriente Médio contra a URSS) apenas acirrou o conflito.
Assim, Israel nasceu sob a égide do conflito. Nos anos 60, a situação se agrava com as guerras dos Seis Dias e do Yom Kippur. Já nos anos 80, temos a Intifada, a série de ataques palestinos contra o domínio israelense. Aos israelenses, a segurança nacional vem em primeiro lugar. Como a hostilidade da região já é antiga, há até um pouco de verdade nesse discurso, no entanto, é sabido que já faz tempo que o discurso da segurança nacional se tornou uma plataforma política. Diante desse quadro pouco otimista, em que os conflitos apenas se multiplicam, as autoridades insistem em continuar nessa via.
Por outro lado, o drama dos palestinos não é oriundo somente do imperialismo israelense, mas também da incapacidade das autoridades locais se articularem. O grupo Fatah de Yasser Arafat, responsável por levar a bandeira da libertação da Palestina para o resto do mundo, começou radical, mas quando assumiu a liderança da Autoridade Nacional Palestina (uma grande conquista, afinal até 1993 a região não tinha o direito de se auto-governar) perdeu um pouco de sua aceitação popular por conta de muitos membros envolvidos em esquemas de corrupção. O Hamas aparece então aos olhos dos palestinos cansados dos mesmos escândalos e opressão como o único grupo comprometido com a libertação da região. Daí a aceitação do Hamas ter crescido, enquanto a Autoridade Nacional Palestina parece se tornar a cada dia mais obsoleta e impopular. O problema é que o Hamas apela inadvertidamente para atentados contra o país vizinho.
Há mais de uma semana, mísseis atravessaram a fronteira israelense o que motivou uma retaliação á Palestina pelos atos do Hamas. Na tentativa de punir os culpados vidas inocentes vão se perdendo. O ódio e o sofrimento se prolongam apenas. Uma solução pacífica parece cada vez mais distante no horizonte com um governo irredutível e um grupo disposto a continuar atiçando lenha na fogueira.
Enquanto o sopro da Primavera Árabe parece sinalizar para uma transformação no Oriente Médio, a relação entre israelenses e palestinos continua quase a mesma. Ambos estão longe de serem cachorros doidos, como a mídia tenta demonstrar, uma vez que possuem motivos para serem "brabos" uns com os outros. A verdade é que julgar os dois lados desse dilema é muito fácil para nós que não conhecemos e principalmente não vivemos essa realidade. Se a lógica até agora tem sido "atacar pra se defender", mesmo com tantos apelos internacionais de diálogo, é porque no meio de tanto sofrimento e medo o "sangue-quente" parece ainda dar as cartas. Num contexto assim, os extremistas (sejam sionistas ou do Hamas) saem vencedores, para infelicidade da Humanidade.
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