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quinta-feira, 11 de outubro de 2012

Agenda cheia!

jean cocteau: surrealista francês.

Não sou muito de apresentar a todos meus planos, mas hoje farei isso.
Ultimamente tenho o privilégio de estar fazendo parte de diversos projetos ao mesmo tempo, o que tem por um lado ofuscado os posts desse blog e por outro consumido muito mais da minha criatividade.
Desde de março tenho mantido uma coluna no site Almanaque Urupês, iniciativa memorável dos irmãos Angelo e Pedro Rubim de preservar a história e memória de Taubaté e do Vale do Paraíba paulista como um todo. O título dela é Manauté - junção das duas cidades que me inspiram diariamente: a capital do Amazonas onde atualmente resido e a terra natal de Monteiro Lobato, onde morei por 6 anos.
Os objetivos principais tem sido três: analisar a história e memória taubateana, relatar minha experiência enquanto morador de uma cidade pouco conhecida dos paulistas e comentar fatos e processos pertinentes do presente.
E a partir do começo desse mês passo a fazer parte da equipe do blog Fagocitando São Paulo do meu amigo Diego Gatto. É um projeto mais voltado para textos de opinião e/ou literários. Falando nisso, tenho certeza que quem acompanha o presente blog já deve ter percebido que o Bar tem se ocupado recentemente mais com contos (de todos os tipos: microcontos, nanocontos, contos tamanho família, etc.). Apenas estou experimentando um gênero que gosto muito. É um ótimo exercício narrativo também. Qualquer dia tentarei unir o tipo de narrativa com qual tenho me identificado com minhas pesquisas em História.
Voltando ao assunto, não bastasse isso tudo, também estou envolvido noutro projeto. Esse ainda em fase de realização, mas que posso adiantar a vocês que será fantástico. A proposta é ótima: unir 15 autores novatos, mas talentosos (cada um em um campo: poesia, crônica, contos, comentários esportivos, ensaios, etc.) que abordarão a cada semana o mesmo tema de perspectivas diferentes.
Existem também os projetos fora do mundo virtual. Dentre eles posso citar apenas um: uma peça teatral para a abertura da IX Semana da Consciência Negra da Uninorte. Será uma comédia que girará em torno do tema do evento desse ano: a África. Brincamos um pouco com os estereótipos e a história desse continente. Todo sábado ensaiamos. Todo ensaio termina com uma cervejada , digo, um happy hour. A experiência vem sendo trabalhosa, mas divertida. Assim como os demais projetos de que participo.

segunda-feira, 1 de outubro de 2012

Gigantes agora adormecidos


Hoje o mundo perdeu um de seus maiores historiadores.
Nem bem tinha aceitado a perda do grande Cyro Resende Filho, lá se vai Eric Hobsbawm. Se nesse canto do Atlântico a comoção se concentrou em São Paulo e Taubaté, dois centros onde a produção e atuação de Cyrão era ativa e reconhecida, a morte do historiador britânico repercutiu em todo mundo.
Hobsbawm (ou Roberval, segundo alguns amigos meus) faleceu com 95 anos, com uma contribuição incontável para a História. Sua série de livros sobre o capitalismo (de A Era das Revoluções a Era dos Extremos) são antológicos. Assim como seus ensaios.
Admirava muito Hobsbawm, principalmente pela sua erudição incrível. O homem parecia um banco de dados ambulante: sabia recitar de cabeça a Ilíada e conhecia todos os grandes e obscuros nomes do jazz norte-americano. Antes de ler seus textos tinha que me preparar para a viagem: uma hora estava em Istambul, então passamos para a Melanésia e antes do fim do parágrafo voltamos á Argentina. Poucos sabem, mas um de seus países favoritos era o Brasil. Seu amor fica mais explícito em A Era dos Extremos em algumas rápidas considerações sobre a nossa grande arte, o futebol.
Conhecimento aprofundado e poder de síntese, duas combinações poderosas que Hobsbawm possuía. Seu estilo era coerente e flexível, livresco e ao mesmo tempo dinâmico. Difícil de explicar. Só lendo mesmo.
Fonte: Angelo Rubim/ Almanaque Urupês.

Quanto á Cyrão, meu professor de História Antiga, Medieval e Econômica durante minha estada na Universidade de Taubaté (UNITAU), possuía quase as mesmas qualidades. Suas grandes obras (História Econômica  Geral, Economia Brasileira Contemporânea e Rommel, a Raposa do Deserto) revelam um estilo objetivo, coerente e dinâmico.
Polêmico, tinha uma visão de mundo bem peculiar. Suas considerações em sala de aula e fora já eram folclóricas na época. Diferente de Hobsbawm, considerado por muitos como neo-marxista, Cyro era gramsciano "na veia". Era confundido por muitos como um carrasco, mas na realidade era apenas um professor exigente. Graças a ele, dentre meus outros mestres, descobri uma concepção de História nova que hoje tomo como bandeira também: mais importante que o fato é o processo, mais importante que a "decoreba" é entender.
Do ponto de vista acadêmico, essa semana começou melancólica portanto.

quinta-feira, 13 de setembro de 2012

Lobato racista: a novela continua



Nova querela envolvendo Monteiro Lobato e o racismo.
O Iara (Instituto de Advocacia Racial) e o técnico em gestão educacional, Antônio Gomes da Costa Neto, entraram com um mandato de segurança no STF (Supremo Tribunal Federal) contra a decisão do CNE em liberar a distribuição das obras de Monteiro Lobato, em especial o livro "Caçadas de Pedrinho", alegando conteúdo racista. A audiência, ocorrida ontem (11/09/2012), terminou sem acordo. 
Em entrevist
a ao Estado de São Paulo, de hoje, 12/09, Ivan Junqueira, membro da Associação Brasileira de Letras, afirmou que "Não se deve tomar nenhuma providência com relação a eventuais traços racistas de obras da literatura brasileira, senão não ficaríamos somente em Monteiro Lobato."

Já abordamos tal polêmica aqui em outra oportunidade. Continuo batendo na tecla de que proibir a distribuição dos livros não é nem de perto a solução, mas o problema. Monteiro Lobato tinha lá seus preconceitos como todo mundo e os expunha de forma veemente seja contra negros como contra japoneses e indígenas, mas ainda assim é um escritor essencial para se entender o Vale do Paraíba e o Brasil. Não subestimemos a capacidade dos alunos e dos professores. Com um bom acompanhamento pedagógico pode-se perfeitamente ler textos e discernir e se posicionar, sejam eles sobre o que for.
Sejamos coerentes e lúcidos. Para entender o racismo lobateano precisamos entender seu contexto e sua vida. Não cometeremos o pecado capital do historiador: a anacronia. O politicamente correto daquela época permitia que se falasse em "pessoa de cor" ou "pretinho". Não se trata de absolver o preconceito, mas de reconhecer que mesmo na luta por um mundo menos intolerante há limites. Corre-se o risco, em decisões como essa do Iara e de Costa Neto, de se cair em uma intolerância quase puritana. Felizmente o conhecimento e o bom senso estão aí para nos ajudar.

quarta-feira, 11 de julho de 2012

1932: O Vale vai á Guerra


"Revolução Constitucionalista de 1932". Eu prefiro o termo revolta ou guerra ao invés de revolução, como já expliquei aqui antes. Revolução implica uma mudança total na ordem social e 1932 pode ter inspirado medidas democráticas por parte do governo federal, mas não impediu que Vargas decretasse o Estado Novo. Em relação á própria "Revolução de 1930" também tenho minhas dúvidas, já que o que os revoltosos conseguiram fora destruir o arcabouço jurídico administrativo da República Velha e não as oligarquias estaduais que dele se utilizou. Assim o peso das mudanças era menor e se concentrava nas cidades, enquanto no interior o governo negociava com os donos do poder.
Mas voltando á 1932, seria essa uma revolta de caráter plenamente democrático? Na minha opinião não. São Paulo tinha um projeto político, gestado ainda durante a República Velha, de ser hegemônica - por conta da sua economia cafeeira e industrial. Com a ascensão de Vargas esse projeto foi frustrado. O estopim para a revolta veio com a morte dos quatro estudantes em uma manifestação anti-varguista.
O brasilianista Stanley Hilton afirma que a Guerra Constitucionalista de 1932 foi uma manifestação da elite que ganhou as massas. Essa elite seriam os velhos oligarcas, os empresários industriais e os profissionais liberais que antes tinham se dividido em dois órgãos políticos nos anos 20 (de um lado, o conservador Partido Republicano Paulista e do outro o liberal Partido Democrático), mas que se uniram novamente na Frente Única Paulista quando se sentiram ameaçados.
O seu discurso apelava para a democracia e para a Constituição, mas havia nuances mais obscuras nesse emaranhado de motivos para se fazer uma guerra contra o governo federal. Alguns apelavam para o regionalismo paulista que durante os anos iniciais da República tinha flertado com o separatismo, outros já se agarravam ao anticomunismo, como Ibrahim Nobre, enxergando em Vargas um líder bolchevique e não um demagogo populista.

O povo paulista entrou nessa guerra pelos mais variados motivos também: seja para defender os ideais liberais, regionalistas, separatistas ou mesmo anticomunistas, seja para se alimentar (a Casa do Soldado fornecia um rango para quem se alistasse) ou mesmo para provar a sua virilidade (Mário de Andrade lembra que aqueles que não iam para o front eram ridicularizados como maricas pela maioria da população).
Quanto á Taubaté, a adesão á causa constitucionalista se fez sem maiores mistérios. Primeiro, a cidade, ao contrário de São Paulo, estava em decadência por conta das crises do café e já clamava por políticas de valorização do produto há bastante tempo. Segundo, nesse contexto, o regionalismo local, que já era grande durante a virada do século (a elite taubateana tinha um certa rivalidade com a oligarquia paulistana por se acreditar ser mais tradicional e legítima que aquela), aflora em discursos contrários á diretriz centralizadora de Vargas. 
No discurso oficial aparece uma Taubaté unida por sentimentos de honra que deseja mais uma vez ser a vanguarda cívica do país libertando-o da ditadura varguista. O interessante é que algum tempo antes os ataques entre os setores mais conservadores, os chamados costistas (curiosamente ligados ao setor mais liberal da política, o Partido Democrático), e os mais liberais, liderados por Félix Guisard (esses filiados ao PRP) tomaram uma proporção enorme. No entanto, diante da ameaça externa, estas duas facções da elite local se unem. Essa seria a prova maior de que na cidade não havia lutas fratricidas e, mais ainda, luta de classes.
Até que ponto o povo comprou a Guerra de 1932 em Taubaté? Não sei dizer. Maria Cristina Soto acredita que a maioria da população tenha ficado indiferente, tanto que após a confirmação da derrota da causa paulista não houve qualquer manifestação popular espontânea na cidade. Mas é sempre bom nunca subestimar o poder do clientelismo e da doutrinação: e se alguns foram lutar por conta de favores ou pela força do regionalismo? Isso só uma pesquisa pode dizer.
O certo é que Taubaté participou do conflito de duas maneiras: fornecendo apoio logístico e humano e propagando a "causa paulista". Do primeiro ponto de vista, temos a cidade se transformando em base dos constitucionalistas, cedendo alguns prédios e espaços para os soldados e voluntários. Concedendo recursos para os batalhões ou para as mulheres dos soldados. E, é claro, formando seus próprios batalhões também. O mais famoso foi o Batalhão Jacques Félix, idealizado por Joviano Barbosa e Juvenal Machado, dentre outros. Este corpo militar veio a se unir ao Vigésimo Quarto Batalhão de Caçadores comandado pelo coronel Veiga Abreu que participou de uma vitória em Cunha contra as forças legalistas.

No segundo ponto de vista, temos a imprensa divulgando as notícias que recebe de São Paulo. O rádio já era um instrumento utilizado na capital paulista há muito tempo como forma de propagar o ideal constitucionalista, mas em Taubaté a radiofusão ainda era insipiente. O maior veículo de comunicação ainda era o jornal. No entanto, as redações sofreram alguns problemas, como a escassez de papel para as impressões. Ainda assim, continuaram funcionando.
A Revolta Constitucionalista é um assunto importantíssimo para o Vale do Paraíba, pois foi nele que as maiores batalhas foram travadas. Se em São Paulo se encontrava o epicentro do conflito, foi no Vale do Paraíba e em algumas partes do Oeste Paulista que ele se desenvolveu. No entanto, pouco se sabe ainda sobre como isso se deu aqui. O que se sabe são dados superficiais sobre as batalhas. Onde está a memória dos voluntários? Não só os voluntários famosos, mas os comuns. Onde se está a dinâmica interna dos municípios? Quer dizer que a disputa política foi suspensa no meio tempo em que a guerra ocorreu? No caso de Taubaté, costistas e perrepistas se reconciliaram de fato mesmo? E em relação a todos aqueles que não apoiaram a causa: Foram presos? Quais eram seus argumentos?

Falta vasculhar mais a memória do Vale sobre a Revolta Constitucionalista de 1932. Não só pelo heroísmo, mas pelo compromisso com a verdade e a História. É preciso compreender antes de glorificar. Silêncio, esquecimento e conjecturas não bastam. Além disso, até agora só temos visto o conflito do ponto de vista político. Será que não houve consequências na cultura vale-paraibana? Enfim, o número de perguntas e possibilidades de perguntas portanto é enorme, ouso arriscar que quase infinito. Esse pode ser um tema polêmico, mas pelo menos parece ser um assunto que está longe de ser esgotado.

quarta-feira, 11 de janeiro de 2012

Almanaque Urupês 10 anos


Apesar de estar convencido de que o tempo é relativo, isso não me impede de achar que ultimamente ele anda meio acelerado. Há cinco anos entrei em contato com o Almanaque Urupês pela primeira vez e agora tomei conhecimento de que este maravilhoso site fará uma década de vida.
Na realidade, o site é apenas uma das interfaces do projeto que há dez anos vem combatendo o esquecimento e contribuindo para a preservação da memória de Taubaté não somente com artigos acadêmicos, mas com programas didáticos e documentários. O trabalho que o pessoal do Almanaque Urupês faz é grandioso e merece o reconhecimento de todos os profissionais da História, sejam eles do Vale ou não.
Parabéns, gente, pelo ótimo trabalho! Espero que essa seja uma das muitas décadas de existência desse projeto que festejaremos.
Abraços fraternais.

sexta-feira, 29 de julho de 2011

Crônicas do Quarto Poder

A imprensa sempre teve uma relação muito ambígua com o poder; ora apoiando-o, ora atacando-o. Uma coisa é indiscutível: a imprensa é um dos espaços privilegiados para se fazer política. Assim, a imprensa pode denunciar muito bem a essência política de certos períodos.
A cidade de Taubaté, por exemplo, teve sua circulação de jornais iniciada ainda no século XIX. No entanto, era uma produção muito artesanal que dependia de investidores isolados e que tinha uma duração muito pequena. Só a partir dos últimos anos do Império que a imprensa realmente se consolidou em Taubaté fazendo parte do viver urbano realmente.
Sobre imprensa e política, lembremos alguns episódios interessantes: o jornal O Paulista foi criado em 1862 e começou como um órgão independente, até que em 1868 tornou-se um defensor do Partido Liberal (a política imperial era coordenada pelos gabinetes, o Partido Conservador e o Partido Liberal se revezavam no controle desses gabinetes; quando o Partido Conservador estava de posse de um gabinete, o Partido Liberal se tornava oposição e vice-versa). Eram diretores do jornal então o Antônio Joaquim Daniel Prado, seu fundador, e Alfredo de Almeida, um membro mais radical do Partido Liberal.
José Francisco Monteiro, Visconde de Tremembé.
Lembrando que chefe do Partido Liberal em Taubaté na época era o então Barão de Tremembé, monarquista convicto. O Partido sobre sua direção se tornara situacionista e Alfredo não gostara disso. Começa a publicar notas atacando esse fato e, segundo Antonio Mello Júnior, os entregadores do jornal começam a ser perseguidos pela polícia. A situação fica crítica em 1870 quando após atritos sérios com o barão Alfredo se desvincula do partido e declara o jornal como orgão republicano. O diretor do jornal é atacado á noite em represália. Alfredo diminui os ataques ao barão, mas adota o slogans "Liberdade é a nossa divisa!" e "Liberdade política e liberdade religiosa". Em 1876 vende seu jornal para seu cunhado Flávio de Carmago e vai para Pindamonhagaba fundar um novo jornal radical, A Democracia.
Em 1888 foi fundado o Jornal do Povo e em 1890 o engenheiro Fernando de Mattos, conhecido líder republicano local, assume sua direção. Fundado no mesmo ano, O Noticiarista era praticamente um órgão informal dos monarquistas, apesar de se dizer imparcial. Ambos se atacavam mutuamente. Difícil saber quem era mais virulento. Fernando de Mattos passa a assinar editoriais em 1893, já na República, atacando os republicanos de última hora como o coronel João Affonso Vieira que era o intendente municipal. Por causa de seus ataques a polícia invade a redação certo dia e fecha o jornal. Algum tempo depois o jornal voltou e adotou o irônico slogan: "Fundado em 8 de julho de 1888. Assaltado em 22 de março de 1893. Empastelado em 8 de junho de 1893. Restaurado em 7 de setembro de 1894".
Félix Guisard
O Jornal do Povo continuou na ativa durante um bom tempo, diferente de seu rival O Noticiarista que foi  fechado em 1894. Meu colega Ângelo Rubim Alves acredita que ele fora substituído pela Associação Artística Literária como veículo da facção conservadora. Algum tempo depois surgiria um jornal que seguiria os princípios desse grupo político, O Norte, quando se tornarem a situação (com o revezamento dos irmãos Costa na prefeitura durante a década de 1910), assim como também surgiria um jornal de oposição, O Libertário, fundado por Félix Guisard para se tornar o porta-voz da oposição liberal.
Agora vamos á capital do Estado do Amazonas. Manaus, assim como Taubaté, se tornara um importante centro urbano graças á uma atividade econômica, a da borracha, e tentava se ordenar e viver como um centro urbano europeu. A pretensão em se tornar uma cidade cosmpolita fazia com que sua insipiente imprensa (nascida na segunda metade do século XIX, mas ainda não possui uma data precisa para seu surgimento) se dedicasse á assuntos extra-locais. Em sua maioria, os jornais obedeciam a lógica dos primeiros anos da imprensa no Brasil: eram artesanais, virulentos e efêmeros. O historiador Arthur Reis lembra que eles eram abertamente partidários - criados pelos dissidentes do Partido Liberal, os maniveiros e os históricos, e do Partido Conservador para se atacarem. O mesmo admite que só a partir de 1870 que eles tentam ser mais "imparciais" e se dedicam á temas mais variados e regionais.
O maior exemplo pode ser o jornal fundado pelo artista gráfico Manuel da Silva Ramos em 3 de maio de 1851: Cinco de Setembro. Ele passaria a se chamar Estrella do Amazonas em 1852 em homenagem á criação da Província do Amazonas. Estrella do Amazonas seria  um dos jornais de maior circulação, justamente por publicar máterias variadas sobre a cidade e seu comércio.
Eduardo Ribeiro
A expansão para outros temas nos jornais manauaras não significou que eles abandonaram a política, mesmo quando diziam ser imparciais. Ora, Eduardo Ribeiro quando fora governador do Amazonas, já na República, publica em Manaus o periódico que tinha fundado no Maranhão quando cadete para defender o positivismo: O Pensador. Com a diferença de que em Manaus, O Pensador defenderia o positivismo, a República e as ações do governo. Aliás, os principais inimigos políticos de Ribeiro, o clã Nery, possuia também o seu jornal: Folha do Amazonas. Nas eleições de 1910, a disputa entre Antonio Bittencourt, apoiado pelo dono do Diário do Amazonas, e Silvério Nery, dono da Folha do Amazonas, se fez na imprensa também. Nas eleições de 1913, a mesma coisa aconteceu entre os jornais O Tempo, apoiando Jonathas Pedrosa, e Amazonas e Gazeta da Tarde, simpáticos á Guerreiro Antony. Quando os tenentes tomaram o poder em 1924 entenderam que também era necessário possuirem seu jornal como propaganda de seu governo e também como forma de transparência (uma de suas bandeiras era a moralização da política).
Os empastelamentos e prisões também foram práticas constantes na história da imprensa no Amazonas. O Jornal do Amazonas, fundado em 1875 como veículo do Partido Conservador, foi empastelado em 1878 quando o Partido Liberal assumiu a presidência da Província. Vicente Reis, redator do tradicional Jornal do Commércio, teve ordem de prisão decretada assim que saía da redação do jornal em 1914 simplesmente por criticar o governador Jonathas Pedrosa. O redator e ex-delegado conseguiu fugir dos policiais, se disfarçando de mulher. Décadas depois, o jornal oficial de Plínio Coelho, Trabalhista, foi atacado por policiais á paisana por criticar a atuação do governador Arthur Reis - isso durante os anos iniciais da ditadura militar, quando Plínio já havia sido cassado e se exilado do país. Outro episódio se tornou até cômico: A Notícia era um jornal independente que em 1965 ironizou o governador Arthur Reis, este foi prender o seu dono, Manoel Andrade Neto, com sua guarda particular. No entanto, Andrade Neto não estava em casa e depois de esperar um tempo, Arthur Reis, furioso, desistiu da idéia. Mas antes de ir embora, decidiu se vingar do desafeto chutando e quebrando vasos de plantas da varanda da casa dele. Graças á Abrahim Aleme, correspondente do Jornal do Brasil no Amazonas, a notícia foi divulgada para todo o país o que deve ter impedido maiores represálias do governado á Andrade Neto, que nos anos seguintes se aproximaria do MDB, a oposição oficial á ditadura. A sede d' A Notícia foi palco para o encontro entre Plínio Coelho e Gilberto Mestrinho, mediado por Andrade Neto, onde se selou uma união para as eleições livres estaduais de 1982, no final da ditadura militar.
Arthur Cézar Ferreira Reis
Como podemos ver, a imprensa diz muito sobre a política de uma época. Os ataques e as perseguições e empastelamentos revelam como era polêmica e violenta a política dessas duas cidades em meados do século XIX. Afinal, estamos falando de cidades que estavam se transformando, uma se urbanizava graças ao café e posteriormente á indústria têxtil, enquanto a outra foi sustentada pela borracha e por pequenas fábricas de serviços e beneficiamentos antes de cosntruir seu distrito industrial. Mesmo assim, ainda sobrevivem alguns elementos daquela política provinciana. A adaptação com a consolidação da imprensa no viver urbano demora um bocado para seus políticos, embora eles já tivessem a adotado como seu veículo de propaganda, como mostramos.
E hoje? O que diz da política nossa imprensa hoje?

quinta-feira, 7 de julho de 2011

Per Áspera pro Brasilia

O título da postagem de hoje significa em bom latim: "Todo sacrifício pelo Brasil" e está inscrito no brasão da cidade de Taubaté. Hoje falaremos sobre o significado desse brasão.

Em primeiro lugar, temos que saber quem o fez e quando. Até onde sabemos, o brasão foi encomendado pelo industrial e historiador Félix Guisard Filho quando este era prefeito da cidade em 1926 ao pintor e desenhista (especialista em heráldica, arte de construir escudos e brasões) José Washt Rodrigues. Antes, Gastão Câmara Leal, quando fora prefeito na década de 1910, também tentara fazer um brasão para a cidade, mas não foi oficializado.

Afonso D'Escragnolle Taunay
Esse brasão, contudo, contou com a participação do amigo de Guisard Filho, o famoso historiador paulista Afonso Taunay, na época diretor do Museu Paulista (hoje, Museu do Ipiranga). Alguns símbolos foram aproveitados do brasão de Câmara Leal, como os ramos de café e as chagas de Cristo (no pequeno escudo na torre do meio, acima do escudo maior). Outros foram colocados justamente por Taunay, como a cordilheira simbolizando a Serra da Mantiqueira e as três coroas simbolizando as cidades fundadas por bandeirantes taubateanos em Minas, além da Mantiqueira.
Em 1931, Taunay pediu para inserir novos símbolos como a roda dentada com asas, símbolo da indústria e do progresso da cidade, unindo os ramos de café e arroz, setor da agricultura responsável por sustentar a cidade depois da crise do café, logo abaixo do escudo maior. O brasão foi finalmente oficializado em 1950 pelo prefeito José Luiz de Almeida Soares.
Vamos aos símbolos: o escudeto que falamos anteriormente, com as chagas de Cristo, simboliza o padroeiro da cidade - São Francisco das Chagas. O mural á que ele está pregado é um símbolo padrão, se refere á cidade de uma forma geral. O escudo maior e central possui a Serra da Mantiqueira, como dissemos, coroada pelos esforços dos bandeirantes, e abaixo dela o Rio Paraíba do Sul. Logo depois uma pequena aldeia que simboliza o núcleo indígena de onde a cidade tirou seu nome: Taba 'eté. O escudo central é ladeado por dois personagens considerados fundamentais na história da cidade: o bandeirante e o dragão da Independência. Atrás de cada um temos o ramo de um produto que sustentou a cidade: o café e o arroz, respectivamente. Abaixo do escudo temos a roda dentada os unindo, simbolizando o progresso vindo da indústria e do comércio. Um pouco acima, a faixa lembra do patriotismo local com o dizer "Per Áspera pro Brasilia".
Estátua de Jacques Félix na entrada da cidade: o bandeirante como herói cívico.
Agora vamos interpretar com mais afinco esses símbolos. A maioria deles se remete ao período colonial, isso porque nesse período segundo muitos historiadores da época (principalmente Guisard Filho) a futura cidade tinha dado sua maior contribuição ao Brasil através das bandeiras que partiram de lá. Nas duas primeiras décadas do século XX, as pesquisas históricas sobre o passado colonial em São Paulo se uniram ao espírito nativista que o estado vinha construindo desde os anos finais do Império. Esse regionalismo gostava de explicar o sucesso de São Paulo através da bravura de seus ancestrais, os bandeirantes. Os bandeirantes eram vistos como heróis por terem ajudado a integrar o Brasil com suas expedições e desenvolvido o futuro estado com o dinheiro de suas entradas, mas principalmente por demonstrarem sentimentos de patriotismo, de independência, de bravura, etc. Sentimentos esses que eram tidos como característica principal dos paulistas no decorrer da história, a paulistanidade.

Monumento ás Bandeiras de Victor Brecheret: um dos símbolos da "paulistanidade".
Esse regionalismo está vinculado á um projeto político: São Paulo tencionava chegar ao poder federal durante a República Velha. Apesar de conseguir fazer com que o governo atendesse aos seus interesses, São Paulo queria ser realmente representada no governo e não apenas ser atendida. Esse projeto político foi defendido inicialmente com a Proclamação da República, mas foi perdido com a Política dos governadores de Campos Sales que transformou a política em clientelismo, troca de favores. Na década de 1926 surge um partido de oposição ao velho PRP, o Partido Democrático, que retoma a proposta. Para não ficar de fora, o PRP também se arroga o título de representante da paulistanidade. Esse regionalismo culminará, dentre outros fatores, na Revolta Constitucionalista de 1932.

D. Pedro II em vestes reais.
Mas voltando aos símbolos, outro personagem se ressalta: o dragão da independência. Enquanto o bandeirante era um elemento ao qual todo paulista recorria na época, o dragão da independência é algo muito mais específico á Taubaté. Taubaté, durante as revoltas regenciais em 1840, se colocou como fiel ao governo imperial, conquistando com isso sua simpatia. A elite taubateana desde então possuía a ilusão de ser a base do governo imperial. Essa ilusão aumentou com o desenvolvimento dos cafezais, a principal força economica do Brasil no século XIX. Os títulos concedidos pelo imperador á fazendeiros parecia garantir isso. Mas a Abolição demonstrou o contrário. O que salvou a cidade depois do fim do Império foi a rizicultura, praticada principalmente pelo frades trapistas na Fazenda Maristela em Tremembé, e o comércio. A indústria veio a crescer, tomar porte, somente na década de 1920, quando o brasão foi feito. (Apesar de ter sido fundada em 1891, a CTI só ganhou força na década de 1920 com recursos vindos de firmas inglesas e do governo federal).
Curioso que no momento em que o Brasil tentava parecer moderno, tenha sido feito um brasão com um fundo monarquista, que até então era símbolo de atraso. A monarquia, contudo, para os taubateanos, simbolizava uma época dourada, um tempo em quen Taubaté se tornou um dos sustentáculos do Brasil, época que somente foi retomada anos depois pela indústria (a roda dentada com asas). Talvez por isso o brasão só tenha sido aprovado na década de 1950 quando o monarquismo parecia algo muito distante, um saudosismo. Interessante que Guisard Filho foi um dos principais arquitetos dessa visão da história taubateana como uma série de apogeus e decadências. Foi ele inclusive que associou a nova época dourada á indústria.
Coroando toda essa salada de símbolos regionalistas, encontramos a faixa que demonstra o patriotismo da cidade. Todos os esforços e resultados atingidos pelos taubateanos no decorrer da história seriam então pelo Brasil, seu sacrifício seria pelo Brasil. É uma forma de patriotismo associada ao nativismo. Algo que não era nada anormal na República Velha, onde os estados tinha autonomia graças ao federalismo e o Estado atuava como uma espécie de mediador de interesses. A ação dos bandeirantes foi para integrar o Brasil, a ação dos barões do café foi para sustentar o Brasil e a ação dos industriais é para renovar o Brasil.
Pronto, aí está: graças á um brasão conseguimos dissecar o discurso oficial taubateano.

sexta-feira, 24 de junho de 2011

Furacão na Botocúndia II

Roberto Peixoto nas eleições de 2009.
Nesta terça-feira, dia 21, o prefeito de Taubaté e a primeira dama (respectivamente, Roberto Peixoto e Luciana Peixoto) foram presos pela Polícia Federal. Também foi preso um ex-gerenciador de vendas. O trio é acusado de participar de um esquema de desvio de verbas no município - lembra daquela história do lobby das empresas de fornecimento de merenda que foi parar até na mídia nacional? Pois é, a Polícia Federal vinha organizado uma investigação sobre o caso desde 2009 e chamou a operação de Urupês.
Fica a pergunta:  se a investigação corre desde 2009, porque só agora Peixoto foi indiciado? Será que a reportagem que saiu no Fantástico e nos jornais do Brasil inteiro tem a ver com isso? Claro que tem. Ninguém pode negar o peso da mídia quando se trata de pressionar por resultados. Não tenho como medir o descontetamento da insatisfação do povo de Taubaté, mas sei que ela deve ser grande. Una-se isso á imagem negativa produzida pelas reportagens.
No entanto, na noite dessa sexta-feira, o casal foi liberado pela polícia graças á um habeas corpus. Não voltaram para casa, pois temiam a reação popular. De qualquer maneira, o simples atos do prefeito ser preso demonstra o quanto o município está desgastado. A prefeitura parece ter se tornado um feudo onde Peixoto e seus amigos governam há quase uma década. Desde a República Velha, o município faz parte da cadeia de clientelismos dos governos federal e estadual. As disputas políticas não saiam da esfera do município, contudo os votos seriam sempre dados ao governo federal e estadual. Assim, muitos homens foram entronizados em Taubaté. Chegamos a outro ponto interessante: o personalismo. Parece que com o tempo surgem uma nova liderança política sobre a qual se aglutina vários seguidores, mas que na realidade não traz algo de distinto de seu adversário a não ser em algumas propostas administrativas. É o caso dos Marcondes de Mattos, os Costas, os Guisard, os Ortiz e os Peixotos.
Os políticos eram clientelistas não só com o governo, mas com a população. A troca de favores, o apadrinhamento, eram ferramentas muito eficientes para angariar um curral eleitoral. No entanto, era inegável que o cárater autoritário das políticas municipais: a maioria pretendia extirpar a cultura caipira e rural e transformar Taubaté em um centro cosmopolita aos moldes de Paris. O povo,contudo, não conseguia se unir fortemente para combater a situação. As reações eram poucas. Estouravam como pequenas e rápidas explosões.
Hoje não temos mais uma política autoritária (pelo menos na teoria), mas o clientelismo, o apadrinhamento continua. Se antes, a política era inatingível, hoje ela é acessível. Nós que não vamos até ela. Não sei se por que a apatia e a indiferença virou tradição ou porque realmente não temos tempo com tantos afazeres e responsabilidades. O fato é que a cassação dos responsáveis por esse esquema (e de todos os tipos de esquemas de corrupção em qualquer lugar do Brasil) deverá ser feita por dispositivos institucionais, mas ela só será feita com a nossa ajuda. Com a pressão popular.
Eu me alegrei ao saber que o esquema foi denunciado e os responsáveis indiciados, mas ao mesmo tempo me preocupei. Me preocupei com o destino desse episódio: ele acabará em pizza ou não? Será apenas mais uma pequena explosão, como nos tempos da República Velha? Isso só o tempo e o povo dirá.

sexta-feira, 13 de maio de 2011

Furacão na Botocúndia

Roberto Peixoto: engenheiro civil e prefeito de Taubaté.
Há poucos dias atrás soube que a prefeitura de Taubaté estava envolvida num esquema de desvio de verbas da merenda escolar, através de uma reportagem do Fantástico. Quem denunciou o esquema foi um assessor do prefeito Roberto Peixoto que dizia ser "mula" dele e da primeira-dama taubateana, indo semanalmente na sede da empresa que fornecia a merenda escolar na capital paulista recolher a parte deles. A maior prova desse desvio seria o crescimento de quase 50% no preço do contrato com a empresa para em dois anos (de 28 milhões de reais para 41). Além disso Peixoto é acusado de ter utilizado esse dinheiro para comprar um apartamento em Ubatuba, uma chácara em São Bento de Sapucaí e uma boate para o genro, Anderson Ferreira.
Na quarta de ontem (11/05), a população local apoiou em peso a abertura de uma comissão de inquérito que pode cassar Peixoto, essa contudo sobre um outro caso de irregularidade (um contrato aberto com uma empresa de medicamentos em 2008). No mesmo dia, Peixoto decidiu falar á imprensa depois de tentar evitá-la por quase uma semana (a circulação do jornal Bom Dia Taubaté foi interrompida pela Secretaria de Serviços Públicos na terça-feira devido aos ataques á prefeitura, segundo algumas fontes). Na entrevista, ele disse que o aumento do valor do contrato foi devido ao aumento de escolas contempladas agora pelo município e que todos os seus bens estão declarados na sua conta bancária e não foram comprados com dinheiro público.
Se é verdade ou não saberemos após o resultado das investigações do Ministério Público e da Comissão de Inquérito da Câmara de Taubaté.

segunda-feira, 18 de abril de 2011

Reinações de Lobato

Hoje comemora-se os 129 anos de Monteiro Lobato. Já falamos muitas vezes aqui nesse blog sobre esse escritor tão polêmico.
O que mais tem se falado ultimamente é sobre suas idéias raciais (sua simpatia com os métodos eugênicos norte-americanos, por exemplo) e seus preconceitos. Monteiro Lobato era racista? Sim, mas ainda assim prefiro a expressão "fruto de seu tempo". Afinal, ele nasceu num contexto patriarcal, escravocrata e provinciano. Mas era um rebelde. Seu espírito combativo e iconoclasta não cabia na pequena cidade em que nasceu. Ele aspirava ao cosmopolitismo que a capital paulista poderia lhe oferecer e lhe ofereceu realmente. Lá suas idéias e opiniões floresceriam.

Penso que Taubaté foi uma espécie de eterna interlocutora em sua obra. Lá ele via o caipira, o bacharelismo, o latifúndio, o provincianismo, tudo aquilo que ele acreditava que deveria ser combatido para se criar um país desenvolvido, tal qual o EUA. Curioso que mesmo assim ele não conseguiu se livrar das amarras de sua origem: por mais que tenha criticado tudo o que lhe impedia de crescer (e de fazer o Brasil crescer, de certa forma), Lobato ainda carregava um pouco desse "mundo arcaico" dentro de si - o maior exemplo, com certeza, está nesse seu ranço racista.

Lobato é um homem, como todos nós, com seus méritos e suas limitações. Ser um dos pioneiros na editoração de livros e da campanha da nacionalização do petróleo e um dos maiores nomes da literatura infantil nacional não deve apagar esse lado, nem vice-versa. Estes lados devem se complementar, só assim conseguiremos enxergar Lobato em sua totalidade e entender seu real peso para a história do Brasil, seja para o bem ou para o mal.

quarta-feira, 23 de março de 2011

O crime do Visconde II

Taubaté em 1900. Fonte: CDPH-UNITAU.
Hoje concluiremos a saga judicial que movimentou a cidade de Taubaté nos idos de 1903. No entanto, saímos do terreno da crônica polícial para a crônica política. Precisamos explicar que o crime do Visconde clareou muito bem o jogo político local. Após os primeiros dias do processo, a trama mergulho na maquinaria política. Farpas eram trocadas nos jornais e nas ruas. Mas quem eram os combatentes?

Como vimos, do lado do Visconde se avolumou a facção conservadora local, sejam monarquistas, católicos, fazendeiros tradicionais ou tudo isso junto. Essa facção dominava a Câmara quando foi proclamada a República e transformada em Intendência. Os primeiros anos da República foram instáveis, anárquicos, porque se procurava um modelo de república. Essa instabilidade permitiu a criação de modelos locais como o personalismo do coronel João Affonso Vieira, primeiro intendente, e a política mais liberal do coronel José Benedito Marcondes de Mattos.
O Diretório do Partido Republicano Paulista foi fundado pelo senador Joaquim Lopes Chaves e entregue ao seu enteado, o coronel Marcondes Mattos, que permitiu que grupos sociais então novos participassem da política como os industriais, na figura do então jovem Félix Guisard. Essa facção mais liberal comandou o poder municipal até 1907, quando a facção conservadora assume o poder liderada pelos irmãos Pedro e César de Oliveira Costa.
Aí estão os combatentes: a oposição (conservadora) e o Diretório do PRP local (liberal). Pode parecer muito simplista, mas era isso.

Quanto ao processo iniciado por Kreye, como dissemos, veio em seu socorro Eugênio Guisard com a ajuda de seus amigos do Centro dos Operários Livres num primeiro momento e, posteriormente, de seu irmão Félix. O Visconde já visitara Kreye e encontrando a sua esposa tentou fazê-la convencer o marido a desistir do processo. Diante da recusa, conseguiu que o demitissem de seu emprego na Estação. Primeiro, seus advogados tentam  reduzir a acusação para agressão leve, uma vez que Kreye não foi ferido mortalmente. Depois, para prolongar ao máximo possível, o acusado não comparecia nas convocações feitas pelo júri e quando o fazia era por escrito.
Nos bastidores, nosso vigário geral e ex-vereador recorreu ao chefe de polícia de São Paulo. Sabendo que Kreye fora acusado de algum crime antes de chegar na cidade, Nascimento Castro pediu que ele vasculhasse os arquivos da polícia - a ligação entre o chefe de polícia na capital e o vigário local era o senador, padre e irmão de Nascimento Castro, José Valois de Castro. O chefe de polícia encontrou: caso de ofensa verbal e tentativa de homicídio. Kreye foi preso na Estação Ferroviária e mandado para São Paulo. Félix Guisard, finalmente, declara apoio ao operário e consegue fazer com que seja solto da prisão na capital paulista.

Estação Ferroviária Central do Brasil em Taubaté. Fonte: CDPH-UNITAU.
As acusações prosseguem na imprensa: Augusto César Monteiro declara que irá fechar o Centro dos Operários Livres, principal fiador da defesa do operário ancião, e Eugênio Guisarde responde desmascarando a conspiração feita para prender Kreye na capital e declarar o centro como anarquista para poder fechá-lo por meio de um telegrama de Nascimento Castro á seu irmão. Euzébio da Câmara Leal, na última sessão do júri, declara que Félix Guisard é um homem desumano que explora ao máximo os seus operários e que ajuda o sindicato anarquista de seu irmão.

Félix Guisard.
No final das contas, ninguém venceu. Desgastado pelo processo, Kreye concorda com a proposta de seu advogado de fazer um acordo, declarando o Visconde inocente e acabando com toda essa confusão, que já vinha custando muito caro ao bolso do velho alemão desempregado. Benjamin Motta, em seu discurso final, culpa a sociedade desigual e autoritária por toda essa farsa.

O significado desse caso, politicamente falando, é grande: ele demonstra o poder que desfrutava os setores conservadores, mas também mostra que a política mudou, não está mais tão pautada assim no autoritarismo e personalismo (afinal de contas, se fosse no tempo do Império, quando os setores conservadores estavam em alta, o caso seria facilmente abafado, sem nunca chegar aos tribunais).

segunda-feira, 14 de março de 2011

O crime do Visconde

José Francisco Monteiro, o Visconde de Tremembé.
Hoje estamos em clima de crônica policial: falaremos sobre o polêmico crime cometido por José Francisco Monteiro, o Visconde de Tremebé, contra o operário alemão e funcionário da Estação Augusto Kreye. Um caso um tanto absurdo que dividiu a cidade nas primeiras décadas do século passado (aconteceu em janeiro de 1903) e que hoje foi totalmente esquecido (ou quase).

E tudo por causa de uma cabrita. Isso mesmo. Augusto Kreye criava cabras e certo dias elas fugiram de seu sítio e entraram na propriedade do Visconde de Tremembé. O operário alemão procurando sua cabrita a achou mutilada e pediu ao Visconde que o explicasse o que havia acontecido. O Visconde, um homem de 72 anos, mas ainda corpulento, começou a insultá-lo considerando tal fato uma afronta. Kreye decidiu expor o acontecido na imprensa, no jornal Taubateano.

Curioso, tanto barulho por uma cabra, mas temos que se lembrar de que o visconde era uma figura muito... polêmica. Filho da tradicional família dos Monteiros, José Francisco tinha uma história de sucesso como fazendeiro e empreendedor (basta lembrarmos que a primeira companhia a fornecer iluminação pública era dele) e um temperamento forte. Monteiro Lobato, seu neto, embora nunca tenha admitido abertamente, o via como uma figura tirânica, tanto que somente após a sua morte pode se dedicar ás letras em São Paulo ao invés de ser promotor ou fazendeiro para administrar a "herança virtuosa" da família.
José Francisco, assim como seus irmãos, gozava de muito prestígio: além de mestre da Loja Maçônica local, era membro da tradicionalíssima Ordem Terceira de S.Francisco (catolicíssima aliás) e obtivera seu título de nobreza do imperador por mandar a metade de seus escravos para lutar na Guerra do Paraguai como "voluntários". Sem contar que fora o chefe do Partido Liberal na cidade por quase todo o Império.

Quem era Augusto Kreye para peitar um pilar da comunidade? Nem brasileiro era! Kreye era alemão, vindo de Hanôver, e já tinha experiência como operário no Velho Mundo. Chegou ao Brasil pelo Porto de Santos, como muitos outros imigrantes estrangeiros, e viveu por um tempo na capital paulista procurando emprego. Não sei dizer quando chegou á Taubaté, mas logo ficou amigo de Eugênio Guisard, Astério Braga, Roberto Bretherick (que era dinarmaquês). Esses nomes já eram conhecidos de todos como aqueles homens que eram mais ligados aos operários, seja por sua origem ou por sua ideologia - Eugênio, por exemplo, era irmão do aclamado industrial Félix Guisard, no entanto tinha simpatia pelo socialismo e considerava-se, segundo seu filho Oswaldo B. Guisard, do "ramo pobre da família".
Sabemos que Kreye, com 66 anos de idade, arrumou um emprego como funcionário da Estação da Central do Brasil na cidade e junto com seus amigos fundou uma nova Loja Maçônica Triunfo, Honra e Verdade, já que a local estava, segundo eles, nas mãos dos poderosos e "falsos maçons". Além disso, Kreye também participou do Centro dos Operários Livres de Eugênio, fundado justamente para ir de encontro ao Centro dos Operários Católicos de nosso conhecido monsenhor Nascimento Castro.

A disputa ocorria primeiramente na imprensa, por meio de notas e provocações entre ambos. A imprensa noticiava aquilo como o sinal dos novos tempos ou como o fim da picada. Imagino o burburinho que deve ter corrido na cidade. Todos deviam falar nisso. Seria o embate entre o tradicional e poderoso fazendeiro e o pobre e engajado operário ou entre o mais puro sangue da nossa terra contra um zé ninguém de fora. As pessoas deviam tomar partido ou simplesmente preferir não comentar.

A polêmica saiu da imprensa a partir de 26 de janeiro de 1903, quando Kreye e o Visconde se encontraram no centro da cidade. O Visconde pediu que ele se desculpasse e o alemão disse que não o faria. Furioso, o fazendeiro pegou sua garrucha e deu um tiro no seu desafeto. Felizmente, a bala acertou o chapéu do homem e ninguém se feriu. No dia seguinte, Kreye abria um novo processo contra o visconde por tentativa de assassinato.

Do lado do visconde, um batalhão de advogados se prontificou a ajudá-lo, dentre eles seu sobrinho Augusto César Monteiro e nomes como Euzébio Câmara Leal e seu irmão Gastão. Os irmãos Câmara Leal eram conhecidos por seu forte apego ao monarquismo, Euzébio, por exemplo, disse que a frustração de sua vida fora a Proclamação da República. Assim como eles, ao redor do Visconde passou a orbitar todos os membros da facção conservadora da cidade: seja ela de monarquistas, líderes católicos, republicanos desiludidos, etc.
E do lado de Kreye? A pergunta ficava: quem iria defendê-lo, ou melhor, quem teria coragem? Eugênio Guisard, com o apoio contido do irmão industrial, chamou o advogado paulistano Benjamin Mota. Para quem estuda o movimento operário, Mota é uma figurinha carimbada: maçon, anticlerical e anarquista, fundou inúmeros jornais com essas mesmas características na capital. Mota ficou a par dos acontecimentos e decidiu ajudar Kreye.

Exemplar do jornal A Verdade, 21/09/1907. Fonte: CDPH
O embate acontecia diariamente, mas não no tribunal e sim na imprensa. Os jornais ligados á oposição (no momento, os conservadores), como O Norte e A Verdade, criticavam o Diretório Republicano (controlado pelo setor mais liberal, onde constam o coronel José Benedicto de Mattos e Félix Guisard) e exaltavam a figura e os trabalhos do Visconde de Tremembé. Enquanto isso, os jornais da situação, como O Taubateano, atacavam os "decrépitos e truculentos nobres locais" e clamavam por justiça.
Um caso bizarro tornara-se centro das disputas políticas da cidade. A questão aqui era se o poder e prestígio da monarquia e do café podia vencer o que parecia ser esses representantes de um novo mundo que surgia, se a modernidade ganharia da tradição. Essencialmente, esses eram os termos da questão. No entanto, segundo Soto, as diferenças entre essas facções eram apenas superficiais (questões financeiras e administrativas) e não ideológicas. O que esse crime e sua repercussão revela, para a historiadora, é essa trama de tensões e violências que vivem no subterrâneo da socidade taubateana da época, que se gabava de ser "pacífica e dócil".

Bem, o final do caso do crime do visconde eu conto para vocês, mas em outra hora. Não se zanguem comigo, apenas estou colocando aquele clima de suspense no ar. Não foi eu que inventei isso, é o principal ingrediente das crônicas policiais depois do sensacionalismo, é claro.

terça-feira, 8 de março de 2011

Tempo de pandemia

Já virou costume assistirmos a cada final e início de ano algum surto de epidemia, seja ela dengue ou gripe viária. Se hoje é assim, imagine como era no começo do século passado?

Vamos dar um pulo na cidade de Taubaté nas décadas finais do século XIX. A cidade era cortada por córregos, como o Córrego do Judeu, onde além de tomarem banhos e despejarem lixo, os moradores do entorno também jogavam seu esgoto ali. Muitas epidemias tambem eram trazidas por visitantes, uma vez que a cidade era ponto obrigatório de muitos viajantes que também levavam consigo em muitas ocasiões certas doenças da capital federal ou de São Paulo. Há que se ressaltar também a condição precária dos esgotos, principalmente no centro, e o grande fluxo de indigentes vindos de outras cidades.
Sendo assim, esse cenário era muito promissor para epidemias que se tornavam no século XIX eventuais. Difícil dizer qual foi o primeiro surto e quando. Habitual eram as epidemias de febre amarela, uma vez que os córregos, como dissemos antes, eram presentes e mal cuidados. Habituais também eram as epidemias de lepra. A municipalidade, com ajuda de doações de fazendeiros locais e do governo federal, construiu uma lazareto perto do Convento Santa Clara onde, quando havia pacientes presos lá, era isolado a ponto da estrada para o lazareto ser interditada.

Se o perímetro urbano era constamente assolado por doenças dessa natureza, a população que vivia na zona rural então vivia completamente desassistida. Amarelão, mal de Chagas, lepra, leshimaníose, eram apenas algumas das doenças mais comuns no campo. No entanto, o homem do campo podia recorrer aos medicamentos naturais e aos curandeiros. Quando muito grave, aos doutores da cidade.
A preocupação com a saúde criou uma figura muito particular: os doutores municipais ou inspetores de higiene. Sua função era dar á Câmara as medidas que deveriam tomar na cidade para acabar com os surtos de febre amarela, cólera morbo, varíola e tuberculose. Primeiro, sua figura era apenas consultiva, mas com o passar do tempo ganhou mais poder e autonomia, e com isso status.
Na batalha para sanear a cidade, os doutores compraram briga com a Igreja Católica quando pediram para remover o cemitério da psoição em que ficava, em frente á Igreja Matriz no centro da cidade, para uma área mais afastada e elevada. Muitos padres, que já vinham se desiludindo com os primeiros anos do governo republicano, encararam isso como mais uma afronta do poder temporal contra o poder espiritual. A Igreja relutou, mas depois de algum tempo ambas as partes chegaram a um acordo: uma boa parte dos corpos ficaria na área da Igreja Matriz, segundo escolha dos familiares ou das entidades religiosas, mas de agora em diante todos iriam ser enterrados no novo cemitério.
A mesma Igreja que se opôs ao novo cemitério, contudo apoiou em peso a nova rede de esgotos. O projeto da nova rede de esgotos teve inclusive o dedo de nosso conhecido Nascimento Castro, na época vereador, além do inspetor de higiene. As obras duraram alguns meses e contemplaram somente a área central da cidade. Não sei dizer quando os serviços chegaram aos demais bairros.
O inspetor de higiene tinha que contar com o apoio da classe dirigente e da opinião pública, mas seu alvo era conquistar o povo. Conquistar não, discipliná-lo. A maior parte das medidas contra as epidemias deveriam ser feitas principalmente pela população local, afinal era ela que vivia perto dos córregos, que tinha contato com viajantes contaminados nos armazéns e etc. O sanitarismo nos primeiros anos do século XX se vinculava de certa forma á uma elite aristocrática que queria purificar sua cidade e por isso mesmo as medidas eram aplicadas de forma autoritária ao resto da população. O exemplo mais emblemático foi a vacinação obrigatória aplicada pelos agentes de saúde no Rio de Janeiro á mando de Oswaldo Cruz que desencadearam uma série de protestos conhecidos como a Revolta da Vacina.

Charge de Storni sobre Oswaldo Cruz sanear as favelas do Rio de Janeiro.
Em Taubaté, as medidas eram aplicadas de maneira autoritária sim, mas não só elas. Famílias foram despejadas da área onde moravam, muitas casas eram duramente vistoriadas para não guardarem lixo no quintal, criarem animais ou tomar banho nos córregos. No entanto, com o desenvolvimento da imprensa os inpestores de higiene descobriram uma maneira de comunicar á população as medidas que deveriam ser tomadas e pedir sua colaboração.
O lixo passou a ser incenerado em uma área muito afastada da cidade, no entanto, não sei dizer se esse continuou sendo o modus operandi das autoridades para se livrar do lixo até os anos 40 quando se criou um aterro em Taubaté.
Na luta contra as epidemias, surgiram muitas figuras que ficaram na memória do povo taubateano. Por sua atitude heróica durante uma epidemia de cólera morbo de não cobrar por suas consultas á escravos e libertos, Antônio Souza Alves até foi condecorado por suas ações. Outro grande nome foi o do imigrante dinarmaquês Jorge Winter que visitava seus pacientes na roça em lombo de burro a qualquer hora do dia e cujos descendentes seguiram também o caminho da medicina.
Hoje, passados mais de cem anos, a cidade conseguiu superar os surtos de lepra, varíola, cólera morbo, febre amarela e a tifo. No entanto, a dengue ainda está aí e fazendo vítimas e não só em Taubaté, mas em todo Brasil. Aqui em Manaus nove vítimas já vieram a falecer. A solução passa por uma ação conjunta da população e dos governos, mesmo assim esse mosquitinho tem demonstrado que é mais persistente que pensávamos. Alguns cientistas na Bahia estão criando uma forma transgênica do mosquito que tem um ciclo de vida pequeno e morre antes de se tornar perigoso. Pode ser uma luz no fim do túnel, mas e se não for? Vamos ficar esperando uma nova solução da ciência e não agir? Fica a pergunta.

sexta-feira, 25 de fevereiro de 2011

Um passeio pelo Vale antigo com Sérgio Buarque

Foi relançado em fins de 2010, mas só tomei conhecimento agora o livro Vale do Paraíba - Velhas Fazendas, produzido pelo historiador Sérgio Buarque de Hollanda em 1975 para o prefácio de um álbum de desenhos feitos com  bico de pena pelo pesquisador vale-paraibano Tom Maia.

Fazenda Pau D'Alho, em São José do Barreiro, conhecida por ter hospedado o Imperador D. Pedro II, no traço de Tom Maia.
É o encontro de dois monstros da historiografia do Vale: embora Sérgio Buarque seja mais conhecido por sua produção ensaística (Raízes do Brasil, Visões do Paraíso), em suas últimas obras (Caminhos e Fronteiras, Monções) se preocupou com seu estado-natal, São Paulo, e não somente com São Paulo capital. Nestes livros estão informações e considerações que ainda são essenciais para qualquer pesquisador do Vale, principalmente no contexto de seu povoamento. Tom Maia, junto com sua esposa Thereza Camargo Maia, já vem produzindo desde o final dos anos 60, por sua vez, importantes estudos sobre o folclore local e sobre a cultura dos tropeiros, por exemplo.
Nesse livro, Sérgio Buarque explicará o contexto da construção das fazendas retratadas por Tom Maia, as fazendas do barões do café, mas também dos antigos senhores de engenho. Assim, antes de chegarmos ao período da economia cafeeira temos um rico painel da colonização do Vale e dos efeitos do bandeirismo e da mineração na região. Quanto á abordagem sobre o período em questão, Sérgio não deixa a deseja, fazendo de sua explanação quase um trabalho literário, tamanha a erudição e o conhecimento sobre o assunto.
Para todos interessados no Vale do Paraíba ou mesmo em Taubaté, aqui fica a dica.

terça-feira, 22 de fevereiro de 2011

Lobato, Lobatos


Outro dia falávamos de Monteiro Lobato. Acho Lobato um dos escritores nacionais mais interessantes. Não é só pelo fato de escrever bem, mas pela sua ousadia. Lobato era um rebelde, um rebelde em partes.

Nascido em um contexto patriarcal e escravocrata, como dissemos, ele teve uma infância dividida entre leituras e brincadeiras pela chacará de seu avô, João Francisco Monteiro, o poderoso Visconde de Tremembé. Quando a República é proclamada, Lobato está ingressando no Colégio Kennedy, de propriedade de pastores norte-americanos na cidade, contudo logo é transferido para o Colégio Paulista (o Colégio Kennedy, por seu ideal protestante e liberal, é perseguido, principalmente pelo nosso velho e conhecido vigário Nascimento Castro, e se muda para São Paulo, onde veio a se tornar o Mackenzie).

Graças á um pistolão feito por seu avô (ele mesmo admite), consegue uma vaga na tradicional Faculdade de Direito do Largo de Sâo Francisco, na capital paulista. São Paulo ainda não era uma grande cidade, mas o dinheiro advindo do café, das ferrovias e o universo estudantil fazia dela, sem dúvida, uma cidade muito maior e cosmopolita que a velha Taubaté. Na faculdade, ele se envolve com a imprensa, com idéias anticlericais, as leituras de Nietszche que fez na juventude tornam-se mais encorpadas.

No entanto, ele precisava de um trabalho depois de formado e seu avô novamente consegue abrir portas com seu prestígio: Lobato vai ser promotor em Areias. A curta passagem pela promotoria de Areias foi um dos momentos mais duros da vida do escritor taubateano que havia se acostumado com aquele ambiente cosmopolita da capital paulista. Experiência pior viveria quando, logo depois, seu avô lhe dera a posse da fazenda de seu falecido pai em Buquira, na Serra da Mantiqueira. Lobato estava ansioso por tentar utilizar nessa terra todas as modernas técnicas agrícolas que ouvira falar nos jornais, essa fazenda seria o seu laboratório. No entanto, ele esbarrou na má vontade dos seu trabalhadores, capatazes e camaradas. Diante de tal fracasso, Lobato escreve um artigo para o Estado de São Paulo chamado A Velha Praga no qual ele identifica no caipira o motivo do Brasil ainda ser um país pobre e miserável. O caipiria seria um parasita da terra, dela apenas quer se alimentar, não está disposto á mudanças, ele trava o progresso. O artigo tornaria Lobato famoso, temos que lembrar que nessa época, começo do século XX, ainda era dominante o ideal romântico sobre o índio e nosso país, e Lobato desconstrói todo esse mito com base em sua experiência.

Essa visão romântica é coisa de quem não conhece realmente a situação do campo, dizia. É uma invenção de uma elite que vive olhando para a Europa, que se prende á futilidades, que quer aparentar ser culta e civilizada com seus bacharéis. Nesse momento podemos perceber como Lobato é pontual e como não dispensa ataques á ninguém, muito embora ele esteja também contaminado de um pouco desse "modismo" de nossas elites, principalmente no preconceito para o trabalhador nacional e a valorização do homem caucaseano, como falamos no post anterior. Além disso, localmente ele ainda era afiliado ao partido conservador de seu avô, ajudando-o inclusive no caso do crime do Visconde como advogado.

Ora, sua polêmica foi utilizada pela mesma elite que criticava como argumento para o projeto de embranquecimento da população local. O ponto máximo de sua consagração é quando o então candidato á presidência, o jurista baiano Ruy Barbosa adota a imagem do Jeca Tatu em sua propaganda. Anos depois, com base em estudos realizados por médicos sanitaristas em meio ao sertão, Lobato voltaria atrás, ele identificaria qual a verdadeira praga: as péssimas condições de vida. O caipira era assolado por doenças como o amarelão que lhe impediam de ser um trabalhador nato. Esse seria o problema vital, nome, aliás, de um de seus livros. Envolve-se então na campanha do sanitarismo, mudando então o Jeca tatu de preguiçoso incurável á homem rico e forte se tratado.

Lobato criticava a elite nacional por se apegar demais á Europa e uma de suas tentativas de emancipar o Brasil, por assim dizer, desse laço seria a construção de uma editora nacional (antes todos os livros brasileiros tinham que ser editados e publicados em Portugal), esforço para o qual contou com a ajuda de muitos amigos escritores e jornalista do Estado de S.Paulo, onde desde seu pioneiro artigo passou a trabalhar. Se não morria de amores pela Europa, admirava pelo menos o Estados Unidos, por ter ultrapassado a condição de colônia e se tornado uma república democrática e progressista (embora ele também tenha duras críticas á democracia, que podem ser conferidas n'O Presidente Negro). Admirava especialmente Henry Ford, o criador do carro Ford Modelo T que revolucionou o mercado por produzir carros em escala industrial, mas não por esse fato e sim por sua iniciativa de fomentar o trabalho (afinal, Ford queria que seus próprios trabalhadores comprasse seu carro, que ele fosse acessível á todos).Tornou-se adido da embaixada brasileira nos EUA durante o governo Washington Luís e essa experiência foi uma das que mais lhe marcaram.

Em busca de emancipar o Brasil economicamente, enquanto o fazia culturalmente com sua editora Companhia Nacional, Lobato se envolveu na campanha pelo petróleo. Estávamos nos primeiros anos da Era Vargas e Lobato já era visto como um elemento ligado ainda á República Velha. Além de mal visto pelo novo governo havia também a proposta de desenvolver a indústria de base no país e o medo do comunismo, por isso quando Lobato começa a atacar o governo por não incentivar á pesquisa do solo e por se aliar gradativamente aos governos fascistas europeus começa a ser perseguido. A partir da instituição do Estado Novo em 1937 ele passa a ser perseguido com mais força, chegando até a ser preso por um certo período. Quando no fim da ditadura, em 1945, é solto e a campanha do Petróleo é Nosso ganha força, mas agora pela voz do general Horta Lima.

Profundamente desiludido com a Segunda Guerra Mundial e o governo que se delineava com o Marechal Dutra, para ele simples instrumento dos militares e empresas estrangeiras, Lobato passa a se aproximar do comunismo, defendendo agora como solução para o desenvolvimento do Brasil a reforma agrária. Agora nasce um novo personagem Zé Brasil, que tem como seu principal inimigo um poderoso coronel. Lobato ensaia até alguns votos de entusiasmo á Luiz Carlos Prestes, mas então entra em profunda depressão quando seu filho falece, retirando-se da vida pública. Vem a falecer em São Paulo em 1948.

Como podemos ver, Lobato é um feixe de contradições: em determinado ângulo apóia a democracia e em outro a despreza, conserva um interesse no progresso acima de tudo, mas escorrega em muitos preconceitos ainda da sociedade escravocrata. No entanto, sua pena era afiada e ninguém escapava dela, nem seus amigos e nem seus inimigos. Se visse algo que não concordasse logo dizia e se visse uma deficiência logo colocava a mão na massa para saná-la. Lobato é um tema que não se esgota, pois ele próprio era um homem multifacetado, haviam muitos Lobatos e até hoje ainda há muito o que falar sobre eles.

sábado, 19 de fevereiro de 2011

Geny Marcondes

Com muito atraso, confesso, noticio aqui a perda de uma mulher pioneira em muitos aspectos: Geny Marcondes. Nascida em 1916, em Taubaté, Geny era música, começou sua carreira tocando na orquestra Fego Camargo, quando esta musicava os filmes mudos. Logo depois compôs operetas sobre o Sítio do Pica-Pau Amarelo, arrancando elogios de seu criador, Monteiro Lobato.
Sua carreira dá um grande salto quando muda para a então capital federal e cultural do país: Rio de Janeiro. Começa a trabalhar na Rádio MEC, aquela fundada por Roquette Pinto, dirigindo muitos quadros. Tempos depois passa para a trabalhar também na televisão, como produtora. Aliás, ela foi uma das primeiras mulheres a ministrar um curso sobre multimídia no país, quando a palavra ainda era nova. Morava em Petrópolis até que em 1988, as chuvas provocaram um desastre na região, parecido com esse último, e então muda-se para sua cidade natal.
Foto: Álbum Taubateano, 1945.
Geny veio a falecer no dia 30 de janeiro, perto de completar 95 anos.  Á família e á Taubaté, meus sentimentos. O Almanaque Urupês fez uma homenagem muito especial.

terça-feira, 15 de fevereiro de 2011

Dona Eugenia no Sítio do Pica-Pau Amarelo


Ontem, na faculdade, comecei uma discussão com meus colegas sobre Monteiro Lobato. A discussão não poderia ter sido outra senão sobre suas considerações preconceituosas expostas em um de seus livros sobre o Sítio do Pica-Pau Amarelo.  Ora, Lobato em um outro livro, O Presidente Negro, extrapola mais ainda nos comentários sobre os negros, mulheres, judeus e americanos.

Só relembrando, a pouco tempo atrás um grupo de professores queria retirar um de seus livros infantis da lista de leitura das crianças por expor racismo. Agora, não sei em que pé anda a discussão, mas alguns até sugeriram que o livro continuasse, mas com pequenas notas que expliquem o contexto do escritor. Lobato nasceu em uma família tradicional de cafeicultores, intimamente ligada ao Império (ora, seu avô era o prestigiado Visconde de Tremembé) e á escravidão. Mesmo se rebelando contra parte dessa  sua herança cultural, criticando os barões de café, o Império e a escravidão, Lobato também não estava livre limitações.

Ora, é reconhecido que ele tinha uma enorme simpatia com as idéias eugenistas, aquelas que propunham melhorar a população brasileira por meio de casamentos e uniões entre indivíduos mais fortes e aptos de "raças" melhores, como a européia. Só assim salvaríamos o Brasil da inércia em que se encontrava graças á sua população cabocla apática e preguiçosa. Contudo, o próprio Lobato reavaliou estas idéias no decorrer de sua vida: depois de entrar em contato com as pesquisas dos sanitaristas pelos sertões, o escritor taubateano reconheceria que o problema não era o caboclo, mas a situação precária em que ele se encontrava. Nos últimos anos de vida, depois da Segunda Guerra Mundial, o escritor até absorveria alguns pontos do comunismo, passando a criticar o latifúndio, segundo ele, principal causa da fragilização do povo.

Não creio que por suas limitações Lobato tenha de ser expurgado das escolas. Não defendo com isso que esqueçamos delas, não; o caso serviria até para ensinar aos alunos um pouco sobre o tempo em que ele vivia e como o ser humano pode ser contraditório. Mesmo cheio de muitos méritos, seja na literatura, na política ou na cultura, Lobato ainda tinha seus defeitos, como todos nós.

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Mais informações sobre o Lobato eugenista podem ser consultadas aqui, nesse ótimo artigo de André Fernandes de Castro no Almanaque Urupês.

sábado, 11 de setembro de 2010

O monsenhor

Quando ainda estava em Taubaté na minha procura por um tema acabei por esbarrar no nome do monsenhor Antonio Nascimento Castro (1857-1942). Na maioria dos jornais falava-se nele. Á medida que me aprofundei na pesquisa regional descobri que ele era não só um importante homem de imprensa (polemista, principalmente), mas um hábil político.

Nascido em São Luís do Paraitinga, de pai desconhecido (o que levantou suspeitas de sua paternidade ter vindo de um padre local chamado Francisco Calasâncio), Nascimento Castro tinha, até onde sabemos dois irmãos: José Valois de Castro (1856-1939) e Calasâncio de Castro. Valois também veio a se tornar cônego e um dos mais importante nomes do Partido Republicano Paulista, sendo deputado federal e senador diversas vezes.

Nascimento Castro estudou no Seminário Episcopal de São Paulo, ou seja, teve uma formação romanizadora (a romanização ou ultramontanismo era parte de um movimento da Igreja Católica que pregava á volta á ortodoxia e á liturgia e visava expandir a influência da Igreja, diante da ameaça do liberalismo e do socialismo). Em 1881 veio para Taubaté onde se tornou vigário da paróquia de São Francisco das Chagas, hoje conhecida como Igreja Matriz.

Em pouco tempo se tornou uma das figuras mais importantes da comunidade, não só por o seu peso simbólico como o vigário da cidade, mas por suas ações na imprensa e na política.

Nascimento Castro tinha muita admiração pela literatura e pela apológética (formas de defender a ortodoxia religiosa), por isso se envolveu na imprensa. Primeiro passou a colaborar com o jornal conservador O Noticiarista, fundado em 1888, com artigos sobre a Virgem Maria, as liturgias católicas, além de atacar personalidades liberais e maçônicas da cidade. Em 1906 ajudou a fundar o jornal A Verdade, que se dizia um jornal eminentemente católico, e ali assinava artigos virulentos contra o poder municipal, então nas mãos dos liberais. Finalmente em 1910 também participa da fundação do jornal oficial da recém-criada Diocese de Taubaté (formada em 1908), O Lábaro, o qual foi o redator-chefe até a sua morte em 1942.


Na política destacava-se a sua ação em nome do grupo mais conservador, reunido em torno do Visconde de Tremembé, e que tinha como principais porta-vozes os irmãos Câmara Leal. Nascimento Castro foi nomeado vereador em 1892 e se tornou intendente municipal por ocasião de uma viagem forçada que o intendente eleito teve que fazer. Participou, na Câmara, das obras para revitalizar a rede de esgoto da cidade e a iluminação, mas o fato mais polêmico foi, sem dúvida, o seu pedido de 2 contos de réis para reformar a Igreja Matriz. Polêmico porque suscitou um debate entre os liberais e conservadores, aqueles dizendo que a Câmara não tem esse dever para com a igreja, uma vez que a República é um estado laico e estes alegando que a religião católica era parte da própria identidade nacional, sendo impossível separá-la dos nossos deveres cívicos. Nascimento Castro foi implacável, mas os 2 contos de réis não vieram e isso gerou um grande descontentamento na elite local, cindindo até os próprios liberais.


A ação de Nascimento Castro também foi significativa no caso do Visconde de Tremembé. O nobre tinha se envolvido em uma luta com o operário alemão Augusto Kreye, por causa das cabras dele terem invadido a propriedade do Visconde. A discussão terminou em tentativa de assassinato -o Visconde deu um tiro em Kreye, mas pegou em seu chapéu. Kreye abriu um processo contra o nobre, apoiado principalmente por Eugênio Guisard (irmão do industrial Félix Guisard que tinha idéias socialistas), mas o grupo conservador fez de tudo para "melar" as audiências. Inclusive Nascimento Castro, que pediu para verem a ficha do operário na capital, onde ele esteve antes, e ao descobrir que havia sido preso por agitação consegui prende-lo com a ajuda das autoridades paulistanas. O processo acabou em um acordo entre ambas as partes, tão desgastado estava o assunto.


Nascimento Castro, como podemos ver, é um personagem muito rico, pois analisar suas ações nos abre um leque de possibilidades de analisar Taubaté em meados da República. Vimos aqui apenas dois desses aspectos de sua vida, a imprensa e a política, mas existem muitos outros como a educação (participou da fundação e organização de muitas escolas como o Externato São José, o Instituto de Agricultura e Comércio, dentre outros) e a questão social (afinal ele tinha fundado um Centro dos Operários Católicos). De qualquer maneira, Nascimento Castro, desconhecido hoje na memória local, começa a ser compreendido á luz de seu tempo pelo trabalho de grandes pesquisadores como Isnard Albuquerque Câmara Neto, Mauro Castilho Gonçalves e Tiago Donizette Cunha. Espero um dia contribuir para essa compreensão.

quarta-feira, 11 de agosto de 2010

Por uma História Regional


Li recentemente dois textos que me ajudaram e muito a entender o fazer historiográfico tendo como objeto sua região. Primeiro, Qual o Lugar da História Local, do professor da PUC-RJ Luís Reznik, e A Propósito de um Estatuto para a História Local e Regional: Algumas Reflexões, do professor da UNESP/Franca Agnaldo de Sousa Barbosa.
Reznik primeiro nos expôe um quadro da historiografia brasileira, demonstrando como nesses últimos séculos temos privilegiados o âmbito nacional, por "n" motivos, a maioria políticos. Depois da exposição nos adverte que a história local e regional deve ser entendida não como um fim em si mesma ou um simples apêndice da história nacional (ambos os casos, aliás, foram vistos pelo autor na historiografia sobre a história de São Gonçalo), mas como parte de um processo de identificação do sujeito. Elege como o método mais adequado para a história local as tendências da História Nova, principalmente a Micro-História.
Agnaldo, decidido a um debate mais profundo, mais epistemológico por assim dizer, nos aconselha a refletir sobre 2 pontos antes de falarmos do lugar da história local e regional no fazer historiográfico, pontos esses que tem sido os grandes responsáveis, além do preconceito, pelos erros cometidos dentro da história regional atual. Seriam esses pontos uma melhor reflexão sobre o tempo e a espacialidade.
Os historiadores que trabalham com generalizações utilizam uma categoria de tempo mais ampla e linear, o tempo do mundo como chamava Braudel. No entanto, nossas regiões estão inseridas em categorias diferentes de tempo, uma vez que cada uma se encontra colocada de modo diferente no processo de modernização ou de formação do Estado nacional e do capitalismo. Há locais até onde um tempo domina o outro, lugares onde o passado e valores arcaicos se sobressaem sobre os modernos.
Quanto á espacialidade, a maioria dos estudiosos costuma adotar a traçada pela geopolítca oficial. Agnaldo defende, amparado em Milton Santos, que devemos utilizar uma noção de espacialidade pautada na experiência de histórica de uma comunidade com outra. Ás vezes até a economia transforma o espaço, basta lembrarmos de que a Franca dos tempos da colônia não é a mesma dos tempos de hoje, uma vez que as tropas, o café e a industrialização modificaram seu traçado urbano, criando e remodelando bairros.
Por fim, qual é o lugar da história regional e local no fazer historiográfico? Alguns defendem que fazendo a história local estamos fazendo história nacional, como se tomássemos o todo pelas partes, outros que a história local é um laboratório para as teorias e generalizações formuladas. O autor pensa diferente; segundo ele, a história nacional acha as semelhanças entre as comunidades, enquanto a local busca as singularidades, além disso, a história regional trabalha com uma dinâmica social mais concreta, mais viva, que pode aproximar as pessoas da história.
Essas preocupações com a história regional e local são muito úteis e oportunas a todos nós, afinal, nos ajudam, a mim principalmente, a orientar todo nosso trabalho, metodologicamente e politicamente.