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quarta-feira, 11 de julho de 2012

O polêmico cardeal se vai


Dom Eugênio Sales, um cardeal que se impôs e fez Historia. Esse é o título da reportagem de Marcelo Auler do site do Jornal do Brasil sobre uma das figuras mais marcantes da Igreja Católica brasileiras nos últimos anos. 
D. Eugênio era potiguar, apesar de muitos acharem, pela fisionomia, que era gaúcho. Tinha seus desentendimentos com D. Hélder Câmara e os irmãos Boff por causa da sua aproximação com a Teologia da Libertação (diretriz que surgia nos países latino-americanos inspirada no comunismo que pregava que a Igreja deveria fazer a sua opção pelos pobres antes de tudo), mas fez várias cartas e trabalhos pastorais nas favelas enquanto foi arcebispo do Rio de Janeiro. Aliás, na vinda de João Paulo II para o Brasil fez questão que o papa visitasse o Morro do Vidigal.
Talvez o seu lado mais polêmico seja a sua conexão com os setores militares durante a ditadura. D. Eugênio não escondia sua relação tanto com a linha dura quanto com os militares mais moderados, conhecidos como castelistas ou membros da Sorbonne. O cardeal era conservador e anticomunista, mas mesmo assim intercedeu pela vida de muitos presos políticos durante a ditadura, se valendo de seu prestígio como arcebispo do Rio de Janeiro e de seus contatos estratégicos. A pouco tempo, foi revelado que deu abrigo para muitos refugiados políticos, fugidos das ditaduras do Cone Sul.
Nos últimos anos, D. Eugênio não participou de mais nenhuma polêmica, por isso muitos acreditaram que já tinha falecido, sendo o autor deste post um deles. Mas a verdade é que ele estava desfrutando a sua vida de cardeal emérito com tranquilidade, longe dos holofotes, mas sempre atualizado com as diretrizes do Vaticano. Nessa segunda-feira, esse personagem tão ambíguo e polêmico nos deixou aos 91 anos. Hoje, quarta-feira, seu corpo foi sepultado na Catedral Metropolitana do Rio de Janeiro. Lá se vai mais uma lenda nacional.

domingo, 8 de julho de 2012

Um domingo celestial!


Manaus é a capital de mormaço, já dizia Márcio Souza. Depois desse domingo infernal não há como alegar o contrário. Um sol do caramba reinou na cidade até 17h e pouco. Mas chamar esse domingo de infernal, para mim, é uma injustiça, porque, afinal, era dia de Fla-Flu. Não era apenas um Fla-Flu, era a centésima vez em que os dois mais tradicionais clubes do Rio de Janeiro se encontravam para mais uma partida. Foi um domingo de rivalidade, tradição e muito talento. Fred, Thiago Neves, Wagner Love, Deco, Léo Moura, todos jogaram muito bem. Não foi um jogo preguiçoso, daqueles que se arrastam na retranca. Ambos times estava muito na ofensiva, mesmo o Flamengo após ter tomado o primeiro e único gol da partida. Enfim, foi uma partida de muitas emoções mesmo.
Valeu Fluzão!

domingo, 1 de julho de 2012

Tombaram a Cidade Maravilhosa!


A novidade chegou pela boca da ministra da Cultura Ana Holanda que estava em Haia, Suíça, em uma reunião com a cúpula da UNESCO: A cidade do Rio de Janeiro foi tombada como patrimônio mundial da Humanidade. É possível tombar uma cidade? Sim, existe um quesito para patrimônio histórico e cultural na UNESCO que engloba justamente as cidades: Paisagem Cultural Urbana. Na realidade a cidade inteira não é tombada, mas apenas alguns pontos considerados como centrais. No nosso caso, foram  Baía de Guanabara, Enseada de Botafogo, Pão de Açúcar, Corcovado, Floresta da Tijuca, Aterro e Parque do Flamengo, Jardim Botânico, Praia e Forte de Copacabana, Morro e Forte do Leme, Arpoador, Pedra da Gávea,Jardim Botânico e Passeio.
Claro que é preciso um diferencial para certa cidade ser classificada e outra não e no caso do Rio, segundo os relatórios encomendados, esse diferencial seria a relação que o carioca tem com o ambiente. O modo como ele se adapta á geografia dos morros, das florestas e das praias. Com o tombamento confirmado, agora resta o governo municipal, estadual e federal se comprometerem a preservar estes locais, relatando periodicamente como os cuidados tem sido ministrados á estes lugares.
Eu fiquei feliz, como todo carioca ficaria, e preocupado, como todo bom carioca ou como todo bom carioca pessimista ficaria, ao saber disso. Mas deixo para dizer o porquê em outra oportunidade.

sábado, 9 de junho de 2012

Ao mestre com carinho


O jornalista e cronista Ivan Lessa faleceu. Faleceu longe de casa, em Londres. Onde se auto-exilou desde... há muito tempo. Lessa foi e levou consigo um Rio de Janeiro folclórico, idílico. Sempre pensei nele como o irmão-gêmeo de Sérgio Porto e primo de Millôr Fernandes. No que se refere á escrita: sempre ácido, mas com um estilo informal, um jeito muito carioca de se escrever.
O Rio antigo se foi. Lessa se foi. E o que fica? Sua obra. O Rio antigo e Lessa estarão preservados em suas crônicas. E é isso que me conforta por hora.
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Recomendo essa homenagem de Ricardo Acampora ao mestre: O londrino carioca.

domingo, 19 de fevereiro de 2012

Uma raridade!


Garimpando coisas na internet, achei essa preciosidade: um trecho do programa Ensaios da TV Cultura com o ator e compositor Mário Lago (1911-2002). No vídeo em questão ele canta a sua marchinha imortal Aurora e conta como ela foi composta. Mas o que mais me chamou a atenção são os causos e apelidos dos colegas do Café Nice que Mário conta com a maior naturalidade.
Pra quem não sabe quem é Mário Lago: ele era filho de um maestro com uma ragazza, filha de um músico anarquista, por isso sempre teve o que o povo chama de "ouvido musical". Era formado em Direito, mas o que gostava mesmo era de compor músicas com seus colegas de boemia. De compor e de atuar. Começou na Rádio Nacional, depois migrou pra TV Tupi e para TV Globo. Fez inúmeras novelas: Selva de Pedra, Barriga de Aluguel, o Casarão, etc. O papel que desempenhou em Hilda Furacão, do qual eu mais em lembro, era a sua cara: um bon vivant humilde e sereno.
Lago era sempre escalado para fazer o sábio velhinho ou o ricaço de terceira idade, sempre personagens sérios. Mário era sério sim, ainda mais quando a questão era política. Comunista de carteirinha, inclusive casado coma filha de Henrique Cordeiro, um dos cabeças do Partidão. Chegou a visitar a URSS em 1957, mas se decepcionou com a política cultural soviética. Mesmo assim continuou militando. Por isso foi preso em várias oportunidades: na década de 30 com Vargas, nos anos 40 com Dutra e em 64, por motivos óbvios.
Lago fazendo o placar de algum jogo do Fluzão no tempo do Rivelino.
A coisa também ficava séria se alguém mexesse com seu time do coração, o Fluminense. Em se tratando de futebol era menos espirituoso que Nelson Rodrigues. Quando o tricolor caiu pela primeira vez no rebaixamento Mário quase teve um ataque do coração e desde então nunca perdoou os jogadores e a diretoria envolvida nessa tragédia das tragédias.
Mas engana-se quem acha que ele era um homem sisudo. O próprio vídeo comprova o contrário. O senso de humor de Mário era afiado. Em uma entrevista lá pelos anos 90 confessou que trocava telefonemas com Paulo Gracindo constantemente. Solidários pela idade avançada que compartilhavam, um ligava para outro para saber se ainda estavam vivo, mas sempre inventavam na hora uma desculpa esfarrapada. Isso sem falar dos apelidos que ajudou a carimbar nos colegas de boemia. Corcunda de Notre-Nice para Orestes Barbosa ou Suvaco para Orlando Silva são apenas alguns exemplos que o vídeo nos apresenta.
Para quem não conhece o Café Nice: Avenida Rio Branco, 174. Esse era um dos pontos de encontro da malandragem carioca de 1928 até 1956 quando foi fechado. O seu espaço era dividido em dois ambientes: um mais classudo para os lanches e outro mais apertadinho para um café e um pão com manteiga, em outras palavras, um lanche rápido. Era nesse último em que a maioria dos cantores de rádio e compositores frequentavam. Teve gente que o apelidou de "maior mercado de música popular do mundo" por essa razão. Ali se encontravam compositores que precisavam de dinheiro e cantores do rádio interessados em encomendar uma marchinha ou uma polca.
Café Nice abrindo as portas.
Antes de ir: duas informações. A primeira é que a música que Mário fala que foi o seu grande desgosto nos minutos finais do vídeo é Menina, eu sei de uma coisa. Aliás, sua composição de estréia em 1936. A segunda é que Mário foi biografado pela historiadora Mônica Pimenta Velloso em Mário Lago: Boemia e Política (livro que cobiço já há algum tempo) e é homenageado com um site próprio para comemorar seu centenário em 2011: Mário Lago 100 anos - Homem do Século XX. Nesse site você poderá ter acesso a sua autobiografia inacabada.
Para concluir, Mário Lago era  um artista multimídia: roteirista, compositor, ator, produtor, etc. E era também um híbrido, no dizer de Mônica Velloso: nele a cultura popular e a cultura erudita se encontravam sem perderem a linha.
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Obs: Sobre o papo da Amélia eu falarei com mais detalhes em outra oportunidade.

sexta-feira, 10 de fevereiro de 2012

Greve á paisana II


Agora vamos refletir um pouco sobre a situação. A imagem que temos da polícia no Brasil é a do policial truculento e corrupto, mas ninguém se interessa em perguntar o por quê disso. Ora temos sim policiais desse tipo, mas a maioria não é assim. Muitos entram na corporação pensando em realmente serem agentes da lei. O que acontece no meio do caminho? O salário baixo, as propostas tentadoras dos criminosos (estou pensando aqui especificamente no caso do Rio de Janeiro) e a burocracia corrompem o cara.
Em Tropa de Elite, José Padilha tenta nos mostrar isso muito bem. Em algum momento ele diz que isso já se tornou uma cultura da corrupção, da violência. Concordo. Mas o debate sobre a segurança pública no Rio foi deixado de lado justo no momento mais oportuno: a ocupação do Complexo do Alemão e da Favela da Rocinha. De repente, as Unidades de Polícia Pacificadora (UPPs) se tornaram uma panaceia, o remédio dos remédios para endireitar o Rio. E não é só isso. Outro momento oportuno para discutirmos, a greve dos bombeiros no ano passado. O governo tratou tudo como motim militar. A população chiou, manifestando sua gratidão para as pessoas que ajudariam o Rio a mudar de cara.
Agora, como aponta o Francisco Chao, temos outra oportunidade para discutirmos sobre isso. E dessa vez de forma séria e profunda. O deputado estadual Marcelo Freixo, que participou de uma CPI das Milícias e chegou a ser ameaçado de morte, concorda com o debate, embora tenha um pé atrás com a greve.
Eu também tenho um pé atrás com a greve. Afinal, a paralisação deixa a população toda á mercê dos bandidos. Acho interessante a proposta de um dos grupos da PM baiana de continuar trabalhando, mas protestando. Isso pode conquistar o apoio do povo baiano, que parece ter sido perdido diante de algumas mortes que aconteceram por causa da greve em Salvador.
O movimento ainda é muito desorganizado. Falta mediadores. Falta conquistar apoio de outras entidades também (na Bahia o Sindicato dos Bancários aderiram). A situação está ruim sem polícia nas ruas? Está, mas imagine se continuar do mesmo jeito que antes. Com policiais vendidos fazendo vista grossa ou aprontando nas habituais zonas vermelhas. Agora parece que podemos mudar esse painel sombrio, mas só com muito diálogo, muita negociação. E é exatamente isso que não está acontecendo.
O que não ajuda e nenhum pouco nessa situação difícil é o modo como o governo e a imprensa lidam com o acontecimento. Na Bahia, que falarei aqui menos por ter pouco conhecimento de causa da situação lá, o governo de Jacques Wagner levou tropas de choque contra os grevistas e prendeu algumas de suas lideranças. Muitos ficaram surpresos: mas o Wagner não é do PT? A linha de governo do PT mudou, está mais próxima do neoliberalismo que outra coisa. Mesmo derrotando o clã de ACM, Wagner só demonstra com essas atitudes que dele pode se esperar uma nova dinastia baiana. A negociação foi para o espaço.
A imprensa também têm caído em cima dos movimentos, ressaltando o prejuízo das greves e associando o tom dos líderes da greve com o de bandidos. Principalmente a Rede Globo, daí a hostilização dos grevistas contra seus jornalistas. Ora, em toda greve existem pessoas que se aproveitam do conteúdo político para sobrepor seus interesses, agora dizer que todos os líderes do movimento na Bahia e no Rio tem esse mesmo perfil é generalizar ao extremo.
No discurso, estes dois adversários dos grevistas tem batido, indiretamente, na mesma tecla do "policial corrupto e violento", impedindo-nos de enxergarmos o lado á paisana, por assim dizer destes elementos da segurança pública nacional. Aumento no salário e nas gratificações vai resolver tudo? Não. Mas já é um começo. Só não podemos perder de novo a oportunidade de sanear nosso sistema de segurança. 

Greve á paisana I


Primeiro, vamos colocar os pingos nos "is". A greve da PM na Bahia começou no dia 31 de janeiro, após decisão de integrantes da Associação de Policiais e Bombeiros e de seus Familiares do Estado (Aspra). O presidente da entidade e ex-policial militar Marco Prisco foi preso na quinta-feira (9), quando saia do prédio da Assembleia Legislativa da Bahia.
Nem todos participaram da greve. Policiais militares filiados à Associação dos Oficiais da PM da Bahia (AOPMBA) se reuniram na noite de quinta e decidiram não aderir à greve de parte da categoria. "Nós estamos juntos com seis associações e todas são a favor do fim da greve, embora a proposta do governo, principalmente a questão salarial, não atenda às nossas necessidades", disse Edmilson Tavares, presidente da AOPMBA. Convocada em caráter extraordinário, a reunião teve 205 participantes: 151 votaram contra a greve e 54 foram favoráveis.
Também na noite de quinta-feira, a assessoria do governo do estado reafirmou que o governador Jaques Wagner não apresentará uma nova proposta aos PMs. De acordo com a Secom (Secretaria de Comunicação do Governo), não há orçamento para ceder um aumento superior aos 6,5% propostos. O pagamento das Gratificações por Atividade Policial, as chamadas GAPs, que estão entre as reivindicações dos grevistas, também só poderão ser pagas a partir de novembro deste ano.
Na manhã dessa sexta-feira o comando da PM da Bahia anunciou que a greve, na sua ótica, tinha acabado. Porém, na tarde do mesmo dia a Aspra se reuniu novamente e a continuidade da greve foi aprovada.
Na quinta-feira, a greve chegou no Rio onde no ano passado estourou uma manifestação parecida com o apoio da população. Inclusive um dos líderes da greve dos bombeiros na época foi preso por pretender fazer uma paralisação nacional, em uma conversa telefônica grampeada e que veio á público no Jornal Nacional.
O início da movimentação na Cinelândia se deu a partir do fim da tarde, culminando na decretação da greve por volta das 23h. Milhares de policiais e seus familiares se concentraram em frente a Câmara de Vereadores do Rio. À paisana, todos os policiais presentes garantiam estar de folga. Além da questão salarial, bombeiros exigiam a liberdade do cabo Benevenuto Daciolo. Do outro lado da rua, em frente ao prédio da Biblioteca Nacional, 23 PMs fardados, em sete viaturas, faziam o policiamento, aparentemente sem se envolver com a manifestação, que conta com um palco montado nas escadarias da Câmara.
Lá foram feitos discursos inflamados contra Sérgio Cabral e a Rede Globo. Jornalistas do canal tiveram de deixar a cobertura por serem hostilizados, mas jornalistas da Record e da Band permaneceram. Um dos líderes do movimento entre os policiais civis, o diretor jurídico do Sindipol, Francisco Chao, não se limitou a cobrar melhorias salariais, e fez críticas a atual estrutura da segurança pública no Rio de Janeiro. Para Chao, a greve poderá incentivar um debate sobre o tema: "Tenho esperanças de que uma paralisação, além de melhorar nossos salários, vai provocar uma discussão ampla sobre a questão da segurança pública fluminense. No Rio, o governo ainda adota uma visão antiquada e ultrapassada, dos tempos de nossos avós".
Essa manhã, Francisco Chao foi preso junto com outros líderes da manifestação. Eles se entregaram pacificamente.

quarta-feira, 8 de fevereiro de 2012

Monóculo


O passado é uma terra estrangeira.
Robert Darnton

MONÓCULO
Enquanto não inventam algo mais sofisticado, continuará a ser minha máquina do tempo portátil. Com ele avisto terras familiarmente estrangeiras.

VERÃO
Banho de mangueira na varanda, empinar pipa na laje, jogar futebol na rua. Esse era o itinerário da minha infância.

SOM DA RUA
A voz grave arranhando as frases dá a impressão de que a vendedora de pastel é a Elza Soares.

TÁ DIFÍCIL
O tio á procura de emprego desabafa coisas que só farão sentido depois. Doze anos depois para ser mais preciso.

SÃO SEBASTIÃO
A procissão do santo flechado passa pela orla da praia. Iemanjá manda um abraço.

FOGUETÓRIO
Fogos. Data comemorativa? Não, dia de semana normal. A única pessoa que está comemorando aqui é o dono da boca de fumo.

NOVELA
Meu avô diz que não gosta, mas só vai dormir depois de ver a das dez.

VIAGEM
Chegando no Espírito Santo entrávamos no fuso-horário dos parentes da roça, onde o dia começa antes de raiar o sol e termina depois de limpar o prato da janta.

APAGÃO
O quarteirão inteiro virava trevas, por alguns minutos. Logo as velas improvisavam estrelas na escuridão.

RUA ALEGRE
Saudade de quando sentávamos na calçada e contávamos as lagartixas que iam aparecendo no muro do vizinho, enquanto o pessoal passava.

PIQUE-ESCONDE
Vamos brincar de pique-esconde? Vamos, mas só vou contar até três!

SEGREDO
O que mais intrigava eram os silêncios. Por que todo mundo fica calado quando a tia visita a casa? Sempre deixei a pergunta pra depois.

HÁBITO
O vizinho me fez odiar Fafá de Belém ao ouvir a mesma música todo dia, no mesmo horário. "Uma leira, uma esteira, uma beira de rio..."

ESCOLA
A única coisa legal na escola eram os gansos que encontrava no meio do caminho. Eles lembram a professora de Matemática.

MANIA
Pode acontecer o que for, mas tenho que desvirar o chinelo. Mamãe ficou doente uma vez porque deixei ele virado no canto do campinho.

PRIVACIDADE
Meu avô deixava os passarinhos na garagem de dia e de noite no banheiro. O que aquele trinca-ferro não presenciou...

COPA
A rua ganhou um teto verde e amarelo de fitinhas. Ganhamos a copa, mas perdemos o bolão.

VOU TENTAR, SENHORA
Uma senhora me pediu: "Você é muito novo para ser saudosista. Deixe isso com os velhos se não nós perdemos nosso trabalho!"
Praia de Sepetiba. Foto: Edson Ribeiro.

quarta-feira, 25 de janeiro de 2012

Salvadores e Garotinhos

Em se tratando de corrupção e egocentrismo, minha maior referência sempre foi o ex-governador do Rio de Janeiro, Anthony Garotinho. O maior absurdo que já vi foi quando inauguraram estátuas sua e de sua mulher na cidade de Campos, onde iniciou sua carreira política. Detalhe: estátuas pintadas de dourado.
Infelizmente a corrupção e a impunidade no Rio não são de hoje. Mém de Sá, terceiro governador-geral do Brasil e responsável por expulsar os franceses da área onde hoje se encontra o litoral do Rio de Janeiro, passou em 1568 o governo da região para seu sobrinho Salvador Correia de Sá. Há relatos de que Mém de Sá teria desviado muitos recursos para si, mas seu sobrinho extrapolou os limites da corrupção. Nomeando parentes para os cargos mais altos da administração, participando do tráfico negreiro (com um posto de tráfico em Angola e outro no Rio) e desviando terras e escravos de moradores da cidade para construir seus engenhos. Por causa disso houve num de seus muitos mandatos uma revolta dos proprietários locais contra sua figura que foi reprimida com mão de ferro pelas mílicias. Depois disso deixou o cargo, mas foi agraciado pela Coroa com uma superintendência em minas de ouro da região.
Salvador conseguiu empossar seus filhos em cargos importantes da administração colonial no Rio e até em Angola. Por muitos anos os Correia de Sá governaram o Rio de Janeiro, só engordando sua renda e suas posses. A área da atual Ilha do Governador era na verdade um dos tantos engenhos da família, daí decorrendo aliás seu nome. Salvador Correia de Sá comprova um fato triste: a corrupção e a impunidade no Rio de Janeiro tem profundas raízes históricas, está se tornando quase um dado cultural. É impossível mudarmos a situação? Não. Pode não ser muito fácil, mas também não é impossível.

sábado, 23 de abril de 2011

Absurdo, loucura, tragédia...


Eu digiro as notícias de maneiras diferentes. Por exemplo, só agora posso falar realmente sobre a tragédia que aconteceu em Realengo duas semanas atrás. O motivo para isso foi que mesmo estando á mais 6.000km de distância eu me emocionei com o que aconteceu com as crianças que estudavam no colégio Tasso Silveira.
Primeiro, me espantei, depois pensei que fosse mais um ato do tráfico. Mas isso foi desmentido, então me espantei de novo. Eu até manifestei no post do dia 8 de abril o meu medo disso se tornar comum no Brasil. Á toda hora, com as reportagens, as imagens, tudo que falasse sobre as vítimas, eu chorava e lamentava o que tinha acontecido com aquelas crianças.
Eu tentarei falar aqui um pouco sobre esse triste fato. É muito difícil falar sobre a loucura e sobre a tragédia, mesmo quando você não pretende fazer um tratado sobre ambos, como é o meu caso. Mas vamos tentar, de qualquer maneira, apenas expor alguns pontos.
Isso foi realmente uma tragédia. Há uma diferença entre algo que podia ser evitado, que é fruto da irresponsabilidade de alguém, e algo que não podia isso. Esse último é o que chamamos de tragédia. Segundo alguns, esse acontecimento podia ser evitado, pois o atirador planejou e executou esse ato justamente para se vingar do buylling, a humilhação feita por colegas nas escolas. Outros dizem que esse foi um ato sem sentido, o rapaz era ezquisofrênico e se amparou, inclusive, numa religião, para justificar sua violência.
Assisti a uma entrevista, naquela época, do filósofo Mário Sérgio Cortella na qual ele falava que esse não foi um ato sem sentido, ele teve sim um sentido para quem o praticou. Para Wellington, aquilo precisava ser feito. A frieza da forma como ele fez tudo indica como ele perdeu um pouco de sua humanidade, como ele se tornou indiferente a dor que estava fazendo contra crianças inocentes. Em outras palavras, ele estava cegado pela loucura.
Muitos concordam que existe no homem o instinto da sobrevivência e o instinto da autodestruição. Isso estaria presente no nosso dia-a-dia. Nosso cotidiano, muitas vezes, pode parecer absurdo, sem sentido e deplorável. O que pode fazer aflorar em nós nosso pequeno facista interior. O que pode transformar um taxista em um atirador maníaco, como aconteceu no filme Táxi Driver. Existem, certas pessoas, que possuem tendências para esse lado obscuro de nossa alma. Seria o caso de Wellington? Não sei dizer ao certo.
O que posso dizer é que, de qualquer maneira, foi um ato desumano - em algum momento Wellington foi pego pela loucura e esqueceu-se de sua humanidade - e que ele não deve ser abafado, por mais que pareça cruel e sem sentido. Devemos discutir isso com nossa família, com nossos amigos. Devemos discutir maneiras de acabar com o buylling, maneiras de deixar nossas escolas mais seguras e, principalmente, maneiras de não perder nossa humanidade.

sexta-feira, 8 de abril de 2011

A tragédia

Não sei muito bem o que dizer sobre o que aconteceu em Realengo ontem de manhã. Já sabemos sobre os mortos e um pouco sobre as motivações do assassino, mas mesmo assim não sei o que dizer sobre isso. Melhor, não sei o que podemos entender nesse caso. Não porque o caso não tenha nada de racional, mas porque ainda estou abalado com isso, acredito que todos nós estejamos.
A minha primeira impressão foi de que se tratava de mais um caso de inocentes feridos na luta contra o tráfico, mas depois as notícias foram sendo mais claras e pude perceber que se tratava de uma dessas explosões de raiva contra inocentes, no caso crianças.
Nos acostumamos a ouvir notícias sobre tragédias do tipo na Finlândia ou nos EUA, geralmente associadas ao buylling, a perseguição e a humilhação de certos alunos. Mas o caso foi aqui. Isso chocou a todos, ninguém esperava por isso. E agora já ficamos paranóicos: e se isso virar costume aqui, como nos EUA?
Deus queira que não.

quarta-feira, 30 de março de 2011

Os Bilontras na Capital Tribofe

Achei interessante um texto utilizado pelo Prof. João Rozendo na disciplina Brasil República que pode nos ajudar a repensar a presença popular nos primeiros anos da República: Repensando política e cultura no início da República: existe uma cultura política carioca? de Marcelo de Souza Magalhães (UERJ).

Charge de Angelo Agostini sobre a Proclamação da República (1889).
O texto faz uma avaliação historiográfica dos primeiros anos da República e descobre pontos comuns na fala de nossos historiadores e outros dissonantes. Todos concordam numa coisa: os primeiros anos da República foram conturbados (sobre o motivo há múltiplas visões: a ausência de um modelo político republicano e os conflituosos interesses dos atores sociais envolvidos parecem ser dois tópicos muito utilizados).
A discordância está no cárater dessa mudança de regime: ora é vista como fase necessária e inevitável no desenvolvimento nacional, ora como mudança superficial (o regime é o mesmo, só mudou de nome). As visões sobre esse processo geralmente estão associadas ás ideologias dos historiadores, assim temos monarquistas defendendo que a República representou a continuação dos vícios de antes e republicanos defendendo que esse foi um dos maiores passos para modernizar o Brasil.

Aristides Lobo
O autor utiliza como símbolo dessa diversidade de interpretações o termo bestializado, popularizado pela historiografia e por ela resignificada das mais diferentes formas. Aristides Lobo, quem cunhou a expressão, o fez no calor da hora. Quando ele diz que o povo assistiu á tudo bestializado, segundo Marcelo, estaria se referindo á surpresa da ação e não ao movimento em sim. A historiografia tradicional se apropriou do bestializado como símbolo do povo indiferente e apático e de uma República que começa já autoritária. Chegamos em José Murilo de Carvalho que critica essa visão: para o cientista político, o povo não participou da República porque não quis e não porque não sabia. O povo, como falamos aqui antes, era "bilontra", esperto, e sabia que esse novo regime seria como o anterior, seria elitista e autoritário; a política era "tribofe", impenetrável, sendo assim, bestializado era quem a levasse a sério.

José Murilo de Carvalho
Dialoga com a visão de José Murilo de Carvalho o trabalho de Maria Tereza Chaves de Melo quando afirma que o povo, doutrinado pela propaganda progressista e republicana, já havia consentido com a mudança do regime, ou seja, ele não estava desinformado, o que o pegou de surpresa (na realidade, pegoua  todos de surpresa) foi a ação inesperada da "mocidade militar". A interpretação de José Murilo é marcante justamente por quebrar com aquela visão do povo enquanto espectador passivo dos acontecimentos de nossa história. Marcelo considera fantástica essa interpretação, mas tem suas ressalvas e uma delas é a idéia de que a política era tribofe.
Com base em pesquisas recentes sobre o Rio de Janeiro, o autor encontrou uma cidade politizada e o povo participando da política.O povo podia pedir diretamente ao intendente ou prefeito e até mesmo ao Conselho Municipal. A comunicação existia e, com efeito, muitas de suas queixas foram solucionadas (por pressão ou por politicagem).

Largo de S. Francisco de Paula, Rio de Janeiro. Fonte: Marc Ferrez, 1890.
Sendo assim, o Rio de Janeiro, como nos diz o subtítulo, tinha uma cultura política? Em primeiro lugar, o que se entende por cultura política? Estas pesquisas recentes tomam como referencial teórico Serge Berstein e sua concepção de cultura política; para ele, seria uma visão de mundo, comprometida com um certo passo comum, orientando as ações políticas e não um conjunto de práticas liberais e democráticas, como se costuma afirmar.
Se olharmos para as elites políticas, como estas pesquisas vem fazendo, então temos sim uma cultura política carioca que pode ser resumida em uma tensão entre intervenção e autonomia. O Rio de Janeiro carregava o peso de ser a capital do Brasil, o que acarretava mudanças estratégicas do governo federal, e de não deixar de ter que representar seus habitantes. O dilema na política local era: obedecer aos interesses da União ou dos cidadãos desta cidade?E muitos políticos lutavam entre si tendo esse dilema como motivo: prefeitos eram pressionados pelos habitantes, intendentes pelos prefeitos, o Conselho Municipal pressionava prefeitos e intendentes, e vice-versa.
No entanto, se olharmos para os habitantes da cidade veremos, segundo Marcelo, que eles encontraram outros canais, que não os da política oficial, para se manifestar. E seus interesses eram os mais diversos. Quando se envolviam na política oficial era para pedir algo que os ajudasse a sobreviver (melhor moradia, melhor alimentação, etc) e não para realizar o seu projeto político. Ora, se os paulistas, pernambucanos, amazonenses, dentre tantos outros, faziam o mesmo, como podemos chamar isso de uma cultura política carioca? Antes de tudo, estamos falando de uma negociação entre o povo e o governo, onde o primeiro buscar melhorar suas condições de vida e o segundo conseguir mais legitimidade popular (se bem que Marcelo aponta para uma revisitação do clientelismo).
Se uma cultura política não engloba a maioria da população de uma cidade, então temos uma cultura política? Não, essa é a resposta de Marcelo. De qualquer forma, é interessante como ele se apropria de premissas de José Murilo de Carvalho (o bilontra) e dessa historiografia carioca recente (a política não-tribofe). Nos faz repensar no descompasso/compasso do governo e do povo na República e ainda hoje.

quinta-feira, 17 de março de 2011

Caserna e rua II

Continuando a debater sobre a Proclamação da República, gostaria aqui de refletir um pouco sobre as conclusões de Celso Castro e Maria Thereza Chaves de Mello, expostar no penúltimo post:
A tradicional Festa da Penha no Rio de Janeiro dos anos 40.

Celso Castro considera a Proclamação da República o debute dos militares enquanto atores políticos. No entanto, durante a República Velha, exceto os primeiros anos do regime (os governos dos marechais Deodoro da Fonseca e Floriano Peixoto, conhecido como a República da Espada), os militares permaneceram como personagem secundário diante da atuação das oligarquias regionais na política. O que houve com os militares?

Quando Maria Thereza Chaves de Mello conclui sua tese, acrescenta que essa transformação da rua enquanto espaço político fez da sociedade fluminense mais politizada. O povo da cidade do Rio de Janeiro (ela está sendo específica) consumia a política, embora não tivesse meios de alcançá-la (ou não quisesse). Então, quando a população local deixou de ser política e tornou-se indiferente á política?
A marcha dos oficiais, com a participação de um civil, conhecida como os 18 do Forte de Copacabana, em 1922.

Não estou, com essas perguntas, crucificando os autores por não respondê-las. Um estudo é assim: responde algumas perguntas e fabrica novas, que serão respondidas por outros pesquisadores. Achar as respostas para as questões é que faz a ciência se movimentar, continuar viva. Só podemos cobrar dos autores as respostas para as perguntas que eles se comprometeram a responder, no caso, foi a Proclamação essencialmente militar e o povo assistiu á tudo bestializado? Estas perguntas foram respondidas, mas, no meu caso, seus trabalhos geraram estas novas indagações expostas acima.

Vou tentar expor aqui alguns argumentos e algumas respostas possíveis: estamos falando, agora, da República Velha, do período posterior á Proclamação, tema destes autores. A bibliografia sobre a República Velha, que é extensa (teve seu boom na passagem dos anos 70 para os anos 80), é unânime em considerar esse período como essencialmente oligárquico e descentralizado, politicamente. Após os primeiros anos, que foram turbulentos, há a criação de um pacto entre as oligarquias regionais - o que ficou conhecido como Política dos Governadores ou Invenção Republicana, segundo o cientista político Renato Lessa. Nesse pacto as oligarquias mais fortes economicamente se sobressaiam, nesse caso se alternando no poder federal - aí temos a constante presença de São Paulo e Minas Gerais no comando do país, fato que se popularizou através da expressão "política do café-com-leite". No entanto, estudos recentes questionam/relativizam tanto a Política dos Governadores como a do café-com-leite.

Na bibliografia tradicional, o Exército aparece como personagem secundário, totalmente corrompido por uma sociedade extremamente oligárquica que o utiliza como solução-tampão para os eventuais casos de rixas regionais. O povo do Rio de Janeiro, então, como alvo das medidas altamente elitistas dessa classe política, que desejavam criar uma cidade "civilizada", aos moldes das européias.
José Murilo de Carvalho

Um autor que é presença constante na historiografia sobre a República, o qual inclusive tanto Castro como Melo dialogam, é o cientista política José Murilo de Carvalho. Segundo Carvalho, a população assistiu á tudo bestializada porque sabiam, pelo andar da carruagem, que não fariam parte do novo regime, uma vez que ele continuava nas mãos de um círculo muito fechado, a elite. Não que o povo não tivesse as armas para entrar na política: ele tinha sim, segundo Carvalho, herança das festas religiosas como a Festa da Penha e  das conferências radicais do Império. O povo era, então, "bilontra" porque sabia que a política era "tribofe", ou seja, o povo atuava na política quando lhe fosse conveniente, mas sabia que não seriam bem representados pelos homens do poder.

Quanto aos militares, Carvalho credita á um grupo de jovens oficiais (não especificamente á mocidade militar) não só o mérito de ter proclamado a República, como de participar de outros movimentos sociais mais ativos, como o tenentismo. Pela própria natureza da instituição militar brasileira, existia sempre um setor revolucionário (o dos jovens oficiais) por ser o mais esclarecido e mais explorado. O Exército só criaria um espírito próprio, uma unidade, com sua modernização, encetada durante a República Velha e que culminaria com a Revolução de 1930.

José Murilo Carvalho também concorda que os primeiros anos do novo regime foram turbulentos, mas por causa dos conflitos entre os diversos projetos de República: havia o projeto liberal e federalista dos proprietários rurais, o jacobinismo das camadas médias urbanas e o positivismo de um grupo de militares e intelectuais do Apostolado Positivista do Brasil. Quem ganhou, por ser muito mais coeso, foi o primeiro grupo e impôs, assim, o rosto oligárquico e descentralizado que a República Velha teve.

As conclusões de Carvalho responderiam assim a relativa retração do Exército enquanto ator político durante os anos que se seguriam á Proclamação e uma atitude do povo com relação á política que confundimos com apatia, mas na verdade pode ser definida como utilitarismo. Mesmo assim, as questões continuam em aberto, afinal, essa é apenas uma hipótese, a hipótese de José Murilo de Carvalho. Acredito que antes de realmente concluirmos algo sobre a ação militar e popular na República, seja nos seus primeiros anos ou depois, devemos dialogar com mais autores e suas hipóteses.

segunda-feira, 14 de março de 2011

Caserna e rua

A visão que a historiografia costuma passar da Proclamação da República é de um golpe dado por militares, onde o povo assistiu bestializado á tudo. Nesse caso, duas leituras são mais do que recomendadas.
O antropólogo Celso Castro em Os Militares e a República contesta a idéia de que os militares em peso fizeram a Proclamação da República, enquanto a historiadora Maria Tereza Chaves de Mello em A República Consentida considera que o povo assistiu ao golpe, mas isso não significa que ele não o apoiou.

Castro, primeiramente, critica a visão tradicional da Proclamação, seja pela exaltação dos seus líderes (Deodoro da Fonseca e Benjamin Constant) seja pela ênfase nos determinismos (que viam a República como algo inevitável e feito por toda uma instituição em peso). Com base em uma análise detalhada dos documentos da Escolas Militares e de seus ex-alunos, Celso Castro chega á conclusão de que a República foi proclamada por um grupo de militares, uma vez que haviam mais tensões dentro da corporação que unidade. Esse grupo era formado por jovens oficiais, a maioria ainda alunos das Escolas Militares (da Praia Vermelha e sua ramificação, Escola Superior de Guerra), vindos em sua maioria do Norte do país e conhecidos na época como a "mocidade militar".

Celso Castro
Esse grupo, no entanto, não era o mais desassistido pelo governo e pelo próprio Exército e sim os dos oficiais que entraram na instituição durante a Guerra do Paraguai. Esses oficiais não eram contemplados com cursos e bons salários, além de suas promoções serem muito lentas, contudo, não eram tão radicais quanto a mocidade militar. Seu protesto era a indiferença e não a ação. O que fez dele o grupo mais radical então? A insastifação com o governo devido ao despretígio para com o Exército e a entrada de novas idéias, muitas radicais e vinculadas ao positivismo, abolicionismo e republicanismo, ajudaram e muito.

Maria Tereza Chaves de Melo também critica a historiografia tradicional: a afirmativa proferida por Aristides Lobo de que o povo assistiu á tudo bestializado, que indicava a surpresa dele diante do fato, foi tomada como a prova de que não houve participação popular no acontecimento. Essa interpretação tem origem monarquista, pretendia afirmar que o povo gostava mais do imperador que do novo regime e foi retomada pelos intelectuais pós-1930 como símbolo de uma república totalmente oligárquica, a qual Getúlio Vargas derrubaria e proclamaria com suas ações a verdadeira república.

Bem, se realmente o povo gostava de seu imperador porque não fez nada diante da Proclamação ou mesmo da expulsão da família real do Brasil? O povo, responde Maria Tereza, estava indiferente aos destinos da monarquia. Por quê? Porque a monarquia perdera a sua garantia simbólica. A historiadora trabalha no campo da política, mas principalmente através dos símbolos que legitimam instituições. Esses símbolos, no caso do império, haviam sumido diante das inúmeras polêmicas do Estado para com a Igreja e o Exército ou mesmo da corrupção e da alta burocracia.

Além disso, outro simbolismo havia chegado: aos poucos entrava na cidade do Rio de Janeiro, palco destes acontecimentos, um ideal modernizador e científico que pode ser percebido na fala de muitos jornais e livros da época. Esse ideal foi conquistando o povo através da imprensa e das imagens (basta lembrar a quantidade de homens analfabetos no início do século XX e saberemos o peso marcante da imagem nessa população). Quando fala em imagens não se refere apenas ás charges que desmoralizavam o imperador, mas principalmente á visão daqueles debates acalorados entre intelectuais nas ruas.

A rua se torna campo da política. O ideal modernizador e científico conquista o povo por causa de sua ampla difusão nas mais variadas formas, como falamos acima, e por estar apoiado em uma sólida crítica ao governo, uma vez que esse só se comprometia mais e mais. Esse simbolismo prevalece assim, na base das críticas e ataques ao governo, na rua, enquanto em círculos mais restritos começam a surgir propostas para um novo governo. Finalmente, o ideal modernizador e científico se une ao republicanismo, argumentando que com a república o Brasil se tornará democrático e desenvolvido.

A conclusão de Maria Tereza é simples: se a Proclamação da República foi em si um ato militar, ela contou, no entanto, com o consentimento do povo, uma vez que o discurso científico havia convencido a opinião pública de que não havia mais salvação para o Brasil dentro do regime monarquista. Essa é a República "consentida".

Como bons pesquisadores, tanto Castro como Melo, por meio de suas conclusões sobre esse ato apontam suas consequências nos momentos posteriores. Qual foi a consequência dessa profissionalização do Exército de que fala Castro? A formação dos militares como atores políticos, cuja inauguração foi nada mais que a Proclamação. Daí em diante, eles só consolidaram esse papel, entre "trancos e barrancos". Qual foi a consequência da propaganda do discurso científico? A rua se transforma em espaço político e exemplo emblemático disso seria mais uma vez a afeição ao novo regime proclamado em 1889. A autora considera que, desde então, a sociedade fluminense tornou-se altamente politizada, ou seja, por boa parte da República Velha, o povo poderia não ter o comando do país (este estava na mão das oligarquias), mas pelo menos ele sabia o que estava acontecendo e protestava contra isso, muitas vezes de forma radical (como no caso da Revolta da Vacina). 

terça-feira, 18 de janeiro de 2011

Solução?

Enquanto especialistas discutem se a chuva na região serrana do Rio foi o maior desastre natural da história do país ou um deslizamento de terra que aconteceu na Serra das Araras em 1966, também no estado do Rio de Janeiro, recebemos a notícia de que o governo finalmente vai investir em um sistema de alerta contra desastres. Foi definido em uma reunião da presidente Dilma Roussef com seus ministros que se investiria nesse sistema, que consiste basicamente numa combinação de dados metereológicos com mapeamento das áreas de risco pelo país. Para tanto seria necessário investir em novos satélites e em um programa de fiscalização mais apurado. Quando terminado, o sistema, segundo o ministro da Ciência e Tecnologia Aloísio Mercadante, seria capaz de avisar com antecedência de seis horas, impedindo muitas mortes.
Data para o sistema estar pronto: daqui á quatro anos. Não acredito que o maior problema seja a tecnologia; o INPE acabou de conseguir um supercomputador e o investimento nos satélites pode ser caro, mas é eficiente. O maior problema, acredito, será no mapeamento. Como disse anteriormente, a fiscalização sobre a habitação no país, ou pelo menos no Rio de Janeiro e São Paulo, está atrofiada. É um inconveniente para muitas prefeituras ou uma arma para outras, mas nunca atinge seus objetivos: regular a habitação de uma cidade, impedindo assim desastres tanto para o meio ambiente como para o homem.
De qualquer forma, esse sistema já é um passo importante. Talvez ajude a acabar com estes desastres terríveis e que parecem ser intermináveis, veremos. Só lamento que para chegarmos á essa iniciativa tal tragédia tievesse ocorrido.

segunda-feira, 17 de janeiro de 2011

Crônica de uma Tragédia Anunciada


O ano começou com chuva, tanto no Rio como em São Paulo. Teresópolis, São José do Rio Preto, Nova Friburgo estão quase sumindo do mapa a cada chuva. O número de mortos já passou da casa dos 400. Dilma e Cabral já sobrevoaram a região e o governo reconheceu a uma semana que está despreparado. O governo está despreparados, mas nós estamos acostumados.
Em 1997 a chuva fez muitas vítimas na Zona Norte do Rio, em 2000 em Angra dos Reis. Ano passado tivemos os casos da região dos lagos e novamente em Angra dos Reis. Em Ilha Grande uma pousada foi praticamente lançada no mar pela chuva. São Luís do Paraitinga em São Paulo desapareceu. E agora parece que a mesma coisa está acontecendo na região serrana do Rio.
O Rio tinha terminado o ano de 2010 com uma promessa de paz e esperança e agora ele inicia o novo ano com uma provocação da natureza: Cadê o bom senso? Cadê a infra-estrutura?
As mudanças no clima provocada pela falta de consciência ambiental agravaram um problema que sempre existiu no Rio e no Brasil: a má fiscalização e as péssimas condições de habitação. Raquel Rolnik, em seu blog, chegou a conclusão de que fiscalização e gestão da ocupação do solo no Brasil é um conto da carochinha. Pessoas constroem suas casas nas encostas de morros ou perto de córregos e nada é feito. O governo não fiscaliza, e em caso de interditação não fornece novos locais para moradia, nem tenta prevenir acidentes com morros de contensão, por exemplo. E nessa situação ficamos sem saber quando algo vai ser feito.
Há algo que parece florescer numa situação dessas, por incrível que pareça: a compaixão e a solidariedade. Voluntários, sejam atuando lá no foco dos acidentes ou indiretamente por doações, tentam minimizar a dor dessa tragédia. Uma situação dessa é inconsolável, para quem viveu e para quem acompanhou, pois o que perdemos não pode ser reparado. Uma vida não pode ser reparada. Fica a sensação de que a qualquer momento pode acontecer de novo e realmente pode acontecer de novo se nada for feito. A única coisa perto de um consolo é certeza de que isso não se repetirá.
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veja aqui um relato de um sobrevivente que já sobreviveu á dois desastres desse.

quinta-feira, 16 de dezembro de 2010

Rio 40 Graus



É hora de falar sobre um assunto marcante desse ano que está se acabando, talvez, para os brasileiros, um dos mais marcantes do ano: a guerra contra a violência no Rio de Janeiro.
Como historiador, não posso abordar o assunto sem antes dar um panorama histórico que desembocou nesse evento. Como carioca, sou impelido a não só dar meu depoimento e minha opinião sobre o assunto como também propor algumas soluções. Mas, daremos aqui um passo de cada vez; primeiro, um rápido painel histórico.
A violência existe em toda cidade grande e geralmente é fruto de uma série de fatores presentes na construção do espaço urbano, como as políticas públicas de urbanização. Caso clássico: o projeto urbanístico da cidade não contempla os grupos mais carentes da sociedade, pelo contrário, procura os esconder o máximo. Em Manaus, eles foram escondidos nos igarapés, no Rio nos morros. Mas, atenção, a marginalização urbana não determina a violência, é apenas um dos seus fatores mais gritantes; a proliferação da violência depende, por exemplo, das más condições educacionais e econômicas.
O Rio de Janeiro previsto pelo prefeito Pereira Passos era uma nova Paris, no entanto, para viabilizar seu sonho os pobres foram empurrados para os morros de onde surgiram as favelas. Favela, como se sabe, vem das favas, um tipo de feijão com gsoto de carne que eram plantados principalmente nesses morros por seus moradores. Seus habitantes costumavam vendê-las nas feiras na cidade, aliás, por causa das plantações no alto dos morros que veio o nome de uma das mais emblemáticas favelas da cidade, a Rocinha. Ou seja, tal fato demonstra que o morro e o asfalto estavam separados e ao mesmo tempo ligados.
Os imigrantes, principalmente do Nordeste, engrossam os barracões das favelas. A cidade, durante todo o século XX, por ser a capital, enche-se, melhor, incha-se. Mas esse inchamento não foi devidamente tratado pelas políticas públicas. Um grande exemplo pode ser a própria Cidade de Deus, construída para abrigar os moradores pobres do centro do então Estado da Guanabara que teriam suas terras originais tomadas para construir um belo condomínio residencial. Essa medida, diferente da de Pereira Passos (operada entre os anos de 1900 no Rio), foi feita nos anos 60 pelo governador da Guanabara Carlos Lacerda.
Correndo o risco de cair em generalizações, quase todos os governos cariocas parecem repetir a mesma atitude ambígua para com os morros: endossar sua ocupação e ao mesmo tempo desprezá-la. O morro deixou de ser tabu a pouco tempo. Na década de 30, quando o cineasta Humberto Mauro tentou filmar uma história sobre moradores do morro, foi preso e acusado de comunismo. Mesmo os diretores do Cinema Novo foram repreendidos pela própria população da cidade por mostrarem os morros em seus filmes, no entanto, eles contribuíram para a quebra desse tabu.
Os morros não representavam um perigo, apenas um inconveniente. Essa situação muda a partir dos anos 70 quando começam a surgir as primeiras organizações criminosas como o Comando Vermelho. Essas organizações, a partir dos anos 80, saem dos assaltos a bancos e entram em um negócio muito mais rendoso: o tráfico. Contudo, nesses primeiros anos, o Rio era apenas um entreposto comercial para a rota das drogas (a maioria ia para os EUA ou para a Europa). Mas pouco a pouco, a cidade passa a ser uma consumidora também, a tal ponto que o objetivo das drogas agora não são tanto os EUA, mas a própria cidade.
Agora, se me permitem, darei meu depoimento sobre a violência no Rio nos anos 90, porque foi neles em que eu fui criado. Na época não tinha nenhuma noção do que representava o tráfico, mas sabia muito bem associar as imagens dos bandidos e de seus ataques á violência. Na época sempre aparecia nos jornais o nome do Escadinha, um dos mais famosos membros do CV, responsável por uma fuga de helicóptero da cadeia de Ilha Grande. Além disso, haviam notícias sobre o Morro de Santa Marta a toda hora; muitas batidas policiais violentas foram documentadas ali. E havia ainda o espectro da Chacina de Vigário Geral. Mesmo não sabendo o que significava chacina já podia perceber que era uma palavra que mudava a expressão das pessoas instantaneamente.
Esses são apenas alguns casos dos quais me lembro, mas existem muitos outros que tomei melhor conhecimento hoje, seja por curiosidade, seja por histórias da família. Mas uma coisa é interessante: essas notícias, pelo menos na minha memória, vinham sempre acompanhadas de denúncias de corrupção por parte dos políticos locais. Era a época de Luís Paulo Conde, Marcelo Alencar, César Maia, Leonel Brizola, Garotinho. A política também não ficava atrás: o secretário de segurança do Rio, Nilton Cerqueira, se tornou folclórico por matar Lamarca e pela criação da "medalha Bangue-Bangue", uma premiação para o policial que mais bandidos matasse.
Esse triste painel que peguei em minha infância e que acompanho desde então produziu em mim, e não só em mim como na maioria das pessoas que conheço, a desilusão com qualquer tipo de mudança na política e sociedade da cidade. A corrupção já havia se enraizado no poder público e na polícia, a ponto de se tornar, como muitos analistas dizem, cultural. Onde o Estado não estava, crescia o tráfico e a violência. As organizações criminosas se proliferaram: ADA, Comando Vermelho, traficantes independentes. Além, é claro, dos grupos de extermínio, mantidos por policiais, e as milícias.
Nosso pessimismo dizia que uma mudança que viesse para solucionar o crime no Rio só viria quando a situação estivesse insustentável. A onda de violência em que a cidade mergulhou desde que as Unidades Pacificadoras da Polícia tomaram alguns bairros nos fez tremer, mas não imaginássemos que algo seria feito. Então, temos a tomada da favela do Cruzeiro e a imagem emblemática dos traficantes fugindo naquela estrada de terra. Logo depois a tomada do Complexo do Alemão. Confesso que tanques andando pela favela eram mais ou menos aquilo em que eu imaginava no dia que resolvessem acabar com o tráfico no Rio, tal o ponto de periculosidade e força atingira os traficantes.


A população cansada de guerra apoiava dessa vez os policiais e militares. Todos estão cansados desse status quo, de viver com medo, essa é a verdade. Nós tínhamos medo de demorar muito em nossas visitas aos parentes, preocupados em ser atacados por bandidos, policiais, quem quer que fosse. Toda semana notícias de mortes na Avenida Brasil, além das habituais vítimas, inocentes, nos tiroteios entre a polícia e os bandidos.
A tomada dessas favelas representou, especialmente para mim, um ato tão inesperado quanto o contato com extraterrestres. Recuperei um pouco da minha esperança nas mudanças, no entanto, minha desconfiança logo retornou. A imprensa mostrava uma luta do bem contra o mal, apareciam políticos discursando na tv sobre a necessidade de ser firme contra o crime. Alguns reconheciam que a tomada dos territórios do tráfico era apenas o primeiro passo. Concordo. O segundo passo é uma reestruturação desses territórios, tornar acessível educação e saúde á essas pessoas que sofreram tanto. O terceiro e o mais difícil seria uma reestruturação da própria política e da política, de forma a extirpar a corrupção de seus quadros. Ora sem esses dois passos o tráfico pode voltar facilmente, pois, não sejemos íngênuos, os traficantes foragidos ainda estão por aí e planejando.
Minha apatia, creio que seja algo que compartilho com a maioria dos cariocas, com a política e a polícia, me diz que o terceiro passo, e mesmo o segundo, estão muito longe de serem concretizados. Mas essa é uma hora para refletir nossos pessimismos, não só as atitudes do governo, mas de nós mesmo. Será que nossa apatia não permitiu a consolidação desse status quo também? Fica a pergunta.

domingo, 25 de outubro de 2009

"Monkey Hills"

Com o perdão do atraso comento aqui a manchete que já rodou o mundo: os últimos desdobramentos da guerra do tráfico e ao tráfico. Falo da tragédia do Morro dos Macacos, ou Monkey Hills segundo a imprensa internacional (ver o destaque da tragédia no mundo: http://jovempan.uol.com.br/noticias/noticia/confronto+no+rio+e+destaque+no+mundo-176564,,0 ).
No sábado, dia 17, traficantes de uma facção rival, oriunda do Morro São João, invadiram o Morro dos Macacos. A polícia militar foi conter o conflito e na tentativa um helicóptero foi abatido. No dia seguinte se seguiram festas em alguns morros pelo acontecido. Ônibus foram queimados e depois depenados por saqueadores.
Estive no Rio na segunda e um pedaço da terça passada (respectivamente, dias 19 e 20) e presenciei um clima muito estranho. Na Avenida Brasil, carros da "Força Pacificadora", uma ramificação da Polícia Federal. Nas lojinhas, entre os comentários do resultado do jogo menções ao caso e outros mais.
Ou seja, apesar da aparente tranquilidade do Rio, o clima está tenso. A situação piora mais a cada dia. A última da vez foi a morte de um cantor do AfroReggae por assaltantes e a omissão da Polícia em ajudá-lo. Isso tudo na futura sede das Olímpiadas!(link sobre os últimos casos de violência no Rio: http://www1.folha.uol.com.br/folha/cotidiano/ult95u642886.shtml)
A imprensa nacional sempre foi sensacionalista quando se trata do Rio de Janeiro, o novo é que agora a imprensa internacional está descobrindo que a cidade maravilhosa não está tão maravilhosa assim. No entanto, mesmo diante de 42 mortes, o Comitê Olímpico Internacional se manteve irredutível em cancelar o status de sede dos jogos olímpicos de 2016 para o Rio. Para eles, "Monkey Hills"ainda está muito distante do Rio de Janeiro sensual e edílico dos filmes. Será?
A violência no Rio não surgiu da noite pro dia, ela faz parte de um longo processo que deve ter começado ainda nos tempos da colônia e que foi acentuada pela política de urbanização de gente como o prefeito Pereira Passos, que nos anos de 1900 já havia marginalizado grande parte da população nos morros, e culminou na queda do helicóptero no Morro dos Macacos. Não se pode fugir da violência, deve-se encará-la de frente. Posso dizer aqui uma lista imensa de gente, inclusive amigos e parentes, que pensavam que morando e trabalhando longe dos morros estariam livres da violência. Ledo engano.
O problema é muito longo e profundo, não se pode resolvê-lo em um ano ou mesmo antecipá-lo para outra data, como foi feito no Pan. É algo cultural, necessita de uma campanha pesada de conscientização acompanhada de uma melhora nas condições de vida destas pessoas. O governo tem que fazer aquilo que ele deixou de fazer a décadas: ajudar essa população e não por meio de medidas assistencialistas. Ele tem que se relacionar com todos os segmentos da sociedade e não só com aqueles que ficam bem na foto.
Mas todos nós sabemos que isso está no reino da ficção científica, para não dizer contos de fadas. Se a possibilidade de mudança já era pequena, ficou menor ainda com a escolha da cidade como sede das Olímpiadas, pois assim revitalizou-se o status quo carioca. Essas Olímpiadas serão a promessa para muita gente de dinheiro fácil e de prestígio. E enquanto elas continuarem se alimentando de ambos, se multiplicam as mortes no Monkey Hills da cidade.