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segunda-feira, 17 de dezembro de 2012

Mama África

Tcharan! Tia Lucy (Aryana Monteiro) e Elo Perdido (Augusto Severo) no palco.
Foto: Jhames Bessa.
No primeiro semestre do ano nos aventuramos com o teatro amador com uma peça chamada Nóis Véve a História para abrir a XI Semana de História da Uninorte. Decidimos repetir a dose. Mas dessa vez para abrir a IX Semana da Consciência Negra que teve por tema a história da África.
O Vanderson Dinhows Fernandes e eu ficamos responsáveis por escrever a peça, escalar o elenco e ensaiar com eles. O primeiro passo até que foi fácil. Reunimos um monte de boas ideias e tivemos ainda a ajuda da mente pervertida criativa do Everton Andrade - ele que teve duas participações pequenas, mas super-especiais!
Vinicius Amaral, Vanderson Dinhows e Everton Andrade: os roteiristas.
Foto: Raoni Lopes.
A grande questão era como fazer algo que fale da História da África e que divirta ao mesmo tempo? De início apresentaríamos um breve painel da História da África, na forma de um monólogo, mas desistimos dessa ideia. Ficaria muito maçante. Afinal, são muitas informações e pouco tempo. O fato da história desse continente ser pouco conhecida era um obstáculo, porque precisávamos dialogar com o que o público sabia. Como rir de algo que você não conhece? Por isso, optamos em falar do que conhecemos, das imagens do senso comum.
A proposta era brincar com alguns estereótipos sobre esse continente enquanto apresentávamos alguns pontos pouco conhecidos sobre a história da África (como a presença dos impérios de Gana, Mali, Songai e a relação com o islamismo). Muita gente achou parecido com a peça Hermanoteu na Terra de Godá, outros com as gags do Monty Python.
A primeira dificuldade foi montar o elenco. Estávamos agora trabalhando com uma equipe muito maior que da última peça. Existiam alguns personagens que foram criados para tal pessoa, outros não, precisávamos achar alguém que se encaixasse no seu perfil e que estivesse disponível. O maior problema sempre foi achar pessoas compromissadas e com tempo disponível. E em se tratando de época de prova a coisa só se complica mais.
Mas, por incrível que pareça, conseguimos achar muita gente. Com a exceção de alguns egressos, a maioria dos atores vieram do segundo e terceiro período noturno. Gente que não se conhecia muito bem, apesar de viver se esbarrando pelos corredores da faculdade ou então se enfrentando nos jogos de pingue pongue.
Os ensaios eram feitos aos sábados, geralmente em uma das unidades da faculdade ou então no Largo São Sebastião. Com a aproximação da Semana da Consciência Negra passamos a fazer ensaios durante a semana, entre uma aula e outra.
Primeiro, precisávamos fixar as falas na mente.Depois treinamos a interpretação e a construção das cenas (qual seria a ordem de entrada de cada personagem, onde ele ficaria, como ele reagiria a tal fala, coisas do tipo). E ao fim de cada ensaio aos sábados, uma cervejada. E churrascadas também. Uma antes da peça e outra depois.
O elenco assistindo a peça na churrascada, dias depois.
Foto: Rafael Mota.
Não teríamos conseguido chegar lá, claro, sem o apoio da Profa. Elisângela Maciel, sem o compromisso de todo o elenco, sem o apoio técnico e moral do Everton e sem a garra do Vanderson Dinhows. Ouvi aplausos e elogios, mas creio que a nossa recompensa maior é outra.
Creio que esse tempo juntos ajudou a criar um sentimento de união de forma que a própria galera espera participar de novos eventos da mesma forma e com a mesma equipe. Então que venham os próximos eventos!

quarta-feira, 11 de abril de 2012

Cante lá que eu canto aqui...

Assistindo novamente ao filme Narradores de Javé acabei achando um fato bem interessante. Em dado momento do filme se fala em "terreno de divisas cantadas". O que é isso? Na falta de documento ou de cerca, a demarcação das terras de Javé era feita com base no canto: "De tal lugar até a pedreira é terra de fulano de tal..." Como garantir a posse da terra? Ocupando e cultivando o local. Se alguém chegar depois e cantar as divisas de um terreno já cultivado, sua cantoria não tem valor algum.
Por que isso é interessante? Para nós pode parecer exótico, uma vez que vivemos sobre a presença dos documentos. O que não pode ser documentado para nós logo não existe. Esse nosso fetiche pelos documentos nos leva a desconsiderar a cultura de outros povos que não se baseiam neles. Os povos indígenas, por exemplo, a maioria deles são cultura ágrafas, ou seja, sem escrita. A fala é o que predomina. Em muitas nações africanas acontece a mesma coisa. O contador de histórias ou griot, como os africanos o chamam, são quase tidos como pajés, pois eles guardam na memória as antigas histórias de certa comunidade ou de certa família.
O mundo da oralidade, para nós que crescemos e vivemos numa sociedade onde a cultura escrita é poderosa, parece muito frágil: afinal, se a história de uma vila está toda concentrada na cabeça de um indivíduo isso tudo pode sumir se acaso um dia ele morrer sem repassar a história para alguém. É verdade. A palavra falada tem seus perigos, mas a palavra escrita também não está longe de ter limitações parecidas. Ora, documentos podem ser roubados, extraviados, destruídos pelo mofo ou pelo bolor.
Enfim, a escrita não é superior a oralidade, nem vice-versa. São formas diferentes de se expressar. E só.

quarta-feira, 18 de janeiro de 2012

Pesquisando o movimento negro no Brasil e no Amazonas

Quem acompanha o blog sabe que no último semestre de 2011 desenvolvemos uma pesquisa sobre o movimento negro no Amazonas do qual resultou um pequeno vídeo chamado "Negros em Movimento: A Luta da Memória contra o Esquecimento".
O que nos sustentou durante a pesquisa de campo foi um conhecimento ainda que pequeno sobre a história do movimento negro no Brasil. Nossa maior fonte de consulta foi o livro organizado por Amílcar Pereira e Verena Alberti, Histórias do Movimento Negro no Brasil. Um livro com os depoimentos das principais lideranças do movimento negro dos estados de São Paulo, Rio de Janeiro, Minas Gerais, Bahia e Maranhão, dentre outros.

Entre os tópicos abordados estão o que os levou a despertar esse sentimento de negritude, de identidade negra, e como se deu sua entrada na militância política. Alguns pontos despertaram nossa curiosidade e os enumerarei aqui para refletirmos com mais calma:

1) A periodização do movimento negro é muito flexível: a maioria dos depoentes acreditava que o que eles estavam fazendo no final da década de 1970 era um feito inédito, mas anos depois entrariam em contato com uma geração de intelectuais e ativistas negros muito mais antigos que eles que desde os anos 30 vinham organizando movimentos. O livro de Alberti e Pereira adota essa periodização: o movimento negro teria começado na década de 1930 com a criação da Frente Negra Brasileira, continuaria na década de 1940 com a criação do Teatro Experimental do Negro e após algumas desarticulações finalmente se fortaleceria nas décadas de 1970 e 1980, se consolidando nos anos 2000 com o maior espaço que seus militantes e suas propostas tem desfrutado nas instituições oficiais.

Petrônio Domingues em seu artigo Movimento Negro Brasileiro: Alguns Apontamentos Históricos cria uma baliza temporal um pouco mais ampla, abrangendo o início da Repúblico e o começo do novo milênio (1889-2000). Na sua visão a série de agremiações recreativas negras que surgiram em São Paulo e no Rio de Janeiro, só para ficar nos exemplos mais conhecidos como o Clube 13 de Maio dos Homens Pretos ou o Centro Cívico Zumbi dos Palmares, após a Abolição também podem ser entendidos como movimentos sociais negros, pois ao lado de atividades de lazer também reivindicavam medidas contra a discriminação e discutiam de forma lúdica a questão da identidade negra.

2) A dicotomia entre cultura e política: muitos militantes encaravam a relação destas duas categorias como opostas e não complementares, ou seja, militar politicamente era visto como a única solução possível enquanto a movimentação cultural, segundo sua opinião, não trazia nenhuma conquista substancial na luta contra o preconceito. E o mesmo acontecia com os militantes que se espraiavam para as atividades culturais.
Essa dicotomia também chegou na historiografia. A interpretação de Petrônio Domingues, por exemplo, enxerga na manifestação cultural uma forma de ação política também. O diferencial é que a historiografia atual, assim como o movimento negro hoje como um todo, não vê mais uma oposição entre estas duas instâncias, mas uma complementaridade.
Hédio Silva Jr.

3) Hédio Silva Júnior, um importante militante do movimento negro paulista, em depoimento no livro de Alberti e Pereira diz que o movimento negro no Brasil apesar de tantas medidas ainda falta conquistar uma coisa: a unidade nacional. O que lhe parece até uma vergonha se comparado com a iniciativa dos líderes dos anos 30 que com muito mais dificuldades que a atual geração enfrenta conseguiram criar um movimento nacional, com diretórios na maioria dos estados do país: a Frente Negra Brasileira.
Essa falta de unidade é um ponto muito interessante. Podemos até questionar se a FNB foi realmente um movimento nacional devido a centralidade que ocupava a capital paulista em suas atividades políticas e aos poucos estados no Norte e Nordeste que possuíam diretórios seus. No final dos anos 70, com a fundação do Movimento do Negro Unificado temos novamente a proposta de um movimento de grandes proporções, mas as diferentes linhas de pensamento dos líderes regionais é um grande obstáculo. Num primeiro momento ele é superado devido ao inimigo em comum (o regime militar), mas com a redemocratização o painel muda e as cisões internas produzem uma série de dissidências.

4)A diversidade regional também é um fator muito interessante: nos anos 80, o Nordeste era uma das regiões onde o movimento negro mais tinha força. Os Encontros do Negro do Norte e Nordeste, iniciados em 1988 em Alagoas, foram muito importantes nesse ponto porque permitiram que os líderes regionais se conhecessem, compartilhassem projetos, adotassem novas iniciativas.
O interessante é que o movimento negro no Amazonas encontrou um grande obstáculo: a presença pequena de negros. Esse fator aliado á mentalidade racista que teima que somos uma sociedade sem preconceitos raciais ajuda a explicar porque o movimento negro no Estado se desenvolveu pouco em tanto tempo.
O primeiro encontro foi organizado no alto da Serra da Barriga, em Alagoas, por ocasião do tombamento de Palmares.

5)A colaboração de outros movimentos sociais é um dado importante: na maioria dos depoimentos encontramos indícios de que os movimentos negros nasceram ou receberam grande ajuda do movimento estudantil, do sindicalismo, de partidos de esquerda, dentre outros atores políticos. Milton Barbosa, o Miltão, lembra que o MNU em parte nasceu da união de estudantes universitários e líderes políticos de índole trotkista. O próprio Movimento Alma Negra do ativista amazonense Nestor Nascimento nasceu com a benção do PCB local e tentou ser reerguido por ele no final dos anos 80 com a criação da Fração Afro-Brasileira dentro do partido.
Nestor Nascimento por Vinicius AA.

Outros depoentes preferem frisar que estes movimentos sociais e partidos políticos não se comprometeram realmente com a causa da negritude, mas apenas se usou dela para conseguir apoio na luta contra o regime militar. O argumento é justificado pela resistência encontrada dentro dos partidos de esquerda, por exemplo, em debater a questão racial, em alguns casos. A desculpa dada era que a prioridade era a luta social e não a luta racial. Isso deixa claro que o relacionamento entre entidades negras e movimentos sociais diversos não era totalmente harmoniosa nem completamente conflituosa.

sábado, 17 de dezembro de 2011

Jongos, Calangos e Folias

Zanzando pela internet me deparei com esse excelente documentário de Hebe Mattos e Martha Abreu (ambas da Universidade Federal Fluminense) sobre manifestações culturais negras no Vale do Paraíba fluminense.
O nome do documentário é Jongos, Calangos e Folias: Música Negra, Memória e Poesia (2005). Postei aqui no blog o começo do vídeo, mas quem quiser vê-lo na íntegra é só dar uma passadinha aqui 


Para quem não sabe:
Jongo - É uma dança de origem angolana fortemente rural que gira em torno da improvisação e da advinhação. É considerado por muitos como o avô do samba, por causa de seu ritmo. O bairro de Madureira, no Rio de Janeiro, após a Abolição, foi um grande centro de jongos. A Escola de Samba Império Serrano foi fundada por jongueiros do Morro da Serrinha. Hoje os principais centros de jongos se encontram no Vale do Paraíba Fluminense (no lado paulista temos Guaratinguetá e Lagoinha também) e no interior de  Minas Gerais onde também são conhecidos como Caxambu (nome do tambor usado na dança).

Calango - Além de ser o nome de um lagarto, é também o nome de uma dança onde os pares dançam arrastando o pé, como o lagarto, enquanto dois cantadores, como os repentistas nordestinos, se desafiam com suas rimas. Também é muito presente na Baixada Fluminense, embora se fale nessa dança em todo o país, mas com variações profundas (em alguns lugares, calango pode ser o nome genérico para bailes, por exemplo).

Folia de reis ou reisado - A encenação da visita dos três reis magos ao menino Jesus pode ser de origem portuguesa, mas é sob a influência africana que ela ganha contornos mais coloridos e musicais. A festa basicamente começa no dia 6 de janeiro, com os reis magos e sua banda visitando todas as casas do bairro. Em cada casa, uma canção pela hospitalidade do dono em recebê-los e outra como despedida
Obs: Quando criança, a figura dos reis magos para mim só era menos assustadora que a dos bate-bolas. O motivo era a máscara toda tosca e os passos meio caóticos. Pensava que eram monstros. Eles chegavam em casa, comiam um pãozinho e bebiam um café e a banda tocando. Eu me danava a chorar. Coisas da infância, né?

Congada - Algumas são representações da batalha de Carlos Magno contra os mouros, outras histórias sobre São Benedito e Nossa Senhora do Rosário, mas existe uma terceira versão que fala sobre a vida de Chico Rei, um monarca do Congo escravizado e levado á Minas Gerais, mas que consegue juntar ouro e compra sua liberdade. Já ouvi falarem de congadas onde se representa a guerra do rei do Congo, convertido ao cristianismo, contra as tribos pagãs. Das congadas nasceram os maracatus, que são festas mais coloridas e frenéticas, sem um roteiro certo. Basicamente, no maracatu, os foliões dançam em homenagem ao rei do Congo. A parte falada foi sumindo aos poucos da dança.

Vale ressaltar que a maioria dessas danças folclóricas de origem negra são rurais e possuem quase os mesmos instrumentos (tambores como o caxambu e o alfaia, chocalhos como o ganzá, triângulo, sanfona, etc.) Com a urbanização muitas dessas danças perderam sua força, mas não quer dizer que estejam a ponto de estarem extintas. A UFF vem promovendo desde 1996 Encontros de Jongueiros, enquanto na cidade capixaba de Muqui são organizadas festas de grupos de reisado nacionais, só para ficarmos em dois exemplos.

domingo, 27 de novembro de 2011

Ações Afirmativas

"Porque, na verdade, as ciências sociais no Brasil - não vou dizer só a antropologia para não ferir suscetibilidades -, mas o problema é que parece que o problema racial no Brasil sempre foi um problema dos pretos. Florestan Fernandes, por exemplo, foi um aliado importantíssimo na luta contra or acismo, escreveu um livro em que ele disse que a escravidão teria deformado o negro brasileiro, teria incapacitado o negro brasileiro para se integrar socialmente, a anomia social, a coisa da disputa, a crítica a certas práticas que ele entendia que eram incompatíveis com a idéia de família, mas o que é interessante é que o Florestan, que era um marxista, não vai pensar na possibilidade de que a escravidão pode ter deformado o branco brasileiro.
Acho que o debate sobre ação afirmativa tem coisas interessantes: ele tira a branquitude do armário. Hoje há uma reação branca à ação afirmativa no Brasil. A branquitude - como um movimento político absolutamente articulado, organizado, que gere a economia, a política e as comunicações desse país com tranquilidade - vai botando as manguinhas de fora, digamos assim. Isso aparentemente tensiona mais as relações, porque até hoje quem foi para o microfone, quem foi para o debate público, foi a negritude - se eu for pensar a negritude como a antítese da branquitude. Agora, não; agora, o branco foi chamado para o debate público para ele dizer o que ele pensa das relações raciais. Está sendo forçado, na verdade, porque o debate sobre ação afirmativa força o branco a se manifestar".

Depoimento de Hédio Silva Júnior, advogado e militante do movimento negro em São Paulo, retirado do livro Histórias do Movimento Negro no Brasil: Depoimentos ao CPDOC. Organizado por Amilcar Araújo Pereira e Verena Alberti. (Rio de Janeiro: Pallas/CPDOC-FGV, 2007). p. 470.
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O livro de Florestan que Hédio menciona é o clássico A Integração do Negro na Sociedade de Classes (1964).

sábado, 26 de novembro de 2011

Resistência Escrava Política da Escravidão e Precarização da Liberdade no Amazonas Imperial

Ygor Olinto Rocha Cavalcante
Foto: Maurílio Sayão.
Esse era o título da palestra ministrada pelo mestrando em História pela UFAM, Ygor Olinto Rocha Cavalcante na segunda noite da Semana de Consciência Negra da Uninorte desse ano.
A fala de Ygor se iniciou com um caso interessante: a fuga de três escravos da propriedade de seu dono em 1851. Ignez, Felipe e Manoel fugiram e se refugiaram no interior da mata, mas uma expedição foi organizada para capturá-los. Uma vez pegos eles são remanejados, remetidos para outras funções.
O interessante é que o jornal A Estrella do Amazonas, um dos primeiros jornais da província, faz um artigo sobre o ocorrido aplaudindo o sucesso da expedição, depositando nessa fuga de escravos um peso muito forte. Esses três escravos foragidos eram encarados como braços que se evadiam da lavoura, enfraquecendo sua produção, e como subversivos do mais alto nível de perigo, pois poderiam invadir a cidade com seus amigos de mocambos a qualquer minuto.
O artigo, é claro, tem um pouco de exagero (temos de lembrar que a Revolução do Haiti, onde negros mataram seus senhores, por muito tempo assombrou a cabeça da elite brasileira), mas existem nele dois pontos interessantes: primeiro, a importância da lavoura era grande aqui, e em segundo, a importância dos escravizados também.
Ora, se o negro era importante porque a historiografia tradicional afirma que ele teve uma contribuição infíma na nossa história? Isso implica uma revisão historiográfica. Como podemos avaliar o real peso do negro na economia amazonense? Uma das respostas são as estatísticas. Através do número de escravos presente na província, Ygor pode verificar que a população negra aumenta na década de 1850 (quando ainda era apenas comarca do Grão-Pará), reflexo da Companhia de Comércio do Grão Pará e Maranhão que a partir de 1750 trouxe escravos para essa colônia.
Um grande mito foi quebrado. O outro seria de que a escravidão no Amazonas foi tão pequena que o senhor de escravos e seus escravos não conviviam por meio de relações autoritárias, ou seja, aqui a escravidão foi branda e amena. Por meio da leitura das notícias policiais e dos relatórios de prisões, Ygor nos apresenta uma sociedade tão paranóica quanto a dos cafeicultores paulistas em relação aos escravos. Se fossem vistos mais de dois escravos juntos em algum local público, já temia-se uma insurreição escrava e acionava-se a polícia. Muitas ordens de prisão de escravos eram expedidas com base nesse medo. Além disso, o aumento da atuação policial coincide com o aumento da exportação do cacau, café e fumo.
O mais interessante é que a mesma preocupação se tinha com os trabalhadores livres: sejam eles imigrantes brasileiros ou estrangeiros, muitas brigas se iniciavam entre eles e seus patrões ou com a polícia por causa do rígido controle que estes mantinham sobre eles. Ações fora do espaço de trabalho eram consideradas subversivas.
De todas essas ações, as fugas dos escravos eram as mais incovenientes e preocupantes para essa elite senhorial, porque elas aumentam as chances de uma revolta contra os senhores. Além de, como o artigo do jornal no começo dizia, retirar braços da lavoura local. Ora, só o ato de fugir das fazendas por si só pode ser encarado como uma evidência muito forte de que no Amazonas a escravidão não foi nada branda.
Essas considerações nos levam á algumas perguntas e certas conclusões. Quanto as perguntas: esse rígido controle social se originou como? Havia uma certa solidariedade entre trabalhadores livres ou não por causa dessa sua condição de serem constantemente vigiados e punidos? Algumas possíveis respostas: a escravidão indígena pode ter sua parte de culpa, mas uma série de acontecimentos no século XIX fez com que as elites senhoriais acreditassem que o Amazonas estava passando por uma crise de mão-de-obra (epidemias, revoltas políticas, fugas de escravos, deserções de trabalhadores livres, etc) e com isso reforçasse o trato com os trabalhadores. Quanto á solidariedade, Ygor nos fala que trabalhadores livres e escravizados se aproximavam sim, mas não se uniam, justamente por uma série de diferenças (culturais e sociais) que levavam ao conflito entre si.
Quais são as conclusões? A mais importante de todas é que a escravidão no Amazonas provincial representou um dado estrutural para se compreender as relações sociais dessa época. O controle social sobre os trabalhadores e a revolta (ainda que difusa) desses trabalhadores comprovam que também tivemos uma elite autoritária. Elite essa que buscará continuar com esse sistema social, mesmo depois da lavoura de cacau e café perderem sua força. O seringal pode ser entendido como uma extensão desse sistema.

A palestra do Ygor foi muito boa, cheia de informações muito úteis e propostas interessantes, por isso, com certeza falaremos mais dela aqui, nesse blog, mais para frente. O que acho essencial na sua fala é que ela busca rever conceitos um tanto errôneos sobre a escravidão na região, dando destaque não só para a força dessa instituição em nossa terra como também valorizando a influência da cultura negra nesse processo histórico. A todos que ficaram interessados com sua fala indico seu artigo "Fugindo, ainda que sem motivo": escravidão, liberdade e fugas escravas no Amazonas Imperial (1850-1888)" que está presente no livro organizado por Patrícia Sampaio, O Fim do Silêncio, que será lançado hoje ás 18h30 no Museu Amazônico.

quarta-feira, 23 de novembro de 2011

Negritude em versos (Parte I)

Um poeta e um píntor e algumas imagens sobre a cultura negra. A proposta de nosso estudo é de vasculhar a presença da cultura africana na Região Norte através da literatura. Escolhemos dois poemas, criados por artistas influenciados pelo modernismo e comprometidos em formar uma cultura amazônica longe do beletrismo que vinha imperando na Amazônia até então, que são emblemáticos justamente por sugerirem muitos ganchos para o estudo do negro na região.

Caricatura de Bruno de Menezes.
Bruno de Menezes, poeta paraense apaixonado pela cultura negra e um dos grandes expoentes do modernismo na terra do carimbó, era um homem que frequentava desde academias literárias até batuques de candomblé. Já na década de 1950, quando o Clube da Madrugada aqui no Amazonas dá os seus primeiros passos, Bruno já era um intelectual reconhecido. Reconhecido inclusive pelos artistas amazonenses, muitos o considerando uma espécie de sacerdote do movimento cultural que pretendiam operar em Manaus. É o caso de Arthur Engrácio que o considerava um "poeta-poeta" ou Genesino Braga, da tradicional Academia de Letras do Amazonas, que já o chamava de imortal. O imortal veio a falecer nos anos 60, justamente quando o Clube da Madrugada adquire mais força, mas os intelectuais locais trataram de fazer uma merecida homenagem: um busto seu foi feito pelo pintor e escultor Afrânio de Castro ás pressas e exposto na Praça da Polícia, onde se localiza até hoje.


Escultura póstuma de Bruno de Menezes feita por Afrânio de Castro em 1963.

Afrânio de Castro foi um dos tantos discípulos de Bruno, bem como o pesquisador Vicente Salles no Pará. O pintor já tinha se dedicado a realizar uma arte amazônica, abstrata e minimalista, mas através de Bruno passou a se inspirar no colorido e nos significados da cultura negra. Ao lado de Moacir de Andrade, Afrânio foi um dos artistas plásticos que ganhou destaque com o Clube da Madrugada, expondo quadros dentro e fora de Manaus. Como todo bom artista da época, teve seus momentos de aperto, passando a morar no IGHA por um tempo graças ao favor de um amigo. O sujeito de personalidade forte e marretento, que manteve algumas arrengas com Moacir Andrade e Luiz Bacellar, veio a morrer afogado na Ponta Negra na década de 1970. A morte trágica parece acompanhar os artistas amazonenses: mais ou menos na mesma década o jovem pintor Hanneman Bacellar se suicidaria, por não aguentar mais o preconceito e a miséria.
Um fio condutor que une tanto as trajetórias do venerável Bruno de Menezes com a do intenso Afrânio de Castro é a preocupação em retratar uma cultura negra dentro de uma cultura amazônica. Veremos adiante, com mais detalhes, que cada um o faz á sua maneira.
O livro mais famoso de Bruno foi Batuque (1931), de onde retiramos o poema Pai João. Embora Afrânio seja mais reconhecido pelas Artes Plásticas, ele também nos deixou uma ampla produção poética e cronística no Suplemente Madrugada d'O Jornal. Recolhemos das páginas amareladas dos jornais o poema Macumba.

O Negro no Amazonas

Profa. Arlete Anchieta (CDB/FOPAAM)
Foto: Maurílio Sayão.
No primeiro dia da Semana da Consciência Negra da Uninorte, a coordenadora geral do Fórum Permanente dos Afro-Descendentes, Profa. Arlete Anchieta, proferiu uma palestra sobre o movimento negro no Amazonas.
A palestra inicia-se homenageando uma figura conhecida aqui nesse blog, o intelectual e militante negro Nestor José Soeiro do Nascimento (1947-2003). Um dos pioneiros do movimento negro no estado do Amazonas, hoje quase esquecido pela maioria da população. Fundou a primeira entidade política negra local que se tem notícia, o Movimento Alma Negra (MOAN) no final dos anos 60.
Nestor José Soeiro Nascimento
Foto: Clóvis Eugênio/ Arquivo Em Tempo.
Muitos não viam necessidade em um movimento negro no Amazonas, onde a presença negra é quase mínima. Mas isso é um mito: a historiografia amazonense local tem combatido essa lenda criada pelos historiadores tradicionais, demonstrando o peso da escravidão africana na região. Arlete nos apresenta então um pequeno histórico sobre esta instituição no Amazonas: a origem dos escravizados, as rotas que seguiam para chegar na província, as ocupações em que eram empregados etc.
A presença negra tem um espaço todo seu na cultura amazônica e ele não é pequeno. A professora nos lembrou da origem negra da festa mais popular do Amazonas: o Boi Bumbá. Além disso, mencionou outras tantas manifestações culturais como a capoeira, o tambor de Mina, o samba etc. Não só manifestações culturais como também personagens conhecidos como a mãe-de-santo de São Jorge Joana Galante, o capoeirista Mestre Vermelho, o ex-secretário de saúde Henrique Mello e o famoso governador dos tempos da Belle Epóque Eduardo Ribeiro, dentre outros.
Vista panorâmica da Praça 14 nos anos 70
Foto: Cassius da Silva Fonseca.
A presença negra também se configura no traçado urbano de Manaus: os tradicionais bairros negros como Praça 14 de Janeiro, Seringal-Mirim (hoje Nossa Senhora das Graças), Morro da Liberdade, São Jorge etc. Hoje, estes bairros deixaram de ser redutos exclusivamente da cultura negra. A própria cultura negra está se irradiando por outros bairros como o Zumbi, Cidade Nova, Japiim, de história mais recente.
Logo, podemos concluir que a presença negra não é tão mínima assim quanto se imaginava. O objetivo do movimento negro é justamente trabalhar esta identidade, no sentido de valorizá-la. Enquanto a história oficial inculcou na cabeça de toda a população que não há quase negros no Amazonas, o movimento negro aqui tem o dever de contestar isso através não só de uma revisão historiográfica como também de ações que reafirmam a identidade negra.
E nesse tópico, a Profa. Arlete começa a falar dos movimentos negros no estado:
-Movimento Alma Negra (MOAN) fundado por Nestor Nascimento em meados dos anos 60 e sendo extinto alguns anos depois;
-Movimento Orgulho Negro (MON), criado nos anos 80 por antigos militantes do MOAN e moradores da Praça 14, que nos anos 90 se transformaria em Associação do Movimento Orgulho Negro do Amazonas (AMONAM);
-Movimento Afro-Descendente do Amazonas (AFROAMAZONAS), criado em fins de 2006, para reunir as lideranças dos demais movimentos negros da região, principalmente para divulgar suas opiniões.
-Fórum Permanente de Afro-Descendentes do Amazonas (FOPAAM), fundado em 2000 para congregar as demais entidades negras em seu bojo. Instituição da qual a professora Arlete Anchieta faz parte na condição de coordenadora geral.
O FOPAAM tem uma ligação com mães e pais de santo, mestres de capoeira, cantores de hip-hop e até quilombolas do Amazonas. Sim, no Amazonas existem quilombos (ao todo 15 comunidades), mas a professora mencionou o caso específico da comunidade de Novo Ayrão, onde o FOPAAM vem acompanhando todo o seu processo de legalização.
O próximo tópico da palestra foram as polêmicas políticas de ação afirmativa como as cotas raciais nas universidades, a legalização dos quilombos, o Estatuto da Igualdade Racial e o ensino de História da África nas salas de aula, por exemplo. Segundo a professora, a intenção não é revanchismo, mas tentar equilibrar uma condição social imposta por 300 anos de escravidão: a marginalização do negro. O preconceito é apenas um dos obstáculos que o negro brasileiro tem de enfrentar para poder ascender socialmente: entre os demais estão a falta de uma educação de qualidade e a baixa renda nos empregos. São medidas para afetar esse status quo.

Enfim, como vocês podem perceber, foi uma palestra muito proveitosa e esclarecedora. O estilo descontraído da Profa. Arlete também ajuda e muito que todos se interessem mais por esse tema. Ao meu ver, a Semana de Consciência Negra não poderia ter começado melhor.

sábado, 19 de novembro de 2011

VIII SEMANA DA CONSCIÊNCIA NEGRA - UNINORTE

Aqui está (com um certo atraso) a programação da oitava Semana da Consciência Negra, cujo tema deste ano será A Presença da Cultura Negra no Brasil e na Amazônia, promovida pelo curso de História da Uninorte:

Foto: Maurílio Sayão.


Dia 16

18h30mim
Abertura com ritual africano
William Daniel (Grupo Zimbábue)

19h30min
Palavras da Coordenação do Curso
Profa. Msc. Elisângela Socorro Maciel

19h10min
As Ideologias Afro-Brasileiras
(encenação com alunos e egressos do curso)

20h
Palestra: Movimentos negros no Amazonas
Profa. Msc. Arlete Anchieta (CDB/FOPAAM)

21h
Debate

22h
Encerramento
__________


Dia 17

18h30min
Abertura com dança
Grupo Zimbábue

19h
Negros em Movimento: a luta da memória contra o esquecimento
Documentário produzido por:
Prof. Msc. Arcângelo da Silva Ferreira, Antônio Everton Andrade, Francisca Anália Silva, Maria Lucirlei Barbosa, Maurílio Sayão e Vinicius Alves do Amaral.

19h30min
Debate

19h50min
Palestra: Resistência Escrava Política da Escravidão e Precarização da Liberdade no Amazonas Imperial
Prof. Ygor Olinto Rocha (UFAM)

20h50min
Debate

21h20min
Apresentação do projeto Faculdade no Meu Terreiro
Prof. Esp. Maurício Aurélio Couto Marques, Heberson Cardoso, Náira Pthera Fonseca de Souza e Washington Philipi Correa Barbosa.

22h
Encerramento
___________


Dia 18

18h30min
Abertura: apresentação de capoeira

19h
Palestra: Encantaria
Pai Jean Karlos Lima Nascimento

20h
Palestra: Encantaria na Amazônia
Prof. Marlon Seabra

20h50min
Atrações musicais: discentes do curso de Licenciatura em História
Miquéias William, Eusimar Fernandes e Franciley Jibson.

22h
Encerramento

Foto: Maurílio Sayão.

sexta-feira, 18 de novembro de 2011

Consciência Negra

SOU NEGRO
Solano Trindade
(1908-1974)

A Dione Silva

Sou Negro
meus avós foram queimados
pelo sol da África
minh'alma recebeu o batismo dos tambores atabaques, gonguês e agogôs

Contaram-me que meus avós
vieram de Loanda
como mercadoria de baixo preço plantaram cana pro senhor do engenho novo
e fundaram o primeiro Maracatu.

Depois meu avô brigou como um danado nas terras de Zumbi
Era valente como quê
Na capoeira ou na faca
escreveu não leu
o pau comeu
Não foi um pai João
humilde e manso

Mesmo vovó não foi de brincadeira
Na guerra dos Malês
ela se destacou

Na minh'alma ficou
o samba
o batuque
o bamboleio

e o desejo de libertação...

sexta-feira, 11 de novembro de 2011

Novidades

A equipe na ilha de edição: Maria Lucirlei Barbosa, Maurílio Freitas Sayão, Francisca Anália Ferreira Silva e eu. No computador, Edson Egas.
Foto: Maurílio Sayão.
Os leitores frequentes desse blog (se por acaso ele tiver alguns) devem estar se perguntando por que a demora em novas atualizações. O motivo vem a ser meu envolvimento com o projeto de extensão da faculdade sobre alteridade e diversidade na Amazônia Brasileira. Nosso projeto está em uma fase muito interessante e agitada: estamos construindo um pequeno vídeo sobre o movimento negro no Amazonas.
O pretenso documentário será exibido na VIII Semana de Consciência Negra do Departamento de História da Uninorte, entre os dias 16 e 18 desse mês.
Estamos muito cansados por conta da carga de material que coletamos e agora estamos editando, no entanto, também estamos muito ansiosos para vermos o produto pronto e a recepção do nosso público. Ficamos um pouco triste, pois tivemos que retirar muita coisa importante por conta do tempo, mas pretendemos fazer futuramente um documentário que englobe mais discussões e mais fontes.

sábado, 24 de setembro de 2011

Tambor de Mina

Pórtico da Casa da Mina Reino de Daomé de Xapanã. Foto: Pai Jean de Xapanã.
Sábado passado eu e um grupo de colegas visitamos a Casa de Mina Reino Daomé Lego de Xapanã, na Cidade Nova, administrada por Pai Jean de Xapanã ou Toy Azondelo de Xapanã, para entender melhor essa religião de matriz africana que nasceu no Maranhão por volta de 1840 e que hoje existe em quase todos os Estados da região Norte (Amazonas, Maranhão, Piauí e Pará principalmente). 
A Casa de Minas vem da nação Jeje, enquanto a Casa de Nagô, como o próprio nome diz, pertence á cultura nagô. Por que então o nome Tambor de Mina? Mina era uma localidade na costa africana, onde hoje existe a República de Gana. Essa região foi batizada como São Jorge da Mina pelos portugueses que chegaram a construir um forte ali. Todos os habitantes dessas paragens recebiam o nome genérico de Mina, denunciando a sua origem e depois a sua nação.Por exemplo, existiam os Minas-jejê e os Minas-nagô.
A primeira manifestação do culto se deu em São Luís do Maranhão na década de 1840. Ali foi construída a Casa Grande das Minas Jejê (também conhecida como Querebantân de Zomandônu) e quase na mesma época uma Casa Nagô também foi erguida no mesmo bairro. Querebantân significa "palácio" na língua jeje, enquanto Zomandônu é um título real. Esse título pertencia á Maria Jesuína, que em terras tupiniquins era apenas mais uma escrava, mas que no Reino Daomé era a rainha Nã Agotimé, presa após a morte de seu marido e vendida como escrava graças a um complô político.
O culto é conhecido por seu comportamento muito comedido, ou seja, a maioria dos rituais são secretos. A própria transe é muito discreta e o simbolismo dos terreiros é enorme. Muitos classificam o Tambor de Mina mais como uma dança popular que propriamente uma religião, já que a dança é a parte mais divulgada sobre o culto. Na Casa das Minas o culto é mais restrito ainda. Nesse sentido, Pai Francelino de Xapanã foi um importante divulgador da Casa de Minas e do Tambor de Mina em si, ajudando a quebrar as imagens preconceituosas que muitas pessoas nutrem sobre essa religião. A prova maior de seu empenho talvez seja a fundação de uma Casa das Minas em São Paulo, ou seja, além do eixo Amazônia-Nordeste.
O universo do Tambor de Mina é muito rico e aqui não falei nem metade do que ele compreende. Nossa intenção é fornecer informações que sirvam de trampolim para futuras pesquisas de interessados. Esse foi um texto, portanto, introdutório. Pretendo falar mais sobre essa importante religião afro-brasileira tão forte aqui no Norte do país, mas, por enquanto, vou deixar vocês com algumas palavras essenciais sobre o Tambor de Mina:

-Assentamento: espécie de altar dedicado a um vodun em especial;
-Autuar: quando alguma pessoa está incorporando um vodun ou encantado diz-se que ela está autuada.

-Encantado: toda aquela pessoa que não conheceu a morte, que foi para um plano além deste sem ter passado pela morte. Chama-se encantaria o ritual em que se chamam os encantados ;

-Vodun: o equivalente ao Orixá na Umbanda, é uma entidade mais evoluída. Um encantado pode se tornar um vodun, portanto;

-Vodunsi: nome dado á pessoa que incorpora um vodun;

Obs: Tanto os encantados como os voduns, na maioria das vezes, se organizam em clãs, famílias ou "panteões" como diz o pesquisador Sérgio Ferreti. A maioria não tem origem nacional e possui alguma ligação com a realeza. Por exemplo, D. Sebastião, o nobre português que sumiu nas batalhas contra os mouros no Marrocos, e as princesas Flora, Luzia e Rosinha, de origem turca. Mas muitos também tem origem humilde e local, como a Família dos Botos, Índio Velha, Caboclo Pena Branca, dentre muitos outros.

terça-feira, 20 de setembro de 2011

Nestor, a alma do movimento negro no Amazonas

Me lembro de ter ouvido da professora Arlete Anchieta, presidente do Fórum dos Afro-descendentes do Amazonas, em uma palestra que no Amazonas existiram poucos movimentos sociais negros, tirando o MOAN (Movimento Alma Negra). "Havia só o Nestor Nascimento há uns anos atrás dizendo, sozinho, que era negro numa terra de gente morena".
Nestor Nascimento (1947-2002) fundou não só o MOAN, como também participou da fundação da Escola de Samba Vitória Régia. Advogado por formação, atuou por muitos anos como professor (aliás, o primeiro curso pré-vestibular de Manaus, Dinâmico, era seu).
Estou falando de Nestor hoje porque acabei de ler o ótimo post do Simão Pessoa sobre seu amigo. Aconselho á todos os interessados em História do Amazonas, da cultura afro-brasileira ou dos movimentos sociais no Amazonas que leiam esse post tão cativante: Meu Amigo Nestor

sexta-feira, 17 de dezembro de 2010

Amazonas Negro


Geralmente quando se fala em Amazonas a primeira figura que nos vêem á mente é a do índio. Sim, a presença indígena é grande na região, mas ela não é a única. A complexidade amazônica é enorme: na cidade de Manaus podemos encontrar japoneses, judeus marroquinos, sírios, libaneses, dentre tantos outros povos.
A presença negra no Amazonas, no entanto, é dada como quase inexistente. A historiografia demonstrou que isso não é verdade: apesar de nos tempos coloniais o trabalho compulsório indígena ser hegemônico em Manaus e Belém, os negros tiveram sua participação na história amazônica através da Companhia de Comércio do Grão Pará, fundada por Pombal justamente para fornecer escravos africanos á região.
Estes se concentraram mais no Pará, mas muitos vieram para o Amazonas, fugidos ou comprados por fazendeiros e comerciantes locais. Está claro que sua presença foi limitada, mas não inexistente, como se costuma pensar. Aliás, a escassez de escravos africanos na capital do Amazonas não significa que aqui a escravidão tenha sido mais branda. Se assim fosse, por que os escravos fugiam para o interior da floresta constituindo assim os mocambos? Ou por que tentavam fugir para outros estados?
Com a instalação da província do Amazonas, precisava-se construir uma capital á altura de uma grande província e como mão-de-obra nesse processo de remodelamento temos principalmente os indígenas e os negros. O governo provincial declarava-se insatisfeito com esses dois trabalhadores por sua indisciplina (ambos fugiam ou faziam "corpo mole" durante o trabalho, segundo os governadores) e tentou em vão incentivar a imigração estrangeira para o estado. Diante da falta de sucesso, o jeito foi apostar em Institutos de Instrução como o Instituto de Artífices do Educandos (esse voltado mais para os índios).
Com as grandes secas e a descoberta do valor da borracha, as grandes massas de imigrantes do Nordeste chegam na cidade e tanto o braço índio quanto o braço negro são ofuscados pelos novos trabalhadores que irão agora se embrenhar nos seringais e no remodelamento da Paris dos Trópicos.
Muitos autores nos revelam que tanto tapuias como negros foram alçados ao mesmo nível de marginalização: viviam nos igarapés, tinham má instrução e más condições de moradia e saúde. Essa população se formou á margem da cidade da Belle Epoque. O negro, mais ainda que o índio, foi colocado para debaixo do tapete de uma cidade que pretendia ser uma nova cidade européia. No entanto, a cultura negra se desenvolveu e se arraigou na cultura amazônica: basta lembrarmos do tambor de mina, da capoeira, do conhecimento da metalurgia, dentre tantas outras contribuições.
Movimentos que reconheçam essa contribuição em Manaus são recentes, se não me engano datam dos anos de 1970 através principalmente da ação do grande ativista Nestor José Soeiro. Como o movimento negro, a historiografia sobre o negro em Manaus é recente também, mas tem reservado ótimas surpresas e excelentes trabalhsos, que, espero, estão longe de acabar.