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quarta-feira, 11 de julho de 2012

O polêmico cardeal se vai


Dom Eugênio Sales, um cardeal que se impôs e fez Historia. Esse é o título da reportagem de Marcelo Auler do site do Jornal do Brasil sobre uma das figuras mais marcantes da Igreja Católica brasileiras nos últimos anos. 
D. Eugênio era potiguar, apesar de muitos acharem, pela fisionomia, que era gaúcho. Tinha seus desentendimentos com D. Hélder Câmara e os irmãos Boff por causa da sua aproximação com a Teologia da Libertação (diretriz que surgia nos países latino-americanos inspirada no comunismo que pregava que a Igreja deveria fazer a sua opção pelos pobres antes de tudo), mas fez várias cartas e trabalhos pastorais nas favelas enquanto foi arcebispo do Rio de Janeiro. Aliás, na vinda de João Paulo II para o Brasil fez questão que o papa visitasse o Morro do Vidigal.
Talvez o seu lado mais polêmico seja a sua conexão com os setores militares durante a ditadura. D. Eugênio não escondia sua relação tanto com a linha dura quanto com os militares mais moderados, conhecidos como castelistas ou membros da Sorbonne. O cardeal era conservador e anticomunista, mas mesmo assim intercedeu pela vida de muitos presos políticos durante a ditadura, se valendo de seu prestígio como arcebispo do Rio de Janeiro e de seus contatos estratégicos. A pouco tempo, foi revelado que deu abrigo para muitos refugiados políticos, fugidos das ditaduras do Cone Sul.
Nos últimos anos, D. Eugênio não participou de mais nenhuma polêmica, por isso muitos acreditaram que já tinha falecido, sendo o autor deste post um deles. Mas a verdade é que ele estava desfrutando a sua vida de cardeal emérito com tranquilidade, longe dos holofotes, mas sempre atualizado com as diretrizes do Vaticano. Nessa segunda-feira, esse personagem tão ambíguo e polêmico nos deixou aos 91 anos. Hoje, quarta-feira, seu corpo foi sepultado na Catedral Metropolitana do Rio de Janeiro. Lá se vai mais uma lenda nacional.

sábado, 7 de abril de 2012

O Paradoxo do Grande Inquisidor


Jesus Cristo escolheu voltar á Terra no tempo da Inquisição. Andando pelas ruas de Sevilha, logo é reconhecido pelo povo. Eis que surge o grande inquisidor, um senhor de noventa anos, que por alguma razão sabe que aquele homem barbudo, diferente de todos os outros beatos que prendeu e queimou, realmente é o Salvador. Mesmo assim manda que ele seja preso.
Á noite, na prisão, Jesus é visitado pelo velho sacerdote que explica o seu ato: Ele tinha que ser preso, pois do contrário destruiria toda a Igreja e a Humanidade entraria no caos. Ora, a mensagem maior de Jesus é de que somos livres, mas os homens não estão preparados para serem livres. Por isso a Inquisição existe e por isso tantas pessoas seguem cegamente o que a Igreja diz. Se Cristo lembrasse aos seus fiéis de então isso, eles entrariam em crise, pois são felizes assim, não tendo que conviver com o dilema de escolher o melhor caminho porque os sacerdotes farão isso por eles.
Essa história não é minha. Ela pode ser encontrada no livro Irmãos Karamazov do escritor russo Fiodor Dotoiévsky. Faz parte de um poema que um dos irmãos criou. O sentido do poema é demonstrar que as religiões são mentirosas, que elas são placebos para amenizar a dor de ter de fazer as suas próprias escolhas. Esse era o sentido que o autor do poema, o cético e intelectual Ivan, queria passar (essa é apenas a visão do personagem e não do autor; Dotoiévsky era cristão ortodoxo devotíssimo).
Essa história me lembra uma frase famosa do pensador francês Paul Claudel que é mais ou menos assim: "A maior lição do Cristianismo não é de que Deus nos protegerá, mas que Deus confia em nós". Por confiar em nós nos concedeu o livre-arbítrio. Para que não fossemos condenados por nossos pecados fez com que seu Filho morresse na cruz. Resumindo, o amor de Deus por nós é tão grande que nos presenteou com a liberdade.
No entanto, como uma religião de amor e paz pode ser capaz de conceber a Santa Inquisição? Um dos argumentos do velho inquisidor é de que tudo o que Jesus falou era muito bonito na teoria, mas na hora de ir para a prática as coisas deveriam mudar. O homem não estaria preparado para ser livre. A Igreja deveria tutelá-lo até ele estar pronto. E nesse caminho ela desandou também, uma vez que ela também é feita por homens, como todos os outros falíveis.
Chamo isso, essa desvirtuação, de Paradoxo do Grande Inquisidor. Por mais pacífica que for a religião ela pode estar passível de desvirtuar o seu caráter, já que ela é passível de errar (afinal, são homens que a administram). O que impede isso? A renovação da sua mensagem original. É preciso fazer o que o Grande Inquisidor não fez: reencontrarmos com Jesus. Ouvirmos suas palavras de novo, como se fosse a primeira vez.
Qual o maior símbolo da renovação da mensagem cristã que a própria Páscoa? A ressurreição de Cristo, simbolizando o desafio á própria morte. O esquecimento também pode ser uma forma de morrer. O esquecimento é o túmulo dos ideais. Deixo como proposta para vocês a renovação não só da vida, que a mensagem de Cristo traz, mas a renovação da própria mensagem.
Antes de ir devo contar o final da história do inquisidor: o velho e sisudo sacerdote conta todas as razões que o levaram a prender Cristo, mas no fim decide libertá-lo. Sua prisão será o bastante para convencer o povo de que era mais um falso messias. O liberta para que vague pelas ruas como um mendigo. Se voltar a atiçar seus fiéis, será preso novamente. Jesus sai da cela, mas antes de ir embora dá um beijo na testa do inquisidor e diz o seguinte senão me engano: "compreendo tudo o que você disse, mas ainda assim meu amor é mais forte."

sábado, 24 de setembro de 2011

O curioso caso do Rabi Emmanuel Muuyal

O Túmulo de Rabi Shalom Imanu El-Muyal. Foto: Equipe Desvairada Baricéia.
Um rabino como santo popular? Parece até um conto de Millôr Fernandes, mas é verdade. No Cemitério São João Batista, o túmulo do rabino (ou rabi ou ribi, como se fala no Oriente Médio) Emmanuel Muuyal ou Shalom Imanu El-Muyal tornou-se foco de uma devoção popular. Muitos vão ali pedir pequenos milagres e quando atendidos fazem questão de deixarem no túmulo (cercado por um pequeno muro para explicitar a origem não-católica do homem ali enterrado justamente porque na época não existiam cemitérios israelistas em Manaus) votos, agradecimentos.
Hoje seu túmulo se encontra no Cemitério Israelita, ao lado do Cemitério São João Batista, no Boulevard. Foi preciso construir uma grade para que a quantidade de votos não engolisse o próprio túmulo. A Comunidade Judaica de Manaus, a cada ano recitava uma prece pelos que ali descansam, e foi assim que acompanharam, ano por ano, o crescimento da devoção ao "santo rabino milagreiro de Manaus". Turistas israelenses já vieram a Manaus só para conhecer o tão falado rabi, prova de que sua devoção ultrapassou os limites da Amazônia.
Na década de 1980, seu sobrinho, Eliahu Muyal, figura importante na política israelense (membro do Parlamento de Israel e Ministro dos Transportes) tomou conhecimento através de um amigo que foi visitar Manaus que seu tio tinha sido sepultado ali. Logo endereçou uma carta ao presidente da Comunidade Judaica de Manaus, o então professor Samuel Benchimol, pedindo que os restos mortais de seu tio fosse transladados para Israel. Benchimol pensou bastante e respondeu que não poderia fazer isso, já que a comunidade católica da cidade ficaria furiosa ao verem um de seus santos milagreiros serem retirados de sua terra.
Engraçado. O rabi Muyal tinha vindo á Manaus á pedido de seu mentor e grande amigo Rabi Refael Encáua, chefe da Comunidade Judaica Marroquina, justamente para aprofundar o judaísmo na Amazônia e acabou sendo cultuado como santo pela população amazonense que é, em sua maioria, católica. O rabino aqui chegou em 1908 e veio a falecer dois anos depois, vítima de uma doença tropical. Os milagres teriam começado não muito tempo depois de ter sido enterrado. A fama de milagreiro se espalhou e hoje existem inúmeras histórias sobre as "graças alcançadas". Essa é uma das tantas ironias da História. E, no caso, uma boa ironia, uma vez que ajudou a aproximar a população local com a cultura judaica. Mesmo que tenha deturpado um pouco seu significado, esse culto popular é um elo de ligação importante com a comunidade hebraica que tanta importância tem em nosso Estado.

Mais informações sobre o caso do Rabi Muyal:
-Documentário Eretz Amazônia- Os Judeus na Amazônia (2004), dirigido por Alan Rodrigues (veja aqui o trailer);
-Artigo de David Salgado, A Verdadeira História de Ribi Muyal, na revista digital Morashá.

Tambor de Mina

Pórtico da Casa da Mina Reino de Daomé de Xapanã. Foto: Pai Jean de Xapanã.
Sábado passado eu e um grupo de colegas visitamos a Casa de Mina Reino Daomé Lego de Xapanã, na Cidade Nova, administrada por Pai Jean de Xapanã ou Toy Azondelo de Xapanã, para entender melhor essa religião de matriz africana que nasceu no Maranhão por volta de 1840 e que hoje existe em quase todos os Estados da região Norte (Amazonas, Maranhão, Piauí e Pará principalmente). 
A Casa de Minas vem da nação Jeje, enquanto a Casa de Nagô, como o próprio nome diz, pertence á cultura nagô. Por que então o nome Tambor de Mina? Mina era uma localidade na costa africana, onde hoje existe a República de Gana. Essa região foi batizada como São Jorge da Mina pelos portugueses que chegaram a construir um forte ali. Todos os habitantes dessas paragens recebiam o nome genérico de Mina, denunciando a sua origem e depois a sua nação.Por exemplo, existiam os Minas-jejê e os Minas-nagô.
A primeira manifestação do culto se deu em São Luís do Maranhão na década de 1840. Ali foi construída a Casa Grande das Minas Jejê (também conhecida como Querebantân de Zomandônu) e quase na mesma época uma Casa Nagô também foi erguida no mesmo bairro. Querebantân significa "palácio" na língua jeje, enquanto Zomandônu é um título real. Esse título pertencia á Maria Jesuína, que em terras tupiniquins era apenas mais uma escrava, mas que no Reino Daomé era a rainha Nã Agotimé, presa após a morte de seu marido e vendida como escrava graças a um complô político.
O culto é conhecido por seu comportamento muito comedido, ou seja, a maioria dos rituais são secretos. A própria transe é muito discreta e o simbolismo dos terreiros é enorme. Muitos classificam o Tambor de Mina mais como uma dança popular que propriamente uma religião, já que a dança é a parte mais divulgada sobre o culto. Na Casa das Minas o culto é mais restrito ainda. Nesse sentido, Pai Francelino de Xapanã foi um importante divulgador da Casa de Minas e do Tambor de Mina em si, ajudando a quebrar as imagens preconceituosas que muitas pessoas nutrem sobre essa religião. A prova maior de seu empenho talvez seja a fundação de uma Casa das Minas em São Paulo, ou seja, além do eixo Amazônia-Nordeste.
O universo do Tambor de Mina é muito rico e aqui não falei nem metade do que ele compreende. Nossa intenção é fornecer informações que sirvam de trampolim para futuras pesquisas de interessados. Esse foi um texto, portanto, introdutório. Pretendo falar mais sobre essa importante religião afro-brasileira tão forte aqui no Norte do país, mas, por enquanto, vou deixar vocês com algumas palavras essenciais sobre o Tambor de Mina:

-Assentamento: espécie de altar dedicado a um vodun em especial;
-Autuar: quando alguma pessoa está incorporando um vodun ou encantado diz-se que ela está autuada.

-Encantado: toda aquela pessoa que não conheceu a morte, que foi para um plano além deste sem ter passado pela morte. Chama-se encantaria o ritual em que se chamam os encantados ;

-Vodun: o equivalente ao Orixá na Umbanda, é uma entidade mais evoluída. Um encantado pode se tornar um vodun, portanto;

-Vodunsi: nome dado á pessoa que incorpora um vodun;

Obs: Tanto os encantados como os voduns, na maioria das vezes, se organizam em clãs, famílias ou "panteões" como diz o pesquisador Sérgio Ferreti. A maioria não tem origem nacional e possui alguma ligação com a realeza. Por exemplo, D. Sebastião, o nobre português que sumiu nas batalhas contra os mouros no Marrocos, e as princesas Flora, Luzia e Rosinha, de origem turca. Mas muitos também tem origem humilde e local, como a Família dos Botos, Índio Velha, Caboclo Pena Branca, dentre muitos outros.

sábado, 16 de julho de 2011

Santa Tolerância!

Na última Parada do Orgulho LGBT em São Paulo causou polêmica as imagens promovidas pela nova campanha do movimento. Nessas imagens apareciam modelos musculosos e seminus representando santos. As imagens eram acompanhadas de frases como "Nem santo salva da Aids". O presidente da parada, Ideraldo Beltrame, disse que o objetivo da polêmica campanha era demonstrar que a doença atinge qualquer tipo de pessoa, independente de sua religião. O arcebispo de São Paulo, Dom Odílio Scherer, disse que um comportamento correto pode sim salvar as pessoas da Aids e que as imagens atacaram diretamente a religião católica, já que são imagens sagradas. "Quem deseja ser respeitado também tem de respeitar", concluiu o arcebispo.
Não sou católico, mas concordo em parte com Dom Odílio. Uma das maiores conquistas que tivemos nesses últimos anos no Brasil foi a liberdade. Não a liberdade total, pois ela é um mito. Mas algo certamente muito melhor do que se dizia ser liberdade nos anos de chumbo. A garantia da liberdade deve vir acompanhada com a garantia de respeito. É um príncipio que segue o velho ditado: a sua liberdade termina onde a do outro começa. É um princípio básico para a vida em comunidade e para a democracia.
O individualismo, de uns tempos pra cá, tem se aproveitado do direito á liberdade em detrimento do direito ao respeito. E o individualismo parece ter atingido a maioria das pessoas ou dos movimentos sociais.
Una-se ao individualismo uma moda: a do politicamente correto. A luta pelos direitos humanos que começou no século passado chegou ao novo milênio como o símbolo da pessoa consciente ou do rebelde com causa. Embora hoje se rejeite um pouco o posicionamento político, engrandece-se quem luta pelos direitos de certo segmento da sociedade, seja ele quem for.
Qual o problema? Temos um punhado de organizações e movimentos que não conseguem se unir para lutar pelos seus direitos, as manifestações ficaram mais fragmentadas. Além disso, estes movimentos abrigam pessoas que desonram as bandeiras dignas porque lutam, pessoas que entram no movimento simplesmente pela moda e não pela causa realmente. O que acontece? A sociedade se radicaliza. Por um lado é até interessante esse conflito, pois ele permite que discutamos coisas que não discutiríamos em público. Por outro é negativo, uma vez que tende a rotular as pessoas, ele simplica demais o que impede realmente uma conscientização.
Tomemos essa campanha como exemplo. O objetivo era conscientizar do risco da Aids, no entanto acabou descambando para o ataque á um grupo conservador que não valida essas manifestações. Alguns dias antes Miriam Rios tinha desqualificado o homossexualismo e a Marcha com Deus tinha batido nessa mesma tecla. Vejo essa campanha como uma espécie de retaliação. As imagens subvertem uma esfera muito importante na vida de muita gente: a religião. E justamente num momento delicado onde vivemos entre debates e manifestações de violência. Isso pode gerar mais manifestações de ódio. Como disse, é a rotulação e a radicalização em marcha.

Devemos lembrar dos dois princípios essenciais para a democracia, um dos regimes nos quais os direitos humanos são menos inutilizados: o direito á liberdade e o direito ao respeito. Tolerância é a palavra certa. É difícil numa democracia não chocarmos nossa liberdade com a liberdade do próximo, mas devemos pelo menos tentar. Até agora tenho visto isso acontecer raramente em nosso país. O respeito não tem sido praticado por ambos os lados do jogo.

quarta-feira, 1 de junho de 2011

Ateus: um delírio?

Campanha dos agnósticos e ateus na Inglaterra em 2009: está escrito no ônibus "provavelmente Deus não existe/ pare de se preocupar agora vá curtir a vida".
Giordano Bruno foi queimado pela Inquisição por não acreditar na Trindade Divina, enquanto Michel de Servet foi queimado pelo mesmo motivo, no entanto, pelos protestantes em Genebra. A sua rejeição quanto ao conceito de Trindade Divina pode ser entendida como um ataque á própria crença em Deus? Esses dois episódios são apenas a ponta do iceberg da discussão sobre o ateísmo na Idade Média e Moderna.
Seria possível existir numa época na qual a religiosidade era hegemônica indivíduos que não acreditassem em Deus? Essa é a verdadeira questão. Lucien Febvre responde que não. Na tentativa de entender a cabeça de um escritor tido como ateu (François Rabelais), o historiador francês chega a conclusão de que nesse tempo era impossível existir ateus devido a força ainda da mentalidade medieval e escolástica onde Deus era o centro de tudo. Febvre acredita que chamar Rabelais e qualquer um pensador da Idade Média e começo da Moderna de ateu é cometer um anacronismo. O verdadeiro divórcio entre Deus e o homens nasceria apenas no século XVIII quando surge o Iluminismo com sua posição racionalista. A partir de então, nasce o ateísmo. O ateísmo para a maioria dos historiadores é uma noção moderna e recente.

Giordano Bruno
Michel de Servet
Como explicar a atitude de Servet e Bruno? Giordano Bruno era um frade dominicano e procurava entender a religião cristã mais profundamente, tanto que pesquisou textos místicos até no Egito. Bruno questionava alguns dogmas da Igreja, mas isso não quer dizer que acreditava em Deus. Aliás, ele pode ser considerado um dos primeiros místicos católicos (Santa Teresa de Ávila e São João da Cruz são considerados os primeiros). Michel de Servet era um cientista, pesquisou muito sobre os pulmões e a atividade respiratória do corpo humano, no entanto não deixava de acreditar em Deus. Sua maior objeção á fé cristã era o conceito de Trindade, pois o concebia como algo absurdo, criado não pelas Escrituras, mas pela Igreja.

São Francisco de Assis
Bruno e Servet fazem parte de um contexto que começou com a Baixa Idade Média, quando a Europa medieval iniciou um desenvolvimento econômico e político que favoreceu o surgimento do que muitos conhecem como humanismo medieval. Humanismo medieval seria a valorização do homem, mas levando em conta Deus também, afinal, Ele nos fez á Sua imagem e perfeição. O maior expoente do humanismo medieval é, sem dúvida, São Francisco de Assis, que traz um novo olhar sobre o homem, a mulher, a terra e os animais. São herdeiros desse humanismo de São Francisco os humanistas da Renascença. A Renascença prega á volta aos valores greco-romanos, mas como forma de se contrapor aos valores da Igreja. Esse período é marcado por uma grande crítica á Igreja Católica enquanto instituição (tanto que na mesma época surgiria a Reforma Protestante), mas não á noção de Deus propriamente dita. A maior crítica á Igreja era que ela estava se tornando muito mundana, por se envolver tanto com o poder temporal.

Deus abençoa o Sétimo Dia, William Blake (1757-1827).
Você pode me perguntar então: tá, Vinicius, mas e todos aqueles homens e aquelas seitas da Idade Média que foram perseguidos pela Igreja por serem hereges?Apesar de hoje se tornarem sinônimos, herege é diferente de ateu. O ateu simplesmente não acredita na religião, o herege, por outro lado, acredita, mas dá a sua interpretação dela. A palavra "herege" quer dizer "escolha". Sendo assim, a Igreja perseguia os "hereges" porque eles não estavam seguindo á risca o que ela pregava. Exemplos? Os temidos cátaros que queriam matar todos os ricos acreditavam que Jesus queria que o mundo fosse somente dos pobres, ao contrário do que a Igreja pregava na época. Menocchio, o curioso moleiro descoberto por Carlo Ginzburg, foi levado á Inquisição porque acreditava que o mundo sempre existiu e que dele com o tempo se originaram os anjos e toda a corte divina, sendo depois que aparece o homem. Ou seja, uma interpretação diferente das Escrituras. Inegável que Menocchio acreditasse realmente em Deus, a única coisa que o transformava em um herege é essa sua interpretação bem original.

quinta-feira, 26 de maio de 2011

O sertão vai virar mar, o mar vai virar sertão...

Beato na Bahia, Pierre Verger.
Uma figura, dentre tantas, me chama muito a atenção quando se trata da História do Brasil. A figura do beato.
Sempre achei estranho e bizarro um homem envolto em roupas pobres e velhas a vagar pelo mundo profetizando o dia e a data do apocalipse. Bizarro e medonho, porque, afinal, vai que o homem sabe do que está falando!...
Mas essa é apenas uma representação sobre o beato. Uma representação construída pela literatura e que continua até hoje em nossa mente. Figura aliás comum em nossa história, mas só despertamos para sua existência após o caso de Canudos. Se Euclides da Cunha não acata a idéia defendida pelo governo de que Antônio Conselheiro era um conspirador monarquista, tampouco o valoriza. Na visão do escritor e jornalista, Conselheiro era um grande manipulador e um louco.
Euclides e muitos intelectuais de seu tempo conviviam com a questão da "civilização versus bárbarie". Enquanto os centros urbanos (no Brasil, localizados em sua maioria do litoral) eram vistos como estâncias da civilização, onde os ideais burgueses e europeus (tidos então como padrão de civilização) podiam ser cultivados, o campo era o seu oposto. Lá os homens viviam em meio á lei da selva, viviam como animais.
Os habitantes das cidades, o caso de nossos intelectuais, não conseguiam enxergar uma racionalidade sequer nos movimentos messiânicos que surgiram no país. Hoje, contudo, a dobradinha "civilização/bárbarie" está sendo revisitada. Hoje olhamos para esses movimentos com curiosidade, procurando achar a sua racionalidade, a sua razão de ser, a sua dinâmica. Logo, o beato passa a ser um personagem muito menos obscuro.

Beatos: boneco feitos em goma de mandioca por Demóstenes Fidélis e Lusyennir Lacerda.
Se entendermos a religião, por exemplo, como um espaço próprio munido de suas próprias regras, como o faz Pierre Bourdieu, onde existem os possuidores do conhecimento religioso (os sacerdotes) e os consumidores desse conhecimento (os leigos), o beato pode ser localizado justamente entre estes dois personagens. O beato faz sua própria interpretação do conhecimento religioso pregado por determinada doutrina e seus sacerdotes, por isso ele tem um cárater meio subversivo. O beato é o sacerdote popular, aquele que faz um releitura da religião que pode ser adotada ou não pelos leigos.
Mas tomemos cuidado: nem todo beato se auto-proclama messias e justamente por isso nem todo movimento dito messiânico é messiânico.
Exemplos? O movimento em torno de Padre Cícero Romão desde que fez uma hóstia sangrar na boca de uma beata é enquadrado na leva de movimentos messiânicos que surgiram durante os primeiros anos da República. Ora, Padre Cícero era um místico, mas não se proclamava um salvador da Humanidade, tampouco queria romper com a Igreja. Boa parte de sua vida foi uma tentativa de obter o reconhecimento da instituição. Claro que por muitos de seus devotos era idolatrado como um santo vivo, mas estudos nos demonstram um homem que se entendia mais por profeta que messias.

Estátua construída em Juazeiro do Norte atrai todo ano milhares de devotos do "Padim Ciço".
Aliás, o que causou a explosão de tantos movimentos do tipo (Juazeiro, Canudos e Contestado, respectivamente) num mesmo período? Simplesmente a fusão de elementos estruturais com fatores conjunturais: o quadro de distância entre Estado e Igreja para com o povo no interior do Brasil se agravou com a crise de poderes locais e o movimento de romanização (defesa do ortodoxismo católico) dentro da Igreja. Além disso, há também as condições propícias de cada local: no Contestado havia a disputa entre os governos estaduais por uma fronteira e a expulsão de moradores dela para a construção de uma ferrovia, enquanto em Juazeiro havia uma igreja débil e reminiscências de uma grande seca, por exemplo.
Outro alerta: o Nordeste não é o local por excelência dos movimentos messiânicos. Essa imagem foi construída graças aos dois episódios marcantes de Juazeiro e Canudos. Talvez o Nordeste tenha uma maior proporção de beatos (não sei, nunca ninguém fez uma estimativa do tipo) e movimentos do tipo por conta da forte presença do sebastianismo, mas essa é apenas uma suposição. Alerto para a existência de figuras parecidas com eles no Sul e Sudeste e não só no campo como na cidade também. Não é tão bizarro assim nos esbarrarmos em algum pregador popular pelas ruas dos grandes centros urbanos. Me vêem á mente o nome do Profeta Gentileza que andou por São Paulo e Rio de Janeiro divulgando sua mensagem de paz.

Profeta Gentileza
Aliás, a questão da mensagem também é importante. O beato, seja qual for, cria sua mensagem embasado na religião para criticar a realidade em que vive. Assim como Gentileza criticava o mundo indiferente e sombrio das grandes cidades, Antônio Conselheiro também criticava o sertão por onde circulou não só por conta das injustiças dos coronéis como principalmente por conta das medidas instaurada pelo novo regime (republicano) e pela distância entre os ritos católicos oficiais e a devoção popular. Quando diz que o sertão vai virar mar e o mar vai virar sertão, Conselheiro pode estar constatando que o mundo virou de cabeça para baixo e não apenas fazendo uma profecia apocaliptíca.

Sertão do Vaza-Barris (onde o arraial de Canudos foi construído) 100 anos depois de sua destruição (em 1997) foi retratado pelo fotógrafo Evandro Teixeira: as ruínas do arraial foram banhadas pelas águas da represa de Sobradinho - o sertão realmente virou mar?
Vimos acima, que poucos movimentos foram realmente milenaristas e messiânicos, como o caso de Contestado ou então da Pedra do Reino (movimento de cunho sebastianista que exigia sacríficios em nome da volta do "Encoberto" D. Sebastião que foi popularizado pela pena de Ariano Suassuna e seu personagem principal Pedro Quaderna).
Outro ponto muito interessante é que os movimentos messiânicos não começam no Brasil necessariamente com a colonização. Muitos povos indígenas, principalmente os que viviam no litoral, realizaram movimentos do tipo, onde um líder religioso ("pajé", "caraíba", etc) arrebanhava um séquito de seguidores na sua procura pela Terra Sem Mal. Tais movimentos explicam as levas de migração indígena que povoaram em certas regiões o interior do Brasil. Um caso famoso é o do povo Tupinambá que após serem expulsos pelos conquistadores (portugueses e franceses) de suas terras passam a subir a costa brasileira até chegarem na região do atual Maranhão, lá, segundo alguns cronistas, uma parte desse povo seguiu um caraíba que acreditava que a Terra Sem Mal se encontrava no interior da floresta amazônica. Os Tupinambá subiram o rio e vieram a se instalar numa ilha que se tornaria conehcida posteriormente como Parintins.

Os Tupinambás em ilustração do livro do viajante alemão Hans Staden.
É importante fazer duas ressalvas aqui: o conceito de messias, noção judaico-cristã, é similar ao do caraíba, termo tupi, mas não totalmente idêntico. O caraíba leva seu povo, quando esse se encontra em uma situação terrível, para o paraíso, que para as sociedades indígenas brasileiras se encontra na terra. Essas mesmas sociedades não tem em sua cultura a noção de apocalipse, portanto, a procura pela Terra Sem Mal não é o ponto final da história. A religião indígena nesse sentido é muito menos transcendental que a judaico-cristã. Enquanto o judaísmo ainda procura seu verdadeiro messias, o cristianismo acredita já ter achado-o, esperando somente que ele retorne e traga com ele um mundo justo, onde os maus serão punidos e os bons serão recompensados. Esse seria o fim da história mundana e o começo da história religiosa, onde, paradoxalmente, a vida seria eterna.
Afirmamos acima que o beato, inspirado pelo judaísmo, cristianismo ou até pelo sebastianismo, parte sempre de uma crítica á situação em que vive. Em contraposição á essa situação de injustiça, o beato se apóia no mundo transcendental, na religião. O beato renuncia justamente por isso dos prazeres mundanos (daí que muitos são representados como senhores de aparência frágil, mal-trapilhos, com longas barbas), ele deseja se unir ao mundo espiritual e tentar fazê-lo se sobressair ao mundo material em suas pregações. No caso dos caraíbas, existe essa crítica á uma realidade injusta, mas o mundo ideal não é procurado somente na espiritualidade, mas na própria geografia. Espiritualidade e materialismo, na cultura indígena, não estão divorciadas, pelo contrário, andam juntas. Por isso, a Terra Sem Mal está acessível á todos que se disponham a andar pelos sertões.
Eu gostaria de concluir, destacando que esse texto não pretende ser uma espécie de "tratado geral sobre os beatos e manifestações religiosas no Brasil" ou algo assim. Apenas estou discutindo alguns conceitos básicos de como os monges populares e movimentos messiânicos foram representados. Procurei relativizar alguns lugares-comuns quando se trata de religiosidade popular, mas com o intuito de fornecer uma base para uma discussão futura mais precisa. Não peço, portanto, que sigam minhas reflexões como uma procissão. Me contento com o diálogo, com contribuições. Sejam de quem for, beatos, caraíbas, messias...

quinta-feira, 19 de maio de 2011

O enigma de Canudos II

A historiadora Jacqueline Hermann, em um artigo para uma coletânea de trabalhos sobre o Brasil Republicano organizado por Jorge Ferreira e Lucilia de Almeida Neves Delgado, nos dá algumas pistas sobre Canudos.

A historiadora Jacqueline Hermann, ao lado do historiador Bruno Cerqueira, fala em Simpósio do Instituto D. Isabel.
Jacqueline tem como objetivo nos apresentar as interpretações que foram feitas no decorrer dos anos pelos historiadores sobre os movimentos messiânicos populares (Juazeiro, Canudos e Contestado). Sua tese é que estes movimentos tiveram um fator em comum: a situação da Igreja Católica durante a República Velha.
A proclamação da República foi um alívio para a Igreja que desde o império se via limitada pelo sistema de Padroado, onde o imperador poderia intervir constantemente nas ordens do Vaticano. No entanto, a Constituição de 1891 assustou a Igreja Católica pela quantidade de medidas seculares, como o casamento civil, o ensino público laico, etc. O medo de perder sua influência e a posição em que se encontrava a instituição no momento (de combate ás ideologias modernas como o liberalismo e o comunismo, através do que ficou conhecido como movimento de Romanização) levou a Igreja a criticar veemente o novo regime.

D. Antônio Macedo Costa, bispo do Pará: maior defensor da Romanização e crítico da República.
No entanto, depois dos primeiros e confusos anos de República, ambas as partes parecem ter chegado a um acordo: o poder da Igreja não foi mais contestado pelo governo e a Igreja parece ter se expandindo com o consentimento das oligarquias que governavam o país (nessa época aumenta-se o número de dioceses no Brasil, seminários são construídos e até uma elite dentro da Igreja se aproxima das elites locais).
Para Hermann, esse fortalecimento institucional não foi acompanhado de uma aproximação com o povo. A Igreja podia ter assegurado sua influência, mas ela não tinha controle ainda sobre seus fiéis. A maior prova são estes movimentos de que falamos.

Ilustração do Arraial de Canudos.
Depois de analisar as interpretações sobre Canudos (euclidiana e "progressista"), a historiadora tenta desvendar o real caráter do movimento interpretando as prédicas (os pequenos livretos) escritos por Antônio Conselheiro e confiscados pelo governo. Essas 49 prédicas foram consideradas por Euclides da Cunha como pobres papéis de um desvairado, enquanto o historiador Duglas Monteiro as interpreta como a defesa das suas concepções políticas e sociais e de suas crenças religiosas por um sertanejo letrado. Delas, a maioria fala sobre as dores de Maria, algumas sobre os dez mandamentos, um texto versa sobre passagens dos evangelhos e os demais sobre assuntos diversos, circunstanciais - dentre eles a República.

O corpo de Antônio Conselheiro, 1897.
O que Hermann enxerga nessas prédicas não é uma proposta de reforma agrária ou loucura pura, mas uma defesa de medidas que a Igreja, desde o Concílio de Trento séculos antes, tentava implantar no Brasil, como a valorização da missa, da confissão e do culto á Virgem Maria. Conselheiro não é um revoltoso, ele ceita sua sujeição á Deus e á sua representante na terra, a Igreja Católica. O que ele não suporta na República é justamente esse cárater laico, afinal nosso governante não é mais sagrado pela Igreja, ele não tem mais respaldo de Deus, mas do voto. Para ele, "todo poder legítimo é a emanação da Onipotência eterna de Deus e está sujeito a uma regra divina (...)". A historiadora então fornece sua própria interpretação do movimento: a luta de Antônio Conselheiro não era messiânica, pois ele não se arrogava esse status (talvez a população tenha criado esse vulto), mas era uma espécie de combate ao novo regime exatamente por ele ser laico. Conselheiro aceitaria a sujeição, desde que o governante fosse sagrado pelo poder divino através da Igreja. Segundo Hermann, "a ética conselheirista é a do sofrimento resignado ás leis supremas, e em seus escritos não há qualquer promessa de vida eterna, fim dos tempos, previsões escatológicas ou salvação incondicional".

A Igreja de Santo Antônio no Arraial de Canudos.
Ao final de seu artigo, a historiadora propõe que as variadas interpretações sobre esses movimentos sejam vistas não como erros, mas como contribuições para um entendimento mais completo sobre eles. Os historiadores não discordam sobre a origem destes movimentos: a distância entre a Igreja Católica e o Estado para com o povo. Todos divergem quanto á natureza desses movimentos: se era de cárater político, religioso, social ou cultural? Jacqueline Hermann aponta que estas interpretações possuem seus defeitos e suas qualidades, afinal todas são filhas do seu tempo, mas que devemos ter em conta principalmente a sua contribuição para um maior conhecimento sobre estes movimentos.

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O artigo em questão se chama Religião e política no alvorecer da República: os movimentos de Juazeiro, Canudos e Constestado, presente no livro O Brasil Republicano: o tempo do liberalismo excludente (Da proclamação da República á Revolução de 1930). Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 2008. Mas também existe um artigo muito interessante de Jacqueline Hermann na internet chamado Canudos: a terra dos homens.

sexta-feira, 29 de abril de 2011

Tempo de reformas

Em 1517, o monge agostiniano alemão Martinho Lutero prega na porta da universidade em que lecionava em Wittenberg um panfleto com noventa e cinco argumentos contra a venda de indulgências. O documento ficou conhecido como As Noventa e Cinco Teses, mas na realidade era uam tese acadêmica apresentada antes com o título de Esclarecimento sobre o Poder e a Eficácia das Indulgências.
Esse ato é considerado o início de um movimento do século XVI conhecido como Reforma Protestante. Mas antes de falarmos da Reforma, vamos esclarecer alguns pontos.

Primeiro, Lutero não queria atacar a Igreja Católica e, principalmente, não queria largar ela. Lutero estava preocupado com a questão da salvação. Até então, a idéia que se tinha era de que a salvação deveria se conquistada por meio de uma vida em prol de boas ações. Só assim o paraíso seria alcançado. Lutero discordava dessa visão, pois, com base numa leitura atenta do Novo Testamento, encontrou na fala e no ato final de Jesus uma salvação garantida á todos os homens desde que se convertesse.

O que motivou uma reflexão sobre essa questão foi uma situação recorrente na Europa medieval: a venda de indulgências. Indulgência era o termo dado para se anistiar algum pecador de uma sentença proferida por um padre, como, por exemplo, rezar cem Ave Maria. No entanto, o povo começou a entender essa prática como uma espécie de maneira de limoar seus pecados e comprar um lugar no Céu, e muitos pregadores se aproveitaram disso. Johann Teztel era um deles. Esse padre tinha uma oratória tão virulenta que conseguia convencer todos a comprarem suas indulgências. Quando o papa Leão X precisava de fundos para construir a Praça de São Pedro recorreu á Teztel e suas vendas.

Johann Teztel
A entrada de Teztel em Wittenberg motivou a ação de Lutero, que acreditava que essa prática não chegava ao conhecimento da autoridade papal. Ao fixar as Noventa e Cinco Teses na porta da universidade, Lutero estava tentando começar um debate sobre a validade dessa prática e, quem sabe, convencer as autoridades locais a abolirem tal ação. O historiador Carter Lindberg nos fala que Lutero não era um homem carismático como Teztel, mas um jovem dedicado aos estudos universitários. Sua intenção não era atrair tanta atenção e ódio assim.

Lutero na Dieta de Worms.
A Igreja Católica já tinha um histórico de pequenas teses que se tornaram movimentos perigosos anti-clericais, como os cátaros do norte da França por exemplo. Justamente por isso sua reação contra Lutero foi dura e severa. Em 1520, ele foi chamado pelo imperador do Sacro Império Germânico, Carlos V, para expor sua tese e se retratar (esse episódio ficou conhecido como a Dieta ou o Edito de Worms). Mas Lutero não arreda o pé, por causa disso é excomungado pelo papa e declarado fora-da-lei pelo imperador. Antes de ser levado para a prisão, um admirador seu, o príncipe Frederico, o Sábio, o resgata e o protege em seu castelo. Nesse castelo ele ficará por seis meses, onde se dedicará a traduzir o Novo Testamento para o alemão.

Liga Schmlkald.
Carlos V lutou contra Frederico e seus aliados por muito tempo, mas tinha preocupações maiores: a França e o Império Turco Otomano. Os nobres que se tornaram simpáticos á Lutero formaram uma espécie de aliança, a Liga Schmalkald, mas que foi derrotada em 1547. O luteranismo já tinha se difundido e então o imperador decide reconhecer a validade da religião de cada reino, decretado a partir da Paz de Augsburg.
Lutero não queria se separar da Igreja, mas encontrou apoio nos príncipes germânicos que eram contra os duros impostos vindos do Sacro Império e da Igreja Católica. A salvação incondicional parecia ser muito conveniente para eles. Ele também foi interpretado de uma maneira diferente por Thomas Münzer, pregador alemão. Para ele, a reforma pregada por Lutero era uma reforma social também, o que motivou inúmeras guerras camponesas contra os senhores e a Igreja.
No entanto, a Reforma não se concentrou só na Alemanha e não foi motivada somente pela insatisfação com a venda das indulgências. De país para país, a Reforma teve sua especificidade.

sábado, 23 de abril de 2011

Mensagem de Páscoa

Religião é um assunto sempre polêmico, mas necessário.
Fui criado numa família evangélica que, com a exceção de alguns parentes, não era muito rígida, muito praticante. Mesmo assim havia um respeito enorme pelo nome de Deus, afinal Ele é sagrado, então não deveria ser utilizado assim sem mais nem menos. Os rituais nós também não questionávamos.
Passaram os anos e o contato com diferentes religiões, por meio de meus amigos, me fizeram pensar mais a fundo nesse assunto, até então renegado ao silêncio. Achei interessante o islamismo, o judaísmo, a wicca, mas ainda tentava entender o protestantismo e o catolicismo, o cristianismo de uma maneira geral.
Eu comecei a fazer uma leitura da Bíblia, um compromisso firmado comigo mesmo. Não o terminei ainda, pois fui interrompido por algumas tarefas e certos acidentes de percurso. Como falei aqui antes, considero a Bíblia não só como um livro sagrado, mas uma fonte histórica também. A Bíblia pode ter uma mensagem universal, mas é também fruto do seu tempo, carrega em si as marcas de quem a escreveu e a quem era endereçada.
Um dos livros que mais achei interessante foi o livro de Jó, onde podemos ver um homem tentando entender como um Deus benevolente que nos ama pode deixar que soframos. Ora, essa é uma pergunta que deve ter passado pela cabeça de todos que crêem ou não em Deus. E o livro de Jó, ao contrário das respostas que costumamos ouvir, termina nos revelando que "se você faz o bem, não está ajudando a Deus; ele não precisa de nada que é seu. São os outros que sofrem por causa dos pecados que você comete; e também são eles que são ajudados quando você pratica o bem" (Jó, 35:7-8). Ou seja, Deus não gosta de pecadores porque eles desrespeitam seus próximos e não somente á Deus. A maldade no mundo não pode alcançar á Deus; ela, antes, é fruto das escolhas dos homens. Deus não pode acabar com a maldade no mundo, pois com isso ele acabaria com o livre-arbítrio do homem.

Sendo assim, esse livro faz uma ponte com o Novo Testamento muito interessante. Jesus e seus apóstolos fizeram uma releitura da tradição judaica, mas adaptaram-na para os tempos em que viviam: opressão pelo império romano e as reações á ele como o messianismo, o terrorismo, etc. Interessante é que ao lado de inovações (como o apelo aos pobres) ele pegue muito da mensagem de Jó, incluindo aí a idéia de redenção. Mesmo pecando, Jó poderia ser salvo se reconhecesse seus erros. Com Jesus, o homem pode ser salvo se arrependendo de seus pecados. E mais: a Salvação seria garantida á todos, uma vez que Cristo, "o cordeiro de Deus", morreu na cruz para garantir á todos a redenção.
A maior prova de amor seria essa, onde Deus se faz homem, vive entre eles, e morre por eles. A Páscoa representa esse amor e a promessa de vida eterna. Os homens renasceriam, assim como Jesus, a partir do momento em que reconhecessem sua ignorância e seguissem seus ensinamentos. A partir desse momento, o reino dos Céus lhes seria garantido.
Acredito que o essencial do cristianismo talvez seja isso: o amor. Não que as outras religiões não visem o amor também (a maioria delas visa o amor através do respeito e do autoconhecimento, por exemplo), mas a mensagem que o Novo Testamento traz, além da promessa da vida eterna - tendo o apocalipse como um ponto importante - , a afirmação de que Deus é amor. Não um amor obsessivo que sufoca o amado, mas um amor compreensivo que respeita a liberdade de quem ama - prova maior seria a proteção de nosso livre-arbítrio, fonte de nossa maior força e de nossa maior fraqueza.
A grande lição que o cristianismo trouxe para mim é a de que temos que reconhecer que somos livres e que, como teria dito o filósofo francês Paul Claudel, a questão é que Deus confia em nós, por isso nos abençoou com a liberdade. Uma lição no campo da religião e da ética, uma vez que devemos amar a todos e respeitá-los como Deus nos ama e respeita.
Hoje me declaro agnóstico porque ainda não acredito que possamos realmente compreender a Deus integralmente, mas podemos sentir sua presença através da experiência do sagrado, do transcendental. Mas desde que descobri o real sentido do cristianismo, passei a nutrir mais respeito ainda por essa religião. É justamente por isso que escrevi esse texto. Esse texto é uma homenagem, ainda que modesta, á Páscoa e ao cristianismo como um todo. Que os atos sombrios e lamentáveis dos homens e instituições que diziam e dizem lutar por ele não obscureçam a sua verdadeira mensagem!

sábado, 16 de abril de 2011

Andar com fé eu vou...

Conversas com os amigos são sempre muito divertidas e produtivas. Digo isso porque entre amigos falamos dos mais diversos assuntos, de besteiras e fofocas á discussões políticas e historiográficas.
Hoje, por exemplo, o assunto que dominou em nossa conversa foi a religião. A veracidade da Bíblia foi o que originou a discussão. Ora, a Bíblia é a compilação dos escritos de vários homens em diferentes períodos. Nada mais natural que seja contraditória, uma vez que foi escrita por homens que tinham personalidades distintas e com elas maneiras diferentes de entender a tradição judaica. O que a Igreja Católica tentou fazer foi torná-la mais coerente e, claro, apoiar sua legitimidade, por isso muitos evangelhos apócrifos foram desconsiderados.

O cristianismo nasceu como um movimento extremista (no sentido de atacar radicalmente o status quo), pois ele pregava uma volta á tradição, sendo que, na realidade, tratava-se de uma nova interpretação - o Deus que se faz homem é algo novo. Extremismos não sobrevivem por muito tempo, para isso eles tem de se adaptar e foi o que aconteceu. O cristianismo tornou-se uma religião subversiva e, com a ajuda do apóstolo Paulo, universal. Somente com Constantino ela se torna temporal, ela se une ao poder, tornando-se uma instituição cada vez mais poderosa (atingindo seu auge durante a Idade Média). Nesse processo, muito foi ficando para trás, intencionalmente ou não.
Acredito, como futuro historiador, que não podemos esquecer que a religião é uma tentativa do ser humano entender o sagrado ( ou a experiência sagrada como já disse aqui) e justamente por isso está carregada de suas limitações e qualidades. Embora tente ser transcendental, a religião é marcada pelo tempo. O cristianismo hoje não é o mesmo da Idade Média ou dos seus primeiros anos, isso está claro. O tempo muda e com ele os homens e sua percepção sobre a vida.
O sagrado é algo transcendente, é a nossa percepção sobre ela que muda (o que chamo de religião). A fé, no entanto, nem sempre é suficiente para sustentar uma religião: geralmente precisa de rituais para que os ensinamentos não sejam esquecidos e de certa dose de racionalismo para que não se transforme em pura alienação (mas nós todos sabemos que se transformar em pura alienação é muito mais conveniente para muita gente).
Um de nossas colegas tentava entender a razão da fé em um livro como a Bíblia. Ora, o que te afeiçoa a certa religião não pode ser explicado com simples argumentos, frios e diretos. O que podemos tentar dizer é que a nossa fé é feita em cima de nossa personalidade. Nossa personalidade nos guia até aquele modo de viver o sagrado que mais nos parece correto. Concordo com Dalai Lama quando ele diz que a melhor religião do mundo é aquela que te transforma em um ser humano melhor.
O que quero dizer que falar sobre fé é sempre um assunto espinhoso, pois envolve termos como "verdade", "dogmas" e "alienação". Devemos tomar cuidado com as generalizações:  nem tudo é só alienação, as religiões também contribuem para o desenvolvimento do homem, cada uma a seu modo. Acredito que o discernimento pode nos ajudar a evitar cairmos em círculos fechados, assim como a fé também pode nos ajudar a entender mais o mundo (mas principalmente o homem). Mas muita reflexão estrangula a fé e muita fé esfaqueia o discernimento. É preciso um equilíbrio (tarefa difícil, mas não impossível).
Esse post por exemplo: não se trata de uma afirmação inviolável, uma verdade incontestável, mas apenas a minha visão, a minha opinião sobre religiões e experiências sagradas. Mas acredito que ela possua pelo menos algumas gramas de verdade.

sábado, 2 de abril de 2011

Fé cega, faca amolada

Terry Jones
Juro a vocês que quando postei aquela citação de Edward Said aqui anteriormente não sabia do ato do pastor Terry Jones de queimar o Alcorão. Foi uma coincidência. Soube do fato hoje, a poucos minutos, quando falaram sobre a tomada da embaixada da ONU no Paquistão.
Terry Jones já estava doido para queimar livros á muito tempo. Ano passado anunciou que queimaria vários exemplares do Alcorão em homenagem aos 10 anos do 11 de Setembro de 2001, mas foi tão pressionado que desistiu.
Esse pastor de uma igreja da Flórida fez um julgamento do livro sagrado dos muçulmanos diante de seus fiéis há uma semana, no dia 21, e diante da sentença de culpado por não ser uma religião de paz o queimou. No Paquistão, as autoridade emitiram uma fatwa (ordem sagrada) que pagaria 20.000 dólares por quem matasse ele. Hoje, milhares protestaram numa cidade ao norte do Afeganistão e atacaram uma embaixada da ONU decapitando 7 estrangeiros lá presentes.

Protestos no Afeganistão.
Jones se manifestou no mesmo dia através de um vídeo dizendo que não se considera responsável pelos atos no Afeganistão. E mais: essa manifestação de violência é mais do que suficiente para os EUA dar uma lição á esse povo.

A impressão que se tem é de que realmente a irracionalidade venceu e quando falo em irracionalidade não me refiro ás religiões em questão, sejam elas cristãs ou islâmicas, mas uma espécie de rancor presente nessas pessoas que tentam justificar sua estupidez com interpretações sagradas.
Em primeiro lugar, o Islã não é uma religião de violência como quer o pastor Jones. Sim, é verdade que ela ajudou na expansão militar árabe pelo Mediterrâneo, assim como o judaísmo também ajudou a unificar as tribos e conquistar Canãa em guerras longuíssimas com povos locais como os filisteus e samaritanos e assim como o cristianismo também foi usado como pretexto para as Cruzadas durante a Idade Média.
Toda religião tem como característica trazer verdades reveladas, no entanto, estas verdades podem ser manipuladas das mais diferentes formas. A proposta de conversão e evangelização, por exemplo, foi utilizada através dos séculos como mecanismo de imperialismo de diversos povos. Ou seja, estas religiões trazem em si códigos de ética e moral, mas que muitas vezes podem ser apropriados para efeitos menos nobres, cabe a nós termos consciência disso.
Em segundo lugar, no assunto em questão a religião foi apropriada pelo puro e simples rancor. O rancor do pastor contra os atentados de 11 de Setembro e o rancor dos afegãos contra a invasão de seu país e agora pela queima do Alcorão. Sete vidas inocentes morreram simplesmente por não terem nascido nesse país ou por se encontrarem na embaixada da ONU, sendo que elas podiam até ser contra a atitude de Jones. São vidas que foram atacadas no calor da fúria.
E o rancor é assim: não aceita a complexidade das coisas. Toma uma pessoa como exemplo de todo um povo. Ora, um Torquemada não deve eclipsar homens como Francisco de Assis ou mesmo Jesus Cristo. Extremismos sempre existiram e é curioso como muitos atribuíem aos muçulmanos a patente, a responsabilidade por terem os criado. O fundamentalismo religioso no Oriente Médio é recente: tornou-se essa força poderosa principalmente a partir da década de 1970, com o fracasso do pan-arabismo na luta contra o imperialismo estrangeiro. E nós já tivemos nossos dias de fundamentalistas (e ainda temos), principalmente no século XVII, com as guerras religiosas entre protestantes e católicos na Europa.
Ao que tudo indica esses movimentos que procuram transformar as religiões, experiências de compreensão e sensibilidade, em ideologias de rancor continuarão a existir, o que quer dizer que devemos sempre andar com cautela e esclarecimento entre os terrenos do mundo espiritual e temporal.

segunda-feira, 14 de março de 2011

Humanidade

"A religião, a ideologia, a economia e os sistemas políticos são todos criações do homem. Sendo assim, precisam estar relacionados com os sentimentos humanos e como espírito humano. (...) As diversas religiões e ideologias existem em função da humanidade, não da desumanidade".

Dalai Lama, sacerdote budista tibetano, n'O Livro de Dias.

quinta-feira, 17 de fevereiro de 2011

Sagrado e Profano

O Jardim das Delícias, Hieronymus Bosch

Segundo um dos maiores pesquisadores sobre as religiões, o romeno Mircea Eliade o homem é formado por duas dimensões: a sagrada e a profana. A profana diz respeito á vivência cotidiana, á vida mundana, enquanto o sagrado fala sobre um mundo mais abstrato e metafísico, um mundo transcendental. Sempre foi assim, hoje, a dimensão sagrada parece ter sido um pouco reduzida, mas ainda está aí.
Eliade começa a analisar o sagrado e nos apresenta aquilo que acredita serem pontos fundamentais de sua estrutura: o sagrado é um canal para interagir com uma ou umas divindades, por isso o homem sempre procura em seus rituais e orações uma volta aos primórdios, quando elas criaram o mundo, por ser um momento onde sua ação e vitalidade é muito maior.
Assim sendo o sagrado tem sua própria temporalidade: é o eterno retorno. O rito, os altares, o mito tem essa função: a de ligar o homem ao início de tudo, ás divindades, no seu dia-a-dia. Claro que tudo isso também tem uma função social:  legitimar uma ordem através de tabus e rituais.
Eu entrei em contato com esse texto durante minhas aulas de Introdução aos Estudos Históricos. O objetivo da professora (Cristiane Manique, uma das melhores professoras que tive) era nos fazer repensar o conceito de tempo. O tempo em si é uma coisa inefável, indizível, impossível de ser capturado totalmente. O que existe são tentativa de defini-lo e de medi-lo. Essas tentativas se refletem no conhecimento histórico: cada historiador tenta entender os processos históricos, tenta conferir á história um sentido e uma finalidade. E o que a professora nos fez ver é que isso não é privilégio somente dos historiadores. O mito e a religião são uma forma de conhecimento, embora por anos tenhamos os desprezados por não terem uma "cientificidade". São uma forma de conhecimento e, em certos casos, uma filosofia da história também. Filosofia da História é toda tentativa de ver a história além dos acontecimentos, encontrar um nexo entre os diversos fatos, encontrar estruturas ou outra forma de totalidade. Assim, sendo uma religião pode ser uma filosofia da História pois ela confere á todos os fatos a vontade das divindades. O Cristianismo é uma das "filosofias da História" com quem mais os filósofos dialogaram, seja atacando ou acatando os desígnios da Providência na história. A filosofia da História, no ocidente, se "profaniza" com os iluministas, principalmente Voltaire, e desde então temos aí o idealismo, o materialismo histórico, o historicismo e por aí vai.
Como podemos ver, a história,. como a nossa própria vida, também está entre o sagrado e o profano.

segunda-feira, 17 de janeiro de 2011

Mistérios da Fé


Há no poema Pavlovianas de José Paulo Paes uma estrofe que expressa pontualmente a construção de uma religião:

O mistério o rito a igreja


o rito a igreja a igreja


a igreja a igreja a igreja.


Uma religião é fundada em cima de um mistério. É inegável que o homem possua dentro de si uma dimensão transcedental, que não se contenta com a mortalidade. Essa mesma dimensão pode nos proporcionar experiências com o sagrado, com algo maior que nós que eventualmente pode ser enquadrado como uma divindade. Essas experiências são indescritíveis, são sentidas no terreno metafísico, transcedental, longe, portanto, do mundo material. Cada homem que passa por uma dessas experiências acredita ter alcançado uma verdade, uma mensagem que deve ser proferida. E assim, com base nos seus apontamentos, nasce uma religião.

Religião, do latim religare. Como o próprio nome diz tem como objetivo religar o homem á essa dimensão, á essa mensagem, principalmente por meio dos rituais. Uma vez no âmbito dos homens, a religião se torna instituição e toda instituição é passível de sofrer as influencias de seu tempo, mesmo no seu início. Não há maior exemplo que o contexto do imperialismo romano quando do surgimento do cristianismo e da situação da Península Árabica na época de Maomé.

O poema de José Paulo Paes nos lembra que uma religião pode acabar com essa experiência do sagrado através dos séculos por meio do apego á liturgias. E assim surgem as dissidências. Podemos encarar a Reforma Protestante como uma maneira de tentar reatualizar esse mistério dentro do cristianismo, bem como as medidas criadas por São Francisco de Assis anos antes. Mas é inevitável que a religião, qualquer que fosse, acabe por burocratizar o sagrado.

Não acredito que a religião seja a única culpada nesse processo, mas seus fiéis também. A responsabilidade e a vontade de sentir o sagrado deve brotar dos fiéis senão ele está professando uma religião vazia. Não quero aqui cair no absurdo de dizer qual é a melhor religião, se é o judaísmo, o budismo, o cristianismo, etc. A melhor religião é aquela que te completa melhor, que te proporciona uma melhor aproximação com essa dimensão do sagrado. Cada pessoa tem uma percepção diferente e uma personalidade diferente o que influi na maneira de experimentar o sagrado. Não acredito em igrejas, pois não vejo razão numa mediação entre o sagrado e minha pessoa, mas isso é minha opinião. Não sinto que posso sentir o sagrado de outro modo porque sou assim, outras pessoas apenas conseguem se forem á igrejas ou apenas meditando. Não estou julgando, cada um tem o seu jeito de lidar com essa experiência.

Assim sendo, vejo a religião como uma espécie de conhecimento sobre o sagrado e sobre nós mesmos. Mas precisamos tomar muito cuidado, estarmos ciente de onde começa o sagrado e onde começa a religião, de onde está a história de uma instituição, de um pensamento, o que for, e o mistério.

domingo, 27 de junho de 2010

O Pensamento Católico no Brasil

Clássico livro de Antônio Carlos Villaça, um dos grandes escritores brasileiros que, mesmo tendo produzido pouco, nos mostra uma grande sensibilidade e lucidez.
Sensibilidade e lucidez que não poderia faltar nesse livro, um ensaio sobre a história do catolicismo, principalmente entre os intelectuais, no país. Com uma linguagem erudita, mas fluída, que cativa o leitor, o autor nos presenteia com belos balanços e avaliações.
Villaça vai desde os tempos da colônia até o momento em que o livro foi escrito (os anos 80), mas a parte mais interessante do livro trata do final do século XIX e começo do século XX, época em que o pensamento católico brasileiro mais se desenvolveu e época, aliás, da qual o autor fez parte (uma vez que conheceu tanto os altos membros da hierarquia católica, como o cardeal Leme, como os líderes leigos, como Alceu Amoroso Lima e Gustavo Corção).
Interessante pela análise que faz Villaça dos grandes expoentes do pensamento católico, principalmente Alceu Amoroso Lima e Carlos de Laet, nos apresentando não só o peso de suas figuras, mas também passando um pouco do que eles representaram para quem vivia naquela época. Assim entendemos como Laet arrebanhava tantos seguidores, como o padre Júlio Maria parecia esta criando uma revolução na Igreja e no povo.

Antônio Carlos Villaça.
Villaça se vincula a uma corrente mais liberal do catolicismo, uma vertente que tem no humanismo cristão de Jacques Maritain e na voz de Amoroso Lima sua essência. Uma corrente que encara a modernidade não como elemento estranho, mas como passível de vantagens e defeitos, ao contrário da corrente mais conservadora, que tem como principal porta-voz Gustavo Corção. Por isso, Villaça critica muito a posição monolítica e agressiva de Corção.
De qualquer maneira, O Pensamento Católico no Brasil é um livro recomendado para historiadores e leigos de todos os tipos, católicos ou não.