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sexta-feira, 19 de julho de 2013

Parafina

Fogo. Não consigo tirar meus olhos dele. Da dança hipnótica das chamas.

Não, não sou nenhum maníaco incendiário.

Quando criança brincava de fazer sombras na parede do meu quarto. Usava uma vela. Em certo momento parava para admirar a chama. Quando me dava conta a vela já estava acabando. Como isso podia acontecer? O fogo comia a vela, dizia minha mãe.

Você. Veja bem você. Por muito tempo só enxergava você. Não precisa buscar tantos motivos assim. Eram as conversas, eram as piadas, eram as surpresas, era tudo. Quando acordei, o resto da nossa vela não tinha sobrevivido á fome do fogo.

sexta-feira, 12 de julho de 2013

Perdoem a ausência

Esses dias todos em que não estive aqui
foram um intervalo de tempo singular,
como aquele momento entre o sonhar e o acordar.

Não estava aqui, não estava lá.
Não estava nem aí.

Agora? Não sei. Talvez eu tenha voltado.
Talvez eu tenha acordado.
Não sei.

sábado, 27 de abril de 2013

Quase nirvana

Foto: Keyce Jhones.

Quando somos cínicos demais
é preciso redescobrir as pequenas coisas.

A folha seca que toca a superfície da água
traz lições de leveza.

Já o apressado beija-flor
se alimenta da beleza
lembrando que se pode encontrar
néctar em cada esquina.

sábado, 30 de março de 2013

Ladainha

O mês está acabando
A Páscoa está acabando
Mas tudo sempre acaba
e
nada acaba pra sempre.

sexta-feira, 8 de fevereiro de 2013

Versinhos de guardanapo

Sai pra caçar
brejas geladas e boa companhia
já tenho o lugar na mira:
Safári Bar.
Dedico a toda fauna boêmia dessa e de outras paragens

segunda-feira, 21 de janeiro de 2013

O bar depois da ladeira


Em tempos de faculdade, sempre depois do expediente, a noite exigia uma passada em algum recanto para tomarmos o "soro da verdade". Podia ser no bar do outro lado da avenida, no boteco perto da Santa Casa ou então no bar depois da ladeira. Petisquem um pouco dos versos do companheiro de brejas Raoni Leminski:

Pois é a alegria que toma o lugar
De gole, em gole, um sorriso no rosto
Eu já vendo tudo mais torto
Indo numa breja a mais para madrugar


Só digo uma coisa: Amigos cachaceir... boêmios, uni- vos!

Vertigem de mim

Cheguei, mas não cheguei de todo.
Espero pacientemente
- em casa, não no aeroporto -
os cacos que faltam desembarcar.
O meu maior medo
é que algo tenha sido extraviado.

manaus, janeiro, dois mil e doze d.C.

domingo, 13 de janeiro de 2013

Praça 14 de Janeiro


O bairro todo sorri
A noite é verde e rosa

Conciliação? Fernandes Pimenta? Portugal?
Praça, tu és muitas
inclusive nas alegrias.

Hora de cantar os parabéns:
Bate bate forte batuqueiro - o samba na 14 é de janeiro a janeiro!


domingo, 4 de novembro de 2012

O fim do fim de semana

DOMINGO
Astrid Cabral
Foto: A Crítica.


O domingo veste
santidade e repouso
ranço de missas
e sinos roucos.
Pausa obrigatória
somos espichados
comida requentada.
Freiada no atropelo
de seguidas feiras.
Momentos de passeios
e programas de fuga:
salva-vidas pairando
sobre águas em fúria.

Hora de encarar o oco
e cuspir no abismo.

(De déu em déu, Astrid Cabral, 1998).

sábado, 22 de setembro de 2012

Confissões na madrugada



Queria ser como aquele jambeiro:
colorir tudo ao meu redor

Queria ser como aquele canário:
respirar melodia

Queria ser como aquela lua:
hipnotizante

Queria ser como tu:
poesia.

sexta-feira, 14 de setembro de 2012

PCMismo

A desgraça existe.
Só quem tem travas nos olhos desconfia do contrário.

A desgraça acontece.
Em cada minuto, uma tragédia aqui  ou lá.

A desgraça corrói.
Erosão é um problema não só das rochas, mas dos homens também.

A desgraça une.
Aquele anêmico franelinha da periferia de São Paulo
e o garoto morrendo de fome no interior do Piauí
são a mesma pessoa.

A desgraça não pára.
E talvez essa seja a maior das desgraças.

A redenção já tomou muitas formas
e agora a promessa é um clique.
Curta, compartilhe, siga, divulgue
A fome acabará, a corrupção também.

Não tenho estômago de avestruz para engolir essa.
Hipocrisia digital ou ingenuidade virtual, não sei dizer bem o que é.
Só sei de uma coisa: realidade está longe de ser.

quinta-feira, 13 de setembro de 2012

Momento tiete

Foto: Acervo A Crítica.

Olhei, não acreditei. Era o grande nome das letras amazonenses ali na minha frente. Um senhor de baixa estatura, cabelos há muito grisalhos, um cavanhaque bem tímido e olhar tranquilo. Era Luiz Bacellar.
Foi assim que vi pela primeira vez esse monstro sagrado da nossa literatura. O conhecia somente de vista e de verso. Não me atrevia a falar com o senhor Bacellar. Acontece que quando conhecemos nossos ídolos somos acometidos por uma leseira momentânea, um estado de espírito onde o sujeito de tão maravilhado não sabe o que falar direito.
Mais uma vez decidi abordá-lo. Estava ele no supermercado, conversando com um outro senhor, também escritor. O encontrei, como sempre, despreparado. Despreparado que eu digo para pedir um autógrafo seu.  Estava fazendo compras e tudo o que eu tinha era alguns biscoitos, um saco de arroz e a nota fiscal. Mas precisava de seu autógrafo. Pena não estar com um dos livros seus ali. Bem, na falta do livro foi a nota fiscal...
Pedi uma caneta emprestada de uma moça da banca de jornais me aproximei da mesa em que ele e o seu amigo estavam conversando. Pedi licença, perguntei se ele era Luiz Bacellar - como disse, a gente faz perguntas idiotas quando encontramos nosso ídolos... - e pedi seu autógrafo. Ao ver a nota fiscal, o poeta disse:
-O certo seria um livro, não é?
-Pois é...
-Mas tudo bem. Tá aqui.
Tentei engatar uma conversa, mas pensando bem, melhor não. Afinal, eu interrompi a conversa dos dois. E não queria dar uma de fã chato. Já bastava a gafe da nota fiscal. Me despedi e fui.

terça-feira, 11 de setembro de 2012

Luto

CANTIGA DO AMANHECER
Luiz Bacellar

O ovo do sol
canta nas landes
uma cantiga de gemas
com as claras nuvens
batidas de ventos.

Ovo da nhambu
a casca azul do céu
se abre em passarinhos
que já chilreiam
no choco desse ovo louro.

Pelo pasto verde claro
vai aquele touro novo
em seu cortejo
de borboletas
retouçando o dia
que começou quando o vôo
do ovo se derramou.

No dia 4 de setembro, Luiz Bacellar tinha feito 84 anos de vida dedicada á poesia. No dia 8 de setembro, Luiz Bacellar se tornou a própria poesia.

quarta-feira, 8 de agosto de 2012

BELEZA TERRENA - Landis Vinicius Petersen


 Surge como uma materialização
A expressão de uma odisseia
Saída dos versos dos poetas
A rima da plateia
A exuberância personificada
Sinônimo do inefável
Dos Encantados uma lenda
Com um abraço confortável
A Feluriana de Kvothe
A alegria dos mortais
A conquista espiritual
Além dos desejos carnais!

quarta-feira, 1 de agosto de 2012

Iconodrasta


Perdi o sentimento do mundo
que ganhei a dois minutos atrás.

Posso ter derrubado catedrais,
mas não consigo erguer castelos.

Alguém viu um ideal sem dono por aí?

quinta-feira, 5 de julho de 2012

Teatro do esquecimento


O vento passeava pelas ruínas
Admirando a arquitetura dos escombros.
Encontrou os antigos e secos moradores.
Os cumprimentou, como é de praxe.
Uma moldura, até então desapercebida,
intriga o visitante.
O tempo da alegria, da saúde, da vida.
Mas onde está a pequena?
Terá sido ela o motivo de tudo isso?
Sorrisos partidos, vozes caladas.
Quem poderá responder?
Quem poderá saber o que aconteceu aqui?
Talvez aquela planta tímida crescendo na rachadura.
Não, ela não.
Seu adubo é o passado, mas sua vida é o hoje.
Não encontrando resposta
O visitante se vai como brisa melancólica.

sexta-feira, 22 de junho de 2012

Poeminha á quatro mãos

A ÚLTIMA GOTA
Cainã Ito e Vinicius Amaral

A chuva mata a sede dos melancólicos

Afogando os eufóricos
Refrescando os iludidos

Cada gota um temperamento
Cada pingo uma lembrança

Torneira se fechou
A última lágrima caiu
Na beira do precipício ficou.

quinta-feira, 21 de junho de 2012

Mais uma prova de que aqui a poesia é uma doença tropical:

A VÁRZEA
ALDÍSIO FILGUEIRAS

A várzea sofre
tantas cirurgias plásticas
que o olho
arguto dos práticos
se perde
na ciência do rio.

O rio não se decide
A terra não pára

A margem
figura
e
geografia nômades
tem os seus dias contados
tem os seus dias contados

mas é aí que o homem
se planta e vegeta
sua rude solidão.

(Estado de Sítio, 1968).

sexta-feira, 8 de junho de 2012

Dois movimentos, duas ações



Os homens são em um mesmo tempo submetidos a dois movimentos: o terror que intimida, e a atração, que comanda o respeito fascinado. O interdito e a transgressão respondem a esses dois movimentos contraditórios: o interdito intimida, mas a fascinação introduz a transgressão.
Mário Vargas Llosa, escritor peruano.

domingo, 18 de março de 2012

A República Muda

Aldísio em foto de Raphael Alves (A Crítica).
O verso de hoje é apenas um fragmento do longo e ótimo poema A República Muda  de livro homônimo do "mais torto dos poetas" amazonenses, o grande Aldísio Filgueiras:

na estupidez
              das janelas
solteiras
              da cidade
a maré
              do medo
              é súbita
manchete
            no sábado
de ambiente
            familiar
e acidente
            bancário.

É tempo
          do verbo
contra
           a verba.