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quinta-feira, 21 de fevereiro de 2013

Hoje é o dia!



Faz cinco anos que coloquei meus pés pela primeira vez na faculdade. A sensação que tive ao chegar na Colação de Grau era de que eu, junto com meus colegas, era um sobrevivente. 
Não esperava começar em Taubaté e terminar a faculdade em Manaus. Não esperava que muitas pessoas que amo não estivessem mais vivas. Não esperava que tantas coisas me tirassem o sono como tiraram nas últimas semanas. Enfim, chegar aqui foi algo quase surreal.
Não quero fazer previsões agora, otimistas ou não. Se existe algo que aprendi nesses anos de graduação é que nunca se sabe o que a onda pode nos trazer. Aldísio Filgueiras já disse uma vez que a gente erra por achar que não existe mais novidade na vida.
Aos amigos, obrigado pela paciência. Aos parentes, obrigado pela compreensão. E a quem não conheço, obrigado... seja lá pelo que for.

quinta-feira, 7 de fevereiro de 2013

Quem tem medo de Arthur Reis?

Por Hélio Dantas e Vinicius Alves do Amaral
Acervo Jornal do Brasil.


Há exatos 20 anos, falecia no Rio de Janeiro, aos 87 anos, o historiador amazonense Arthur Cézar Ferreira Reis. Ao longo de quase nove décadas de existência, Reis exerceu uma considerável atuação como historiador, professor, político e homem público, não só no Amazonas como no restante do Brasil. Até meados da década de 1970, seus livros foram referência básica e obrigatória a quem se interessava pela História da Amazônia. Sua obra é vasta, pois, desde 1930 aos anos 1980 teve livros de sua autoria publicados regularmente, além de inúmeras matérias de jornais, palestras, cursos, artigos e prefácios.
Estudos acadêmicos abordando especificamente sua trajetória e sua obra são recentes e começaram a surgir somente na última década. Em 2001, Sidney Lobato, estudante de História na Universidade Federal do Amapá, abordou a obra de Arthur Reis na monografia “Bricolage da formação nacional: a obra de Arthur Cézar Ferreira Reis (1939-1966)”. O professor Alexandre Pacheco, da Universidade Federal de Rondônia, desenvolveu entre 2008 e 2010 o projeto de pesquisa “Arthur Reis: História, Literatura e Poder (década de 1960)”, que rendeu diversos artigos científicos. Em 2009, surgem mais duas pesquisas: a dissertação de Lademe Correia de Souza “Arthur Reis e a História do Amazonas: um início em grande estilo” e a de Leila Margareth Rodrigues Gomes, “Movimentos Sociais na obra de Arthur Reis”, ambas desenvolvidas no âmbito do Programa de Pós-Graduação em História da UFAM. Nesse mesmo Programa de Pós-Graduação, foi defendida em 2011 a dissertação “Colonização e Civilização na Amazônia: Escrita da História e Construção do Regional na obra de Arthur Reis (1931-1966)”, de Hélio Dantas. Mais recentemente, em 2012, Vinícius Alves do Amaral, defendeu o Trabalho de Conclusão de Curso intitulado “O Seringal e o Seringueiro: a ‘epopeia amazônica’ em Arthur Reis” no curso de História da UNINORTE. Vale lembrar que, em 2006, ano do centenário do nascimento de Arthur Reis, o Instituto Geográfico e Histórico do Amazonas realizou o seminário “Arthur Reis: o intelectual e o homem de ação”.
Nascido em Manaus, em uma família tradicional, Arthur Reis obteve o título de bacharel em Direito no Rio de Janeiro, mas, ao retornar ao Amazonas em 1928, optou por ser professor de História, uma disciplina que, segundo ele, o atraía desde os tempos de ginásio. Entre as aulas de História nos tradicionais colégios locais e a atuação como editor do Jornal do Comércio (sendo este propriedade de seu pai), Reis começou a desenvolver suas pesquisas em História. O primeiro fruto foi seu livro de estreia, História do Amazonas, publicado em 1931.
Arthur Reis orgulhava-se de ter uma vida discreta, mas ainda assim era considerado uma personagem polêmica. Deve-se esse fato tanto à sua carreira enquanto pesquisador da História da Amazônia quanto à sua breve passagem pelo Governo do Estado do Amazonas entre 1964 e 1967.
Em seus escritos percebe-se claramente uma exaltação do caráter civilizatório da ação portuguesa. Para Arthur Reis, a colonização lusitana na Amazônia foi, definitivamente, bem-sucedida. Ao chegar à região, no século XVII, Portugal já teria acumulado a experiência aprendida nas colônias da África, da Ásia e do próprio litoral brasileiro, e, segundo o historiador, serviu de guia tanto para a ação do Estado quanto da “iniciativa privada” do colonizador. No entanto, mesmo com esse cabedal de experiência acumulado, a Amazônia se mostraria peculiar e diferente das outras conquistas coloniais de Portugal. O êxito dos colonizadores só foi possível porque, partindo dessa experiência prévia, não teriam se negado a realizar na região uma conquista que procurou adaptar-se às suas contingências.
Na narrativa histórica de Arthur Reis, a colonização na Amazônia segue sempre essa dupla via do ímpeto conquistador lusitano e de sua experiência adaptativa, uma alimentando a outra. É o que Arthur Reis chama de “realismo português”: o êxtase ante a grandiosidade do quadro físico, que impelem à conquista, logo dão lugar a uma “ação realística”, marcada por disposição, impetuosidade, constância e capacidade realizadora.
Toda a legislação expedida da Corte em relação à Amazônia é utilizada por Arthur Reis para servir de base a tais argumentações. Havendo necessariamente a preocupação geopolítica, que visava proteger a conquista territorial da cobiça de outros povos – preocupação essa demonstrada no aparato militar das fortificações ao longo da fronteira –, não seria somente com essa demonstração de força que Portugal iria impor a legitimidade de sua conquista na região. Para o autor, seria necessário gerir uma sociedade “ativa e modelar”, construída com incentivo à imigração e posteriormente à miscigenação, à fundação de núcleos urbanos, à tentativa de integração do indígena à nova sociedade – e uma política econômica de incentivo à agricultura, a defesa da fauna e da flora contra a atividade predatória excessiva que caracterizava a atividade extrativista, a organização do sistema de trabalho, comércio e exportação. Dessa forma, tinha um caráter de ocupação, de criação de uma “área humanizada” na região: o desenvolvimento de um processo colonizador que não visava unicamente à exploração de suas riquezas.
O esforço teórico de Arthur Reis buscava demandar uma política federal mais atuante, embasada na ciência, que analisasse as possibilidades de desenvolvimento para a região. Para tanto, empenhou-se em demonstrar que os trópicos eram habitáveis, e a possibilidade de desenvolvimento e de civilização na Amazônia, era aceitável: o problema encontrava-se não na natureza, mas na forma como a região era administrada e estudada. Inclusive, para o autor, a própria inércia e desinteresse do Estado brasileiro pela região, deviam-se, em grande parte, à visão distorcida ou idealizada que se tinha dela, que findava por condená-la ao primitivismo.
Para Arthur Reis, se no passado a conquista da região foi efetivada a contento, como um ato de coragem dos colonizadores, no presente, seria o rigor da pesquisa técnico-científica que permitiria um conhecimento exato e minucioso do território. Era preciso, no presente, retomar e plenificar a obra iniciada pelo colonizador lusitano.
A par desse pequeno resumo de sua obra, podemos entender melhor a participação de Arthur Reis em programas governamentais como a Superintendência do Plano de Valorização Econômica da Amazônia (SPVEA) e no Instituto Nacional de Pesquisa da Amazônia (INPA) na década de 1950, que tinham por principal objetivo propor e executar projetos para retirar a região da crise em que se encontrava após o fim do boom da borracha. Mas a morosidade da máquina pública e as poucas verbas concedidas fizeram da SPVEA uma experiência frustrada.
Então em 31 de Março de 1964, com o golpe de Estado que implanta a ditadura civil-militar no Brasil, um novo regime se instala, prometendo moralizar a política e desenvolver o país. Parece que a promessa será cumprida uma vez que a Amazônia é encarada como região-problema dentro da Ideologia da Segurança Nacional – muito espaço, pouco ocupado, na visão dos militares corria o risco de servir de abrigo a guerrilheiros. Mais uma vez, a condição de “especialista em Amazônia” o torna um forte candidato a um cargo público, dessa vez, o de governador do Amazonas.
Mas para Arthur Reis, que assume o cargo de 1964 a 1967, guerrilheiros não eram a única ameaça à integridade da Amazônia. Em 1965, inicia uma campanha na imprensa contra a presença de instituições de pesquisa estrangeiras, instaladas na Amazônia com a conivência do Governo Federal. Entendia tais ações como um atentado à soberania nacional. Não por acaso, havia publicado em 1960 o livro A Amazônia e a Cobiça Internacional, considerado por muitos como sua obra-prima. Nele apresenta o imperialismo sondando a Amazônia desde os tempos coloniais. Isso fez dele um livro aplaudido tanto por nacionalistas conservadores como por militantes da esquerda, tendo sido alvo de sucessivas reedições ao longo dos anos 1960, 1970 e 1980.
Seu governo foi ambíguo: colecionou crises e patrocinou iniciativas ousadas, sendo taxado, paradoxalmente de “autoritário” e “inovador”. Quanto ás crises, estas foram basicamente duas: primeiramente, um atrito com a Assembleia Legislativa e logo em seguida um desentendimento com o Judiciário. A mesma Assembleia que em junho de 1964 tinha aplaudido – com a exceção do então deputado Bernardo Cabral – a posse do novo governador, em agosto o amaldiçoava por ter encerrado uma sessão e ordenado que tropas da polícia cercassem o prédio. O caso estampou as manchetes dos jornais nacionais quando o senador Desiré Guarani o relatou em Brasília. Após uma ameaça de intervenção federal e uma tentativa de renúncia, optou-se pelo “esquecimento” entre ambas as partes.
Em fins do mesmo ano, o juiz Oswaldo Salignac foi aposentado compulsoriamente pelo governador, gerando contenda entre os desembargadores sobre a constitucionalidade dessa medida. A solução? Reis invalidou sua ação e Salignac aposentou-se voluntariamente. O que estava por trás das duas contendas? No primeiro caso, os entraves dos deputados em relação às medidas que Reis propunha, enquanto que no segundo, a absolvição de um destacado membro da administração anterior, Jaime Araújo, pelo juiz em questão, gerou a exoneração de Salignac.
Em sua defesa, o historiador-governador alegava que procurava apenas aprofundar o ideal da “Revolução”, expurgando os elementos corruptos e subversivos do cenário político. No meio do caminho encontrou a resistência dos deputados e dos desembargadores. Antes mesmo de aplicar tais medidas, Reis já era visto pela oposição como uma má escolha por sua inexperiência política. Até então havia se envolvido apenas em cargos de menor teor partidário. Mas agora era diferente, agora ele se encontrava no “olho do furacão” – entre as ordens de um novo regime e os interesses dos políticos regionais. Jornais o comparavam a um macaco em uma sala de porcelana. Não tinha tato político nem popularidade, diziam.
Em seu livro Dois Anos de Governo afirma: “O poder não pode ser exercido com hesitações, fraquezas, medo de agir. Quando ele nos é confiado temos de despir-nos do que nos é o prazer da vida para, no peso do dever, decidir com energia e segurança”. Em outras palavras, estava apenas obedecendo a ordens. Mas talvez suas ações fossem uma resposta a esta descrença na sua habilidade política.
Em compensação, suas obras de infraestrutura refletem um impulso de modernização: a reforma no Porto de Manaus, a batalha pela instalação da Zona Franca de Manaus e a construção da Rodovia Manaus-Itacoatiara, dentre outras. No campo cultural, a promoção de concursos literários, a publicação de obras de autores locais através da volumosa coleção das “Edições do Governo do Estado”, a fundação da Universidade do Amazonas e a realização de festivais de cinema e teatro. Inclusive Glauber Rocha passou por aqui para produzir um vídeo promocional do Estado chamado Amazonas, Amazonas em 1966, quando o diretor ainda estava reunindo recursos para produzir Terra em Transe.
Por sua obra e sua atuação política, encontramos posições diferentes sobre o Arthur Cézar Ferreira Reis. Enquanto o cineasta Aurélio Michiles o aplaude por sua “renascença cultural”, Narciso Lobo, à época jornalista de um dos periódicos empastelados pelo governador, ressalta seu “falso liberalismo”. Celebrado em instituições tradicionais como a Academia Amazonense de Letras ou o Instituto Geográfico e Histórico do Amazonas, criticado nas universidades.
Considerado por mais de uma geração de pesquisadores como um pioneiro e um importante sistematizador do conhecimento sobre a Amazônia, é taxado também como um historiador “positivista”, “conservador”, “autoritário” ou “superado” como se estas categorias fossem o suficiente para defini-lo. Na maioria das vezes, como diria o antropólogo Luiz de Castro Faria, sua obra é mais alvo de reverência do que de referência, sendo mais reconhecida do que efetivamente conhecida. Entretanto, há muito que ser dito, ainda, não só sobre este historiador, mas também sobre o período em que viveu. E este é o momento mais que oportuno para isso. Então, falemos de Arthur Reis!

Hélio Dantas

Mestre em História (PPGH/UFAM) e professor de História da Rede Pública Estadual e Municipal. É autor da Dissertação de Mestrado “Colonização e Civilização na Amazônia: Escrita da História e Construção do Regional na obra de Arthur Reis (1931-1966)”.

Vinicius Alves do Amaral

Licenciado em História pela UNINORTE e Mestrando em História Social (PPGH/UFAM). É autor do artigo “O Seringal e o Seringueiro: a ‘epopeia amazônica’ em Arthur Reis”, defendido como seu Trabalho de Conclusão de Curso.

segunda-feira, 17 de dezembro de 2012

Mama África

Tcharan! Tia Lucy (Aryana Monteiro) e Elo Perdido (Augusto Severo) no palco.
Foto: Jhames Bessa.
No primeiro semestre do ano nos aventuramos com o teatro amador com uma peça chamada Nóis Véve a História para abrir a XI Semana de História da Uninorte. Decidimos repetir a dose. Mas dessa vez para abrir a IX Semana da Consciência Negra que teve por tema a história da África.
O Vanderson Dinhows Fernandes e eu ficamos responsáveis por escrever a peça, escalar o elenco e ensaiar com eles. O primeiro passo até que foi fácil. Reunimos um monte de boas ideias e tivemos ainda a ajuda da mente pervertida criativa do Everton Andrade - ele que teve duas participações pequenas, mas super-especiais!
Vinicius Amaral, Vanderson Dinhows e Everton Andrade: os roteiristas.
Foto: Raoni Lopes.
A grande questão era como fazer algo que fale da História da África e que divirta ao mesmo tempo? De início apresentaríamos um breve painel da História da África, na forma de um monólogo, mas desistimos dessa ideia. Ficaria muito maçante. Afinal, são muitas informações e pouco tempo. O fato da história desse continente ser pouco conhecida era um obstáculo, porque precisávamos dialogar com o que o público sabia. Como rir de algo que você não conhece? Por isso, optamos em falar do que conhecemos, das imagens do senso comum.
A proposta era brincar com alguns estereótipos sobre esse continente enquanto apresentávamos alguns pontos pouco conhecidos sobre a história da África (como a presença dos impérios de Gana, Mali, Songai e a relação com o islamismo). Muita gente achou parecido com a peça Hermanoteu na Terra de Godá, outros com as gags do Monty Python.
A primeira dificuldade foi montar o elenco. Estávamos agora trabalhando com uma equipe muito maior que da última peça. Existiam alguns personagens que foram criados para tal pessoa, outros não, precisávamos achar alguém que se encaixasse no seu perfil e que estivesse disponível. O maior problema sempre foi achar pessoas compromissadas e com tempo disponível. E em se tratando de época de prova a coisa só se complica mais.
Mas, por incrível que pareça, conseguimos achar muita gente. Com a exceção de alguns egressos, a maioria dos atores vieram do segundo e terceiro período noturno. Gente que não se conhecia muito bem, apesar de viver se esbarrando pelos corredores da faculdade ou então se enfrentando nos jogos de pingue pongue.
Os ensaios eram feitos aos sábados, geralmente em uma das unidades da faculdade ou então no Largo São Sebastião. Com a aproximação da Semana da Consciência Negra passamos a fazer ensaios durante a semana, entre uma aula e outra.
Primeiro, precisávamos fixar as falas na mente.Depois treinamos a interpretação e a construção das cenas (qual seria a ordem de entrada de cada personagem, onde ele ficaria, como ele reagiria a tal fala, coisas do tipo). E ao fim de cada ensaio aos sábados, uma cervejada. E churrascadas também. Uma antes da peça e outra depois.
O elenco assistindo a peça na churrascada, dias depois.
Foto: Rafael Mota.
Não teríamos conseguido chegar lá, claro, sem o apoio da Profa. Elisângela Maciel, sem o compromisso de todo o elenco, sem o apoio técnico e moral do Everton e sem a garra do Vanderson Dinhows. Ouvi aplausos e elogios, mas creio que a nossa recompensa maior é outra.
Creio que esse tempo juntos ajudou a criar um sentimento de união de forma que a própria galera espera participar de novos eventos da mesma forma e com a mesma equipe. Então que venham os próximos eventos!

quinta-feira, 11 de outubro de 2012

Agenda cheia!

jean cocteau: surrealista francês.

Não sou muito de apresentar a todos meus planos, mas hoje farei isso.
Ultimamente tenho o privilégio de estar fazendo parte de diversos projetos ao mesmo tempo, o que tem por um lado ofuscado os posts desse blog e por outro consumido muito mais da minha criatividade.
Desde de março tenho mantido uma coluna no site Almanaque Urupês, iniciativa memorável dos irmãos Angelo e Pedro Rubim de preservar a história e memória de Taubaté e do Vale do Paraíba paulista como um todo. O título dela é Manauté - junção das duas cidades que me inspiram diariamente: a capital do Amazonas onde atualmente resido e a terra natal de Monteiro Lobato, onde morei por 6 anos.
Os objetivos principais tem sido três: analisar a história e memória taubateana, relatar minha experiência enquanto morador de uma cidade pouco conhecida dos paulistas e comentar fatos e processos pertinentes do presente.
E a partir do começo desse mês passo a fazer parte da equipe do blog Fagocitando São Paulo do meu amigo Diego Gatto. É um projeto mais voltado para textos de opinião e/ou literários. Falando nisso, tenho certeza que quem acompanha o presente blog já deve ter percebido que o Bar tem se ocupado recentemente mais com contos (de todos os tipos: microcontos, nanocontos, contos tamanho família, etc.). Apenas estou experimentando um gênero que gosto muito. É um ótimo exercício narrativo também. Qualquer dia tentarei unir o tipo de narrativa com qual tenho me identificado com minhas pesquisas em História.
Voltando ao assunto, não bastasse isso tudo, também estou envolvido noutro projeto. Esse ainda em fase de realização, mas que posso adiantar a vocês que será fantástico. A proposta é ótima: unir 15 autores novatos, mas talentosos (cada um em um campo: poesia, crônica, contos, comentários esportivos, ensaios, etc.) que abordarão a cada semana o mesmo tema de perspectivas diferentes.
Existem também os projetos fora do mundo virtual. Dentre eles posso citar apenas um: uma peça teatral para a abertura da IX Semana da Consciência Negra da Uninorte. Será uma comédia que girará em torno do tema do evento desse ano: a África. Brincamos um pouco com os estereótipos e a história desse continente. Todo sábado ensaiamos. Todo ensaio termina com uma cervejada , digo, um happy hour. A experiência vem sendo trabalhosa, mas divertida. Assim como os demais projetos de que participo.

quarta-feira, 10 de outubro de 2012

O ideal e o real na sala de aula.


Beber com os amigos, que alegria! Ainda mais quando é dia de jogo e não é o meu time que está perdendo. A propósito, minhas condolências ao Vasco, depois da surra do São Paulo.
Essa quarta feira foi cheia para mim. Cheia e molhada. Caiu um baita temporal na parte da tarde, justamente no momento em que saio de casa. Mas nem esquento, já é de práxis. São Pedro tem algo contra mim, eu sei.
Depois de bater um papo legal com os amigos na faculdade, fomos molhar a garganta. Nada de novo a não se o fato de que a companhia é nova. Novos amigos, novos papos. Um deles era exatamente sobre o objetivo da educação. Educar é transformar ou é libertar? Transformar pode ter um lado positivo e outro negativo, assim como libertar: libertar da ignorância ou libertar da inquietação?
Acredito que educar seja ambos. Transformar para libertar. O objetivo dos educadores é sempre formar cidadãos autonomos, já falamos disso aqui. Autonomia em que sentido? Estamos educando sujeitos para criar neles um espírito ainda um tanto iluminista, de que o esclarecimento resolverá todos nossos problemas?
São perguntas que sempre me aquietam.
Em nossas aulas ouvimos falar muito em "utopia transformadora". O que é isso? Seria a concepção de ensino como responsável por transformar o mundo. O professor de História, principalmente ele por causa da natureza da sua disciplina, teria então o dever de ajudar a mudar a triste situação do mundo a nossa volta através do ensino que nada mais seria que a criação de um espírito crítico nos alunos.
Quais as minhas ressalvas? Pode o pensamento crítico resolver tudo? Creio que não, ainda assim ele é um passo importantíssimo em direção a um mundo diferente. Podemos construir um mundo diferente? Sim, claro que podemos, mas o professor sozinho não consegue fazê-lo, daí a sua atuação ao lado de diversos grupos sociais que não somente os alunos. Vamos conseguir isso, dada a situação da educação brasileira?  Dificilmente, mas o que importa é continuar tentando. De uma coisa sei: a inércia não leva a nada.
A observação que tenho a fazer nessa quarta chuvosa é que a universidade, em se tratando das licenciaturas, procura dialogar com essa realidade e com o ideal. Claro, a realidade sempre desponta como predominante, mas a falta de um objetivo claro e, por que não, idealista faz com que todo nosso trabalho perca seu sentido. Sabemos que corremos o risco de transformar os alunos não em autonomos, mas seguidores de certa corrente de pensamento (do professor, por exemplo,  se o seu carisma for grande). Sabemos que a crença da educação redentora pode nos desviar de outras soluções pra nossos problemas estruturais. Mas ainda assim temos de seguir um ideal de certa maneira romântico porque esse "pequeno detalhe" faz uma diferença enorme no nosso cotidiano escolar. Até que enfim compreendo a grande contradição das disciplinas didáticas e pedagógicas ensinadas nas universidades - que nos estimulam inicialmente, mas que após o contato real com o estágio nos desencorajam - que é justamente isso: dar sentido a um trabalho importante. O ideal não é algo passível de ser realizado, parece óbvio, mas de ser perseguido. A procura por tentar imitar esse ideal é que cria mudanças no nível do real.
Espero que tenham entendido. Se não entenderam não me culpem, culpem o álcool.

segunda-feira, 1 de outubro de 2012

Gigantes agora adormecidos


Hoje o mundo perdeu um de seus maiores historiadores.
Nem bem tinha aceitado a perda do grande Cyro Resende Filho, lá se vai Eric Hobsbawm. Se nesse canto do Atlântico a comoção se concentrou em São Paulo e Taubaté, dois centros onde a produção e atuação de Cyrão era ativa e reconhecida, a morte do historiador britânico repercutiu em todo mundo.
Hobsbawm (ou Roberval, segundo alguns amigos meus) faleceu com 95 anos, com uma contribuição incontável para a História. Sua série de livros sobre o capitalismo (de A Era das Revoluções a Era dos Extremos) são antológicos. Assim como seus ensaios.
Admirava muito Hobsbawm, principalmente pela sua erudição incrível. O homem parecia um banco de dados ambulante: sabia recitar de cabeça a Ilíada e conhecia todos os grandes e obscuros nomes do jazz norte-americano. Antes de ler seus textos tinha que me preparar para a viagem: uma hora estava em Istambul, então passamos para a Melanésia e antes do fim do parágrafo voltamos á Argentina. Poucos sabem, mas um de seus países favoritos era o Brasil. Seu amor fica mais explícito em A Era dos Extremos em algumas rápidas considerações sobre a nossa grande arte, o futebol.
Conhecimento aprofundado e poder de síntese, duas combinações poderosas que Hobsbawm possuía. Seu estilo era coerente e flexível, livresco e ao mesmo tempo dinâmico. Difícil de explicar. Só lendo mesmo.
Fonte: Angelo Rubim/ Almanaque Urupês.

Quanto á Cyrão, meu professor de História Antiga, Medieval e Econômica durante minha estada na Universidade de Taubaté (UNITAU), possuía quase as mesmas qualidades. Suas grandes obras (História Econômica  Geral, Economia Brasileira Contemporânea e Rommel, a Raposa do Deserto) revelam um estilo objetivo, coerente e dinâmico.
Polêmico, tinha uma visão de mundo bem peculiar. Suas considerações em sala de aula e fora já eram folclóricas na época. Diferente de Hobsbawm, considerado por muitos como neo-marxista, Cyro era gramsciano "na veia". Era confundido por muitos como um carrasco, mas na realidade era apenas um professor exigente. Graças a ele, dentre meus outros mestres, descobri uma concepção de História nova que hoje tomo como bandeira também: mais importante que o fato é o processo, mais importante que a "decoreba" é entender.
Do ponto de vista acadêmico, essa semana começou melancólica portanto.

sexta-feira, 31 de agosto de 2012

Salve Mestre Arcângelo!

Quando somos levados a falar das pessoas que mais admiramos corremos dois riscos: ou falamos de mais,  beirando a bajulação, ou falamos de menos, deixando muito a desejar. Porém, quando não falamos delas corremos um risco maior ainda: dar a impressão de que não a admiramos.
Eu não gostaria de correr esse último risco, por isso hoje vou falar sobre uma pessoa que admiro muito: Prof. Arcângelo. Quando cheguei na Uninorte me pintaram uma imagem dele como se fosse um carrasco. Com o tempo descobri o exagero - seguindo essa lógica todo mundo que for exigente é um carrasco, uma besteira.
Seja nas aulas ou nas reuniões do projeto de extensão, o professor me surpreendia sempre pelo conhecimento do assunto (de História da Amazônia até o repertório do Nunes Filho) e pelo bom humor. Outra coisa que aprendi a admirar nele é a sua posição ética.
Portanto mesmo que não tivesse o título de mestre, para mim, o Prof. Arcângelo já seria um. É um exemplo em muitos sentidos e uma grande pessoa. Espero, assim como meus amigos, que possamos conversar muito ainda sobre Jackson do Pandeiro, Raymond Aron e cia.

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A cada período, uma palavra ou duas usada pelo professor nas aulas caia no gosto da turma, tornando-se quase a marca do mestre. Abaixo listo algumas:

"É preciso elencar o conhecimento e amalgamar os saberes".
"Isso é produto do etnocentrismo" ou então "da resignificação".

E existem aquelas frases que o professor solta no meio da aula para ver se o povo está mesmo acordado, como essas:

"Quero que vocês façam um trabalho com o seguinte título: 'a importância do cipó na vida cognitiva do macaco'".
"Até pra cuspir na escultura é preciso ter estrutura".
"Muitos elementos são usados para estudar a história: dialética, conjecturas, elixir paregórico, etc...".

segunda-feira, 20 de agosto de 2012

Repensar o olhar



Minha última empreitada foi fazer um vídeo sobre o movimento negro no Amazonas ao lado dos meus bons amigos da faculdade. Uma das nossas dificuldades foi como apresentar o tema sem esquematismos demais. Bem, encontramos uma maneira (não adianta, não vou revelar).
Nós pretendemos continuar enveredando por essa seara, tanto do audiovisual como da história da cultura e do movimento negro, por isso devemos refletir um pouco mais sobre esse assunto. É na realidade um assunto que se desdobra em dois: a linguagem e a narrativa.
Linguagem é o conjunto de signos que você utiliza para se comunicar. Narrativa é uma construção lógica. No nosso caso precisamos conhecer a linguagem do cinema e aprender um pouco mais sobre apresentar fatos de maneira bem interligada. Um ajuda o outro.
Claro que assistir muitos filmes e documentários ajuda a ter uma familiaridade com a linguagem e as narrativas cinematográficas, no entanto é preciso mais que isso (agora percebemos isso), é preciso refletir sobre elas.
Nessas horas a gente sente a falta que faz um cineclube...
(Dezembro de 2011).

sexta-feira, 17 de agosto de 2012

Há negociação sem diálogo?


Já fazem mais de três meses que as universidades federais estão em greve. Aliás, a atitude destes funcionários influenciou outras categorias a fazer o mesmo, caso, por exemplo dos caminhoneiros que tiveram suas reivindicações atendidas na mesma semana em que iniciaram a paralisação.
Por que a demora em se resolver esse impasse? Concordo com a análise de Hugo de Albuquerque de que a resposta está numa recusa e num egoísmo. Primeiro, a atitude do governo de Dilma de não se mostrar flexível á pressões e que tenta se justificar utilizando a desculpa da reserva econômica para uma crise mundial. Segundo, o corporativismo dos funcionários das universidades federais que apenas reivindicam uma melhora individual, de sua categoria, não estendendo seus pedidos á melhoria da educação como um todo. Reconheçamos que suas dificuldades são encontradas em quase todos os setores da educação pública, seja de ensino superior ou não, de universidades federais ou estaduais ou mesmo particulares. Então, se temos o mesmo problema, por que não nos reunirmos para chegarmos á uma solução?
E o povo parece ficar flutuando no meio desse embate, porque não entende a demorada recusa do governo e não se simpatiza com a pauta dos grevistas, já que o mundo acadêmico está mais distante de sua realidade.
Apoio a greve sim, mas por conta da proposta de melhoria qualitativa da educação que ela propõe. Mas não da forma limitada como muitos de seus líderes coloca a questão: uma melhoria qualitativa dentro e fora das universidades federais. Vamos estender essa preocupação com planos de carreira para os demais profissionais da educação. Já mencionei aqui em outra oportunidade a vitória dos professores mineiros ano passado justamente por contar com o apoio da população e propostas mais abrangentes.
Penso que mudar o status desse confronto, um verdadeiro diálogo de surdos, não passa por abandonar essa causa, mas por tentar minar os argumentos maniqueístas dos dois lados. Vamos lutar pela educação? Beleza, mas não nos apeguemos no puro ataque ao adversário. Cuidemos para que sejamos claros e conscientes do que propomos e de como atingiremos nosso propósito.

Recomendo a leitura do artigo muito bem escrito e pensado de Hugo de Albuquerque, com uma das análises mais lúcidas que já vi sobre esse movimento: Greve nas Federais: A (In)potência do não e o corporativismo.

sexta-feira, 13 de julho de 2012

Eu acredito é na rapaziada...

HOMENAGEM AO SÉTIMO PERÍODO


Todo mundo que já passou pelo Curso de História da Uninorte entre 2009 e 2012 já ouviu falar neles: a Turma de 2009. A turma que no começo eram duas, mas se juntaram. A turma da Velha Guarda, da Escola das Análias, dos Espartanos. A turma que marca presença nos eventos, seja nos bastidores ou fora deles.

Não é mistério para ninguém que gosto muito dessa turma. Quando me transferi para Uninorte por causa de uma confusão nessa maldita grade curricular cai na sala deles. Eu, todo arisco, logo fui apresentado ás tribos da sala. Com uns fiz amizade de cara, com outros demorei mais um pouco.

Acontece que fiquei impressionado com essa turma. Primeiro, pela sagacidade. Tinha lá seus abestalhados... Mas que no final das contas acabaram saindo "bilontras". Em segundo lugar, porque apesar de tantos grupos e visões de mundo diferente todos se respeitavam. E por último, é uma turma que tem a incrível capacidade de rir de si mesma.

Eu não me sentia numa sala de aula, mas numa roda de amigos. E vocês não sabem o quanto esses amigos me ajudaram a crescer. Por que o que se aprende com eles não é ensinado na faculdade: amizade, bom humor, respeito e, claro, muita sacanagem. E espero continuar aprendendo com vocês sempre.

Abraços á todos.

(Nota, Manaus - 12 de Julho de 2012).

quinta-feira, 5 de julho de 2012

A gente não quer só comida...


Greve nas universidades públicas. É o assunto que está na boca do povo, qualquer que seja a sua opinião. O que pedem os grevistas? Aumento de salários, melhor plano de carreira (para os vinculados diretamente ao ensino) e reaparelhamento das unidades.
A greve na UFAM começou em 27 de maio desse ano e não conta com o apoio da União Nacional dos Estudantes (UNE), acusada por muitos de ter se rendido ao governo. A movimentação está sendo organizada pelo Comando Nacional de Greve Estudantil e Manaus também tem a sua divisão regional do Comando. Sexta feira passada organizaram um evento no Parque Paulo Jacob (ou Igarapé do Mestre Chico) e terça agora uma manifestação na Praça da Polícia.
O que me preocupa não é a greve, mas os rumos que ela tende a tomar. O militante tem um compromisso com a sua causa, mas deve ter um compromisso também com a tolerância. Afinal, todos queremos uma sociedade mais democrática. Houve alguns casos em que funcionários que não aderiram a greve foram hostilizados, outros foram forçados a não trabalhar porque alguém sumiu com as chaves. Ainda bem que tais episódios foram solucionados com bom senso. Aderir a greve deve ser um ato consciente. Cada um escolhe se adere ou não.
Dito isso, vamos para o outro lado da história: o governo. Realmente é espantoso o descaso do governo com a greve, que vem sendo tratada com menosprezo ímpar. De um lado a mídia condenando, de outro o governo ignorando-a. E até quando isso? Há que haver pelo menos uma negociação. Para um governo que se vangloria de ter ajudado a aumentar o ingresso de jovens nas faculdades e de apoiar movimentos sociais essa é uma atitude muito decepcionante ou reveladora.

sábado, 30 de junho de 2012

Batismo de fogo


Sou tímido. Quem me conhece sabe. Na realidade, com quem eu conheço não costumo ser tímido. Resumindo, sou meio bicho-do-mato e isso não é novidade pra você que acompanha esse blog sempre (ou seja, estou falando contigo, mãe!).
Mas eu aceitei o desafio de superar o medo de falar em público. Afinal, em breve serei um professor (assim espero!) e como posso sê-lo se não consigo me comunicar com muitas pessoas? Os seminários, por mais assustadores que fossem, me ajudaram muito. Treinei e sinto que ainda tenho muito que treinar para conseguir ser suficientemente calmo, seguro e claro na minha fala.
Portanto vocês devem imaginar como eu fiquei a saber que teria de defender meu trabalho de conclusão de curso um período antes do esperado. Para mim isso significa o batismo de fogo para minha timidez.
Acontece que nessa sexta eu passei por essa prova. Para minha surpresa compareceram mais pessoas do que o esperado. O que contribuiu para a minha ansiedade ter aumentado um pouquinho mais.
Chegou a hora. Encarei a tarefa. Ao meu ver, me empolguei demais, gaguejei demais, me perdi em algumas gírias. Mas a maioria diz que fui bem.
Me aconselharam que me centrasse no processo da pesquisa. Afinal se trata de um trabalho acadêmico e os professores e os demais alunos tem que acompanhar como cheguei a certa conclusão. Como meu tema é basicamente uma revisão historiográfica então não tinha nem como eu fugir dessa questão.
Abordei minha problemática inicial, meus objetivos, os conceitos que utilizei (o referencial teórico), o modo como usei as fontes (a metodologia) e no finalzinho consegui falar ainda dos resultados. Ou seja, das minhas considerações.
Tentei ser claro ao abordar esses pontos. Quem não conhecia Arthur Cézar Ferreira Reis passou a conhecer. Bati muito na tecla de que a sua experiência e sua opinião política influenciavam a sua escrita da história. E acho que me fiz entender nesse ponto.

Quando a palavra foi passada á banca examinadora, congelei. Fiquei comovido com o elogio da Profa. Elisângela Soares. Quanto ás perguntas, tanto dela como da Profa. Adriana Barata, foram extremamente pontuais e sinto que algumas não consegui responder de todo, até por causa da falta de tempo. Aliás, a defesa até gerou uma discussão interessante de parte da banca como da platéia também sobre Arthur Reis e o Amazonas.
Não poderia deixar de falar, é claro, do meu orientador, Prof. Arcângelo Ferreira. Seu depoimento foi mais do que emocionante. Se muitas pessoas tivessem a metade da paciência, da humildade e da sabedoria desse homem... Não sei nem como agradecer pela ajuda e pela amizade. O senhor será sempre um dos meus mestres, tanto no que tange ao conhecimento quanto na ética. Muito obrigado por tudo!
Eu queria poder agradecer a todos que me parabenizaram depois da apresentação. Aos que não só me parabenizaram como me incentivaram a prosseguir na pesquisa e na docência. Muito obrigado a todos. Em especial á minha família, que pode comparecer ao evento. Senti como se fosse avaliado por duas bancas examinadoras: uma dos professores e outra dos meus pais. Ambas de pessoas queridas e sinceras. As contribuições que ouvi dos dois lados só me aguçaram mais.
Enfim, é isso! Mais um passo foi dado. Espero que seja um de muitos na minha carreira acadêmica.


(Todas as fotos aqui são de autoria de Maurílio Sayão).

quinta-feira, 9 de fevereiro de 2012

"Aula de hoje: Obladi Oblada. Peguem seu vinil e ouçam a faixa 10, classe..."


Se você está cansado de ser apenas um beatlemaníaco seus problemas acabaram: o Departamento de Letras da PUC-RJ irá abrir inscrições para um curso de extensão em Beatles. Infelizmente nós não somos pioneiros em Beatlogia: a Universidade Hope de Liverpool foi a primeira a formar uma mestranda na famosa banda inglesa. A beatlóloga se chama Mary-Lu Zahalan Kennedy e veio do Canadá para a terra do quarteto justamente por sua paixão pela banda.
Se acha que estou brincando é só conferir: o link para a notícia está aqui.
Não pude deixar de lembrar dessa gag das Olívias:
Bem, enquanto não temos um bacharelado em João Bosco ou Djavan, você pode aproveitar o curso sobre os Beatles. Deixando as brincadeiras de lado, os Beatles realmente são um divisor de águas na música internacional. Eles influenciaram não só a música, como o comportamento de uma geração. Tiveram no início um apelo mais juvenil, depois amadureceram musical e politicamente falando e até tiveram seu momento psicodélico. Seja como for, em todas essas fases sempre fizeram música de qualidade, unindo letra e melodia perfeitamente.
A ideia de ministrar um curso sobre os garotos de Liverpool, portanto, tem um bom respaldo. Eduardo Brocchi, professor do Departamento de Letras da PUC-RJ, se entusiasmou com a iniciativa da canadense Mary-Lu Kennedy e colocou as mãos na massa. Depois de três anos, finalmente conseguiu. O valor para se inscrever em "Beatles: História, Arte e Legado"? Uma bagatela de R$ 1860. O próprio Brocchi achou o preço salgado demais. Mas foi esse o meio-termo a que chegaram os professores e a universidade. Fazer o quê?...
Só sei de uma coisa, de abril a junho, os inscritos terão uma "hard day night" bem interessante.

segunda-feira, 12 de dezembro de 2011

O descompasso

Costa e Silva, já presidente, ao lado de seu vice, Pedro Aleixo, e do Ministro da Justiça, Gama e Silva.
Em agosto de 1966 passava pelo estado do Amazonas o marechal Artur da Costa e Silva, candidato único á presidência da República. Foi saudado no dia 23 pelo então governador Arthur Cezar Ferreira Reis com um discurso no qual clamava-se por uma maior integração entre o Norte e o Sul, um desenvolvimento que não excluísse as chamadas áreas periféricas do Brasil.
"A Universidade brasileira, por exemplo é, realmente, a Universidade de que estamos precisando para as operações de desenvolvimento que importam na obtenção desse progresso. (...) Há seiva a utilizar. Há semente boa para a semeadura. Aproveite-a, Excelência. Plante as árvores. O momento é propício. A Revolução de 31 de Março, a que Vossa Excelência serviu desde a primeira hora, abriu perspectivas luminosas. Não deixe-as perdidas."
O regime que se instaurou no Brasil em 1964 tinha como bandeira acabar com a subversão e a corrupção, moralizar e desenvolver o país, no entanto, pouca coisa mudou. Se instalou no poder uma fração da elite brasileira francamente anticomunista com um grupo de militares com pretensões mais autoritárias (os chamados "linha-dura"). Com o tempo a "linha-dura" acabou ganhando poder, em boa parte graças ao marechal Costa e Silva que como meio de se promover, de se chegar á presidência soube manipular os desejos desse grupo radical.

Artur da Costa e Silva (1899-1969) era Ministro da Guerra durante o governo de Castello Branco, o primeiro marechal na presidência, aquele que ajudou a construir o regime, embora defendesse uma ditadura temporária, apenas para estabilizar o país segundo o discurso oficial. A ditadura foi sendo prolongada. Todos esperavam eleições presidenciais em 1965, mas em outubro desse mesmo ano Castello anuncia que não haverão eleições por enquanto. Na mesma época, um dos tantos Atos Institucionais do governo acaba com os demais partidos. Os políticos terão de se refugiar em dois partidos: Movimento Democrático Brasileiro, a oposição, e Aliança Renovadora Nacional, a situação.
Castello, que procurava passar uma imagem de homem de alto valor cultural, muito refinado - aliás, foi em uma das muitas reuniões no Instituto Histórico Geográfico Brasileiro que conheceu o historiador amazonense Arthur Reis, se tornando seu amigo, amizade essa que culminaria na nomeação deste último como governador de sua terra natal - , na realidade, fez pouco para que a democracia voltasse. Por omissão, preferiu não punir os torturadores, denunciados na Missão Geisel (que tinha o propósito justamente de apurar denúncias de tortura por militares); chegou a se reunir com líderes da UNE, quebrando o protocolo da burocracia parlamentar, mas extinguiu a entidade em junho de 1964.
Marechal Castello Branco.
Em cima do muro, com um pé na democracia e outro na ditadura, titubeando entre o diálogo e a censura, Castello passou a ser reconhecido pelos próprios militares como um presidente fraco. Costa e Silva soube explorar essa sua fraqueza para se auto-promover, como se fosse um arauto dos militares que queriam aprofundar as perspectivas nada luminosas de 1964. Com fama de burro e bronco, Costa e Silva, no entanto, tinha pulso firme e entendia dos maquiavelismos da política (tanto que não é a toa que ele conseguiu com êxito sobressair-se mais que Castello Branco).
Lança sua candidatura pela ARENA. Como o MDB procurou se abster desse esboço de eleição, a vitória de Costa e Silva já era certa. Por isso, Reis em seu discurso lhe aconselha o que fazer com os rumos do Brasil. Como presente de aniversário, é declarado eleito em 3 de outubro de 1966, com 294 votos. Um fato curioso é que a eleição de Costa e Silva não inaugura só os anos de chumbo, já que a "linha-dura" agora tem total liberdade para fazer o que quiser, mas também é o marco da esquerda armada.
Aeroporto de Guararapes depois da explosão da bomba.

Em 25 de julho de 1966, durante a campanha presidencial, o marechal chegaria em Recife, mas por se atrasar um pouco na sua visita á outro estado preferiu ir de automóvel até Pernambuco. Contando que o futuro presidente do Brasil passasse pelo Aeroporto de Guararapes, um membro da Ação Popular colocou uma bomba dentro de uma valise em um roll do aeroporto. A bomba explodiu, matando duas pessoas e ferindo e aleijando quase uma centena de transeuntes. Até então esse era o primeiro atentado da esquerda brasileira.
Nos anos anteriores todas as demais tentativas dos grupos de esquerda de combater o regime não chegaram á tal nível, de promover um atentado onde inocentes pudessem ser mortos. É fato que parte da esquerda, distante do PCB que defendia uma linha de combate pacífico, já tinha escolhido trilhar o caminho das armas, como os guerrilheiros de Caparaó, entre Minas e São Paulo, e como a operação comandada pelo coronel Jefferson Cardim, no Rio Grande do Sul, podem demonstrar. Mas todas foram rapidamente desbaratadas pelo governo. A esquerda já estava armada, só não tinha ainda optado pela "guerrilha urbana" ou pelo "terrorismo".
O interessante é que a Ação Popular foi criada por rapazes vindos da Juventude Estudantil Católica e da Juventude Operária Católica, órgãos que nos anos 50 eram conservadores, mas um pouco liberais. O que fez eles deixarem a moderação e partir para um atentado desse porte? A resposta está no modo como a universidade era tratada pelo governo.
Flávio Suplicy de Lacerda.
Arthur Reis pede que o futuro presidente dê mais atenção ás universidades. O pedido de diálogo com as universidades é feito justamente pela falta do mesmo. Em parte, a culpa era do próprio governo. Castello Branco, o "militar culto e refinado", tinha como Ministro da Educação um obscuro reitor da Universidade Federal do Paraná que chamava estudantes de escorpiões e via o movimento estudantil como um bando de ladrões. Flávio Suplicy de Lacerda não se reunia com a UNE. Aliás, a UNE então estava sem sede própria, uma vez que na onda de manifestações de apoio ás causas "revolucionárias" um grupo de vândalos teria ateado fogo no antigo prédio da organização o incendiando por completo. O governo não teve nada a ver com o ocorrido, mas consentiu com o fato, na medida que não apurou quem estava por trás dos atos e não fez nada para encontrar uma nova sede para a organização (a desconfiança nascia da ligação que a UNE mantinha com o presidente deposto, Jango Goulart).
Autoritarismo na educação se unia ao oportunismo de alguns. É famoso o caso do reitor da antiga Universidade do Brasil, Eremildo Luiz Vianna, que ficou por anos a fio no cargo e com o golpe de 1964 demitiu 4 professores e 19 estudantes por suspeita de serem subversivos. O mesmo Eremildo Vianna foi investigado pelo governo e denunciado como fraudador das verbas da faculdade há anos, mas o processo foi arquivado por Suplicy de Lacerda. O reitor da USP, Antônio Luis Gama Silva, denunciou alguns de seus professores, dentre eles Florestan Fernandes para o Exército. Nos lugares dos professores e funcionários expurgados se colocavam amigos, gente de confiança e familiares. Ficava bem claro o tráfico de influência.

Também havia o contexto cultural. O mundo estava vivendo um momento onde conservadorismo e inovações estavam em choque, na chamada Era de Aquarius. Muitas certezas, construídas nas décadas anteriores, estavam sendo abaladas por uma juventude inquieta. 1968 é tido como o marco. Em Paris, estudantes universitários cansados do governo reacionário do presidente De Gaulle foram á rua protestar, enquanto nos EUA jovens que gostavam de música tinham seu contato com o movimento hippie no Festival de Música de Woodstoock. No Brasil, a experiência do Cinema Novo e dos Centros Populares de Cultura já davam a pista do que estava por vir. Isso tudo ajudou a criar uma estética da agitação, no dizer dos críticos da época; onde se unia a busca por um estilo novo com a cultura popular e um engajamento político.
Cada vez mais governo e universidade vão se distanciando, graças ao modo como o primeiro reagia ao segundo. Em 1964 temos a extinção da UNE, as principais faculdades passam a ser vigiadas por policiais, manifestações estudantis são reprimidas com pancadaria, líderes estudantis são presos. Essa radicalização do governo gera outra radicalização, a da esquerda, porque coloca estudantes insatisfeitos com o governo (o que não dizer que sejam todos comunistas) na mesma cela de comunistas históricos, militares contrários ao golpe e brizolistas. A Ação Popular contava com muitos jovens estudantes católicos como Herbert de Souza, o Betinho, mas também com sargentos e suboficiais, pessoas que entendiam de táticas militares. O que os unia era essa convicção de que a democracia não chegaria pelo diálogo com um governo que não queria diálogo.
O corpo de Edson Luis Souto sendo velado, com a bandeira do Calabouço.
Costa e Silva não ouviu os conselhos de Arthur Reis, pelo contrário, agravou o problema: em 1967 extingue as entidades estudantis estaduais, aprofunda a clandestinidade estudantil, além disso a "linha-dura" coloca mais peso nas repressões ás manifestações estudantis - numa manifestação em frente á embaixada americana, 28 estudantes são mortos, sem falar dos 300 alunos da UFRJ presos em outro protesto. O clímax desse desencontro pode ser considerado a morte do estudante paraense Edson Luís Souto em 1968, num restaurante para estudantes pobres no Rio de Janeiro conhecido como Calabouço. O motivo da confusão foi um protesto contra o aumento do preço da comida do Calabouço. Na batida policial, um tiro acerta Edson e o outro estudante Benedito Dutra. Os estudantes velam o corpo dos dois, tidos por eles como os primeiros mártires do movimento estudantil da época.
No final de junho uma grande manifestação é feita na Cinelândia, a Passeata dos Cem Mil, reunindo artistas, estudantes e até políticos, todos contrários aos métodos de repressão do regime. Aos poucos a classe média começou a perceber que a "linha-dura" estava dando um rumo estranho ao país, saindo de uma ditadura temporária para uma possível ditadura eterna. A última sinalização desse desejo se deu quando o AI-5 foi promulgado em dezembro de 1968. O pretexto foi um discurso polêmico do deputado Márcio Moreira Alves, pedindo que as mulheres boicotem seus namorados (se por acaso eles pertencerem ás Forças Armadas) e zombando do Dia do Soldado, uma vez que a Câmara dos Deputados não deixou que ele fosse punido. Tal ato demonstrava infiltração da subversão dentro do próprio governo, deveria ser feita uma limpeza, criando um governo mais coerente, sem objeções ao grande projeto de desenvolvimento e moralização que o regime vinha construindo.

Não é a toa que a universidade foi se tornando aos poucos a oposição velada ao governo. Apesar de com os constantes expurgos entrarem em seus quadros muitos oportunistas, ainda existia muitos descontentes com os rumos da política nacional, principalmente no ramo das Ciências Sociais (Filosofia, História, Pedagogia, Sociologia, Antropologia, etc). Aí está a origem da costumeira imagem do sociólogo ou historiador como o marxista de carteirinha, o contestador por excelência do status quo. Enquanto isso, se investia mais nas Ciências Exatas, principalmente na Engenharia, como forma de ajudar a dinamizar o mercado de trabalho e dispor de profissionais para construir a infra-estrutura que se desejava erguer, o Brasil Grande das obras faraônicas.
Como começamos esse artigo em Manaus é justo que falemos um pouco dos reflexos desse momento na capital do Amazonas. Bem, no atual estágio da minha pesquisa posso apresentar só algumas considerações: a primeira é de que os expurgos universitários também chegaram no Amazonas. O caso mais emblemático, com toda certeza, é do padre Luiz Ruas que além de ser pároco, poeta e cronista (vinculado ao Clube da Madrugada) também era professor da Faculdade de Filosofia do Amazonas. Preso em 1964, na onda de prisões de elementos considerados subversivos, Ruas foi liberado meses depois do golpe, mas guardou por toda sua vida essa péssima experiência. Continuou lecionando, mas com uma menor carga horária, em comparação a que desfrutava antes.

Mesmo detendo o pioneirismo por sediar a primeira universidade do Brasil, fundada em 1919 por Eulálio Chaves dentre outros, após a crise da borracha na década de 1920 a Universidade do Amazonas se esfacelou em uma série de pequenas faculdades, sendo a Faculdade de Direito uma das mais forte e prestigiada delas. Dela saiam os bacharéis, o título que a elite tradicional esperava que seu filho tivesse para ter acesso aos mais honrados empregos disponíveis. Mas havia também a Faculdade de Filosofia, Ciências e Letras, onde o prestígio era menor, mas a agitação menor. Nos primeiros dos anos 60, a agitação não tinha um cunho tão político, embora tenham se envolvido com a campanha dos Centros Populares de Cultura (promovendo uma Semana Cultural em Manaus com músicas e peças de teatro de fora do estado). É importante ressaltar o seu vínculo com o movimento Clube da Madrugada, que desejava desprovincionalizar Manaus, retirá-la de seu marasmo cultural. Um dos membros do Clube era o jovem estudante marxista Francisco Vasconcelos, que foi presidente da União dos Estudantes do Amazonas no começo dos anos 60.
Francisco Vasconcelos hoje mora em Brasília.

A partir de 1965, já na gestão de Manoel Alexandre, a UEA patrocina a formação de um grupo de teatro chamado Decisão (inspirando-se no show Opinião de Nara Leão, João do Valle e Zé Kéti) que ensaia produções teatrais ousadas. Mais tarde passaria a se chamar Teatro Universitário do Amazonas e teria seu fim com a baixa audiência de peças tanto do teatro político de Brecht como do teatro do absurdo de Ionesco e, claro, pela pesada vigilância do governo, que chegou a impedir a encenação da peça Zona Franca, Meu Amor de Márcio Souza, em 1968. A crítica ao governo já é notória.
Em 1968, a Zona Franca estava começando a ser instalada em Manaus e o AI-5 tinha destruído os programas de rádio Dimensões do Clube da Madrugada e Voz do Secundarista da União dos Estudantes Secundaristas do Amazonas, todos da Rádio Rio-Mar. O estudante de Direito Internacional Nestor Nascimento estava no Rio de Janeiro, onde presenciou a morte de Edson Souto. A partir daí e das torturas que viria a sofrer a seguir se engajaria na luta contra a ditadura, levando esse engajamento até Manaus. O PCB de Manaus ainda não sabia qual caminho tomar, embora a diretriz do Partidão pra todo país fosse a via pacífica. As manifestações eram pequenas e quando reprimidas, variando com o bom humor dos policiais, temia-se que os estudantes presos fossem levados para a prisão da Ilha de São Vicente, onde ficava o quartel do Grupamento de Elementos de Fronteira.
O peso dos anos de chumbo, portanto, também recaiu sobre Manaus. E as faculdades sentiram isso. Os estudantes de Manaus, os que desejavam ficar por aqui, enfrentavam dois problemas: encontrar mercado de trabalho numa cidade ainda provinciana e se livrar da forte repressão do governo militar. Ao primeiro, a Zona Franca parecia ser uma boa promessa de esperança. Ao segundo, contudo, a solução estava longe de vir ainda, justamente pela desarticulação dos movimentos de esquerda e estudantil na época. Talvez a fragmentação das faculdades tenha ajudado nisso. Talvez o fraco patrulhamento das faculdades e as poucas prisões não tenham criado, como aconteceu no resto do país, aquele vínculo que criou a esquerda armada, o contato entre os demais descontentes do regime. Não sei. Ainda é cedo para falar isso, melhor, para provar.

quarta-feira, 23 de novembro de 2011

O Negro no Amazonas

Profa. Arlete Anchieta (CDB/FOPAAM)
Foto: Maurílio Sayão.
No primeiro dia da Semana da Consciência Negra da Uninorte, a coordenadora geral do Fórum Permanente dos Afro-Descendentes, Profa. Arlete Anchieta, proferiu uma palestra sobre o movimento negro no Amazonas.
A palestra inicia-se homenageando uma figura conhecida aqui nesse blog, o intelectual e militante negro Nestor José Soeiro do Nascimento (1947-2003). Um dos pioneiros do movimento negro no estado do Amazonas, hoje quase esquecido pela maioria da população. Fundou a primeira entidade política negra local que se tem notícia, o Movimento Alma Negra (MOAN) no final dos anos 60.
Nestor José Soeiro Nascimento
Foto: Clóvis Eugênio/ Arquivo Em Tempo.
Muitos não viam necessidade em um movimento negro no Amazonas, onde a presença negra é quase mínima. Mas isso é um mito: a historiografia amazonense local tem combatido essa lenda criada pelos historiadores tradicionais, demonstrando o peso da escravidão africana na região. Arlete nos apresenta então um pequeno histórico sobre esta instituição no Amazonas: a origem dos escravizados, as rotas que seguiam para chegar na província, as ocupações em que eram empregados etc.
A presença negra tem um espaço todo seu na cultura amazônica e ele não é pequeno. A professora nos lembrou da origem negra da festa mais popular do Amazonas: o Boi Bumbá. Além disso, mencionou outras tantas manifestações culturais como a capoeira, o tambor de Mina, o samba etc. Não só manifestações culturais como também personagens conhecidos como a mãe-de-santo de São Jorge Joana Galante, o capoeirista Mestre Vermelho, o ex-secretário de saúde Henrique Mello e o famoso governador dos tempos da Belle Epóque Eduardo Ribeiro, dentre outros.
Vista panorâmica da Praça 14 nos anos 70
Foto: Cassius da Silva Fonseca.
A presença negra também se configura no traçado urbano de Manaus: os tradicionais bairros negros como Praça 14 de Janeiro, Seringal-Mirim (hoje Nossa Senhora das Graças), Morro da Liberdade, São Jorge etc. Hoje, estes bairros deixaram de ser redutos exclusivamente da cultura negra. A própria cultura negra está se irradiando por outros bairros como o Zumbi, Cidade Nova, Japiim, de história mais recente.
Logo, podemos concluir que a presença negra não é tão mínima assim quanto se imaginava. O objetivo do movimento negro é justamente trabalhar esta identidade, no sentido de valorizá-la. Enquanto a história oficial inculcou na cabeça de toda a população que não há quase negros no Amazonas, o movimento negro aqui tem o dever de contestar isso através não só de uma revisão historiográfica como também de ações que reafirmam a identidade negra.
E nesse tópico, a Profa. Arlete começa a falar dos movimentos negros no estado:
-Movimento Alma Negra (MOAN) fundado por Nestor Nascimento em meados dos anos 60 e sendo extinto alguns anos depois;
-Movimento Orgulho Negro (MON), criado nos anos 80 por antigos militantes do MOAN e moradores da Praça 14, que nos anos 90 se transformaria em Associação do Movimento Orgulho Negro do Amazonas (AMONAM);
-Movimento Afro-Descendente do Amazonas (AFROAMAZONAS), criado em fins de 2006, para reunir as lideranças dos demais movimentos negros da região, principalmente para divulgar suas opiniões.
-Fórum Permanente de Afro-Descendentes do Amazonas (FOPAAM), fundado em 2000 para congregar as demais entidades negras em seu bojo. Instituição da qual a professora Arlete Anchieta faz parte na condição de coordenadora geral.
O FOPAAM tem uma ligação com mães e pais de santo, mestres de capoeira, cantores de hip-hop e até quilombolas do Amazonas. Sim, no Amazonas existem quilombos (ao todo 15 comunidades), mas a professora mencionou o caso específico da comunidade de Novo Ayrão, onde o FOPAAM vem acompanhando todo o seu processo de legalização.
O próximo tópico da palestra foram as polêmicas políticas de ação afirmativa como as cotas raciais nas universidades, a legalização dos quilombos, o Estatuto da Igualdade Racial e o ensino de História da África nas salas de aula, por exemplo. Segundo a professora, a intenção não é revanchismo, mas tentar equilibrar uma condição social imposta por 300 anos de escravidão: a marginalização do negro. O preconceito é apenas um dos obstáculos que o negro brasileiro tem de enfrentar para poder ascender socialmente: entre os demais estão a falta de uma educação de qualidade e a baixa renda nos empregos. São medidas para afetar esse status quo.

Enfim, como vocês podem perceber, foi uma palestra muito proveitosa e esclarecedora. O estilo descontraído da Profa. Arlete também ajuda e muito que todos se interessem mais por esse tema. Ao meu ver, a Semana de Consciência Negra não poderia ter começado melhor.

sábado, 19 de novembro de 2011

VIII SEMANA DA CONSCIÊNCIA NEGRA - UNINORTE

Aqui está (com um certo atraso) a programação da oitava Semana da Consciência Negra, cujo tema deste ano será A Presença da Cultura Negra no Brasil e na Amazônia, promovida pelo curso de História da Uninorte:

Foto: Maurílio Sayão.


Dia 16

18h30mim
Abertura com ritual africano
William Daniel (Grupo Zimbábue)

19h30min
Palavras da Coordenação do Curso
Profa. Msc. Elisângela Socorro Maciel

19h10min
As Ideologias Afro-Brasileiras
(encenação com alunos e egressos do curso)

20h
Palestra: Movimentos negros no Amazonas
Profa. Msc. Arlete Anchieta (CDB/FOPAAM)

21h
Debate

22h
Encerramento
__________


Dia 17

18h30min
Abertura com dança
Grupo Zimbábue

19h
Negros em Movimento: a luta da memória contra o esquecimento
Documentário produzido por:
Prof. Msc. Arcângelo da Silva Ferreira, Antônio Everton Andrade, Francisca Anália Silva, Maria Lucirlei Barbosa, Maurílio Sayão e Vinicius Alves do Amaral.

19h30min
Debate

19h50min
Palestra: Resistência Escrava Política da Escravidão e Precarização da Liberdade no Amazonas Imperial
Prof. Ygor Olinto Rocha (UFAM)

20h50min
Debate

21h20min
Apresentação do projeto Faculdade no Meu Terreiro
Prof. Esp. Maurício Aurélio Couto Marques, Heberson Cardoso, Náira Pthera Fonseca de Souza e Washington Philipi Correa Barbosa.

22h
Encerramento
___________


Dia 18

18h30min
Abertura: apresentação de capoeira

19h
Palestra: Encantaria
Pai Jean Karlos Lima Nascimento

20h
Palestra: Encantaria na Amazônia
Prof. Marlon Seabra

20h50min
Atrações musicais: discentes do curso de Licenciatura em História
Miquéias William, Eusimar Fernandes e Franciley Jibson.

22h
Encerramento

Foto: Maurílio Sayão.

sexta-feira, 11 de novembro de 2011

Novidades

A equipe na ilha de edição: Maria Lucirlei Barbosa, Maurílio Freitas Sayão, Francisca Anália Ferreira Silva e eu. No computador, Edson Egas.
Foto: Maurílio Sayão.
Os leitores frequentes desse blog (se por acaso ele tiver alguns) devem estar se perguntando por que a demora em novas atualizações. O motivo vem a ser meu envolvimento com o projeto de extensão da faculdade sobre alteridade e diversidade na Amazônia Brasileira. Nosso projeto está em uma fase muito interessante e agitada: estamos construindo um pequeno vídeo sobre o movimento negro no Amazonas.
O pretenso documentário será exibido na VIII Semana de Consciência Negra do Departamento de História da Uninorte, entre os dias 16 e 18 desse mês.
Estamos muito cansados por conta da carga de material que coletamos e agora estamos editando, no entanto, também estamos muito ansiosos para vermos o produto pronto e a recepção do nosso público. Ficamos um pouco triste, pois tivemos que retirar muita coisa importante por conta do tempo, mas pretendemos fazer futuramente um documentário que englobe mais discussões e mais fontes.