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sexta-feira, 8 de fevereiro de 2013

Apenas profissionais ou bons profissionais?

Prof. Dr. Hideraldo Lima abre o I Encontro Estadual de História .

Para mim, o último grande acontecimento de 2012 foi o I Encontro Estadual da Associação Nacional dos Professores Universitários em História (ANPUH) da Seção Amazonas.
O evento ocorreu dos dias 10 a 13 de dezembro no Instituto de Ciências Humanas e Letras (ICHL) da UFAM, sendo organizado pelo presidente da ANPUH regional, Prof. Dr. Hideraldo Lima Costa. O encontro se desdobrou em manhãs, tardes e noites, por isso comentarei aqui apenas alguns episódios do evento.
O grande tema era O Profissional de História: Ensino e Pesquisa. Tema esse que vem em boa hora: a profissionalização do historiador deixou de ser promessa á uma realidade cada vez mais palpável. A regularização não deve servir, no entanto, como ponto de chegada, mas como ponto de partida para novas práticas e questões. 
Alguns minicursos tocaram nesse problemática, outros foram mais específicos. Eu optei por fazer o minicurso Possibilidades de Pesquisa em História da Amazônia no Ensino Básico, ministrado pelo Prof. Dr. Francisco Jorge dos Santos. A oficina se mostrou uma proveitosa conversa com esse grande conhecedor da Amazônia colonial sobre sua experiência não só enquanto professor, mas como escritor do livro didático História Geral da Amazônia.
Francisco Jorge dos Santos em certo momento do minicurso.

Resumo abaixo alguns pontos da aula introdutória do professor:
*O aluno é materialista, quer algo concreto, e o trabalho do historiador é eminentemente intelectual, então como incutir a historicidade na cabeça do menino? Fazendo-o pensar. "Tem que concatenar o cotidiano do aluno à cultura histórica do professor". Desnaturalizar o presente é uma boa tática. Ás vezes até algo inesperado pode nos ajudar como os erros nos livros didáticos (datas ou nomes trocados), porque nos ajuda a desconstruir o livro.
*Em relação á pesquisa em História é preciso ter em mente que ela pertence ao aluno e não ao professor. Não se trata de satisfazer uma curiosidade do professor, mas do aluno. Nós bem sabemos que tarefa de casa ou não é feita ou é deixada para os pais fazerem, em nome de uma boa nota. Estimular a curiosidade é um meio de impedir que o aluno opte por essas duas saídas. Uma vez interessado ele mesmo partirá para a pesquisa.
*Mas é importante saber que a pesquisa não pode ser ampla demais. Por isso, professor, desde o começo delimite o campo de fontes. O aluno não tem a missão de ser um pesquisador, lançando-se a todo tipo de arquivo em busca de algo que talvez nem exista ali. Para que a pesquisa não se torne um tiro no escuro é necessário que o professor estabeleça os locais em que se encontram fontes valiosas para a pesquisa. É uma forma de não traumatizar o aluno com a pesquisa e de não perder o controle desta tarefa.
*Nesse sentido, o professor deve atuar como um orientador, sugerindo rumos que a pesquisa pode tomar. "Ser professor de História não é uma simples profissão. É um estilo de vida". E entramos então no mérito da profissionalização do pesquisador: ora, ela é um passo importante e não o único passo a ser dado. É importante que essa medida venha acompanhada da qualificação das licenciaturas. O ensino não pode ser menosprezado. Afinal, queremos apenas profissionais ou bons profissionais?

segunda-feira, 15 de outubro de 2012

De aluno e de professor, todo mundo tem um pouco

Bem que eu poderia ter colocado o Mestre Yoda pra ilustrar essa matéria também...

Todos temos muito o que aprender, assim como temos o que ensinar também. Nessa vida, de aluno e professor todos temos um pouco. Mas existem aqueles que nos marcam, que nos ensinam mais do que esperamos. Não só conhecimento, mas atitudes. Á esses mestres meus parabéns. 
Dedico esta homenagem principalmente aos mestres que tive o privilégio de conhecer: Fátima Toledo, Mauro Castilho, Rachel Duarte Abdala, Edson Trajano, Armindo Boll, Arcangelo Ferreira, Elisângela Maciel,Adriana Barata Cabral, Tarcisio Normando, João Rozendo, Cristiane Manique, José Vicente Aguiar, Adelson Barros, Stelio Dantas, Maurício Couto, Sônia Brandão, Zé Maria (o pequeno grande homem), Walter Grassi Jr., João Neto, dentre tantos outros.

quarta-feira, 10 de outubro de 2012

O ideal e o real na sala de aula.


Beber com os amigos, que alegria! Ainda mais quando é dia de jogo e não é o meu time que está perdendo. A propósito, minhas condolências ao Vasco, depois da surra do São Paulo.
Essa quarta feira foi cheia para mim. Cheia e molhada. Caiu um baita temporal na parte da tarde, justamente no momento em que saio de casa. Mas nem esquento, já é de práxis. São Pedro tem algo contra mim, eu sei.
Depois de bater um papo legal com os amigos na faculdade, fomos molhar a garganta. Nada de novo a não se o fato de que a companhia é nova. Novos amigos, novos papos. Um deles era exatamente sobre o objetivo da educação. Educar é transformar ou é libertar? Transformar pode ter um lado positivo e outro negativo, assim como libertar: libertar da ignorância ou libertar da inquietação?
Acredito que educar seja ambos. Transformar para libertar. O objetivo dos educadores é sempre formar cidadãos autonomos, já falamos disso aqui. Autonomia em que sentido? Estamos educando sujeitos para criar neles um espírito ainda um tanto iluminista, de que o esclarecimento resolverá todos nossos problemas?
São perguntas que sempre me aquietam.
Em nossas aulas ouvimos falar muito em "utopia transformadora". O que é isso? Seria a concepção de ensino como responsável por transformar o mundo. O professor de História, principalmente ele por causa da natureza da sua disciplina, teria então o dever de ajudar a mudar a triste situação do mundo a nossa volta através do ensino que nada mais seria que a criação de um espírito crítico nos alunos.
Quais as minhas ressalvas? Pode o pensamento crítico resolver tudo? Creio que não, ainda assim ele é um passo importantíssimo em direção a um mundo diferente. Podemos construir um mundo diferente? Sim, claro que podemos, mas o professor sozinho não consegue fazê-lo, daí a sua atuação ao lado de diversos grupos sociais que não somente os alunos. Vamos conseguir isso, dada a situação da educação brasileira?  Dificilmente, mas o que importa é continuar tentando. De uma coisa sei: a inércia não leva a nada.
A observação que tenho a fazer nessa quarta chuvosa é que a universidade, em se tratando das licenciaturas, procura dialogar com essa realidade e com o ideal. Claro, a realidade sempre desponta como predominante, mas a falta de um objetivo claro e, por que não, idealista faz com que todo nosso trabalho perca seu sentido. Sabemos que corremos o risco de transformar os alunos não em autonomos, mas seguidores de certa corrente de pensamento (do professor, por exemplo,  se o seu carisma for grande). Sabemos que a crença da educação redentora pode nos desviar de outras soluções pra nossos problemas estruturais. Mas ainda assim temos de seguir um ideal de certa maneira romântico porque esse "pequeno detalhe" faz uma diferença enorme no nosso cotidiano escolar. Até que enfim compreendo a grande contradição das disciplinas didáticas e pedagógicas ensinadas nas universidades - que nos estimulam inicialmente, mas que após o contato real com o estágio nos desencorajam - que é justamente isso: dar sentido a um trabalho importante. O ideal não é algo passível de ser realizado, parece óbvio, mas de ser perseguido. A procura por tentar imitar esse ideal é que cria mudanças no nível do real.
Espero que tenham entendido. Se não entenderam não me culpem, culpem o álcool.

terça-feira, 2 de outubro de 2012

O fetichismo da Internet

APRENDER A APRENDER
Celso Castro
O Bibliotecário, Giuseppe Arcimboldo.

Para escrever seus Ensaios, publicados a partir de 1580, o filósofo Michel de Montaigne utilizou quase todo o patrimônio literário greco-romano disponível: menos de trezentos livros. A familiaridade de Montaigne com esse acervo era tamanha que, comparando-se trechos citados nos Ensaios com os originais, podem-se perceber pequenas alterações que sugerem que ele conhecia vários desses livros de cor. Em 1748, Montesquieu publicou Do espírito das leis consultando sua biblioteca pessoal de 3.000 volumes. À média de um livro por semana, levaríamos 55 anos para ler esse total, que podemos tomar como o quase-limite daquilo humanamente possível de se ler ao longo de uma vida. Avançando um século e meio, nos deparamos com uma cena em que o sofisticado Jacinto de Tormes, personagem de Eça de Queirós em A cidade e as serras, fica paralisado diante de sua biblioteca de 70 mil livros. A simples tarefa de escolher um livro para se distrair antes de dormir torna-se sobre-humana perante tamanha oferta de informação.
Contemporâneo de Jacinto, o filósofo Georg Simmel chamou a atenção para essa desproporção crescente entre a cultura objetiva -  aquele acervo material e imaterial disponível no mundo - e a cultura subjetiva, entendida como a proporção desse acervo que, individualmente, podemos processar. Enquanto a primeira cresce sem parar, a capacidade de os indivíduos cultivarem a si mesmos através da interação com as coisas permanece constante. Nesse sentido, à medida em que o acervo à sua disposição aumenta, o indivíduo pode aproveitar uma parcela decrescente dessa riqueza.
Com a popularização da imprensa e, principalmente, com a enorme quantidade de informação disponível pela Internet, a fenda entre nossa capacidade de aprendizado e a quantidade de informações que podemos digerir aumentou exponencialmente, e continua a aumentar sem cessar. A desorientação daí decorrente leva facilmente a um fenômeno que chamo de "fetichismo da Internet": a falsa ideia de que a rede tem vida própria, independente. Mecanismos de busca na Internet tornam-se uma espécie de oráculo moderno: muitas vezes, acreditamos que todas as respostas estão à distância de um clique do mouse.
Não se trata de negar a enorme potencialidade desse acervo de informações à nossa disposição. O que cabe é perguntar como agir, nesse cenário em que podemos processar apenas uma fração decrescente daquilo que existe para ser apreendido. É preciso privilegiar, no processo de formação intelectual, a importância do espírito crítico e a necessidade constante de aprendizado. Aprender é um processo de alargar a percepção de nossa ignorância daquilo que não sabemos, mais do que um ato de se acumular conhecimento. O importante é "aprender a aprender" constantemente, estimulando a imaginação criadora. É esse processo que permite lançar pontes sobre a fenda crescente da cultura humana.

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CELSO CASTRO É PESQUISADOR E DIRETOR DO CPDOC DA FUNDAÇÃO GETÚLIO VARGAS.

In: REVISTA DE HISTÓRIA DA BIBLIOTECA NACIONAL. n. 03, Setembro de 2005, p. 98.

sexta-feira, 17 de agosto de 2012

Há negociação sem diálogo?


Já fazem mais de três meses que as universidades federais estão em greve. Aliás, a atitude destes funcionários influenciou outras categorias a fazer o mesmo, caso, por exemplo dos caminhoneiros que tiveram suas reivindicações atendidas na mesma semana em que iniciaram a paralisação.
Por que a demora em se resolver esse impasse? Concordo com a análise de Hugo de Albuquerque de que a resposta está numa recusa e num egoísmo. Primeiro, a atitude do governo de Dilma de não se mostrar flexível á pressões e que tenta se justificar utilizando a desculpa da reserva econômica para uma crise mundial. Segundo, o corporativismo dos funcionários das universidades federais que apenas reivindicam uma melhora individual, de sua categoria, não estendendo seus pedidos á melhoria da educação como um todo. Reconheçamos que suas dificuldades são encontradas em quase todos os setores da educação pública, seja de ensino superior ou não, de universidades federais ou estaduais ou mesmo particulares. Então, se temos o mesmo problema, por que não nos reunirmos para chegarmos á uma solução?
E o povo parece ficar flutuando no meio desse embate, porque não entende a demorada recusa do governo e não se simpatiza com a pauta dos grevistas, já que o mundo acadêmico está mais distante de sua realidade.
Apoio a greve sim, mas por conta da proposta de melhoria qualitativa da educação que ela propõe. Mas não da forma limitada como muitos de seus líderes coloca a questão: uma melhoria qualitativa dentro e fora das universidades federais. Vamos estender essa preocupação com planos de carreira para os demais profissionais da educação. Já mencionei aqui em outra oportunidade a vitória dos professores mineiros ano passado justamente por contar com o apoio da população e propostas mais abrangentes.
Penso que mudar o status desse confronto, um verdadeiro diálogo de surdos, não passa por abandonar essa causa, mas por tentar minar os argumentos maniqueístas dos dois lados. Vamos lutar pela educação? Beleza, mas não nos apeguemos no puro ataque ao adversário. Cuidemos para que sejamos claros e conscientes do que propomos e de como atingiremos nosso propósito.

Recomendo a leitura do artigo muito bem escrito e pensado de Hugo de Albuquerque, com uma das análises mais lúcidas que já vi sobre esse movimento: Greve nas Federais: A (In)potência do não e o corporativismo.

quarta-feira, 25 de julho de 2012

Para além do "another brick in the wall"


Não há lugar melhor para se entender política que a sala de aula. E há quem pense que a escola é um lugar inocente...
Há professores que de primeira já desqualificam os alunos porque não sabem conjugar dois verbos no tempo certo. Ou então pelas preferências musicais deles. Mas há de se reconhecer que os alunos estão longe de serem burros. A maioria tem uma leitura de contexto muito aguçada.
O aluno, principalmente de Ensino Médio, sabe muito bem o que é autoridade, por mais indiferente ou rebelde que seja. Ele sabe que o professor é o representante direto da autoridade escolar. Ele sabe que se aproximar dele significa mais status. Assim como sabe também que enfrentá-lo, desafiá-lo, tem o mesmo efeito.
O soberania na sala de aula, acredita ele, reside nos demais colegas e não no professor. Ele é apenas um cara que acha que manda em alguma coisa. Na teoria ele manda sim na sala, mas se todos os alunos reprovam suas ações ele não pode fazer nada. Quando ninguém quer ter aula, acaba não tendo. A não ser que o professor incorpore Ivan, o Terrível e toque o terror na galera.

Há de se levar em consideração também que o aluno de Ensino Médio está em uma idade onde ele quer se afirmar no mundo, por isso precisa de atenção a todo minuto. A encrenca não é gratuita, ela pode servir como um letreiro neon, chamando a atenção da turma para um sujeito carente em vários sentidos.
Deixando um pouco o papo pedagógico, o fato é que o aluno quer ser percebido e para tanto se usa de diversas estratégias, sendo uma delas a bagunça. A outra pode ser aproximação com o professor em busca de reconhecimento e eventualmente de algum favorzinho. O professor tem de estar consciente disso. A sala de aula é também um tabuleiro de xadrez. Há vários interesses envolvidos. Como administrá-los?
Isso varia de sala para sala. O professor tem de ter a sensibilidade para saber onde está pisando, para dosar sua resposta a estes desafios. A compreensão do universo do aluno e a interação com ele é uma das bandeiras que os novos métodos pedagógicos defendem. Mas vamos problematizar um pouco mais isso: até que ponto é válido o professor se aproximar do aluno?
O que tenho percebido no estágio é que essa é uma prática arriscada, mas que pode dar bons frutos. A professora que acompanhei no estágio cultivava muitas amizades com as turmas, ao ponto de saber exatamente quando uma aluna estava triste ou um aluno estava nervoso, apesar das maneiras que muitos disfarçam. Mas ainda assim, ambas as partes se respeitavam. Muitos não diziam palavrão na presença dela. E convenhamos, garotos e moças com os hormônios á flor da pele não falando palavrão é mais raro que mico-leão dourado.

Já outro colega se aproximou de tal maneira dos alunos que estes não mais o respeitavam em sala de aula. A todo momento apelavam para a forte amizade que tinham como forma de escapar de um exercício ou mesmo ficavam bravos por terem tirado uma péssima nota. O que fica patente aí é que os estudantes não costumam encarar as pessoas como multifacetadas. Ou seja, um professor pode ser um cara nobre e sério numa hora, mas em outro momento, em uma roda de bar, por exemplo, pode ser o homem mais engraçado e companheiro do planeta, mas para eles isso é impensável. O professor chato de Química é chato 24 horas por dia na semana.
O aluno é multifacetado também. Na sala de aula ele pode se sentir mais livre para ser piadista ou cafajeste, enquanto em casa é mais inibido. O aluno tem seus alter-egos. Apesar de todos sermos diversos, cometemos esse erro. Os dois lados cometem esse erro: o professor não coloca fé no aluno e o estudante não procura entender o seu educador.
Voltando á polêmica: um professor pode ser amigo de seus alunos? Pode perfeitamente, desde que ele imponha limites para essa amizade. Sabendo que muitos confundem profissionalismo com amizade, é preciso dosar a intimidade. Fazê-lo entender que da porta para cá é uma coisa e do portão para a rua é outra. Entender essa divisão de espaços ajuda até no amadurecimento do aluno.
E quanto á questão de quem manda na aula? Continua sendo o professor. Mas atenção: ele não deve mandar como um rei absolutista. Ele tem de atuar como um administrado e um diplomata. Primeiro, expondo diretrizes. Depois, negociando interesses. O conhecimento é construído e não vomitado na cabeça dos alunos. Para construirmos esse conhecimento precisamos ter no mínimo uma direção senão o caos criativo da sala de aula pode se tornar uma anarquia estudantil.

Um professor se propõe a falar de Grandes Navegações e Expansão Marítima, digamos, e um aluno pergunta sobre a veracidade dos Evangelhos do Mar Morto. Boa pergunta, mas o tema da aula não é esse. Um bom professor responderia, mas não se estenderia demais no assunto. Se ele não respondesse, criaria o trauma nos alunos, inibindo que outros façam mais perguntas. Se respondesse e se alongar no papo chegaria ao fim da aula com um monte de teorias da conspiração (e os alunos adoram isso!) e nada de mercantilismo.
Mas há casos e casos. Dois exemplos: em uma aula sobre a Independência do Brasil se fala do endividamento do país e alguém pergunta como está a dívida externa hoje; falando sobre holocausto, alguns estudantes começam uma discussão sobre ética que não estava planejada na aula. Eu acho que nos dois casos é necessário se estender um pouco mais no tema. 
Primeiro, por que o interesse nas aulas é difícil de se construir. Claro que o bom professor consegue reverter essa situação. Segundo, o interesse do aluno vem geralmente de algo que dialogue com seu mundo e sua vida - e essa é uma das maneiras de fazê-los participar das aulas. Eles estão tentando entender o mundo a sua volta e ao mesmo tempo construir sua identidade. Eles não sabem o que é dívida externa, globalização, neoliberalismo, mas sabem que eles estão ai, na cara de todo mundo. Eles querem construir o seu caráter e uma lição de vida, por mais clichê que possa parecer, pode ajudá-los.
Enfim, se fosse comparar o bom professor com alguém seria com o líder populista. Sem pensar duas vezes! Não estou me referindo ao aspecto da demagogia e da corrupção, mas da sensibilidade que o político populista tem em relação ao seu eleitorado e como ele administra os interesses de todos de forma a criar uma certa "paz social". A sala de aula tem de ser um ambiente saudável. O conflito é bom, afinal democracia é conflito também, mas um tipo de conflito mais sutil e não o conflito pelo conflito. É preciso que todos se sintam á vontade para fazerem perguntas e contribuições. Lembrando que no âmbito da "política escolar", a boa conexão entre professor e alunos é algo frágil, mas ainda assim poderosa.

sábado, 14 de julho de 2012

Reflexões caiçaras



Consciência Histórica. Esse é um dos temas mais repetitivos desse blog. Já o abordei aqui de várias perspectivas diferentes. Por que falar de novo então? Nunca é demais falar de um assunto essencial, ainda mais se o faremos por novos ângulos.
Bem, o que é ela? O que é a consciência histórica? Para ser curto e grosso, quando alguém tem conhecimento de como o mundo á sua volta, seja de forma geral ou regional, se tornou o que é hoje então dizemos que essa pessoa tem uma consciência histórica. 
Digamos que estamos em uma comunidade de pescadores. Há ali um senhor que está aqui desde o começo da vila e que portanto presenciou tudo o que aqui ocorreu. Esse senhor tem consciência histórica? Podemos dizer que sim, afinal, a experiência a construiu. Quem não viveu esse momento todo adquire como? Através das palavras do ancião, a não ser que um deles saiba onde e o que pesquisar pra saber a origem dessa comunidade.
Você já deve ter percebido algo. Consciência histórica aqui está muito próxima do conceito de memória. O que diferenciou história de memória por muito tempo foi a maior objetividade concedida á história. Hoje isso já é questionável, já que o paradigma da neutralidade foi derrubado. Ora, o historiador também pode idealizar um passado tal qual o ancião da comunidade caiçara faria.
Outra coisa: se alguém de fora chegar na vila e perguntar ao velho se ele sabe quem foi Getúlio Vargas ou o que está acontecendo no Oriente Médio e ele responder que não, ainda assim podemos dizer que ele tem uma consciência histórica? Depende. Sobre um recorte mais amplo talvez não, mas sobre o seu contexto, a sua vila, ele tem sim.

Nosso mundo hoje anda encolhendo e vilas caiçaras já possuem TVs e até internet. Um garoto da vila pode saber tudo o que tá acontecendo lá no Egito, mas não saberia dizer como surgiram as casas de sua terra. Aí temos o exemplo oposto. A consciência histórica regional é perdida. Com a globalização e o avanço tecnológico é muito mais fácil descuidarmos da vida em nossa terra. São tantas informações e tão fáceis de achar. Mas será que temos uma consciência do contexto geral mesmo?
As notícias nos chegam fragmentadas, afinal são notícias. A todo momento algo acontece. O acontecimento por si só é valorizado e as causas são deixadas de lado. O garoto lá na vila, vendo na internet o povo egípcio se libertar de um ditador usando redes sociais não sabe muito mais além disso. Ele tem noção da importância desse fato? Ele sabe que isso representa a queda de um modelo de política no Oriente Médio? Pergunte á alguém na rua o que está acontecendo no Oriente Médio e depois pergunte o que isso representa. Faça esse teste.

O que importa mais? A memória ou a história? O contexto geral ou local? O fato ou o processo? Acredito que todos esses elementos são complementares. A história se alimenta de memória, o geral e o particular se articulam e o processo gera fatos e vice-versa. Acredito que o mais importante aqui é entendermos que na construção de uma consciência histórica hoje devemos levar em conta a subjetividade, a espacialidade e casualidade. Aprendamos com a comunidade caiçara a refletir sobre nosso papel como educadores e historiadores.

domingo, 27 de maio de 2012

Só um pensamento...

Imagine a cena: um professor está falando sobre a colonização do Brasil, o papel dos missionários na catequese dos índios e um aluno ao ver uma palavra estranha no texto pergunta:
-Professor, o que é "doutrinação"?
-Doutrinar é impor um modo de vida, uma filosofia, uma visão de mundo á pessoas que pensam diferente de você.
-Ah, mais ou menos como o senhor faz com a gente?
-Não, o que eu faço com vocês é diferente...
-Diferente como?
Vamos ir na onda do aluno, será que nos ensinar sobre a Idade Média não soa um pouco como doutrinação? Claro, pertencemos á sociedade ocidental (ainda que perifericamente), mas será que dar mais ênfase ao desenvolvimento da Europa não é exaltarmos o eurocentrismo?
Calma, não pensem que estou pedindo que queimem todos os livros didáticos de História que falem da Europa. Mas não seria muito mais interessante desenvolver conteúdos relacionados não só ao Brasil, mas ao Amazonas?
Em nossa região a História é muito mais palpável, mesmo após tantas e tantas mudanças que modificaram a cara de nossas cidades. Mas ainda assim podemos encontrá-la em passeios pelo centro da cidade, pelos museus, pelas praças, enfim. E não é necessário nem recorrer á monumentos ou instituições: há também o relato dos mais velhos das comunidades.
Acredito que pelo fato dessa história regional estar mais próxima do aluno ele pode se interessar mais pelos demais conteúdos. O problema não é ensinar Idade Média, mas entender porque é importante estudá-la e para isso precisamos nos reportar ao presente. Todo tipo de período histórico está fundindo com o presente, no entanto, uns são mais visíveis que outros, como no caso da história regional.
Só isso resolve? Não. O professor de História teria de saber como articular os saberes do presente com os do passado, como utilizar o interesse do aluno para fazê-lo entender seu contexto. Nesse sentido, visitar a histórica Rua Japurá e conversar com o pessoal que organiza a tradicional Festa de São Benedito não é importante só por aproximar duas gerações diferentes, mas para fazer os alunos entenderem também como se dá essa relação entre uma comunidade e uma cidade que se urbaniza desordenadamente como Manaus.
Já sabemos que a escola é um local de doutrinação também, ela não escapa de relações de poder. Mas é preciso também sabermos articular o ensino com outros ambientes educacionais. Ora, a educação também pode se dar em casa ou na rua. A escola não é a única, mas uma das formas de se educar. E se vamos educar nos atentando para estas outras formas, também devemos ficar de olho nas relações de poder que também existem nesses outros locais.

sábado, 19 de maio de 2012

Pensando aqui, escrevendo ali...


Agora, na reta final do curso de História, descobri que muitos colegas tem uma dificuldade enorme em escrever seus artigos e dissertações de conclusão de curso. Outro dia, aproveitando o gancho da Bienal do Livro no Amazonas, falamos de como a leitura e a escrita são dois atos quase que exóticos entre nós. Vamos pensar mais um pouco sobre isso.
Em primeiro lugar, a maior dificuldade dos meus colegas está nas diretrizes acadêmicas, em outras palavras, no esquema de como se faz um artigo e nas regras da ABNT. Em segundo lugar, o tempo. Escrever é algo demorado, muito trabalhoso, demanda muita concentração. Concentração essa que muitos não conseguem desenvolver com tão pouco tempo, diante de suas horas de trabalho. Fala-se muito que os escritores tem o dom de escrever bem, mas não se comenta que isso é trabalhado. Pode até ser que alguns nasçam com esse talento, mas ainda assim é preciso desenvolver muito ele para que se chegue no nível desejado e festejado por todos.
Em terceiro lugar, estamos falando de um país onde a escrita ainda é um privilégio. Diz-se que não temos mais analfabetos. Diz-se que o brasileiro está lendo mais. Mas não se procura saber como se chegou nessas afirmativas. A resposta dada sempre são os programas de alfabetização do governo. Eu me pergunto até que ponto eles tem ajudado, porque a maioria dos brasileiros na verdade são analfabetos funcionais. Ou seja, aprenderam a ler e escrever, mas não possuem nem de longe o domínio dessas técnicas. Resultado: não conseguem ir além do básico.
Exige-se no ensino superior espírito crítico e poder de interpretação, mas no ensino fundamental se prioriza a decoreba, a mal e porca alfabetização. O brasileiro pode até estar lendo mais, mas ele consegue interpretar melhor os textos? Ele consegue escrever, se expressar melhor? Vou ser otimista e acreditar que essa alfabetização seja um primeiro passo para se chegar a uma situação melhor. Se não se investir em um ensino qualitativo e não só quantitativo de nada adianta os MOBRAIs, a Educação de Jovens e Adultos...
Quarto lugar, o brasileiro também tem uma certa ojeriza em relação á ler e escrever. Nos meios intelectuais se cultua esses atos, até como forma de reafirmar status ás vezes, mas no cotidiano da maioria das pessoas a escrita tem um papel importante mas limitado. Na falta de contato com as letras, desenvolvemos melhor nossa linguagem visual e oral, o que não quer dizer que seja algo ruim, é apenas uma constatação. Por isso, entre um livro e um causo falado a maioria prefere o causo. Nós temos muito mais familiaridade com a palavra falada ou com a imagem. O brasileiro é o mestre da oralidade. Os gestos, a entonação e até o uso do silêncio são as ferramentas utilizadas por ele, muitas vezes genialmente, para narrar algo ou expressar seu ponto de vista.
Enfim, valorizar a leitura não é o único recurso na defesa de um país socialmente mais justo. Ora, podemos ir muito além dos projetos educacionais do governo e propormos um intercâmbio entre a cultura escrita e a cultura falada. Mas isso é papo pra outro post.

domingo, 6 de maio de 2012

Homens e livros: uma relação ambígua


De 27 de abril a 6 de maio ocorreu no Centro de Convenções do Studio 5, aqui em Manaus, a primeira Bienal do Livro no Amazonas. Eu, por uma série de motivos (todos ligados á faculdade e á família), não pude conferir o evento, enquanto quase todo mundo que eu conheço foi. Foram feitos vários lançamentos e conversas com algumas personalidades locais e de fora, como o ex-técnico da seleção brasileira Luis Carlos Parreira. Os preços variavam: de 5 reais em diante. Quem foi disse que sentiu falta de standes mais organizados, com uma sessão específica para livros infantis ou acadêmicos. Os organizadores do evento, depondo para os jornalistas de A Crítica, fizeram um balanço bem positivo da experiência, devido a grande frequência de visitantes, mas lembraram que poucos livros foram comprados.
Vamos ser sinceros, o brasileiro médio (odeio usar esse termo, mas não encontro outro melhor) não é muito acostumado coma leitura. O preço deles então só aumenta as justificativas de quem não tem ler como hábito. Penso que esse grande número de visitantes da Bienal demonstra que estamos começando a perder a timidez e a desconfiança com os livros. As pessoas estão mais interessadas em livros, mas o hábito se constrói com o tempo. Mais ações desse tipo ajudariam a quebrar esse fosso entre livros e homens no nosso país.

quarta-feira, 29 de fevereiro de 2012

Boas notícias!


O Ministério da Educação (MEC) definiu o piso nacional do magistério em R$ 1.451. Um aumento de 22% e pouquinho em comparação com o ano passado. Um aumento significativo comparado com o dos últimos anos. Um aumento feito com base no crescimento do valor mínimo por aluno do Fundo de Manutenção e Desenvolvimento da Educação Básica (Fundeb). Cresceu o número de alunos, aumenta-se o piso salarial do professor. A Lei do Piso garante que em 40 horas semanais de trabalho todo professor tem direito á esse valor. Nem um pouco á mais, nem á menos.
Os professores estão comemorando, já alguns políticos, principalmente governadores, estão espumando de raiva. Seu discurso é o mesmo: não podemos pagar, não temos dinheiro suficiente para pagá-los, blá blá blá... Ora, aquele município ou governo estadual que não pode completar a cota exigida deve recorrer ao governo federal, uma vez que ele completará o resto com suas verbas. Essa é a função do Fundeb, ora bolas! 
O que pode garantir que o piso seja instituído? Talvez uma paralisação geral. É o que a Confederação Nacional dos Trabalhadores em Educação (CNTE) propõe: greve de 14 a 16 de março. Estaremos lá.

sexta-feira, 20 de janeiro de 2012

Um bode expiatório chamado Professor


O magistério é uma profissão ambígua. Melhor, é uma profissão que é vista pela sociedade de forma ambígua: enxergam no professor um sujeito importante, afinal ele ensina as coisas ás pessoas, mas não tão importante a ponto de merecer um salário digno. E diante do fato de que nosso sistema educacional está falido a conclusão é imediata: a culpa é do professor. Do professor e do governo, mais ainda do primeiro porque ao contrário dos políticos, que já se espera que desviem verbas, o professor desviou-se do seu dever sagrado: ensinar.
Em primeiro lugar, cristalizou-se a imagem de que o professor é algo como um sacerdote. O seu dever é tão nobre que ele deve ter vocação para tanto e também - essa é a melhor de todas! - suportar com resignação os sacrifícios que o trabalho requer. Os sacrifícios vão desde alunos rebeldes até o baixo salário.

De repente me lembrei do conselho de Paulo Maluf quando governador de São Paulo para aumentar o salário dos professores: "elas deviam se casar então!" O digníssimo governador na hora que disse isso estava na cabeça com a imagem do professor que todos nós temos: geralmente uma mulher solteira muito paciente e muito carinhosa com seus alunos. Paulo Freire já escreveu um ótimo texto sobre o caráter ideológico da nossa imagem da "tia", por hora basta dizermos que essa representação ajuda a mantermos uma imagem do professor como um dócil profissional, um personagem que deve ser adorado e não tem com que reclamar.
O professor, parafraseando Pink Floyd, é apenas mais um tijolo no muro, mais uma engrenagem do sistema. A educação através dos tempos serviu ao propósito de doutrinar, de fazer com que os indivíduos compreendam qual sua função na sociedade. Isso não impediu que fossem criadas teorias pedagógicas voltadas para o desenvolvimento humano e não da ordem social. 

Continuando, ser professor não é só vocação. Ela tem um papel importante, é claro, mas existem métodos que podem te ajudar muito mais que sua própria intuição. Aí está a importância da pedagogia. Ela te dá recursos para se ter uma boa didática (entendendo didática como métodos e meios adotados por um professor para ensinar). Cada vez mais acredito que métodos não são suficiente, é preciso ter também uma boa relação com seus alunos.
Enfim, o que eu quero dizer é que ser professor não é fácil. Ser paciente, ter vocação, ser carinhoso não é o bastante, ainda mais aqui no Brasil e hoje quando a escola é mal aparelhada e os alunos estão distraídos por um mundo de novidades. Você entra na faculdade achando que é tudo muito fácil: se eu sei o conteúdo e sei os métodos, ensinar vai ser molezinha! Então, na reta final do curso, você finalmente encara a sala de aula no estágio e fica espantado: como eu vou controlar esse pessoal? Aí ou o cara desiste do curso ou se forma e decide que não vai mais se importar com os "monstrinhos". E temos assim mais um professor que não está nem aí para a educação e só piora a situação não ensinando efetivamente e deixando as aulas maçantes.

Ora que o sistema está falido isso é visível, mas não se resolve o problema fingindo que não o vê. O professor finge que ensina e o aluno finge que aprendeu, no dizer do Prof. Adelson Barros que me fez ver claramente esse paradoxo. O que é preciso então? Comprometimento. Alguém realmente comprometido com a educação reconhece o tamanho do problema, mas continua lutando tentando mudar a situação. Tentando realmente ensinar, tentando conseguir melhores condições de trabalho e de vida. Realmente não é fácil. O professor para se sustentar tem que se desdobrar em mil: assume como horista emprego em várias instituições, particulares e privadas. Com todo o seu tempo ocupado como sobrará tempo para investir em sua formação frequentando os programas de especialização das universidades e do governo?
Realmente precisamos ter melhores condições de vida senão a qualidade de nosso trabalho decai. Como conseguir? Se depender do governo nunca conseguiremos. Nossos secretários de educação, geralmente burocratas ou velhas raposas da política, sempre nos respondem com um "ah, você vai ter que esperar um pouco, ter de ser paciente". Esperar é exatamente o que não precisamos. A resposta que Amanda Gurgel, uma professora potiguar, deu a alguns políticos quando estes lhe deram esta desculpinha é ótima. Faço delas as minhas palavras: nossas necessidades são imediatas.

O que podemos fazer é pressionar para que ajam. No entanto, as organizações sindicais dos professores não são tão unidas a ponto de fazer a pressão com as quais dimensões necessárias para que algo seja feito. Existem algumas com mais força que outros, mas na maior parte dos estados elas são divididas. O que muito me entusiasmou foi a greve dos professores mineiros no ano passado que conseguiu visibilidade e reivindicações atendidas. A prova de que podemos mudar esta situação desanimadora.
Outra coisa que falta é a orientação. O contato com o sala de aula é um pouco tardia. A relação entre o professor e o estagiário não costuma ser das melhores: ou porque o professor escolhido não está realmente comprometido ou porque o estagiário quer implantar todos os moderníssimos métodos educacionais na sala de aula, ofendendo a experiência do seu orientador. Ora, o professor deve lembrar que está ali para orientar o estagiário, para mostrá-lo como são as coisas na prática, e o estagiário deve ter em mente que ele é passageiro na escola em que estagia e que deve respeitar a experiência do seu professor, seja ele comprometido ou não com o ensino.
Não sou um grande conhecedor da educação no Brasil. Nosso país é muito diverso, cada região tem seus problemas específicos. O que acredito é que comprometimento e uma boa orientação ajudariam e muito a mudar o nosso status quo, a começar pela maior união entre os professores o que geraria uma pressão maior por medidas necessárias e desconstruiria a imagem do professor-mártir. Só sei de uma coisa: "esperar mais um pouco" nunca foi uma boa opção.

sábado, 17 de dezembro de 2011

Ensinar ou pesquisar: eis a questão!


O ano-novo traz novas esperanças também para os estudantes de História, afinal o projeto de lei que regulamenta a profissionalização do historiador está em vias de ser aprovado. Esta decisão me deixa feliz, claro, mas também preocupado. Há mercado de trabalho para o historiador, ou seja, para o pesquisador especializado? Na certa há, mas muito pouco. As fundações de amparo á pesquisa espalhadas pelo país estão aí para provar isso.
Queira ou não, todo historiador tem de passar pela sala de aula. Sabemos de professores que se desdobram em inúmeras escolas só para cumprir seu turno de horista, embora desejem um tempo livre para pesquisar. A realidade é que o ensino ainda é o destino da maioria dos formados em História.
E isso é um problema? Não, o problema é como enxergamos essa realidade. Marlene Cainelli nos alerta para uma falsa oposição entre ensino e pesquisa que reside nas faculdades brasileiras.Essa oposição acredita que não se pode ser um bom pesquisador e um bom professor ao mesmo tempo e que a pesquisa é um espaço mais nobre do ofício justamente por produzir o conhecimento, por refletir.
É uma falsa oposição porque um professor pode sim dominar os instrumentos de pesquisa histórica. As duas esferas não se distanciam, mas se complementam. É preciso produzir conhecimento, mas guardá-lo nas prateleiras da academia é uma atitude fatalmente anti-crítica, contrária á expansão da reflexão. Produzir conhecimento deve vir acompanhado de meios de traduzi-lo para públicos maiores, sem desvirtuá-lo totalmente.
Essa dicotomia pode ter nascido da mentalidade tradicional que se tinha sobre o professor, visto como o dono do conhecimento que iria vomitar todo o conteúdo na cabeça de seus alunos. Essa falta de reflexão sobre o ensino, a didática, pode ter se unido á uma condição histórica: o papel de oposição velada ao regime militar que os cursos de pós-graduação em História adotaram. A pesquisa era valorizada, como forma de revelar uma visão mais realista da história do país e criticar os rumos que ele vinha tomando. São dois motivos, elencados por Cainelli, para tal distância entre ensino e pesquisa.
Aproveitemos essa discussão suscitada por tal medida para repensarmos não somente sobre o futuro mercado de trabalho do historiador, mas também sobre as tensões entre ensino e pesquisa e como superá-las.

quarta-feira, 12 de outubro de 2011

Entender o hoje

Muitos pesquisadores e professores, ao refletir sobre o ensino de História, destacam a função do professor de História em conscientizar seus alunos sobre o conhecimento histórico e o mundo em que vivem.
Num mundo onde somos inundados por informações a todo momento, não há nada que dê sentido á essa avalanche de dados. Hoje sabemos que as ditaduras árabes estão caindo, mas não sabemos o que isso significa. A História conecta estes acontecimentos com processos maiores e mais antigos. A pilha de informações ganha sentido. E passamos a ver que o imperialismo europeu no Oriente Médio, no começo do século XX, tem algo a ver com esse movimento de contestação ás velhas ditaduras criadas na região para impedir o avanço do fundamentalismo ou para assegurar o petróleo ás potências estrangeiras.
Por outro lado, aquilo que o aluno pensa ter sempre existido também é relativizado com a História. Muitos acreditam, por exemplo, que a escola tenha sempre existido. Qual o nosso espanto quando descobrimos que a escola como hoje a conhecemos é uma instituição recente, criada na Idade Moderna no contexto de formação dos Estados nacionais e dos conflitos religiosos entre católicos e protestantes.
Seja como for, o professor de Hístória deve dialogar com o universo do aluno. Deve fazê-lo entender o que significam os processos que ele vê na TV ou na sua própria cidade. Por isso, o professor de História deve se manter atualizado, para captar as carências do presente, como fala Jörn Rusen. Ele tem de construir suas aulas a partir desse interesse em entender o presente, uma interesse que o levará a entender o passado, já que, como sabemos, ambos estão mais do que inter-relacionados.

terça-feira, 23 de agosto de 2011

Mea Culpa ou nossa culpa?



Já faz um tempo que Amanda Gurgel, uma professora potiguar, fez um longo discurso atacando os políticos por  considerarem o professor o único responsável pela situação caótica da educação brasileira. Pois bem, coisa de dois dias atrás o governador do Ceará, Cid Gomes, disse: "Quem quer dar aula faz isso por gosto, e não pelo salário. Se quer ganhar melhor, pede demissão e vai para o ensino privado."
Ontem, na aula de Teoria e Prática do Ensino de História, ministrada pelo Prof. Tarcísio Serpa Normando falávamos justamente disso. Da idéia enraizada em nossa mentalidade do magistério enquanto sacerdócio. O professor tem a vocação para ensinar. Na sala de aula ele é o próprio saber, ele coloca na cabeça dos alunos todo o conhecimento.
De onde vem essa imagem? Levantamos algumas hipóteses: talvez a origem de nossa educação (afinal, os jesuítas dominaram a educação no Brasil por anos a fio) ou mesmo uma distorção do iluminismo (enxergando a Razão como uma entidade quase divina e o professor e o filósofo como os responsáveis por levá-la ás classes populares).
De qualquer maneira, o fato é que essa mentalidade tem mais culpa no cartório que o professor, pois ela justifica uma posição autoritária na sala de aula e falta de política educacionais que ajudem o professor nos órgãos responsáveis. O professor que se encara como um xamã não dialoga com seu aluno e assim vai se abrindo um fosso entre ele e sua turma. O político que encara o professor como sacerdote acredita que por ele estar servindo á uma causa maior não merece ter um bom salário, afinal o dinheiro corromperia sua "missão".
É claro que existem professores não comprometidos com a educação (e muitos), mas Cid Gomes apenas está procurando uma justificativa para os pequenos recursos destinados (ou desviados) á educação. E ao dizer isso se iguala á tantos políticos pelo nosso país. A culpa nunca é deles, mas dos professores. Muitos pais também acreditam que a culpa de seus filhos não aprenderem direito e não se comportarem seja do professor também. O que é um absurdo: a educação, como já falamos aqui antes, vai além dos muros da escola, ela está nas ruas e nas casas. E o sistema educacional é muito complexo que precisa que todas suas partes ajam conjugadas, o que não é o que acontece. Logo a culpa cai sempre sobre o elo mais fraco da corrente: o professor.
É muito fácil se desligar da responsabilidade de educar, Cid Gomes demonstra isso muito bem. Enquanto não houver professores comprometidos, pais comprometidos e políticos comprometidos com a educação o que podemos esperar?

quarta-feira, 17 de agosto de 2011

Leio logo existo

Quadro de Stojan Milanov.
Paulo Freire, em um congresso sobre educação, deveria falar sobre a importância de se ler. Procurando exemplos no seu passado ele criou uma reflexão muito interessante: antes de lermos qualquer coisa escrita, lemos tudo ao nosso redor. A leitura do mundo vem antes da leitura das palavras. O bom leitor leva as duas para o resto da vida.
Ler o mundo significa interpretá-lo. E interpretação é um ato que só pode ser feito por uma pessoa que deixa de ser simplesmente um macaco de imitação para se tornar um indivíduo mais autonômo e crítico, um sujeito.
A pedagogia de Paulo Freire é justamente essa: a de transformar o homem em sujeito através da troca de saberes entre professor e aluno. Para o educador pernambucano, o professor não poerder de vista nunca que uma pessoa aprende muito mais com conteúdos que falam sobre o seu mundo. Do que adianta alfabetizar uma população ribeirinha usando como exemplos frases como "vovò viu a uva" ou "caçamos o urso". São coisas fora do mundo dos alfabetizados, coisas que se tornam relíquias na sua cabeça porque nã o estão no universo de sua vivência.
Ler é importante porque estimula a autonomia do indíviduo: ele entra em contato com vários estilos, vários saberes e com isso pode construir o seu próprio estilo ou divulgar o seu saber. Leitura deve ajudar a nossa expressão e nosso senso crítico. Freire defende uma leitura seguida de interpretação. Uma leitura que tenha algo a ver com os desejos ou o cotidiano da pessoa a ser alfabetizada. É preciso afinidade para despertar o desejo de aprender. E é preciso diálogo para ensinar. Essas são as lições de Paulo Freire sobre a leitura.

terça-feira, 21 de junho de 2011

A lição de Shutruk Nahunte

O filme Clube do Imperador nos oferece algumas reflexões muito boas sobre a prática de educar. A história, dirigida por Michael Hoffman, se baseia no relacionamento entre um professor de História Antiga, John Hundert (interpretado por Kevin Kline) e seus alunos da Escola Saint Benedict para Garotos, principalmente Sedgwick Bell (Emile Hirsch), um garoto-problema.
Hundert é um homem extremamente ético que possui uma concepção clássica (no sentido de relembrar o pensamento dos filósofos gregos) de educação: para ele, o ensino é capaz de mudar o homem. Se o caráter de um homem é o seu destino, como afirma no começo do filme, a educação pode ensinar um homem a ser ético. É o que Hundert tenta fazer com seus alunos. Ele tenta despertar o interesse pelo aprendizado e utiliza os personagens históricos como modelos para as atitudes de seus alunos. Até mesmo o desconhecido Shutruk Nahunte, um general cartaginês que ganhou uma batalha, mas foi esquecido pela história porque ela não alterou em nada o status da guerra, foi uma conquista pessoal. Nahunte é um modelo do que não deve ser seguido: segundo Hundert, uma conquista baseada somente na ambição, sem contribuição, é uma falsa conquista.

Hundert e Bell.
Em 1976, chega á escola um aluno novo, Bell, filho de um eminente político norte-americano e que não leva nada á sério. Hundert o desaprova, mas após conhecer seu pai, se empatiza com o garoto e decide ajudá-lo. Afinal, o menino não tem culpa de ter um pai que não se importa com ele. O que Bell queria era ter o orgulho do pai e a forma dele conquistá-lo podia ser através de boas notas. Hundert o incentiva a entrar para um tradicional campeonato de perguntas sobre História Antiga, o Clube do Imperador, mas como ele não consegue a nota mínima para ser um dos colocados ele manipula os resultados e o inscreve na competição.
Para seu desapontamento, Hundert percebe que Bell estava colando e lhe manda uma pergunta improvável, passando a vitória para o outro finalista. Bell volta a ser o aluno problema que era antes e Hundert fica decepcionado não só com seu pupilo como consigo próprio por ter manipulado os resultados e retirado um aluno capaz da competição.
Passam-se os anos e Hundert espera ser o próximo reitor do colégio, mas perde o cargo para um colega que tinha melhores contatos. Desapontado, deixa a escola, mas é convidado para ser jurado de uma competição no estilo do Clube do Imperador. Uma revanche, mas dessa vez todos são homens feitos. Bell se tornou empresário e é o responsável pela nova competição. Hundert vai com a esperança de que as coisa sejam consertadas dessa vez, no entanto, Bell repete o mesmo ato (colando) e Hundert repete a fórmula que o desclassificou fazendo uma pergunta tão óbvia que não podia estar na cola. Bell não perde a compostura e faz um discurso lançando a sua candidatura política. Assim, Hundert entende finalmente a motivação dessa revanche: uma forma de Bell se auto-promover.
Hundert dessa vez tira satisfações com Bell e este justifica suas ações com base em seu sucesso. Hundert tenta agir certo e está no fundo do poço, enquanto seu aluno corrupto está cada vez mais rico. No entanto, seu filho ouve a conversa e se decepciona com o pai. Parece que a história se repete: um novo abismo entre pai e filho. Hundert então se pergunta até que ponto as conquistas de Bell foram realmente conquistas.
Antes de ir embora, o professor pede desculpas ao antigo aluno que desclassificou para ajudar Bell e recebe uma homenagem de todos seus ex-alunos. A consideração que eles possuem por ele o sensibilizou. Hundert pode perceber que conseguiu atingir o seu objetivo, pois a maioria de seus antigos pupilos eram realmente homens éticos. Bell foi um dos poucos erros.

Hundert entre seus alunos.
Assim ele volta a dar aulas. Pouco lhe importa que a instituição não lhe reconheça, o que importa é que ele está fazendo o certo; está formando homens responsáveis e maduros e estes reconheceram um dia a dívida que tem para com ele. Pouco lhe importa que um aluno não conseguiu aprender isso, pois o que realmente importa é não desistir e continuar tentando atingir esse objetivo com outros alunos.
Hundert possui uma prática pedagógica, como dissemos, clássica, mas que tem muito em comum com a maioria dos filósofos da educação, uma vez que todos concordam que a educação não é só conhecimento, mas também atitudes e habilidades que devem transformar o homem em um ser independente e responsável.
Hundert também algo em comum com nós, atuais e futuros professores: ele não é devidamente reconhecido pelos órgãos oficiais. Nossa profissão possui essa característica muito interessante de ser supervalorizada como instrumento de mudança e desenvolvimento da sociedade e, por outro lado, de não valorizar seu profissional. Ao professor recai as mazelas do sistema educacional: não se enxerga a educação como um processo que merece a atenção de todos. O filme salienta inclusive o papel da família na educação, através do senador que não quer que Hundert molde seu filho, Bell.
O ramo da educação é algo muito difícil. É uma luta diária. Sabemos que o sistema educacional brasileiro foi feito para estimular a alienação (uma vez que ele está subordinado ao Estado e ao capitalismo). Além de possuir esse objetivo, o sistema não é eficiente e está falindo. O resultado é o que vemos na televisão: alunos sem condição de estudar por causa da falta de recursos na sala de aula (inclusive merenda) por conta do desvio de verbas e professores se desdobrando em mil para poder ensinar uma sala de milhares de pessoas.
No entanto, o filme nos passa uma mensagem que está longe de ser conformista: a situação é difícil, mas a realização de ensinar vale a pena. O verdadeiro professor é aquele profissional que sabe disso. O verdadeiro professor é um lutador se pensarmos bem. E a educação nesse país precisa de lutadores, de pessoas comprometidas. Senão nunca conseguiremos formar homens éticos. Senão toda conquista no campo educacional será vazia como a de Shutruk Nahunte.

quinta-feira, 9 de junho de 2011

Oprimido e Opressor

Oprimido e opressor, dominado e dominador. São definições que já foram tão usadas que parecem ter se tornado rótulos muito convenientes. Não só na Política como na História. A culpa é de quem? De Marx? Ao contrário do que muitos pensam, Marx não foi um dos primeiros pensadores á falar de dominação. Antes dele houve pensadores, inclusive conservadores, que falam da dominação, muitos, aliás, defendendo a opressão. Quase contemporâneo de Marx, Max Weber desenvolveu quase uma tipologia das dominações (desde a dominação seguida de violência até a manipulação pelo carisma).
No entanto, não foram esses autores que divulgaram ao extremo essa "dobradinha". Suas produções estiveram voltadas para o meio acadêmico e mesmo aqueles que tinham um projeto político (como Marx) tiveram suas idéias simplificadas ao máximo pelos seus seguidores. Marx, por exemplo, dizia que não existe dominação absoluta, enquanto muitos dos que diziam ser seus seguidores a concebia como estrutura onipotente.
A dominação é um dos assuntos principais das Ciências Humanas, sendo apenas ponto divergente entre os vários pensadores a qual classe devem defender. Oliveira Vianna, pensador autoritário brasileiro, por exemplo, se simpatiza com as elites e o Estado, defendendo uma política opressiva que ensine o povo brasileiro a ser civilizado. Ortega y Gasset, filósofo espanhol, acreditava por sua vez que a modernidade tinha dado muito poder ás massas e que caberia ás elites o dever de discipliná-las para não cairmos na anarquia. A opressão no pensamento desses autores é vista como positiva, já que aqui se salienta o papel disciplinador do poder.
Michel Foucault construiu sua filosofia em cima da denúnica dos mecanismos de poder, dentro e fora da política, simpatizando-se com todos os alvos do "projeto disciplinador": as mulheres, os loucos, os homossexuais, os bandidos, etc. Walter Benjamin declara que todo historiador deve simpatizar com os marginais, pois eles são apagados da história pelos vencedores. É uma forma de dominação simbólica: a história desses marginais não é uma história sobre eles, mas sobre aqueles que os dominam. Pierre Bourdieu, sociólogo argelino, lembra que a dominação pode assumir diversas formas e considera interessante as formas como as pessoas a enganam.
Acho interessante a contribuição do educador pernambucano Paulo Freire: a maioria das teorias e ideologias que querem acabar com a dominação não desejam realmente acabar com ela, mas apenas substituir uma dominação por outra. O desejo do oprimido é se tornar opressor, porque para ele essa é a única maneira dele se afirmar como sujeito de sua própria vida. O modelo que ele tem de ser humano digno é seu opressor. Assim, devemos romper com essa visão. O oprimido tem que ter sua humanidade valorizada e podemos fazer isso tentando desenvolver a sua autonomia e independência, tanto material como intelectual. Portanto, a função da educação aqui é essencial.

quarta-feira, 1 de junho de 2011

Educação para os clássicos

Da série "sínteses na cantina entre um cafézinho e outro":

Como os filósofos gregos viam a educação? Os sofistas acreditavam que era mais interessante apostar no prestígio e na oratória do que na educação e no conhecimento. Sócrates, considerado o pai da filosofia, discordava. Para ele, a verdade é um bem maior e a ignorância é um mal. Logo, a educação ajuda a nos levar para a virtude.
Platão
Seu discípulo, Platão, concordava com ele que o conhecimento é uma virtude, mas sua preocupação maior era entender de onde vinha o conhecimento. Como podemos ensinar algo ás pessoas? Se elas não sabem do que estou falando, elas nunca aprenderão. Se elas sabem do que estou falando, não preciso ensiná-las. Por outro lado, elas sabem do que estou falando, mas não descobriram isso ainda. No primeiro caso, temos o total desconhecimento, no segundo, o total conhecimento e nesse último, nós temos um conhecimento parcial. Se eu sei disso, mas não me lembro muito bem quer dizer que aprendi isso antes em algum lugar. Mas onde? Segundo Platão, nós aprendemos com nossas constantes reencarnações. Cada vez que passamos pelo Hades, o mundo dos mortos, esquecemos um bocado do que aprendemos. Esquecemos só o que é mundano, agora o que é transcendental não.
A filosofia de Platão é idealista. Ela coloca as idéias como verdades imutáveis e eternas. Existem dois mundos: o mundo material e o mundo das idéias. O mundo das idéias é como fosse um rascunho do mundo material, é o projeto. Porém, na visão dele, toda vez que vamos concretizar esse projeto ele sai com algum defeito. Assim, o mundo das idéias é sempre mais perfeito que o mundo real. No mundo ideal, a idéia mais importante é a idéia de bem. Quando reencarnamos esquecemos essa idéia, mas ela continua lá, perdida em algum lugar de nossa cabeça. A função da educação é lembrarmos dessa e de outras idéias. Educar para Platão é relembrar.
Aristóteles
Aristóteles, seu discípulo, concebia o mundo de uma outra forma: o mundo material e o mundo das idéias não estão separados, eles estão juntos. Cada forma, cada coisa, tem sua idéia, sua potência. Essa potência precisa de um incentivo para ser ativada e dessa maneira a forma dá tudo de si. Se entendermos o ser humano como uma forma e suas habilidades (pensar, transformar a natureza, etc.) como uma potência, então para fazê-lo atingir o seu potencial precisamos de um incentivo que seria a educação. A principal potência que a educação tem de despertar em nós é a virtude.
Platão e Aristóteles no afresco de Rafael Sânzio.
Aristóteles acredita que todos procuram a felicidade, tanto os homens como as mulheres, tanto os indivíduos quanto os governos. O problema é o que cada um entende como felicidade. Felicidade para você pode ser ter um carrão do ano, enquanto para ele pode ser ter um ioiô. Aristóteles divide a felicidade em dois tipos: a mundana e a intelectual. A mundana é uma felicidade mesquinha, egoísta, enquanto a intelectual é transformadora, ela faz o homem deixar de ser ignorante e egoísta. A virtude faz o homem feliz e todos ao seu redor também; o respeito e o conhecimento multiplicam assim a felicidade.
Qual o sentido da educação para todos eles? Melhorar a sociedade. Agora, como ela fará isso é que eles discordam entre si: Sócrates acredita no poder da maiêutica (ensinar através de perguntas, questionar), Platão acredita que a sociedade deveria ser dividida em classes tendo cada classe uma função e uma educação adequada (os artesãos, os guerreiros, os reis-filósofoso - pois os governantes devem ser sábios como os filósofos), enquanto Aristóteles propõe que o governo cuide da educação para formar cidadãos que saibam viver na Pólis (que saibam ser políticos). Porém, todos acreditam que a boa educação traz a virtude.

domingo, 22 de maio de 2011

Ler é preciso!...

Quadro de Johanna Harmon.
Conheço muita gente que se arrepende de ter entrado na faculdade por causa da carga de leitura. Também conheço muita gente que não sabe como interpretar textos.
A leitura faz parte da educação, uma vez que a nossa cultura (ocidental) é baseada na escrita. Mesmo quem se dedica á matemática tem que se prender á leitura dos enunciados e sabemos que uma frase mal interpretada cria um verdadeiro problema, seja nas Ciências Exatas ou nas Ciências Humanas.
O Brasil é um dos países onde mais existem analfabeto funcionais, ou seja, aqueles que sabem ler e escrever parcialmente, ou "o básico" como eles mesmo dizem. Se o próprio ato de ler já é fraco, imagine então o ato de interpretar textos.
Interpretar e analisar são atos que exigem autonomia e responsabilidade. São atos que devem ser estimulados justamente para criar um sujeito crítico. Se a função da educação é, como discutimos aqui antes, formar indivíduos independentes e críticos, então a leitura tem um papel fundamental não só na universidade como em toda escola.
O que está acontecendo hoje é a consolidação do analfabeto funcional, aquele que só sabe assinar o nome e não sabe distinguir em um texto uma frase irônica de uma incisiva. Ler incentiva a escrita; o contato com os mais variados tipos de texto ajuda a entendermos os mais variados estilos e formas discursivas. Esses estilos e formas discursivas são importantes por quê, você me perguntaria. Ora, a escrita é uma forma de se expressar. Todos nós precisamos construir nossa forma de expressão, seja através das imagens, dos sons, etc. A escrita é uma das mais utilizadas e mais importantes. A escrita exige um ordenamento de idéias e um esclarecimento que ajuda e muito as pessoas a se expressarem melhor. Um sujeito que não sabe se expressar é um sujeito silenciado, que vive ás custas da voz dos outros, ele nunca será independente.
Todo texto carrega uma mensagem. Nem sempre ela está clara. Você como leitor tem de decifrá-la e para isso deve estar ciente dos muitos recursos que um autor pode utilizar. Entender o contexto em que esse autor escreveu pode te ajudar também a encontrar sua real mensagem. Ler, como podem ver, é um exercício de investigação.
Mas só ler não basta. Educação não é só leitura ou escrita, mas um pouco de tudo. A escrita é apenas uma ferramenta para nos entendermos, mas pode ser também um instrumento educacional se usada como maneira de estimular a expressividade e criatividade dos alunos. Mas ela deve vir sempre acompanhada de outros instrumentos que favorecam o despertar da autonomia desse aluno. Não podemos nos esquecer e menosprezar as demais formas de expressão.
Um aluno que consegue captar as mensagens de textos e imagens e que sabe se expressar bem é um exemplo sim, mas devemos ter em mente que estas características devem ser constantemente valorizadas e preservadas. Deve-se criar essa hábito, como muitos dizem. Um aluno que sabe interpretar textos não é um aluno 100% autonômo, mas já é alguma coisa. A semente foi plantada. Depende dele se a leitura e a escrita será cultivada.