Foto: Maurílio Sayão

sábado, 10 de março de 2012

Undertown


LUA CHEIA
A cidade suja dava seu último suspiro antes de ir dormir quando aquilo aconteceu. Foi tudo muito rápido: o uivo, o grito, seres correndo na sombra e no fim uma poça de sangue.

ASCO
O homem no ônibus era repugnante. Cheio de perebas por todo o corpo, como sarampo. Surpreso, encontrou uma pereba no seu rosto ao chegar do trabalho. Em menos de um dia ele tinha se tornado repugnante.

PRAGA
Maldições não costumam pegar. A não ser daquela velha prostituta. O rapaz nunca mais retalharia ninguém: uma viga de metal o deteve a caminho de casa.

MEDO DE ESCURO
Sons. Sons debaixo da cama. Quando eles pararão? Não aguenta mais, tem que olhar. Hmm... nada de anormal. A não ser aquela criatura escamosa com bigodes de bagre e dentes de tubarão.

DIZ-ME COM QUEM ANDAS...
Há um nível saudável de loucura. O médico sempre lhe dizia isso. Mas ver homúnculos por toda parte é uma doença, completava. Fazer o quê, doutor, se eles gostam da minha companhia?

CASO CONJUGAL
O apartamento escuro era o cenário da tragédia: um homem que voltou mais cedo do trabalho e pegou a mulher na cama com outro. Duas pessoas foram mortas. O vampiro destruidor de lares, contudo, continua foragido.

Pensata I


O sucateiro chegou na rua. Olhar afiado, já enxerga a latinha de cerveja escondida no matagal alto. Aguenta a provocação da meninada. Divide a rua com os carros, metade deles na calçada. Portão sim e portão não, cachorros põem-se a latir. Alguém finalmente lhe deu um "boa tarde".
O velho apoiado no muro pergunta se ele só pega coisas pequenas. Amanhã, quando vier com sua carroça, pegará a bicicleta quebrada da netinha do homem.
Os esqueletos de pipas nos fios dos postes balançam, o vento mudou de direção. Ele aproveita o momento ameno e reflete: a sucata mais preciosa hoje em dia é o respeito. Depois escarra no chão e sobe a ladeira, arrastando o saco de bugigangas.

AVISO

Os bloqueiros agora devem estar se familiarizando com essa visão.
Nessa sexta-feira fui surpreendido com a notícia de que Escritório Central de Arrecadação (Ecad) começaria a cobrar as músicas divulgadas em blogs. Caligraffitti e A Leitora foram os primeiros a serem cobrados. O valor:  R$ 352, 99. Isso por cada música!
O Ecad é responsável desde 1976, quando foi criado, por cobrar os direitos de reprodução de músicas. A novidade é ele ter migrado agora para o meio digital, alegando que os blogs deveriam pagar pelo direito de veiculação das músicas. A resposta dos blogueiros tem sido: como o blog pode estar retransmitindo a música se ele o faz utilizando o Youtube como fonte, ou seja, o Youtube continuaria sendo a plataforma de retransmissão e não o blog. Até agora não ouvi a réplica.
O que sei é que a blogosfera anda agitada. Se há algo de bom nessa jogada mercantilista é que a nossa lei de direitos autorais será revista agora (ela foi criada em 1998 quando a internet engatinhava em solo tupiniquim). Até lá, meus amigos, tenho que lhes dizer que esse blog terá de se livrar de muitos vídeos que acompanharam nossas postagens. Espero que essa amputação seja provisória, pois desse jeito muitos posts perderam um pouco da sua dinâmica. De qualquer maneira, Bar Brikolagen continua vivo. E em breve abordaremos o tema: Internet e Direitos Autorais. Não sei por que...

Mais informações sobre o Ecad: O que é Ecad? E por que ele está cobrando direito autoral dos blogs?

terça-feira, 6 de março de 2012

Sorriso amarelo: polemizando e entendendo o humor de hoje


Agora que vocês conhecem minha concepção de humor e um pouco da história dele na TV, finalmente posso entrar de cabeça na questão. Como dissemos antes, o humor é subjetivo e subversivo. Nem sempre você rir da mesma coisa que teu colega e quando alguém rir de ti você se sente desmoralizado. Por séculos, os tiranos e poderosos tentaram sufocar o riso, temendo serem humilhados. O riso pode ser uma forma de protesto.
Mas o riso também pode ser uma arma muito perigosa. Usamos aqui o exemplo o Buylling em outra oportunidade. Reitero a escolha. Ridicularizar ao extremo o rapaz que tem orelhas grandes significa traumatizar alguém e incentivar a intolerância. O que há de engraçado nesses dois resultados?
O humor hoje continua na moda. A moda de um humor novo. Um humor que seja diferente, subversivo. E o diferente aqui acaba sendo ser desbocado e anárquico, em outras palavras, atacar de frente o politicamente correto, movimento executado pelas minorias contra o preconceito que vem sendo bem recepcionado pela opinião pública e o Estado. Já falei antes, houve um tempo em que a febre nacional entre a garotada era humorista. "Papai, quero ser humorista! Vou zoar todo mundo!". Humor não é simplesmente zoar, já discutimos isso. O que é importante dizer agora é que muitos querem ser comediantes simplesmente pelo prazer de zoar com as pessoas. Claro, não são a maioria, mas é uma parte do todo que acaba manchando a reputação da profissão.
Esse pessoal abusa de duas premissas: a liberdade de expressão e o individualismo. "Eu posso falar o que quiser porque temos liberdade de expressão!" Claro que pode, mas o problema é que essa visão exclui o Outro. O que eu posso falar pode magoar alguém, pode dar margem á alguma coisa interpretação perigosa, enfim, enxergar o direito de liberdade de expressão da noção de respeito mútuo, tão cara á democracia, é uma desvirtuação.

Agora nos voltemos para nossos humoristas de verdade e seus programas: a maioria deles, na TV aberta, se declaram ecléticos, mas em muitos momentos fica nítido que o público-alvo é diferente: alguns são a rapaziada de classe média, outros são o povão mesmo. Se proclamam, ou pelos menos é o que se pode inferir, que são programas inovadores e subversivos. Uma subversão enlatada, pois a maioria dispões de recursos e de ajuda da mídia. Alguns apostam na crítica social como diferencial, mas acabam escorregando numa ideologia um pouco elitista. Alguns humoristas acabam até caindo na armadilha do egocentrismo que se ampara no direito á liberdade de expressão.
Não sou contra que se toquem em temas espinhosos, desde que seja feito isso com o máximo de cuidado. Qualquer assunto pode se tornar uma piada, mas nem sempre uma piada de bom gosto. Afinal, há que se ter em vista o respeito. Nesse ponto, o humor negro é um dos campos mais arriscados de se investir, pois brinca justamente com tabus e questões delicadas. É uma corda bamba. Um movimento em falso e se cai na vulgaridade.
Humoristas apelando para vulgaridade? Isso não é exclusivo de nosso tempo. Houve uma época em que Chico Anysio fez uma brincadeira com Lula, chamando-o com todas as palavras de vagabundo e miserável. Ele teve de se retratar. Ora, comediantes são seres humanos também, não estão imunes de preconceitos e principalmente de erros. A coisa pega quando eles não reconhecem que erraram.

Na minha opinião, Rafinha Bastos errou com sua piada sobre Wanessa Camargo e seu bebê. Nos dois sentidos: fazendo um esforço para ser suficientemente frio, reconheço que a piada não teve graça e, pelo ponto de vista moral, não respeitou a condição de gestante da cantora. Não admitir esse erro é o que mais me decepciona nesse cara que tem tudo para ser um grande humorista.
Ele próprio já admitiu que quer apenas ver o circo pegar fogo. Em uma entrevista revelou que anda pensando se ele continua com essa posição ou passa a aproveitar o seu status de personalidade pública para debater temas interessantes. Afinal, estamos falando do homem que foi considerado o mais influente do mundo, tomando o número de seus seguidores como base. Queira ou não ele está influenciando que o segue ou curte.     Achei interessante ele resolver assumir seu papel como um exemplo respeitável. Mas não sei se essa mudança de fato acontecerá. Rafinha já tem contratos com a Fox e a Rede TV, emissoras ansiosas por seus seguidores.
Mas, sejamos imparciais ou pelo menos tentemos: da outra parte também encontramos uma certa intolerância. Quando Preta Gil foi alvo de piadas de Danilo Gentili em nenhum momento Gilberto Gil utilizou de seu cacife político para despedi-lo da Band. As respostas da cantora e de quem lhe apoiava foi suficiente. Isso faz parte da democracia: erros não se combatem com erros. Por conta de uma abobrinha devo baixar um decreto pedindo a cabeça de fulano? Não é o certo. 
O pior é que já tem até gente pensando em fazer um projeto de lei para definir o que é ilegal no humor. Mais um absurdo. O humor é subjetivo, quando você impõe regras á ele está admitindo que o "bom humor", aquele que você julga ser o melhor, é o único tipo de humor possível, menosprezando assim o gosto de outras pessoas por paródias ou humor negro, por exemplo. Onde fica aí o respeito para com o Outro? Rir é um dos atos de mais pura liberdade e realização da sociedade humana, devemos acorrentá-lo á leis só porque erros foram cometidos? Não tem cabimento.
O que me garante então que não vamos ter vulgaridade gratuita na TV? O bom senso. Há um acordo invisível sobre o que é passível e o que não é passível de ser avacalhado, podemos até chamá-lo de um padrão social.Se esse acordo, se esse padrão não vem sendo seguido então é um dever nosso manifestar nosso descontentamento, pedir que se retratem. Mas daí a querer linchar ou baixar uma regulamentação do humor é viajar na maionese.
Um bom humorista sempre procura ser original. Sempre procura novas maneiras de fazer rir, novos temas para suas piadas e seus shows. Mas é preciso ter em mente que nem tudo é "humorível". É preciso pesar muitas vezes o que vale mais: a gargalhada ou a seriedade do tema ou da pessoa tratada. Esse é um dos dilemas morais da arte de fazer rir, demonstrando que o humor tem sim sua parte séria e não é por ser séria que ela deixa de ser menos interessante, pelo menos para mim.
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Veja mais:

domingo, 4 de março de 2012

Humor hoje: só dói quando ninguém rir

OBS: Esse artigo tratará do humor utilizando a TV como foco, porque entendo que este veículo de massa é responsável pela popularização do humor que se vem produzindo no país.
Na minha opinião o Brasil é um dos maiores celeiros de humoristas do mundo. Mas ainda no começo do século passado o humor aqui não era reconhecido como profissão, ele estava amadurecendo. Bom humor é uma das características que muitos viajantes ou pesquisadores estrangeiros diziam encontrar na nossa gente e é justamente esse humor do dia-a-dia que muitos levam para os palcos. Mesmo assim havia aquela ideia de que isso era vulgar, que o humor de verdade é aquele polido e inteligente. Gente que acredita nessa premissa até hoje ataca as chanchadas.
Ora, não existe O humor, mas vários tipos de humor. Nenhum melhor ou pior ao outro, são apenas diferentes. Humor popular deixa de ser humor só por ser popular? Só por ser um pouco mais ingênuo, um pouco menos politizado? Nem sempre ele é assim. Na maioria das vezes os políticos e o governo acabam entrando como tempero no caldo do humor popular. É bem verdade que nessa sopa ás vezes encontramos algumas pitadinhas de preconceito, oriundos do senso comum, mas nem o humor inteligente está isento de preconceitos também.

O que eu quero dizer é que o humor popular foi por muito tempo, digamos assim, subversivo. Subversivo simplesmente porque ele queria provar que era humor também. Com a chegada da televisão no Brasil, esse humor acabou ganhando o seu espaço. Na verdade já o tinha nas ruas e depois nas rádios, mas com a televisão ele passou a ter um alcance maior e conquistou gradativamente o status de profissão. Aliás, foram os grandes humoristas do rádio que ajudaram a consolidar o humor no país por meio da TV, como José Vasconcelos, Chico Anysio, Walter D'Ávila, Manoel de Nóbrega, Costinha, Ronald Golias e companhia.
Essa turma se adaptou ao novo mundo que a indústria cultural proporcionava. O que não significa que muitos se renderam á ela. Muitas vezes os improvisos (os famosos cacos) acabavam se tornando protestos ligeiros contra os ditames das emissoras. Aqueles mais radicais continuaram fora do veículo. Há outro lado também: a televisão não é a única plataforma possível para o humor. Há a escrita, a música, as fotos, enfim, um mundo de possibilidades. E aqui gostaria de destacar a figura de Millôr Fernandes, um dos nossos maiores gênios do humor, que faz um humor inteligente acessível e multimídia (desenho, teatro, imprensa) há mais de 40 anos.

Vivemos um marasmos, humoristicamente falando, nos últimos anos. Os consagrados mestres do riso faleceram em sua maioria, embora muitos ainda estejam aí sendo mal-aproveitados. Ao mesmo tempo, um pessoal começou a despontar. Com a internet, a divulgação passou a ser maior, mais democrática. Alguns nomes do humor atual foram alavancados graças á ela. Outros começaram seu caminho nos bares, nas rádios, nos bastidores da TV. O marco dessa nova era foi a migração de um programa de rádio para a TV: Me refiro aqui ao pessoal que faz parte do grupo de humoristas da Jovem Pan que criaram, lá por 2005 ou 2006 mais ou menos, o Pânico na TV. Antes já existia Hermes e Renato, mas era na TV á cabo. Pânico na TV tinha maior popularidade justamente por estar num canal da TV aberta.

Qual foi a grande mudança? Agora estamos falando de um tipo de humor que não tem papas na língua e que não se envergonha de ridicularizar não só seus integrantes como as celebridades. O que me cativou era esse último ponto. No Brasil possuímos um culto ás celebridades, menos poderoso quanto o dos EUA, claro, mas ainda assim forte, nutrido por revistas de fofocas, novelas e comerciais. Ao cutucá-los com piadinhas ácidas o fosso entre povo e celebridades diminui, porque enxergamos o quanto eles são parecidos com nós e não com deuses. Claro há também uma ponta de sadismo nisso, mas enfim...
Por esta mesma época começou no Brasil a moda do stand-up, onde o humorista vai para o palco de cara limpa contar suas piadas. De fato, o stand-up não é ultra-mega-hiper-inédito no Brasil: Costinha, Chico Anysio e José Vasconcelos já faziam isso nos anos 60 e 70 aqui. Mas o que pegou aqui foi essa ideia de que ele é novo e foi exportado. O que é importante entendermos desse momento é que mudou-se a concepção que tínhamos de humorista. Para nós, ser engraçado e ter feições engraçadas eram os dois pré-requisitos essenciais para fazer carreira no humor. Mas essa leva de rapazes fazendo stand-up nos revelou que isso tudo é relativo: qualquer um pode ser humorista, não importa a sua cara ou seu jeitão, desde que ele sabia como usar seus recursos para fazer as pessoas rirem.

O humor, de certa forma, virou uma moda. Me lembro que tinha gente no cursinho que se achava comediante nato. Sempre houve e haverá os espertinhos na escola, mas a partir desse momento eles passaram a acreditar que podiam ser muito mais que isso. Pego esse exemplo da escola não por acaso: a nova face do humor nacional é jovem. O problema é que iludidos pela falta de informação, o orgulho e os hormônios muitos não enxergam o que é verdadeiramente o humor e que não são tão inovadores assim. Em outras palavras, nos últimos tempos o humor passou a ser reconhecido como profissão ao mesmo tempo em que se nutria no meio da população um certo desentendimento sobre essa arte e uma falta de contato com nossa tradição.
Humor não é só fazer imitações, não é só repassar fotos e vídeos engraçados na internet. O humor é muito mais que isso. Na minha opinião, um imitador é um artista sim, mas que está mais para o lado da atuação do que do humor, enquanto esses sites que divulgam gags pela internet e nãos a produzem são apenas atravessadores e se são chamados de "sites de humor" é só por falta de nome melhor. O humor engloba técnicas, seja qual for o seu tipo. Técnicas que podem até não serem adquiridas, podem ser intuídas pelas pessoas. Coisas como a construção dos personagens, o timing, o carisma com o público (leitor, telespectador, ouvinte, navegador de internet, seja lá o que for), dentre muitas outras.

Ultimamente muitos humoristas de verdade tem declarado a sua paternidade, se referindo aos grandes mestres do passado, se filiando a uma corrente de humor, e isso é muito importante, pois lembra todo o nosso histórico. O contato com essa tradição nos ajuda a ver o que é realmente inovador no pessoal de hoje. Resumindo, depois da primeira onda estamos conseguindo ver claramente o horizonte. Quer dizer, nem tão claro assim, afinal as polêmicas sobre piadas com estupro e homofobia demonstram que as fronteiras não estão tão bem demarcadas assim.
Qual o problema? Existem alguns programas de humor que são como um chiclete que você passou uma hora mascando: perderam totalmente o gosto, insistem em fórmulas superadas (leia-se aqui Zorra Total) e com isso desperdiçam bons talentos. E existem outros que investiram no que há de mais moderno. Programas que dizem ser diferentes dos demais porque tem uma preocupação e até uma linguagem nova. Alegam serem subversivos por questionarem tabus e convenções políticas, mas na realidade não se aprofundam nisso, pelo contrário, ás vezes reafirmam velhos preconceitos. Estou me referindo ao CQC e aqui entra um parenteses.

O CQC não trazia o roteiro manjado do Zorra Total e não era só pura gozação, beirando a vulgaridade como o Pânico na TV. Isso cativou muita gente, incluindo eu. A parte da denúncia, unindo humor e jornalismo investigativo, era o seu grande diferencial. Mas depois do momento inicial ficou claro que a estrutura mercantil venceu essa preocupação política: não sei se por conta da posição da emissora ou da própria franquia. Sem contar que em alguns momentos transparece um sentimento um tanto elitista, do tipo "nós fazemos humor inteligente, somos melhores que os outros". Um programa que se diz eclético não pode ter esse tipo de sentimento.
A Record entrou na disputa pelo humor tentando copiar esse formato com Os Legendários. Para não dizerem que é uma cópia descarada incluíram quadros vindos dos tempos de MTV, emissora da qual a maioria de seus membros vieram. Aliás, cabe aqui outro parenteses: a fome por humor é tanta que a própria MTV, um canal de música na teoria, acabou readaptando a sua grade de programação e agora o humor possui quase que 60% da emissora, ao contrário do que ocorria em 1999 quando Hermes e Renato, por exemplo, começou a ser exibido.

Existe ainda outro tipo de programa que busca levar a experiência do stand-up ou dos vlogs para a televisão. Ou seja, pegar o que há de mais cativante nessas plataformas (espontaneidade e a liberdade de conteúdo) e adaptar para um local fortemente regulado pelo tempo e pelos desígnios dos patrocinadores. Alguns pereceram justamente por isso. Outros ainda persistem. Até quando ninguém sabe ao certo.
A conclusão é que o humor popular não é mais tão subversivo quanto era antes. Ele já foi devidamente domesticado pelas empresas, assim como o humor inteligente e o humor negro. Ou não se faz nada inovador ou se incentiva a produzir polêmicas. O humorista ou se cala ou apela. Hoje temos um ambiente muito mais confortável para essa profissão, mas para que ela se consolide de vez estas questões tem de ser pensadas, discutidas ao invés de serem eternamente adiadas.

quarta-feira, 29 de fevereiro de 2012

Pré-discussão sobre o humor

Você consegue definir humor? "Ah, é aquilo que me faz rir". Maluf me faz rir e não o considero um humorista. E aí? Vou te adiantar uma coisa: nesse post, consideraremos como humor tudo aquilo que produzido com a intenção de te fazer rir. Pode ser algo que você mesmo faça nos eu dia-a-dia, como uma piadinha, ou até mesmo uma sketche toda cheia de detalhes elaborada por um comediante (se quiser mais definições, dê uma olhada aqui).
Hoje fala-se muito em humor. Humor isso, humor aquilo. Isso porque no nosso cenário nacional existem muitos objetos humorísticos não-identificados aparecendo no radar da opinião pública. Sim, estou falando das piadas sobre estupro, homossexualismo e cia. Esse burburinho todo suscita uma questão: onde o humor acaba e onde ele termina?
O humor nunca foi muito importante para os filósofos. Tirando um ou outro, quase ninguém se preocupou em entender a mecânica do riso ou a essência do humor. No momento me lembro de dois apenas: Descartes (que tentou dissecar literalmente o riso) e Bergson (que se preocupou em fazer tipologias do que é "humorível"). Já muitos governantes e homens públicos sempre sentiram o poder do humor, por isso sempre tentaram reprimi-lo ou manipulá-lo.
Ou seja, há mais de mil anos rimos sem saber porque. Aliás, sabemos o porque só não sabemos defini-lo muito bem. Alguns dizem que o verdadeiro humor é aquele que debocha das desgraças da vida, outros que é aquele que nos faz pensar e alguns acham até que ele não serve para nada, só para passar o tempo.
Humor é subjetivo: o que te faz rir pode não me fazer rir. Para mim Costinha é genial, para ela é Month Phyton. Tudo é relativo. O problema é que a maioria das pessoas emprega ao definir humor esse seu juízo de valor: "humor de verdade é o humor negro". Vamos tentar entender isso: não existe um humor, mas vários tipos de humor. Várias formas de fazer rir, nas mais diferentes plataformas: oral, escrita, audiovisual, etc.
Esse é o maior problema para se definir as fronteiras do humor. O que vou fazer aqui é dar uma contribuição pessoal, minha visão do tema. Em se tratando da questão das fronteiras, a vulgaridade tem sido o país vizinho ao humor. E as piadas acusadas de serem preconceituosas são a área em litígio disputada por ambos. Primeiro, o que consideramos como vulgaridade? É aquilo feito para denegrir alguém? Ora, então 99% do humor da Humanidade nos últimos séculos pode ser considerado vulgaridade, pois ele tem se pautado em explorar os defeitos das pessoas, em ridicularizar personalidades, dentre outras coisas. As paródias á Hitler, George Bush, ditadores árabes, senadores brasileiros corruptos devem então ser proibidas pois são "baixaria"!
Qual a diferença para o humor? É que a "baixaria" tem explícito seu objetivo de destruir moralmente o alvo escolhido. É denegrir por denegrir e não denegrir para fazer rir ou para fazer pensar. Tomemos o buylling como exemplo: quando se atenta para os fatos da orelha do colega serem imensas, a intenção primeira é inferiorizar o coitado. Perceba se quem pratica buylling faz o mesmo com si próprio. O objetivo último é sempre diminuir seu próximo. Isso é vulgaridade.
Sendo assim, um humorista não fala vulgaridades, já que ele sempre tem a intenção de fazer rir? Não. Um humorista continua sendo um ser humano como todos nós, passível desses erros. Quem nunca tentou denegrir alguém que atire a primeira pedra. Todos nós em algum momento da vida fazemos isso. Mesmo defensores do politicamente correto ás vezes desmoralizam seus adversários na cara dura. O problema é insistir em fazer isso. Ou seja, não tentar escapar desse tipo de atitude ou mesmo fazer disso seu guia de comportamento é o que acho errado.

Boas notícias!


O Ministério da Educação (MEC) definiu o piso nacional do magistério em R$ 1.451. Um aumento de 22% e pouquinho em comparação com o ano passado. Um aumento significativo comparado com o dos últimos anos. Um aumento feito com base no crescimento do valor mínimo por aluno do Fundo de Manutenção e Desenvolvimento da Educação Básica (Fundeb). Cresceu o número de alunos, aumenta-se o piso salarial do professor. A Lei do Piso garante que em 40 horas semanais de trabalho todo professor tem direito á esse valor. Nem um pouco á mais, nem á menos.
Os professores estão comemorando, já alguns políticos, principalmente governadores, estão espumando de raiva. Seu discurso é o mesmo: não podemos pagar, não temos dinheiro suficiente para pagá-los, blá blá blá... Ora, aquele município ou governo estadual que não pode completar a cota exigida deve recorrer ao governo federal, uma vez que ele completará o resto com suas verbas. Essa é a função do Fundeb, ora bolas! 
O que pode garantir que o piso seja instituído? Talvez uma paralisação geral. É o que a Confederação Nacional dos Trabalhadores em Educação (CNTE) propõe: greve de 14 a 16 de março. Estaremos lá.

Poder, razão e religião na Casa Verde



As cronicas da vila de Itaguaí dizem que em tempos remotos vivera ali um certo médico, o Dr.Simão Bacamarte, filho da nobreza da terra e o maior dos médicos do Brasil, de Portugal e das Espanhas. Estudara em Coimbra e Pádua. Aos trinta e quatro anos regressou ao Brasil, não podendo El-Rei alcançar dele que ficasse em Coimbra, regendo a universidade, ou em Lisboa expedindo os negócios da monarquia.
-A ciência, disse ele a Sua Majestade, é o meu emprego único; Itaguaí é o meu universo.

Assim começa um dos meus contos preferidos de Machado de Assis: O Alienista. Publicado pela primeira vez no livro Papéis Avulsos em 1882, essa é também uma das histórias mais conhecidas do Bruxo do Cosme Velho, inspirando um cem número de peças e filmes, sem contar o pontapé que deu no turismo da cidade de Itaguaí. Basicamente a história gira em torno do médico Simão Bacamarte que acredita que a loucura é um conceito muito mais amplo do que se acredita e acaba por internar quase toda a cidade no seu sanatório, a Casa Verde.
Abaixo, deixo com vocês uma análise do conto feita por Ivan Teixeira, professor de Literatura da USP e da Universidade do Texas, que faz uma interessante leitura histórica da saga de Bacamarte (essa análise foi publicada no Caderno Mais da Folha de S. Paulo de 27 de janeiro de 2008).

O ALTAR E O TRONO
Ivan Teixeira

Consensualmente, pensa-se que "O Alienista" (1882) fala da loucura como condição para satirizar o positivismo. Sustenta-se também que o texto ridiculariza a centralização do poder.
Em outra perspectiva, é possível interpretar a novela como paródia da luta pelo controle social, singularizada em momento agudo da disputa entre a igreja e a ciência,que domina mas verdadeiras hipóteses de comando -na narrativa, a política (vereadores e povo) nada mais faz do que se desgastar em gestos de retórica inoperante.
De modo mais amplo, trata-se de uma resposta alegórico-humorística a um conjunto de questões do Segundo Reinado: dissidências entre o Estado e a igreja; consolidação da psiquiatria no Brasil; discussões sobre a unidade do Império.
Fiel a certa diretriz internacionalista da Igreja Católica, o bispo de Olinda, dom Vital de Oliveira, proíbe, em 1872, a presença de maçons nas irmandades de sua jurisdição, no que foi seguido por dom Antônio de Macedo, em Belém. O Estado manifestou-se contra os interditos episcopais.
Como os bispos relutassem em sobrepor a Coroa ao Vaticano, o Conselho de Dom Pedro Segundo condenou-os a quatro anos de prisão.O Vaticano protestou, e a população brasileira ficou dividida.Houve mobilização política e cultural, até que,em 1875, os prelados foram anistiados. O imperador ter-se-ia, então, declarado "vencido, mas não convencido".
Os caricaturistas das revistas ilustradas produziram intenso discurso anticlerical. Rafael Bordalo Pinheiro, sintetizando o desfecho da crise, publicara uma charge em que o imperador recebe golpes de Pio Nono, com a legenda: "Afinal...deu a mão à palmatória!".
Sete anos após o conflito, Machado de Assis entrouno debate por meio da alegoria de "O Alienista", empregando o ceticismo irônico contrato das as forças em jogo, particularmente contra a Igreja Católica. A novela pode ser entendida como uma variante verbal das caricaturas do período, das quais sepode tomar a de Bordalo Pinheiro como símbolo, graças a seu poder de síntese.
Nas veladas insinuações da autoridade do padre Lopes sobre Simão Bacamarte, vislumbra-se o interminável debate entre a teologia e a ciência, empenhadas com igual obstinaçao em apresentar a melhor hipótese sobre a origem do mundo e os meios de governá-lo.
Na trama, a igreja não só vigia como procura orientar os movimentos da ciência. Esse pormenor, aliás, será um dos enigmas da narrativa, que, em meio ao crescente prestígio da ciência, como que esconde, para revelar, a camaleônica autoridade da igreja sobre aquela noção que  se projeta até o final do texto, quando o vigário pronunciará o veredicto sobre a insanidade do alienista.
Bacamarte, impondo-se como o mais elevado grau de racionalidade civil, será metáfora não só de D. Pedro Segundo, mas do governo ilustrado da razão. Sua face cômica decorre do exagero da convicção no poder moderador do juízo, propriedade que, não obstante, torna-o primeiro e único na cidade.
Padre Lopes, por outro lado, será interpretado como encarnação das infiltrações dos arranjos de corte e do suposto bom senso, orientados para o controle da população. As alusões contra a igreja não pretendem caracterizar sua disposição para o mando, mas ironizar os artifícios empregados para dissimular essa disposição.
Apesar do zelo do clero contra a ciência, padre Lopes não resiste ao segundo conceito de loucura da novela e é internado na Casa Verde. Mas, como a terapia lhe oferecesse a hipótese de uma fraude vantajosa, reduz-se imediatamente à normalidade do vício e é solto.
O alienista, por suspeitar que ele próprio seja a única pessoa com retidão de caráter em Itaguaí, põe-se à prova diante de um conselho presidido pelo padre Lopes. O vigário não hesita em denunciar as invulgares qualidades éticas do médico - o que o obriga a se internar como anormal, por correto.
Assim como, na narrativa da história, o Vaticano triunfou sobre o imperador, não se pode negar que a novela termina pela vitória da teologia.
Após encarcerar a ciência na Casa Verde, padre Lopes, que antes elogiara as virtudes do médico, impõe-se o trabalho de espalhar o boato de que jamais houvera outro louco em Itaguaí a não ser o alienista.
No limite, o livro insinua o princípio de que o poder deve emanar da razão, encarnada em feixe ideal de forças concêntricas de virtudes absolutas, que se associam à ciência, à isenção e à verdade, concebidas como adequação do logos à práxis. Mas, como o mundo vive às avessas, essa noção também não resiste ao riso.

O mundo vai se acabar em frevo!


Quem me conhece sabe: não sou um grande admirador do carnaval. Mas não sou um de seus inimigos fidagais. Ano passado impedido de ir na Banda da Bica por causa da dengue perdi uma oportunidade de ver, sentir e experimentar o carnaval amazonense. Esse ano agarrei a oportunidade. E de jeito! Sábado gordo fui á Banda do Galo. Criada em 2004 por engenheiros pernambucanos que viviam aqui e sentiam saudade do clássico bloco de rua de Recife, o Galo da Madrugada, a Banda do Galo cresce a cada ano. Ao que tudo indica vai se tornar mais uma tradição do carnaval amazonense.
Show do Galo da Madrugada do ano passado.
Talvez você não saiba, mas o Galo da Madrugada, que começou com uma brincadeira de um bairro de Recife, é o maior bloco de rua de carnaval do mundo (está no Guiness Book desde 1994). Desde 1978, o bloco vem crescendo. Já é tradição: os camarotes e o galo imenso feito de balão pendurado sob a Ponte Duarte Coelho. Esse ano o homenageado foi Luiz Gonzaga. O maior símbolo do frevo pernambucano homenageando a maior figura do baião pernambucano! Aliás, o lema adotado pela versão caboca do Galo foi "o mundo vai se acabar em frevo".
A Banda do Galo sairia ás 13h, até onde eu sei, da Praça do Eldorado, como vem fazendo a quatro anos, mas houve algum problema e os trios elétricos só puderam sair lá pelas 14h e pouco. Enquanto isso ficamos na Praça, circulando e bebendo tudo, menos água. Rolou até vinho, em homenagem ás origens gregas do carnaval (o culto á Dionísio, o deus da alegria e do vinho).
Foto: David Reis.
Foram dois trios elétricos. Ficamos logo atrás do primeiro. Era um mar de gente tentando dançar (afinal era muita gente para pouco espaço) e cantando o hino de Pernambuco (Salve ó terra dos altos coqueiros!...), do Galo da Madrugada (Ei pessoal, vem moçada! Carnaval começa com o Galo da Madrugada!...) ou Frevo Mulher do Zé Ramalho. O sol castigando. E ninguém dando a mínima.
Um gringo chegou a saudar a micareta do alto de um dos quartos do Caesar Business, mas logo sumiu depois do coro gritando "Viado!Viado!". Quando chegamos perto do Amazonas Shopping , tendo a Djalma Batista logo abaixo do nós, nova confusão: dois brincantes subiram em cima de um ônibus (o trânsito da outra pista da Darcy Vargas não tinha sido interditado, mas um monte de foliões desaguaram ali, congestionando-o). Mas á pedidos da direção do trio elétrico e sob vaias da galera, eles desceram.
Então chegamos num ponto folclórico: a passagem pelo viaduto. Antes já tinham me avisado: depois que você passa pelo viaduto você fica mais leve! Mas fomos lá! 

A surpresa foi que não estava tão quente como tinham me avisado, mas meus amigos perderam óculos, sandálias, diademas, etc. Eu olhava para os lados e via gente encostada no meio-fio e via gente que desmaiava de tanta bebida. Sem falar daqueles que vomitaram. Ainda esbarrei com alunos do colégio em que estagio, para desespero deles (e meu). Mas engraçado era a onda que se fazia: dava-se um espaço, esperava-se o trio se distanciar para que avançássemos sobre ele como numa corrida, aí voltávamos ao mesmo embalo.
O tanto de pisão que levei no pé não tá no gibi. Cheguei em casa e percebi que aquela coisa inchada e suja que vinha me seguindo eram os meus pés. Depois de lavar várias vezes passei a cogitar a possibilidade de cortá-los fora. Enfim, passamos do famigerado viaduto numa boa. Mas tivemos de parar logo depois, no pedaço dos Pãezinhos. Alguns de nós não estavam se sentido bem. Esperamos que melhorassem, mas como parecia que iria demorar achamos o mais correto deixarmos o colega em casa. Resumindo, essa figura tava numa manguaça federal! Portanto, não fomos até o final do bloco, na Praça do São Pedro, mas aproveitamos muito a folia.
Estou esperando para saber como vai ser ano que vem ou antes, claro, se o mundo se acabar em frevo.
Foto: Olga Almeida.

domingo, 26 de fevereiro de 2012

Um dia histórico!


Veja como é a vida: eu acordei pensando que esse seria mais um domingo como todos os outros. Ás 16h eu descobri que estava errado (17h no horário de Brasília).
Hoje o Fluminense ganhou a Taça Guanabara, saindo de um jejum de 19 anos! É o primeiro clássico que o Flu ganha desde 2010! E não foi com um placar apertado: logo no primeiro tempo marcaram 3 gols, deixando um gol do Vasco vazar.
O Vasco era um oponente muito forte, estava fazendo uma campanha muito boa no campeonato carioca. Por isso eu esperava no mínimo um empate. Mas Abel Braga demonstrou que sabe o mapa da mina. Deco, Fred, Thiago Neves, Nem, todos eles foram bons - principalmente Deco - , embora alguns (Nem e Neves) tenham cometido uns erros graves no segundo tempo.
O primeiro tempo foi a melhor parte do jogo, sem dúvida: um jogo equilibrado, acirrado, que depois de um pênalti fuleiro abriu margem pro Fluzão. Praticamente dois gols seguidos! No segundo tempo, o Vasco começou a se impor. O jogo ficou meio na retranca, mas era visível o esforço vascaíno.
Enfim, foi um jogo emocionante. Uma data histórica para os tricolores!