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domingo, 4 de agosto de 2013

Vinte e quatro horas

VINTE E QUATRO HORAS
Vinicius Alves do Amaral

A noite passava por nós. Com a cara emburrada, devo acrescentar. Também não era pra menos: por mais de três horas só fazíamos discutir. Contudo, todos sentados, encarando argumentos com os olhos vidrados enquanto a cerveja esquentava. E tudo por causa de uma mosca.
Explico: Pouco antes de chegar ao bar do fim da esquina tinha lido um ensaio do Enrique Vila-Matas[1]. Conheces? Enfim, era um ensaio sobre uma escritora para qual  se escreve para ver uma mosca morrer. Como de costume, apresentei minha última leitura com ironia e Nagle aparou meu sarcasmo com suas colocações.
Concordava com ela por causa disso, disso e isso. O gole afoito que dei apenas alimentou minha sanha demolidora. Quer dizer que você escreve para matar moscas? E eu achando esses anos todos que fumacê e inseticida resolvia esse problema.
Ávila sentiu os raios se formarem na retina de Nagle e dirigiu-se ao balcão onde achou alguns amigos instantâneos.  Sempre respeitoso, meu colega de debate de mesa de bar alegou que não tinha entendido a verdadeira essência da frase da nobre colega escritora: o que ela queria dizer é que a escrita serve para captar momentos da vida. Questionei se a morte de uma mosca era um momento adequado.
-Justamente aí que está a questão: o que é um movimento adequado? Quem pode dizer isso? Você? Eu? Qualquer um pode dizer. A literatura é extremamente livre para firmar qualquer fato, por mais banal que nos pareça, como singular. Aliás, é essa capacidade extraordinária dela que permite que reaprendemos a prosa do mundo.
Sempre me incomodou o jeito como Nagle fala: como se estivesse ditando, como falasse para ser escrito. Evocava sempre Proust, Dotoievsky, Lispector, Pessoa. Pra quê esse exército? Mas para mim a questão sempre foi outra. Para mim, singularizar o banal não bastava por si só. Para mim, brincar com palavras não define essa estranha arte de escrever. Para mim, literatura sempre foi autoconhecimento. Escrevemos para sermos lidos, não para aprendermos a ler.
-Mas quem disse que não se trata de autoconhecimento também? Quando você transforma a morte da mosca em uma tragédia você está apresentando-se a si e aos outros, mas de forma muito mais sutil. Vamos fazer esse exercício. Descreva a morte da mosca.
-Nagle, por que me obriga a essas coisas? Maior mico...
Enfim, depois de insistir por longos dois minutos aceitei o desafio.  Revolvi meus neurônios por alguns instantes e saiu mais ou menos isso:
-Cansada sobre a parede, pensei qual seria a próxima parada – a lixeira ou a pilha de pratos sujos – quando fui surpreendida pelo peso da morte. Esmigalhada, só pude ver vagamente seu contorno: retangular e vazada por pequenos furos...
-Viu? A sua morte da mosca é bem a sua cara. Descritiva, meio cínica...
Como você mataria a mosca, ó guru das letras?
-Vejamos... Nagle pensou, saiu do nosso mundo e só voltou com uma resposta.
Asas pesadas, olhos cansados.
O mundo a me esmagar.
Ao terminar seguiu um breve mais profundo silêncio na rua – um desses momentos bizarros em que o barulho tira uma folga – e Nagle, resoluto após seu ponto final, proferiu de forma mística: Preciso escrever isso!
Enquanto anotava no guardanapo os trechos futuros de sua morte da mosca, perguntei qual seria o título dessa “obra-prima”. Vinte e quatro horas, respondeu.



[1] Trata-se do ensaio Escreve-se para olhar como morre uma mosca de Enrique Vila-Matas sobre a escritora francesa Marguerite Duras.

quinta-feira, 13 de setembro de 2012

Momento tiete

Foto: Acervo A Crítica.

Olhei, não acreditei. Era o grande nome das letras amazonenses ali na minha frente. Um senhor de baixa estatura, cabelos há muito grisalhos, um cavanhaque bem tímido e olhar tranquilo. Era Luiz Bacellar.
Foi assim que vi pela primeira vez esse monstro sagrado da nossa literatura. O conhecia somente de vista e de verso. Não me atrevia a falar com o senhor Bacellar. Acontece que quando conhecemos nossos ídolos somos acometidos por uma leseira momentânea, um estado de espírito onde o sujeito de tão maravilhado não sabe o que falar direito.
Mais uma vez decidi abordá-lo. Estava ele no supermercado, conversando com um outro senhor, também escritor. O encontrei, como sempre, despreparado. Despreparado que eu digo para pedir um autógrafo seu.  Estava fazendo compras e tudo o que eu tinha era alguns biscoitos, um saco de arroz e a nota fiscal. Mas precisava de seu autógrafo. Pena não estar com um dos livros seus ali. Bem, na falta do livro foi a nota fiscal...
Pedi uma caneta emprestada de uma moça da banca de jornais me aproximei da mesa em que ele e o seu amigo estavam conversando. Pedi licença, perguntei se ele era Luiz Bacellar - como disse, a gente faz perguntas idiotas quando encontramos nosso ídolos... - e pedi seu autógrafo. Ao ver a nota fiscal, o poeta disse:
-O certo seria um livro, não é?
-Pois é...
-Mas tudo bem. Tá aqui.
Tentei engatar uma conversa, mas pensando bem, melhor não. Afinal, eu interrompi a conversa dos dois. E não queria dar uma de fã chato. Já bastava a gafe da nota fiscal. Me despedi e fui.

Lobato racista: a novela continua



Nova querela envolvendo Monteiro Lobato e o racismo.
O Iara (Instituto de Advocacia Racial) e o técnico em gestão educacional, Antônio Gomes da Costa Neto, entraram com um mandato de segurança no STF (Supremo Tribunal Federal) contra a decisão do CNE em liberar a distribuição das obras de Monteiro Lobato, em especial o livro "Caçadas de Pedrinho", alegando conteúdo racista. A audiência, ocorrida ontem (11/09/2012), terminou sem acordo. 
Em entrevist
a ao Estado de São Paulo, de hoje, 12/09, Ivan Junqueira, membro da Associação Brasileira de Letras, afirmou que "Não se deve tomar nenhuma providência com relação a eventuais traços racistas de obras da literatura brasileira, senão não ficaríamos somente em Monteiro Lobato."

Já abordamos tal polêmica aqui em outra oportunidade. Continuo batendo na tecla de que proibir a distribuição dos livros não é nem de perto a solução, mas o problema. Monteiro Lobato tinha lá seus preconceitos como todo mundo e os expunha de forma veemente seja contra negros como contra japoneses e indígenas, mas ainda assim é um escritor essencial para se entender o Vale do Paraíba e o Brasil. Não subestimemos a capacidade dos alunos e dos professores. Com um bom acompanhamento pedagógico pode-se perfeitamente ler textos e discernir e se posicionar, sejam eles sobre o que for.
Sejamos coerentes e lúcidos. Para entender o racismo lobateano precisamos entender seu contexto e sua vida. Não cometeremos o pecado capital do historiador: a anacronia. O politicamente correto daquela época permitia que se falasse em "pessoa de cor" ou "pretinho". Não se trata de absolver o preconceito, mas de reconhecer que mesmo na luta por um mundo menos intolerante há limites. Corre-se o risco, em decisões como essa do Iara e de Costa Neto, de se cair em uma intolerância quase puritana. Felizmente o conhecimento e o bom senso estão aí para nos ajudar.

terça-feira, 11 de setembro de 2012

Luto

CANTIGA DO AMANHECER
Luiz Bacellar

O ovo do sol
canta nas landes
uma cantiga de gemas
com as claras nuvens
batidas de ventos.

Ovo da nhambu
a casca azul do céu
se abre em passarinhos
que já chilreiam
no choco desse ovo louro.

Pelo pasto verde claro
vai aquele touro novo
em seu cortejo
de borboletas
retouçando o dia
que começou quando o vôo
do ovo se derramou.

No dia 4 de setembro, Luiz Bacellar tinha feito 84 anos de vida dedicada á poesia. No dia 8 de setembro, Luiz Bacellar se tornou a própria poesia.

terça-feira, 4 de setembro de 2012

Sobre subjetividade [devaneio]


Literatura é um jogo sim, um jogo de cartas. O blefe é um recurso a se usar. O bom jogador sabe interpretar os sinais, deixando os adversários mais preocupados em despistar sua reação. Um texto não pode ser entregado de bandeja. É preciso ser claro, mas nem sempre. Ás vezes é preciso ser elíptico. E nunca, nunca, subestimar os outros jogadores.

Escreva; coloque as cartas na mesa. Agora, senhores, façam suas apostas...

quarta-feira, 22 de agosto de 2012

Escrevendo para o mar



Penso que escrever crônicas seja um pouco como fazia o padre Anchieta todas manhãs na praia: escrevia na areia alguns poemas, poemas que logo seriam apagados pelas ondas do mar.
A crônica é efêmera, mais um objeto para nossa pilha de banalidades diárias. Não estou denegrindo a imagem desse gênero, apenas considero a banal, pois o fato de ser publicada todo dia acaba por retirar sua excepcionalidade.
O que tira a sua excepcionalidade não é o autor ou o veículo em que é publicada, mas o tempo. É verdade que alguns cronistas conseguem ser geniais na maioria dos casos, mas a genialidade não é algo que se repete todo dia. Escrever crônicas é como escrever para as ondas do mar.
Amanhã essa será a crônica de ontem. E assim caminha a Humanidade... Aí vem a pergunta: qual o sentido disso tudo? Além dos sentidos práticos (o cronista precisa sobreviver, os jornais ou revistas precisam de um espaço para algo além da pura informação, uma espaço de opinião), posso entrever algumas respostas. Entreter? Muitos se deliciam com os textos de certos cronistas simplesmente porque acham eles divertidos e sempre esperam com ansiedade o próximo sair do forno. Informar? Há o cronista que dá mais informações do que sua opinião propriamente dita.
Essas são apenas algumas das possíveis respostas. Por que são tantas? O próprio status da crônica permite que as possibilidades sejam várias. A crônica nasceu com o princípio de ser um relato, principalmente histórico, hoje, após as várias vanguardas literárias, ela se tornou um meio caminho entre o conto, a poesia e o relato.

No Brasil, a crônica, desde começos do século XX, é o grosso de nossa literatura. A crônica divulgou ao brasileiro médio o mundo das letras. E a crônica está em constante transformação. Ela é, como na música, essa metamorfose ambulante.
Hoje temos a internet e o blog se tornou a plataforma ideal para as crônicas. O blog democratiza a crônica. Assim, descobrimos muitos cronistas desconhecidos e que até desconhecem que o que estão escrevendo sejam crônicas. 
Com o blog, nasce a crônica digital: marcada pela seu pequeno tamanho (na maioria dos casos), os retalhos do maneirismo da linguagem da internet e aberta aos links (se tornando aqui uma espécie de hipertexto, um texto que possui vários caminhos possíveis).
As crônicas continuarão, seja na tela do computador, no jornal ou no que mais vier por aí. Continuarão porque precisamos de banalidades diárias. São o que de mais precioso existe em nosso cotidiano, pois elas nos dão certa segurança. Se muitas vezes a rotina nos sufoca, noutras ela pode ser um porto seguro para um mundo onde tudo é líquido, tudo está mudando a todo momento (parafraseando Bob Dylan). E a crônica está aí, no rol das banalidades diárias mais dinâmicas que existe.

(Recanto das Letras, 29/ 09/ 2011).

sexta-feira, 17 de agosto de 2012

O trabalhador das palavras


Quem vê pensa: escrever é muito fácil, pra quem domina essa arte. Na realidade, escrever é um ofício tortuoso. Não é alguém que domina essa arte que está falando, mas um simples observador.
O brasileiro é o povo da oralidade, por isso enxerga a escrita com um certo estranhamento. Como se fosse algo exótico e ao mesmo tempo louvável, sagrado. E os escritores seriam os sacerdotes dessa religião das palavras, dedicando sua vida integralmente á caneta e o papel.
Não é bem assim. Ninguém nasce escritor. Sim, existem pessoas que tem vocação, mas o segredo pra escrever bem não está em uma disposição genética ou espiritual  dos autores e sim na prática. Só se aprende a escrever, escrevendo.
Por isso Alejandro Jodorowsky, artista chileno multimídia, escreve tudo que lhe vêem á cabeça. Os surrealistas também faziam isso, chamavam-na de escrita automática. Não só escreviam o que lhe aconteciam, mas o que sonhavam. Jack Kerouac e Graham Greene, escritores tão diferentes entre si, também faziam coisas do tipo.
Sonhavam genialidades? Não, salvou uma ou outra loucura se mostrava grandiosa, mas o resto... Por que isso então? Trata-se de exercitar a escrita e a criatividade. Para se falar de algo é preciso antes saber do que se está falando. Um escritor trabalha muito antes de produzir um livro. O ritmo de transformação da imaginação em palavras pode diferir para muitos, mas há de se reconhecer que é um processo muito do trabalhoso.
Considero como gênio aquele que, esse sim, cria algo do nada. Aquela pessoa que não trabalha sua criatividade, pelo contrário, ela trabalha para ele, fornecendo insights e epifanias periodicamente. Sim, periodicamente. Até os gênios não são geniais 24 h por dia.

segunda-feira, 30 de julho de 2012

Drummond contista

O maior dos nossos poetas também era um bom contista. Hoje compartilho com vocês uma das muitas histórias presentes no seu livro Contos Plausíveis:

A BELEZA TOTAL
Carlos Drummond de Andrade

A beleza de Gertrudes fascinava todo mundo e a própria Gertrudes. Os espelhos pasmavam diante de seu rosto, recusando-se a refletir as pessoas da casa e muito menos as visitas. Não ousavam abranger o corpo inteiro de Gertrudes. Era impossível, de tão belo, e o espelho do banheiro, que se atreveu a isto, partiu-se em mil estilhaços.

A moça já não podia sair à rua, pois os veículos paravam à revelia dos condutores, e estes, por sua vez, perdiam toda a capacidade de ação. Houve um engarrafamento monstro, que durou uma semana, embora Gertrudes houvesse voltado logo para casa.

O Senado aprovou lei de emergência, proibindo Gertrudes de chegar à janela. A moça vivia confinada num salão em que só penetrava sua mãe, pois o mordomo se suicidara com uma foto de Gertrudes sobre o peito.

Gertrudes não podia fazer nada. Nascera assim, este era o seu destino fatal: a extrema beleza. E era feliz, sabendo-se incomparável. Por falta de ar puro, acabou sem condições de vida, e um dia cerrou os olhos para sempre. Sua beleza saiu do corpo e ficou pairando, imortal. O corpo já então enfezado de Gertrudes foi recolhido ao jazigo, e a beleza de Gertrudes continuou cintilando no salão fechado a sete chaves.

sexta-feira, 22 de junho de 2012

Alguns conselhos de um mestre


Na revista da Academia Amazonense de Letras n. 31 (Dezembro de 2011), Jorge Tufic nos presenteia com um ensaio chamado A Palavra na Ficção que é uma verdadeira "mão na roda" para quem quer começar a escrever contos. Coloco aqui abaixo apenas alguns trechos do texto:

Comecemos pelo emprego exagerado de lugares-comuns e gírias. Os livros estão cheios de "nariz aquilino", "lágrimas de crocodilo" e outros chavões. Se não é possível a metáfora, que se descreva o nariz do personagem com criatividade.
(...)
O mau uso dos diálogos tem sido outro pecado de muitos escritores. É o caso de personagens do tipo Zé Perequeté falando como literatos, isto é, o oposto do uso excessivo de gíria ou transcrição da fala do joão-ninguém. José de Alencar é criticado por ter posto nos lábios de seus índios o modo de falar dos portugueses. O romantismo tinha lá, porém, suas leis, como a de que os diálogos nunca reproduzissem a fala dos "sem-fala". O sertanejo que falasse como o doutor da cidade, com acatamento e respeito às normas gramaticais.
(...)
Passemos aos personagens. Um dos erros mais comuns é o excesso de personagens em contos. A não ser que somente dois ou tres deles participem diretamente da ação. A primeira causa disso será o surgimento de personagens desnecessários, sem lugar na ação, supérfluos. Depois, a confusão no enredo. O tamanho da narrativa não comporta muitos personagens.
(...)
Vejamos a descrição dos personagens. O narrador não precisa descrever o caráter dos personagens. Se fulano é mau ou bom, não cabe ao narrador qualificá-lo e, sim, ao leitor. Suas ações e suas palavras o pintarão aos olhos do leitor.
(...)
Agora a questão do narrador. Durante muito tempo prevaleceu em prosa de ficção a onisciência do narrador, fosse personagem ou não. Tudo mudou a partir de James Joyce, porém. O narrador onisciente desapareceu. Os pensamentos dos personagens não podem ser do conhecimento do narrador. "Fulano tencionava matar sicrano". "Ele se sentiu culpado por alguma coisa" A interferência excessiva do auto-narrador é um mal maior para a narrativa.
(...)
Em suma: para escrever boa prosa de ficção é preciso, além de conhecer todas as técnicas de narrar e muito talento, saber lapidar, transpor, alterar, substituir, riscar, cortar, remendar, costurar palavras, frases, parágrafos inteiros. E não ter medo do cesto de lixo, ser cruel consigo mesmo.

sábado, 9 de junho de 2012

Ao mestre com carinho


O jornalista e cronista Ivan Lessa faleceu. Faleceu longe de casa, em Londres. Onde se auto-exilou desde... há muito tempo. Lessa foi e levou consigo um Rio de Janeiro folclórico, idílico. Sempre pensei nele como o irmão-gêmeo de Sérgio Porto e primo de Millôr Fernandes. No que se refere á escrita: sempre ácido, mas com um estilo informal, um jeito muito carioca de se escrever.
O Rio antigo se foi. Lessa se foi. E o que fica? Sua obra. O Rio antigo e Lessa estarão preservados em suas crônicas. E é isso que me conforta por hora.
__________________________________________
Recomendo essa homenagem de Ricardo Acampora ao mestre: O londrino carioca.

sexta-feira, 8 de junho de 2012

Dois movimentos, duas ações



Os homens são em um mesmo tempo submetidos a dois movimentos: o terror que intimida, e a atração, que comanda o respeito fascinado. O interdito e a transgressão respondem a esses dois movimentos contraditórios: o interdito intimida, mas a fascinação introduz a transgressão.
Mário Vargas Llosa, escritor peruano.

quinta-feira, 12 de abril de 2012

O Dilema de narrar

Tudo hoje é narrativa. O autor que se põe a narrar no estilo, digamos, padrão, confronta séculos de histórias bem contadas. Por isso precisa estar atento para não desaguar nos clichês e lugares comuns da produção literária. A história narrada, arrisco, deve ter a cara do hoje, os conflitos de hoje, como um tapa, de luvas ou não, na face oculta da vida contemporânea.
Eduardo Sabino, escritor, em Sobre Histórias e Abismos.

sábado, 7 de abril de 2012

O Grande Invencionista!


Na minha coleção de livros favoritos está O Coronel e o Lobisomem. Depois de duas adaptações para o cinema e várias minisséries, esse ainda é um livro desconhecido, ao meu ver, para muitos. Mesmo os que o conhecem pelo cinema ou pela TV não entraram em contato com o melhor do livro: a sua linguagem.
José Cândido de Carvalho, o autor, é genial ao inventar um monte de palavras plausíveis e criativas e ao incorporar o modo de falar do pessoal da roça. No final das contas, é quase um depoimento, não fosse o protagonista ficcional.
O coronel Ponciano de Azeredo Furtado pode ser de faz de conta, mas se torna quase de carne e osso na medida em que lemos. E que personagem fascinante! Cheio de si, mas sem ser arrogante demais. Entendido em boemia, roça e assombrações, dentre outros "capetismos". Aliás, o lado sobrenatural mereceria um artigo á parte. Não sabemos se o universo de O Coronel e o Lobisomem é fantástico mesmo ou não, uma vez que estamos nos amparando nas palavras do coronel Ponciano que, como bem sabemos, gosta de exagerar aqui e ali.
O livro já figurou dentre a lista de obras de realismo fantástico tupiniquim e dos tradicionais círculos do regionalismo brazuca pós-1945 (ao lado de Grande Sertão Veredas, por exemplo). Não sei se a obra pode ser enquadrada como fantástica, por conta desse ponto de interrogação que o livro carrega, mas em se tratando de ser regionalista isso não se pode negar. E é o regionalismo do interior do Rio de Janeiro, uma região do Estado que foi negligenciada pela literatura carioca que se concentrava mais no espaço urbano.
O tempo da história é difícil de precisar, mas provavelmente se encontra nos primeiros anos do século XX. Ponciano atravessa momentos difíceis, mas não estava só: o coronelismo durante a República Velha estava decaindo, quem pode se segurar no jogo de interesses estaduais se salvou... por algum tempo. A cidade já o cativava: os cabarés, os bailes, as ruas, tudo. Era o esplendor urbano da Belle Epóque. Lá Ponciano tentava fazer novos investimentos ou garantir suas velhas posses com ajuda de seus amigos Fontainha e Pernambuco Nogueira. No campo, em contraposição ao coronel surge o homem engravatado, o burocrata que toma as terras, gente como o odioso Jordão Tibiriçá.
O coronel pode ser um pouco prepotente, mas o cobrador de impostos consegue ser mais autoritário ainda e, pior, indiferente. Enquanto Ponciano pauta suas relações com base nos seus valores morais, Jordão (e Pernambuco) são oportunistas clássicos, possuindo poucos ou quase nenhum escrúpulos. Aqui a pergunta pode surgir: o livro é uma apologia ao coronel? Talvez sim. Creio que na verdade seja uma apologia maior ao campo. Cândido Carvalho nasceu em Campos, sua família tinha um engenho lá, mas passou a maior parte da sua vida na cidade, em serviços burocráticos. Sua visão sobre o passado pode ter romanceado a vida na roça, isso é comum.
Aliás, um dos motivos que me fizeram adorar o livro é justamente esse saudosismo. Criado por uma família que vinha da roça (não do interior do Rio, mas do Espírito Santo), a história de Ponciano tinha todos os elementos que ouvi nas histórias de quando era criança: o campo, os lobisomens, o coronel, etc. Além disso, Ponciano me lembra muito dois grandes contadores de histórias que fizeram a alegria da minha infância com seus causos. Por mais que eu tente fazer uma análise fria desse livro não consigo escapar desse fundo sentimental. Mas já me conformei com isso: não devemos nunca subestimar o lado afetivo de nossas escolhas.
E é interessante que através desse livro enxergamos como essa a vida na roça pode ser muito mais rica do que pensamos: ali está uma religiosidade peculiar, uma série de trabalhos diversos, personagens interessantes, gírias próprias e até entidades especiais. Dentre elas, o lobisomem. O antagonista de Ponciano, que na verdade não é apenas um, mas vários. Ponciano é como se fosse um herói local, livrando a cidade de onças, ururaus e lobisomens. Mas no final é um simples cobrador de impostos que o faz beijar a lona.
Acabo de cometer um pecado capital: contar o final da história. Mas não se preocupem: o final é muito mais que isso. Garanto que se o lerem se surpreenderão mais ainda. A morte de Ponciano é como sua vida: surpreendente, ambígua e folclórica. Meu último conselho: leiam e descubram o que esse grande invencionista das palavras tem a dizer sobre mulheres, sabiás, lobisomens e cachaça.

O Paradoxo do Grande Inquisidor


Jesus Cristo escolheu voltar á Terra no tempo da Inquisição. Andando pelas ruas de Sevilha, logo é reconhecido pelo povo. Eis que surge o grande inquisidor, um senhor de noventa anos, que por alguma razão sabe que aquele homem barbudo, diferente de todos os outros beatos que prendeu e queimou, realmente é o Salvador. Mesmo assim manda que ele seja preso.
Á noite, na prisão, Jesus é visitado pelo velho sacerdote que explica o seu ato: Ele tinha que ser preso, pois do contrário destruiria toda a Igreja e a Humanidade entraria no caos. Ora, a mensagem maior de Jesus é de que somos livres, mas os homens não estão preparados para serem livres. Por isso a Inquisição existe e por isso tantas pessoas seguem cegamente o que a Igreja diz. Se Cristo lembrasse aos seus fiéis de então isso, eles entrariam em crise, pois são felizes assim, não tendo que conviver com o dilema de escolher o melhor caminho porque os sacerdotes farão isso por eles.
Essa história não é minha. Ela pode ser encontrada no livro Irmãos Karamazov do escritor russo Fiodor Dotoiévsky. Faz parte de um poema que um dos irmãos criou. O sentido do poema é demonstrar que as religiões são mentirosas, que elas são placebos para amenizar a dor de ter de fazer as suas próprias escolhas. Esse era o sentido que o autor do poema, o cético e intelectual Ivan, queria passar (essa é apenas a visão do personagem e não do autor; Dotoiévsky era cristão ortodoxo devotíssimo).
Essa história me lembra uma frase famosa do pensador francês Paul Claudel que é mais ou menos assim: "A maior lição do Cristianismo não é de que Deus nos protegerá, mas que Deus confia em nós". Por confiar em nós nos concedeu o livre-arbítrio. Para que não fossemos condenados por nossos pecados fez com que seu Filho morresse na cruz. Resumindo, o amor de Deus por nós é tão grande que nos presenteou com a liberdade.
No entanto, como uma religião de amor e paz pode ser capaz de conceber a Santa Inquisição? Um dos argumentos do velho inquisidor é de que tudo o que Jesus falou era muito bonito na teoria, mas na hora de ir para a prática as coisas deveriam mudar. O homem não estaria preparado para ser livre. A Igreja deveria tutelá-lo até ele estar pronto. E nesse caminho ela desandou também, uma vez que ela também é feita por homens, como todos os outros falíveis.
Chamo isso, essa desvirtuação, de Paradoxo do Grande Inquisidor. Por mais pacífica que for a religião ela pode estar passível de desvirtuar o seu caráter, já que ela é passível de errar (afinal, são homens que a administram). O que impede isso? A renovação da sua mensagem original. É preciso fazer o que o Grande Inquisidor não fez: reencontrarmos com Jesus. Ouvirmos suas palavras de novo, como se fosse a primeira vez.
Qual o maior símbolo da renovação da mensagem cristã que a própria Páscoa? A ressurreição de Cristo, simbolizando o desafio á própria morte. O esquecimento também pode ser uma forma de morrer. O esquecimento é o túmulo dos ideais. Deixo como proposta para vocês a renovação não só da vida, que a mensagem de Cristo traz, mas a renovação da própria mensagem.
Antes de ir devo contar o final da história do inquisidor: o velho e sisudo sacerdote conta todas as razões que o levaram a prender Cristo, mas no fim decide libertá-lo. Sua prisão será o bastante para convencer o povo de que era mais um falso messias. O liberta para que vague pelas ruas como um mendigo. Se voltar a atiçar seus fiéis, será preso novamente. Jesus sai da cela, mas antes de ir embora dá um beijo na testa do inquisidor e diz o seguinte senão me engano: "compreendo tudo o que você disse, mas ainda assim meu amor é mais forte."

quarta-feira, 29 de fevereiro de 2012

Poder, razão e religião na Casa Verde



As cronicas da vila de Itaguaí dizem que em tempos remotos vivera ali um certo médico, o Dr.Simão Bacamarte, filho da nobreza da terra e o maior dos médicos do Brasil, de Portugal e das Espanhas. Estudara em Coimbra e Pádua. Aos trinta e quatro anos regressou ao Brasil, não podendo El-Rei alcançar dele que ficasse em Coimbra, regendo a universidade, ou em Lisboa expedindo os negócios da monarquia.
-A ciência, disse ele a Sua Majestade, é o meu emprego único; Itaguaí é o meu universo.

Assim começa um dos meus contos preferidos de Machado de Assis: O Alienista. Publicado pela primeira vez no livro Papéis Avulsos em 1882, essa é também uma das histórias mais conhecidas do Bruxo do Cosme Velho, inspirando um cem número de peças e filmes, sem contar o pontapé que deu no turismo da cidade de Itaguaí. Basicamente a história gira em torno do médico Simão Bacamarte que acredita que a loucura é um conceito muito mais amplo do que se acredita e acaba por internar quase toda a cidade no seu sanatório, a Casa Verde.
Abaixo, deixo com vocês uma análise do conto feita por Ivan Teixeira, professor de Literatura da USP e da Universidade do Texas, que faz uma interessante leitura histórica da saga de Bacamarte (essa análise foi publicada no Caderno Mais da Folha de S. Paulo de 27 de janeiro de 2008).

O ALTAR E O TRONO
Ivan Teixeira

Consensualmente, pensa-se que "O Alienista" (1882) fala da loucura como condição para satirizar o positivismo. Sustenta-se também que o texto ridiculariza a centralização do poder.
Em outra perspectiva, é possível interpretar a novela como paródia da luta pelo controle social, singularizada em momento agudo da disputa entre a igreja e a ciência,que domina mas verdadeiras hipóteses de comando -na narrativa, a política (vereadores e povo) nada mais faz do que se desgastar em gestos de retórica inoperante.
De modo mais amplo, trata-se de uma resposta alegórico-humorística a um conjunto de questões do Segundo Reinado: dissidências entre o Estado e a igreja; consolidação da psiquiatria no Brasil; discussões sobre a unidade do Império.
Fiel a certa diretriz internacionalista da Igreja Católica, o bispo de Olinda, dom Vital de Oliveira, proíbe, em 1872, a presença de maçons nas irmandades de sua jurisdição, no que foi seguido por dom Antônio de Macedo, em Belém. O Estado manifestou-se contra os interditos episcopais.
Como os bispos relutassem em sobrepor a Coroa ao Vaticano, o Conselho de Dom Pedro Segundo condenou-os a quatro anos de prisão.O Vaticano protestou, e a população brasileira ficou dividida.Houve mobilização política e cultural, até que,em 1875, os prelados foram anistiados. O imperador ter-se-ia, então, declarado "vencido, mas não convencido".
Os caricaturistas das revistas ilustradas produziram intenso discurso anticlerical. Rafael Bordalo Pinheiro, sintetizando o desfecho da crise, publicara uma charge em que o imperador recebe golpes de Pio Nono, com a legenda: "Afinal...deu a mão à palmatória!".
Sete anos após o conflito, Machado de Assis entrouno debate por meio da alegoria de "O Alienista", empregando o ceticismo irônico contrato das as forças em jogo, particularmente contra a Igreja Católica. A novela pode ser entendida como uma variante verbal das caricaturas do período, das quais sepode tomar a de Bordalo Pinheiro como símbolo, graças a seu poder de síntese.
Nas veladas insinuações da autoridade do padre Lopes sobre Simão Bacamarte, vislumbra-se o interminável debate entre a teologia e a ciência, empenhadas com igual obstinaçao em apresentar a melhor hipótese sobre a origem do mundo e os meios de governá-lo.
Na trama, a igreja não só vigia como procura orientar os movimentos da ciência. Esse pormenor, aliás, será um dos enigmas da narrativa, que, em meio ao crescente prestígio da ciência, como que esconde, para revelar, a camaleônica autoridade da igreja sobre aquela noção que  se projeta até o final do texto, quando o vigário pronunciará o veredicto sobre a insanidade do alienista.
Bacamarte, impondo-se como o mais elevado grau de racionalidade civil, será metáfora não só de D. Pedro Segundo, mas do governo ilustrado da razão. Sua face cômica decorre do exagero da convicção no poder moderador do juízo, propriedade que, não obstante, torna-o primeiro e único na cidade.
Padre Lopes, por outro lado, será interpretado como encarnação das infiltrações dos arranjos de corte e do suposto bom senso, orientados para o controle da população. As alusões contra a igreja não pretendem caracterizar sua disposição para o mando, mas ironizar os artifícios empregados para dissimular essa disposição.
Apesar do zelo do clero contra a ciência, padre Lopes não resiste ao segundo conceito de loucura da novela e é internado na Casa Verde. Mas, como a terapia lhe oferecesse a hipótese de uma fraude vantajosa, reduz-se imediatamente à normalidade do vício e é solto.
O alienista, por suspeitar que ele próprio seja a única pessoa com retidão de caráter em Itaguaí, põe-se à prova diante de um conselho presidido pelo padre Lopes. O vigário não hesita em denunciar as invulgares qualidades éticas do médico - o que o obriga a se internar como anormal, por correto.
Assim como, na narrativa da história, o Vaticano triunfou sobre o imperador, não se pode negar que a novela termina pela vitória da teologia.
Após encarcerar a ciência na Casa Verde, padre Lopes, que antes elogiara as virtudes do médico, impõe-se o trabalho de espalhar o boato de que jamais houvera outro louco em Itaguaí a não ser o alienista.
No limite, o livro insinua o princípio de que o poder deve emanar da razão, encarnada em feixe ideal de forças concêntricas de virtudes absolutas, que se associam à ciência, à isenção e à verdade, concebidas como adequação do logos à práxis. Mas, como o mundo vive às avessas, essa noção também não resiste ao riso.

terça-feira, 21 de fevereiro de 2012

Lima Barreto e a filosofia carnavalesca

MORCEGO
Lima Barreto (1881-1922)
O carnaval é a expressão da nossa alegria. O ruído, o barulho, o tantã espancam a tristeza que há nas nossas almas, atordoam-nos e nos enche de prazer. Todos nós vivemos para o carnaval. Criadas, patroas, dou­tores, soldados, todos pensamos o ano inteiro na folia carna­valesca.
O zabumba é que nos tira do espírito as graves preocupações da nossa árdua vida. O pensamento do Sol inclemente só é afastado pelo regougar de um qualquer Iaiá me deixe. Há para esse culto do carnaval sacerdotes abnegados.
O mais espontâneo, o mais desinteressado, o mais lídimo é certamente o Morcego. Durante o ano todo, Morcego é um grave oficial da Di­retoria dos Correios, mas, ao aproximar-se o carnaval, Morcego sai de sua gravidade burocrática, atira a máscara fora e sai para a rua.
A fantasia é exuberante e vária, e manifesta-se na modinha, no vestuário, nas bengalas, nos sapatos e nos cintos. E então ele esquece tudo: a pátria, a família, a humanidade. Delicioso esquecimento!... Esquece e vende, dá, prodigaliza alegria durante dias seguidos.
Nas festas da passagem do ano, o herói foi o Morcego. Passou dois dias dizendo pilhérias aqui, pagando ali; cantando acolá, sempre inédito, sempre novo, sem que as suas dependências com o Estado se manifestassem de qualquer forma. Ele então não era mais a disciplina, a correção, a lei, o regulamento; era o coribante inebriado pela alegria de viver. Evoé, Bacelar!
Essa nossa triste vida, em país tão triste, precisa desses videntes de satisfação e de prazer; e a irreverência da sua alegria, a energia e atividade que põem em realizá-la, fazem vibrar as massas panurgianas dos respeitadores dos preconcei­tos.
Morcego é uma figura e uma instituição que protesta contra o formalismo, a convenção e as atitudes graves.
Eu o bendisse, amei-o, lembrando-me das sentenças falsamente proféticas do sanguinário positivismo do senhor Teixeira Mendes. A vida não se acabará na caserna positivista enquanto os "morcegos" tiverem alegria...

Correio da Noite, Rio, 2-1-1915.

quarta-feira, 23 de novembro de 2011

Negritude em versos (Parte I)

Um poeta e um píntor e algumas imagens sobre a cultura negra. A proposta de nosso estudo é de vasculhar a presença da cultura africana na Região Norte através da literatura. Escolhemos dois poemas, criados por artistas influenciados pelo modernismo e comprometidos em formar uma cultura amazônica longe do beletrismo que vinha imperando na Amazônia até então, que são emblemáticos justamente por sugerirem muitos ganchos para o estudo do negro na região.

Caricatura de Bruno de Menezes.
Bruno de Menezes, poeta paraense apaixonado pela cultura negra e um dos grandes expoentes do modernismo na terra do carimbó, era um homem que frequentava desde academias literárias até batuques de candomblé. Já na década de 1950, quando o Clube da Madrugada aqui no Amazonas dá os seus primeiros passos, Bruno já era um intelectual reconhecido. Reconhecido inclusive pelos artistas amazonenses, muitos o considerando uma espécie de sacerdote do movimento cultural que pretendiam operar em Manaus. É o caso de Arthur Engrácio que o considerava um "poeta-poeta" ou Genesino Braga, da tradicional Academia de Letras do Amazonas, que já o chamava de imortal. O imortal veio a falecer nos anos 60, justamente quando o Clube da Madrugada adquire mais força, mas os intelectuais locais trataram de fazer uma merecida homenagem: um busto seu foi feito pelo pintor e escultor Afrânio de Castro ás pressas e exposto na Praça da Polícia, onde se localiza até hoje.


Escultura póstuma de Bruno de Menezes feita por Afrânio de Castro em 1963.

Afrânio de Castro foi um dos tantos discípulos de Bruno, bem como o pesquisador Vicente Salles no Pará. O pintor já tinha se dedicado a realizar uma arte amazônica, abstrata e minimalista, mas através de Bruno passou a se inspirar no colorido e nos significados da cultura negra. Ao lado de Moacir de Andrade, Afrânio foi um dos artistas plásticos que ganhou destaque com o Clube da Madrugada, expondo quadros dentro e fora de Manaus. Como todo bom artista da época, teve seus momentos de aperto, passando a morar no IGHA por um tempo graças ao favor de um amigo. O sujeito de personalidade forte e marretento, que manteve algumas arrengas com Moacir Andrade e Luiz Bacellar, veio a morrer afogado na Ponta Negra na década de 1970. A morte trágica parece acompanhar os artistas amazonenses: mais ou menos na mesma década o jovem pintor Hanneman Bacellar se suicidaria, por não aguentar mais o preconceito e a miséria.
Um fio condutor que une tanto as trajetórias do venerável Bruno de Menezes com a do intenso Afrânio de Castro é a preocupação em retratar uma cultura negra dentro de uma cultura amazônica. Veremos adiante, com mais detalhes, que cada um o faz á sua maneira.
O livro mais famoso de Bruno foi Batuque (1931), de onde retiramos o poema Pai João. Embora Afrânio seja mais reconhecido pelas Artes Plásticas, ele também nos deixou uma ampla produção poética e cronística no Suplemente Madrugada d'O Jornal. Recolhemos das páginas amareladas dos jornais o poema Macumba.

sexta-feira, 19 de agosto de 2011

José Cândido de Carvalho

Realejo, Djanira.
Vou colocar aqui alguns dos pequenos e engraçados contos do escritor carioca José Cândido de Carvalho (1914-1989), um dos meus favoritos.




Adeus tardes fagueiras à sombra das laranjeiras
de Casemiro de Abreu


Alcimaco Azambuja, dono de muito boi e muito voto em Pirapora, tendo de resolver umas coisas e loisas com o governo, rebocou Zizinho Pinto para terras e mares do Rio de Janeiro. E, na porta do Palácio do Catete, que naqueles dias comandava a vida do Brasil, falou para o compadre Zizinho:

— Vou ver uns papéis que estão entalados nas gavetas do governo. Venha comigo.

Zizinho recusou:

— Compadre, careço de competência para pisar chão tão mimoso. Vou quedar do lado de fora, assuntando compadre.

O compadre sumiu pela larga porta de entrada enquanto Zizinho, instalado num bom cigarro de palha, ficava vendo aquele entrar e sair de gente em formato de formiga de correição. Alcimaco, depois de desencravar seus papéis, voltou e quis saber a opinião de Zizinho Pinto:

— Compadre, gostou do Catete? Coisa assim não tem em Pirapora.

E Zizinho de Pirapora:

— Eta, compadre, lugarzinho bom de especial para um varejo, para um comercinho de cachaça e rapadura!

E mais não disse nem lhe foi perguntado.

Porque Lulu Bergantim
não atravessou o Rubicon


Lulu Bergantim veio de longe, fez dois discursos, explicou por que não atravessou o Rubicon, coisa que ninguém entendeu, expediu dois socos na Tomada da Bastilha, o que também ninguém entendeu, entrou na política e foi eleito na ponta dos votos de Curralzinho Novo. No dia da posse, depois dos dobrados da Banda Carlos Gomes e dos versos atirados no rosto de Lulu Bergantim pela professora Andrelina Tupinambá, o novo prefeito de Curralzinho sacou do paletó na vista de todo mundo, arregaçou as mangas e disse:

— Já falaram, já comeram biscoitinhos de araruta e licor de jenipapo. Agora é trabalhar!

E sem mais aquela, atravessou a sala da posse, ganhou a porta e caiu de enxada nos matos que infestavam a Rua do Cais. O povo, de boca aberta, não lembrava em cem anos de ter acontecido um prefeito desse porte. Cajuca Viana, presidente da Câmara de Vereadores, para não ficar por baixo, pegou também no instrumento e foi concorrer com Lulu Bergantim nos trabalhos de limpeza. Com pouco mais, toda a cidade de Curralzinho estava no pau da enxada. Era um enxadar de possessos! Até a professora Andrelina Tupinambá, de óculos, entrou no serviço de faxina. E assim, de limpeza em limpeza, as ruas de Curralzinho ficaram novinhas em folha, saltando na ponta das pedras. E uma tarde, de brocha na mão, Lulu caiu em trabalho de caiação. Era assobiando "O teu-cabelo-não-nega, mulata, porque-és-mulata-na-cor" que o ilustre sujeito público comandava as brochas de sua jurisdição. Lambuzada de cal, Curralzinho pulava nos sapatos, branquinha mais que asa de anjo. E de melhoria em melhoria, a cidade foi andando na frente dos safanões de Lulu Bergantim. Às vezes, na sacada do casarão da prefeitura, Lulu ameaçava:

— Ou vai ou racha!

E uma noite, trepado no coreto da Praça das Acácias, gritou:

— Agora a gente vai fazer serviço de tatu!

O povo todo, uma picareta só, começou a esburacar ruas e becos de modo a deixar passar encanamento de água. Em um quarto de ano Curralzinho já gozava, como dizia cheio de vírgulas e crases o Sentinela Municipal do "salutar benefício do chamado precioso líquido". Por força de uma proposta de Cazuza Militão, dentista prático e grão-mestre da Loja Maçônica José Bonifácio, fizeram correr o pires da subscrição de modo a montar Lulu Bergantim em forma de estátua, na Praça das Acácias. E andava o bronze no meio do trabalho de fundição quando Lulu Bergantim, de repente, resolveu deixar o ofício de prefeito. Correu todo mundo com pedidos e apelações. O promotor público Belinho Santos fez discurso. E discurso fez, com a faixa de provedor-mor da Santa Casa no peito, o Major Penelão de Aguiar. E Lulu firme:

— Não abro mão! Vou embora para Ponte Nova. Já remeti telegrama avisativo de minha chegada.

Em verdade Lulu Bergantim não foi por conta própria. Vieram buscar Lulu em viagem especial, uma vez que era fugido do Hospício Santa Isabel de Inhangapi de Lavras. Na despedida de Lulu Bergantim pingava tristeza dos olhos e dos telhados de Curralzinho Novo. E ao dobrar a última rua da cidade, estendeu o braço e afirmou:

— Por essas e por outras é que não atravessei o Rubicon!

Lulu foi embora embarcado em nunca-mais. Sua estátua ficou no melhor pedestal da Praça das Acácias. Lulu em mangas de camisa, de enxada na mão. Para sempre, Lulu Bergantim.

sábado, 30 de julho de 2011

Brasilidade

Acervo do Museu de Arte Popular Casa do Pontal (RJ).
"O Modernismo brasileiro foi mais um de tantos movimentos (do Romantismo ao Tropicalismo, do Regionalismo ao Armorial) que tentou definir a brasilidade num país onde todos se sentiam estrangeiros e, ao mesmo tempo, diferentes de todos os estrangeiros que conheciam. Este drama de conceituar o que é ser brasileiro, claro, só ocorre às nossas elites, aos brasileiros que leem livros e discutem abstrações. O povo, mesmo, fala a sua Língua Geral, trabalha, brinca seu samba ou seu fandango, brasiliza 24 horas por dia, pratica o Brasil sem conhecê-lo de fora".

Bráulio Tavares, escritor paraibano, na crônica Drummond: Europa, França e Bahia.

sábado, 23 de julho de 2011

Tupi or not Tupi?

Oswald de Andrade (1890-1954) foi o homenageado da Flip desse ano. Além das palestras no evento, muito foi falado sobre ele na mídia, impresa ou digital.Vamos falar um pouco dele aqui e fazer uma breve síntese do modernismo como um todo.
Oswald era filho de uma família tradicional paulistana (por sinal, ele, Mário de Andrade e Drummond não eram parentes, como muitos pensam) e assistiu, como muitos da sua geração, a pequena cidade que era São Paulo se transformar em uma metrópole no começo do século XX.
Educado em colégios de renome como o Ginásio Nossa Senhora do Carmo ou o Colégio Modelo Caetano de Campos, Oswald tinha o diploma de bacharel em Humanidades e, mais tarde, o diploma de Filosofia (fez o curso no Mosteiro de São Bento).

Foto aérea atual do Mosteiro de São Bento em São Paulo.
Dedicou-se á muitas coisas: a pintura, á poesia e principalmente ao jornalismo. Reunia seus amigos através dos jornais e revistas que editava ou fundava, como a Revista de Antropofagia e Klaxon. Antes de viajar para a Europa em 1912, já tinha passado algumas temporadas no Rio de Janeiro e Minas Gerais. Se envolveu na Europa com uma estudante francesa, Kamiá, com a qual teve seu primeiro filho.
Oswald teve muitos amores: Maria Lourdes Andrade (Miss Cyclone), Pilar Ferrer e Julieta Bárbara Guerrini são as menos conhecidas. Quando se fala em Oswald de Andrade duas figuras encantadoras nos vêem á cabeça: a pintora Tarsila do Amaral e a jornalista Patrícia Galvão, a Pagu. Tarsila e Oswald se conheceram um ano antes da Semana de Arte Moderna de 1922. Mário de Andrade e Anita Malfatti, seus velhos amigos, lhe apresentaram á essa pintora que eles consideravam uma das maiores artistas do movimento que eles defendiam, o modernismo. No circuito intelectual da "Paulicéia" e sempre com um pé nos jornais, Oswald conheceu Pagu mais ou menos na mesma época, mas quem era o centro das suas atenções era Tarsila. Os dois viajaram muito pelo mundo e colaboraram mutuamente com suas respectivas obras (a maioria dos livros de Oswald eram ilustrados por Tarsila, e seus quadros eram apresentados por Oswald na imprensa).

Tarsila do Amaral
O relacionamento não foi formalizado. Quando terminaram com ele em fins da década de 1920, continuaram se falando ainda por muito tempo. Pagu, a jovem jornalista que adorava o modo polêmico de Oswald se aproximou mais dele, os dois se apaixonaram e chegaram a se casar (excentricamente em um cemitério). A relação com Pagu, militante do Partido Comunista Brasileiro, aproximou Oswald de grandes figuras da esquerda nacional, como Luís Carlos Prestes. O encontro com Prestes significou, segundo ele mesmo revelou anos mais tarde, um divisor de águas em sua vida. Oswald começou a construir uma obra mais engajada, que incitasse á revolução. No momento, Vargas tinha instaurado uma ditadura no Brasil e Pagu e Oswald foram perseguidos. Com a volta da democracia em 1945, Oswald continua a militar publicamente, mas não está mais junto de Pagu.
Patrícia Galvão (Pagu)
Na década de 1950, o modernismo já consagrado (inclusive pelo inimigo político de Oswald, Vargas, que cooptou vários artistas modernistas como Mário de Andrade para sua política cultural), o escritor paulistano começa a publicar mais ensaios e artigos. A maioria saudando velhos amigos e revelando aspectos do movimento que ajudou a desenvolver.
Mas que movimento é esse? O modernismo foi um movimento organizado por intelectuais brasileiros reunidos nos grandes centros urbanos. Até então, a vida intelectual brasileira era basicamente européia, ou seja, os nosso modelos de pensar e agir vinham de fora, principalmente da França. Muitos intelectuais antes dos modernistas já tinham percebido essa incomoda mania, como Monteiro Lobato ou Lima Barreto, mas eram autores isolados (Lobato foi aplaudido por muitos quando criticou o caipira, mas quando propunha uma solução para nosso marasmo intelectual era ignorado; Barreto, por sua origem e por suas idéias, era tido como um louco e veio a falecer em um sanatório com sérios problemas de bebida, sem nenhum tipo de reconhecimento).

Capa do Manifesto Pau-Brasil
Com o modernismo temos um batalhão de artistas ligados pela denúnica de nossa pobreza intelectual e propondo uma maneira de construirmos uma cultura genuinamente brasileira. Como? Oswald de Andrade acreditava que teríamos que buscar nas raízes de nossa cultura, teríamos que voltar ao tempo do descobrimento. São tidos como bíblias do modernismo seus manifestos do Pau-Brasil e da Antropofagia, escritos em 1924 e 1928, respectivamente.
No primeiro ele diz que o Brasil está no caminho certo, já nos libertamos de nossas amarras colonialistas (através da Semana de Arte Moderna), ainda não temos algo totalmente genuíno, mas estamos chegando lá. Aproveita e crítica todas as outras escolas literárias que vieram antes, importadas da Europa, como o naturalismo, o parnasianismo etc. Defende uma poesia que não seja objeto de luxo, mas uma poesia que se encontra em todos os aspectos da nossa vida, inclusive no cotidiano.
No segundo, influenciado pelo quadro Antropofagia de Tarsila, ele defende que o artista brasileiro, se quer fazer uma obra nacional, deve digerir tudo o que vem de fora e vomitar algo novo. Algo que seria uma mistura do que vem de fora com o que temos aqui dentro. O que propõe é uma reinterpretação do mundo que nos cerca segundo a nossa sensibilidade brasileira.

Antropofagia de Tarsila do Amaral.
Oswald era um profundo conhecedor da cultura européia, como todo intelectual brasileiro de família tradicional era naquele período, mas seu espírito inquieto não se contentava em produzir meras cópias do que vinha sendo produzido em Paris. Muito antes de se construir o grupo modernista, ele já criticava essa falta de preocupação com a identidade nacional. Mas até então sua inovação era atacar as bases do que era consagrado com afiadas e cruéis paródias. Daí sua fama de iconoclasta, de polemista. Num segundo momento, quando o grupo já estava consolidado, ele deixa de apenas atacar o velho para propor algo novo. Inspirado pelos movimentos de vanguarda que andavam sacudindo a Europa, Oswald achou que já era a hora de acontecer algo do tipo no Brasil. Já era hora do Brasil tentar ter seu próprio movimento artístico e esse movimento seria o modernismo.

Macunaíma de Mário de Andrade.
O interessante é que sua proposta é nacionalista, mas não exclui a cultura estrangeira. Através da antropofagia a cultura que vem de fora é redimida, basta apenas ela ser reinterpretada por nós. É um projeto diferente do de Mário de Andrade que defendia o resgate de nossas raízes e a sua reatualização. Mário ainda não tinha passado da primeira etapa de seu projeto (como mostra a sua inacabada Enciclopédia Brasiliense e sua Missão de Pesquisas Folclóricas enquanto esteve á frente do Departamento de Cultura de São Paulo) exatamente porque havia muito a ser resgatado ainda. Mas já tentava dar mostras do que seria feito na segunda etapa, quando escreveu Macunaíma em 1928. Macunaíma é quase que inteiramente baseado nos relatos antropológicos do pesquisador alemão Theodor Koch-Grünberg. Mário une lendas indígenas das mais variadas e em certo momento o cenário deixa de ser a selva para ser a floresta - a reatualização.
Os projetos de Oswald e de Mário são, portanto, um tanto diferentes, mas ambos pregam a criação de uma arte nacional. Oswald possui uma obra vasta que vai do teatro á poesia, uma obra que aos poucos foi sendo revelada. Essa Flip atraiu muita gente não só pelos convidados ilustres, mas também por esse carisma que Oswald têm. Ele é frequentemente tido como o mais rebelde dos rebeldes e realmente suas idéias e obras foram revolucionárias. Elas influenciaram não só uma geração, mas várias gerações. Basta lembrar que o concretismo e o tropicalismo, por exemplo, beberam na fonte do autor de O Rei e a Vela.

Bem, por enquanto é só. Oswald de Andrade e o modernismo é um tema muito interessante (e, porque não, divertido) e muitas vezes um breve resumo acaba se tornando quase uma suma literária ou histórica. Mas continuaremos a falar sobre esse assunto nos próximos posts.