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quinta-feira, 25 de outubro de 2012

O que fazer?


A polêmica dos Guarani Kaiowá coincidentemente estourou uma semana depois da entrega do relatório do caso do massacre Waimiri-Atroari á Comissão da Verdade. Nele trabalharam pesquisadores de várias áreas, destacando-se o missionário Egydio Schwade que vem divulgando o acontecimento há mais de 30 anos.
Na década de 60 e 70, a construção da rodovia BR-174 (Manaus-Boa Vista) em terras dos Waimiri-Atroari. A estrada foi sendo construída aos poucos, entre conflitos armados e mortes. No entanto, o caso foi abafado. Primeiramente, eram os tempos do regime militar. Em segundo lugar, o isolamento geográfico (estamos falando do interior da Amazônia).
Passaram-se mais de quarenta anos. Veio a Constituição de 1988 prometendo uma mudança na relação do Estado nacional e a sociedade brasileira com as etnias indígenas. No entanto, os problemas continuaram. De lá pra cá, a questão indígena continuou se pautando ora em querelas como a recente sobre a Reserva Raposa do Sol, ora em tragédias como o tímido aumento da taxa de suicídios na etnia Guarani Kaiowá.

Hoje, contudo, a visibilidade é muito maior. Quando da construção da usina hidrelétrica de Balbina nos anos 80 a resistência contra o projeto era pequena, restringindo-se á lideranças indígenas, antropólogos e missionários. O caso de Belo Monte se tornou uma causa abraçada por artistas os mais variados, assim como a mudança do Código Florestal. No entanto, a pressão toda não serviu para arquivar o Código Florestal pró-latifúndio e quanto á Belo Monte, a situação continua a mesma. As escavadeiras já removem a terra amazônica.
A mídia tem acompanhado com grande afinco os julgamentos do mensalão, só agora, depois da carta enviada pelos líderes Guarani Kaiowá, que eles se tornaram o centro das atenções. Onde quero chegar: toda a visibilidade que o caso tem alcançado é sinal de que conseguiremos reverter o quadro delicado em que essa etnia vive?
Não sei se é pessimismo, mas tenho enxergado nas redes sociais uma espécie de terceirização da revolta. A indignação se torna alimento para comunidades e programas que produzem abaixo-assinados e manifestações. Não confio na militância digital. Se algum ingênuo que não conhecesse nenhum pouco da realidade brasileira visitasse a rede social tupiniquim estaria convencido de que nesse país todos são politizados e revoltados pela quantidade de mensagens de crítica social e mudança política.

Compartilhamos o sentimentos de indignação e terminamos o dia achando que nosso dever para com o país foi cumprido. Acredito que nada substitui a ação. Manifestações são importantes, mas não devem partir só de uma classe específica, que se acha mais "iluminada". Falta convencermos o resto das pessoas de que índio não é bugre (a velha imagem do selvagem ou do aproveitador indígena, difundida no imaginário de muita gente), de que a questão indígena diz respeito a todos nós, porque ela está intimamente ligada á problemas como a reforma agrária, identidade nacional, violência e sustentabilidade, dentre outros.
Os demais casos recentes demonstraram que de a opinião de artistas e intelectuais não é bastante, falta ainda o grosso da população entender porque o trágico destino que se anuncia para toda uma etnia é tão importante para todos.
Não sei muito bem como ajudar os Guarani Kaiowá, para além da "militância digital", mas posso garantir que quanto maior for o esclarecimento e quanto mais adesões a causa tiver, mais próximo estamos da resolução desse impasse.

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Recomendo o artigo da jornalista e escritora Eliane Brum, Decretem nossa extinção e nos enterrem aqui.

quarta-feira, 24 de outubro de 2012

Rapidinhas


Manaus, 50 graus, fez 343 anos. Eu rezando para São Pedro se sensibilizar e abrir a torneira e nada...
O julgamento do mensalão prossegue. A novidade foi a condenação de Marcos Valério á 40 anos de prisão. Em um país sério, eu ficaria contente com isso, mas...
Aliás, esse julgamento perto das eleições municipais é bem curioso, não? O governo, enquanto fazia a dança da cadeira com os ministros e lançava as obras do PAC, deve ter descuidado com a data.
Engraçado como o ministro Joaquim Barbosa, até então relativamente desconhecido, se tornou uma celebridade. Paladino da ética e da justiça pela direita e marionete da oposição para os governistas. Vi uma capa da Veja elogiando a trajetória do ministro e me lembrei que há alguns anos a mesma revista publicou um perfil do juiz, mas em tom menos elogioso. Na realidade, enxergavam a sua nomeação por Lula como mais um ato demagógico. Acusaram o cara de bater na mulher e tudo mais...
Na imprensa de esquerda ele é retratado como alguém que se atrapalha com as suas sentenças e que desconta a sua raiva contra as dificuldades enfrentadas em sua vida nos acusados. Os mesmos jornais que aplaudiram o ministro quando ele acusou o colega Gilmar Mendes de ser um coronel, em um momento em que estava de cabeça quente.
Eu? Não admiro, mas também não crucifico o cara. Aprendi a desconfiar dos paladinos da ética e justiça desde que Demóstenes Torres foi desmascarado. Por enquanto, só acompanho o andar da carruagem.
Outro fato que abalou a semana: a promessa de suicídio coletivo pelos povos Guarani Kaiowá no Mato Grosso do Sul. Na verdade, não falaram em suicídio, mas em dar sua vida pra continuar nessa terra. Na carta que enviaram ao STF demonstram toda a sua descrença com a justiça após terem confirmado mais uma reintegração de posse aos fazendeiros.
A etnia tem um dos índices mais altos de suicídio, daí a confusão geral. A falta de perspectiva e a carência em que vivem explica o porque dessa epidemia assombrosa. Manifestações estão sendo feitas a torto e direito. Será que cairão no esquecimento como o caso de Belo Monte?

terça-feira, 17 de abril de 2012

Nós, loucos e "civilizados"


De uma conversa com o Prof. Almir Diniz de Carvalho Júnior no Museu Amazônico:
É interessante como o amazonense ou o amazônida de uma forma geral tem uma espécie de resistência em admitir suas raízes indígenas. Muitos aqui não se consideram indígenas apesar dos traços de sua ascendência serem visíveis. E o que é pior é que muitos sabem que sua família tem um pouco da presença indígena e mesmo assim optam por esquecê-la.
Almir nos deu um exemplo muito revelador: aqui no Norte ser índio é uma vergonha, enquanto no Sul carrega um pouco de charme. Por quê isso? Porque aqui a presença indígena é muito maior. Existem ainda muitas comunidades indígenas no Sul do país, mas elas não possuem uma dimensão tão significativa assim para a sociedade em geral. A maior prova é de que as discussões em relação á questão indígena se encontram mais no âmbito da universidade e não na mídia. 
Basta que algum povo indígena apareça impedindo a construção de uma rodovia ou de uma hidrelétrica que então percebemos que essa admiração exótica muda para racismo. O indígena aparece como anacrônico: um elemento do passado que está travando o desenvolvimento do país.
Na Amazônia a presença indígena é muito maior, por isso esse preconceito é muito mais evidente. O ideal do desenvolvimentismo não morreu. Ele taí. Onde quer que olhemos. É a defesa de um progresso material e não ético, humano. É a defesa da dominação da natureza e não da convivência com ela. Continuamos achando que as sociedades indígenas não tem nada a nos ensinar. Que o modo como eles reagiam com a natureza, que hoje muitos chamam de sustentabilidade, é algo datado, é algo do passado. Hoje, mesmo diante da constatação de que a natureza está em frangalhos e que se ela por acaso entrar em colapso todos nós morreremos também continuamos com o mesmo ideal. "Repetir sempre o mesmo ato e esperar um resultado diferente". Sabe o que é definido por essa frase? A loucura.

sexta-feira, 9 de dezembro de 2011

Um marechal entre as malocas

O marechal Candido Mariano Rondon (1865-1958) costumava aconselhar os membros do Serviço de Proteção aos Índios, fundado por ele em 1910, que se diante de alguma adversidade com tribos indígenas era melhor "morrer se preciso for, matar nunca".
Rondon e sua máxima são famosos até hoje quando se discute questão indígena. Não é a toa. Desde que esse militar, de origem bororo, participou do serviço delimitação de fronteira e fixação de postes telegráficos no interior do Brasil e entrou assim em contato com os povos indígenas dessa região começou a sua preocupação com o destino desses povos. Preocupação que perduraria por toda a sua vida.
Em suas andanças, Rondon encontrou muitas aldeias á míngua, quase sendo destruídas por doenças como a varíola ou por ataques de grileiros. A maioria dessas comunidades sempre lhe recebeu de braços abertos, algumas até esperando que ele fosse o seu grande salvador, retirando-os da miséria. Isso deve ter sensibilizado muito o então quarentão coronel do Exército.

Rondon estudou na Escola Militar da Praia Vermelha na virada do século e, como muito de seus colegas, apreendeu ali a cultivar uma rígida disciplina e a apreciar o Positivismo. Ordem e Progresso era o lema da nossa bandeira e do ideal positivista. Para essa ideologia, a Humanidade tem estágios de evolução: os primeiros, são os mais primitivos, e a tendência é se chegar até o último, o Estado Positivo ou Científico, onde a razão passa a guiar as pessoas e os sentimentos bárbaros e violentos são deixados de lado.
No Brasil, essa corrente de pensamento foi uma das mais fortes durante a República Velha, contudo fizemos uma leitura toda nossa do Positivismo: enquanto August Comte, seu fundador, acreditava que essa evolução seria feita primeiro na sociedade, para depois atingir o Estado, o político gaúcho Júlio de Castilhos acreditava que deveria acontecer o contrário e Benjamin Constant, republicano histórico e professor de gerações de militares, defendia que só chegaríamos ao estágio positivo com a ajuda do Exército.

O que isso tem a ver com a questão indígena? Rondon, sendo fortemente positivista e nacionalista, inseriu a problemática indígena nessa discussão. A sociedade brasileira teria que incorporar os "primeiros brasileiros" se quer se tornar evoluída e uma das maneiras de se efetivar essa incorporação é justamente o Exército, segundo a interpretação de Rondon. Por isso, o general incentivou o ingresso de tantos jovens indígenas nas fileiras do Exército. Prometia á eles uma educação gratuita, uma carreira sólida e um certo prestígio.
O que encontramos na interpretação de Rondon é aquela velha associação do indígena com o arcaico e o primitivo. A conclusão a que se chega: A sua cultura é louvável, mas sua extinção pelo Progresso é inevitável, o que podemos fazer então é incorporá-lo, aculturá-lo. Mesmo carregando um pouco de etnocentrismo, marechal Rondon foi uma das poucas figuras públicas que nutria uma simpatia e uma preocupação com os povos indígenas. Um dos poucos que no alvorecer da Primeira República se dedicou a discutir as políticas indigenistas, diante da indiferença geral que reinava na sociedade sobre tal assunto.

quarta-feira, 5 de outubro de 2011

O choro de Raoni

Em 1 de junho desse ano, junto com a mensagem de que o IBAMA tinha concedido a licença ambiental para a construção da Usina de Belo Monte, foi divulgado na mídia uma foto do Cacique Raoni chorando, ao saber da notícia. Raoni teria desmentido tudo no seu site alguns dias depois: "Eu não chorei por causa da autorização de construção e o começo dos trabalhos no canteiro de obras de Belo Monte. O tanto que eu viverei, eu continuarei a me bater contra essa construção (...) será a presidente Dilma Rousseff que chorará, eu não. Eu quero saber quem deu essa foto e propagou essa falsa informação (...) será preciso que a presidente Dilma me mate em frente ao Palácio do Planalto. Lá, somente, vocês poderão construir a Barragem de Belo Monte".
Alguns dizem que a foto foi tirada em 2002 durante o funeral de Orlando Villas-Boas, outros, contudo, alegam que Raoni estava participando de um ritual em homenagem á todos os falecidos da comunidade. Em todo caso, mais uma confusão da internet. Mas, quero aproveitar a oportunidade e discutir a tensão que a construção de uma usina hidrelétrica anda gerando não só na região em que vai ser implantada, mas também na mídia (principalmente internacional).
O projeto da Usina Hidrelétrica de Belo Monte já é antigo, foi criado na ditadura militar, contudo não foi implantado por conta das tensões acirradas que gerou. Raoni, líder da etnia Kaiapó, foi fundamental nesse processo: através de protestos nacionais e internacionais, o velho chefe conseguiu convencer o todo-poderoso Ministro da Viação e Obras Públicas, Mário Andreazza, a engavetar Belo Monte.
Durante o governo Lula o projeto foi ressuscitado. Por quê? Quando o novo presidente do Paraguai, Fernando Lugo, assumiu o poder começou a atacar a quantia injusta de energia que a Usina de Itaipu (construída no Rio Paraguai pelo Brasil em cooperação com o país vizinho na década de 1970) destinava á seu pais - quase que 90% da energia vinha para o Brasil. Com medo de perder uma das fontes de energia mais preciosas, o governo começou a pensar em outras soluções. Energia eólica? A produção de energia não é tão regular e abrangente assim. Energia nuclear? Apesar de Angra III está sendo construída, a tendência é não investir tanto em energia nuclear, por conta dos gastos excessivos e do perigo ao meio-ambiente. A solução, para o governo, deveria ser uma usina hidrelétrica. Belo Monte por Itaipu: elas por elas.
Não que Itaipu passe a ser somente dos paraguaios, mas ter uma outra usina complementando a energia é uma medida de segurança. E agora o projeto ganharia um bom argumento: a busca por energias limpas. No entanto, o impacto ambiental que a construção dessa usina no interior do Pará pode produzir é enorme. Não só o impacto ambiental como também social: comunidades indígenas do Xingu e ribeirinhos teriam de ser transferidos para outras áreas. O Parque do Xingu foi construído na década de 1960 com a ajuda dos irmãos Villas-Boas, reunindo diversas etnias, muitas transferidas de seus locais de origem por conta de conflitos de terra e de construção de rodovias. Os povos que acostumaram a viver ali teriam de ser transferidos para outra localidade, ainda incerta.

O governo diz que a Usina trará empregos para a região, principalmente para a cidade de Altamira, e que as transferências e indenizações serão feitas com cuidado, sem falar que os impactos ambientais não serão tão grandes assim. O problema é que a população pobre local suspeita que as mudanças serão boas para um pequeno círculo de pessoas (alguns empresários locais) e não para toda a comunidade, como sempre vem acontecendo no interior do país. Principalmente quando essa mudança implica em destruir o modo de vida dessa comunidade. Não se sabe ainda para onde serão transferidos e se isso realmente vai ser feito direito, com indenização e tudo mais. Para a comunidade indígena a questão se torna mais problemática ainda, já que a mudança seria muito radical: após décadas vivendo naquelas terras teriam de se mudar mais uma vez, certos de que serão explorados fora das reservas.

Raoni descobriu há muito tempo que a melhor maneira de se ganhar uma batalha hoje é ganhar a opinião pública. Por isso, há mais de 20 anos vem divulgando a causa indígena e os problemas que ela vem encontrando no Brasil principalmente no exterior. Raoni tornou-se conhecido, aliás, por participar de turnês com o cantor Sting, quando este participava de uma campanha dos direitos humanos internacional. O que é bizarro é justamente isso: Raoni é mais famoso lá fora que aqui dentro. Penso que isso demonstra a própria falta de interesse do brasileiro com a questão indígena. Muitos ao assistirem as notícias nos jornais sobre as manifestações contra Belo Monte não entendem o porque disso tudo, afinal é só uma usina.
Por outro lado, a opinião pública internacional se interessa com a questão indígena só até certo ponto. Ainda se enxerga o indígena com aquele exotismo. Convidar Raoni para falar na França sobre a questão indígena, ao meu ver, é uma estratégia do governo francês de propagandear uma imagem de que é multicultural e tolerante, apesar de proibir que as mulheres muçulmanas utilizem véu e que comunidades ciganas sejam restritas á determinados guetos. Na hora de pressionar o governo brasileiro para procurar outra alternativa para Belo Monte, nenhum país "simpático" á causa indígena se manifesta. Vimos á pouco tempo o diretor James Cameron defender o fim de Belo Monte. Uma iniciativa um tanto isolada e suspeita (afinal, ecologia se tornou palavra de ordem, justificando até certos imperialismos).
Reforma agrária, questão indígena, ecologia e crise energética: tudo parece se embolar quando se trata de Belo Monte. Uma solução adequada, contudo, ainda não foi achada para essa série de impasses.

quarta-feira, 10 de agosto de 2011

Massacrados pelo "heroísmo" ou atropelados pelo "Progresso"

Índios caçando onça., Johan Rugendas.
Arthur Cezar Ferreira Reis (1906-1993) quando publicou seu livro de estréia, História do Amazonas, em 1931, pretendia preencher uma lacuna e atender a um pedido. A lacuna seria a falta de um livro que desse conta da história do estado, já que antes o que havia eram apenas livros sobre determinados episódios como a Revolta Tenentista de 1924. O pedido seria o feito pelo carismático escritor e político local Álvaro Maia de incentivar os jovens a defender sua região através do culto á heróis cívicos locais. Essa é uma das teses defendidas pela historiadora Lademe Corrêa que analisou o livro de Reis.
Arthur Cezar Ferreira Reis.
O primeiro livro de história do Amazonas pouco falou sobre os povos indígenas. O grande protagonista era o colonizador português, entendido como um dos maiores heróis da história brasileira por ter enfrentado a natureza hostil. O indígena aparecia aqui e ali como ajudante do colonizador ou como seu inimigo bárbaro. A exceção é o líder da resistência indígena Ajuricaba, defendido anteriormente por Álvaro Maia, como um dos pioneiros na defesa do Vale Amazônico. Ajuricaba se tornou uma lenda na região e foi transformado num herói cívico pela sua bravura e coragem. No livro de Reis, Ajuricaba possui as mesmas qualidades do colonizador português: a bravura, a coragem, a intrepidez. Mas é claro, no livro, que ele é uma exceção.
Reis estava influenciado pela historiografia tradicional, principalmente em Francisco Adolfo Varnhagen, que enxergava na colonização portuguesa um ato magno de heroísmo ao tentar civilizar uma terra bravia. Varnhagen é o construtor da história oficial, da história do Estado Português e seu filhote, o Império do Brasil. Reis está na República, mas repete essa visão.
Em 1953, após entrar em contato com muitos pensadores nacionais como Gilberto Freyre, Luís da Câmara Cascudo e Sérgio Buarque de Hollanda, Arthur Reis começa a mudar de posição. Em um livro encomendado pelo Serviço de Informação Agrícola sobre a atividade gomífera Reis demonstra essa vontade de fazer uma história mais crítica e mais social - embora ainda persista aquele ideal tradicionalista da heróica colonização portuguesa na Amazônia. O livro em questão é O Seringal e o Seringueiro. Nele o autor dá especial enfoque aos migrantes nordestinos. Considera que a Amazônia venceu a estagnação econômica e cultural graças aos nordestinos que trouxeram consigo a sua resistência, a vontade de trabalhar, uma religião mais católica e uma linguagem mais brasileira. Em contraposição ao nordestino temos o caboclo amazônico que herda os traços negativos do elemento indígena, como a preguiça, o sincretismo e a dispersão.

Como vemos, Reis repete um preconceito antigo, atribuindo ao indígena traços psicológicos negativos. Ele não enxerga a diversidade do povo indígena. A preguiça aqui é entendida como vontade inata de não querer trabalhar, ao contrário de um meio de resistir a uma forma de trabalho diferente da que o indígena estava acostumado. O colonizador formou essa afirmativa ao entender a sua forma de trabalho como a única válida em todo mundo. Tanto é que quando Reis afirma isso não se embasa em estudos científicos, mas apenas em um desentendimento que com os anos tomou o status de verdade velada.

Djalma Batista
Djalma Batista (1916-1979) no artigo Da Habitalidade da Amazônia traça uma pequena história do contato entre o homem branco e o indígena. Conclui que a história da Amazônia tem sido a história do massacre, conclusão a qual Márcio Souza também chegaria anos mais tardes em seu A Expressão Amazonense. Djalma Batista denuncia o lado negativo da colonização: o genocídio. Lado esse que até então não tinha sido devidamente denunciado. No entanto, Djalma ainda possui alguns traços de etnocentrismo. Quando se refere aos indígenas utiliza sempre os termos "indiada", "bugres", "silvícolas" ou "bárbaros". Na última parte do artigo, quando pretende fazer uma pequena exposição sobre os traços psicossociais dos caboclos, adquiridos dos indígenas, elenca, além da culinária e dos hábitos corriqueiros como banhos em igarapés, a preguiça e o desrespeito com a propriedade.
Djalma também reproduz uma idéia presente nos anos de 1950, quando o artigo foi escrito, e que se acentuaria na década de 1960. A idéia de que o indígena está intrinsecamente ligado ao passado e de que sua cultura será destruída pelo desenvolvimento, pela industrialização. Entende-se assim a modernidade como um rolo compressor que condenaria os "primitivos". O que se pode fazer para amenizar os efeitos do progresso são as reservas indígenas.

Capa da segunda edição (2007).
Quando lança Complexo da Amazônia, em 1976, Djalma reitera as afirmações desse pequeno artigo, no entanto combate o desenvolvimentismo puro, o progresso a todo custo. Defendendo um desenvolvimento auto-sustentado (hoje fala-se de desenvolvimento sustentável) que preservaria a natureza e a cultura local (incluindo a indígena) aproveintando de ambas racionalmente.

O que podemos perceber nessa rápida análise sobre o pensamento desses dois grandes intelectuais, considerados como nomes essenciais á tudo que se refere sobre a história e a problemática amazônica, é que estavam ainda presos ao etnocentrismo (um mais que o outro). Mesmo o elemento indígena sendo mais presente no Amazonas, aqui se repetiria discursos fabricados em todo país de que o índio é preguiçoso e está condenado pelo progresso. Um discurso criado pelo colonizador, como apontou através de grande pesquisa empírica Victor Leonardi em Entre Árvores e Esquecimentos. O fato da maioria das sociedades indígenas brasileiras serem ágrafas, ou seja, não possuirem escrita, não permitiu que tivéssemos a opinião dos indígenas sobre a história nacional. Seu silêncio involuntário uniu-se á imposição do colonizador pela escravização, catequese ou ideologia. Hoje tenta-se romper esse olhar etnocêntrico tentando produzir uma historiografia indígena, mas nunca é demais lembrar que toda "verdade velada" é muito resistente, possuindo a capacidade de sobrevivência semelhante á das baratas.

quinta-feira, 5 de maio de 2011

Notas sobre a palestra do Prof. Benedito Espírito Santo Maciel

Da esquerda para a direita: eu, Anália Ferreira, Prof. Benedito Maciel, uma aluna de turismo e o apresentador do Simpósio Ellen Veras Filho. Foto: Maurílio Sayão.
Professor de Antropologia da Ufam e pesquisador sobre a questão indígena, Benedito Espírito Santo Maciel foi o pesquisador convidado para abrir o III Simpósio Indígena do curso de História e Turismo, com o tema "Resgatando a cultura amazônica".
O objetivo da sua fala era discutir o termo cultura. Maciel iniciou sua fala com as possíveis reações diante do Outro. Um bom exemplo: diante da imagem de um caboclo amaozense levando seu jantar (um gordo porco do mato), as pessos podem ficar interessadas com seu modo de vida ou desprezá-lo. Essas são as reações diante do Outro: recusa ou fascinação.
Para discutir o conceito de cultura, Benedito usa as reflexões do antropólogo Roque Barros Laraia em um livro já antológico (Cultura: um conceito antropológico). Segundo Laraia, a cultura condiciona o aspecto biológico (do homem) e geográfico e tem uma dinâmica e lógica própria. Esse último ponto é o mais importante da discussão. Por quê? É comum tentarmos entender um povo utilizando os conceitos de nossa própria cultura (é o que chamamos de etnocentrismo) e ao fazermo isso esquecemos a lógica própria desse povo. Por isso a antropologia passou a usar o relativismo como forma de estudar os diversos povos.
Desse momento em diante, o Prof. Benedito abriu a discussão para perguntas. Infelizmente, não conseguirei enumerar todas elas, porque estava sem material no dia. Mas anotei, posteriormente, as que achei mais interessante.

A primeira pergunta da noite foi de um aluno do primeiro período de História sobre o tratamento dispensado por algumas etnias aos bebês que nascem deficientes. Ou seja, ele queria entender porque eles são mortos pelos seus pais. Maciel começa a resposta com um alerta: cuidado com o etnocentrismo! O amor deles por seus filhos não seria diferente do nosso. A forma como eles demonstra esse amor, contudo, faz parte da sua cultura e sua cultura, como dissemos antes, tem sua lógica própria. Os Waurá, por exemplo, precisam de guerreiros. O bebê que nasce deficiente não terá uma boa vida e não será abençoado com o paraíso ao final de sua vida - aliás, uma curiosidade muito interessante: esse povo é conhecido como o "povo do veneno", uma vez que aos 25 anos cabe aos homens se suicidarem tomando uma puçanga. Aliás, a maioria das perguntas posteriores foram sobre esse curioso costume que, segundo o professor, é muito recente, foi empregado com o objetivo de controlar o crescimento da população Waurá, dentre outros motivos.
E perceba a diversidade cultural: enquanto os Waurá enxergam nos idosos pessoas amaldiçoadas, que não chegarão para um dos últimos degraus do paraíso como os jovens guerreiros, os Cambeba (objeto de estudo de Benedito) os têm como indivíduos sagrados, pois eles guardam a memória do seu povo e de sua comunidade.

A minha pergunta (acho que foi a terceira da noite) foi exatamente sobre os Cambeba. Em seu artigo Entre os Rios da Memória: História e Resistência dos Cambeba na Amazônia Brasileira para o livro Rastros da Memória de Patrícia Sampaio e Regina Erthal, Benedito fala sobre esse povo que parece ter desaparecido da história oficial para reaparecer somente na década de 1980. A tese de Benedito é de que esse povo, para sobreviver, decidiu se silenciar e somente quando percebeu que o contexto histórico tinha dado sinais de melhores tempos eles decidiriam reafirmar sua cultura. A minha dúvida era como os Cambeba conseguiram reconstruir sua cultura após decidirem que tinham de esquecê-la para sobreviver?
Segundo o professor, eles não esqueceram, apenas se silenciaram. Internamente, os mais velhos continuaram a passar a cultura Cambeba para as novas gerações, contudo, quando alguém de fora chegava na aldeia, eles diziam que não eram índios e não eram Cambeba. Isso reflete inclusive uma estratégia muito inteligente de sobrevivência: os Cambeba perceberam, seja com a experiência pessoal de cada um ou mesmo com a memória de seus antepassados, que a sociedade brasileira possui um certo preconceito para com as etnias indígenas, então, nada mais lógico que não ser reconhecido como indígena para não ser perseguido ou marginalizado.
Ainda segundo Benedito, o nosso maior problema hoje é enxergar o indígena no presente. A imagem que temos dele é aquela imagem construída pelos cronistas. Por isso, costumamos imaginar o indígena vivendo no meio do mato, avesso á todo tipo de tecnologia. Essa imagem se reflete, inclusive, no turismo: quando o turista pergunta sobre o passado da Amazônia o guia procura logo levá-lo á uma aldeia indígena, quando na verdade o passado amazônico é muito mais complexo. A idéia não é desprezar os indígenas que ainda vivem em aldeias, mas reconhecer que sua cultura é muito diversa e complexa. Por exemplo, existem etnias na cidade, como os Saterê Mawé, que se adaptaram ao viver urbano encontrando, inclusive, seu modo próprio de conviver com o cotidiano da cidade.

A próxima pergunta partiu do meu colega Fábio Neto do quinto período de História: como podemos estudar os indígenas se os relatos que temos sobre eles, seja dos cronistas ou dos viajantes, são feitos em cima de uma visão etnocentrista?
Benedito considerou essa uma boa pergunta: os documentos que temos em mão estão cheios sim de etnocentrismo, mas sem eles como podemos estudar os indígenas? O pesquisador tem, primeiro, de ter a noção de que nenhum documento é imparcial. Uma vez tendo isso em mente ele tem que tentar avaliar, fazer uma triagem da fonte, tentar separar o juízo de valor da informação. Aliás, o historiador tem o dever de ter consciência desse problema das fontes. Segundo o professor, o historiador é muito pretensioso, pois ele quer estudar uma sociedade que não é a sua em um tempo que não é o seu. Por isso essa situação exige muita crítica e o máximo de cuidado!

Minha colega do quarto período, Olga Almeida, fez a seguinte pergunta: como reconstruir uma cultura a partir da memória?
Maciel faz uma pequena ressalva: uma cultura não se perde como se perde um celular. Quando se fala em aculturação é comum pensarmos que uma cultura é destruída e outra assume seu lugar, quando na verdade nenhuma cultura some totalmente e nenhuma cultura é transplantada á outro povo em sua forma pura. Diversas culturas podem se unir, mesmo de maneira imperialista, e forma uma cultura nova, com traços de ambas. Assim sendo, uma cultura se reconstrói constantemente, pois ela tem sua dinâmica. A memória tem um papel fundamental na reconstrução da cultura entre os povos indígenas, pois suas sociedades são ágrafas, ou seja, não possuem escrita. Claro, isso é muito complicado, pois a memória, assim como a história de certa forma, geralmente costuma sacrificar a verdade em determinados momentos em nome de um estilo mais interessante ou de se acobertar algo.

A próxima pergunta partiu da minha amiga Anália Ferreira, do quinto período: nós falamos muito nesse ato do colonizador invadir a cultura dos povos indígenas, mas os missionários também participaram desse movimento, assim, como esse ato de evangelizar pode acabar com uma cultura?
Benedito alerta mais uma vez para a idéia de reconstruir e não perder uma cultura e se detém em um outro ponto. A religião é apenas um elemento de uma cultura. Claro que existem sociedades onde esse elemento ocupa um maior espaço, tem uma importância maior. Almir Diniz, por exemplo, demonstra como o fato de se converterem ao cristinianismo não significou para muitos líderes indígenas do Amazonas abdicar de sua cultura.

Benedito Medeiros, nosso colega do quinto período, fez também uma pergunta interessante ao Prof. Maciel:  como podemos utilizar a cultura destes povos no sentido de divulgá-la?
Nesse sentido, existem alguns passos que devem ser tomados. Primeiro, para entrar em contato com um determinado povo você deve, antes de tudo, passar na FUNAI, órgão do governo que ainda os tutela, e pedir uma liceça. Depois você entra realmente em contanto com o povo em questão. Benedito lembra de quando foi fazer sua pesquisa sobre os Cambeba: mesmo já conhecendo os líderes Cambeba, uma vez que trabalhava no CIMI (Conselho Indigenista Missionário) na época, tinha que passar por todo esse procedimento quando começou sua pesquisa. E quando chegou á aldeia deles, seus líderes ainda queriam entender qual seu objetivo enquanto pesquisador. Benedito declara que achou isso muito estranho num primeiro momento, mas na verdade reflete a consciência desse povo, afinal, eles queriam entender as consequências desse projeto. E uma vez firmado o compromisso ele deve ser cumprido. Por exemplo, essa pesquisa foi publicada com o consentimento deles, mas para publicá-la fora da universidade ele terá de pedir uma nova permissão deles, uma vez que a primeira era apenas para um trabalho acadêmico.

Como vocês podem perceber, a palestra foi muito esclarecedora e produtiva. Infelizmente não consequi aqui reproduzir todas as perguntas feitas, pois elas demonstrariam como os ouvintes, sejam de História ou de Turismo, estavam interessados e "antenados" com o tema. Aplaudido de pé pela pláteia, o Prof. Benedito conseguiu despertar justamente esse interesse pela questão indígena, a semente de um novo olhar e um novo tratamento para com os povos indígenas que não passe pela recusa de sua alteridade e de sua cultura.

terça-feira, 12 de abril de 2011

O Silêncio dos Inocentes

ENTRE ÁRVORES E ESQUECIMENTO: História Social no Sertão do Brasil. Victor Leonardi. Brasília: Editora Paralelo 15, 1996.

Fernando Pessoa queria expressar o desejo de se afastar de um mundo frenético e neurótico quando escreveu "E ir ser selvagem/ entre árvores e esquecimento", mas Victor Leonardi se apropria dessa frase para denunciar a situação do indígena na sociedade brasileira. Ele se encontra entre árvores e esquecimentos.
Todo esquecimento é uma espécie de silêncio, silêncio sobre algo, sobre alguém. Tal idéia explica a origem do título dessa resenha (além da ótima oportunidade para um trocadilho), mas, veremos que na história, ninguém é tão inocente assim.

Victor Leonardi
Leonardi identifica um silêncio na cultura brasileira sobre a questão indígena, ela ainda continua sendo objeto de preocupação de meia-dúzia de almas, entre elas os próprios indígenas. Por que? A resposta, segundo o autor, estaria na construção de uma mentalidade. Durante a colonização, o interesse em se apropriar das terras e da força de trabalho do índio era disfarçado com o ideal do progresso ou da catequese e sempre vinha acompanhado de um preconceito contra os povos nativos - ou eram inferiores, sem alma ou preguiçosos. E o que temos hoje? Embora não se deseje mais a mão-de-obra indígena, mas somente suas terras, o discurso continua sendo quase o mesmo: o índio não pode deter o progresso, não pode atrapalhar a soberania nacional etc.

Essa mentalidade nos impede de ver o quão manchados de sangue estão nossos livros de história. Além da escravidão negra, temos ainda as guerras de conquista contra os indígenas e sua escravização. Ora, costuma-se pensar que nossa colonização foi pacífica no que tange ao índio, mas esse é mais um discurso. Construído sobre a hipocrisia dos colonialistas e a falta de um relato indígena sobre o processo, dando sua versão dos fatos - uma vez que as sociedades indígenas brasileiras são ágrafas, ou seja, não possuem escrita.

Mesmo sem uma outra versão do fato, podemos pescá-la nos não raros episódios de violência que foram patente na nossa colonização. Sim, os bandeirantes são apenas a ponta do iceberg. A situação é muito mais complexa: seringueiros na Amazônia, pecuaristas e senhores de engenho no Nordestes e até imigrantes alemães no Sul estão envolvidos nessa guerra milenar, isso sem falar dos próprios indígenas. A rivalidade entre etnias, já existente antes dos colonizadores, foi muito bem explorada pelos europeus.

Se o colonialismo envolveu os mais variados grupos sociais e étnicos, também pode ser dito que envolveu os mais variados países. Os produtos cultivados em terras indígenas foram a riqueza das Metrópoles e dos demais países europeus. O capitalismo é assim, envolve vários países, várias regiões, ele constrói e destrói. O resultado é que temos uma modernidade, construída em cima de tanta violência, que prometia a redenção da humanidade, mas apenas lhe deu mais violência.

O Brasil passa uma imagem de paraíso das raças, de acolhedor de todo tipo de cultura. Leonardi reconhece a simpatia do brasileiro e sua alegria perante a vida (com a autoridade de quem rodou o mundo, mas se apaixonou cada vez mais pelo seu país). Não se trata de esquecer nosso pontos positivos ao abordar estes lados sombrios de nossa formação, mas de trabalhar justamente esses aspectos negativos e transformá-los em algo melhor. Se trata de transformar o preconceito e a arrogância para com o indígena em respeito e diálogo. O primeiro passo, como em todo problema, é reconhecer que há algo de errado. O fato é que nós não pensamos em nossos indígenas e quando o fazemos é exatamente em cima de idéias pré-concebidas, arrastadas há anos em nossa cultura.

Uma vez reconhecido nosso preconceito e arrogância devemos partir para a solução e a solução é simples: compreensão. Nenhum preconceito resiste á compreensão, afinal ele é construído em cima de seu oposto. A sabedoria sobre os povos indígenas, contida na antropologia e na história, deve ser divulgada, só assim percebermos o quanto são diversas as sociedades nativas. Só assim perceberemos que o índio não é um povo sem história. Só assim perceberemos que o índio não é preguiçoso, mas apenas possui seu ritmo de trabalho próprio. Só assim perceberemos que o índio não é contra a soberania nacional, mas apenas tenta valorizar sua cultura que reside justamente nessa diversidade.

Compreendendo, estamos aptos a sugerir mudanças. Devemos rever essa idéia de soberania nacional que não prega o multiculturalismo, mas que não admite a diversidade cultural. Devemos rever as políticas rurais, incluindo aí a demarcação de terras indígenas e a reforma agrária. Mais as maiores mudanças, contudo, devem ser em nosso cotidiano, no fim de certos preconceitos e na aceitação dessa diferença. Quem sabe assim construíremos uma modernidade que realmente revigore nossa humanidade.

Basicamente essa é a mensagem de Victor Leonardi, exposta com muita coerência no decorrer dos capítulos de seu livro. São páginas e mais páginas de silêncios finalmente quebrados de nossa história, por todo o Brasil. São capítulos que servem á proposta de Leonardi de transformar a história do Brasil em uma casa de vidro, onde possamos ver os segredos colocados debaixo do tapete.

Se o foco recai nesses milhares de massacres, não é por sadismo, mas para combater a mentalidade e o silêncio. Meu capítulo preferido, por exemplo, "Com As Asas Presas na Tempestade", faz uma discussão teórica e artística sobre a modernidade e os indígenas. Nele Leonardi demonstra como nossa arte foi revigorada pela sensibilidade dos "primitivos", quando nossas vanguardas buscavam por formas mais sintéticas e mais atraentes e as encontraram na cultura oriental, africana e indígena. Não só a a arte, mas muito ainda pode ser revigorado com a ajuda da cultura indígena, por exemplo, a questão ecológica (afinal, a sustentabilidade é uma das maiores marcas dos povos indígenas) e sociais (uma forma de trabalho mais humana ligada ao lazer, uma educação menos dogmática e mais lúdica e difusa, uma filosofia de vida menos angustiante e mais serena, são apenas alguns exemplos). Esses "primitivos" ainda tem muito a nos ensinar sobre "ser civilizados" realmente.

Entre Árvores e Esquecimento foi uma leitura agradável, seja pelo estilo ou pela temática, e extremamente realizadora intelectualmente tamanha a quantidade de reflexões úteis que nele podemos encontrar. Graças á esse livro tornei-me fã desse sagaz historiador e aprendi a desconfiar de silêncios.


(Resenha publicada no Recanto das Letras em 10 de abril de 2011 - link)

segunda-feira, 11 de abril de 2011

"Índios cristãos"

Ilustração de Jean Baptiste-Debret
Almir Diniz Carvalho Júnior gosta de utilizar esse termo em aspas mesmo, por conta de dois motivos: primeiro, a palavra índio (que já nasce de uma confusão: Colombo assim os nomeou pensando estar em contato com os habitantes da Índia) é muito genérica, ela não consegue dar conta da diversidade entre os povos ameríndios; em segundo lugar, "índios cristãos" é mais um dos termos criados pelos colonizadores para classificar estes povos, tendo como padrão o índice de amizade ou inimizade em relação aos europeus.

Além dos nomes de algumas das tribos, que já se tornavam símbolo de amigos ou inimigos (como os Tamoio ou os Tupinambá), os portugueses costumavam designar os índios de selvagens, gentios ou mesmo de tapuios (povos do interior, sinônimo de ferozes e guerreiros). O termo "índio cristão" significa um índio batizado, um índio integrado, um índio finalmente "civilizado".
O objetivo do autor é analisar esses índios integrados no mundo colonial, mas enxergando como eles próprios se apropriaram dessa identidade nova. Afinal, nenhuma integração era perfeita: eles podiam resignificar os signos do seu mundo e do mundo cristão, criando uma maneira muito pessoal de se posicionar na sociedade.
O historiador vai á procura desses "índios cristãos" e os encontra na figura dos principais. O Principal era um cargo criado na colônia pela Coroa portuguesa, uma forma de chefe indígena responsável pelo seu povo, mas obediente ao Rei. Cargo hereditário e somente confirmado por uma carta patente do Rei garantindo a posse do novo Principal. Sua posse dependia de sua condição: se era civilizado ou não.
A figura do Principal, acredito, é um tanto nova para todos nós que acostumamos com a idéia do menosprezo colonial para com a cultura indígena. É fato que os portugueses, depois do contato inicial, descobriram que poderiam contar com aliados entre os povos nativos na sua tentativa de colonizar essa nova terra, primeiro expulsando seus concorrentes, sejam eles invasores franceses ou ingleses. Os portugueses e luso-brasileiros que expulsaram os franceses do Maranhão, por exemplo, contaram com a ajuda de índios que já tinham uma história de rivalidade com aqueles que eram amigos dos franceses. No Rio de Janeiro, os portugueses não conseguiram expulsar os franceses sem a ajuda dos Tupinambá, inimigos mortais dos Tamoios, aliados dos franceses. Assim não é estranho que a Coroa recompense esses aliados com  condecorações, como aconteceu com um dos líderes dos Tupinambá, Araribóia. A maior das honrarias no mundo colonial era ser condecorado com um Hábito da Ordem de Cristo ou de alguma Ordem Militar.
Essa prática instituída pelos portugueses gerou, no Maranhão, uma procura muito grande por parte dos Principais dessas condecorações e assim a Coroa entra num dilema: conferir essas honrarias seria ferir as regras dessas ordens (que são rígidas, não permitem que ninguém de sangue judeu, mouro ou gentio ingresse) e não conferi-las poderia tornar esses importantes aliados ressentidos. O aumento da procura, por sua vez, indica que estes Principais reconheceram o prestígio que podiam conseguir se "integrados" ao mundo colonial, ao invés de serem perseguidos e marginalizados como era feito com seus antigos inimigos que se refugiavam nos sertões.

Estes Principais tinham as mais variadas funções: comandar exércitos de soldados de sua etnia ou simplesmente gerenciar os índios que seriam escravizados pelos colonos locais. Mas eles tinham seus próprios interesses, como conservar a autonomia política por exemplo. Conseguir Hábitos da Ordem de Cristo significava prestígio, os equiparava aos demais colonos. Num primeiro momento, muitos pedidos foram respondidos, criando assim uma "elite indígena", no entanto, a Coroa e até mesmo os jesuítas perceberam que eles estavam sabendo cada vez mais se afirmar no espaço colonial, o que podia fazê-los escapar do controle do Rei e da Companhia de Jesus.

Resumindo, os "índios" foram manipulados pelos portugueses na sua tentativa de tomar o território do Grão-Pará (e do Brasil inteiro de certa forma), mas Almir enxerga estes mesmos "índios" manipulando o sistema de clientelas criado pela Coroa. O cargo dos Principais, exercido quase sempre por "índios cristãos", demonstra muito bem isso. Podemos ver nos casos alencados por Diniz estes Principais tentando conservar sua autonomia, tentando conquistar um espaço na ordem colonial utilizando os recursos apresentados pela lei. Manipulados e manipuladores, esses seriam os "índios cristãos" apresentados pelo historiador.
O historiador Almir Diniz Carvalho Júnior.

Referências: CARVALHO JÚNIOR, Almir Diniz. Líderes Indígenas no Mundo Cristão Colonial. Canoa do Tempo: Revista da Pós-graduação em História da UFAM. n. 1, vol. 1. jan/dez. Manaus: EDUA, 2007.

segunda-feira, 21 de março de 2011

As amazonas do Amazonas II

Trajeto da expedição de Francisco de Orellana.
Como dissemos anteriormente, as amazonas são parte de um imaginário construído sobre a região amazônica. Parte de um imaginário que reconhece a magnitude da natureza e a inferioridade do homem nativo, no nosso caso, da mulher nativa.
Mas os cronistas reconhecem nas amazonas a sua bravura, ferocidade e organização, como podem então elas serem inferiores? Carvajal constrói sua narrativa como um épico, tendo os conquistadores comandados por Francisco de Orellana como heróis. Se ele reconhece a "civilidade" de certas tribos e a "virilidade" de outras, como a das amazonas, elas não chegam nem perto da civilização e da força dos conquistadores.
A vitória da tripulação de 57 homens sobre um exército de índios comandados pelas mulheres guerreiras reforça essa superioridade. Essa idéia de superioridade tem profundas raízes religiosas e políticas e, de certa forma, permeou a história da colonização, seja ela hispânica ou portuguesa, chegando até nós ainda. É a "peversão da memória", como coloca o historiador Hideraldo Costa, é a sobrevivência dessa visão eurocêntrica que enxerga no homem amazônico um ser inferior.

As mulheres guerreiras do Daomé.
A historiadora Maria Izilda Santos Matos fez um estudo interessante sobre o mito das amazonas e a questão do gênero nos primeiros anos da Conquista. Apresentaremos aqui algumas de suas reflexões á seguir. Antes de tudo, a autora ressalta que a idéia de mulheres guerreiras é antiga e está presente por quase todo o Velho Mundo, seja na Grécia ou no Daomé. Essa seria, portanto, uma idéia recorrente na mentalidade mundial, de certo modo. Podemos encontrá-la até em algumas tribos amazônicas, onde se fala de um mundo primordial controlado pelas muheres, onde os homens se livraram de sua tirania através da força de um herói-reformador (Jurupari) ou capturando seus objetos sagrados (as flatuas, na lenda dos Mundurucus). Estes mitos são usados para legitimar o patriarcado.
Na cultura européia entre os séculos XVI e XVII, a situação não era muito diferente: a mulher era vista como um ser inferior, intelectualmente, sendo por isso responsável pelo lar. O mito das amazonas é construído, com base em lendas greco-romanas, ibéricas e amazônicas, de forma a incluir dentro dele um modelo ideal de homem e de mulher. Uma sociedade comandada por mulheres fortes, ricas, comandadas pelo desejo (utilizando os nativos como objeto, aliás, de seus desejos sexuais) e com uma espécie de maternidade seletiva (aceitando apenas mulheres) era uma inversão da ordem. Em parte, elas lembram muito os conquistadores (na virilidade e ganância), mas o marcante mesmo é sua completa diferença com o modelo de mulher esperado: aquela mulher que mantém sua virtude prezando sua castidade e não a promiscuidade; que não se envolve em assuntos ligados ao governo, riqueza e guerra; que ama antes de tudo seus filhos.
O mito das amazonas foi construído pelos homens para incutir na cabeça das pessoas, principalmente das mulheres, de que o seu papel era diferente daquelas mulheres guerreiras. No entanto, como todo mito construído sobre outros mitos, ele está cheio de incoerências e pode ser utilizado das mais variadas formas. Pode ser que muitas mulheres se simpatizavam com as amazonas, vendo sua sociedade como ideal, onde elas teriam mais liberdade. E, de fato, as amazonas foram utilizadas no futuro como argumento para discursos á favor das mulheres: seja como apoio ás rainhas européias no século XVIII, seja como argumento para a igualdade de cidadania entre os sexos durante a Revolução Francesa, seja como símbolo do movimento feminista no século XIX e XX.

domingo, 20 de março de 2011

As amazonas do Amazonas

Frei Gaspar de Carvajal foi o responsável por inaugurar o imaginário amazônico. Foi com seu relato da viagem (1541-1542) do espanhol Francisco de Orellana, saindo do Peru e descendo o rio até chegar ao Oceano Atlântico, que o mundo europeu recebeu as primeiras notícias sobre esse mundo maravilhoso.
Uma floresta imensa e enigmática, animais monstruosos e povos de todos os tipos de personalidade e tamanhos. Mas o mais impressionante de seu relato, com certeza, foi ter encontrado no meio do Novo Mundo o reino das poderosas guerreiras relatadas na mitologia grega: as amazonas.
Depois de meses de viagem, Orellana é encurralado no rio por várias canoas apinhadas de mulheres guerreiras e alguns homens. Flechas voam contra os barcos, acertando inclusive nosso cronista que morreria caolho.
A batalha é maciça. Depois de algumas horas, as canoas somem e as flechas param de serem atiradas. Metade da tripulação é morta. Alguns índios são feitos prisioneiros. Estes contam que são súditos das amazonas, assim como a maioria dos povos da região, e que elas possuem uma aldeia no interior da floresta cercada e composta por um imenso templo de pedra, guardado por dois felinos feitos de pedra.
O relato chegou á Espanha e deixou á todos de queixos caídos. Anos depois, seguindo a expedição do português Pedro Teixeira, o padre Cristóbal de Acuña (1638-1639) faz o mesmo trajeto e ainda procura pelas míticas amazonas. Walter Rayleigh (1617), corsário inglês, viajará ao Orinoco á procura de seu reino e até o cientista francês La Condamineau (1743-1744) se perguntará onde estão as mulheres guerreiras, assim como seu colega cientista Alexander Von Humboldt (1799-1804).
É possível que elas existiram? Se sim, o que aconteceu com elas? Muitos se dedicaram á responde essa questão. Alguns encontram na tradição tupi, as amazonas na forma das icamiabas, mulheres que não concordaram com as leis propostas pelo herói-reformador Jurupari para sujeitar á mulher ao homem.
Em muitas etnias amazônicas, a mulher tem um papel importante, substituindo o homem em certas funções como a caça e a pesca. No entanto, notícias sobre uma tribo feito somente por mulheres guerreiras ficaram restritas ao período colonial. Pesquisadores encontraram outro nome para elas: Icamiabas ou "mulheres sem maridos". Icamiaba também era o nome de um morro no Equador, mas verificou-se que ali não habitavam mulheres guerreiras.
Terá Carvajal inventado tudo isso? Essa é outra hipótese. No relato do frade aparecem menções á gigantes, assim como nos relatos posteriores também surgiram as figuras de monstros acéfalos, dragões, sereias, etc. O historiador Auxiliomar Ugarte trabalha com a hipótese de que a consciência do fabuloso e a perspectiva de explorar algo totalmente novo tenha confundido e muito seus primeiros exploradores.
Afinal, estamos falando de homens que ainda conviviam com um imaginário medieval, um imaginário fantástico. Carvajal interpreta esse novo mundo segundo o referencial de sua cultura. O historiador Antônio Porro acredita que Carvajal tenha confundido um povo, os Conduris, com as mulheres guerreiras, por causa de suas feições físicas e da região que então habitavam.

As amazonas são parte, uma das mais importantes, do imaginário construído sobre a região. Um imaginário que enxerga nessa região tão enigmática e desafiadora ora o paraíso ora o inferno. Um imaginário que se modifica com os séculos, mas que mantém um certo traço essencial: a de uma natureza exuberante convivendo com um povo "selvagem" ou "inferior".

sexta-feira, 11 de março de 2011

Inferiores e inconvenientes

Victor Leonardi é um antropólogo brasileiro, mas talvez essa seja uma definição muito limitada para esse grande pensador que transita muito bem entre sociologia, história e literatura. Além disso, sua preocupação em discutir nossos problemas também faz de seus ensaios sempre uma boa leitura. Suas reflexões em Entre Árvores e Esquecimentos: História Social nos sertões do Brasil (1996) foram extremamente produtivas para mim.
O livro é a reunião de ensaios bem concisos e conectados sobre a questão indígena. Basicamente, Leonardi está se questionando porque nunca foi dada a devida atenção ao indígena? Por quê em nossas Ciências Sociais há uma enorme lacuna quando se fala no índio que só vem sido preenchida nos últimos anos por nossos antropólogos? No decorrer do livro ele nos apresentará um rico painel da história nacional e da história indígena e sua hipótese para tais questionamentos, os quais nos determos mais tarde.

Por enquanto, nos deteremos no primeiro capítulo, cujo título é Sobre a bestialidade e a desrazão, e outros argumentos. Em cima da constatação de um pesquisador sobre a visão do índio em Portugal e Brasil o autor nos mostrará como o índio foi visto pelos cronistas e, posteriormente, pelos historiadores nacionais. A conclusão a que chegou Georg Thomas depois de pesquisar e muito documentos portugueses foi de que em Portugal e Brasil havia uma imagem pejorativa do indígena, enquanto no resto da Europa, por conta dos relatos de Colombo e Vespúcio, havia uma imagem mais positiva do indígena, que culminará no mito do bom selvagem.

Ora, essa visão pode ser encontrada em inúmeros relatos de viajantes e cronistas. A maioria os chama de bestas, bárbaros, viciosos, indecorosos, pelos mais variados motivos (organização social "primitiva", hábitos bélicos, andar nu, etc.) Vamos agora aos historiadores: Francisco Adolfo Varnhagen, intimamente ligado ao Estado, defende a escravização e o massacre dos índios como única maneira possível de civilizar esse povo e criarmos uma nação decente. Emblemático ouvirmos isso do "pai da História do Brasil". Os historiadores que viriam a seguir não fugiriam desse menosprezo pelo indígena: Rocha Pombo acredita que era a única maneira possível de colonizar o país, Afonso Taunay relativiza a violência em prol da "ação cívica" dos bandeirantes, Serafim Leite pensa que o trabalho missionário e a colonização tinham de ser intensos para atingir essa massa desvirtuada, Oliveira Viana acha que era melhor exterminar o índio do que vivermos cercados por mestiços que degeneram esse país com sua mentalidade preguiçosa e apática. Claro que existem as exceções, como Fernão Cardim entre os cronistas e Capistrano de Abreu entre os historiadores.

Capistrano de Abreu
Francisco Adolfo Varnhagen
Leonardi lembra que os primeiros historiadores do século XX não podiam reclamar dizendo que havia pouco material sobre os índios para criarem tais idéias sobre eles: os primeiros trabalhos dedicados especialmente aos indígenas foram feitos nos anos finais do século XIX por Karl von Martius, Karl von den Steinen, dentre outros naturalistas estrangeiros que percorreram o sertão e a selva amazônica. Assim sendo, nossos historiadores não olharam para o índio com cuidado porque simplesmente não queriam.

Por que nossa historiografia é tão preconceituosa para com o elemento indígena? Seria porque ela é fortemente positivista? Não, afinal ser positivista não significava detestar o índio, basta nos lembrarmos do Marechal Candido Rondon que era positivista de carteirinha. Além disso, esse preconceito era anterior ao positivismo - o vemos nos cronistas, se lembra? A historiografia brasileira nos seus primórdios era essencialmente eclética, como o era a filosofia nacional. A única coisa em comum era esse desprezo para com o indígena que nada mais era que uma justificativa para os atos nefastos dos colonizadores. O pretexto que eles utilizavam, quando não mencionavam a religião, era justamente o progresso. O progresso econômico só seria alcançado com a domesticação ou destruição desse elemento. Assim a guerra era justificada. No século XIX, já independente, o Brasil agora muda de tática: não há mais uma política oficial de "domesticação", mas apenas a marginalização, o esquecimento. A tática muda, mas a justificativa permanece: o progresso.
O mais interessante desse processo é que essa história oficialista será reproduzida nas escolas e universidades formando assim mais e mais pessoas que pensavam o índio como um empecilho ao progresso. Não podemos nos esquecer também da política indigenista: quando ela finalmente se tornou real se direcionava apenas para integrar o índio ao país e não respeitar sua alteridade. O índio devia se integrar, principalmente através do trabalho e de seu território.
Assim, chegamos aonde Leonardi anseiava: esse tema não vem sido debatido desde então, melhor, não vem sido debatido amplamente. Seja porque essa visão do indígena ainda permaneça ou porque os intelectuais se afastaram um pouco dessa questão. Os historiadores, por exemplo, parecem ter se afastado totalmente, deixando o assunto para os antropólogos. A antropologia realmente deu uma nova tônica para o debate, demonstrando a especificidade de cada etnia, mas esse debate precisa ser muito mais amplo. A história ainda tem muito o que acrescentar sobre esse processo de conflito interétnico (índiox branco) que vem acontecendo á mais de quinhentos anos nessas terras.

quinta-feira, 24 de fevereiro de 2011

Olhares

Amazônia, Paraíso dos Naturalistas é um artigo do Prof. Hideraldo Costa Lima que se debruça sobre o rico acervo dos viajantes, nacionais e internacionais que passaram pela Amazônia nos últimos séculos.
Ilustração de Alexandre Rodrigues Ferreira, Viagens Filosóficas ao Rio Negro.

Hideraldo privilegia os viajantes estrangeiros porque seu objetivo, afinal, é analisar o olhar dos europeus sobre a região amazônica.
Entre o século XVI e XVIII, somos visitados pelos cronistas, a maioria de ordem religiosa como os jesuítas João Daniel, Samuel Fritz, etc. Nesse período, embora seja conhecido como idade moderna, o homem ainda possue uma mentalidade religiosa. Assim, quando a Amazônia é descoberta ela é interpretada ora como paraíso ora como inferno.
Esse olhar religioso chega no homem amazônico, o indígena, e enxerga nele uma espécie de subhumanidade. O índio é marginalizado e perseguido por, segundo esta mentalidade, não possuir alma, ser ímpio. Aí temos uma justificativa para a escravização e genocídio da população local que seria amplamente utilizada pelos colonizadores.
O século XVIII pode ser entendido como a entrada da ciência na Amazônia através das expedições científicas. A pioneira foi a do cientista francês La Condamine, parte de um projeto que pretendia determinar onde passava exatamente a linha do Equador. Mesmo assim, La Condamine, apesar de seus objetivos e seus métodos, não estava isento ainda de um imaginário místico: em suas anotações percebemos sua preocupação em encontrar a tribo das amazonas, as mulheres guerreiras descritas pelo Frei Carvajal que tornaram a região famosa.
Anos depois chega á Amazônia o pesquisador baiano Alexandre Rodrigues Ferreira. Esse sim se despe de todo o imaginário anterior sobre a região. O resultado de sua pesquisa, Viagens Filosóficas ao Rio Negro, é muito exato, descritivo. O motivo é simples: intimamente ligado ao governo português, Alexandre foi mandado para a Amazônia justamente para investigar como a administração local estavam utilizando os recursos naturais, denunciando improbidades e propondo soluções. É exatamente o que Alexandre faz: primeiro, descreve cada ponto e depois sugere o que se pode aproveitar dele. Por exemplo, os índios: eivado ainda de um preconceito para esse povo que parece ser selvagem, Alexandre, contudo, vêe neles uma mão-de-obra em potencial, basta discipliná-los.

Ilustração de Spix em Viagem ao Brasil, Spix e Martius.
Quando chega o século XIX, a Amazônia está devidamente consolidada como local por excelência dos naturalistas, seja pelo que foi dito anteriormente ou pelo desenvolvimento das ciências na Europa. Inúmeras expedições são feitas: Alfred Wallace, Karl Von Martius, Henry Bates, casal Agassiz, dentre outros. Entre suas anotações científicas, estes homens deixam sempre pequenas observações sobre a sociedade local e são essas observações que Hideraldo analisará.
Martius, por exemplo, considera o índio, assim como Bates, um povo destinado ao fracasso, seja pela sua apatia, seja pela miscigenação. No período, a população local é composta basicamente de índios, mas também existiam negros, europeus (principalmente portugueses) e os mestiços. Cametá, uma cert ailha no Pará, era onde mais essa miscigenação tornava-se aparente. Exatamente por isso Louis Agassiz ficou enojado com a ilha. A miscigenação acabava com a pureza da raça branca infectando ela com as características das outras raças, características não só físicas, mas, principalmente, morais e psicológicas. Explicava-se assim a pobreza e a promiscuidade da região com a miscigenação.

Alfred R. Wallace.
Dentre os naturalistas, apenas um dispensa aos nativos uma visão positiva: Alfred Russel Wallace, conhecido atualmente como precurssor da teoria da evolução das espécies. Wallace demonstrava imensa simpatia para com o indígena pelos conhecimentos que possuiam sobre a natureza e pela sua generosidade. Para ele, o índio fora condenado pela colonização, com a ajuda da Igreja Católica, á perder sua cultura e em breve a sua própria existência.
Em suma, o homem amazônico era, por excelência, mestiço. A miscigenação era o que mais chamava a atenção desses homens que cresceram acreditando que a civilização européia era a única mais desenvolvida do mundo graças ás qualidades intrínsecas á sua própria raça. Essa era a mentalidade de então. O que podemos ver é que a mentalidade religiosa, movida pela teologia, sai de cena e entra uma mentalidade pautada pela razão, mas que o preconceito para com o homem amazônico continua o mesmo. Á essa persistência no olhar dos viajantes Hideraldo chama de "peversão da memória".
O discurso etnocêntrico agora é justificado por paradigmas científicos, como o evolucionismo, e se apropria até da mais moderna tecnologia: Agassiz, para provar ao mundo os males da miscigenação, tirou fotografias dos tipos locais para demonstrar quão feios e assimétricos os seres humanos podiam ficar uma vez que fosse mestiço.
A mensagem do artigo é clara: cuidado com a "peversão da memória"! Afinal, ela atravessou cinco séculos e, com certeza, ainda sobrevive hoje.