Mostrando postagens com marcador Mito. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador Mito. Mostrar todas as postagens

quarta-feira, 15 de agosto de 2012

Sexo, mentira e monstros

Em todas culturas espalhadas pelo globo sempre há uma figura presente: o herói. Os séculos passam e continuamos seguindo esses estranhos seres. Aquiles, Sundiata, Jurupari, Superman... Os nomes mudam, mas seus valores continuam.
O que é um herói? Geralmente, uma pessoa que se destaca por se dedicar a uma causa - na maioria das vezes defender seu povo - com tamanho afinco e bravura que chega em muitos casos a se sacrificar por ela.
Não é a toa que muitos heróis possuam, pelo menos nas narrativas, uma origem divina. É preciso explicar de onde vem essa inspiração, essa força, e ela é encontrada no sobrenatural.
Esse papo todo sobre estes personagens não é gratuito. É apenas a introdução do tema em pauta: Beowulf. Não o poema-épico anglo-saxão, mas o filme de Robert Zemeckis que o adaptou. É preciso saber que Beowulf é uma peça literária tradicionalíssima da cultura inglesa - embora a ação se passe na atual Dinamarca e Suécia.

O protagonista é um dos mais bravos guerreiros do povo geata (ancestrais dos suecos) que toma conhecimento do sofrimento por que passa um reino longínquo, afligido por uma criatura chamada Grendel. Numa batalha incrível, Beowulf mata o monstro, mas precisa enfrentar depois a sua mãe, sedenta por vingança. Anos depois encontramos nosso herói já entronado rei e com uma certa idade. Um novo desafio se impõe: eliminar um dragão que surgiu em seu reino.
Essa é a história de Beowulf, mas no filme A Lenda de Beowulf (2007) ela sofre algumas alterações, como é comum acontecer a qualquer produção do tipo. No entanto, há um diferencial. São alterações extremamente bem pensadas. O roteiro foi escrito pelo mago das HQs, Neil Gaiman, e Roger Avary. Os dois momentos do poema (a luta com Grendel e a batalha com o dragão), que parecem ser desconexos, são unidos de uma forma muito inteligente.
Aqui a história adquire uma carga erótica muito maior do que a real - basta dizer que a vilã (Angelina Jolie) passa boa parte do filme de topless. A Sra. Pitt não precisou tirar o sutiã para fazer tais cenas, já que o filme foi todo feito com uma tecnologia nova: a captura de movimentos. A mesma utilizada por Zemeckis antes em O Expresso Polar e depois em Os Fantasmas de Scrooge. Isso explica porque o corpulento e bonachão Ray Winstone no filme apareça todo sarado, quase irreconhecível. Talvez toda esse burburinho sobre a tecnologia tenha deixado as partes eróticas escapar aos olhos da censura que classifica este como um filme livre para todas as idades.

O sexo é só um ingrediente na trama de Beowulf. Na realidade, ele é, ao meu ver, a ponta do iceberg. O que estamos discutindo aqui é o próprio conceito de heroicidade e humanidade. O protagonista revela ser narcisista (toda vez repete seu nome, chega a ser até enjoativo) e, como posso dizer, um "refém da beleza". Não fosse essas duas características, Beowulf seria invulnerável. Se aproximaria muito mais da imagem que temos do herói em nossas cabeças. No entanto, o próprio personagem pede para que não o encarem como um ser perfeito, mas como uma pessoa com falhas - um ser humano.
Diante de um monstro que lhe promete a tão sonhada imortalidade, através da divulgação de seus feitos por gerações, e, claro, uma boa noite de sexo, Beowulf se rende. Mas com o tempo, descobre que tudo não passa de um embuste. A imortalidade, por mais que os homens a persigam, não existe. O sexo o afastou de quem realmente amava, de sua rainha (Robin Wright Penn). Beowulf, como o cara da música Ouro de Tolos de Raulzito, "devia estar contente", mas não consegue porque sente um vazio em si provocado pela culpa e pelo sucesso repentino.

É significativo que tanto ele, como o rei anterior (Anthony Hophkins) e ao que parece o seu sucessor (o seu fiel escudeiro interpretado por Brendan Gleeson) tenham caído no mesmo erro. É quase como um ciclo, dando a entender que o homem pode se achar civilizado, racional e invencível, mas, no final das contas, ainda é movido por seus desejos e tentações tanto quanto gostaria que fosse.
A mentira surge aqui para tapar esse buraco deixado pelo vacilo. Um herói é também formado por mentiras, por abstrações. Assim como toda uma civilização também. A ideologia pode ser um cimento muito conveniente para que uma ordem social continue, assim como uma inverdade também pode ajudar a carreira de uma pessoa obstinada. Quase no fim de sua vida, Beowulf renuncia ás mentiras que ajudou a construir, mas seu ajudante se recusa a aceitar a decisão do amigo. Por quê? Talvez porque precisemos acreditar em algo. Precisemos de heróis ainda. O herói, como o mito, pode ser uma inverdade necessária para que continuemos caminhando.
Todos nós temos heróis. Alguns construídos pelo mundo que nos cerca, outros entronados por nós mesmos. São eles que nos alimentam, muitas vezes, com seu exemplo. Eles que nos inspiram. De todos, qual o herói mais próximo de nós? Uma dica: domingo passado foi o seu dia. Sim, os pais. É incrível como até nisso o filme se propõe a discutir. Qual a grande sacada? A inconsequência dos pais recai sobre os filhos - em certo momento, essa frase se torna uma maldição direcionada á Beowulf. A noite de amor com a beldade monstruosa em nove meses, penso eu (não sei como é a gestação dos monstros, então...), dá frutos que mais tarde se tornam dores de cabeça.

O roteiro demonstra isso de duas maneiras: primeiro com Grendel (Crispin Glover) e depois com o dragão. Grendel não é assustador, mas sim bizarro. Em muitas cenas lembra até um menino perturbado e nada mais. E creio que ele seja realmente. Afinal, é duro você ter uma super-audição, viver numa terra onde todo final de semana fazem barulhentos festins no salão de Hidromel e, além disso tudo, ser criado por uma mãe-monstra solteira e rancorosa. Grendel se vinga do pai ausente - aqui vai o spoiler: o rei vivido por Hophkins é o pai de Grendel - matando seus súditos, acabando com a festa. O rei não consegue eliminá-lo, por isso a tarefa caberá á alguém de fora.
O matador de monstros, por sua vez, também se vê as voltas com seu filho, anos depois - outro spoiler: nessa versão, o dragão seria filho de Beowulf. O rapaz também é extremamente inconformado com a vida do pai e não é surpresa que seu alvo seja as pessoas que ele mais goste: a rainha e sua jovem amante. No final, Beowulf descobre que seu filho é igual á ele. Não só fisicamente, mas na força, no narcisismo, enfim.
Então, quem é realmente o monstro? O filho confuso ou o pai negligente? Ou então a mãe manipuladora? Mamãe monstra pode demonstrar muito apego com seus filhos, mas não pensa duas vezes em dormir com o assassino de um deles para que ganhe outro primogênito. No caso, ambos foram culpados pela má criação de seu filho.

Isso, mais uma vez reforçando que essa é a minha interpretação, demonstra o quão complicada é a relação familiar. Ela também pode ser baseada em mentiras, erros e problemas sexuais. Nosso "heróis" pessoais também são seres humanos. Podem nos decepcionar ás vezes, mas de uma forma ou de outra (seja pelo amor ou pelo ódio) nos estimulam. 
Um último ponto que gostaria de abordar é a forma como o cristianismo é tratado no filme. O personagem de John Malkovich, um fanfarrão e fofoqueiro, a todo momento aconselha que se procure ajuda na religião que está chegando naquelas paragens: o cristianismo. Anos depois, ele se torna o sacerdote local. Ao contrário do que prega a religião, ele continua tratando seu escravo terrivelmente mau, o que nos leva novamente á tal história dos vícios, desejos e mentiras.
Há também, implícito, um discurso de que a nova religiosidade teria matado a imaginação, a fantasia. E nisso aqui eu vejo o dedo de Gaiman, um conhecedor da cultura européia pagã. É mais uma alfinetada que uma crítica ás religiões ocidentais, o que já é batido. Isso porque até a própria sociedade geata retratada no filme é criticada: ora, não estamos falando de heróis e reinos que se constroem em cima de vícios e desejos jogados para debaixo do tapete? O que parece é que para os roteiristas, toda religião, toda sociedade e toda família são erigidas em cima desse tripé: vícios, desejos e mentiras.
Recomendo o filme não só pela reflexão, mas também pela ação. Essa produção funciona tanto como uma história de ação como de drama. E quanto á fotografia e a trilha sonora, estão muito boas, cada uma complementando esse ótimo roteiro. Enfim, assistam.

sábado, 29 de outubro de 2011

Pensando e repensando Javé III

Narradores de Javé (2003) também pode ser pensado como uma narrativa mítica. Não só porque muito do que é contado pelos moradores tem esse tom, mas porque o próprio rumo da história indica isso.
Javé é uma cidade fundada por pessoas á procura de terras seguras para poder viver. O que a represa faz, inundando a cidade, é retomar ao começo: novamente temos pessoas á procura de uma nova área onde, com certeza, fundarão uma nova cidade.
Essa circularidade, chamada de eterno retorno, é um dos pontos básicos do mito.O mito, já falamos aqui antes, é uma narrativa, uma tentativa de compreender o mundo. Quase sempre é utilizado como forma de legitimar uma ordem social. As histórias contadas pelos moradores podem ser vistas como tentativas de cada um se legitimar, de reclamar pra sim um status todo especial que remonta ás origens.
As origens, aqui está outro ponto interessante. Todo mito se reporta á origem, seja do mundo ou de determinada sociedade. A origem de Javé se torna mito. Seus fundadores se tornam guerreiros destemidos, bravas mulheres, cavaleiros cômicos e até mesmo líderes quilombolas. De todos os narradores, o ancião do quilombo é o que mais encarna essa dimensão mítica da fundação da cidade: ele conta a história através de elementos místicos e reais, dando especial importância para o ato de contar, tanto que decide não falar mais depois de ver a incredulidade de Biá.
Ao final, a história se repete e os javeenses tem de encontrar um novo local onde poderão contar e recontar essa história como acharem convenientes, pelo que dá a entender não só pela última fala de Zaqueu, mas pelo recomeço do bafafá sobre quem salvou o sino da igreja em torno de Antônio Biá.

terça-feira, 12 de julho de 2011

"Notícia de Falecimento: morreram todos os heróis"

Cena de O Pagador de Promessas (1962).
Um prefeito que tenta inaugurar um cemitério, mas é surpreendido com a falta da mortes em sua cidade. Um homem humilde é impedido de pagar uma promessa em uma igreja para que curasse seu único sustento (um burro) só porque fizera a promessa em um terreiro de candomblé. Duas situações bizarras, mas que revelam aspectos pouco louváveis de nosso país, como a corrupção ou a intolerância religiosa. O que tem em comum? O homem que as criou: o dramaturgo baiano Dias Gomes (1922-1999).

Dias Gomes
Dias Gomes era um dos muitos artistas brasileiros que conseguiam unir uma linguagem popular e eclética com conteúdos políticos. O Bem Amado, sua obra mais famosa, por exemplo é uma crítica á corrupção e á demagogia de nossos políticos. A plataforma de Odorico Paraguaçu é a construção de um cemitério para Sucupira. A ausência de mortes revela a incompetência de sua administração. Quantos políticos não se apoiamem obras faraônicas, ontem e hoje? O Pagador de Promessas, por sua vez, lembra nosso sincretismo religioso e a desigualdade social. Zé do Burro apenas quer pagar sua promessa, mas é barrado por um padre que não reconhece a validade de suas intenções, simbolizando a posição conservadora da Igreja diante do povo. O caso acaba virando espetáculo para os transeuntes e negócio para alguns comerciantes e aproveitadores.

Mas hoje vamos falar de outra peça sua: O Berço do Herói. Escrita em 1965 e censurada no dia de sua estréia pelo novo regime que se instalara no Brasil um ano antes. O motivo? A peça fazia troça com o brio militar. A história era simples: um expedicionário da FEB chamado Cabo Jorge é tido como um dos heróis da tomada de Monte Castelo na Itália e em cima dessa sua fama de herói sua cidade-natal constrói toda uma estrutura que se aproveita disso: desde o cacique local (Chico Manga), o prefeito, o vigário e até a dona do bordel. A cidade, inclusive, passa a se chamar Cabo Jorge e ostenta vários monumentos em sua honra. Acontece que Cabo Jorge não morreu, ele se acovardou e foi preso. Com a anistia italiana, ele volta á sua cidade natal e eis que ameaça todo o negócio construído em torno de sua fama de herói.
O que irritou os militares foi Dias Gomes admitir que um expedicionário da FEB, tido com o protótipo do herói brasileiro e do militar, poderia se acovardar. Além disso, na história há um general que apóia a conspiração de Chico Manga para sumir com Cabo Jorge e voltar ao que era antes.
Sinhozinho Malta (Lima Duarte), Viúva Porcina (Regina Duarte), Roque Santeiro (José Wilker).
Você deve estar reconhecendo a história de algum lugar, não é? Acontece que após a censura á peça e ao seu trabalho como novelista na Globo, Dias Gomes adaptou a história para a televisão e lhe deu um outro nome: Roque Santeiro. Assim, Cabo Jorge vira Roque Santeiro, Antonieta vira Viúva Porcina, Chico Manga vira Sinhozinho Malta. A novela também foi censurada e só foi exibida definitivamente em 1985, com os últimos momentos da ditadura militar.

Che Guevara por Andy Warhol.
O tema da obra é muito claro e no livro de 1965 fica mais explícito ainda com esse título estampado na contracapa: Do Heroísmo como Objeto de Comércio. Dias Gomes está criticando o aproveitamento dos mitos não só na política, como vinha fazendo o regime de então á promover eventos cívicos em homenagem aos pracinhas, á Tiradentes, etc, mas também na economia. Afinal, o capitalismo também lucra com os heróis. Como Dias Gomes diz, Cabo Jorge (o cabo), passa a ser a principal fonte de renda de Cabo Jorge (a cidade). Se formos trazer essa questão para nossa época, podemos pensar na figura de Che Guevara por exemplo. Mesmo sendo um crítico radical do capitalismo, suas camisas e tudo que fala a seu respeito dá mais lucro que a economia de Cuba.
A peça é subversiva por isso. Porque ela pretende questionar o mito do herói. Ela enxerga o herói como instrumento de alienação e de consumo. Dias Gomes era comunista, mas não simpatizava muito com a direção stalinista dos partidos de esquerda da época. Era menos radical e mais ácido. Sua crítica aos heróis pode também ser estendida aos heróis da esquerda. Afinal, o mito do herói pode ser aproveitado por qualquer ideologia: seja ela conservadora ou revolucionária. Cabe aqui, contudo, uma crítica ao dramaturgo baiano: uma de sua peças exaltava Getúlio Vargas como um herói popular, não reconhecendo dessa maneira o culto ao líder trabalhista como também um instrumento de poder e de comércio.
Luís "Lula" Inácio da Silva.
Afinal, da década de 1950, quem quisesse contar com o apoio do povo era só dizer que era afilhado político de Vargas. Temos assim o herói como plataforma política. Nas últimas eleições essa prática também foi muito utilizada: parece que dizer ser amigo de Lula ou ter lutado ao seu lado seria garantia de votos.
O fato é que não podemos escapar dos heróis. Apesar de vivermos numa sociedade moderna, complexa, ainda não nos libertamos dos mitos. Aliás, os mitos parecem ser criações naturais do ser humano. O mito,como falamos antes, é uma forma de ver o mundo que é pautada por sentimentos. Enquanto tivermos sentimentos, teremos também mitos. O herói é um dos mitos que mais nos acompanha. Não é raro nos inspirarmos em alguém por suas ações heróicas. Acredito que o objetivo de Dias Gomes não era exatamente acabar com o mito do herói, mas abrir nossos olhos para como certos grupos a utiliza. É uma forma de nos atentar para o fato de que os mitos não tem nada de ingênuos ou neutros, eles podem ser usados para os mais variados fins, basta levarmos isso em conta e saberemos onde o herói deixa de ser objeto de inspiração para ser objeto de comércio, instrumento ideológico ou plataforma política.

segunda-feira, 21 de março de 2011

As amazonas do Amazonas II

Trajeto da expedição de Francisco de Orellana.
Como dissemos anteriormente, as amazonas são parte de um imaginário construído sobre a região amazônica. Parte de um imaginário que reconhece a magnitude da natureza e a inferioridade do homem nativo, no nosso caso, da mulher nativa.
Mas os cronistas reconhecem nas amazonas a sua bravura, ferocidade e organização, como podem então elas serem inferiores? Carvajal constrói sua narrativa como um épico, tendo os conquistadores comandados por Francisco de Orellana como heróis. Se ele reconhece a "civilidade" de certas tribos e a "virilidade" de outras, como a das amazonas, elas não chegam nem perto da civilização e da força dos conquistadores.
A vitória da tripulação de 57 homens sobre um exército de índios comandados pelas mulheres guerreiras reforça essa superioridade. Essa idéia de superioridade tem profundas raízes religiosas e políticas e, de certa forma, permeou a história da colonização, seja ela hispânica ou portuguesa, chegando até nós ainda. É a "peversão da memória", como coloca o historiador Hideraldo Costa, é a sobrevivência dessa visão eurocêntrica que enxerga no homem amazônico um ser inferior.

As mulheres guerreiras do Daomé.
A historiadora Maria Izilda Santos Matos fez um estudo interessante sobre o mito das amazonas e a questão do gênero nos primeiros anos da Conquista. Apresentaremos aqui algumas de suas reflexões á seguir. Antes de tudo, a autora ressalta que a idéia de mulheres guerreiras é antiga e está presente por quase todo o Velho Mundo, seja na Grécia ou no Daomé. Essa seria, portanto, uma idéia recorrente na mentalidade mundial, de certo modo. Podemos encontrá-la até em algumas tribos amazônicas, onde se fala de um mundo primordial controlado pelas muheres, onde os homens se livraram de sua tirania através da força de um herói-reformador (Jurupari) ou capturando seus objetos sagrados (as flatuas, na lenda dos Mundurucus). Estes mitos são usados para legitimar o patriarcado.
Na cultura européia entre os séculos XVI e XVII, a situação não era muito diferente: a mulher era vista como um ser inferior, intelectualmente, sendo por isso responsável pelo lar. O mito das amazonas é construído, com base em lendas greco-romanas, ibéricas e amazônicas, de forma a incluir dentro dele um modelo ideal de homem e de mulher. Uma sociedade comandada por mulheres fortes, ricas, comandadas pelo desejo (utilizando os nativos como objeto, aliás, de seus desejos sexuais) e com uma espécie de maternidade seletiva (aceitando apenas mulheres) era uma inversão da ordem. Em parte, elas lembram muito os conquistadores (na virilidade e ganância), mas o marcante mesmo é sua completa diferença com o modelo de mulher esperado: aquela mulher que mantém sua virtude prezando sua castidade e não a promiscuidade; que não se envolve em assuntos ligados ao governo, riqueza e guerra; que ama antes de tudo seus filhos.
O mito das amazonas foi construído pelos homens para incutir na cabeça das pessoas, principalmente das mulheres, de que o seu papel era diferente daquelas mulheres guerreiras. No entanto, como todo mito construído sobre outros mitos, ele está cheio de incoerências e pode ser utilizado das mais variadas formas. Pode ser que muitas mulheres se simpatizavam com as amazonas, vendo sua sociedade como ideal, onde elas teriam mais liberdade. E, de fato, as amazonas foram utilizadas no futuro como argumento para discursos á favor das mulheres: seja como apoio ás rainhas européias no século XVIII, seja como argumento para a igualdade de cidadania entre os sexos durante a Revolução Francesa, seja como símbolo do movimento feminista no século XIX e XX.

domingo, 20 de março de 2011

As amazonas do Amazonas

Frei Gaspar de Carvajal foi o responsável por inaugurar o imaginário amazônico. Foi com seu relato da viagem (1541-1542) do espanhol Francisco de Orellana, saindo do Peru e descendo o rio até chegar ao Oceano Atlântico, que o mundo europeu recebeu as primeiras notícias sobre esse mundo maravilhoso.
Uma floresta imensa e enigmática, animais monstruosos e povos de todos os tipos de personalidade e tamanhos. Mas o mais impressionante de seu relato, com certeza, foi ter encontrado no meio do Novo Mundo o reino das poderosas guerreiras relatadas na mitologia grega: as amazonas.
Depois de meses de viagem, Orellana é encurralado no rio por várias canoas apinhadas de mulheres guerreiras e alguns homens. Flechas voam contra os barcos, acertando inclusive nosso cronista que morreria caolho.
A batalha é maciça. Depois de algumas horas, as canoas somem e as flechas param de serem atiradas. Metade da tripulação é morta. Alguns índios são feitos prisioneiros. Estes contam que são súditos das amazonas, assim como a maioria dos povos da região, e que elas possuem uma aldeia no interior da floresta cercada e composta por um imenso templo de pedra, guardado por dois felinos feitos de pedra.
O relato chegou á Espanha e deixou á todos de queixos caídos. Anos depois, seguindo a expedição do português Pedro Teixeira, o padre Cristóbal de Acuña (1638-1639) faz o mesmo trajeto e ainda procura pelas míticas amazonas. Walter Rayleigh (1617), corsário inglês, viajará ao Orinoco á procura de seu reino e até o cientista francês La Condamineau (1743-1744) se perguntará onde estão as mulheres guerreiras, assim como seu colega cientista Alexander Von Humboldt (1799-1804).
É possível que elas existiram? Se sim, o que aconteceu com elas? Muitos se dedicaram á responde essa questão. Alguns encontram na tradição tupi, as amazonas na forma das icamiabas, mulheres que não concordaram com as leis propostas pelo herói-reformador Jurupari para sujeitar á mulher ao homem.
Em muitas etnias amazônicas, a mulher tem um papel importante, substituindo o homem em certas funções como a caça e a pesca. No entanto, notícias sobre uma tribo feito somente por mulheres guerreiras ficaram restritas ao período colonial. Pesquisadores encontraram outro nome para elas: Icamiabas ou "mulheres sem maridos". Icamiaba também era o nome de um morro no Equador, mas verificou-se que ali não habitavam mulheres guerreiras.
Terá Carvajal inventado tudo isso? Essa é outra hipótese. No relato do frade aparecem menções á gigantes, assim como nos relatos posteriores também surgiram as figuras de monstros acéfalos, dragões, sereias, etc. O historiador Auxiliomar Ugarte trabalha com a hipótese de que a consciência do fabuloso e a perspectiva de explorar algo totalmente novo tenha confundido e muito seus primeiros exploradores.
Afinal, estamos falando de homens que ainda conviviam com um imaginário medieval, um imaginário fantástico. Carvajal interpreta esse novo mundo segundo o referencial de sua cultura. O historiador Antônio Porro acredita que Carvajal tenha confundido um povo, os Conduris, com as mulheres guerreiras, por causa de suas feições físicas e da região que então habitavam.

As amazonas são parte, uma das mais importantes, do imaginário construído sobre a região. Um imaginário que enxerga nessa região tão enigmática e desafiadora ora o paraíso ora o inferno. Um imaginário que se modifica com os séculos, mas que mantém um certo traço essencial: a de uma natureza exuberante convivendo com um povo "selvagem" ou "inferior".

quinta-feira, 17 de fevereiro de 2011

Sagrado e Profano

O Jardim das Delícias, Hieronymus Bosch

Segundo um dos maiores pesquisadores sobre as religiões, o romeno Mircea Eliade o homem é formado por duas dimensões: a sagrada e a profana. A profana diz respeito á vivência cotidiana, á vida mundana, enquanto o sagrado fala sobre um mundo mais abstrato e metafísico, um mundo transcendental. Sempre foi assim, hoje, a dimensão sagrada parece ter sido um pouco reduzida, mas ainda está aí.
Eliade começa a analisar o sagrado e nos apresenta aquilo que acredita serem pontos fundamentais de sua estrutura: o sagrado é um canal para interagir com uma ou umas divindades, por isso o homem sempre procura em seus rituais e orações uma volta aos primórdios, quando elas criaram o mundo, por ser um momento onde sua ação e vitalidade é muito maior.
Assim sendo o sagrado tem sua própria temporalidade: é o eterno retorno. O rito, os altares, o mito tem essa função: a de ligar o homem ao início de tudo, ás divindades, no seu dia-a-dia. Claro que tudo isso também tem uma função social:  legitimar uma ordem através de tabus e rituais.
Eu entrei em contato com esse texto durante minhas aulas de Introdução aos Estudos Históricos. O objetivo da professora (Cristiane Manique, uma das melhores professoras que tive) era nos fazer repensar o conceito de tempo. O tempo em si é uma coisa inefável, indizível, impossível de ser capturado totalmente. O que existe são tentativa de defini-lo e de medi-lo. Essas tentativas se refletem no conhecimento histórico: cada historiador tenta entender os processos históricos, tenta conferir á história um sentido e uma finalidade. E o que a professora nos fez ver é que isso não é privilégio somente dos historiadores. O mito e a religião são uma forma de conhecimento, embora por anos tenhamos os desprezados por não terem uma "cientificidade". São uma forma de conhecimento e, em certos casos, uma filosofia da história também. Filosofia da História é toda tentativa de ver a história além dos acontecimentos, encontrar um nexo entre os diversos fatos, encontrar estruturas ou outra forma de totalidade. Assim, sendo uma religião pode ser uma filosofia da História pois ela confere á todos os fatos a vontade das divindades. O Cristianismo é uma das "filosofias da História" com quem mais os filósofos dialogaram, seja atacando ou acatando os desígnios da Providência na história. A filosofia da História, no ocidente, se "profaniza" com os iluministas, principalmente Voltaire, e desde então temos aí o idealismo, o materialismo histórico, o historicismo e por aí vai.
Como podemos ver, a história,. como a nossa própria vida, também está entre o sagrado e o profano.

quinta-feira, 29 de abril de 2010

O mito

Ainda naquela nossa tentativa de entender o conhecimento, hoje passamos para um dos modos de conhecer mais famosos da humanidade: o mito.
O mito é a primeira tentativa de entender o mundo, no entanto, sua função não é só essa. O mito dá uma certa segurança para o ser humano na medida em que confere ao mundo um sentido e a possibilidade de manipular os fenômenos da natureza (a magia). O mito também serve como legitimador da ordem social, criando explicações para certas práticas e tabus.
Podemos pensar que o mito acabou com os gregos ou com os índios, mas estamos muito enganados. Ainda existem mitos na tv, na literatura e na própria vida cotidiana. Ao contrário do que o iluminismo e o cientificismo do século XIX nos fizeram acreditar, o mito não está ligado á sociedade primitivas. O mito, sabemos hoje graças ao esforço de muitos pesquisadores e pensadores, é uma dimensão da própria alma do homem, sendo, portanto, existente em todos os tipos de cultura e em todos os momentos da história.