Mostrando postagens com marcador Gênero. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador Gênero. Mostrar todas as postagens

sábado, 16 de julho de 2011

Santa Tolerância!

Na última Parada do Orgulho LGBT em São Paulo causou polêmica as imagens promovidas pela nova campanha do movimento. Nessas imagens apareciam modelos musculosos e seminus representando santos. As imagens eram acompanhadas de frases como "Nem santo salva da Aids". O presidente da parada, Ideraldo Beltrame, disse que o objetivo da polêmica campanha era demonstrar que a doença atinge qualquer tipo de pessoa, independente de sua religião. O arcebispo de São Paulo, Dom Odílio Scherer, disse que um comportamento correto pode sim salvar as pessoas da Aids e que as imagens atacaram diretamente a religião católica, já que são imagens sagradas. "Quem deseja ser respeitado também tem de respeitar", concluiu o arcebispo.
Não sou católico, mas concordo em parte com Dom Odílio. Uma das maiores conquistas que tivemos nesses últimos anos no Brasil foi a liberdade. Não a liberdade total, pois ela é um mito. Mas algo certamente muito melhor do que se dizia ser liberdade nos anos de chumbo. A garantia da liberdade deve vir acompanhada com a garantia de respeito. É um príncipio que segue o velho ditado: a sua liberdade termina onde a do outro começa. É um princípio básico para a vida em comunidade e para a democracia.
O individualismo, de uns tempos pra cá, tem se aproveitado do direito á liberdade em detrimento do direito ao respeito. E o individualismo parece ter atingido a maioria das pessoas ou dos movimentos sociais.
Una-se ao individualismo uma moda: a do politicamente correto. A luta pelos direitos humanos que começou no século passado chegou ao novo milênio como o símbolo da pessoa consciente ou do rebelde com causa. Embora hoje se rejeite um pouco o posicionamento político, engrandece-se quem luta pelos direitos de certo segmento da sociedade, seja ele quem for.
Qual o problema? Temos um punhado de organizações e movimentos que não conseguem se unir para lutar pelos seus direitos, as manifestações ficaram mais fragmentadas. Além disso, estes movimentos abrigam pessoas que desonram as bandeiras dignas porque lutam, pessoas que entram no movimento simplesmente pela moda e não pela causa realmente. O que acontece? A sociedade se radicaliza. Por um lado é até interessante esse conflito, pois ele permite que discutamos coisas que não discutiríamos em público. Por outro é negativo, uma vez que tende a rotular as pessoas, ele simplica demais o que impede realmente uma conscientização.
Tomemos essa campanha como exemplo. O objetivo era conscientizar do risco da Aids, no entanto acabou descambando para o ataque á um grupo conservador que não valida essas manifestações. Alguns dias antes Miriam Rios tinha desqualificado o homossexualismo e a Marcha com Deus tinha batido nessa mesma tecla. Vejo essa campanha como uma espécie de retaliação. As imagens subvertem uma esfera muito importante na vida de muita gente: a religião. E justamente num momento delicado onde vivemos entre debates e manifestações de violência. Isso pode gerar mais manifestações de ódio. Como disse, é a rotulação e a radicalização em marcha.

Devemos lembrar dos dois princípios essenciais para a democracia, um dos regimes nos quais os direitos humanos são menos inutilizados: o direito á liberdade e o direito ao respeito. Tolerância é a palavra certa. É difícil numa democracia não chocarmos nossa liberdade com a liberdade do próximo, mas devemos pelo menos tentar. Até agora tenho visto isso acontecer raramente em nosso país. O respeito não tem sido praticado por ambos os lados do jogo.

segunda-feira, 11 de julho de 2011

A mulher da Belle Epóque: dos palacetes aos seringais

Chafariz onde hoje atualmente fica a Bola do Eldorado.
Recentemente, a época do boom da borracha tem sido alvo de um olhar mais alternativo pelos historiadores. Agora procura-se não mais se contentar com as grandes obras arquitetônicas ou com os elogios para com a riqueza trazida pela borracha. Agora podemos ver não só os "coronéis de barranco" desfrutando do seu dinheiro na Belle Epóque, mas também os trabalhadores, os miseráveis. Em suma, o outro lado da Paris dos Trópicos. Um lado que ninguém queria que o mundo visse, mas que está sendo visto agora pelos historiadores.
Dentro dos trabalhos que relativizam a idéia de uma "era dourada" se encontram alguns que tentam recuperar o papel da mulher nessa época. Márcio Souza, em A Expressão Amazonense, dera uma pista ao dizer que a mulher, durante o fausto, passou a ser vista mais do que nunca como um objeto: um objeto de status, quando o coronel de barranco estava em casa, e um objeto de prazer, quando o mesmo estava num bordel de luxo. Coube aos historiadores que viriam a seguir se aprofundar nesse tema.

Salão, Otto Dix.
Edinéia Mascarenhas lembra que a prostituição era um dos alvos das políticas urbanas; ela devia ser não exterminada, mas melhor encoberta. José Leno Barata Souza, que se dedicou melhor á questão da prostituição, lembra a hipocrisia da sociedade manauara: a protistuição era perseguida pelas figuras públicas e homens de família que prezavam pela moral e os bons costumes, que criavam leis para regular a profissão mais antiga do mundo, mas esses mesmos homens de família visitavam constantemente os bordéis e cabarés.
Mangue, Di Cavalcanti.
Maria Luiza Ugarte lembra a associação entre estivadores e prostituitas: as ruas próximas do porto eram o local por excelência do baixo meretrício, enquanto algumas quadras acima estavam os luxuosos cabaréis. A marginalização unia estivadores e prostitutas e era manifestada principalmente no traçado urbano.Leno Barata tenta demonstrar como as prostitutas tentavam não apenas sobreviver com essa profissão, mas encontrar maneiras de atacar o sistema que as marginalizava e as via como criminosas. Há casos de muitas que decidiam colocar a boca no trombone ou usar seus segredos como chantagem.
Goulue e duas mulheres, Toulouse-Latrec.
E as mulheres de família? Ainda há poucos estudos sobre as "grandes damas" da sociedade manauara, não se sabe se por falta de fontes (muitas delas serem de fundos particulares também atrapalha um bocado as pesquisas em alguns casos) ou de simpatia pela questão (afinal temos que lembrar que no momento a história vista por baixo é quase uma moda historiográfica hoje). O que podemos dizer é que não era de se esperar que numa sociedade machista e gananciosa da época elas também não fossem marginalizadas, apesar de estarem constantemente sobre os holofotes, sejam nas cerimônias oficiais ou nos bailes da elite manauara.
Mademoiselle Marcelle Lender, Toulouse-Latrec.
No entanto, elas tinham uma posição, certamente melhor que as prostitutas (mais recursos), mas deviam obedecer á um código de conduta do que se entendia ser a mulher perfeita: aquela totalmente devota á sua família e á sua religião. Um código de conduta que remonta ás origens coloniais (ibéricas) de nosso país. No entanto, muitas não se contentaram em se resignar e começaram a se sobressair. No Amazonas, apesar das ações de práxis como organizar saraus, chás e praticar a caridade, muitas mulheres se movimentaram, por exemplo, na campanha abolicionista. A poetisa Emília de Freitas, embora fosse cearense (morou em Manaus de 1892 á 1900 quando se casou com um jornalista do Jornal de Fortaleza e voltou ao seu estado-natal. Com a morte do marido retornou a Manaus onde veio a falecer em 1908), teve um papel importante aqui ao lado de sociedades emancipacionistas femininas, e ainda criticava e muito o machismo.
Há, contudo, muitas outras ocasiões em que as mulheres não aceitam totalmente o papel que esse código de conduta lhes impunha, inclusive situações menos divulgadas e mais particulares. É a resistência implícita, mais silenciosa, mas nem por isso menos engenhosa ou forte, que uma boa pesquisa ainda falta revelar. Afinal, era capaz que uma mulher conseguisse estabelecer suas próprias regras do jogo sem que isso vazasse para o âmbito do público. Há casos e casos, só faltam ser revelados á luz de uma boa pesquisa como disse antes.
Favela, Cândido Portinari.
A Manaus marginalizada, a Manaus das classes pobres, também não devia fugir ao ideal machista que imperava em nossa sociedade, embora aqui, por conta da situação precária, ela tivesse seu protagonismo mais visível, uma vez que compartilhava a obrigação de sustentar a família, seja trabalhando por ela ou cuidando dela. Existe um local onde a presença feminina, contudo, é muito menor: os seringais.
Nos seringais era produzida a borracha, o "ouro negro", que sustentava todo o fausto ou que se pensava ser um "fausto". Nos seringais a presença masculina era maior, porque o que se procurava era mão-de-obra adequada. Trazer a família dos seringueiros era um custo muito alto para o seringalista. Arthur Cézar Ferreira Reis lembra que exatamente por essa ausência a mulher era altamente cobiçada nos seringais a ponto de ser tratada como uma mercadoria: há casos de seringueiros que dão toda sua economia ao seu patrão para que ele trouxesse uma mulher para eles. Mulheres que eram conseguidas geralmente no baixo meretrício da capítal.

Mulata com flores, Di Cavalcanti.
Muitos criticavam essa atitude e propunham que o seringalista financiasse a vinda da família de seus empregados ou pelo menos incentivasse casamentos. Associavam inclusive a situação precária e animalesca dos seringais á ausência da mulher, reconhecida tanto pela religião (principalmente católica) quanto por doutrinas laicas (o positivismo, por exemplo, acreditava que a mulher era essencial para estabilizar a sociedade, pois ela impunha ordem e transmitia amor á família) como elemento de ordem, de civilização. É um papel fundamental que surge no século XIX, mas sempre associado á esfera do privado e nunca do público (o poder era visto como algo essencialmente masculino, enquanto as formas de poder alternativo eram vistas como eminentemente femininas, assim para se ter uma boa sociedade ambos devem estar funcionando em harmonia, mas mesmo assim se dá mais ênfase ao poder público; mais informações: leia esse post ).
Esperamos assim ter feito uma boa apresentação da questão de gênero no Amazonas do boom da borracha.

sábado, 14 de maio de 2011

Casoys e Bolsonaros

Jair Bolsonaro (PP-RJ).
Tem causado polêmica as opiniões do deputado estadual do Rio de Janeiro Jair Bolsonaro desde que ele concedeu uma entrevista ao CQC há mais de um mês. Defendendo os tempos da ditadura, associando promiscuidade á cor da pele ou o homesseuxalismo á falta de moral e educação, Bolsonaro se tornou assunto de muitos jornais. Apesar de vários pedidos de cassação ele se manteve no cargo.
Apesar dos seus comentários absurdos, Bolsonaro pelo menos manifesta seu preconceito ao vivo e á cores. Muito me preocupa outros colegas dele no governo ou mesmo líderes civis dito liberais que estão cheios de preconceitos do tipo, mas escondem sobre uma capa de polidez e esclarecimento. Coisa de um ano atrás, o jornalista Boris Casoy degradou a profissão de lixeiro, sem saber que ainda estava ao vivo. Apesar de pedidos, Casoy continuou apresentando o jornal após se retratar.

Boris Casoy
O brasileiro é assim: acha que não tem preconceito. Essa é uma construção ideológica muito antiga e já foi mais do que estudada pelos sociólogos e historiadores - o mito da democracia racial e da cordialidade já foi demolido. Demolidos, mas continuam vivos. Interessante como membros de uma dita classe esclarecida conseguem ser arrogantes e ignorantes. Interessante como de uns tempos para cá fomos tomados por uma onda do politicamente correto que na realidade não passa de hipocrisia.
Projetos que dizem defender as minorias tem uma clara intenção de conquistar mais eleitores, de manipular a opinião pública. Por um lado, eles se demonstram bastante produtivos, uma vez que assuntos que antes não podia nem se mencionar agora são debatidos em público, como a questão racial ou mesmo a sexualidade. Ora, a polêmica serve assim para o verdadeiro esclarecimento. Democracia é debate. Por um outro lado, estes projetos ajudam a radicalizar a sociedade. Não estou aqui defendendo a paz social como muitos conservadores e até populistas fazem. Pelo contrário, a sociedade que pretende ser democrática não pode ter medo de conflitos. O que quero dizer é que cada vez mais as pessoas passam a ser rotuladas segundo critérios simplistas demais.
Voltando á vaca fria: Bolsonaro, contudo, tornou-se o porta-voz dos conservadores. Mais uma estratégia política (ou melhor, de politicagem) que uma questão de ideal, na minha opinião. Nas próximas eleições, podem estar certo, o lema de Bolsonaro será o "novo herói da família brasileira". É o velho caso dos nossos representantes que não nos representam, só nos manipulam, mas essa é outra história.
A bolada da vez tem sido o projeto de lei que prevê uma série de medidas para acabar com a homofobia. Entre uma das medidas está uma pequena cartilha que será distribuida nas escolas que apresentará aos alunos o tema da homossexualidade. Qual o objetivo dessa medida? Começar o esclarecimento e o sentimento de respeito sobre o homossexualismo nas escolas, através da educação. Qual o mérito dessa medida, na minha opinião? Nenhum. Ao contrário do que defende Bolsonaro isso não vai transformar nossos jovens em homossexuais e ao contrário do que acreditam os defensores da medida ela não vai conscientizar nossa juventude. Pelo simples fato de que nossa educação está falida. Qualquer tentativa de conscientizar o povo sobre alguma coisa deve passar pela educação e numa educação falida o resultado claramente será nulo.
Um exemplo: há alguns anos lançaram uma cartilha contra o racismo. O simples fato de não enxergarmos na mídia tantas referências ao preconceito racial (sejam nas manchetes como na fala dos funcionários desse meio) significa que o racismo diminuiu ou que ele apenas anda escondido. A onda do politicamente correto produz essa internalização dos preconceitos. A conscientização não vêem com uma cartilha apenas, ela tem de ser feita com todo um acompanhamento da mídia, dos professores e da família, principalmente. Nesse sentido, todos deixam a desejar: a mídia se preocupa mais em atacar que discutir, os professores não estão preparados com o baixo salário e a alta carga de trabalho e as famílias simplesmente não se pronunciam sobre o assunto, por arrogância, preguiça ou indiferença.

Sem um real trabalho de conscientização (que passa pelo ensino e pela discussão) continuaremos nessa situação empobrecedora. Nós estamos falando de questões importantes com uma maturidade e sensatez incrível. Rotulamos e atacamos, seja quem for. Essa é a radicalização de que falava. É algo tremendamente superficial que não contribui muito para a democracia. O que estamos precisando é de nos despir de nossas armas e sentarmos para debatermos questões como a de gênero, respeitando nossos partidários e adversários. Também precisamos agir: cobrar mudanças no sistema educacional, mas não só pressionar. Precisamos apresentar propostas e fazer o papel de fiscal constante da educação se não em nossa comunidade pelo menos em nossa família. A construção do respeito passa pela escola, disso todo mundo sabe, mas não somente por ela. A educação não se restringe aos muros da escola e quando se trata de cada um fazer sua parte pela educação de uma forma geral é aí que começa o problema.

sábado, 30 de abril de 2011

Agora é que são elas

A Amante, Edda van Marschen.
Hoje vamos refletir um pouco sobre um texto da historiadora Michelle Perrot presente em seu livro Excluídos da História que trata sobre a relação de gêneros e o poder político. O título não poderia ser mais objetivo: As mulheres, o poder, a história.
A autora escolheu muito bem as palavras no título e nessa questão as palavras tem um peso enorme, como alerta no começo do artigo. Poder no singular é o símbolo da figura central do Estado, enquanto no plural é entendido como pequenas formas de poder dentro da sociedade civil. O que as mulheres têm a ver com essa semântica? Ora, muitos historiadores e antropólogos atuais tentam demonstrar através de suas pesquisas que as mulheres não tinham o poder, mas os poderes. Aliás, os poderes podem ser mais influentes que o poder.
Essa conclusão, no entanto, tem seus perigos: ela pode ser utilizada pelo anti-feminismo como argumento. "Ora, se elas tem o poder de fato o que querem afinal?" E de fato, foi utilizada. Perrot analisará brevemente como é criado no século XIX um discurso onde a mulher é encarregada do espaço privado e o homem do poder público. Já havia antes a idéia de que a mulher tinha um poder considerável sobre o homem, seja para o bem ou para o mal. Isso pode ser observado na imagem da mulher fatal, conservada pelos românticos, e da mulher enquanto mãe, responsável pelos destinos da Humanidade.
Seja como for, a mulher atuava nos bastidores. A marginalização da mulher é algo estrutural na sociedade ocidental, o que muda são apenas os pretextos e no século XIX o principal deles é de que a mulher não estava preparada para o poder, seja porque era governada pelas emoções ou porque ao tentar conquistar o poder estariam pevertendo o equilíbrio dos sexos.
Essa magrinalização ganha uma nova dimensão no século XIX quando dois conceitos são redefinidos: o público e o privado. Muito já se falou sobre ambos, mas o que Perrot quer nos apontar é que ao homem será reservado o poder público político, enquanto a mulher tem de se contentar com o poder familiar e privado. O conceito de mãe e dona-de-casa é resgatado e saturado.
Essa ideologia ofusca nosso olhar para o passado e para o presente: as pesquisas históricas agora demonstram o peso das mulheres na indústria têxtil e nas agitações de rua na França do século retrasado por exemplo - embora, lembre a autora, não seja possível faze rum quadro geral de como os sexos se relacionaram, afinal cada região tem sua especificidade. E no presente? Hoje ainda há aquela idéia de que a luta da mulher não deve se concentra no poder político, mas no social, numa espécie de ante-sala do pdoer público e político. E com isso o movimento feminista estaria repetindo um falso paradigma criado há dois séculos atrás.

domingo, 24 de abril de 2011

Uma história sobre duas "surrealistas"

A Caravela, Salvador Dali.
O surrealismo é um movimento artístico que surgiu na França na década de 1920. Como um espécie de reação ao racionalismo que, segundo muitos, tinha provocado a Primeira Guerra Mundial, os surrealistas se amparavam na psicanálise (principalmente de Freud) e elegiam como o principal objeto de sua arte o inconsciente, essa parte de nossa mente que guarda impulsos, instintos e lógicas desconexas.

André Breton
O Manifesto Surrealista de 1924 é considerado a sua certidão de nascimento. Assinado pelo poeta André Breton que nele declara o seu amor pela imaginação ("Imaginação querida, o que sobretudo amo em ti é não perdoares".) e a sua aposta sem receio nela ("Não é o medo da loucura que nos vai obrigar a hastear a meio-pau a bandeira da imaginação".)
O surrealismo, como boa parte das vanguardas artísticas que surgiram no começo do século passado, contestava o conceito de arte: a arte não é só aquilo que vêem das mãos de um virtuose na academia, existem artistas anônimos também. Assim, eles se concentram em aspectos mais primitivos, em algo dedicado á conceitos e não mais representações de imagens, por exemplo.
Breton, por exemplo, tentava libertar seu inconsciente através da escrita automática. O que viesse na cabeça ele escrevia. Salvador Dali escrevia seus sonhos para depois torná-los pinturas. Os surrealistas procuravam libertar a imaginação, valorizavam o inconsciente, mas não se desligavam tanto assim da realidade. Muitas de suas obras iam contra aquilo que chamamos de "a moral e os bons costumes", com suas imagens carregadas de sensualidade e de dessacralização (talvez o melhor exemplo seja Simão do Deserto, filme de Luís Buñuel).

Tróstky, Rivera e Breton em 1937.
Quando Breton visitou o pintor muralista Diego Rivera no México e encontrou na sua casa o líder bolchevique Leon Tróstky resolveu fazer uma espécie de manifesto, demonstrando que o movimento surrealista tinha um comprometimento com a liberdade e com a revolução. Trostky representava a dissidência do stalinismo, do regime totalitário que a União Soviética havia se tornado.
Na mesma visita, o poeta francês conheceu a cultura mexicana e a mulher de Rivera, Frida Kahlo. É sobre ela e uma outra pintora, dita surrealista, que falaremos aqui hoje.

Frida Kahlo
Frida Kahlo era uma mulher marcada por muita dor e angústia. Primeiro, aos seis anos contraiu poliomelite o que fez uma de suas pernas enrijecer demais. Com dezoito anos, e já tendo aulas de pintura, sofre um acidente: o trem em que viajava se choca com um bonde e as ferragens penetram em sua perna e em sua genitália. Ela dizia que com os anos, a dor retornava diversas e diversas vezes, principalmente por não poder mais ter filhos.

Frida e Rivera
Mas ela também foi uma mulher dedicada ao amor. Frida conheceu o pintor muralista nas reuniões do Partido Comunista Mexicano, na década de 1920, e se apaixona. Mesmo ele sendo mais velho, Rivera foi o amor de sua vida. Ambos tiveram uma relação tempestuosa: Kahlo era bissexual e tinha casos com outras mulheres, o que era aceitado por Rivera, e este tinha caso com outras mulheres, uma delas a irmã de Frida, o que causou, aliás, a sua separação.
Em 1940, ambos retornam, mas os casos extraconjugais e as brigas de ambos continuam. Frida falece em 1954 de pneumonia, mas o caráter de sua morte ainda é controverso: alguns apostam em suícidio e outros em assassinato por parte de uma das amantes de Rivera.
A vida de Frida é essencial para entendermos sua obra, pois sua obra é sua vida, literalmente. Os desenhos feitos por Frida retratam seus sentimentos sobre determinados períodos de sua vida. Suas pinturas são quase um diário íntimo. Por isso ela recusou o título de surrealista: "Nunca pintei sonhos. Pintava a minha própria realidade".
Nós podemos ver isso nos quadros a seguir:

Sem Esperança
Sem Esperança, por exemplo, representa o momento de depressão em que a pintora vivia com as constantes dores do acidente que sofreu. Mesmo sentimento pode ser percebido no filho que não pode ter por causa de seu acidente:
Hospital Henry Ford.
Aí vemos o filho que não veio, a bacia fraturada, o hímen perdido e uma flor murcha: nada poderia ser mais objetivo, nada poderia traduzir melhor o que ela sentia.
Nesse quadro, chamado Auto-Retrato em Tijuana com Diego em meus Pensamentos, Frida aparece vestida com trajes brancos simbolizando a pureza e com um pequeno arranjo de flores sobre a cabeça - ambos são elementos típicos da cultura e do folclore mexicano, do qual ela se aproveitava constantemente. E vemos o seu grande amor em sua testa, representando esse homem que não saía da sua cabeça.
A obra de Frida é fácil de ser decifrada e é interessante por nos dar um vislumbre da vida de uma pessoa, dessa artista, através da arte.

Raquel Forner
Agora, falemos da outra pintora - parece um desrespeito aliás essa frase: "outra pintora". Como se o talento de Frida apagasse o talento da argentina Raquel Forner (1902-1988). Mas Frida ainda é uma das maiores artistas da América Latina pelos motivos que expus aqui acima. Raquel Forner é pouco conhecida do público brasileiro (o Brasil continua ensimesmado, como se não fosse parte da América Latina, e com essa ignorância perdemos muito), mas é uma das maiores pintoras argentina, tanto no campo do surrealismo como do expressionismo.
Aliás, Raquel, formada na Academia Nacional de Belas Artes de Buenos Aires e casada com o escultor Alfredo Bigatti, também recusava o título de surrealista e dizia ser mais simpática ao expressionismo. Embora tenha explorado um pouco o surrealismo, produzindo telas primitivas e oníricas, Raquel se dedicou basicamente á uma arte cheia de um simbolismo acessível, uma arte que traduzia e expressava sentimentos e opiniões através de signos conhecidos.

A Torre de Babel
Em A Torre de Babel, por exemplo, vemos alguns rostos femininos chorando ou sendo escondidos com uma lona por pequenos homens que parecem talhar essa pedra bruta onde eles se localizam. Ora, essa é uma alegoria sobre a condição feminina numa sociedade profundamente machista. Ali, a mulher é construída, talhada, pelo homem e com isso sofre e é marginalizada.
O Segredo
Já na tela acima, uma mulher aparece sendo consolada por uma figura misteriosa. Essa figura misteriosa, coberta com os pedaços de tecido pendurados, é o segredo. Alguns dizem que esse segredo simboliza adultério, mas pode ser algo mais simples, qualquer tipo de segredo íntimo ao qual nos amparamos.
Uma das minhas telas preferidas de Raquel é justamente essa abaixo, pois ela consegue resumir um, no dizer de Drummond, um tempo partido, de homens partidos.
A Caída.
Raquel era comunista e vivia numa sociedade muito simpática ao fascimo, afinal a Argentina na década de 1930 era marcada por golpes militares e uma onda conservadora e autoritária na sociedade civil. Por isso a obra de Forner tem muito de trágico, ela é uma voz contra o mundo obscuro, machista e conservador em que vivia. A Caída, por sua vez, reflete o clima de acirramento da política, com o começo da Segunda Guerra Mundial. Forner vê um mundo em ruínas, do qual surgem duas mãos (não sei se em sinal de socorro ou de resignação) com feridas sangrando (seriam chagas, estigmas?), um céu de bombardeio, um homem enforcado, uma mulher chorando e, em primeiro plano, ao lado de um tronco morto, a figura da morte. Esse não é o melhor dos mundos, mas era o que ela vivia naquela época.

Esse texto não é um ensaio crítico artístico - você pode perceber isso nos muitos campos que eu deixei de explorar nos quadros, os demais signos aparentes - , mas apenas uma introdução á arte na América Latina. Começamos falando do surrealismo, mas acabamos falando de duas pintoras que não se consideravam surrealistas: ambas possuem uma obra muito existencial, que denuncia a condição e a vida dessas duas mulheres - seja através da pintura "mexicanizada" ou pelo expressionismo. Por que foram enquadradas como surrealistas então? Porque os papas do surrealismo consideravam a arte na América Latina surrealista. Isso é um grande equívoco: a arte latino-americana não é absurda como queriam eles, mas rica e diferente. Claro, a cultura mexicana, contemplada por Breton, era um material rico para o surrealismo com sua visão mágica do mundo e seu culto á morte, mas ela não era surrealista. Para os mexicanos, não há nada mais natural. Essas definições foram, portanto, fruto de uma certa incompreensão da cultura latino-americana, uma gota de etnocentrismo.
A grande lição que espero trazer com esse texto é que a arte latino-americana é rica, plural e provocadora. Podemos perceber sua riqueza através das duas artistas que falamos aqui, mas existem muitas e muitos mais dos quais gostaríamos de falar aqui, mas, por conta do espaço e do tempo, deixaremos para outra ocasião.

segunda-feira, 21 de março de 2011

As amazonas do Amazonas II

Trajeto da expedição de Francisco de Orellana.
Como dissemos anteriormente, as amazonas são parte de um imaginário construído sobre a região amazônica. Parte de um imaginário que reconhece a magnitude da natureza e a inferioridade do homem nativo, no nosso caso, da mulher nativa.
Mas os cronistas reconhecem nas amazonas a sua bravura, ferocidade e organização, como podem então elas serem inferiores? Carvajal constrói sua narrativa como um épico, tendo os conquistadores comandados por Francisco de Orellana como heróis. Se ele reconhece a "civilidade" de certas tribos e a "virilidade" de outras, como a das amazonas, elas não chegam nem perto da civilização e da força dos conquistadores.
A vitória da tripulação de 57 homens sobre um exército de índios comandados pelas mulheres guerreiras reforça essa superioridade. Essa idéia de superioridade tem profundas raízes religiosas e políticas e, de certa forma, permeou a história da colonização, seja ela hispânica ou portuguesa, chegando até nós ainda. É a "peversão da memória", como coloca o historiador Hideraldo Costa, é a sobrevivência dessa visão eurocêntrica que enxerga no homem amazônico um ser inferior.

As mulheres guerreiras do Daomé.
A historiadora Maria Izilda Santos Matos fez um estudo interessante sobre o mito das amazonas e a questão do gênero nos primeiros anos da Conquista. Apresentaremos aqui algumas de suas reflexões á seguir. Antes de tudo, a autora ressalta que a idéia de mulheres guerreiras é antiga e está presente por quase todo o Velho Mundo, seja na Grécia ou no Daomé. Essa seria, portanto, uma idéia recorrente na mentalidade mundial, de certo modo. Podemos encontrá-la até em algumas tribos amazônicas, onde se fala de um mundo primordial controlado pelas muheres, onde os homens se livraram de sua tirania através da força de um herói-reformador (Jurupari) ou capturando seus objetos sagrados (as flatuas, na lenda dos Mundurucus). Estes mitos são usados para legitimar o patriarcado.
Na cultura européia entre os séculos XVI e XVII, a situação não era muito diferente: a mulher era vista como um ser inferior, intelectualmente, sendo por isso responsável pelo lar. O mito das amazonas é construído, com base em lendas greco-romanas, ibéricas e amazônicas, de forma a incluir dentro dele um modelo ideal de homem e de mulher. Uma sociedade comandada por mulheres fortes, ricas, comandadas pelo desejo (utilizando os nativos como objeto, aliás, de seus desejos sexuais) e com uma espécie de maternidade seletiva (aceitando apenas mulheres) era uma inversão da ordem. Em parte, elas lembram muito os conquistadores (na virilidade e ganância), mas o marcante mesmo é sua completa diferença com o modelo de mulher esperado: aquela mulher que mantém sua virtude prezando sua castidade e não a promiscuidade; que não se envolve em assuntos ligados ao governo, riqueza e guerra; que ama antes de tudo seus filhos.
O mito das amazonas foi construído pelos homens para incutir na cabeça das pessoas, principalmente das mulheres, de que o seu papel era diferente daquelas mulheres guerreiras. No entanto, como todo mito construído sobre outros mitos, ele está cheio de incoerências e pode ser utilizado das mais variadas formas. Pode ser que muitas mulheres se simpatizavam com as amazonas, vendo sua sociedade como ideal, onde elas teriam mais liberdade. E, de fato, as amazonas foram utilizadas no futuro como argumento para discursos á favor das mulheres: seja como apoio ás rainhas européias no século XVIII, seja como argumento para a igualdade de cidadania entre os sexos durante a Revolução Francesa, seja como símbolo do movimento feminista no século XIX e XX.