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sexta-feira, 15 de janeiro de 2016

Tchau, Alfredo

Na rodoviária o espaço-tempo toma uma forma estranha. Estava esperando meu ônibus quando uma senhora bem idosa puxa assunto e fala que precisa de qualquer jeito ir para São Francisco de Itabopoana.
-Ele tá demorando muito a chegar.
-Qual o horário dele?
-10h30.
-Senhora, já são 12h20.
-Ah, isso é o horário de verão, Alfredo (ela me chamava assim).
Depois de convencê-la a se informar com o pessoal da Macaense, ela volta mais disposta:
-É que ele sai de lá 10h30 e chega aqui 12h30.
De repente, ela encontra uma amiga:
-Tu acredita que eu e o meu neto (apontando para mim) estamos aqui esperando desde 8h?
Chega o ônibus para Niterói:
-Esse que vai pra Itabopoana?
-Não, esse é Niterói.
-Tem certeza, Alfredo?
-Tenho.
Chega o ônibus para Cabo Frio:
-Motorista, será que você pode desviar o caminho só um pouquinho? É que eu e o meu marido (apontando para mim) estamos muito atrasados.
Chega o ônibus para Itabopoana:
-Tchau, Alfredo. Mande lembranças ao papai.
-Tchau. Mando sim.
E assim eu fui irmão, marido e neto de uma senhora em menos de 50 minutos.

segunda-feira, 11 de janeiro de 2016

O despertar do mimi



Até outro dia estávamos em 2015. Em dezembro de 2015. E o burburinho todo, ao menos nas redes sociais, era sobre o novo filme da saga Star Wars.
Aliás, que acompanhou as notícias sobre a produção até aqui sem se tornar um chato merece uma medalha, porque ô gente para reclamar. Sério! O primeiro mimimi foi sobre termos um stormtrooper negro no filme ("ah, não pode porque eles são todos clones do Boba Fett e num-sei-o-quê..."). O segundo foi sobre o sabre de luz do vilão Kylo Ren (Adam Driver) ter braçadeiras de plasma (eu acho que aquilo é plasma). Sério! Até sobre o maldito sabre de luz esses "fãs" reclamam!
O que consagrou Star Wars como uma saga fantástica (e por isso muitos a classificam não como uma história de ficção científica, mas de fantasia) é a capacidade de burlar regras: máquinas que sentem medo e paixão como C3PO e R2D2, monges usando espadas incandescentes, explosões no espaço, toda essa salada de elementos, muitos não comprovados cientificamente (como as explosões no espaço), nos fez amar Star Wars.
E as informações sobre a saga foram sendo reinventadas ao longo dos anos. Num livro chamado Como Star Wars Conquistou o Universo, o autor, o jornalista Chris Taylor, demonstra como George Lucas só pensou em definir Darth vader como pai do Luke enquanto escrevia o roteiro do segundo filme da trilogia original. Ou seja, ele foi levando o enredo meio que nas coxas. Então por que estamos tão preocupados em defender cânones de uma história tão flexível?
Sinceramente, quero ser surpreendido. Não quero ver mais do mesmo. Talvez por isso não tenha gostado tanto do Despertar da Força. É muita referência a Uma Nova Esperança. Mas ao menos eles oferecem boas respostas sobre quem são os stormtroopers (e porque os clones não são usados sempre). Ou seja, mais uma vez reinventaram a saga e isso é ótimo.
O "fanboy" ortodoxo que caga regra e condena qualquer novidade que se apresenta pode estar mais próximo do universo de Star Wars do que se imagina: infelizmente, mais para o lado negro da Força do que de outra coisa.

____________
E sobre o sabre do Kylo Ren, fiquem com esse vídeo:


quinta-feira, 6 de março de 2014

Igarapé do fim do mundo


"Vamos para Presidente Figueiredo nesse domingo?" Vamos. A ideia era ir até Balbina. Saímos umas nove horas da matina. A reta esburacada que seguíamos prometia mais vinte quilômetros de nada. Já havia passado de meio dia e, portanto, nossos estômagos ladravam constantemente. Certo de que chegaríamos em Balbina logo, desprezamos alguns bons restaurantes de beira de estrada.
“Berro d’água”, dizia a placa, “pousada e [o mais importante] restaurante”. Cinco reais por pessoa. Não pensamos duas vezes. Dobramos à direita naquele portão entre dois coqueiros.

-Meu amigo, o restaurante ainda tá funcionando?
O senhor que protegia a entrada feito um gárgula disse: só descer...
Descemos. O caminho começa a ficar estreito. Continuamos descendo. A mata vai ficando fechada. Ainda descendo. Aparecem mil buracos. Descemos mais um pouco. As curvas aumentam. 
Cantávamos aquela música do Tim Maia sobre guaraná, suco de caju, sobremesa.
Mas já havíamos andado um bom pedaço de chão. As casas da pousada eram mera lembrança agora. A atual realidade era o mato. De todos os lados.
A cada solavanco Ricardo soltava um sonoro palavrão recheado de angústia. Bem, eu fingia estar calmo roendo minhas unhas. Décio, crente de que algum animal nos seguia, vigiava a mata ao nosso redor. Será uma onça?
-Cara, a gente tá no carro! Relaxa! Onça não pega carro!
-É, pega ônibus.

O humor do Ricardo como sempre reconfortante.
E depois de quase uma hora de muita tensão e fome avistamos o restaurante! Lacrimejei de emoção. Descendo mais um pouco, um igarapé maravilhoso. Aquelas águas negras convidativas. E em suas margens, aquelas cabocas mais convidativas ainda. Ricardo foi lá fazer rastreamento.

Esperamos pacientemente o tambaqui sem espinha, rindo do sufoco de outrora. As moscas e abelhas visitavam nossa mesa. Uma canção qualquer sobre dor de cotovelo dominava o ambiente esfumaçado. Quando chegou o peixe, não durou muito. Sumiu em coisa de dois minutos. Sorte que ainda tinha um suprimento fortificado de macaxeira na mesa.
Décio chamou a atenção para o fato das pessoas ali parecerem bem diferentes. Costeletas grandes, aqueles óculos escuros cafonas. Lá fora não tinha um carro novo: só fusquinhas e chevettes. Encontramos um igarapé de hipsters, brinquei. Ou então viajamos no tempo, completou Ricardo. 

Mas uma sombra foi encobrindo tudo. Uma tempestade estava vindo. E já estava mesmo na hora de voltarmos. Entramos no carro e subimos o caminho do medo. Quando saímos da mata o céu estava totalmente diferente. Nada de nuvens, nem vento. Na entrada, outro velho. Notei que estava vestindo uma camisa da Beija Flor de Nilópolis do carnaval de 2014 homenageando o Boni. Não seria nada de mais, não fosse o fato de que estávamos em junho de 2013.
-Bacana, esse cara é o Boni?
-Sim, aquele cara da Globo que morreu...
-Morreu?
-Sim, já faz uns sete anos.
Bem, não andamos antenado com o mundo dos famosos. Mas como um cara em Presidente Figueiredo conseguiu uma camisa do carnaval de 2014?
-Um amigo meu me mandou lá do Rio já tem um tempo...
-Um tempo? Meu amigo, você me desculpe mas até tá parecendo que fomos mandados pro futuro... Só por desencargo de consciência, quem é o presidente do Brasil agora?
-Ué, o Bolsonaro!
Puta que par...

domingo, 2 de março de 2014

Para entender o "hoje" de 2014

Vem Pra Rua (Manaus, 2013). Foto: Igo Rafael Farias.
Aviso: Não estou fazendo aqui uma lista dos textos essenciais e definitivos para compreender profundamente esse momento tão peculiar por que passamos. Seria muita presunção fazer isso. Afinal, a história e o presente, como queria Walter Benjamin, é feito de muitos "agoras". Por isso estou elencando aqui alguns "agoras" que tem me ajudado a pensar e repensar minhas certezas sobre o que estamos vivenciando.


Esse post foi escrito em 2012 se não me engano no saudoso blog Fagocitando São Paulo do meu amigo Diego Gatto (por isso as referências ao coronel Telhada) e foi revisado recentemente para seu novo blog Check Out Town. O que me cativa aqui além da verve do autor, é esse sentimento de inconformismo com a democracia que não descamba para um saudosismo autoritário. É a sede por coisas novas. É o anseio por fugir das miragens do neoliberalismo. 

Manifestações, Bráulio Tavares
O escritor paraibano me deixou inquieto por todo um dia com esse post. Prenhe de inquietações, todas elas muito bem articuladas com sua escrita lúdica, nos oferecem um posicionamento aquém das usuais visões maniqueístas sobre as manifestações. Não encontramos demonizações aqui, muito menos canonizações.

Ao contrário dos dois primeiros textos, esse aqui se aproxima mais dos ensaios políticos tradicionais ao reunir dados estatísticos e um embasamento teórico referente á movimentos sociais consagrado (refiro-me aqui ás considerações de Eder Sader). Alguns conceitos problemáticos, como classe média ou classe c, aparecem aqui, mas justamente para serem problematizados á luz do momento - note que ele foi escrito um mês depois das grandes manifestações de 2013.

O jornalista condensa aqui uma série de impressões sobre os rolezinhos, tentando fugir de discursos enviesados (embora aqui e ali escorregue em certo moralismo), além de estabelecer uma conexão interessante com várias obras que discutem as ambiguidades da urbanização no mundo contemporâneo sem necessariamente ter aquele discurso academicista.

Por que implicar com o academicismo? Nada contra, apenas acredito que nesse momento os pesquisadores tem se valido de muitos conceitos deslocados e anacrônicos na tentativa de justificar sua posição enquanto peritos, enquanto decifradores do real, quando estamos na hora e a vez da experiência.

terça-feira, 31 de dezembro de 2013

O último post do ano

A gente tem uma fixação estranha pelo último. A última bolacha do pacote que o diga. Não é bem uma fixação com o último, mas pelo que ele representa, afinal o último anuncia o fim. Se a finitude nos parece desagradável, afinal somos seres finitos, nem por isso deixa de ser menos misteriosa e encantadora. Afinal, o fim representa mesmo um fim definitivo? Talvez a vida seja como um ano velho, caquético, que depois da meia noite cede passagem para um ano novo e inexperiente (zero bala, como dizem os filósofos). Um ano que não passa do antigo, mas renovado.
Enfim...

domingo, 4 de agosto de 2013

Ao pé do ouvido

Cem por cento limpo eu não garanto (posso ver Anísio falando), até porque não existe isso de cem por cento limpo. Não era justificativa pra trabalho mal feito - quem conhecia o velho sabia disso -, mas uma reflexão constante em sua vida. Aí ele te chamava no canto e perguntava se já tinha ouvido falar de micróbios. Claro que já!Quem nunca ouviu falar? Pense nesse amontoado de bichinho vivendo por aí, morando em você, na sua comida. Só tem uma coisa que mata micróbio e é quentura. Por isso quando me pedem pra deixar o clube tinindo de limpo eu digo que só tacando fogo nisso tudo.
A cada visita ao clube, Seu Anísio sempre me apresentava alguma observação sua como uma descoberta secreta. Abaixava o tom da voz, se recostava na parede, olhava pros lados. Nunca entendi o por quê até que certa sexta feira, chegando o fim do expediente, esbarrei no velho. Estava indo pra casa. Quase irreconhecível sem suas botas, o rodo e a mangueira. O boné já fazia parte de sua anatomia, bem como o bigodão, há trinta anos tão preto quanto as asas da graúna.
Enfim, enquanto passava pelo portão encontrei ele vindo. Com aquele ar de surpresa. Seu Doutor! Só na batalha? Perguntei da mulher e dos três filhos. Veja só, já tinha netinhos! Devia ser um avô daqueles que babam os netos até não poder mais. Então o tom da conversa muda: dá uma boa olhada ao redor para ver se há alguém escutando a conversa e aí, quando se sente seguro, inicia sua teoria sobre o conflito de gerações.
Sabe, qual o problema dos novos? Acham que não havia nada antes deles. E o problema dos velhos, sabe qual é? Acham que não tem nada de novo pra aprender. Mas os dois estão no mesmo barco. Eles precisam um do outro. Mais cedo ou mais tarde eles percebem isso. Eles tem de perceber isso. Senão as coisas não mudam.
Concordei. Mas resolvi perguntar porque de tanto mistério. Afinal, não se trata de nenhum segredo de estado. O senhor devia falar o que pensa pra mais gente, lembro de ter dito isso. Meu filho, não tem coisa mais preciosa e perigosa que informação. Assange e Snowden que o digam. Longe de desestabilizar o governo americano, Seu Anísio apenas quebrou todo o Clube Náutico quando a investigação da Polícia Federal sobre corrupção chegou ao presidente da instituição. Dr. Maurício Dias jogava todas as promissórias, bilhetes e recados no lixo. Esqueceu de que o que era lixo pra ele, era informação vital para um velho zelador de olho aberto.

Vinte e quatro horas

VINTE E QUATRO HORAS
Vinicius Alves do Amaral

A noite passava por nós. Com a cara emburrada, devo acrescentar. Também não era pra menos: por mais de três horas só fazíamos discutir. Contudo, todos sentados, encarando argumentos com os olhos vidrados enquanto a cerveja esquentava. E tudo por causa de uma mosca.
Explico: Pouco antes de chegar ao bar do fim da esquina tinha lido um ensaio do Enrique Vila-Matas[1]. Conheces? Enfim, era um ensaio sobre uma escritora para qual  se escreve para ver uma mosca morrer. Como de costume, apresentei minha última leitura com ironia e Nagle aparou meu sarcasmo com suas colocações.
Concordava com ela por causa disso, disso e isso. O gole afoito que dei apenas alimentou minha sanha demolidora. Quer dizer que você escreve para matar moscas? E eu achando esses anos todos que fumacê e inseticida resolvia esse problema.
Ávila sentiu os raios se formarem na retina de Nagle e dirigiu-se ao balcão onde achou alguns amigos instantâneos.  Sempre respeitoso, meu colega de debate de mesa de bar alegou que não tinha entendido a verdadeira essência da frase da nobre colega escritora: o que ela queria dizer é que a escrita serve para captar momentos da vida. Questionei se a morte de uma mosca era um momento adequado.
-Justamente aí que está a questão: o que é um movimento adequado? Quem pode dizer isso? Você? Eu? Qualquer um pode dizer. A literatura é extremamente livre para firmar qualquer fato, por mais banal que nos pareça, como singular. Aliás, é essa capacidade extraordinária dela que permite que reaprendemos a prosa do mundo.
Sempre me incomodou o jeito como Nagle fala: como se estivesse ditando, como falasse para ser escrito. Evocava sempre Proust, Dotoievsky, Lispector, Pessoa. Pra quê esse exército? Mas para mim a questão sempre foi outra. Para mim, singularizar o banal não bastava por si só. Para mim, brincar com palavras não define essa estranha arte de escrever. Para mim, literatura sempre foi autoconhecimento. Escrevemos para sermos lidos, não para aprendermos a ler.
-Mas quem disse que não se trata de autoconhecimento também? Quando você transforma a morte da mosca em uma tragédia você está apresentando-se a si e aos outros, mas de forma muito mais sutil. Vamos fazer esse exercício. Descreva a morte da mosca.
-Nagle, por que me obriga a essas coisas? Maior mico...
Enfim, depois de insistir por longos dois minutos aceitei o desafio.  Revolvi meus neurônios por alguns instantes e saiu mais ou menos isso:
-Cansada sobre a parede, pensei qual seria a próxima parada – a lixeira ou a pilha de pratos sujos – quando fui surpreendida pelo peso da morte. Esmigalhada, só pude ver vagamente seu contorno: retangular e vazada por pequenos furos...
-Viu? A sua morte da mosca é bem a sua cara. Descritiva, meio cínica...
Como você mataria a mosca, ó guru das letras?
-Vejamos... Nagle pensou, saiu do nosso mundo e só voltou com uma resposta.
Asas pesadas, olhos cansados.
O mundo a me esmagar.
Ao terminar seguiu um breve mais profundo silêncio na rua – um desses momentos bizarros em que o barulho tira uma folga – e Nagle, resoluto após seu ponto final, proferiu de forma mística: Preciso escrever isso!
Enquanto anotava no guardanapo os trechos futuros de sua morte da mosca, perguntei qual seria o título dessa “obra-prima”. Vinte e quatro horas, respondeu.



[1] Trata-se do ensaio Escreve-se para olhar como morre uma mosca de Enrique Vila-Matas sobre a escritora francesa Marguerite Duras.

segunda-feira, 22 de julho de 2013

Ainda há vida na velha praça...

Movimento Vem Pra Rua Manaus chega á Av. Djalma Batista em 20 de junho de 2013.

"O gigante acordou". Se tem falado muito nisso. Não que eu desaprove esse momento porque estamos passando. Por muito tempo se falou da apatia do brasileiro. A onda de protestos que se iniciou em São Paulo por conta do Movimento do Passe Livre é saudável á democracia, mas, claro, desde que não se desvirtue em autoritarismo (o medo de 9 em cada 10 analistas dos movimentos).
Acredito que estamos ainda longe de um ponto de chegada, se é que ele existe. As reivindicações são ora pontuais (como abaixar o preço da passagem de ônibus), ora amplas demais (como acabar com a corrupção), mas são reivindicações, ora! Já vejo gente questionando qual a melhor tática: ir derrubando um problema de cada vez ou exigir soluções cada vez mais abrangentes. Só fato disso estar sendo discutido na rua já é louvável.
Na pauta de reclamações sobressai-se problemas diretamente ligados ao cotidiano dos cidadãos, como a saúde e o transporte público. Eder Sader, ao analisar os movimentos sociais dos anos 70 e 80, encontra processo semelhante o qual chamou de "politização do cotidiano". O cotidiano de uma cidade como Manaus, onde o planejamento e infra-estrutura são quase como água e óleo, é um barril de pólvora. Inúmeras foram as vezes em que Manaus se revoltou contra isso. Podemos ir até os tempos finais de Belle Époque onde protestos contra o monopólio dos serviços urbanos pelos ingleses geravam quebra-quebra também, ou podemos ir até os anos 80 e 90, quando manifestações de professores e de cidadãos de bairros sem saneamento básico ou que não eram atendidos pelo transporte público pipocavam pela cidade.
Existiram manifestações antes e existirão manifestações depois do Movimento Passe Livre em Manaus. O que salta aos olhos como novo é a conjuntura nacional favorável á elas e a condição peculiar de Manaus como uma das cidades sede da Copa de 2014 que já vem sendo remodelada (ou desfigurada) de forma cruel.
Eu saúdo a iniciativa de um grupo de militantes, ligados á diversos partidos e diversas ideologias, mas unidos pela mesma preocupação com essa cidade. Esse grupo uniu-se com mais força desde que um dia a Praça Nossa Senhora de Nazaré apareceu em obras. Logo ficou-se sabendo que se tratava de obras para melhorar o transporte ali na Av. Recife, criando uma baia para ônibus. Tudo bem. Mas e nos cantos da praça fora da avenida principal? Estava claro que a redução da praça partia de uma pressão já antiga de moradores de condomínios próximos de aumentar o número de vagas de carros estacionados nas ruas do entorno.
Esse grupo organizou várias ocupações da praça. Uma delas ocorreu na quinta passada. Tratava-se de vivenciar a praça fazendo um pequeno sarau ali. Foi uma experiência muito agradável. Rever a praça como um ambiente de socialização, um local de prazer e não mais um adereço, foi algo incrível. O grupo, que já se constitui como um grupo devidamente constituído possuindo inclusive um nome próprio (Direitos Urbanos), continua sua luta e nela revigora-se a praça. O mais interessante é ver como muitas pessoas que não tem ideia do que se está reivindicando param, sentam, observam, participam. É perfeitamente compreensível o porquê: ninguém quer uma cidade desumanizada e a praça respirando é exemplo maior da Manaus que queremos preservar.
Acho que mais importante que o gigante que acordou foram a praça e rua terem acordado.

sexta-feira, 12 de julho de 2013

Passagens I


Subi no comboio noturno, cansado do mundo. Sentei no primeiro acento vago que apareceu, um coberto pela luz anêmica dos postes. Relembrava o dia – as partes ruins, claro – e o conselho do meu pai: trabalho mata.
Mas algo estranho saía da escuridão. Vinha em forma de ruídos mínimos que se uniram formando uma melancólica canção. Era do meu vizinho de cadeira. Veja só, existe indícios de vida ao lado!
Era triste, bem triste. Qualquer história estava por trás dessa música e não é das mais banais. Vejo pés cansados, sorrisos sinceros, mãos calejadas e algo mais. Mas que povo não passou por isso tudo?
-Qual o nome dessa música?
A resposta veio esburacada de longas pausas.
-A canção de nós.
Só quando saímos do túnel e a luz invadiu nosso decrépito veículo que percebi que não era uma canção de nós, mas deles. Era um cara-de-cavalo, justo o tipo de mutante que mais odeio. Dei a conversa por encerrada.
-Você tem sua canção?
Será que música de boate conta? De qualquer maneira, dá inveja desse pobre diabo. Uma canção tão boa, dá pra sentir a poeira dos anos nela, naquela boca suja. E eu não sei nada próximo disso.
-Quando eu não ter certeza, cantar. Se não sei quem ser eu, cantar. Mundo fica claro.

Minha canção? Pô, cara, eu não queria entrar em outra crise existencial hoje...

sábado, 11 de maio de 2013

Noites assim... bárbaras


Os bárbaros estão chegando. Assim dizem os donos de bares da zona estragada. E lá vem eles, pontuais. Longe de carregarem machados, chegam trazendo barulho. Já cantam alguma música dos Móveis Coloniais de Acaju. Sentam, depois de cumprimentar Pato, o dono da bodega. Já chega a primeira garrafa.
Eles conversam. Trabalho, sexo e comida. Como sempre, Adel vomita no meio fio. “Você tem que parar com isso”, diz Lu lhe dando um soquinho no braço. E ele? Enxuga a boca e ensaia um sorriso amarelo.
O vômito do Adel é a primeira marcação da bebedeira. Depois dele, o homem pode beber quantas quiser. Nunca estará tão alegre quanto já foi um dia. É inexplicável isso. Álcool não traz serotonina, o hormônio da felicidade, no entanto lá está um bobão sorridente. Para ele, estar rodeado de amigos num boteco pé sujo de uma rua mal iluminada é a glória. Faltava apenas uma música do The Doors para atingir o êxtase.
People are strange, when you're stranger/ Faces look ugly when you're alone...
A noite prossegue. A fumaça do cigarro, as nuvens no céu. Tudo é tão envolvente, pensa Edna. Mas há algo a mais aqui, algo que não se pode ver. Algo que não está nem na fumaça, nem nas nuvens, nem nas estrelas – essa bijuteria do céu - , nem no fundo do copo. O que é ninguém sabe. E precisa saber?
Edna apenas fecha os olhos e aproveita o embalo enquanto o resto do mundo se acaba em fofocas e na risada abre-alas do Adel. É por momentos como esse que vale a pena viver em um cubículo cercado por baratas. É por momentos como esse que vale a pena VIVER.
Lu na volta do banheiro tropeça numa das garrafas. A surpresa: no pé da mesa se avoluma um batalhão de garrafas vazias. Ei, gente, vamos maneirar, diz. Lauro, o convidado e bárbaro eventual, atenta para o prejuízo, mas é inútil. Ele não conhece o esquema. Cada um dá um tanto e se mesmo assim ainda não dá, basta chegar perto do senhor ali da mesa do canto e pedir uma ajuda. Presença constante no bar, o homem de bom coração e bolso melhor ainda é um verdadeiro mistério. Simpático e bom de conversa, vive ali emprestando dinheiro a todos. Já é conhecido como Caixa Econômica.
Hoje não precisou fazer um saque. Há poucas horas do amanhecer nossos heróis vagam até o carro judiado pelo tempo e partem para o covil mais próximo. No caso, seria a pousada dos pássaros. Branca está com a chave e limpou a casa ontem. Está tinindo!
O maior problema é a bendita escada. Alguém sempre fica pelo caminho, mas a regra da camaradagem assegura que o bêbado que capotar será arrastado pelo bêbado que sobrou de pé. O mesmo se aplica à escadas, felizmente para Adel. Lauro livrou-se dos óculos e carrega uma latinha que ninguém sabe de onde surgiu. É a primeira vez que conhece este recanto de Manaus.
A pensão é velha e acabada, poderia jurar que já estava em ruínas, mas sob a luz da lua percebe um tom um tanto vívido nesse prédio azulado. As árvores tocam as janelas, seja na rua ou no pátio interior. A sombra dá medo, mas de dia deve ser muito lindo. Após vencer a escada em silêncio, que é o mais importante diante da encrenqueira vizinha do 302, os bárbaros chegam a sua merecida pousada. Uma esteira no chão com lençóis: cortesia da Branca á Adel e Lu. Edna ficará no sofá e Lauro na cama, junto com a dona da casa porque, afinal, tantos olhares trocados não podem ser desperdiçados.

segunda-feira, 22 de abril de 2013

Espelho, espelho meu


O espelho sempre foi um lugar para praticar meu narcisismo diário. Ás vezes também é um local para fortes emoções: quando estou pra baixo basta olhá-lo que dou algumas risadas ou então chorou mais...
Seja como for, fortes emoções sempre me aguardam. Como ontem, quando descobri o primeiro fio de cabelo branco. O primeiro na verdade veio acompanhado do segundo e do terceiro, como se fosse promoção de supermercado.
Fiquei pasmo. Sempre me imaginei com o cabelo branco, mas não agora. Talvez daqui uns dez anos, mas agora? Eu sou muito novo, ainda tenho vinte e poucos anos. Na verdade, isso de ser novo não cola, já que tenho amigos com a mesma idade que estão quase grisalhos.
Eu não tenho problemas com envelhecer, só não quero envelhecer agora!
Os médicos sempre falaram que eu tenho um metabolismo muito rápido. Na quarta série eu me senti um pioneiro ao ter pêlo no suvaco antes de todo mundo. Agora me sinto um passo mais perto da artrite e do exame de próstata.
Quando se é criança, tudo o que se quer é ser mais velho, como se isso fosse resolver todos os problemas. Quando se é velho, ser criança não parece tão ruim. Pelo contrário, se torna quase um sonho. Eu me sinto mais tranquilo ao saber que não sou o único com essa neurose com a idade - meio mundo a tem e nega veemente. Se maquiar não é esconder marcas do tempo? Usar roupas da moda não é negar que está desatualizado?
Quer saber? Que se dane! Envelhecer é natural. A morte faz parte da vida. Nunca vi ninguém nascer pra ser imortal - a não ser o highlander. Não vou esquentar com algo que não posso evitar. Eu tenho é que me adaptar com o que tenho a mão. Posso ter um dia ou vinte anos pela frente, o que importa é utilizar bem minha carga horária. Ah, se eu pudesse fazer hora extra...
Que seja, esses cabelos não estragarão minha semana. Foi legal ter pensado sobre a vida e coisa e tal, espelho. Muito obrigado! Agora, onde está a tesoura?

sábado, 20 de abril de 2013

Botecosfera

Ari era um cara legal. Todos achavam isso dele. Até o dia em que não pagou a conta. Aí foi mandado para o mais baixo ponto da lista de facínoras do bar.

Tiziu já dava nos nervos: chegava zombando de todos e quanto mais copos virava, mais insuportável se tornava. Bacalhau, o dono, dissolvia o clima tenso apenas batendo o porrete de madeira no balcão. Na mesma hora o homem se transformava num gentleman.

Lurdinha, ah, Lurdinha... Beleza não era um de seus atributos, tampouco a simpatia. Mas ela tinha um sorriso todo seu, hipnotizante. Não sei o que via naqueles dentes acavalados. Um dia fiz ela jurar. Lurdinha mesmo que você mude de vida, encontre um ricaço e fique cheia da grana, me prometa uma coisa: nunca vá ao dentista!

sexta-feira, 5 de abril de 2013

Mentira tem perna curta, mas corre que é uma beleza

APOLOGIA DA INVERDADE
por Fabiano Mourão

Não entendo porque tantas pessoas condenam a mentira. É como criticar o oxigênio por ser um gás inodoro. Nós respiramos mentiras todos os dias. Andamos sobre mentiras, bebemos mentiras e sonhamos com mentiras. 
Não quero com isso dizer que toda inverdade é aceitável. Acredito que podemos classificar a massa de mentiras em dois tipos: as boas e as más. A mentira boa é aquela que não magoa, aquela que encobre para não ferir quem quer que seja. A mentira má já é diferente: sua intenção é salvar seu usuário ou então ajudá-lo a custa dos outros.
O pai que mente pro filho dizendo que o cachorrinho morto na verdade está hibernando está pensando no seu filho, em poupá-lo da dor da morte. Já o vigarista que mente sobre o "negoção" que está arrumando pro amigo enquanto encampa o seu suado dinheiro está pensando em nadar em Miami através da ingenuidade dos outros.
Percebeu a diferença?
Alguém me perguntou uma vez: por que mentir? Meu amigo, é simples: porque a verdade dói. Tá certo, ela liberta em algumas horas, mas na maior parte do tempo ela incomoda e preocupa. Já pensou admitir que não existe vida após a morte, que reconfortante seria? Tem gente, amigos meus (não revelo o nome nem sob tortura!), que sabem que a mulher não é lá esse anjinho e mesmo assim continuam teimando em vê-las como santas. Como diz mesmo o ditado? "O que os olhos não vêem, o coração não sente". É por aí mesmo...
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Fabiano Mourão é PhD em contos da carochinha, laureado com o VII Prêmio Pinóquio pela Associação de Munchausen e consultor do governo para mentiras oficiais e afins.

quarta-feira, 13 de março de 2013

Voltar a viver

Noite Estrelada, Van Gogh.

É só eu ficar longe por duas semanas que tudo desanda... Hugo Chávez morreu, deu a louca na Coréia do Norte e voltamos á neura das armas nucleares e no Brasil as chuvas voltam a atacar no Rio e em São Paulo.
Enquanto isso no Vaticano todos estão discutindo a bola da vez, digo, o papa da vez. Há quem arrisque que  talvez seja D. Odílio Scherer. Coisa da mídia isso, criar uma expectativa enorme, falar dos mínimos detalhes do conclave. 
Enfim, aqui estou eu de volta ao mundo real. Para quem não sabe, nessas duas semanas fiquei internado por causa da dengue que resultou em uma complicação pulmonar. Não me lembro de ter ficado tanto tempo num hospital. Depois de alguns dias você começa a ficar entediado, depois impaciente. Quando recebi alta dei pulos de alegria - sem exagero. Ao sair do hospital fiquei maravilhado: o céu com estrelas, estava meio úmido por conta da chuva que tinha acabado de cair. Era quase como se estivesse chegando num planeta desconhecido.
Agora estou passando pela recuperação/adaptação. O tempo em que fiquei internado me desacostumei com o calor infernal de Manaus e agora vou ter que reaprender a suar. Também vou ter que reaprender a andar pela cidade. Isso sem falar de todos os compromissos na faculdade e na pós-graduação que tive de suspender. Mas não vou me preocupar com isso agora. Primeiro vou respirar fundo pra depois mergulhar na correria.
Foi um período crítico, mas graças a Deus tive ótimas surpresas nesse intervalo de tempo. Sei que muitas coisas vão mudar, não sei bem o que ainda, mas não tem problema. Espero, sem ansiedade. 

sábado, 16 de fevereiro de 2013

HISTÓRIAS NÃO PERECÍVEIS III



Desde que o amado coronel deixou de servir á geladeira para ser servido na mesa de jantar um clima melancólico e filosófico pairava no ambiente. E a inquietação cheirava a queijo gorgonzola.
O que será de nós? Qual nosso destino: a barriga ou a lata de lixo? As perguntas se multiplicavam, os alimentos se angustiavam. Então, algo ocorreu: um belo dia um visitante apareceu na geladeira. Chamava-se Leite Desnatado. Ao contrário do seu primo integral, esse era muito simpático. Mesmo assim todos desconfiavam de sua bondade. “Nunca confie em um latícinio sem nata!”
Dias depois o gorgonzola foi substituído por um parente sem gordura. A Abobrinha confessou ao Pepino que sentia saudade até do fedor. Esse novo morador parecia correto e light demais. O Sanduba natural vivia rindo. Os refrigerantes se tornaram espécie rara. Em seu lugar, sucos de tomate e energéticos.
Logo, ficou claro aos moradores antigos que se tratava de uma invasão. A invasão dos sem sabor! Assim proclamou aos quatro ventos o profeta mofado. Em reação, o Sanduba se pronunciou:
-Melhor sem sabor que ser cheio de gordura e colesterol!
-Mano, eu posso ter um monte de defeito, mas ainda sou gos-to-sa!, respondeu a fatia de bacon rebolando.
O refrigerante passou a atacar o suco natural de limão – é natural e só dá afta!
-Eu dou afta pelo menos e você que dá câncer!
-Isso é calúnia! Nada foi comprovado! Aqueles estudos foram feitos pela Pepsi!
-Ah, fica quieto e vai lá com a sua pipoquinha! Sua colega aí, Fanta Laranja, precisa chacoalhar pra ficar gostosa, senão fica o pozinho todo no fundo. E ainda vem falar de mim?
-E você por acaso é muito limpa? Tá precisando de uma peneirada urgente, fulaninha!
O energético de tão hiperativo não conseguia completar nenhuma frase. O iogurte e o leite desnatado trocavam farpas e natas.  Até o gengibre se manifestou! O chá de boldo ficou do lado dos colesterentos:
-Afinal, se ninguém comer eles, fico sem trabalho!
A baderna generalizou-se e sobrou até para os calados. A picanha encarava o kiwi:
-E você, peludinho, não vai falar nada?
-Ele é verde por dentro, só poder ser um espião!
-Vai dizer que o Kiwi é feito de soja? Me poupe!
Ao ouvir o nome “soja”, o profeta mofado soltou um berro:
-A soja dominará a geladeira!
Foi a única previsão certeira em toda sua carreira profética. Mas a batalha se alongou por horas. O peito de frango ameaçava sair da bandeja para dar uma lição na ricota. Emboscado por integrantes da gangue da Sopa Verde, o chocolate nunca mais foi visto. O leite condensado de tão esquentado se tornou doce de leite. A banana era toda potássio e tranquilidade: podia ser frita ou simplesmente descascada, fosse como fosse ainda teria espaço para ela aqui.
As coisas só se aquietaram quando as mãos apareceram. Pegaram justamente a fatia do bacon que deu uma risadinha debochada para seus desafetos saudáveis. Mal sabia ela que não seria digerida, mas descartada. Para o lixo foram a maioria dos gordurosos e habituais alimentos ao fim de uma semana. Despediam-se ás lágrimas, mas em breve se reencontrariam na lata de lixo para compartilhar as mágoas.
Quando o Pão Mofado foi retirado detrás da panela de pressão pelas mãos começava assim o reinado dos sem sabor. Eles já tinham chegado á todas prateleiras. Agora finalmente iniciaram seu governo utópico.  Os melhores alimentos fariam dessa a melhor geladeira, assim pensava-se. Os intocáveis da gaveta de legumes e algumas frutas não apoiavam de todo o novo regime.
-Nós dependíamos deles, cara. Sem o pão de hambúrguer e a carne ninguém se lembra de nós. Sozinhos não somos nada! – confessava o tomate ao alface em tom de lamento. O parceiro tentava consolar:
-Calma, calma! Nós sempre teremos a salada...
A banana, uma das frutas mais assanhadas, já sentia falta de suas relações:
-Ah, como eu sinto saudade de ser amassada ao feijão. Como era bom eu ser derretida ao açúcar e a canela e ser coberta todinha pelo mel. Ah, bons tempos...
E em pouco tempo os novos alimentos encontraram seu novo guru: o Pimentão. Quando ele repentinamente mudou de cor – de verde para vermelho – todos na geladeira ficaram pasmos. “Conte-nos seu segredo, mestre leguminoso”, exigiam. Foi a chance que encontrou para sair do esquecimento e doutrinar seus colegas. Logo ele que reclamava tanto do coronel berinjela...
O guru light podia ser verde por dentro, mas ainda assim era dos mais amargos. Não demorou para que alguns o desprezassem e outros se lançassem em sua defesa. Assim, a sociedade perfeita de alimentos perfeitos se via já comprometida por toda sorte de fofocas, rixas e panelinhas. As mãos podiam ter envelhecido, mas as brigas dentro da geladeira continuavam as mesmas. A panela de pressão quase apitou quando descobriu atrás de si, para sua surpresa, um pão que já desenvolvia alguns fungos.
Ele perguntou se incomodava. Se fosse o caso poderia mudar de lugar.
-Não, meu jovem, não saia de onde está por nada! Há um mundo perigosíssimo lá fora. Que mal lhe pergunte, mas você já teve alguma visão?

quarta-feira, 13 de fevereiro de 2013

Epifania no Calçada Alta

Linhas
As retas que se cruzam no pano da mesa
A divisória entre a rua e o recanto
com o tempo
com os goles
aprendemos a verdade sobre as linhas
                          (sobre a geometria, sobre o mundo):
-tudo é abstração.

Zé Praga ataca novamente!


Não gosto de carnaval e ponto final. Mas gosto de arrastar a sandália, pelo menos uma vez a cada 10 anos pra desenferrujar. Muito bem, me convidaram para um bloco de rua e aí já comecei a me coçar porque um monte de gente se esfregando um no outro na rua pra mim é suruba legalizada. "Não, é um bloco mais tranquilo, só tem gente de mais idade, aqueles sons de antigamente, bolerão". Foi me agradando, mas relutei pra cultivar minha fama de rabugento. Finalmente confirmei presença.
No dia do bloco, ligo pra um e ligo pra outro. "Ah, não vai dar, eu to passando mau". "Ih, cara vou ter que levar minha mulher lá na casa do chapéu". Pra resumir, todo mundo pulou fora. Senão é minha neurose de ligar antes eu teria feito papel de bobo lá.
Sim, eu podia muito bem ter ido assim mesmo e me divertido - embora não conhecesse ninguém ali e até suspeito que esse tal bloco não é tão calmo assim quanto dizem. Claro, eu podia ter feito isso, mas resolvi fazer melhor: lancei uma praga sara-maligna nesses amigos da onça. Se eu não vou pular carnaval, nem eles iriam: chamei chuva. E olha que São Pedro me ouviu pela primeira vez na vida.
Sábado: chuva. Domingo: chuva. Segunda: chuva. Terça: chuva. Quarta: aquele sol. E o povo que ficou de ir pra Banda do Galo lá na Estrada do Turismo foi trabalhar hoje tudo resfriado. O diabo é que eu também fiquei resfriado. Mas nem ligo! Só o fato da chuva ter sacaneado o pessoal já me deixou em catarse. Quatro dias de chuva, todos os quatro dias de carnaval, é mole? Não conheço minha própria força...

Maledicência

Foto: A Crítica.

RUÍNAS
Cabaré Chinela diz adeus ás raparigas.
Diz adeus todo dia, esperando que acenem de volta.
Mas nada...
"Saudade de quando humanos trepavam aqui. O sexo das ratazanas não tem glamour".

AGONIA
Rir é o melhor remédio
a não ser que seja o riso cínico, venenoso.
Ouviu isso, Cidade Sorriso?

UMA FAMÍLIA
Aquela casa de três cômodos e sete habitantes é um exercício de silêncio.Melhor, de silêncios. Antes fossem fantasmas. Seriam muito mais hospitaleiros...

CANNABIS
Fumou
Viajou
Quando voltou, beijou o chão.
Ainda assim, guardou o passaporte pra depois.

ÁPORO REVIEW
O inseto que vira flor
que cafona!
desculpe CDA, mas o otimismo é um passadismo.
Que o inseto virasse sangue!


terça-feira, 12 de fevereiro de 2013

Rapidinhas


O brega chora
faleceu Roberto Makassa,
o bolero em carne e osso
e óculos escuros.
Manaus, 4 de fevereiro de 2013

- notícia sussurrada -
Biblioteca Pública abriu
Manaus, 31 de janeiro de 2013

D. Pedro I abdicou, Collor renunciou
até o papa jogou a toalha
e nada do Robério se coçar.
E Renan taí...

segunda-feira, 11 de fevereiro de 2013

Etnografia e Serpentina III


Por mais que você queira destacar, ser "o diferente", haverá algum minuto da sua vida em que você desejará simplesmente se diluir na multidão. Ser engolido pela mesma energia que passa por todos. Haverão poucas oportunidades para que isso realmente aconteça. E hoje é uma delas.
Relaxe e sinta a energia. Não se movimente, deixe o movimento te controlar. Esse é o zen-budismo da folia.