Mostrando postagens com marcador Vale do Paraíba. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador Vale do Paraíba. Mostrar todas as postagens

quinta-feira, 13 de setembro de 2012

Lobato racista: a novela continua



Nova querela envolvendo Monteiro Lobato e o racismo.
O Iara (Instituto de Advocacia Racial) e o técnico em gestão educacional, Antônio Gomes da Costa Neto, entraram com um mandato de segurança no STF (Supremo Tribunal Federal) contra a decisão do CNE em liberar a distribuição das obras de Monteiro Lobato, em especial o livro "Caçadas de Pedrinho", alegando conteúdo racista. A audiência, ocorrida ontem (11/09/2012), terminou sem acordo. 
Em entrevist
a ao Estado de São Paulo, de hoje, 12/09, Ivan Junqueira, membro da Associação Brasileira de Letras, afirmou que "Não se deve tomar nenhuma providência com relação a eventuais traços racistas de obras da literatura brasileira, senão não ficaríamos somente em Monteiro Lobato."

Já abordamos tal polêmica aqui em outra oportunidade. Continuo batendo na tecla de que proibir a distribuição dos livros não é nem de perto a solução, mas o problema. Monteiro Lobato tinha lá seus preconceitos como todo mundo e os expunha de forma veemente seja contra negros como contra japoneses e indígenas, mas ainda assim é um escritor essencial para se entender o Vale do Paraíba e o Brasil. Não subestimemos a capacidade dos alunos e dos professores. Com um bom acompanhamento pedagógico pode-se perfeitamente ler textos e discernir e se posicionar, sejam eles sobre o que for.
Sejamos coerentes e lúcidos. Para entender o racismo lobateano precisamos entender seu contexto e sua vida. Não cometeremos o pecado capital do historiador: a anacronia. O politicamente correto daquela época permitia que se falasse em "pessoa de cor" ou "pretinho". Não se trata de absolver o preconceito, mas de reconhecer que mesmo na luta por um mundo menos intolerante há limites. Corre-se o risco, em decisões como essa do Iara e de Costa Neto, de se cair em uma intolerância quase puritana. Felizmente o conhecimento e o bom senso estão aí para nos ajudar.

quarta-feira, 11 de julho de 2012

1932: O Vale vai á Guerra


"Revolução Constitucionalista de 1932". Eu prefiro o termo revolta ou guerra ao invés de revolução, como já expliquei aqui antes. Revolução implica uma mudança total na ordem social e 1932 pode ter inspirado medidas democráticas por parte do governo federal, mas não impediu que Vargas decretasse o Estado Novo. Em relação á própria "Revolução de 1930" também tenho minhas dúvidas, já que o que os revoltosos conseguiram fora destruir o arcabouço jurídico administrativo da República Velha e não as oligarquias estaduais que dele se utilizou. Assim o peso das mudanças era menor e se concentrava nas cidades, enquanto no interior o governo negociava com os donos do poder.
Mas voltando á 1932, seria essa uma revolta de caráter plenamente democrático? Na minha opinião não. São Paulo tinha um projeto político, gestado ainda durante a República Velha, de ser hegemônica - por conta da sua economia cafeeira e industrial. Com a ascensão de Vargas esse projeto foi frustrado. O estopim para a revolta veio com a morte dos quatro estudantes em uma manifestação anti-varguista.
O brasilianista Stanley Hilton afirma que a Guerra Constitucionalista de 1932 foi uma manifestação da elite que ganhou as massas. Essa elite seriam os velhos oligarcas, os empresários industriais e os profissionais liberais que antes tinham se dividido em dois órgãos políticos nos anos 20 (de um lado, o conservador Partido Republicano Paulista e do outro o liberal Partido Democrático), mas que se uniram novamente na Frente Única Paulista quando se sentiram ameaçados.
O seu discurso apelava para a democracia e para a Constituição, mas havia nuances mais obscuras nesse emaranhado de motivos para se fazer uma guerra contra o governo federal. Alguns apelavam para o regionalismo paulista que durante os anos iniciais da República tinha flertado com o separatismo, outros já se agarravam ao anticomunismo, como Ibrahim Nobre, enxergando em Vargas um líder bolchevique e não um demagogo populista.

O povo paulista entrou nessa guerra pelos mais variados motivos também: seja para defender os ideais liberais, regionalistas, separatistas ou mesmo anticomunistas, seja para se alimentar (a Casa do Soldado fornecia um rango para quem se alistasse) ou mesmo para provar a sua virilidade (Mário de Andrade lembra que aqueles que não iam para o front eram ridicularizados como maricas pela maioria da população).
Quanto á Taubaté, a adesão á causa constitucionalista se fez sem maiores mistérios. Primeiro, a cidade, ao contrário de São Paulo, estava em decadência por conta das crises do café e já clamava por políticas de valorização do produto há bastante tempo. Segundo, nesse contexto, o regionalismo local, que já era grande durante a virada do século (a elite taubateana tinha um certa rivalidade com a oligarquia paulistana por se acreditar ser mais tradicional e legítima que aquela), aflora em discursos contrários á diretriz centralizadora de Vargas. 
No discurso oficial aparece uma Taubaté unida por sentimentos de honra que deseja mais uma vez ser a vanguarda cívica do país libertando-o da ditadura varguista. O interessante é que algum tempo antes os ataques entre os setores mais conservadores, os chamados costistas (curiosamente ligados ao setor mais liberal da política, o Partido Democrático), e os mais liberais, liderados por Félix Guisard (esses filiados ao PRP) tomaram uma proporção enorme. No entanto, diante da ameaça externa, estas duas facções da elite local se unem. Essa seria a prova maior de que na cidade não havia lutas fratricidas e, mais ainda, luta de classes.
Até que ponto o povo comprou a Guerra de 1932 em Taubaté? Não sei dizer. Maria Cristina Soto acredita que a maioria da população tenha ficado indiferente, tanto que após a confirmação da derrota da causa paulista não houve qualquer manifestação popular espontânea na cidade. Mas é sempre bom nunca subestimar o poder do clientelismo e da doutrinação: e se alguns foram lutar por conta de favores ou pela força do regionalismo? Isso só uma pesquisa pode dizer.
O certo é que Taubaté participou do conflito de duas maneiras: fornecendo apoio logístico e humano e propagando a "causa paulista". Do primeiro ponto de vista, temos a cidade se transformando em base dos constitucionalistas, cedendo alguns prédios e espaços para os soldados e voluntários. Concedendo recursos para os batalhões ou para as mulheres dos soldados. E, é claro, formando seus próprios batalhões também. O mais famoso foi o Batalhão Jacques Félix, idealizado por Joviano Barbosa e Juvenal Machado, dentre outros. Este corpo militar veio a se unir ao Vigésimo Quarto Batalhão de Caçadores comandado pelo coronel Veiga Abreu que participou de uma vitória em Cunha contra as forças legalistas.

No segundo ponto de vista, temos a imprensa divulgando as notícias que recebe de São Paulo. O rádio já era um instrumento utilizado na capital paulista há muito tempo como forma de propagar o ideal constitucionalista, mas em Taubaté a radiofusão ainda era insipiente. O maior veículo de comunicação ainda era o jornal. No entanto, as redações sofreram alguns problemas, como a escassez de papel para as impressões. Ainda assim, continuaram funcionando.
A Revolta Constitucionalista é um assunto importantíssimo para o Vale do Paraíba, pois foi nele que as maiores batalhas foram travadas. Se em São Paulo se encontrava o epicentro do conflito, foi no Vale do Paraíba e em algumas partes do Oeste Paulista que ele se desenvolveu. No entanto, pouco se sabe ainda sobre como isso se deu aqui. O que se sabe são dados superficiais sobre as batalhas. Onde está a memória dos voluntários? Não só os voluntários famosos, mas os comuns. Onde se está a dinâmica interna dos municípios? Quer dizer que a disputa política foi suspensa no meio tempo em que a guerra ocorreu? No caso de Taubaté, costistas e perrepistas se reconciliaram de fato mesmo? E em relação a todos aqueles que não apoiaram a causa: Foram presos? Quais eram seus argumentos?

Falta vasculhar mais a memória do Vale sobre a Revolta Constitucionalista de 1932. Não só pelo heroísmo, mas pelo compromisso com a verdade e a História. É preciso compreender antes de glorificar. Silêncio, esquecimento e conjecturas não bastam. Além disso, até agora só temos visto o conflito do ponto de vista político. Será que não houve consequências na cultura vale-paraibana? Enfim, o número de perguntas e possibilidades de perguntas portanto é enorme, ouso arriscar que quase infinito. Esse pode ser um tema polêmico, mas pelo menos parece ser um assunto que está longe de ser esgotado.

quarta-feira, 11 de janeiro de 2012

Almanaque Urupês 10 anos


Apesar de estar convencido de que o tempo é relativo, isso não me impede de achar que ultimamente ele anda meio acelerado. Há cinco anos entrei em contato com o Almanaque Urupês pela primeira vez e agora tomei conhecimento de que este maravilhoso site fará uma década de vida.
Na realidade, o site é apenas uma das interfaces do projeto que há dez anos vem combatendo o esquecimento e contribuindo para a preservação da memória de Taubaté não somente com artigos acadêmicos, mas com programas didáticos e documentários. O trabalho que o pessoal do Almanaque Urupês faz é grandioso e merece o reconhecimento de todos os profissionais da História, sejam eles do Vale ou não.
Parabéns, gente, pelo ótimo trabalho! Espero que essa seja uma das muitas décadas de existência desse projeto que festejaremos.
Abraços fraternais.

sábado, 17 de dezembro de 2011

Jongos, Calangos e Folias

Zanzando pela internet me deparei com esse excelente documentário de Hebe Mattos e Martha Abreu (ambas da Universidade Federal Fluminense) sobre manifestações culturais negras no Vale do Paraíba fluminense.
O nome do documentário é Jongos, Calangos e Folias: Música Negra, Memória e Poesia (2005). Postei aqui no blog o começo do vídeo, mas quem quiser vê-lo na íntegra é só dar uma passadinha aqui 


Para quem não sabe:
Jongo - É uma dança de origem angolana fortemente rural que gira em torno da improvisação e da advinhação. É considerado por muitos como o avô do samba, por causa de seu ritmo. O bairro de Madureira, no Rio de Janeiro, após a Abolição, foi um grande centro de jongos. A Escola de Samba Império Serrano foi fundada por jongueiros do Morro da Serrinha. Hoje os principais centros de jongos se encontram no Vale do Paraíba Fluminense (no lado paulista temos Guaratinguetá e Lagoinha também) e no interior de  Minas Gerais onde também são conhecidos como Caxambu (nome do tambor usado na dança).

Calango - Além de ser o nome de um lagarto, é também o nome de uma dança onde os pares dançam arrastando o pé, como o lagarto, enquanto dois cantadores, como os repentistas nordestinos, se desafiam com suas rimas. Também é muito presente na Baixada Fluminense, embora se fale nessa dança em todo o país, mas com variações profundas (em alguns lugares, calango pode ser o nome genérico para bailes, por exemplo).

Folia de reis ou reisado - A encenação da visita dos três reis magos ao menino Jesus pode ser de origem portuguesa, mas é sob a influência africana que ela ganha contornos mais coloridos e musicais. A festa basicamente começa no dia 6 de janeiro, com os reis magos e sua banda visitando todas as casas do bairro. Em cada casa, uma canção pela hospitalidade do dono em recebê-los e outra como despedida
Obs: Quando criança, a figura dos reis magos para mim só era menos assustadora que a dos bate-bolas. O motivo era a máscara toda tosca e os passos meio caóticos. Pensava que eram monstros. Eles chegavam em casa, comiam um pãozinho e bebiam um café e a banda tocando. Eu me danava a chorar. Coisas da infância, né?

Congada - Algumas são representações da batalha de Carlos Magno contra os mouros, outras histórias sobre São Benedito e Nossa Senhora do Rosário, mas existe uma terceira versão que fala sobre a vida de Chico Rei, um monarca do Congo escravizado e levado á Minas Gerais, mas que consegue juntar ouro e compra sua liberdade. Já ouvi falarem de congadas onde se representa a guerra do rei do Congo, convertido ao cristianismo, contra as tribos pagãs. Das congadas nasceram os maracatus, que são festas mais coloridas e frenéticas, sem um roteiro certo. Basicamente, no maracatu, os foliões dançam em homenagem ao rei do Congo. A parte falada foi sumindo aos poucos da dança.

Vale ressaltar que a maioria dessas danças folclóricas de origem negra são rurais e possuem quase os mesmos instrumentos (tambores como o caxambu e o alfaia, chocalhos como o ganzá, triângulo, sanfona, etc.) Com a urbanização muitas dessas danças perderam sua força, mas não quer dizer que estejam a ponto de estarem extintas. A UFF vem promovendo desde 1996 Encontros de Jongueiros, enquanto na cidade capixaba de Muqui são organizadas festas de grupos de reisado nacionais, só para ficarmos em dois exemplos.

sábado, 27 de agosto de 2011

A Dor da Saudade

Hoje senti saudade de Taubaté e do Vale do Paraíba. Senti saudade também de pessoas que não estão mais entre nós. E quando se fala em saudade na mesma hora me vêem a nostálgica música do compositor  de São Luiz do Paraitinga, Elpídio dos Santos (1909-1970), que se tornou conhecida graças aos filmes de Mazzaropi: A Dor da Saudade.

A dor da saudade
Quem é que não tem
Olhando o passado
Quem é que não sente
Saudade de alguém...

Da pequena casinha
Da luz do luar...
Do vento manhoso
Soprando do mar...

A dor da saudade...

E até das mentiras
Que fazem sonhar
De alguém que se foi
Pra não mais voltar...

A dor da saudade...

Vá embora saudade
Dá minha casinha
Que eu quero bem



Aí embaixo, a música na voz de Suzana Sales e Lenine Santos:


Elpídio dos Santos
E aqui, a versão clássica de Mazzaropi:

segunda-feira, 18 de abril de 2011

Reinações de Lobato

Hoje comemora-se os 129 anos de Monteiro Lobato. Já falamos muitas vezes aqui nesse blog sobre esse escritor tão polêmico.
O que mais tem se falado ultimamente é sobre suas idéias raciais (sua simpatia com os métodos eugênicos norte-americanos, por exemplo) e seus preconceitos. Monteiro Lobato era racista? Sim, mas ainda assim prefiro a expressão "fruto de seu tempo". Afinal, ele nasceu num contexto patriarcal, escravocrata e provinciano. Mas era um rebelde. Seu espírito combativo e iconoclasta não cabia na pequena cidade em que nasceu. Ele aspirava ao cosmopolitismo que a capital paulista poderia lhe oferecer e lhe ofereceu realmente. Lá suas idéias e opiniões floresceriam.

Penso que Taubaté foi uma espécie de eterna interlocutora em sua obra. Lá ele via o caipira, o bacharelismo, o latifúndio, o provincianismo, tudo aquilo que ele acreditava que deveria ser combatido para se criar um país desenvolvido, tal qual o EUA. Curioso que mesmo assim ele não conseguiu se livrar das amarras de sua origem: por mais que tenha criticado tudo o que lhe impedia de crescer (e de fazer o Brasil crescer, de certa forma), Lobato ainda carregava um pouco desse "mundo arcaico" dentro de si - o maior exemplo, com certeza, está nesse seu ranço racista.

Lobato é um homem, como todos nós, com seus méritos e suas limitações. Ser um dos pioneiros na editoração de livros e da campanha da nacionalização do petróleo e um dos maiores nomes da literatura infantil nacional não deve apagar esse lado, nem vice-versa. Estes lados devem se complementar, só assim conseguiremos enxergar Lobato em sua totalidade e entender seu real peso para a história do Brasil, seja para o bem ou para o mal.

sexta-feira, 25 de fevereiro de 2011

Um passeio pelo Vale antigo com Sérgio Buarque

Foi relançado em fins de 2010, mas só tomei conhecimento agora o livro Vale do Paraíba - Velhas Fazendas, produzido pelo historiador Sérgio Buarque de Hollanda em 1975 para o prefácio de um álbum de desenhos feitos com  bico de pena pelo pesquisador vale-paraibano Tom Maia.

Fazenda Pau D'Alho, em São José do Barreiro, conhecida por ter hospedado o Imperador D. Pedro II, no traço de Tom Maia.
É o encontro de dois monstros da historiografia do Vale: embora Sérgio Buarque seja mais conhecido por sua produção ensaística (Raízes do Brasil, Visões do Paraíso), em suas últimas obras (Caminhos e Fronteiras, Monções) se preocupou com seu estado-natal, São Paulo, e não somente com São Paulo capital. Nestes livros estão informações e considerações que ainda são essenciais para qualquer pesquisador do Vale, principalmente no contexto de seu povoamento. Tom Maia, junto com sua esposa Thereza Camargo Maia, já vem produzindo desde o final dos anos 60, por sua vez, importantes estudos sobre o folclore local e sobre a cultura dos tropeiros, por exemplo.
Nesse livro, Sérgio Buarque explicará o contexto da construção das fazendas retratadas por Tom Maia, as fazendas do barões do café, mas também dos antigos senhores de engenho. Assim, antes de chegarmos ao período da economia cafeeira temos um rico painel da colonização do Vale e dos efeitos do bandeirismo e da mineração na região. Quanto á abordagem sobre o período em questão, Sérgio não deixa a deseja, fazendo de sua explanação quase um trabalho literário, tamanha a erudição e o conhecimento sobre o assunto.
Para todos interessados no Vale do Paraíba ou mesmo em Taubaté, aqui fica a dica.

quarta-feira, 23 de fevereiro de 2011

Conto do vigário

Deixo vocês hoje com uma pequena anedota política contada pelo sociólogo Nelson Pesciotta:

O Vale sempre foi patologicamente político. Nas nossas cidades, tudo era motivo para disputas políticas, da eleição da diretoria do clube á da mesa da Santa Casa, da esoclha do paraninfo na escola até a escolha da comissão de festa da Igreja.
o envolvimento dos vigários, então, é um tema fascinante à espera de um bom pesquisador. Seus poderes não eram apenas espirituais, a política os atraía bastante a alguns se envolveram discretamente, enquanto outros tiveram participação bem ativa, chegando a conflitarem até mesmo com alguns fiéis por causa das eleições.
Lembro-me de uma cena que presenciei na década de 30. Eu, menino, acompanhei meu pai numa "visita eleitoral" a um bairro da cidade que agora está próspero e até quer emancipar-se, mas naquele tempo era pequenininho. O horário do "comício" era depois da missa. Chegamos lá quando a missa estava em andamento e entramos na igreja. A caravana era do Partido Constitucionalista, que se opunha ao P.R.P. - Partido Republicano Paulista. O P.C. era o partido do engenheiro Armando Salles de Oliveira e dos Mesquita. Gente fina. E o nosso vigário estava com o P.C.
Chegamos e entramos na igreja. O vigário pregava o evangelho. Não lembro bem o que ele falava quando entramos, mas me recordo, como se isto tivesse acontecido hoje, de uma sua expressão:
-"Esse amaldiçoado P.R.P., com letras deste tamanho..." e fez um gesto com a mão direita esticada á frente, dando uma razoável altura para representar o grande tamanho de tais letras.
Do envolvimento político de tal religioso (cuja vida pessoal ao que consta, era absolutamente ascética, piedosa, caridosa e tudo o mais) constam inúmeras passagens curiosas. Dizem que num bairro distante, naquela famosa eleição de 47, quando o eleitor podia levar consigo as cédulas para votação, teria ele levado as cédulas do seu candidato e dito aos presentes a um ofício religioso:
-"Estas são cédulas sagradas".
Não preciso dizer que seu candidato ganhou e com boa margem...
O bom padre tinha obsessão com o comunismo, isto é, contra o comunismo. Quem o desagradasse na política era comunista e como tal denunciado por ele, que era mestre em mandar telegramas às autoridades com tais "informações". Algumas pessoas tiveram sérias dificuldades por esse motivo.
Certa feita estava ele na casa de um veterinário participando de uma recepção - um almoço, churrasco ou coisa parecida - quando se encontrou com um velho companheiro de bancos escolares, médico na cidade, político militante, pessoa de muita influência, e pergunta a este:
-"Fulano, se o comunismo vencer no Brasil quem vai mandar nesta cidade?"
O interlocutor, mal contendo um sorriso sarcástico e com a voz anasalada, responde incontinente:
-ora, as pessoas que você denunciou assumem o poder imediatamente". Eu, o dono desta casa, mais Fulano... e desfilou nomes.
Resposta que encerrou o diálogo...

Referência:
PESCIOTTA, Nelson. Episódios Pitorescos da Política Vale-Paraibana. In: CHALITA, Gabriel (coord.). Vale do Paraíba: Política e Sociedade. Aparecida: Editora Santuário, 1993. pgs. 58-59.
__________________________________________
Para os interessados na disputa entre o PC e o PRP, temos esse artigo de Carolina Soares Souza que analisa como ambos tentaram se apropriar da memória sobre a Revolta Constitucionalista de 1932. Recomendo.

terça-feira, 22 de fevereiro de 2011

Lobato, Lobatos


Outro dia falávamos de Monteiro Lobato. Acho Lobato um dos escritores nacionais mais interessantes. Não é só pelo fato de escrever bem, mas pela sua ousadia. Lobato era um rebelde, um rebelde em partes.

Nascido em um contexto patriarcal e escravocrata, como dissemos, ele teve uma infância dividida entre leituras e brincadeiras pela chacará de seu avô, João Francisco Monteiro, o poderoso Visconde de Tremembé. Quando a República é proclamada, Lobato está ingressando no Colégio Kennedy, de propriedade de pastores norte-americanos na cidade, contudo logo é transferido para o Colégio Paulista (o Colégio Kennedy, por seu ideal protestante e liberal, é perseguido, principalmente pelo nosso velho e conhecido vigário Nascimento Castro, e se muda para São Paulo, onde veio a se tornar o Mackenzie).

Graças á um pistolão feito por seu avô (ele mesmo admite), consegue uma vaga na tradicional Faculdade de Direito do Largo de Sâo Francisco, na capital paulista. São Paulo ainda não era uma grande cidade, mas o dinheiro advindo do café, das ferrovias e o universo estudantil fazia dela, sem dúvida, uma cidade muito maior e cosmopolita que a velha Taubaté. Na faculdade, ele se envolve com a imprensa, com idéias anticlericais, as leituras de Nietszche que fez na juventude tornam-se mais encorpadas.

No entanto, ele precisava de um trabalho depois de formado e seu avô novamente consegue abrir portas com seu prestígio: Lobato vai ser promotor em Areias. A curta passagem pela promotoria de Areias foi um dos momentos mais duros da vida do escritor taubateano que havia se acostumado com aquele ambiente cosmopolita da capital paulista. Experiência pior viveria quando, logo depois, seu avô lhe dera a posse da fazenda de seu falecido pai em Buquira, na Serra da Mantiqueira. Lobato estava ansioso por tentar utilizar nessa terra todas as modernas técnicas agrícolas que ouvira falar nos jornais, essa fazenda seria o seu laboratório. No entanto, ele esbarrou na má vontade dos seu trabalhadores, capatazes e camaradas. Diante de tal fracasso, Lobato escreve um artigo para o Estado de São Paulo chamado A Velha Praga no qual ele identifica no caipira o motivo do Brasil ainda ser um país pobre e miserável. O caipiria seria um parasita da terra, dela apenas quer se alimentar, não está disposto á mudanças, ele trava o progresso. O artigo tornaria Lobato famoso, temos que lembrar que nessa época, começo do século XX, ainda era dominante o ideal romântico sobre o índio e nosso país, e Lobato desconstrói todo esse mito com base em sua experiência.

Essa visão romântica é coisa de quem não conhece realmente a situação do campo, dizia. É uma invenção de uma elite que vive olhando para a Europa, que se prende á futilidades, que quer aparentar ser culta e civilizada com seus bacharéis. Nesse momento podemos perceber como Lobato é pontual e como não dispensa ataques á ninguém, muito embora ele esteja também contaminado de um pouco desse "modismo" de nossas elites, principalmente no preconceito para o trabalhador nacional e a valorização do homem caucaseano, como falamos no post anterior. Além disso, localmente ele ainda era afiliado ao partido conservador de seu avô, ajudando-o inclusive no caso do crime do Visconde como advogado.

Ora, sua polêmica foi utilizada pela mesma elite que criticava como argumento para o projeto de embranquecimento da população local. O ponto máximo de sua consagração é quando o então candidato á presidência, o jurista baiano Ruy Barbosa adota a imagem do Jeca Tatu em sua propaganda. Anos depois, com base em estudos realizados por médicos sanitaristas em meio ao sertão, Lobato voltaria atrás, ele identificaria qual a verdadeira praga: as péssimas condições de vida. O caipira era assolado por doenças como o amarelão que lhe impediam de ser um trabalhador nato. Esse seria o problema vital, nome, aliás, de um de seus livros. Envolve-se então na campanha do sanitarismo, mudando então o Jeca tatu de preguiçoso incurável á homem rico e forte se tratado.

Lobato criticava a elite nacional por se apegar demais á Europa e uma de suas tentativas de emancipar o Brasil, por assim dizer, desse laço seria a construção de uma editora nacional (antes todos os livros brasileiros tinham que ser editados e publicados em Portugal), esforço para o qual contou com a ajuda de muitos amigos escritores e jornalista do Estado de S.Paulo, onde desde seu pioneiro artigo passou a trabalhar. Se não morria de amores pela Europa, admirava pelo menos o Estados Unidos, por ter ultrapassado a condição de colônia e se tornado uma república democrática e progressista (embora ele também tenha duras críticas á democracia, que podem ser conferidas n'O Presidente Negro). Admirava especialmente Henry Ford, o criador do carro Ford Modelo T que revolucionou o mercado por produzir carros em escala industrial, mas não por esse fato e sim por sua iniciativa de fomentar o trabalho (afinal, Ford queria que seus próprios trabalhadores comprasse seu carro, que ele fosse acessível á todos).Tornou-se adido da embaixada brasileira nos EUA durante o governo Washington Luís e essa experiência foi uma das que mais lhe marcaram.

Em busca de emancipar o Brasil economicamente, enquanto o fazia culturalmente com sua editora Companhia Nacional, Lobato se envolveu na campanha pelo petróleo. Estávamos nos primeiros anos da Era Vargas e Lobato já era visto como um elemento ligado ainda á República Velha. Além de mal visto pelo novo governo havia também a proposta de desenvolver a indústria de base no país e o medo do comunismo, por isso quando Lobato começa a atacar o governo por não incentivar á pesquisa do solo e por se aliar gradativamente aos governos fascistas europeus começa a ser perseguido. A partir da instituição do Estado Novo em 1937 ele passa a ser perseguido com mais força, chegando até a ser preso por um certo período. Quando no fim da ditadura, em 1945, é solto e a campanha do Petróleo é Nosso ganha força, mas agora pela voz do general Horta Lima.

Profundamente desiludido com a Segunda Guerra Mundial e o governo que se delineava com o Marechal Dutra, para ele simples instrumento dos militares e empresas estrangeiras, Lobato passa a se aproximar do comunismo, defendendo agora como solução para o desenvolvimento do Brasil a reforma agrária. Agora nasce um novo personagem Zé Brasil, que tem como seu principal inimigo um poderoso coronel. Lobato ensaia até alguns votos de entusiasmo á Luiz Carlos Prestes, mas então entra em profunda depressão quando seu filho falece, retirando-se da vida pública. Vem a falecer em São Paulo em 1948.

Como podemos ver, Lobato é um feixe de contradições: em determinado ângulo apóia a democracia e em outro a despreza, conserva um interesse no progresso acima de tudo, mas escorrega em muitos preconceitos ainda da sociedade escravocrata. No entanto, sua pena era afiada e ninguém escapava dela, nem seus amigos e nem seus inimigos. Se visse algo que não concordasse logo dizia e se visse uma deficiência logo colocava a mão na massa para saná-la. Lobato é um tema que não se esgota, pois ele próprio era um homem multifacetado, haviam muitos Lobatos e até hoje ainda há muito o que falar sobre eles.

segunda-feira, 18 de janeiro de 2010

Desastre

Depois de alguns dias turbulentos de recesso finalmente voltei á ativa - pelo menos aqui no blog.
E a primeira coisa que gostaria de postar seria algo alegre, para começar bem o ano, mas infelizmente não é possível fazê-lo. Falo isso porque na passagem de 2009 para 2010 aconteceu uma série de desastres no Rio de Janeiro e São Paulo, além de Minas Gerais, e não falar deles seria uma injustiça para quem os viveu na pele.
Na virada do ano fomos surpreendidos por uma enxurrada no Rio e em São Paulo. Em Angra houveram muitos deslizamentos de barreira e de terra em alguns morros, mas o pior foi em Ilha Grande onde metade de uma pousada foi arrasada. Em São Paulo, os municípios mais afetados foram São Luis do Paraitinga, Cunha e Juquitiba, entre outros. No entanto, pela proximidade e pela familiaridade, o mais chocante para mim foi a destruição de São Luis do Paraitinga.
Não há outra palavra, a cidade foi destruída mesmo! O coreto está debaixo de uma montalha de destroços, a torre da Igreja caiu, as casas perto do Rio também. Só a parte alta se salvou.
Há alguns dias assisti a reprise de um show especial feito em São Luís em homenagem ao canto Elpídio dos Santos (aliás, aqui está uma notícia importante sobre o seu acervo ). E olhar aquela praça, aquela iluminação singular de São Luís, a Igreja, as casas coloridas me deu a sensação de estar olhando algo histórico, algo que já passou. Agora sei porque nosso avós são tão melancólicos quando lembram do passado, porque ele nunca voltará.
São Luís será reconstruída, mas ela nunca mais será a mesma. Esse desastre afastou muitas pessoas da cidade, muitas ficaram traumatizadas, muitas vão ter que recomeçar a vida em outro lugar simplesmente porque perderam tudo.
Assistindo há algumas reportagens percebi que muitos se perguntavam por quê isso agora, afinal, nunca aconteceu antes. E é mesmo de se fazer pensar porque tantos desastres naturais vem acontecendo nos últimos anos. Tsunamis, enchentes, terremotos, furacões, tufões. Bem, o escritor Kut Vonnegut Jr. dizia que a explicação disso tudo era simples: "é o sistema imunológico da Terra tentando nos expelir". A questão ambiental hoje é fundamental, ela deve ser resolvida, porque por mais que as pessoas fingem que ela não existe e que não é com elas, a natureza sempre arruma um jeito de chamar a atenção, do pior jeito possível. Tomara que nesse ano não sejamos presenteados com outras Copenhagues...