quinta-feira, 31 de março de 2011

A data gloriosa

Hoje deixo com vocês uma crônica, retirada do livro Marginália, do polêmico e genial Lima Barreto:

15 DE NOVEMBRO

Escrevo esta no dia seguinte ao do aniversário da proclamação da República. Não fui à cidade, e deixei-me ficar pelos arredores da casa em que moro, num subúrbio distante. Não ouvi nem sequer as salvas da pragmática; e, hoje, nem sequer li a notícia das festas comemorativas que se realizaram. Entretanto, li com tristeza a notícia da morte da princesa Isabel. Embora eu não a julgue com o entusiasmo de panegírico dos jornais, não posso deixar de confessar que simpatizo com essa eminente senhora.
Veio, entretanto, a vontade de lembrar-me o estado atual do Brasil, depois de trinta e dois anos de República. Isso me acudiu porque topei com as palavras de compaixão do Sr. Ciro de Azevedo pelo estado de miséria em que se acha o grosso da população do antigo Império Austríaco. Eu me comovi com a exposição do Dr. Ciro, mas me lembrei ao mesmo tempo do aspecto da Favela, do Salgueiro e outras passagens pitorescas desta cidade.
Em seguida, lembrei-me de que o eminente Sr. Prefeito quer cinco mil contos para reconstrução da Avenida Beira-Mar, recentemente esborrachada pelo mar.
Vi em tudo isso a República; e não sei por quê, mas vi.
Não será, pensei de mim para mim, que a República é o regímen da fachada, da ostentação, do falso brilho e luxo de "parvenu", tendo como "repoussoir" a miséria geral? Não posso provar e não seria capaz de fazê-lo.
Sal pelas ruas do meu subúrbio longínquo a ler as folhas diárias. Lia-as, conforme o gosto antigo e roceiro, numa "venda" de que minha família é freguesa.
Quase todas elas estavam cheias de artigos e tópicos, tratando das candidaturas presidenciais. Afora o capítulo descomposturas, o mais importante era o de falsidade.
Não se discutia uma questão econômica ou política; mas um título do Código Penal.
Pois é possível que, para a escolha do Chefe de uma Nação, o mais importante objeto de discussão seja esse?
Voltei melancolicamente para almoçar, em casa, pensando, cá com os meus botões, como devia qualificar perfeitamente a República. Entretanto - eu o sei bem - o 15 de Novembro é uma data gloriosa, nos fastos da nossa história, marcando um grande passo na evolução política do pais.

Careta, 26-11-1921.

quarta-feira, 30 de março de 2011

Islã

"Para a direita, o Islã representa barbarismo. Para a esquerda, teocracia medieval. Para o centro, um tipo de exotismo de mau gosto. Há, no entanto, uma opinião comum a todos, unânime, que mesmo o pouco que se sabe sobre o mundo islâmico não há muito que possa ser aprovado lá".

Edward Said, escritor e ativista político norte-americano.

Os Bilontras na Capital Tribofe

Achei interessante um texto utilizado pelo Prof. João Rozendo na disciplina Brasil República que pode nos ajudar a repensar a presença popular nos primeiros anos da República: Repensando política e cultura no início da República: existe uma cultura política carioca? de Marcelo de Souza Magalhães (UERJ).

Charge de Angelo Agostini sobre a Proclamação da República (1889).
O texto faz uma avaliação historiográfica dos primeiros anos da República e descobre pontos comuns na fala de nossos historiadores e outros dissonantes. Todos concordam numa coisa: os primeiros anos da República foram conturbados (sobre o motivo há múltiplas visões: a ausência de um modelo político republicano e os conflituosos interesses dos atores sociais envolvidos parecem ser dois tópicos muito utilizados).
A discordância está no cárater dessa mudança de regime: ora é vista como fase necessária e inevitável no desenvolvimento nacional, ora como mudança superficial (o regime é o mesmo, só mudou de nome). As visões sobre esse processo geralmente estão associadas ás ideologias dos historiadores, assim temos monarquistas defendendo que a República representou a continuação dos vícios de antes e republicanos defendendo que esse foi um dos maiores passos para modernizar o Brasil.

Aristides Lobo
O autor utiliza como símbolo dessa diversidade de interpretações o termo bestializado, popularizado pela historiografia e por ela resignificada das mais diferentes formas. Aristides Lobo, quem cunhou a expressão, o fez no calor da hora. Quando ele diz que o povo assistiu á tudo bestializado, segundo Marcelo, estaria se referindo á surpresa da ação e não ao movimento em sim. A historiografia tradicional se apropriou do bestializado como símbolo do povo indiferente e apático e de uma República que começa já autoritária. Chegamos em José Murilo de Carvalho que critica essa visão: para o cientista político, o povo não participou da República porque não quis e não porque não sabia. O povo, como falamos aqui antes, era "bilontra", esperto, e sabia que esse novo regime seria como o anterior, seria elitista e autoritário; a política era "tribofe", impenetrável, sendo assim, bestializado era quem a levasse a sério.

José Murilo de Carvalho
Dialoga com a visão de José Murilo de Carvalho o trabalho de Maria Tereza Chaves de Melo quando afirma que o povo, doutrinado pela propaganda progressista e republicana, já havia consentido com a mudança do regime, ou seja, ele não estava desinformado, o que o pegou de surpresa (na realidade, pegoua  todos de surpresa) foi a ação inesperada da "mocidade militar". A interpretação de José Murilo é marcante justamente por quebrar com aquela visão do povo enquanto espectador passivo dos acontecimentos de nossa história. Marcelo considera fantástica essa interpretação, mas tem suas ressalvas e uma delas é a idéia de que a política era tribofe.
Com base em pesquisas recentes sobre o Rio de Janeiro, o autor encontrou uma cidade politizada e o povo participando da política.O povo podia pedir diretamente ao intendente ou prefeito e até mesmo ao Conselho Municipal. A comunicação existia e, com efeito, muitas de suas queixas foram solucionadas (por pressão ou por politicagem).

Largo de S. Francisco de Paula, Rio de Janeiro. Fonte: Marc Ferrez, 1890.
Sendo assim, o Rio de Janeiro, como nos diz o subtítulo, tinha uma cultura política? Em primeiro lugar, o que se entende por cultura política? Estas pesquisas recentes tomam como referencial teórico Serge Berstein e sua concepção de cultura política; para ele, seria uma visão de mundo, comprometida com um certo passo comum, orientando as ações políticas e não um conjunto de práticas liberais e democráticas, como se costuma afirmar.
Se olharmos para as elites políticas, como estas pesquisas vem fazendo, então temos sim uma cultura política carioca que pode ser resumida em uma tensão entre intervenção e autonomia. O Rio de Janeiro carregava o peso de ser a capital do Brasil, o que acarretava mudanças estratégicas do governo federal, e de não deixar de ter que representar seus habitantes. O dilema na política local era: obedecer aos interesses da União ou dos cidadãos desta cidade?E muitos políticos lutavam entre si tendo esse dilema como motivo: prefeitos eram pressionados pelos habitantes, intendentes pelos prefeitos, o Conselho Municipal pressionava prefeitos e intendentes, e vice-versa.
No entanto, se olharmos para os habitantes da cidade veremos, segundo Marcelo, que eles encontraram outros canais, que não os da política oficial, para se manifestar. E seus interesses eram os mais diversos. Quando se envolviam na política oficial era para pedir algo que os ajudasse a sobreviver (melhor moradia, melhor alimentação, etc) e não para realizar o seu projeto político. Ora, se os paulistas, pernambucanos, amazonenses, dentre tantos outros, faziam o mesmo, como podemos chamar isso de uma cultura política carioca? Antes de tudo, estamos falando de uma negociação entre o povo e o governo, onde o primeiro buscar melhorar suas condições de vida e o segundo conseguir mais legitimidade popular (se bem que Marcelo aponta para uma revisitação do clientelismo).
Se uma cultura política não engloba a maioria da população de uma cidade, então temos uma cultura política? Não, essa é a resposta de Marcelo. De qualquer forma, é interessante como ele se apropria de premissas de José Murilo de Carvalho (o bilontra) e dessa historiografia carioca recente (a política não-tribofe). Nos faz repensar no descompasso/compasso do governo e do povo na República e ainda hoje.

terça-feira, 29 de março de 2011

Filosofia da História

A filosofia basicamente se diferencia dos outros tipos de saber por procurar o conhecimento através desses três elementos:
-A radicalidade, no sentido de ir á "raiz" dos problemas;
-Pelo uso de métodos rigorosos (axiomas, teses, hipóteses, etc.);
-A visão totalizante, que tenta englobar a maioria dos aspectos possível.

O que será então a Filosofia da História? Ora, é toda reflexão sobre a natureza da história e do conhecimento histórico. A Filosofia da História ajudaria á dar sentido a sucessão de acontecimentos (Voltaire cunhou a expressão justamente para criticar os historiadores que faziam da história uma simples reunião de "causos"), nos apresentando eles como conectados á processos maiores (estruturais).
A Filosofia da História virou refém do ideal de progresso e do eurocentrismo: Kant, por exemplo, acreditava que a Humanidade tinham estágios e que a Europa tinha passado por boa parte dele, sendo destino dos outros países passar por estes mesmos estágios. Hegel é o caso mais marcante: para ele, a história era regida por uma entidade chamada de Espírito do Mundo, e tinha um ponto de chegada, o desenvolvimento moral e intelectual do homem. Marx também dota a história de um enredo, como seu mestre, mas aqui o motor das mudanças não é mais o espírito, mas as condições materiais de existência (simplificando, a economia e política), e seu objetivo é um mundo sem classes sociais.
Historiadores e filósofos do final do século XIX, como Dilthey, criticam essa visão generalista e especulativa da história. Para eles, a história não tinha um sentido visível e não possuía estágios. É consenso hoje, principalmente entre os historiadores e filósofos pós-modernistas, que a história não possui um sentido, pois isso seria reduzir demais um objeto tão complexo. Mas isso não quer dizer que a Filosofia da História acabou.

quinta-feira, 24 de março de 2011

Ave Monicelli!

Mário Monicelli
Em janeiro desse ano descobri, a caminho do Rio de Janeiro, que um dos maiores gênios da comédia tinha se suicidado. Mário Monicelli se jogou do quinto andar do hospital onde estava internado. Li a notícia na revista Piauí e num primeiro instante duvidei, mas depois tive certeza.
Quem é Mário Monicelli? Você deve estar se perguntando. Monicelli era um cineasta italiano que fez mais de 70 filmes, sendo indicado ao oscar várias vezes. Começou sua carreira nos anos finais do fascismo nos estúdios italianos da futura Cineccitá, apesar de ser um ferrenho comunista. Seu primeiro filme de sucesso foi feito em 1949 com o comediante Totó, que participaria de muitos outros. Em seguida vieram filmes também hilários como O Incrível Exército de Brancaleone, Os Companheiros, Gangsters Falhados, Casanova 70 e a franquia Meus Caros Amigos. Sempre trabalhando com grandes nomes do cinema italiano como Vittorio Gassman (o imortal Brancaleone), Gian Maria Volonté (que, pro sua cara de poucos amigos, era sempre escalado como vilão, principalmente nos faroestes), Ugo Tognazzi (conhecido pela franquia Meus Caros Amigos e pela primeira versão da Gaiola das Loucas), Claudia Cardinale (a bela italiana que chegou a filmar na Amazônia o filme Fritzcarraldo), Alberto Sordi, etc.


Vittorio Gassman

Ugo Tognazzi
Cláudia Cardinale
O que se tornou marca de Monicelli era o seu estilo prático de se fazer cinema e a sua facilidade de transformar principalmente as desgraças em comédia. Por isso me espantei com a notícia. Não que eu pensasse que ele fosse daqueles homens que riem de tudo, um bobo. Para mim, seu humor era mais sutil, era um traço de que era um homem inteligente e espirituoso, mas melancólico, como, de fato, a maioria dos comediantes são.
O que o teria levado ao suicídio? Eu me perguntava. Há algum tempo ele tinha sido diagnosticado com câncer de próstata em estágio avançado. As dores eram insuportáveis e ele manifestava para os visitantes o desejo de morrer cada vez mais. No dia 29 de novembro de 2010 ele realizou o seu pedido.

Por que estou falando dele só agora? Além da agitada volta ás aulas, não pude dar a atenção aqui para esse acontecimento marcante. O que me lembrou disso foi a menção de um amigo a um de seus filmes. Por sorte tenho dois de seus filmes: Brancaleone e Meus Caros Amigos. O primeiro é uma paródia sobre os cavaleiros medievais e o segundo a história de um grupo de senhores que gostam de aprontar certas peças nas pessoas para passar o tempo. Falando nisso, agora vou assistir á um deles, celebrar a maior herança de Monicelli: esse humor descomprometido e iconoclasta.
E como dizia o lema daquele bravo exército de quatro pessoas (ou seis):
Branca, Branca! - Leon, Leon!

quarta-feira, 23 de março de 2011

Born to be wild...

Liberdade. A palavra-chave para entender um filme de 1969 é liberdade. E esse filme, talvez seja, uma peça importante para se entender o clima de uma época. Os turbulentos anos 60, onde todos anseiavam por mudanças, por mais liberdade, diante de ditadores, massacres e guerras.
O nome do filme é Easy Rider, que se tornou conhecido em terras tupiniquins como Sem Destino, e conta a história de dois motociclistas que decidem viajar de Los Angeles até New Orleans, no sul do EUA. No caminho eles se encontram com caipiras, fazendeiros e um advogado que se simpatiza com o seu modo de vida. É um road-movie; 99% dele se passa nas estradas, longe dos grandes centros urbanos, perto do que se acostumou chamar de "coração da América", onde o sonho americano parece ter virado qualquer coisa menos sonho há muito tempo.

Não se preocupe, leitor, eu não farei uma análise aqui do filme hoje. Apenas o apresentei porque me deparei com a sensacional crítica de meu amigo Diego Gatto no seu blog. Recomendo á vocês que leiam essa crítica e vejam o filme.

O crime do Visconde II

Taubaté em 1900. Fonte: CDPH-UNITAU.
Hoje concluiremos a saga judicial que movimentou a cidade de Taubaté nos idos de 1903. No entanto, saímos do terreno da crônica polícial para a crônica política. Precisamos explicar que o crime do Visconde clareou muito bem o jogo político local. Após os primeiros dias do processo, a trama mergulho na maquinaria política. Farpas eram trocadas nos jornais e nas ruas. Mas quem eram os combatentes?

Como vimos, do lado do Visconde se avolumou a facção conservadora local, sejam monarquistas, católicos, fazendeiros tradicionais ou tudo isso junto. Essa facção dominava a Câmara quando foi proclamada a República e transformada em Intendência. Os primeiros anos da República foram instáveis, anárquicos, porque se procurava um modelo de república. Essa instabilidade permitiu a criação de modelos locais como o personalismo do coronel João Affonso Vieira, primeiro intendente, e a política mais liberal do coronel José Benedito Marcondes de Mattos.
O Diretório do Partido Republicano Paulista foi fundado pelo senador Joaquim Lopes Chaves e entregue ao seu enteado, o coronel Marcondes Mattos, que permitiu que grupos sociais então novos participassem da política como os industriais, na figura do então jovem Félix Guisard. Essa facção mais liberal comandou o poder municipal até 1907, quando a facção conservadora assume o poder liderada pelos irmãos Pedro e César de Oliveira Costa.
Aí estão os combatentes: a oposição (conservadora) e o Diretório do PRP local (liberal). Pode parecer muito simplista, mas era isso.

Quanto ao processo iniciado por Kreye, como dissemos, veio em seu socorro Eugênio Guisard com a ajuda de seus amigos do Centro dos Operários Livres num primeiro momento e, posteriormente, de seu irmão Félix. O Visconde já visitara Kreye e encontrando a sua esposa tentou fazê-la convencer o marido a desistir do processo. Diante da recusa, conseguiu que o demitissem de seu emprego na Estação. Primeiro, seus advogados tentam  reduzir a acusação para agressão leve, uma vez que Kreye não foi ferido mortalmente. Depois, para prolongar ao máximo possível, o acusado não comparecia nas convocações feitas pelo júri e quando o fazia era por escrito.
Nos bastidores, nosso vigário geral e ex-vereador recorreu ao chefe de polícia de São Paulo. Sabendo que Kreye fora acusado de algum crime antes de chegar na cidade, Nascimento Castro pediu que ele vasculhasse os arquivos da polícia - a ligação entre o chefe de polícia na capital e o vigário local era o senador, padre e irmão de Nascimento Castro, José Valois de Castro. O chefe de polícia encontrou: caso de ofensa verbal e tentativa de homicídio. Kreye foi preso na Estação Ferroviária e mandado para São Paulo. Félix Guisard, finalmente, declara apoio ao operário e consegue fazer com que seja solto da prisão na capital paulista.

Estação Ferroviária Central do Brasil em Taubaté. Fonte: CDPH-UNITAU.
As acusações prosseguem na imprensa: Augusto César Monteiro declara que irá fechar o Centro dos Operários Livres, principal fiador da defesa do operário ancião, e Eugênio Guisarde responde desmascarando a conspiração feita para prender Kreye na capital e declarar o centro como anarquista para poder fechá-lo por meio de um telegrama de Nascimento Castro á seu irmão. Euzébio da Câmara Leal, na última sessão do júri, declara que Félix Guisard é um homem desumano que explora ao máximo os seus operários e que ajuda o sindicato anarquista de seu irmão.

Félix Guisard.
No final das contas, ninguém venceu. Desgastado pelo processo, Kreye concorda com a proposta de seu advogado de fazer um acordo, declarando o Visconde inocente e acabando com toda essa confusão, que já vinha custando muito caro ao bolso do velho alemão desempregado. Benjamin Motta, em seu discurso final, culpa a sociedade desigual e autoritária por toda essa farsa.

O significado desse caso, politicamente falando, é grande: ele demonstra o poder que desfrutava os setores conservadores, mas também mostra que a política mudou, não está mais tão pautada assim no autoritarismo e personalismo (afinal de contas, se fosse no tempo do Império, quando os setores conservadores estavam em alta, o caso seria facilmente abafado, sem nunca chegar aos tribunais).

O brasileiro

"Embora colocados pelas elites dominantes no muro das lamentações, parece que os brasileiros percebem a vinda da alegria nas mais singulares manifestações de vida. Essa forma de viver é heróica. (...) Essa energia espiritual é mais construtiva do que todas as forças sociais desagregadoras que há quase quinhentos anos foram desencadeadas pelo homem moderno".

Victor Leonardi, antropólogo, historiador e escritor, em Entre Árvores e Esquecimentos: História Social nos Sertões do Brasil (1996).

segunda-feira, 21 de março de 2011

Educador e Anti-educador

Esse post resulta de discussões feitas em sala de aula, na disciplina de Filosofia da Educação com o professor Stelio Dantas:

O que é educação? Educação é um processo no qual um indivíduo adquire conhecimento.
Existem vários tipos de conhecimento, como já discutimos aqui antes, sendo assim a educação pode ser feita nos mais diferenciados espaços.
Por que a escola, então, é vista como espaço privilegiado da educação? A escola é uma instituição criada quando as sociedades se tornam tão complexas e especializadas que precisam de um espaço e de um profissional dedicado exclusivamente á educação.
A educação não é neutra. Ela pode transmitir uma herança cultural ou uma ideologia á seus aprendizes.
Muitos pensadores da educação concordam que sua principal função, sua maior força, seja construir indivíduos autonômos, independentes. Sendo assim, quando a educação é usada para incutir na cabeça das pessoas que as coisas não devem mudar e que ele deve obedecer á alguém estamos falando de anti-educação.
Enquanto o educacor visa criar a autonomia, o anti-educacor reproduz a dependência e o conformismo.

As amazonas do Amazonas II

Trajeto da expedição de Francisco de Orellana.
Como dissemos anteriormente, as amazonas são parte de um imaginário construído sobre a região amazônica. Parte de um imaginário que reconhece a magnitude da natureza e a inferioridade do homem nativo, no nosso caso, da mulher nativa.
Mas os cronistas reconhecem nas amazonas a sua bravura, ferocidade e organização, como podem então elas serem inferiores? Carvajal constrói sua narrativa como um épico, tendo os conquistadores comandados por Francisco de Orellana como heróis. Se ele reconhece a "civilidade" de certas tribos e a "virilidade" de outras, como a das amazonas, elas não chegam nem perto da civilização e da força dos conquistadores.
A vitória da tripulação de 57 homens sobre um exército de índios comandados pelas mulheres guerreiras reforça essa superioridade. Essa idéia de superioridade tem profundas raízes religiosas e políticas e, de certa forma, permeou a história da colonização, seja ela hispânica ou portuguesa, chegando até nós ainda. É a "peversão da memória", como coloca o historiador Hideraldo Costa, é a sobrevivência dessa visão eurocêntrica que enxerga no homem amazônico um ser inferior.

As mulheres guerreiras do Daomé.
A historiadora Maria Izilda Santos Matos fez um estudo interessante sobre o mito das amazonas e a questão do gênero nos primeiros anos da Conquista. Apresentaremos aqui algumas de suas reflexões á seguir. Antes de tudo, a autora ressalta que a idéia de mulheres guerreiras é antiga e está presente por quase todo o Velho Mundo, seja na Grécia ou no Daomé. Essa seria, portanto, uma idéia recorrente na mentalidade mundial, de certo modo. Podemos encontrá-la até em algumas tribos amazônicas, onde se fala de um mundo primordial controlado pelas muheres, onde os homens se livraram de sua tirania através da força de um herói-reformador (Jurupari) ou capturando seus objetos sagrados (as flatuas, na lenda dos Mundurucus). Estes mitos são usados para legitimar o patriarcado.
Na cultura européia entre os séculos XVI e XVII, a situação não era muito diferente: a mulher era vista como um ser inferior, intelectualmente, sendo por isso responsável pelo lar. O mito das amazonas é construído, com base em lendas greco-romanas, ibéricas e amazônicas, de forma a incluir dentro dele um modelo ideal de homem e de mulher. Uma sociedade comandada por mulheres fortes, ricas, comandadas pelo desejo (utilizando os nativos como objeto, aliás, de seus desejos sexuais) e com uma espécie de maternidade seletiva (aceitando apenas mulheres) era uma inversão da ordem. Em parte, elas lembram muito os conquistadores (na virilidade e ganância), mas o marcante mesmo é sua completa diferença com o modelo de mulher esperado: aquela mulher que mantém sua virtude prezando sua castidade e não a promiscuidade; que não se envolve em assuntos ligados ao governo, riqueza e guerra; que ama antes de tudo seus filhos.
O mito das amazonas foi construído pelos homens para incutir na cabeça das pessoas, principalmente das mulheres, de que o seu papel era diferente daquelas mulheres guerreiras. No entanto, como todo mito construído sobre outros mitos, ele está cheio de incoerências e pode ser utilizado das mais variadas formas. Pode ser que muitas mulheres se simpatizavam com as amazonas, vendo sua sociedade como ideal, onde elas teriam mais liberdade. E, de fato, as amazonas foram utilizadas no futuro como argumento para discursos á favor das mulheres: seja como apoio ás rainhas européias no século XVIII, seja como argumento para a igualdade de cidadania entre os sexos durante a Revolução Francesa, seja como símbolo do movimento feminista no século XIX e XX.

domingo, 20 de março de 2011

Laerte

Para começar bem a semana, uma tira do genial Laerte:

As amazonas do Amazonas

Frei Gaspar de Carvajal foi o responsável por inaugurar o imaginário amazônico. Foi com seu relato da viagem (1541-1542) do espanhol Francisco de Orellana, saindo do Peru e descendo o rio até chegar ao Oceano Atlântico, que o mundo europeu recebeu as primeiras notícias sobre esse mundo maravilhoso.
Uma floresta imensa e enigmática, animais monstruosos e povos de todos os tipos de personalidade e tamanhos. Mas o mais impressionante de seu relato, com certeza, foi ter encontrado no meio do Novo Mundo o reino das poderosas guerreiras relatadas na mitologia grega: as amazonas.
Depois de meses de viagem, Orellana é encurralado no rio por várias canoas apinhadas de mulheres guerreiras e alguns homens. Flechas voam contra os barcos, acertando inclusive nosso cronista que morreria caolho.
A batalha é maciça. Depois de algumas horas, as canoas somem e as flechas param de serem atiradas. Metade da tripulação é morta. Alguns índios são feitos prisioneiros. Estes contam que são súditos das amazonas, assim como a maioria dos povos da região, e que elas possuem uma aldeia no interior da floresta cercada e composta por um imenso templo de pedra, guardado por dois felinos feitos de pedra.
O relato chegou á Espanha e deixou á todos de queixos caídos. Anos depois, seguindo a expedição do português Pedro Teixeira, o padre Cristóbal de Acuña (1638-1639) faz o mesmo trajeto e ainda procura pelas míticas amazonas. Walter Rayleigh (1617), corsário inglês, viajará ao Orinoco á procura de seu reino e até o cientista francês La Condamineau (1743-1744) se perguntará onde estão as mulheres guerreiras, assim como seu colega cientista Alexander Von Humboldt (1799-1804).
É possível que elas existiram? Se sim, o que aconteceu com elas? Muitos se dedicaram á responde essa questão. Alguns encontram na tradição tupi, as amazonas na forma das icamiabas, mulheres que não concordaram com as leis propostas pelo herói-reformador Jurupari para sujeitar á mulher ao homem.
Em muitas etnias amazônicas, a mulher tem um papel importante, substituindo o homem em certas funções como a caça e a pesca. No entanto, notícias sobre uma tribo feito somente por mulheres guerreiras ficaram restritas ao período colonial. Pesquisadores encontraram outro nome para elas: Icamiabas ou "mulheres sem maridos". Icamiaba também era o nome de um morro no Equador, mas verificou-se que ali não habitavam mulheres guerreiras.
Terá Carvajal inventado tudo isso? Essa é outra hipótese. No relato do frade aparecem menções á gigantes, assim como nos relatos posteriores também surgiram as figuras de monstros acéfalos, dragões, sereias, etc. O historiador Auxiliomar Ugarte trabalha com a hipótese de que a consciência do fabuloso e a perspectiva de explorar algo totalmente novo tenha confundido e muito seus primeiros exploradores.
Afinal, estamos falando de homens que ainda conviviam com um imaginário medieval, um imaginário fantástico. Carvajal interpreta esse novo mundo segundo o referencial de sua cultura. O historiador Antônio Porro acredita que Carvajal tenha confundido um povo, os Conduris, com as mulheres guerreiras, por causa de suas feições físicas e da região que então habitavam.

As amazonas são parte, uma das mais importantes, do imaginário construído sobre a região. Um imaginário que enxerga nessa região tão enigmática e desafiadora ora o paraíso ora o inferno. Um imaginário que se modifica com os séculos, mas que mantém um certo traço essencial: a de uma natureza exuberante convivendo com um povo "selvagem" ou "inferior".

Democracia

A democracia é antiga, o liberalismo é moderno; e um dia eles se encontraram e se casaram. Desde então, a tirania e a ditadura – essas duas tias que não se casaram – ficam atazanando o casal para que eles não possam ser “felizes para sempre”.

Democracia liberal é o regime sócio político das decisões da maioria sem que se perca qualquer garantia dos direitos básicos de minorias.

Democracia liberal sem bom senso é como sexo sem camisinha. Há prazer, mas uma hora você ainda morre disso


Fonte: Democracia em aforismo, Paulo Ghiraldelli Júnior, filósofo paulista.

sábado, 19 de março de 2011

A dor e a reflexão

O Japão, um país considerado um dos mais desenvolvidos do mundo, está passando por uma tragédia que lembra em muito as tsunâmis que atingiram o sudoeste asiático, o "primo pobre" dos Tigres Asiáticos. Não só isso: para nós, brasileiros, muitas cenas lembram os deslizamentos de terra que aconteceram no começo do ano na região serrana do Rio de Janeiro.
A maioria das cenas, contudo, são tão impressionantes que lembram mais cenas de filmes apocalípticos, principalmente aquelas imagens em que mostram a água invadindo as ruas e levando com ela carros e casas como se fossem peças de playmobil.
Tal tragédia tem sido usada como argumento de que o fim dos tempos está realmente perto. Bem, o fim dos tempos esteve tão perto tantas vezes, ao longo da história, que esse pode ser muito bem mais um alarme falso.
Mas isso não minimiza o peso dessa tragédias, assim como das demais. Os deslizamentos de terra que acontecem anualmente no Brasil, como já cansamos de falar aqui, são frutos da natureza, mas principalmente de uma negligência do poder público e da população (isso já cansamos de falar aqui). Tanto que foi anunciado um projeto para fiscalizar áreas de risco e prevenir tais fenômenos climáticos.
No entanto, o Japão é um país que teve a infelicidade de se construir em cima de uma área de instabilidade tectônica, o que faz dos terremotos rotineiros. Os japoneses criaram todo um costume e um aparelho de prevenção sobre esse tipo de fenômeno natural e outros. Nesse caso, o que pesou foi o azar. O azar de ocorrer um fenômeno dessa magnitude, uma explosão vulcânica que produziu um maremoto terrível que se refletiu por boa parte do mundo.
A destruição de um usina nuclear também suscitou antigos temores. Passou-se a falar e muito sobre a energia nuclear e os seus riscos. Pode parecer que não, mas o governo refletiu um pouco sobre a construção de Angra III. Nós (e metade do mundo) ainda estamos procurando novas formas de energia, principalmente após os apagões do Nordeste, esse ano, e de São Paulo, ano passado, provocado pelas usinas de Sobradinho e Itaipu.

Resumindo, essa tragédia foi um momento que nos emocionou, através do sentimento de surpresa e de dor que faz com que as fronteiras realmente se diluam, e nos fez refletir sobre os rumos que estamos tomando, principalmente na questão da habitação e das fontes de energia.

sexta-feira, 18 de março de 2011

O poder e o bolso

José Roberto Arruda.
Ontem, José Roberto Arruda, o governador do Distrito Federal que foi acusado de fazer parte do Mensalinho do DEM, deu uma entrevista na revista VEJA na qual reconhecia que aceitou financiamento ilegal para sua campanha e enumerou outros políticos que fizeram o mesmo: Agripino Maia, Demóstenes Torres, Marco Maciel, Cristóvão Buarque, Gilberto Kassab, etc.
E disse que isso era normal.; fazer política no Brasil é isso. "Ninguém se elege pela força de suas ideias, mas pelo tamanho do bolso", concluiu.
O caso todo lembra  a denúncia do senador Roberto Jefferson que revelou o esquema do mensalão do PT anos atrás. Decididos a não afundar sozinhos, ambos deram os nomes aos bois.
Essa acusação atingiu não só o prefeito de Sâo Paulo, Gilberto Kassab, quebrando um pouco a sua imagem de "político inovador" e atrapalhando um pouco a sua subida para o governo do estado, mas uma coligação entre os partidos PSDB, DEM e PPS que se pretendia fazer para criar uma oposição mais forte e coerente.
Interessante também é o desabafo com relação ao financiamento das campanhas. Essa questão deve ser um dos maiores obstáculos para a reforma política. Se ela for realmente executada terá de redefinir o financiamento das campanhas, acabar com esse lobby entre empresas e políticos.

quinta-feira, 17 de março de 2011

Caserna e rua II

Continuando a debater sobre a Proclamação da República, gostaria aqui de refletir um pouco sobre as conclusões de Celso Castro e Maria Thereza Chaves de Mello, expostar no penúltimo post:
A tradicional Festa da Penha no Rio de Janeiro dos anos 40.

Celso Castro considera a Proclamação da República o debute dos militares enquanto atores políticos. No entanto, durante a República Velha, exceto os primeiros anos do regime (os governos dos marechais Deodoro da Fonseca e Floriano Peixoto, conhecido como a República da Espada), os militares permaneceram como personagem secundário diante da atuação das oligarquias regionais na política. O que houve com os militares?

Quando Maria Thereza Chaves de Mello conclui sua tese, acrescenta que essa transformação da rua enquanto espaço político fez da sociedade fluminense mais politizada. O povo da cidade do Rio de Janeiro (ela está sendo específica) consumia a política, embora não tivesse meios de alcançá-la (ou não quisesse). Então, quando a população local deixou de ser política e tornou-se indiferente á política?
A marcha dos oficiais, com a participação de um civil, conhecida como os 18 do Forte de Copacabana, em 1922.

Não estou, com essas perguntas, crucificando os autores por não respondê-las. Um estudo é assim: responde algumas perguntas e fabrica novas, que serão respondidas por outros pesquisadores. Achar as respostas para as questões é que faz a ciência se movimentar, continuar viva. Só podemos cobrar dos autores as respostas para as perguntas que eles se comprometeram a responder, no caso, foi a Proclamação essencialmente militar e o povo assistiu á tudo bestializado? Estas perguntas foram respondidas, mas, no meu caso, seus trabalhos geraram estas novas indagações expostas acima.

Vou tentar expor aqui alguns argumentos e algumas respostas possíveis: estamos falando, agora, da República Velha, do período posterior á Proclamação, tema destes autores. A bibliografia sobre a República Velha, que é extensa (teve seu boom na passagem dos anos 70 para os anos 80), é unânime em considerar esse período como essencialmente oligárquico e descentralizado, politicamente. Após os primeiros anos, que foram turbulentos, há a criação de um pacto entre as oligarquias regionais - o que ficou conhecido como Política dos Governadores ou Invenção Republicana, segundo o cientista político Renato Lessa. Nesse pacto as oligarquias mais fortes economicamente se sobressaiam, nesse caso se alternando no poder federal - aí temos a constante presença de São Paulo e Minas Gerais no comando do país, fato que se popularizou através da expressão "política do café-com-leite". No entanto, estudos recentes questionam/relativizam tanto a Política dos Governadores como a do café-com-leite.

Na bibliografia tradicional, o Exército aparece como personagem secundário, totalmente corrompido por uma sociedade extremamente oligárquica que o utiliza como solução-tampão para os eventuais casos de rixas regionais. O povo do Rio de Janeiro, então, como alvo das medidas altamente elitistas dessa classe política, que desejavam criar uma cidade "civilizada", aos moldes das européias.
José Murilo de Carvalho

Um autor que é presença constante na historiografia sobre a República, o qual inclusive tanto Castro como Melo dialogam, é o cientista política José Murilo de Carvalho. Segundo Carvalho, a população assistiu á tudo bestializada porque sabiam, pelo andar da carruagem, que não fariam parte do novo regime, uma vez que ele continuava nas mãos de um círculo muito fechado, a elite. Não que o povo não tivesse as armas para entrar na política: ele tinha sim, segundo Carvalho, herança das festas religiosas como a Festa da Penha e  das conferências radicais do Império. O povo era, então, "bilontra" porque sabia que a política era "tribofe", ou seja, o povo atuava na política quando lhe fosse conveniente, mas sabia que não seriam bem representados pelos homens do poder.

Quanto aos militares, Carvalho credita á um grupo de jovens oficiais (não especificamente á mocidade militar) não só o mérito de ter proclamado a República, como de participar de outros movimentos sociais mais ativos, como o tenentismo. Pela própria natureza da instituição militar brasileira, existia sempre um setor revolucionário (o dos jovens oficiais) por ser o mais esclarecido e mais explorado. O Exército só criaria um espírito próprio, uma unidade, com sua modernização, encetada durante a República Velha e que culminaria com a Revolução de 1930.

José Murilo Carvalho também concorda que os primeiros anos do novo regime foram turbulentos, mas por causa dos conflitos entre os diversos projetos de República: havia o projeto liberal e federalista dos proprietários rurais, o jacobinismo das camadas médias urbanas e o positivismo de um grupo de militares e intelectuais do Apostolado Positivista do Brasil. Quem ganhou, por ser muito mais coeso, foi o primeiro grupo e impôs, assim, o rosto oligárquico e descentralizado que a República Velha teve.

As conclusões de Carvalho responderiam assim a relativa retração do Exército enquanto ator político durante os anos que se seguriam á Proclamação e uma atitude do povo com relação á política que confundimos com apatia, mas na verdade pode ser definida como utilitarismo. Mesmo assim, as questões continuam em aberto, afinal, essa é apenas uma hipótese, a hipótese de José Murilo de Carvalho. Acredito que antes de realmente concluirmos algo sobre a ação militar e popular na República, seja nos seus primeiros anos ou depois, devemos dialogar com mais autores e suas hipóteses.

segunda-feira, 14 de março de 2011

O crime do Visconde

José Francisco Monteiro, o Visconde de Tremembé.
Hoje estamos em clima de crônica policial: falaremos sobre o polêmico crime cometido por José Francisco Monteiro, o Visconde de Tremebé, contra o operário alemão e funcionário da Estação Augusto Kreye. Um caso um tanto absurdo que dividiu a cidade nas primeiras décadas do século passado (aconteceu em janeiro de 1903) e que hoje foi totalmente esquecido (ou quase).

E tudo por causa de uma cabrita. Isso mesmo. Augusto Kreye criava cabras e certo dias elas fugiram de seu sítio e entraram na propriedade do Visconde de Tremembé. O operário alemão procurando sua cabrita a achou mutilada e pediu ao Visconde que o explicasse o que havia acontecido. O Visconde, um homem de 72 anos, mas ainda corpulento, começou a insultá-lo considerando tal fato uma afronta. Kreye decidiu expor o acontecido na imprensa, no jornal Taubateano.

Curioso, tanto barulho por uma cabra, mas temos que se lembrar de que o visconde era uma figura muito... polêmica. Filho da tradicional família dos Monteiros, José Francisco tinha uma história de sucesso como fazendeiro e empreendedor (basta lembrarmos que a primeira companhia a fornecer iluminação pública era dele) e um temperamento forte. Monteiro Lobato, seu neto, embora nunca tenha admitido abertamente, o via como uma figura tirânica, tanto que somente após a sua morte pode se dedicar ás letras em São Paulo ao invés de ser promotor ou fazendeiro para administrar a "herança virtuosa" da família.
José Francisco, assim como seus irmãos, gozava de muito prestígio: além de mestre da Loja Maçônica local, era membro da tradicionalíssima Ordem Terceira de S.Francisco (catolicíssima aliás) e obtivera seu título de nobreza do imperador por mandar a metade de seus escravos para lutar na Guerra do Paraguai como "voluntários". Sem contar que fora o chefe do Partido Liberal na cidade por quase todo o Império.

Quem era Augusto Kreye para peitar um pilar da comunidade? Nem brasileiro era! Kreye era alemão, vindo de Hanôver, e já tinha experiência como operário no Velho Mundo. Chegou ao Brasil pelo Porto de Santos, como muitos outros imigrantes estrangeiros, e viveu por um tempo na capital paulista procurando emprego. Não sei dizer quando chegou á Taubaté, mas logo ficou amigo de Eugênio Guisard, Astério Braga, Roberto Bretherick (que era dinarmaquês). Esses nomes já eram conhecidos de todos como aqueles homens que eram mais ligados aos operários, seja por sua origem ou por sua ideologia - Eugênio, por exemplo, era irmão do aclamado industrial Félix Guisard, no entanto tinha simpatia pelo socialismo e considerava-se, segundo seu filho Oswaldo B. Guisard, do "ramo pobre da família".
Sabemos que Kreye, com 66 anos de idade, arrumou um emprego como funcionário da Estação da Central do Brasil na cidade e junto com seus amigos fundou uma nova Loja Maçônica Triunfo, Honra e Verdade, já que a local estava, segundo eles, nas mãos dos poderosos e "falsos maçons". Além disso, Kreye também participou do Centro dos Operários Livres de Eugênio, fundado justamente para ir de encontro ao Centro dos Operários Católicos de nosso conhecido monsenhor Nascimento Castro.

A disputa ocorria primeiramente na imprensa, por meio de notas e provocações entre ambos. A imprensa noticiava aquilo como o sinal dos novos tempos ou como o fim da picada. Imagino o burburinho que deve ter corrido na cidade. Todos deviam falar nisso. Seria o embate entre o tradicional e poderoso fazendeiro e o pobre e engajado operário ou entre o mais puro sangue da nossa terra contra um zé ninguém de fora. As pessoas deviam tomar partido ou simplesmente preferir não comentar.

A polêmica saiu da imprensa a partir de 26 de janeiro de 1903, quando Kreye e o Visconde se encontraram no centro da cidade. O Visconde pediu que ele se desculpasse e o alemão disse que não o faria. Furioso, o fazendeiro pegou sua garrucha e deu um tiro no seu desafeto. Felizmente, a bala acertou o chapéu do homem e ninguém se feriu. No dia seguinte, Kreye abria um novo processo contra o visconde por tentativa de assassinato.

Do lado do visconde, um batalhão de advogados se prontificou a ajudá-lo, dentre eles seu sobrinho Augusto César Monteiro e nomes como Euzébio Câmara Leal e seu irmão Gastão. Os irmãos Câmara Leal eram conhecidos por seu forte apego ao monarquismo, Euzébio, por exemplo, disse que a frustração de sua vida fora a Proclamação da República. Assim como eles, ao redor do Visconde passou a orbitar todos os membros da facção conservadora da cidade: seja ela de monarquistas, líderes católicos, republicanos desiludidos, etc.
E do lado de Kreye? A pergunta ficava: quem iria defendê-lo, ou melhor, quem teria coragem? Eugênio Guisard, com o apoio contido do irmão industrial, chamou o advogado paulistano Benjamin Mota. Para quem estuda o movimento operário, Mota é uma figurinha carimbada: maçon, anticlerical e anarquista, fundou inúmeros jornais com essas mesmas características na capital. Mota ficou a par dos acontecimentos e decidiu ajudar Kreye.

Exemplar do jornal A Verdade, 21/09/1907. Fonte: CDPH
O embate acontecia diariamente, mas não no tribunal e sim na imprensa. Os jornais ligados á oposição (no momento, os conservadores), como O Norte e A Verdade, criticavam o Diretório Republicano (controlado pelo setor mais liberal, onde constam o coronel José Benedicto de Mattos e Félix Guisard) e exaltavam a figura e os trabalhos do Visconde de Tremembé. Enquanto isso, os jornais da situação, como O Taubateano, atacavam os "decrépitos e truculentos nobres locais" e clamavam por justiça.
Um caso bizarro tornara-se centro das disputas políticas da cidade. A questão aqui era se o poder e prestígio da monarquia e do café podia vencer o que parecia ser esses representantes de um novo mundo que surgia, se a modernidade ganharia da tradição. Essencialmente, esses eram os termos da questão. No entanto, segundo Soto, as diferenças entre essas facções eram apenas superficiais (questões financeiras e administrativas) e não ideológicas. O que esse crime e sua repercussão revela, para a historiadora, é essa trama de tensões e violências que vivem no subterrâneo da socidade taubateana da época, que se gabava de ser "pacífica e dócil".

Bem, o final do caso do crime do visconde eu conto para vocês, mas em outra hora. Não se zanguem comigo, apenas estou colocando aquele clima de suspense no ar. Não foi eu que inventei isso, é o principal ingrediente das crônicas policiais depois do sensacionalismo, é claro.

Humanidade

"A religião, a ideologia, a economia e os sistemas políticos são todos criações do homem. Sendo assim, precisam estar relacionados com os sentimentos humanos e como espírito humano. (...) As diversas religiões e ideologias existem em função da humanidade, não da desumanidade".

Dalai Lama, sacerdote budista tibetano, n'O Livro de Dias.

Caserna e rua

A visão que a historiografia costuma passar da Proclamação da República é de um golpe dado por militares, onde o povo assistiu bestializado á tudo. Nesse caso, duas leituras são mais do que recomendadas.
O antropólogo Celso Castro em Os Militares e a República contesta a idéia de que os militares em peso fizeram a Proclamação da República, enquanto a historiadora Maria Tereza Chaves de Mello em A República Consentida considera que o povo assistiu ao golpe, mas isso não significa que ele não o apoiou.

Castro, primeiramente, critica a visão tradicional da Proclamação, seja pela exaltação dos seus líderes (Deodoro da Fonseca e Benjamin Constant) seja pela ênfase nos determinismos (que viam a República como algo inevitável e feito por toda uma instituição em peso). Com base em uma análise detalhada dos documentos da Escolas Militares e de seus ex-alunos, Celso Castro chega á conclusão de que a República foi proclamada por um grupo de militares, uma vez que haviam mais tensões dentro da corporação que unidade. Esse grupo era formado por jovens oficiais, a maioria ainda alunos das Escolas Militares (da Praia Vermelha e sua ramificação, Escola Superior de Guerra), vindos em sua maioria do Norte do país e conhecidos na época como a "mocidade militar".

Celso Castro
Esse grupo, no entanto, não era o mais desassistido pelo governo e pelo próprio Exército e sim os dos oficiais que entraram na instituição durante a Guerra do Paraguai. Esses oficiais não eram contemplados com cursos e bons salários, além de suas promoções serem muito lentas, contudo, não eram tão radicais quanto a mocidade militar. Seu protesto era a indiferença e não a ação. O que fez dele o grupo mais radical então? A insastifação com o governo devido ao despretígio para com o Exército e a entrada de novas idéias, muitas radicais e vinculadas ao positivismo, abolicionismo e republicanismo, ajudaram e muito.

Maria Tereza Chaves de Melo também critica a historiografia tradicional: a afirmativa proferida por Aristides Lobo de que o povo assistiu á tudo bestializado, que indicava a surpresa dele diante do fato, foi tomada como a prova de que não houve participação popular no acontecimento. Essa interpretação tem origem monarquista, pretendia afirmar que o povo gostava mais do imperador que do novo regime e foi retomada pelos intelectuais pós-1930 como símbolo de uma república totalmente oligárquica, a qual Getúlio Vargas derrubaria e proclamaria com suas ações a verdadeira república.

Bem, se realmente o povo gostava de seu imperador porque não fez nada diante da Proclamação ou mesmo da expulsão da família real do Brasil? O povo, responde Maria Tereza, estava indiferente aos destinos da monarquia. Por quê? Porque a monarquia perdera a sua garantia simbólica. A historiadora trabalha no campo da política, mas principalmente através dos símbolos que legitimam instituições. Esses símbolos, no caso do império, haviam sumido diante das inúmeras polêmicas do Estado para com a Igreja e o Exército ou mesmo da corrupção e da alta burocracia.

Além disso, outro simbolismo havia chegado: aos poucos entrava na cidade do Rio de Janeiro, palco destes acontecimentos, um ideal modernizador e científico que pode ser percebido na fala de muitos jornais e livros da época. Esse ideal foi conquistando o povo através da imprensa e das imagens (basta lembrar a quantidade de homens analfabetos no início do século XX e saberemos o peso marcante da imagem nessa população). Quando fala em imagens não se refere apenas ás charges que desmoralizavam o imperador, mas principalmente á visão daqueles debates acalorados entre intelectuais nas ruas.

A rua se torna campo da política. O ideal modernizador e científico conquista o povo por causa de sua ampla difusão nas mais variadas formas, como falamos acima, e por estar apoiado em uma sólida crítica ao governo, uma vez que esse só se comprometia mais e mais. Esse simbolismo prevalece assim, na base das críticas e ataques ao governo, na rua, enquanto em círculos mais restritos começam a surgir propostas para um novo governo. Finalmente, o ideal modernizador e científico se une ao republicanismo, argumentando que com a república o Brasil se tornará democrático e desenvolvido.

A conclusão de Maria Tereza é simples: se a Proclamação da República foi em si um ato militar, ela contou, no entanto, com o consentimento do povo, uma vez que o discurso científico havia convencido a opinião pública de que não havia mais salvação para o Brasil dentro do regime monarquista. Essa é a República "consentida".

Como bons pesquisadores, tanto Castro como Melo, por meio de suas conclusões sobre esse ato apontam suas consequências nos momentos posteriores. Qual foi a consequência dessa profissionalização do Exército de que fala Castro? A formação dos militares como atores políticos, cuja inauguração foi nada mais que a Proclamação. Daí em diante, eles só consolidaram esse papel, entre "trancos e barrancos". Qual foi a consequência da propaganda do discurso científico? A rua se transforma em espaço político e exemplo emblemático disso seria mais uma vez a afeição ao novo regime proclamado em 1889. A autora considera que, desde então, a sociedade fluminense tornou-se altamente politizada, ou seja, por boa parte da República Velha, o povo poderia não ter o comando do país (este estava na mão das oligarquias), mas pelo menos ele sabia o que estava acontecendo e protestava contra isso, muitas vezes de forma radical (como no caso da Revolta da Vacina). 

sábado, 12 de março de 2011

Brasis

Thomas, baterista do Restart.
"Têm muitas cidades, acho que eu queria muito tocar no Amazonas. Imagina você tocar no meio do mato. Sei lá, não sei como é o público de lá, não sei nem se tem civilização", disse Thomas, baterista da banda Restart.
Eu poderia colocar aqui milhares de impressões de pessoas, conhecidas minhas ou não, sobre o Amazonas. Alguns tem medo de vir me visitar por causa dos animais ou das doenças tropicais, outros querem que eu traga uma vitória-régia de lembrancinha para eles.
Não vou ser hipócrita, antes de vir para cá eu nem suspeitava como era Manaus ou mesmo o Amazonas. Posteriormente, quando me envolvi na história, pelo menos uma noção bem distorcida eu tinha da cidade - vinculada ao tempo do boom da borracha.
Isso não é espantoso para ninguém: ainda é a região Sudeste que comanda o Brasil e ela pouco sabe das demais regiões. Claro, o Brasil é gigantesco, um país de dimensões continentais, mas com um pouco de bom vontade dá para nos inteirarmos melhor de nosso vizinhos sim.
Na hora me veio na cabeça aquela música de Aldir Blanc e Maurício Tapajós, Querelas do Brasil, justamente quando ela fala:
O Brazil não conhece o Brasil
O Brasil nunca foi ao Brazil
e mais adiante:
O Brazil não merece o Brasil
O Brazil ta matando o Brasil.

Existe um Brazil, aquele que nós criamos e vendemos para o exterior, como um país acolhedor e exótico, e o Brasil, a face real de nosso país que é tão diversa que não conseguimos resumir em uma frase. E o que predomina é o Brazil e por ele predominar as demais regiões que compõem o Brasil estão atrofiando, morrendo em silêncio. E como diz o refrão:
Do Brasil, S.O.S ao Brasil.

sexta-feira, 11 de março de 2011

Inferiores e inconvenientes

Victor Leonardi é um antropólogo brasileiro, mas talvez essa seja uma definição muito limitada para esse grande pensador que transita muito bem entre sociologia, história e literatura. Além disso, sua preocupação em discutir nossos problemas também faz de seus ensaios sempre uma boa leitura. Suas reflexões em Entre Árvores e Esquecimentos: História Social nos sertões do Brasil (1996) foram extremamente produtivas para mim.
O livro é a reunião de ensaios bem concisos e conectados sobre a questão indígena. Basicamente, Leonardi está se questionando porque nunca foi dada a devida atenção ao indígena? Por quê em nossas Ciências Sociais há uma enorme lacuna quando se fala no índio que só vem sido preenchida nos últimos anos por nossos antropólogos? No decorrer do livro ele nos apresentará um rico painel da história nacional e da história indígena e sua hipótese para tais questionamentos, os quais nos determos mais tarde.

Por enquanto, nos deteremos no primeiro capítulo, cujo título é Sobre a bestialidade e a desrazão, e outros argumentos. Em cima da constatação de um pesquisador sobre a visão do índio em Portugal e Brasil o autor nos mostrará como o índio foi visto pelos cronistas e, posteriormente, pelos historiadores nacionais. A conclusão a que chegou Georg Thomas depois de pesquisar e muito documentos portugueses foi de que em Portugal e Brasil havia uma imagem pejorativa do indígena, enquanto no resto da Europa, por conta dos relatos de Colombo e Vespúcio, havia uma imagem mais positiva do indígena, que culminará no mito do bom selvagem.

Ora, essa visão pode ser encontrada em inúmeros relatos de viajantes e cronistas. A maioria os chama de bestas, bárbaros, viciosos, indecorosos, pelos mais variados motivos (organização social "primitiva", hábitos bélicos, andar nu, etc.) Vamos agora aos historiadores: Francisco Adolfo Varnhagen, intimamente ligado ao Estado, defende a escravização e o massacre dos índios como única maneira possível de civilizar esse povo e criarmos uma nação decente. Emblemático ouvirmos isso do "pai da História do Brasil". Os historiadores que viriam a seguir não fugiriam desse menosprezo pelo indígena: Rocha Pombo acredita que era a única maneira possível de colonizar o país, Afonso Taunay relativiza a violência em prol da "ação cívica" dos bandeirantes, Serafim Leite pensa que o trabalho missionário e a colonização tinham de ser intensos para atingir essa massa desvirtuada, Oliveira Viana acha que era melhor exterminar o índio do que vivermos cercados por mestiços que degeneram esse país com sua mentalidade preguiçosa e apática. Claro que existem as exceções, como Fernão Cardim entre os cronistas e Capistrano de Abreu entre os historiadores.

Capistrano de Abreu
Francisco Adolfo Varnhagen
Leonardi lembra que os primeiros historiadores do século XX não podiam reclamar dizendo que havia pouco material sobre os índios para criarem tais idéias sobre eles: os primeiros trabalhos dedicados especialmente aos indígenas foram feitos nos anos finais do século XIX por Karl von Martius, Karl von den Steinen, dentre outros naturalistas estrangeiros que percorreram o sertão e a selva amazônica. Assim sendo, nossos historiadores não olharam para o índio com cuidado porque simplesmente não queriam.

Por que nossa historiografia é tão preconceituosa para com o elemento indígena? Seria porque ela é fortemente positivista? Não, afinal ser positivista não significava detestar o índio, basta nos lembrarmos do Marechal Candido Rondon que era positivista de carteirinha. Além disso, esse preconceito era anterior ao positivismo - o vemos nos cronistas, se lembra? A historiografia brasileira nos seus primórdios era essencialmente eclética, como o era a filosofia nacional. A única coisa em comum era esse desprezo para com o indígena que nada mais era que uma justificativa para os atos nefastos dos colonizadores. O pretexto que eles utilizavam, quando não mencionavam a religião, era justamente o progresso. O progresso econômico só seria alcançado com a domesticação ou destruição desse elemento. Assim a guerra era justificada. No século XIX, já independente, o Brasil agora muda de tática: não há mais uma política oficial de "domesticação", mas apenas a marginalização, o esquecimento. A tática muda, mas a justificativa permanece: o progresso.
O mais interessante desse processo é que essa história oficialista será reproduzida nas escolas e universidades formando assim mais e mais pessoas que pensavam o índio como um empecilho ao progresso. Não podemos nos esquecer também da política indigenista: quando ela finalmente se tornou real se direcionava apenas para integrar o índio ao país e não respeitar sua alteridade. O índio devia se integrar, principalmente através do trabalho e de seu território.
Assim, chegamos aonde Leonardi anseiava: esse tema não vem sido debatido desde então, melhor, não vem sido debatido amplamente. Seja porque essa visão do indígena ainda permaneça ou porque os intelectuais se afastaram um pouco dessa questão. Os historiadores, por exemplo, parecem ter se afastado totalmente, deixando o assunto para os antropólogos. A antropologia realmente deu uma nova tônica para o debate, demonstrando a especificidade de cada etnia, mas esse debate precisa ser muito mais amplo. A história ainda tem muito o que acrescentar sobre esse processo de conflito interétnico (índiox branco) que vem acontecendo á mais de quinhentos anos nessas terras.

quarta-feira, 9 de março de 2011

Da série sínteses numa mesa de bar: Foucault e Certeau

Foucault é filho de Nietszche, enquanto Certeau é pupilo de Freud.
Foucault é o filósofo da disciplina, aquele que encontra o poder onde menos se espera e nos revela seus mecanismos. O interesse resulta de sua vida pessoal: homossexual declarado, sentia-se oprimido pela sociedade de sua cidade natal por sua orientação sexual. Foucault quer ressuscitar as subjetividades e aspectos marginalizados pelo poder através do tempo.
Primeiro, ele identifica o poder. Nos discursos e valores, lá está o poder, tentando disciplinar as pessoas, tentando ensiná-las a cuidar de seu corpo, a separar os "indesejáveis" e punir os infratores de qualquer tabu.
A Ciência, nesse processo, também não é inocente. O conhecimento científico foi usado das mais variadas formas para legitimar o poder, basta se lembrar da frenologia (aquele ramo da ciência no século XIX que com base nas medidas dos crânios diagnosticava as pessoas e descobria quem já nascia criminoso ou louco).
Foucault se simpatiza com os marginalizados do poder, como os homossexuais, os loucos, os pobres, as viúvas, as prostitutas. São figuras que foram apagadas da história pelo poder, pela história oficial. Foucault, como Nietszche, também não acreditava em verdades universais, elas seriam apenas discursos criados para legitimar o status quo. Por essa simpatia e esse ceticismo a filosofia de Foucault foi considerada revolucionária na época e vem se expandido desde então.
Ler Foucault é um trabalho duro, mas recompensador. Suas reflexões são muito interessantes e valem a pena um pouco do sofrimento da leitura. Na minha opinião, Foucault nos seus primeiros anos é mais interessante que o do final de sua vida, porque nessa ocasião ele se tornara muito vaidoso com o reconhecimento de seu trabalho e isso fez suas reflexões tornarem-se mais repetitivas e um pouco apelativas.
Michel Foucault e Michel De Certeau.

Certeau, por sua vez, é o estudioso da anti-disciplina, das trampolinagens perante aos mecanismos do poder. Se aproxima de Foucault pela empatia dispensada aos marginais da história, no entanto seu interesse não provém de sua própria vida, mas pelo estranhamento. Certeau era jesuíta e mantinha um longo namoro com a psicanálise. Ela o ajudaria a se conhecer e a conhecer o outro. Certeau reconhece os limites do conhecimento e o potencial do outro e do estranho para o entendimento.
O estranhamento é motivado por algo que não conhecemos, mas desejamos conhecer; só depois de termos essa impressão é que somos impelidos a conhecer. O outro, no entanto, no decorrer da história, tem sido representado das mais variadas formas nos mais variados contextos, mas sempre de forma preconceituosa, ou melhor, etnocêntrica. Assim, temos o Ocidente falando de seu outro, o Oriente, como algo exótico e inferior, ou mesmo os grupos sociais mais ricos falando de seu outro, os marginais, pobres e loucos, como uma camada bizarra, excêntrica e perigosa da sociedade.
Certeau se lança na história se perguntando como os historiadores avaliam os seus outros. Cada historiador tem seu outro, por assim dizer, pois cada um deles está ligado á uma visão de mundo e á uma posição social, no entanto, existe um outro para todo historiador e é o próprio passado. O historiador pode trabalhar sobre o passado, mas ele vive no presente e não conhece o passado tão bem quanto o presente. Por isso o que o historiador faz é representar o passado com base no presente.
No ramo da sociologia, Certeau, depois de falar dos inúmeros outros da sociedade ocidental, decide investigar como o homem comum, um personagem tão presente que chega a ser esquecido, é representado e se representa. O homem comum é algo pouco representado, pois sua presença, como dissemos é tão visceral, que á pouco material sobre ele e o que há fala de pessoas presas na rotina, no cotidiano, sem peso sobre a história. O homem comum, em outras palavras, assiste a história acontecer. É uma visão tão divulgada que o próprio "homem comum" se apropria dela, convencendo-se de que é verdade.
Certeau, com base em pesquisas antropológicas do cotidiano, discorda dessa visão e mostra que o homem comum não é passivo. O homem comum se mobiliza diante das situações do dia-a-dia e da história. Ele reinventa sua vida com base no que sabe e no que tem á mão. Essa é a arte da invenção do cotidiano.  A idéia de que ele não faz história foi criada justamente para justificar o poder. É só pensar quantas vezes homens comuns se juntaram e ludibriaram as sanções de um rei ou estadista.
Certeau também não é uma leitura fácil, mas certamente suas reflexões, assim como as de Foucault, são vitais para qualquer estudioso das ciências sociais, seja ele historiador, antropólogo, psiquiatra ou sociólogo, por exemplo.

terça-feira, 8 de março de 2011

Tempo de pandemia

Já virou costume assistirmos a cada final e início de ano algum surto de epidemia, seja ela dengue ou gripe viária. Se hoje é assim, imagine como era no começo do século passado?

Vamos dar um pulo na cidade de Taubaté nas décadas finais do século XIX. A cidade era cortada por córregos, como o Córrego do Judeu, onde além de tomarem banhos e despejarem lixo, os moradores do entorno também jogavam seu esgoto ali. Muitas epidemias tambem eram trazidas por visitantes, uma vez que a cidade era ponto obrigatório de muitos viajantes que também levavam consigo em muitas ocasiões certas doenças da capital federal ou de São Paulo. Há que se ressaltar também a condição precária dos esgotos, principalmente no centro, e o grande fluxo de indigentes vindos de outras cidades.
Sendo assim, esse cenário era muito promissor para epidemias que se tornavam no século XIX eventuais. Difícil dizer qual foi o primeiro surto e quando. Habitual eram as epidemias de febre amarela, uma vez que os córregos, como dissemos antes, eram presentes e mal cuidados. Habituais também eram as epidemias de lepra. A municipalidade, com ajuda de doações de fazendeiros locais e do governo federal, construiu uma lazareto perto do Convento Santa Clara onde, quando havia pacientes presos lá, era isolado a ponto da estrada para o lazareto ser interditada.

Se o perímetro urbano era constamente assolado por doenças dessa natureza, a população que vivia na zona rural então vivia completamente desassistida. Amarelão, mal de Chagas, lepra, leshimaníose, eram apenas algumas das doenças mais comuns no campo. No entanto, o homem do campo podia recorrer aos medicamentos naturais e aos curandeiros. Quando muito grave, aos doutores da cidade.
A preocupação com a saúde criou uma figura muito particular: os doutores municipais ou inspetores de higiene. Sua função era dar á Câmara as medidas que deveriam tomar na cidade para acabar com os surtos de febre amarela, cólera morbo, varíola e tuberculose. Primeiro, sua figura era apenas consultiva, mas com o passar do tempo ganhou mais poder e autonomia, e com isso status.
Na batalha para sanear a cidade, os doutores compraram briga com a Igreja Católica quando pediram para remover o cemitério da psoição em que ficava, em frente á Igreja Matriz no centro da cidade, para uma área mais afastada e elevada. Muitos padres, que já vinham se desiludindo com os primeiros anos do governo republicano, encararam isso como mais uma afronta do poder temporal contra o poder espiritual. A Igreja relutou, mas depois de algum tempo ambas as partes chegaram a um acordo: uma boa parte dos corpos ficaria na área da Igreja Matriz, segundo escolha dos familiares ou das entidades religiosas, mas de agora em diante todos iriam ser enterrados no novo cemitério.
A mesma Igreja que se opôs ao novo cemitério, contudo apoiou em peso a nova rede de esgotos. O projeto da nova rede de esgotos teve inclusive o dedo de nosso conhecido Nascimento Castro, na época vereador, além do inspetor de higiene. As obras duraram alguns meses e contemplaram somente a área central da cidade. Não sei dizer quando os serviços chegaram aos demais bairros.
O inspetor de higiene tinha que contar com o apoio da classe dirigente e da opinião pública, mas seu alvo era conquistar o povo. Conquistar não, discipliná-lo. A maior parte das medidas contra as epidemias deveriam ser feitas principalmente pela população local, afinal era ela que vivia perto dos córregos, que tinha contato com viajantes contaminados nos armazéns e etc. O sanitarismo nos primeiros anos do século XX se vinculava de certa forma á uma elite aristocrática que queria purificar sua cidade e por isso mesmo as medidas eram aplicadas de forma autoritária ao resto da população. O exemplo mais emblemático foi a vacinação obrigatória aplicada pelos agentes de saúde no Rio de Janeiro á mando de Oswaldo Cruz que desencadearam uma série de protestos conhecidos como a Revolta da Vacina.

Charge de Storni sobre Oswaldo Cruz sanear as favelas do Rio de Janeiro.
Em Taubaté, as medidas eram aplicadas de maneira autoritária sim, mas não só elas. Famílias foram despejadas da área onde moravam, muitas casas eram duramente vistoriadas para não guardarem lixo no quintal, criarem animais ou tomar banho nos córregos. No entanto, com o desenvolvimento da imprensa os inpestores de higiene descobriram uma maneira de comunicar á população as medidas que deveriam ser tomadas e pedir sua colaboração.
O lixo passou a ser incenerado em uma área muito afastada da cidade, no entanto, não sei dizer se esse continuou sendo o modus operandi das autoridades para se livrar do lixo até os anos 40 quando se criou um aterro em Taubaté.
Na luta contra as epidemias, surgiram muitas figuras que ficaram na memória do povo taubateano. Por sua atitude heróica durante uma epidemia de cólera morbo de não cobrar por suas consultas á escravos e libertos, Antônio Souza Alves até foi condecorado por suas ações. Outro grande nome foi o do imigrante dinarmaquês Jorge Winter que visitava seus pacientes na roça em lombo de burro a qualquer hora do dia e cujos descendentes seguiram também o caminho da medicina.
Hoje, passados mais de cem anos, a cidade conseguiu superar os surtos de lepra, varíola, cólera morbo, febre amarela e a tifo. No entanto, a dengue ainda está aí e fazendo vítimas e não só em Taubaté, mas em todo Brasil. Aqui em Manaus nove vítimas já vieram a falecer. A solução passa por uma ação conjunta da população e dos governos, mesmo assim esse mosquitinho tem demonstrado que é mais persistente que pensávamos. Alguns cientistas na Bahia estão criando uma forma transgênica do mosquito que tem um ciclo de vida pequeno e morre antes de se tornar perigoso. Pode ser uma luz no fim do túnel, mas e se não for? Vamos ficar esperando uma nova solução da ciência e não agir? Fica a pergunta.

segunda-feira, 7 de março de 2011

Amazônia

"Todo amazônida tem o direito  ao pleno uso, gozo e fruição dos seus recursos naturais existentes na área desde que o faça de modo não destrutitvo. Fica estabelecido o seu direito á subsistência, liberdade de escolha, livre iniciativa, trabalho produtivo e justiça social, e resguardada a sobrevivência das gerações futuras e ao convívio harmonioso com a natureza".

Samuel Benchimol ao lado de Bernardo Cabral.
Um dos incisos do Estatuto do Amazônida, apresentado por Samuel Benchimol na Conferência do Meio Ambiente e Desenvolvimento das Nações Unidas em julho de 1992, no Rio de Janeiro.

domingo, 6 de março de 2011

Se a canoa não virar, olê olá...

Esse ano, ainda não sei direito porquê, tivemos o carnaval no começo de março. Eu não posso dizer muito sobre o carnaval desse ano, afinal passei toda a última semana com dengue (aliás, internado por dois dias). Apesar de pular carnaval estar no meus planos, antes do mosquito listrado frustrá-los, nunca fui disso. Então, também não posso dizer muito sobre o carnaval dos demais anos.

Na minha infância eu costumava ficar em casa, vez em quando saía na rua e, por azar, me deparava com meu mais temível medo: o bate-bola! Pra quem não conhece, é uma fantasia onde um homem coloca uma máscara assustadora e sai andando por aí com uma bola de plástico que quando atirada ao chão faz um barulho terrível, parecido com o de um tiro.

Bate-bolas no Rio de Janeiro: fala sério, tu também não sentiria medo?
Tirando o bate-bola, adorava o carnaval de rua. Isso foi nos anos 90 e no subúrbio do Rio de Janeiro, quando da minha infância. Desde então, me mudei para cidades pequenas onde carnaval só havia na TV. Taubaté, a última cidade por onde passei, contudo, tinha um apreço pelo carnaval. Lá há a Avenida do Povo, onde desfilam algumas escolas de samba. No entanto, o que atraia mesmo o Vale inteiro era o carnaval de rua de São Luís do Paraitinga, o qual nunca fui também (por razões financeiras). Esse ano me parece que ambos correram muito bem.

E, finalmente, descobri o carnaval manauara. Também com desfiles de escolas de samba e folia de rua. E o melhor: sem bate-bolas! Já me informaram das mais tradicionais bandas ou blocos de rua como a Banda da Bica ou o Bloco das Piranhas. Vontade de ir não faltou, mas a doença não permitiu. Ano que vem, quem sabe.

O que faz do carnaval o feriado preferido do brasileiro é justamente essa possibilidade de cair na gandaia abertamente. Afinal, ele foi criado para isso. Carnaval é o nome que deram na Europa para os dias que antecedem a Quaresma, os quarenta dias de jejum da Semana Santa. Carna em grego significa carne e Valles prazeres: o nome já diz tudo. São alguns dias de festa para a carne antes dela sofrer as penitências da abstinência.

Enquanto festa, o carnaval já é antigo e remonta os mais variados rituais pagão, mas como feriado aprovado pelo calendário litúrgico somente no século XI. De lá pra cá, o carnaval passou por muitas mudanças. Algumas cidades dotaram-lhe de algumas modificações. Em Veneza, o carnaval era mais aristocrático com sua corte de mascarados e artistas circenses na rua. Nos Estados Unidos, é Nova Orleans que chama atenção com seus desfiles de carros alegóricos e bandas, dentre outras coisas. Finalmente chegamos ao carnaval do Rio de Janeiro, considerado pelo Guiness Book o maior carnaval do mundo.

O carnaval chegou no Brasil com outro nome: entrudo. Entrudo era como chamavam, em algumas vilas portuguesas, os bonecos que acompanhavam o desfile. Depois de trazido para o Brasil, o entrudo tornou-se uma festa popular, mas somente nos grandes centros urbanos. Segundo pesquisadores havia dois tipos de entrudo: o familiar, praticado na casas dos senhores, e o popular, praticado por escravos, libertos, homens livres mais pobres na rua. O entrudo familiar era feito com limão de cheiro e farinha, enquanto o popular era mais violento: o sujeito, além de poder levar uma paulada aleatoriamente, era alvo desde de ovos á vasos de plantas.

Por causa da violência, o entrudo popular começou a ser perseguido pelo governo imperial e em meados de 1840 estava sumindo das grandes cidades. O modelo francês de carnaval, baile de mascarados e associações de carnaval, começava a entrar no Brasil na mesma década e pouco a pouco o entrudo sai de cena e entra de uma vez por toda o carnaval. O baile de mascarados francês era praticado pela burguesia, principalmente de Paris, e no Brasil não foi muito diferente por algum tempo. As associações de carnaval tornaram-se os clubes e grêmios de carnaval (como Os Tenentes do Diabo) e somente na virada do século se tornam as famosas escolas de samba. Diferente dos clubes, nas escolas de samba o trabalho era feito pela comunidade, geralmente de áreas periféricas das grandes cidades. A primeira que se tem notícia é a Deixa Falar, fundada em 1928 no Rio de Janeiro, por um punhado de compositores e cantores que mais tarde se tornariam famosos, como Ismael Silva.

Não preciso dizer que as escolas de samba, assim como os sambistas, eram vistos pela opinião pública como símbolos da vulgaridade. Como elas adquiriram o status de estrelas que tem hoje? O caminho é longo. A valorização das escolas de samba começou com a valorização dos sambistas - o culto ao malandro criado durante a Era Vargas ajudou um bocado. E tinha de passar pela valorização da sua comunidade: a antiga Praça Onze no Rio, por exemplo, demorou a ser vista como uma comunidade realmente e não apenas um "reduto de negros e judeus". Muitas até hoje não foram valorizadas.

Hoje, as principais cidades do Brasil tem sambódromo e transmite o desfile das escolas de samba pelas emissoras locais ou nacionais. Celebridades passam a tomar espaço nos desfiles, ao invés de pessoas da comunidade. Símbolo de que foi engolido pela indústria cultural. O carnaval popular hoje virou realmente popular mesmo, embora ainda exista aquele carnaval mais aristocrático, feito nos clubes.

Antes de ir, gostaria de mencionar uma reflexão feita pelo antropólogo Roberto DaMatta sobre nosso carnaval: analisando os carnavais do Brasil e dos EUA, Roberto chegou a conclusão de que o carnaval aqui seria uma válvula de escape, uma oportunidade do brasileiro - torturado pela sociedade altamente autoritária e desigual em que vive - desfrutar um pouco não só da alegria, mas principalmente da igualdade e de escapar da autoridade. Enquanto nos EUA, o carnaval é "administrado" de forma altamente hierárquica nos grêmios carnavalescos e, em certa forma, no carnaval de rua, aqui ele não resiste á esse tipo de autoridade. Eu, no entanto, penso que isso não se aplica mais ao Brasil, pois as escolas de samba estão cada vez mais fortes e o carnaval de rua mais escasso. Mas que autoridade eu tenho pra falar isso mesmo?