domingo, 30 de outubro de 2011

Período Populista: Amazonas II


O Boto X o Ganso
Como vimos, Gilberto Mestrinho é eleito em 1958 governador do Estado do Amazonas. Seu programa de governo é uma espécie de continuidade do governo Plínio Coelho: medidas assistencialistas, reformas urbanas e diálogo com os líderes sindicais e as esquerdas. No entanto, o discípulo começa a se desentender com o mestre: Mestrinho começa a disputar com Plínio o prestígio político que detém em Manaus e fora dela. O cume dessa rivalidade subterrânea foi á prisão do Ganso do Capitólio sob a acusação de que este teria ordenado ao seu sobrinho que matasse Mestrinho. Na realidade, uma tentativa de assalto foi feita na casa do governador. O sobrinho de Plínio teria confessado que o tio estava envolvido.
Plínio conseguiu sair da cadeia com a ajuda de seu advogado. Pressões vindas de dentro do Amazonas e fora (da direção geral do PTB) pediam que ambos se reconciliassem uma vez que o partido precisava de todo o apoio para a campanha de Lott-Goulart em 1960. Ambos se reconciliaram. Ficou decidido que tudo ficaria no passado e que nas próximas eleições Plínio seria o candidato á governador, enquanto Mestrinho permaneceria na política ocupando o cargo de deputado federal por Rondônia.

Elas por elas
O resultado das eleições de 1960 era mais que previsível: Plínio ganha mais uma vez. Curioso que um dos seus primeiros atos é nomear um novo chefe de polícia, Genésio Braga, e expedir uma ordem para que ele prendesse Kliger da Costa, o antigo chefe de polícia, responsável por sua prisão no incidente anterior. A mensagem seria para Mestrinho, caso tencionasse sobrepujar Plínio mais uma vez.

Roadaway, parte do Porto de Manaus, na década de 40.

A constança
Com algumas pequenas exceções, os governos de Coelho-Mestrinho-Coelho foram um dos mais continuístas da história do Amazonas, uma vez que as mesmas medidas continuaram sendo aplicadas e o mesmo estilo de fazer política prevalecia nas ruas e nos bairros. O que desagradava muito os setores mais conservadores, enxergando nesse movimento uma anomalia. Plínio pretendia caprichar no seu segundo governo: inicia as construções de novas rodovias ligando a capital ao interior, cria um plano diretor para urbanizar a cidade baseado em critérios modernistas (inspirado no arquiteto de Brasília) e continua a presentear seus eleitores com cestas básicas, casas e, para os mais íntimos, cargos.
Contudo, no governo de Mestrinho, o trabalhismo se fortalecera mais, graças a sua união com as lideranças sindicais locais, principalmente dos estivadores. Oyama Ituassu lembra das incontáveis greves organizadas por essa categoria, paralisando o Porto de Manaus por dias a fio. O jurista também lembra do poder dos motoristas e choferes, que em 1961 organizaram uma greve na qual impediram o tráfego de veículos por toda cidade, inclusive limitando os postos de gasolina de abastecerem os carros que não tinham sua permissão.
A prova de que eles tinham o apoio oficial seria a proteção que a polícia civil e militar dispensava aos cordões grevistas. Em alguns momentos o Exército entrou em atrito com a polícia justamente por pretender abafar as manifestações em nome da ordem pública. Outro exemplo desse apoio foi a rápida passagem de Mestrinho pela avenida Eduardo Ribeiro, quando da paralisação dos motoristas, aplaudindo a causa dos grevistas.

O ritual trabalhista
O ponto alto do trabalhismo no Amazonas, quase que seu ritual de consagração, era o Festival Folclórico do Amazonas, realizado desde 1957 na Praça General Osório. Mestrinho logo percebeu o poder de manipulação e popularização que este evento poderia produzir nas pessoas ao descobrir o intenso número de brincantes e organizadores de quadrilhas e danças que a frequentaria. Plínio se aproveitara de todo o instrumental que Mestrinho tinha criado em volta do Festival, como os seus discursos populistas e sua aparição triunfal, quase como um campeão olímpico, segundo o jornalista Narciso Lobo.
É justamente num Festival Folclórico que Plínio Coelho recebe a notícia de que os militares tinham deposto João Goulart e o manteriam em prisão preventiva agora. Plínio consegue convencer os policiais a fazer o discurso de abertura do Festival. Basicamente nesse discurso o líder trabalhista fala que terá de sair do poder por uma incontigência histórica, mas voltará algum dia nos braços do povo.

Charge sobre Plínio Coelho em O Jornal de 1958. Fonte: Cel. R.Mendonça.

 
Caça ás bruxas
Plínio tinha sido preso, mas não fora cassado, ao contrário de Gilberto Mestrinho, cujo nome foi colocado na lista de cassados pelo Ato Institucional (AI) pelo general Augusto Cesar Moniz de Aragão, que quando foi Comandante da Base Militar do Amazonas entrou em conflito com Mestrinho por ter inflamado o povo contra as Forças Armadas.
Mestrinho teve de fugir do Amazonas com a identidade de Vivaldo Lima. Plínio foi solto e ainda passou a governar por alguns meses, enquanto a Assembléia Legislativa do Estado e o governo federal decidiam o que fazer com ele e quem colocar em seu lugar. Finalmente, em maio de 1964, Plínio é cassado e o Anfremon Monteiro, presidente da Assembléia, se torna o governador em exercício.
No Amazonas existia uma longa lista de personalidades que deveriam ser presas em 1964, a maioria ligada aos governos de Plínio e Mestrinho. Gente como o líder sindical dos estivadores Antogildo Paiva, o líder dos bancários Aldemar Bonates, o jornalista Arlindo Porto e o líder comunista Aldo Moraes.

Uma base forte
Na realidade, o Amazonas representava um dos pontos mais sólidos do trabalhismo. Não é a toa que dois dos maiores líderes trabalhistas no Congresso eram amazonenses: Arthur Virgílio Filho e Almino Affonso. Nem no Rio Grande do Sul, onde Leonel Brizola acreditava ser o nascedouro do movimento o partido tinha chegado tão fortemente em todos as esferas do Estado. No entanto, devemos lembrar que nem todos políticos dos governos trabalhistas no Amazonas eram realmente trabalhistas. Muitos atingiam postos importantes por tráfico de influência. O clientelismo tinha criado uma rede segura para o trabalhismo.
Quando o golpe de 1964 se tornou vitorioso, essa mesma rede resolveu se debandar para o lado do vencedor. O que explica o por quê certos elementos, não tão radicais, não foram cassados.

64 em Manaus
Como o golpe de 1964 se fez em Manaus? Essa é uma pergunta que pretendo responder em um futuro artigo. Por enquanto posso dizer que as classes anti-trabalhistas já vinham preparando um golpe há muito tempo (Arthur Reis revela em um livro escrito no tempo em que fora governador que já tinha participado de diversas conspirações, envolvendo militares, para depor Plínio e Mestrinho. Confabulações que não foram levadas adiante).
Quando souberam do destino de Jango na capital, resolveram aproveitar a oportunidade e finalmente dispensar seu próprio golpe. Além disso, a instituição militar sempre contou com muito poder no Amazonas e as ações do presidente, de quebrar a hierarquia e ferir a honra militar, nos seus últimos meses de governo teriam agravado mais ainda a situação.

sábado, 29 de outubro de 2011

A Falta de Vergonha

A Crítica, 30 de Junho de 1964.
Ás vezes você ouve por aí: "Ah, não existia tanta corrupção assim antigamente!" Ou, melhor: "No tempo da ditadura que era bom - não tinha corrupção!"
Ledo engano, meus amigos. A corrupção sempre existiu. Houve tempos em que esteve mais exarcebada e outros que não. Quanto á ditadura militar, o simples fato de não ser divulgado algum lobby não significa que não existia corrupção. A diferença de ontem pra hoje é que ela é mais visível e naquele tempo não.
Uma curiosidade: uma das bandeiras dos militares que fizeram a "Revolução" de 1964 foi a de acabar com a corrupção e a subversão ("o perigo vermelho"), para tanto, logo após se tornarem vitoriosos, instalaram a Comissão Geral de Investigações (CGI), um órgão responsável por analisar processos contra subversivos e corruptos.
O responsável por chefiar a CGI era o exaltado Marechal Estevão Taurino de Resende. Este, conhecido por ser um militar linha-dura, após tomar conhecimento de todos os 1110 processos abertos de abril á novembro de 1964 chegou a conclusão de que "o problema do comunismo perde expressão diante da corrupção administrativa nos últimos anos": a maioria dos processos era sobre corrupção e terminaram em pizza porque as investigações acabavam esbarrando em figuras poderosas como o ministro da Economia Roberto Campos ou o Arcebispo do Rio de Janeiro D. Jaime Câmara. Indignado, uma de suas frases estampou os jornais de 1964: "No Brasil não há comunismo, mas sim falta de caráter e de vergonha!" Curiosamente, anos depois, nos tempos das Diretas Já, um dos líderes da oposição ao regime, Teotônio Vilela, repetia as palavras do marechal elevado á condição de inquisidor-geral: "O maior problema do Brasil é a falta de vergonha!"
Os processos foram arquivados, enquanto os demais, sobre subversão, continuaram a todo vapor. Logo este problema, considerado um dos maiores entraves para o desenvolvimento do Brasil na época, foi deixado de lado em nome da "ameaça comunista". E disso pouca gente sabia na época e hoje. Graças á ideologia propagada pelo governo nas escolas toda uma geração repete a falsa idéia de que a corrupção foi erradicada no regime militar, justamente quando aconteceu o contrário: ela continuou rolando solta, ao lado de outras formas de contravenção, como a tortura.

Pensando e repensando Javé III

Narradores de Javé (2003) também pode ser pensado como uma narrativa mítica. Não só porque muito do que é contado pelos moradores tem esse tom, mas porque o próprio rumo da história indica isso.
Javé é uma cidade fundada por pessoas á procura de terras seguras para poder viver. O que a represa faz, inundando a cidade, é retomar ao começo: novamente temos pessoas á procura de uma nova área onde, com certeza, fundarão uma nova cidade.
Essa circularidade, chamada de eterno retorno, é um dos pontos básicos do mito.O mito, já falamos aqui antes, é uma narrativa, uma tentativa de compreender o mundo. Quase sempre é utilizado como forma de legitimar uma ordem social. As histórias contadas pelos moradores podem ser vistas como tentativas de cada um se legitimar, de reclamar pra sim um status todo especial que remonta ás origens.
As origens, aqui está outro ponto interessante. Todo mito se reporta á origem, seja do mundo ou de determinada sociedade. A origem de Javé se torna mito. Seus fundadores se tornam guerreiros destemidos, bravas mulheres, cavaleiros cômicos e até mesmo líderes quilombolas. De todos os narradores, o ancião do quilombo é o que mais encarna essa dimensão mítica da fundação da cidade: ele conta a história através de elementos místicos e reais, dando especial importância para o ato de contar, tanto que decide não falar mais depois de ver a incredulidade de Biá.
Ao final, a história se repete e os javeenses tem de encontrar um novo local onde poderão contar e recontar essa história como acharem convenientes, pelo que dá a entender não só pela última fala de Zaqueu, mas pelo recomeço do bafafá sobre quem salvou o sino da igreja em torno de Antônio Biá.

sexta-feira, 28 de outubro de 2011

A ponte do futuro

Na última segunda feira se comemorou os 342 anos da cidade Manaus. A história já começa complicar aí, mas deixo para explicar a causa dessa data ser tão problemática em outra oportunidade. O que quero falar hoje é sobre outra comemoração: a inauguração da Ponte Rio Negro.
Lá estavam as bandas tradicionais de Manaus, como Rabo de Vaca e até o "princípe do brega" Nunes Filho. Compareceu Omar Aziz, Dilma Roussef e Lula. Só não compareceu Amazonino. E o motivo é claro.
Uma pena, porque organizaram uma manifestação de amor ao caro prefeito, como podemos ver nas fotos.
Muitas pessoas não resistiram e cruzaram a ponte. Conheço milhares que fizeram isso. Alguns até sairam queimados pelo sol, só para completar o trajeto á pé.

Vamos á ponte: o projeto foi sugerido há mais de cinco anos atrás. O deputado Francisco Souza fez questão de assumir a paternidade da criança. Na época governador, Eduardo Braga se comprometeu a construir a ponte, sabendo que custaria uma verdadeira fortuna tal empreendimento. Afinal, o Rio Amazonas é um dos maiores rios do mundo em comprimento, um verdadeiro mar.
Após quatro anos a obra é concluída, pairando no ar a polêmica de se instalar cabines de pedágio ou não. O pedágio não veio, mas já preveniram que o custo da manutenção da ponte é alto e o jeito é cortar os recursos dispensados ás balsas. Nenhuma novidade: uma obra faraônica tem despesas faraônicas.
O objetivo da ponte era ligar as duas margens do rio, incrementar a urbanização do lado de lá. Soube que muitos terrenos já foram loteados, alguns permanecendo nas mãos de verdadeiros empresários imobiliários, no melhor estilo capitalismo selvagem.
Enquanto Manaus piora a cada dia e tenta passar a imagem de que tem infra-estrutura, principalmente para justificar a sua escolha para ser uma das sedes da Copa, investe-se numa obra que ao que parece fará uma urbanização desorganizada em outro local. Os problemas (de trânsito, explosão demográfica e falta de saneamento básico) não são resolvidos, são contornados. Melhor, passamos por cima deles atravessando de ponte.

quinta-feira, 27 de outubro de 2011

Período Populista: Amazonas I

No esquema de hoje vamos ver alguns desdobramentos do período no Amazonas:


Instabilidade
O Estado Novo acabou em 1945, mas as eleições para governador só viriam dois anos depois. Até 1946, o Amazonas esteve entregue aos interventores federais. O mais famoso foi o escritor Álvaro Maia (1898-1969), governando de 1935 a 1945. Em 1946, passaram pelo Palácio Rio Negro Julio José Nery, Raimundo Nicolau da Silva, João Nogueira da Mata e o tenente-coronel Siseno Sarmento, este foi um dos últimos interventores locais.

Siseno Sarmento (1906-1983). Fonte: Coronel Roberto Mendonça.
Por quê tantos nomes passaram pelo governo do Estado? Além das disputas políticas locais havia a preocupação de achar um interventor que fosse neutro (nem contra nem a favor das famílias tradicionais, nem contra nem a favor de Vargas). Daí surgir o nome do tenente-coronel Sarmento: como militar ele acataria as ordens do Exército de acabar com o Estado Novo, ou seja, ele passaria o poder sem nenhuma confusão pro próximo governador.

As primeiras eleições
No Senado, havia a Assembléia Constituinte. Como representantes do Amazonas na discussão estavam  Álvaro Maia, Leopoldo Neves, Cosme Ferreira Filho, Leopoldo Peres e Waldemar Pedrosa. A Constituição é finalmente concluída e outorgada em 1946. Ela deixa para o ano seguinte as eleições para governadores, senadores e deputados.
Em janeiro de 1947 temos as eleições. PTB-UDN lançam o nome de Leopoldo Neves (1898-1953), enquanto o PSD coloca Ruy Araújo como candidato. Neves obtém uma vitória esmagadora. São eleitos na mesma época como deputados os jovens Paulo Pinto Nery e Plínio Ramos Coelho, ambos advogados.

"Quase" inimigos
Como vimos nos esquemas anteriores, PTB e UDN eram arquinimigos, como puderam se unir então? A explicação está na formação dos partidos aqui no Amazonas: tanto o PTB quanto a UDN foram criados por homens públicos que tinham em comum sua insatisfação com o Estado Novo. Não havia uma ideologia trabalhista ou udenista no Amazonas, ao contrário do Rio de Janeiro ou de Minas Gerais. A política no Amazonas, como em muitos lugares, era muito personalista. Álvaro Maia se tornou símbolo do Estado Novo, nele recaiu os descontentamentos com o regime e não em Vargas.
O governo de Álvaro Maia foi um fracasso. Embora fosse um político muito carismático, seu governo não conseguiu resolver o essencial, o que tinha proposto desde o início: reerguer a economia da borracha. Em 1942 com a Campanha da Borracha é o pico de sua popularidade, porém, quando os americanos abandonam a iniciativa com o fim da guerra, fica o ressentimento contra o político, muitos acharam que ele poderia ter feito mais.
Por isso, o partido de Maia, o PSD, foi isolado nas primeiras eleições. Além disso, existiam no PTB e na UDN local poucos membros que se identificavam mesmo com a ideologia dos seus respectivos partidos: a maioria dos membros eram de políticos tradicionais que gostavam mais ou menos de Vargas.

Fonte: Coronel Roberto Mendonça.

O eleito
Leopoldo Neves era um senhor que já tinha passado pela experiência de ser deputado federal e prefeito de Parintins, tendo assistido na época uma revolta militar conhecida como Batalha Naval de Itacotiara.
O que ele tinha que enfrentar era um estado em crise. A borracha já tinha deixado de ser lucrativa há muito tempo. Os Acordos de Washington ajudaram a melhorar um pouco a infra-estrutura de alguns pontos estratégicos da cidade, mas os serviços urbanos ainda estavam quase que abandonados. Neves tentou equilibrar as despesas do Estado com o custo de novas obras. Não conseguiu. O governo de Leopoldo Neves foi breve e com poucas realizações.
Aliás, no final de seu mandato ocorre uma certa instabilidade já que Neves decide se exonerar do cargo para se tornar senador. Assume como governador José Negreiros Ferreira e depois Francisco do Areal Souto e Julio Francisco de Carvalho Filho. A quantidade de governadores interinos pode ser explicada peas denúncias de corrupção e nepotismo enfrentadas pelos mesmos.

A volta do velho tuxaua
Álvaro Maia em 1950.
Em 1950, novas eleições. Surgem como candidatos Álvaro Maia pelo PSD e Severiano Nunes pela coligação PTB-UDN. O escritor amazonense é novamente eleito. Novamente temos a coligação dos arquiinimigos, só que Álvaro Maia, um político carismático, sai vencedor diante de um candidato quase inexpressivo (Nunes era conhecido mais pela sua atuação tímida de advogado).
Álvaro Maia não pode ser confundido com o político populista que predomina nesse período, porque ele representa as tradicionais e decadentes famílias que surgiram no boom da borracha e não tem a preocupação de manipular o povo para atingir a paz social, como os populistas faziam. Sua preocupação é reconstruir a Manaus da Belle Epoque.
Mesmo assim seus discursos eram muito eloquentes e conseguiam cativar o povo. Maia tinha lançado nos anos 30 um movimento cultural conhecido como glebarismo que pretendia defender a cultura regional e constantemente reafirmava sua origem ribeirinha, se tornando mais simpático á população local. Além disso, Maia conquistou o apoio dos ribeirinhos por meio das medidas para ajudar a desenvolver o interior aplicadas no seu governo (afinal, foi um dos primeiros a se preocupar com o interior do Amazonas, onde nasceu e foi criado).

Mais uma tentativa
No seu segundo governo, Álvaro Maia tenta aquilo que não conseguiu no primeiro: desenvolver a economia da Amazônia. Graças a sua influência consegue incentivar a criação da Superintendência de Valorização da Amazônia (SPVEA) em 1953. O objetivo do órgão era justamente de incentivar o desenvolvimento econômico local, no entanto, os recursos enviados pelo governo federal eram muito poucos e a experiência foi um fracasso, como admitiu seu superintendente, o Prof. Arthur Cezar Ferreira Reis (1906-1992).
Além disso, com os poucos recursos que chegaram o órgão apostou mais no extrativismo (não só da borracha, como do pau-rosa, da castanha, da juta e da balata) e não numa indústria que tornasse essas matérias primas produtos acabados. Na cidade, desde a década de 1940 existiam fábricas destinadas á beneficar esses produtos, como a Usina Triunfo dos irmãos Sabbá (dedicada a beneficiar pau-rosa). Estas pequenas fábricas não foram tão beneficiadas assim pela SPVEA.
Não pesquisamos ainda sobre o peso da notícia do suicídio de Vargas em Manaus, mas podemos dizer que ela não deve ter passado desapercebida.
É ainda nesse governo que se destaca o jovem Plínio Coelho (1920-2001) defendendo no tribunal processos sobre estivadores e funcionários públicos. Aos poucos, ele sai do Direito Trabalhista para a militância trabalhista propriamente dita. Coelho se torna popular e o PTB lança seu nome para as eleições de 1995. O candidato do PSD, Paulo Nery (1915-1995), perde para o seu colega advogado.

Plínio Ramos Coelho. Fonte: Cel. R.M.
"Sangue novo"
Com Plínio Coelho saímos do período amorfo da política amazônica, onde os partidos eram escolhidos não segundo a ideologia, mas segundo o peso da legenda. A política se radicaliza. O trabalhismo se torna um fenômeno no Amazonas e a sua simples presença faz com que a batalha ideológica se acentue. Aos poucos os elementos das classes tradicionais se debandam para a UDN onde o que guia suas ações é mais o conservadorismo. Até então existiam apenas dois partidos fortes no Estado: o PSD, aparelhado pelos interventores e sua corte pessoal, e a UDN, onde pousaram os críticos ferrenhos do Estado Novo. Agora o PTB ganha força e apoio popular, diferente dos demais onde prevalecia o personalismo (o culto ou ódio á Álvaro Maia, por exemplo).
Os liberais enxergavam no trabalhismo uma alienação em larga escala, como é o caso do então advogado Oyama Ituassu (1926-2009). Os conservadores acreditavam que o trabalhismo não tentava ensinar liões valiosas sobre a moral e os bons costumes á população, mas apenas satisfazer o desejo das massas em troca de seus votos. Era o que pensava Arthur Reis.
E o que pensava o povo?
Plínio tinha um discurso novo e a fama de trabalhar pelo povo conquistada dos tempos em que advogou Direito Trabalhista. O político direcionava o seu discurso ao trabalhador amazonense, prometendo melhorar sua vida, ainda que com medidas paliativas como conceder terrenos, material de construção ou cestas básicas. Plínio também era próximo de muitas lideranças sindicais como o presidente do sindicato dos estivadores Antogildo Paiva e até de líderes comunistas como Aldo Moraes.

Cidade Flutuante. Fonte: Cel. R.M.
Trabalhismo no Amazonas: algumas considerações

Antes mesmo da queda da borracha, Manaus era uma cidade altamente desigual, onde o centro foi gradativamente se tornando espaço exclusivo da elite amazonense. A população trabalhadora tinha péssimas condições de trabalho, principalmente os estivadores que literalmente, na feliz expressão de Maria Luiza Ugarte, carregavam a cidade sobre os ombros. Essa categoria, por exemplo, fez inúmeras greves até conseguir condições melhores, mesmo assim perdeu o espaço por conta da mecanização do porto. Os carroceiros também faziam greves contra o pequeno salário e a alta dos preços dos alimentos. Isso tudo antes da queda da economia gomífera.
Com a crise dos anos 20, a cidade quase pára: a maioria dos serviços urbanos era feita por empresas estrangeiras, o comércio da borracha que movimentava a economia local, os seringais foram sendo esvaziados e a cidade inchando. É nessa época que surge os primeiros barracões que darão origem a Cidade Flutuante. Nos anos 50 e 60, as invasões de terrenos e a construção de casas na periferia da cidade, por conta dessa onda de trabalhadores desempregados, é responsável pela criação de muitos bairros até hoje populosos como Santa Luzia, São Jorge, Morro da Liberdade, etc.
O trabalhador urbano não era contemplado na maioria das medidas dos últimos governantes. Quando eles vêem um político concedendo terras e cestas básicas logo percebem que esse pode ser o seu "Pai dos Pobres". Por isso o fenômeno do trabalhismo foi tão forte no Amazonas, porque havia uma massa de trabalhadores marginalizados que passaram a ver em Plínio uma chance de serem atendidos.

Mais tentativas
As políticas assistencialistas de Plínio, no entanto, se restringem á cidade, uma vez que dizem respeito ao trabalhador urbano. No período em que o trabalhismo foi poderoso no Amazonas (1955-1963), o interior ficou meio que á deriva. Outro lado curioso do movimento era a sua ânsia de reconstruir a Manaus da Belle Epoque, tal qual Álvaro Maia pretendia. Como forma de demonstrar a conquista desse objetivo iniciou um projeto urbanístico que lembrava e muito a arquitetura da Belle Epoque. É o projeto da Nova Manaus.
No campo da economia, pensou-se que a descoberta de petróleo em Nova Olinda do Norte em 1955 pela Petrobras seria a solução para o problema da crise. No entanto, a Petrobras não levou adiante o projeto. Esperava-se que as rodovias Belém-Brasília e Manaus-Santarém ajudassem a conectar o Estado á futura capital do país e com isso melhorar a circulação de mercadorias, mas só a primeira foi construída e inaugurada somente no final do governo de Juscelino Kubitschek. O governo JK é lembrado como um período de prosperidade, mas esta não chega ao Norte e Nordeste (este último teve uma das piores secas do século XX em 1956).
Em 1957, um obscuro deputado local, Francisco Pereira, propõe uma iniciativa que transforme Manaus em uma espécie de entreposto de produtos vindo tanto do próprio país como dos demais países amazônicos como Equador, Venezuela e Colômbia. O projeto do Porto Franco é aprovado por JK, mas a datade sua aplicação fica indefinida.


Aprendiz de feiticeiro
No governo de Plínio surgem importantes lideranças trabalhistas e sindicalistas. O jornalista Arlindo Porto, por exemplo, começa a ganhar destaque aqui. Mas uma das mais importantes lideranças do período é o jovem Gilberto Mestrinho, até então um jovem funcionário da Receita Federal que é alçado por Plínio á candidato á prefeito.
Plínio percebe que não conseguirá continuar seu projeto trabalhista, porque não tem sucessor e não pode se reeleger. A solução é fazer o seu sucessor. E Plínio pega Gilberto Mestrinho para ser seu filho político, para receber toda sua herança política. Além de levá-los nos comícios, para acostumá-lo com a lógica populista, Plínio começa a abrir para o jovem funcionário público cargos cada vez mais importantes no PTB. Outros membros do partido ficaram desconfiados da competência do jovem aprendiz, mas não contestaram a idéia de Plínio.
Essa preparação começa ainda nos três últimos anos de seu governo e rende bons frutos. Mestrinho se torna prefeito em 1955, simplesmente por ser o candidato indicado pelo "Ganso do Capitólio".  Já nas eleições para governador, já possui a sua própria fama de defensor dos desvalidos. Na campanha de 1958, Mestrinho é eleito governador, vencendo Paulo Pinto Nery, o eterno candidato do PSD.
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Continuaremos a falar do Amazonas no próximo post.
Esquemas anteriores:
Período populista - introdução
Período populista - crises

sábado, 22 de outubro de 2011

Família Vende Tudo

A comédia que chegou aos cinemas há duas semanas atrás atraiu algumas críticas. Primeiro, de que a mensagem tenha se perdido no meio de tanta graça e, em segundo, que a narrativa do filme lá pelas tantas se transforma em outra coisa.
Bem, eu acredito que este filme não deve ser encarado como portador de uma mensagem política social dura. Essa não era a proposta dele. O que Alain Fresnot queria fazer era uma comédia sobre amoralidade de uma família e os desdobramentos dela. É uma comédia, não é um tratado de sociologia sobre o Brasil moderno. Se bem que o filme fala sobre muitos aspectos interessantes da nossa atualidade de forma divertida. Não carrega em si uma conteúdo politizado, mas uma série de pequenas críticas, algumas escrachadas e outras mais sutis.
É gostoso de ver a naturalidade dos personagens, do mundo em que eles transitam. Tudo ali parece perfeitamente real (muitas vezes mais real que os próprios filmes realistas tentam fazer, esses sim carregando tratados sociológicos e filosóficos). O motivo é claro: a inspiração veio da realidade mesmo. A diferença é que a mensagem não deturpou um pouco dessa naturalidade, já que ela não existe aqui.

Por ser assim despretensioso, o filme não condena nenhum de seus personagens, pelo contrário, até se simpatiza com eles. É curioso porque envolvem estereótipos (o evangélico bitolado, a piriguete, o famoso safadão, a dona da gravadora falsa e mercantilista, o agiota temido, etc.), mas eles não são tratados como simples estereótipos. Em outras palavras, a comédia não tem um tom moralista.
As interpretações foram divertidíssimas. O iniciante, Raphael Nunes, como o irmão caçula que fuma e rouba como se fosse um bandido em miniatura tem cenas memoráveis. Caco Ciocler então, nem se fala: da pecha de bom moçinho para cantor brega cafajeste é uma transformação entanto (e hilária).
Mas o filme tem falhas e aí tenho que concordar com a segunda crítica. Perto do final, Fresnot dá para a sua produção um tom de comédia romântica. Algumas questões se perdem por aí (a história do círculo de giz, do revólver, da comitiva de carros indo para o pesqueiro, etc.). Eu vejo que ele poderia ter optado para continuar na gozação ou quem sabe partir para a esculhambação geral. Na minha opinião, o filme ficaria muito melhor. Mas, pode ser que o diretor tenha escolhido esse final para fazer uma homenagem irônica ás comédias românticas norte-americanas. Mesmo se for o caso, o filme desandou um pouco.
Mas, de qualquer maneira, é um bom filme. Ele cumpre o que promete: dar boas gargalhadas.

Período Populista: Crises

Continuando aquele nosso esquema sobre o Período Populista ou Democrático (1945-1964), hoje vamos falar um pouco sobre as crises que afetaram a época, além de falarmos de alguns pontos interessantes:


Getúlio Vargas
Acho que já deu para perceber no esquema anterior que Vargas continuou atuando na política mesmo depois de ter acabado com o Estado Novo em 1945. O PTB e o PSD são dois partidos criados por ele que se complementam: o primeiro tem um apelo mais popular e o segundo uma ligação mais forte com a classe política e administrativa estaduais. O partido do "povo" e o partido do "poder".
Vargas sabia muito bem como manipular as regras do jogo político. A criação dos dois partidos é uma prova disso. Tanto que é ele que inicia o populismo no Brasil quando se candidata á presidência em 1950. Não é mais o Vargas autoritário do Estado Novo, mas o Vargas populista, que sabe como conquistar o apoio do povo através de medidas em seu favor e de discursos que atacavam os interesses "anti-nacionalistas".Muitos acreditam que a figura de Vargas definiu esse breve período democrático. Enxergam até o Golpe de 1964 como uma tentativa de apagar essa influência varguista, que sobreviveu em seu afilhado político João Goulart.

"Mar de lama"
Vargas foi eleito em 1950, para desgosto da UDN, que suspeitava que a qualquer momento o "Pai dos Pobres" realizasse um novo golpe, como o de 1937. A luta entre getulistas e anti-getulistas acontecia não só nas tribunas, mas, principalmente na imprensa: A Última Hora, jornal de Samuel Wainer, defendia Getúlio, enquanto A Tribuna da Imprensa, de Carlos Lacerda, o atacava. As principais denúncias eram sobre corrupção por parte da bancada trabalhista.
Quando o Ministro do Trabalho, João Goulart, anunciou um aumento do salário mínimo em 100% em 1954, a UDN e todos os oposicionistas encararam a medida como uma forma de levar o país á crise e assim justificar um golpe. É lançado o Manifesto dos Coronéis, onde estes oficiais do Exército pedem a demissão de Goulart ou se revoltarão. Goulart é demitido.
A crise se aprofundaria em agosto quando Lacerda foi alvo de um atentado a caminho de sua casa (ficou conhecido como Atentado da Rua Toneleros). O jornalista foi atingido no pé, mas seu amigo, o major da Aeronáutica Rubem Vaz, foi morto. Os criminosos são presos e a UDN e as Forças Armadas pedem uma investigação profunda sobre o caso. Os inquéritos revelaram que o atentado foi encomendado pelo guarda pessoal de Getúlio, Gregório Fortunato. Os jornais afirmam que Vargas está envolto por um "mar de lama", pedindo a sua renúncia.


O suícidio
Em 25 de agosto de 1954, Vargas encontrou uma forma dramática de escapar da vergonha de renunciar: o suicídio. Quando souberam da notícia, muitos acreditaram que ele teria sido morto pelos seus inimigos. Um ataque foi feito á casa de Carlos Lacerda e outro á seu jornal, Tribuna da Imprensa. Sem falar das manifestações contra outros membros da UDN.
Era esse o efeito que Getúlio esperava: que seus adversários saíssem como culpados de sua morte. Não que ele tentasse incriminá-los, mas que eles o levaram a tomar uma atitude extrema. É isso que diz mais ou menos a Carta-Testamento. Ela  é enderaçada ao povo, falando do martírio que o presidente passou nos últimos anos tentando ajudar o povo a lutar contras os trustes (empresas estrangeiras). E conclui que Vargas "saiu da vida para entrar na História".

Marechal Lott passa em revista pela sua tropa.

Novembrada
Quem assumi a presidência é o vice de Getúlio, Café Filho, de um obscuro partido potiguar. Após as agitações populares, Café Filho inicia uma política econômica mais liberal, diferente do protecionismo de Vargas. O presidente por causa de uma doença tem de passar o cargo para o presidente do Congresso, Carlos Luz. Ao saber que Juscelino Kubistchek de Oliveira, membro do PSD jovem e próximo de Vargas, e Jango Goulart, amigo íntimo de Getúlio, disputarão as próximas eleições Luz e a UDN ficam preocupados. O resultado das eleições favorecem o PSD e o PTB e seus adversários pólíticos, ao redor de Luz, o convence de que é preciso dar um golpe para evitar a posse dos dois.
O Marechal Henrique Lott é convidado a participar do golpe, mas recusa por achar um crime anti-consitutcional. Ele passa a mobilizar as bases militares do Rio de Janeiro para impedirem os golpistas. Sabendo que serão presos por Lott, os golpistas (dentre eles, Lacerda, Almirante Pena Boto, coronel Jurandi Mamede) entram em um navio. Pretendem navegar até Santos e lá montar uma espécie de governo rebelde. Próximos do seu destino são detidos por outros navios da Marinha. Os golpistas foram presos,mas seriam anistiados por JK, após ser empossado presidente.


Revoltosos de Aragarças rendidos.
Aragarças e Jacareacanga
O governo JK teve poucas crises políticas, por isso é tido como um dos melhores governos dos últimos anos. Na realidade, devemos essa estabilidade á figura moderada de JK (embora ele tivesse alguns surtos de autoritarismo), o bom momento econômico que propiciou seu Plano de Metas e a legitimidade, do ponto de vista militar, que ele detinha por conta do apoio de um personagem tão prestigiado nas Forças Armadas quanto o Marechal Lott.
Mesmo assim, em todo governo até 1990, houve no mínimo alguma revolta militar, geralmente de oficiais inferiores, contra alguma medida (como o ritmo das promoções ou a marginalização do cargo). Acabar com esse medida significa, para muitas dessas revoltas, acabar com o governo que a produziu. Alguns oficiais da Aeronáutica insastifeitos com a posse de JK e com a corrupção nas Forças Armadas e no governo partiram para montar suas bases "revolucionárias" no sertão, entre os estados de Goiás e Pará, em 1956. O plano era partir da região em direção ao Rio de Janeiro, em alguns aviões sequestrados, e bombardear o Palácio das Laranjeiras (sede do governo) e do Catete (residência do presidente). A Revolta de Aragarças, nome da cidadezinha onde ficava uma das bases, foi rapidamente dominada pelo governo. Os tenentes e capitães envolvidos na revolta, contudo, foram anistiados.
Em 1959, planejaram uma nova revolta com a mesma tática. Eram os mesmos nomes: Haroldo Veloso, João Paulo Burnier, dentre outros. E até a cidade escolhida, Jacareacanga, ficava próxima da antiga. Novamente a revolta não ocorreu, mas dessa vez os envolvidos conseguiram fugir antes de serem presos, se refugiando na Bolívia.


A renúncia misteriosa
Jânio Quadros, um político com um discurso moralista, mas ao mesmo tempo populista, foi procurado por membros da UDN para se tornar o candidato do partido para as eleições de 1960. Ele aceita e inicia uma campanha que o tornou conhecido no Brasil inteiro e não mais apenas no estado de São Paulo. Do outro lado está a aliança PTB-PSD com a candidatura de Marechal Lott como presidente e Jango mais uma vez como vice. Lott não era tão popular assim quanto Jânio Quadros ou Jango.
Nessa época, havia o que se conhecia como voto desvinculado: você poderia votar numa pessoa para presidente e em outra, de outro partido até, para vice. Você votava na pessoa e não na legenda (partido). Isso permitiu que Jânio Quadros fosse eleito presidente e tivesse como vice o inimigo visceral da UDN, João Goulart.
Jânio tinha começado seu governo tentando domesticar a crise econômica que teria se aprofundado com o Plano de Metas de JK, fazendo o Brasil contrair mais dívidas. Além disso tinha baixado uma série de medidas, um tanto moralistas, como proibir o uso de biquini nas praias, o uso de lança-perfume nos carnavais, etc. Até aí já era de esperar algo assim vindo de Jânio. No entanto, na política externa é que esse homem conservador tomou medidas um tanto revolucionárias, para desagrado da UDN.
O paulistano era fã do presidente do Egito da época, Gamal Nasser, que defendia uma política externa de não-alinhamento nem com o EUA nem com a URSS (vivíamos então a Guerra Fria, momento em que estas duas potências manipulavam os demais países para assegurar seu domínio). Jânio queria fazer isso no Brasil e junto com Afonso Arinos criou a Política Externa Independente (PEI). O governo de Quadros cultivava relações com países do Oriente Médio, da África, da Europa e até com a China comunista de Mao Zedong.
A UDN pensou que Quadros estava saindo do seu controle. A gota d'água veio quando o presidente condecorou o guerrilheiro cubano Che Guevara em 1961 por, á seu pedido, ter salvo a vida de sacerdotes católicos na ilha de Fidel Castro. Seu partido e os militares não deram atenção para este último fato e trataram de crucificar o presidente, atacando-o de comunista. Assim, alguns meses depois Jânio envia uma carta de renúncia ao Congresso.
Na carta, Jânio diz que "forças ocultas" o fizeram renunciar. A carta, um tanto ambígua, foi aceita pelo Congresso e Quadros deixou de ser presidente. Muitos se perguntam porque Jânio teria renunciado. Está claro que a pressão da opinião pública e de seu próprio partido era grande, mas ele também tinha uma série de admiradores, igualmente fortes. Ele poderia ter insistido um pouco mais para continuar no governo.
Alguns acreditam que Jânio não aguentou a pressão, outros que ele fez um blefe. Talvez Jânio acreditasse que todos deixariam de atacá-lo se soubessem que se ele renunciasse Jango, chamado de comunista pela UDN, seria o novo presidente. Mas o Congresso aceitou a carta e só restou a ele sair da presidência.


João Goulart em 1962.
Parlamentarismo
Jango estava em visita á China quando o episódio da renúncia aconteceu. Os ministros militares se preveniram e formaram uma junta militar que governaria o país para impedir que Jango assumisse. Eles empossam o presidente do Congresso, Ranieri Mazzili, como novo presidente. Chegaram até a mobilizar tropas para prenderem o futuro presidente quando ele chegasse. Muitos defensores de Jânio e de Jango foram presos. Voltava o caos.
A direção do PSD passa a negociar com os militares uma forma de fazer Jango voltar e ao mesmo tempo impedir uma guerra civil. Eles chegam a um acordo: o Jango só será empossado presidente se o Executivo perder um pouco de seu poder. E é assim que é outorgado o Ato Adicional N.5 que basicamente institui o parlamentarismo no Brasil. Os primeiro-ministros eram eleitos pelo Congresso e, com a exceção de Hermes Lima (que tinha simpatia pela esquerda), eram sempre políticos liberais, moderados, de centro-esquerda ou centro-direita. Um dos primeiro-ministros mais famosos foi Tancredo Neves.
O parlamentarismo tirava o poder do presidente e isso frustou os planos de líderes, tanto da esquerda como da direita, de se tornarem presidentes. Nessa causa se uniu boa parte da UDN, sob orientação de Carlos Lacerda, do PTB e do PSD. Assim, em 1963, é feito um plebiscito para saber se o povo realmente quer continuar no parlamentarismo. O resultado é a vitória esmagadora do presidencialismo. Jango se torna finalmente um presidente com poderes e não meramente decorativo.

Jango no comício-monstro de 1964.


República Sindical
Jango sabia que seu governo era muito frágil, por isso buscou construir alianças em todos os lugares possíveis. Havia uma ligação com a esquerda através da figura do secretário-geral do PCB, Luís Carlos Prestes. Leonel Brizola, seu cunhado, representava um setor mais radical do trabalhismo que se aproximava um pouco do comunismo no campo ideológico. Goulart se apoiou também nas lideranças sindicais, sejam elas da Confederação Geral dos Trabalhadores ou do Sindicato dos Metalúrgicos. Por isso esse momento também é conhecido como República Sindical.
Outra base de apoio de Goulart passou a ser os oficiais inferiores das Forças Armadas como os majores e sargentos, uma vez que eles revindicavam melhores condições para seus cargos e promoções mais rápidas. Os oficiais superiores, muitos deles de inspiração golpista, foram afastados de cargos de considerável importância para cargos burocráticos. Essa estratégia desenvolvida pelo general Assis Brasil, amigo de Jango, ficou conhecida como "dispositivo militar".
Outra tática que fez Jango conseguir mais apoio foi a defesa das reformas de base, ou seja, medidas para desenvolver o Brasil industrialmente, efetivar a reforma agrária e a distribuição de renda. Os projetos eram enviados ao Congresso, cuja maioria era da UDN e do PSD, que rejeitava. Goulart passou a atiçar em seus comícios o povo contra o Congresso conservador e aventar a idéia de se reeleger (como uma reeleição consecutiva era proibida pela Constituição de 1946, o único jeito dele fazer isso seria fazer uma nova Constituição). Isso era o bastante para deixar a UDN e os setores mais conservadores das Forças Armadas certos de que Jango daria um golpe.
A situação não era favorável á Jango: ele tinha de solucionar uma crise inflacionária que Jânio não conseguiu diminuir e, além disso, pagar a dívida externa aumentada por JK. Várias greves eram feitas contra a inflação e contra os trustes. O Brasil estava passando por um momento muito delicado que para á classe média, fortalecida nos otimistas anos JK, significava um caos total. No campo a situação não mudara muito, a não ser pelo surgimento das Ligas Camponesas que pregavam a reforma agrária "na marra", para raiva e susto dos latifundiários.  Assim, existiam muito mais elementos descontentes com o governo de Jango que alguns setores das Forças Armadas e a UDN.


Tanques vindos de Minas chegam no centro do Rio de Janeiro em 1964.
O golpe
Em março, Jango organiza um comício-monstro onde comparece em peso no centro do Rio de Janeiro todas as categorias de trabalhadores da cidade. Subiram no palanque Tancredo Neves, seu assessor, lideranças sindicais e o próprio presidente que faz um discurso eloquente sobre as forças reacionárias que pretendem derrubá-lo, mas que serão impedidas pelo povo. No final do mesmo mês uma crise na Marinha: marinheiros que desejavam fazer seu próprio sindicato tem voz de prisão decretada pelo Ministro da Marinha, mas se refugiam no Sindicato dos Metalúrgicos. Os homens mandados para os prenderem aderem á revolta, liderada pelo Cabo Anselmo. Jango manda seus representantes negociarem com os marinheiros. Eles saem e são presos, mas alguns minutos depois são soltos, sem que o Ministro da Marinha saiba disso, e organizam uma passeata pelo centro da capital comemorando a sua liberdade. O caso foi visto como quebra da hierarquia, um dos pontos mais sagrados da instituição militar, o que fez com que muitos oficiais se unissem aos conspiradores de plantão.
Em 31 de março, Jango faz um discurso no Automóvel Clube para os sargentos e marinheiros dizendo que não se tratou de quebra da hierarquia, mas de justiça e retorna á velha promessa de que as reformas de base serão feitas, com ou sem a ajuda do Congresso. É o bastante para os conspiradores organizarem a deposição do presidente. As tropas do general Mourão Filho partem do interior de Minas Gerais com o apoio do governador desse estado, Magalhães Pinto (udenista convicto) e chegam até o Rio de Janeiro ganhando adesões inesperadas das tropas enviadas para impedi-las de chegar á capital. Assim, em 1 de abril de 1964 Jango é deposto por um golpe cívil-militar, dando fim ao breve período democrático em que o Brasil entrou em 1945.

quinta-feira, 20 de outubro de 2011

Velhas inovações

Tony Blair, primeiro-ministro inglês, e Muamar Kaddafi em 2005.
Não há nada mais fúnebre e macabro que comemorar com alegria uma morte, seja de quem for.
Esse ano assistismos celebrações mórbidas duas vezes: primeiro, com a morte de Osama Bin Laden e, agora, com o assassinato de Muamar Kaddafi.
Dois homens monstruosos, é verdade, que promoveram inúmeras mortes. Um através de atentados e o outro através da repressão dentro do seu país e de atentados fora dele.
O que me incomoda é a hipocrisia que envolve o fato: Kaddafi, após os anos 80, se tornou um cara super bem vindo em muitas reuniões internacionais. Há pouco, pesquisando fotos pela internet, achei ele sendo recebido por vários presidentes do "mundo livre" que tiveram inúmeros negócios com ele. Berlusconi, presidente italiano, fechou vários acordos milionários com o ditador líbio. Ou seja, Kaddafi foi conveniente enquanto puderam fazer negócios com ele. E quando explodiram as revoltas árabes a opinião pública passou a criticá-lo, mas não pelos seus 40 anos de ditadura, cheios de torturas, mortes e atentados terroristas, mas pela repressão aos rebeldes. Tudo muito conveniente.
Para socorrer os rebeldes, a OTAN vai em seu auxílio. Caridosamente, não importando, claro, com o petróleo líbio. Obama já disse que as tropas serão retiradas do país em breve. Eu já ouvi isso antes: na época em que tiraram Saddam Hussein do Iraque, mas quem disse isso foi o babaca do George Bush. Coincidência: no Iraque também existiam muitos poços de petróleo. Ah, e as tropas? Bem, elas começaram a sair ano passado, ou seja, quase dez anos depois da promessa. Obama, que prometia ser o presidente inovador, não está inovando muito ao repetir as mesmas práticas dos presidentes anteriores.

quarta-feira, 19 de outubro de 2011

Período Populista ou Período Democrático (1945-1964)

Da série "esquemas para entender períodos históricos":


De 1945 a 1965, quatro partidos definiram os rumos da política brasileira.
Eram eles o Partido Trabalhista Brasileiro, o Partido Social Democrata, o Partido Comunista Brasileiro e a União Democrática Nacional. Primeiro vamos explicar como eles surgiram:

O fim do Estado Novo
Getúlio Vargas, no poder desde 1930, é pressionado por uma pequena elite liberal (que alguns autores chamam de "classe média"), pela política internacional (EUA, do qual se tornou aliado na Segunda Guerra Mundial desconfiava das semelhanças entre ele e os governos fascistas) e pelo Exército (que se fortaleceu no Estado Novo, se auto-proclamando o defensor do constitucionalismo) e em 1945 ele declara que sairá do poder. Inicia o processo de redemocratização. A primeira medida é a anistia dos presos políticos - principalmente os comunistas. Curiosamente, Vargas se aproxima do comunismo para contar com mais um aliado. A segunda medida é a criação dos partidos.

Agora falaremos um pouco sobre esses partidos:
a)PTB:
O trabalhismo era uma das práticas de Vargas criadas no Estado Novo. Era a valorização do trabalhador brasileiro (até então ninguém tinha feito isso), mas de um tipo específico de trabalhador: o urbano. Na realidade, era uma forma de ter um forte aliado. Mas havia também a preocupação de controlá-los. Através de suas medidas, Vargas impedia que os movimentos dos trabalhadores se tornasse mais radical. Ou seja, o trabalhismo era uma forma de controle.
Vargas criou o PTB e esse foi um dos partidos mais populares do período. Os trabalhistas era maioria no governo, mesmo quando a oposição estava na presidência.
Membros famosos: Getúlio Vargas, Leonel Brizola e Jango Goulart.
Membros famosos do Amazonas: Plínio Ramos Coelho e Gilberto Mestrinho.

b)PSD:
Vargas também criou o PSD. Era o partido para onde foram os interventores do Estado Novo. Não tinha exatamente uma ideologia única, que orientasse todos seus membros. Existia a ala mais radical, conhecida como "Ala Moça", e aqueles mais conservadores. O PSD era conhecido por ser "governista", apoiando quem quer que esteja na presidência. Era um partido que tinha uma certa unidade, já que os interventores já tinham criados laços em quase todos os estados.
Membros famosos: Juscelino Kubistchek, Ulysses Guimarães, Benedito Valadares, Adhemar de Barros e Ernani Amaral Peixoto.
Membros famosos do Amazonas: Álvaro Maia.

c)PCB:
Conhecido como "Partidão", o PCB foi fundado por um pequeno grupo de militantes comunistas em 1922 e passou a maior parte do tempo na ilegalidade. Seu maior líder foi Luís Carlos Prestes, que esteve na direção do partido em curtos períodos, mas mesmo assim tinha uma influência poderosa na organização. Nos anos 50, a proposta do partido era se aliar com a burguesia para fazer uma revolução que instaurasse uma democracia liberal no Brasil para aí sim fazerem sua própria revolução. Esse ideal era reflexo do pensamento soviético da época, que acreditava que todos os países deviam passar pelas mesmas etapas de revolução.
Por isso se aproximaram do trabalhismo e de setores vindos do PSD.
Membros famosos: Luís Carlos Prestes, Gregório Bezerra e Carlos Marighela.
Membros famosos do Amazonas: Aldo Moraes.

d)UDN:
O partido nasceu para abrigar todos os descontentes com a política ditatorial de Vargas no Estado Novo. É considerado como seu documento fundador o Manifesto dos Mineiros, um protesto escrito por jovens políticos mineiros pedindo a redemocratização. No entanto, estes descontentes eram diversos: comunistas, ex-tenentistas, oligarquias fora do poder, pequena burguesia, etc. A partir dos anos 50, o partido se radicalizou e adotou uma política mais conservadora: basicamente antigetulista e anticomunista.
Membros famosos: Carlos Lacerda, Jânio Quadros, Magalhães Pinto e Afonso Arinos.
Membros famosos do Amazonas: Josué Cláudio de Souza, Paulo Pinto Nery e Andrade Neto.


Foram presidentes da República nesse período:
Marechal Eurico Dutra (PSD), Getúlio Vargas (PTB), Café Filho (PSD), Juscelino Kubistchek (PSD), Jânio Quadros (UDN) e Jango Goulart (PTB).
Foram governadores do Amazonas nesse período:
Leopoldo Neves (PTB), Álvaro Maia (PSD), Plínio Coelho (PTB), Gilberto Mestrinho (PTB), Plínio Coelho (PTB).
Crises políticas: suicídio de Getúlio Vargas em 1954; tentativa de golpe da UDN e militares contra a posse de JK em 1955; renúncia de Jânio Quadros em 1961; posse de Jango Goulart, após a solução parlamentarista em 1963; golpe de 1964.

Em 1965, os partidos políticos são dissolvidos pelo Ato Institucional N. 2, já nos tempos da ditadura militar. O AI-2 criou dois partidos, para "respeitar o regime democrático": o Movimento Democrático Brasileiro (MDB), da oposição; e a Aliança Renovadora Nacional (ARENA), da situação.


Golpismo
É importante enxergarmos que esse foi um período muito frágil já que o país tinha acabado de sair de uma ditadura e não estava acostumado com o regime democrático. Existia sempre no ar a imagem do golpe como solução extrema para os problemas. A cúpula da UDN, quando Vargas foi presidente, que para evitar um novo golpe do "Pai dos Pobres" as Forças Armadas teriam de ajudar o país fazendo um contragolpe. Na realidade, após o suicídio de Getúlio, temendo que o PTB assumisse a presidência, eles ensaiam um golpe que foi impedido por um setor legalista do Exército. O episódio ficou conhecido como Novembrada. A justificativa do golpe voltou á pauta com a renúnica de Jânio Quadros, temendo que Goulart, afilhado político de Vargas, dê um golpe e coloque o país numa ditadura comunista. Muitos setores do PCB, na realidade, defendiam também a necessidade de um golpe, antes que a UDN e o Exército fizesse o seu, mas a direção do partido estava confiante de que atingiria seu objetivo com Goulart no poder. Em 1964, o golpe é desfechado.


Forças Armadas
Na verdade, um grande ator político do período foram os militares, principalmente do Exército. O Exército na República Velha passou a ter mais poder que no Império, mas mesmo assim ainda era utilizado como instrumento das oligarquias estaduais. Quando havia conflitos políticos muito sérios, os militares apareciam como solução-tampão. Na Era Vargas, o Exército se fortalece. A instituição é modernizada e passa a atuar mais na política brasileira.
A marca das Forças Armadas até 1950 é o seu nacionalismo. A partir da década de 1950 em diante, com a força do PTB e do PCB, o anticomunismo começa a ganhar alguns membros e, ao mesmo tempo, o trabalhismo e o comunismo também conquistam alguns oficiais, principalmente os de postos inferiores como os sargentos. Sargentos e marinheiros se manifestaram em 1963 e 1964 á favor de Goulart.
Principais nomes do período: Brigadeiro Eduardo Gomes (Aeronáutica), Marechal Eurico Gaspar Dutra (Exército), Marechal Henrique Teixeira Lott (Exército), General Osvino Alves (Exército), Almirante Cândido Aragão (Marinha), etc.
Principais nomes no Amazonas: General Siseno Sarmento, General Nélson de Melo e General Moniz de Aragão.

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Obs: Para enxergarmos além do mito de que todas as Forças Armadas eram reacionárias, vejamos um pouco da vida desses militares:
-Eduardo Gomes e Dutra foram grandes aliados da UDN, um por ser antigetulista e outro por ser anticomunista.
-Marechal Lott ficou conhecido como o militar legalista, já que impediu a tentativa de golpe em 1955, e apoiou JK durante todo o seu governo, se candidatando á presidência nos anos 60 pela coligação PTB-PSD.
-General Osvino Alves foi um dos defensores do governo de Goulart, assim como Aragão. O primeiro era nacionalista e legalista, enquanto o segundo era francamente comunista, conhecido até como o "Almirante Vermelho".

A pena é mais forte que a espada...

Angelo Agostini era um ilustrador italiano que fez fama no Brasil da segunda metade do século XIX através das suas ácidas charges criticando personalidades públicas na imprensa paulista. Agostini conseguiu, com o tempo, produzir seu próprio periódico: a Revista Illustrada. Nem por isso deixou de ser menos cáustico.
O alvo predileto de Agostini era o então imperador do Brasil, D. Pedro II. Acreditava que o imperador era responsável por um governo corrupto e atrasado, porque era conivente com as tramóias dos senadores e presidentes de província.
Agostini atacou a figura imperial desenhando-lhe muitas vezes como um homem que vive dormindo, como se estivesse indiferente á tudo. Na charge á baixo, nos últimos anos do Império, Agostini desenha D. Pedro II dormindo por causa das notícias que lê no jornal. Elas são tão desinteressantes que o imperador cai no sono. Sendo que naquele momento os jornais do Rio de Janeiro estavam cheios de notícias sobre a situação da cidade e da política, ambas conturbadas.

A legenda diz: "El Rey, nosso senhor e amo dorme o sonno da... indifferença!Os jornaes que diariamente trazem os desmandos dessa situação, parecem produsir em S.M. o effeito de um narcótico. Bemaventurado Senhor! Para vós o reino do Céo e para o vosso povo... o do inferno!"
Um motorista que dorme ao volante é o símbolo da irresponsabilidade. É o que Agostini tenta nos passar através de seu desenho. E, na realidade, a imagem que D. Pedro II cultivava de um imperador sereno e de idade avançada meio que combinava com essa sua "sonolência".
A historiadora Maria Thereza Chaves de Melo diz que desenhos como esse de Agostini foram importantes para o fim do Império porque eles popularizaram a idéia de que a monarquia era um regime arcaico que deveria ser extirpado do país. Sua tese é de que se a República não teve a participação do povo, pelo menos contou com seu apoio. Em 1889 a imagem da monarquia estava totalmente desmoralizada e por isso não se viu grandes manifestações pedindo a volta do regime. As charges afiadas de Agostini, quem diria, ajudaram a derrubar um monarca.

Tem boi na linha II

Parece que no jogo que se tornou o transporte coletivo, o povo de Manaus teve uma pequena vitória. Aliás, uma não, duas. A primeira contra a prefeitura e a segunda contra o governo estadual.
Amazonino tinha anunciado o aumento da passagem de ônibus e o governo estadual estava cogitando a possibilidade de cobrar pedágio na ponte que está sendo construída sobre o Rio Negro, quebrando assim a promessa do governador Eduardo Braga, que iniciou as construções, que o atual governador, Omar Aziz, jurou honrar.
No último sábado, dia 15, o governo teria declarado que não cobrará pedágio e nem cogitou tal hipótese, que tudo se tratou de boatos. Mas sabemos que a idéia já passou pela cabeça dos responsáveis pela obra. Tanto que demoraram a responder as perguntas sobre o pedágio (o boato teria surgido há quase duas semanas e meia atrás).
Os protestos foram mais veementes contra Amazonino, por conta do aumento da passagem de ônibus. Em uma população que o ônibus é fundamental para o trabalho e para o lazer, apesar da quantidade de carros no mercado, a medida atingiu mais profundamente o manauara, afinal, a questão sobre a ponte é algo mais relativo ao futuro, enquanto o preço da tarifa de transporte coletivo é algo com consequências muito mais imediatas.
Destaque para as manifestações organizadas por movimentos sociais ou por campanhas políticas que não receberam o apoio popular. A Juventude Socialista organizou uma vigília em frente do Sinetram que contou com um número considerável de pessoas, enquanto na passeata organizada contra a corrupção no dia 12 tivemos a participação de 30 pessoas. A insastifação foi geral, mas não se manifestou através dos movimentos sociais. Em todos os locais ouvia-se reclamações sobre a medida. Foram atos desarticulados.
A pressão, mesmo que desarticulada, conseguiu algo: a volta aos preços anteriores.
Como diz o velho ditado, é bom nunca cantar vitória antes do jogo terminar. É bem possível que o preço das passagens venham a ser aumentados gradativamente, depois de todo esse bafafá. Ou que, com o pretexto de que a ponte necessita de manutenção regular e o governo não pode provè-la no momento, o Estado instale cabines de pedágio na ponte. Por isso, seria bom organizar melhor as poucas manifestações sociais que temos e procurar conscientizar o povo para estarmos melhor preparados para a "porrada" que vem por aí.

Tem boi na linha

No Brasil, transporte público virou sinônimo de martírio ou tortura. Em Manaus a situação não é muito diferente. Se a população fosse perguntada sobre quais os maiores problemas que Manaus têm, com certeza o transporte figuraria na lista. E não é para menos. Poucos ônibus e os que estão em circulação precisam de manutenção. Isso sem falar dos terminais e paradas, caindo aos pedaços. O trânsito caótico também não ajuda nenhum um pouco.
Eis que o prefeito de Manaus anuncia como uma das soluções para esse problema uma nova frota de ônibus. A frota chegou. Foi apresentada no dia 8, sábado passado. Os ônibus ocuparam de uma ponta a outra da Avenida das Torres. E começaram a entrar em circulação no começo da semana. O que surpreendeu a população, contudo, não foi a quantidade de ônibus, mas o preço que se cobraria para circular neles. Amazonino anunciou que aumentaria as tarifas de 2,25 para 2,75 e, para os ônibus executivos, de 3,00 para 5,50.
Claro está que o nosso prefeito está tentando acabar com o transporte alternativo: o aumento das tarifas foi um soco bem no meio do estômago dessas empresas. Ora, elas cresceram em cima da deficiência do transporte público. Por aí percebemos o que a urbanista Raquel Rolnik sempre afirma: o espaço urbano é regido por regras, principalmente economicas. O lobby das empresas de transporte coletivo e a prefeitura demonstra isso muito bem. O espaço urbano vira palco de tensões. Tensão entre o transporte público e o alternativo. Entre o povo e a prefeitura.

terça-feira, 18 de outubro de 2011

Eterno presente

Ontem conversava na faculdade com minha amiga Maria Lucirlei Barbosa sobre a consciência histórica, entendendo com isso aquele senso de que tudo ao nosso redor tem uma história.
Cirlei dizia que cresceu numa cidade relativamente recente, Vilhena, de um estado também recente, Rondônia, e por isso nunca pensou como essa cidade foi construída, pois presenciou a maior parte desse processo. Como tudo era recente, não havia o que falar sobre o passado. Por isso quando veio para Manaus ficou um pouco chocada com tantos monumentos antigos convivendo com a modernidade. A faculdade ajudou a entender isso e do estranhamento inicial veio a compreensão.

Vilhena hoje.
Eu partilho uma experiência semelhante: cresci em um bairro do Rio de Janeiro chamado Sepetiba que não é tão recente assim (já existia desde os tempos do Império), mas que só sofreu grandes transformações a partir das últimas décadas do século passado. Para mim, Sepetiba sempre existiu e não pensava que ela poderia ter uma história. Não havia muitas referências ao passado da cidade, a não ser nos nomes das ruas, por isso nunca me perguntei o que tinha vindo antes do momento em que vivi ali. Sabia que no Rio de Janeiro tinha acontecido mil e um fatos, mas não pensei que Sepetiba estava envolvida neles. O que me despertou esse senso de que o bairro podia ter uma história foi minha passagem por Taubaté, onde a história se faz muito presente nos casarões dos barões do café que ainda estão de pé e até nos armazéns da antiga indústria têxtil local.

Sepetiba hoje.
Engraçado essa nossa visão de que as coisas parecem terem sempre existido, que nosso bairro e nossos familiares são tão naturais como o vento ou a água que não paramos para nos perguntar como eles se formaram, como chegaram até aqui, o presente. O historiador José Honório Rodrigues chamava essa visão de "eterno presente" e dizia que ela era uma das formas de alienação do homem comum mais poderosas, porque quase não se percebe quando ela começa. A História tem como função justamente acabar com essa alienação, fazer enxergar para além do imediato para compreender o mundo ao redor e saber o que fazer para melhorá-lo.

sexta-feira, 14 de outubro de 2011

Pensando e repensando Javé II

Por abordar a questão da narrativa, como vimos no post anterior, Narradores de Javé pode levantar discussões interessantes á todo tipo de gênero que utilize esse recurso. Desde o conto popular até o cinema, da memória á história.
Todo causo tem um início, um meio e um fim, mas a forma como ele é contado nunca é mesma, pois o narrador nunca é o mesmo. No filme, vemos o caso da história da fundação de Javé. Toda narrativa sobre a fundação começa do mesmo ponto: uma pequena expedição parte em busca de uma terra para viver e acaba encontrando o vale do Javé. O que muda é quem chefiou essa expedição (se Indalécio, Indaléo ou Maria Dina), como ele achou essa terra (se numa batalha, se numa profecia, etc.) e por aí vai.
O estilo de contar uma história ajuda a transformar as narrativas em algo muito plural, mas a origem da história também. Pode ser que Vicentino, por exemplo, conte a história da fundação de Javé a partir do que lhe foi contado por seus pais, sempre reiterando o seu vínculo familiar com o nobre e valente fundador da cidade, e este acrescente alguns detalhes a mais.

Vou dar aqui outro exemplo: meu avô gostava de contar uma das tantas histórias que tinha ouvido sobre Lampião na qual o cangaceiro teria chegado numa cidade do interior do nordeste á procura de um lugar para comer e encontrou a pensão de uma senhora que, ávida para receber a recompensa pela sua cabeça, decidiu envenenar a sopa do rei do cangaço. Lampião, sagaz, sempre comia com uma colher de prata. Assim que colocou a colher na sopa, ela mudou de cor. O cangaceiro sabendo que a sopa estava envenenada teria pedido para a velha tomar um gole, por parecer muita cansada. A senhora teria tomado, literalmente, do próprio veneno e morreu ali mesmo. Fiquei sabendo de outra versão onde o cangaceiro, pintado como homem esperto, mas cruel e desumano, teria fuzilado a senhora assim que viu a cor da colher, que teria tentando matá-lo porque este teria matado seu filho quando entrou na cidade atirando para todos os lados.
É uma narrativa: o causo tem o começo, meio e fim. Em todos alguém tenta envenenar Lampião e acaba morto, só que em um o caráter do cangaceiro é mais nobre e noutro mais desumano. Isso reflete a própria ambiguidade de como Lampião é visto pela história e pela opinião pública: ora herói, ora vilão.
Resumindo, a narrativa popular é tão diversa porque está condicionada pela sua origem social e pela subjetividade do seu narrador. A mesma coisa vale para o historiador ou para o cineasta. A personalidade influi na narrativa cinematográfica, isso todos sabemos - tanto que sobre esse respeito existe até uma certa teoria dos autores.

Essa teoria, criada por críticos franceses, alega que mesmo o cineasta sendo limitado pelos poucos recurso e pelas restrições dos estúdios e produtores, em tudo que faz deixa uma marca da sua personalidade. Mesmo fazendo um filme comercial, o cineasta deixa escapar ali e acolá sua originalidade. Sabemos pelos ângulos da câmara, o foco em determinados personagens e a trilha sonora, por exemplo, quando vemos um filme de Sérgio Leone, o reinventor do faroeste. As imagens panorâmicas, os closes sobre os rostos e olhos sujos dos caubóis e a música grandiosa do maestro Ennio Morricone denunciaria fácil o autor do filme. Leone era um grande apreciador de ópera e muitos dizem que ele levou esse estilo para os faroestes. Seus filmes iniciam de forma minimalista para se tornarem, ao longo do enredo, algo épico. Ora, é um estilo de narrativa.
E na história? A escolha do tema que o historiador se propôe investigar é algo íntimo: ele procura respostas para perguntas, no presente, que lhe angustiem. É preciso afinidade com um tema para se debruçar sobre ele. As inquietações são pessoais, portanto, e a forma como elas são tratadas na hora de expor os resultados da pesquisa também o são.

O historiador suíço Jacob Buckhardt, por exemplo, elegeu como seu tema o Renascimento italiano e apresenta sua pesquisa como se fosse um mestre de cerimônias, abordando a partir de suas obras de arte preferidas determinados períodos e personagens do período. Segundo o historiador alemão Peter Gay que analisou o estilo de Buckhardt, isso demonstra muito da sua personalidade: Buckhardt era um homem conservador que se incomodava com os avanços do mundo moderno (viveu no século XIX) e que teria escolhido o Renascimento como tema, pois este período lhe parecia muito exótico e talvez pudesse explicar como a Humanidade teria chegado á esses novos e caóticos tempos.Buckhardt enxergava o Renascimento como uma época de excessos, algo do qual não gostava tanto. Ainda assim escolheu esse período para investigar por causa do exotismo e da excentricidade que parecia exalar. O modo como aborda o período, como um mestre-de-cerimônias, demonstra a sua austeridade, sua formalidade.
Temos a narrativa mutante do causo, a narrativa épica de Leone e a narrativa formal de Buckhardt nesse texto. Todas demonstram a diversidade desses recursos, diversidade essa que depende dos meios de se contar uma história e da personalidade de quem conta.

quarta-feira, 12 de outubro de 2011

Chumbo grosso

Em dezembro de 1968 é outorgado o Ato Institucional N. 5, conhecido como o começo dos anos de chumbo, o período em que a ditadura militar se tornou mais rígida. Muitos acreditam que o motivo para o famigerado AI-5 tenha sido o discurso do deputado Márcio Moreira Alves em setembro. Nesse discurso o deputado criticava os militares no poder pela conivência com as torturas executadas nas prisões e pedia que as mulheres dos soldados fizessem uma "greve" contra seus maridos e que todos boicotassem o Sete de Setembro. Altamente indignado com as afirmações do deputado, o presidente pedira a cassação de Márcio, porém ela fora negada pela Câmara dos Deputados.

Marechal Arthur da Costa e Silva imita Poncios Pilatos: lava as mãos diante do AI-5. Charge de Baptistão.
O historiador Carlos Fico critica esta visão e propôe uma nova forma de encarar o AI-5. Sim, o AI-5 aumenta o aparato repressivo, aprofunda a ditadura militar, mas sua origem não pode ser encontrada no discurso de Márcio, mas em pontos anteriores á esse. É consenso que o golpe de 1964 não foi feito por todos os militares e eles não tinham uma ideologia única e coerente os guiando. Era o anticomunismo e a insatisfação com o governo Goulart que os movia. Tanto que após concretizado o golpe, o governo levou muito tempo para se organizar, se consolidar. Muitos grupos disputavam a direção de regime, dentre eles o que ficou conhecido como "linha dura", constituído de militares guiados por uma utopia autoritária. Segundo Carlos Fico, utopia autoritária era a idéia de que o Brasil só se desenvolveria e se protegeria do comunismo se um governo autoritário fosse criado.

A história da ditadura militar pode ser encarada como a ascensão, consolidação e decadência da linha-dura. É apenas uma chave de compreensão, não quer dizer que seja a realidade em si. O fracasso do governo Castelo Branco, que se considera líder de um grupo mais moderado, em deter a ascensão da linha dura vem em 1967 com a indicação de Costa e Silva, um dos porta-vozes do grupo. O AI-5 pode ser visto, segundo essa chave de compreensão, como o cume desse processo da linha dura de tentar efetivar sua utopia autoritária.  Fico diz que a linha dura deixa de ser um simples grupo de pressão para se tornar, a partir do governo Costa e Silva, uma comunidade de informações e de segurança. O que significa isso? O grupo chega ao poder e passa a repousar em certas instituições estratégicas, instituições que investigam, censuram e reprimem. Instituições como o Serviço Nacional de Informações (SNI), a política política (que podia se ramificar no poderoso DOI-CODI ou nos serviços de inteligência das Forças Armadas, como o CIE, do Exército, ou o Cenimar, da Marinha) e os departamentos de censura.

Marechal Costa e Silva, general Médici, general Geisel e marechal Castelo Branco (de terno).
O começo do fim vem com a gradativa perda de apoio que o governo adquire por suas ações repressivas. O apoio de parte do empresariado, da Igreja Católica e do próprio povo vai se perdendo com as ações, com o consentimento ou não do governo, como os atentados do Comando de Caça aos Comunistas (CCC) ou da Operação Bandeirantes (OBAN). Além disso, a imagem do Brasil no exterior não é das melhores, por conta das denúncias de tortura nunca investigadas. As organizações de Direitos Humanos iniciam uma campanha rigorosa contra o Brasil. Não bastasse isso, os primeiros efeitos do "milagre brasileiro" encetado pelo governo Médici começam a ser sentido ainda na década de 1970. Em 1974, para piorar, temos a crise do petróleo. A linha dura estava desmoralizada e "encurralada", para usar a expressão do jornalista Elio Gaspari. Daí Ernesto Geisel decretar  início de uma abertura "lentra e gradual". Uma das séries de medidas do Pacote de Abril é justamente a revogação do AI-5.

Carlos Fico
Ascensão e ocaso da linha dura. É uma hipótese interessante afinal. Traz uma nova luz sobre um momento tão rico de nossa história sobre o qual não é muito refletido do ponto de vista historiográfico. Os historiadores, vejam só, são novatos na discussão sobre a ditadura militar. Grande parte da produção sobre o assunto, nos mostra Carlos Fico, vem de cientistas políticos e de memorialistas. O período fica entre o discurso panfletário da direita ou da esquerda e as análises políticas da academia, a maioria internacional (os chamados brasilianistas). Os historiadores chegaram á pouco tempo na discussão, questionando o caráter estrutural (se o papel maior se deve á economia ou á política) ou não do golpe, as práticas culturais ou não das instituições do regime, dentre outros aspectos. O tema está longe de ser esgotado.