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segunda-feira, 22 de julho de 2013

Ainda há vida na velha praça...

Movimento Vem Pra Rua Manaus chega á Av. Djalma Batista em 20 de junho de 2013.

"O gigante acordou". Se tem falado muito nisso. Não que eu desaprove esse momento porque estamos passando. Por muito tempo se falou da apatia do brasileiro. A onda de protestos que se iniciou em São Paulo por conta do Movimento do Passe Livre é saudável á democracia, mas, claro, desde que não se desvirtue em autoritarismo (o medo de 9 em cada 10 analistas dos movimentos).
Acredito que estamos ainda longe de um ponto de chegada, se é que ele existe. As reivindicações são ora pontuais (como abaixar o preço da passagem de ônibus), ora amplas demais (como acabar com a corrupção), mas são reivindicações, ora! Já vejo gente questionando qual a melhor tática: ir derrubando um problema de cada vez ou exigir soluções cada vez mais abrangentes. Só fato disso estar sendo discutido na rua já é louvável.
Na pauta de reclamações sobressai-se problemas diretamente ligados ao cotidiano dos cidadãos, como a saúde e o transporte público. Eder Sader, ao analisar os movimentos sociais dos anos 70 e 80, encontra processo semelhante o qual chamou de "politização do cotidiano". O cotidiano de uma cidade como Manaus, onde o planejamento e infra-estrutura são quase como água e óleo, é um barril de pólvora. Inúmeras foram as vezes em que Manaus se revoltou contra isso. Podemos ir até os tempos finais de Belle Époque onde protestos contra o monopólio dos serviços urbanos pelos ingleses geravam quebra-quebra também, ou podemos ir até os anos 80 e 90, quando manifestações de professores e de cidadãos de bairros sem saneamento básico ou que não eram atendidos pelo transporte público pipocavam pela cidade.
Existiram manifestações antes e existirão manifestações depois do Movimento Passe Livre em Manaus. O que salta aos olhos como novo é a conjuntura nacional favorável á elas e a condição peculiar de Manaus como uma das cidades sede da Copa de 2014 que já vem sendo remodelada (ou desfigurada) de forma cruel.
Eu saúdo a iniciativa de um grupo de militantes, ligados á diversos partidos e diversas ideologias, mas unidos pela mesma preocupação com essa cidade. Esse grupo uniu-se com mais força desde que um dia a Praça Nossa Senhora de Nazaré apareceu em obras. Logo ficou-se sabendo que se tratava de obras para melhorar o transporte ali na Av. Recife, criando uma baia para ônibus. Tudo bem. Mas e nos cantos da praça fora da avenida principal? Estava claro que a redução da praça partia de uma pressão já antiga de moradores de condomínios próximos de aumentar o número de vagas de carros estacionados nas ruas do entorno.
Esse grupo organizou várias ocupações da praça. Uma delas ocorreu na quinta passada. Tratava-se de vivenciar a praça fazendo um pequeno sarau ali. Foi uma experiência muito agradável. Rever a praça como um ambiente de socialização, um local de prazer e não mais um adereço, foi algo incrível. O grupo, que já se constitui como um grupo devidamente constituído possuindo inclusive um nome próprio (Direitos Urbanos), continua sua luta e nela revigora-se a praça. O mais interessante é ver como muitas pessoas que não tem ideia do que se está reivindicando param, sentam, observam, participam. É perfeitamente compreensível o porquê: ninguém quer uma cidade desumanizada e a praça respirando é exemplo maior da Manaus que queremos preservar.
Acho que mais importante que o gigante que acordou foram a praça e rua terem acordado.

sábado, 20 de abril de 2013

Cidade-esfinge


Estava eu sentado num dos milhares de banquinhos que circundam o Largo São Sebastião quando decidi por absoluta falta do que fazer admirar o chão. Sim, o calçamento da Praça é feito de pedras pretas e brancas, simulando as ondas do mar - lembrar muito o calçadão de Copacabana.
Então percebo que não era o único leso contemplando aquele tabuleiro. Do cordão de mangueiras surgiram duas figuras - talvez já estivessem lá e minha miopia não me avisou  - e andaram calmamente até o centro da praça. Lá pararam. O objeto de admiração era outro agora: o monumento de abertura ao portos.
Me chamou a atenção esta dupla pela perfeita união de contrastes que formava: um era mais alto, o outro baixinho; um era negro, o outro brancão; esse era velho, aquele jovem...
Arriscaria dizer que o rapaz era haitiano e o senhor era estrangeiro - possivelmente italiano ou francês. E digo mais: esse velhinho com certeza era um padre. Não precisaria ser um Sherlock Holmes para descobrir: o colarinho denunciou.
Ainda que o sacerdote não fosse de Manaus tenho a impressão de que estava em Manaus já há um tempo, uma vez que era o guia do jovem haitiano. Ele falava do calçamento, do chafariz, as estátuas. Apontava para a nau que representava o continente africano. O rapaz só ouvia. Não disse uma palavra. Seus olhos dissecavam o monumento e a praça acompanhados pela voz cadente do vigário (a essa altura já tinha quase certeza que era vigário... ou então monsenhor?). Espremia os olhos até o bagaço. Um óculos não faria mal, com certeza.
Ousei ir pouco mais longe na minha intromissão e imaginar o que aconteceria daqui há alguns meses: talvez esse mesmo rapaz volte aqui e apresente ao seu primo que acabou de vir do Haiti o calçadão ondulado e o monumento apinhado de sinais. Acreditando que depois disso seu primo poderá ler a cidade sem ter que espremer a visão. O idioma não será mais desconhecido, nem o ambiente tão alienígena. As surpresas, essas sim continuarão. Nem os mais experientes viventes da cidade estão isentos de uma nova lição de Manaus.

sábado, 23 de fevereiro de 2013

E um belo dia... abriu!

Foto: Acervo do jornal A Crítica.

A Biblioteca Pública do Estado do Amazonas estava em reformas desde 2007. E o prazo para a reabertura do prédio era sempre adiado e adiado. E qual a surpresa de todos nós quando em um belo dia de janeiro desse ano encontramos os portões da centenária biblioteca abertos novamente.
Soraia Magalhães, uma das fundadoras do Movimento Abre Biblioteca, fala um pouco do desfecho dessa novela e fala um pouco sobre lugares que se encontram em uma situação parecida neste artigo (Sabor de um sonho realizado) para a Revista Biblioo.

quarta-feira, 13 de fevereiro de 2013

Maledicência

Foto: A Crítica.

RUÍNAS
Cabaré Chinela diz adeus ás raparigas.
Diz adeus todo dia, esperando que acenem de volta.
Mas nada...
"Saudade de quando humanos trepavam aqui. O sexo das ratazanas não tem glamour".

AGONIA
Rir é o melhor remédio
a não ser que seja o riso cínico, venenoso.
Ouviu isso, Cidade Sorriso?

UMA FAMÍLIA
Aquela casa de três cômodos e sete habitantes é um exercício de silêncio.Melhor, de silêncios. Antes fossem fantasmas. Seriam muito mais hospitaleiros...

CANNABIS
Fumou
Viajou
Quando voltou, beijou o chão.
Ainda assim, guardou o passaporte pra depois.

ÁPORO REVIEW
O inseto que vira flor
que cafona!
desculpe CDA, mas o otimismo é um passadismo.
Que o inseto virasse sangue!


terça-feira, 12 de fevereiro de 2013

Rapidinhas


O brega chora
faleceu Roberto Makassa,
o bolero em carne e osso
e óculos escuros.
Manaus, 4 de fevereiro de 2013

- notícia sussurrada -
Biblioteca Pública abriu
Manaus, 31 de janeiro de 2013

D. Pedro I abdicou, Collor renunciou
até o papa jogou a toalha
e nada do Robério se coçar.
E Renan taí...

sexta-feira, 8 de fevereiro de 2013

Versinhos de guardanapo

Sai pra caçar
brejas geladas e boa companhia
já tenho o lugar na mira:
Safári Bar.
Dedico a toda fauna boêmia dessa e de outras paragens

quinta-feira, 7 de fevereiro de 2013

Quem tem medo de Arthur Reis?

Por Hélio Dantas e Vinicius Alves do Amaral
Acervo Jornal do Brasil.


Há exatos 20 anos, falecia no Rio de Janeiro, aos 87 anos, o historiador amazonense Arthur Cézar Ferreira Reis. Ao longo de quase nove décadas de existência, Reis exerceu uma considerável atuação como historiador, professor, político e homem público, não só no Amazonas como no restante do Brasil. Até meados da década de 1970, seus livros foram referência básica e obrigatória a quem se interessava pela História da Amazônia. Sua obra é vasta, pois, desde 1930 aos anos 1980 teve livros de sua autoria publicados regularmente, além de inúmeras matérias de jornais, palestras, cursos, artigos e prefácios.
Estudos acadêmicos abordando especificamente sua trajetória e sua obra são recentes e começaram a surgir somente na última década. Em 2001, Sidney Lobato, estudante de História na Universidade Federal do Amapá, abordou a obra de Arthur Reis na monografia “Bricolage da formação nacional: a obra de Arthur Cézar Ferreira Reis (1939-1966)”. O professor Alexandre Pacheco, da Universidade Federal de Rondônia, desenvolveu entre 2008 e 2010 o projeto de pesquisa “Arthur Reis: História, Literatura e Poder (década de 1960)”, que rendeu diversos artigos científicos. Em 2009, surgem mais duas pesquisas: a dissertação de Lademe Correia de Souza “Arthur Reis e a História do Amazonas: um início em grande estilo” e a de Leila Margareth Rodrigues Gomes, “Movimentos Sociais na obra de Arthur Reis”, ambas desenvolvidas no âmbito do Programa de Pós-Graduação em História da UFAM. Nesse mesmo Programa de Pós-Graduação, foi defendida em 2011 a dissertação “Colonização e Civilização na Amazônia: Escrita da História e Construção do Regional na obra de Arthur Reis (1931-1966)”, de Hélio Dantas. Mais recentemente, em 2012, Vinícius Alves do Amaral, defendeu o Trabalho de Conclusão de Curso intitulado “O Seringal e o Seringueiro: a ‘epopeia amazônica’ em Arthur Reis” no curso de História da UNINORTE. Vale lembrar que, em 2006, ano do centenário do nascimento de Arthur Reis, o Instituto Geográfico e Histórico do Amazonas realizou o seminário “Arthur Reis: o intelectual e o homem de ação”.
Nascido em Manaus, em uma família tradicional, Arthur Reis obteve o título de bacharel em Direito no Rio de Janeiro, mas, ao retornar ao Amazonas em 1928, optou por ser professor de História, uma disciplina que, segundo ele, o atraía desde os tempos de ginásio. Entre as aulas de História nos tradicionais colégios locais e a atuação como editor do Jornal do Comércio (sendo este propriedade de seu pai), Reis começou a desenvolver suas pesquisas em História. O primeiro fruto foi seu livro de estreia, História do Amazonas, publicado em 1931.
Arthur Reis orgulhava-se de ter uma vida discreta, mas ainda assim era considerado uma personagem polêmica. Deve-se esse fato tanto à sua carreira enquanto pesquisador da História da Amazônia quanto à sua breve passagem pelo Governo do Estado do Amazonas entre 1964 e 1967.
Em seus escritos percebe-se claramente uma exaltação do caráter civilizatório da ação portuguesa. Para Arthur Reis, a colonização lusitana na Amazônia foi, definitivamente, bem-sucedida. Ao chegar à região, no século XVII, Portugal já teria acumulado a experiência aprendida nas colônias da África, da Ásia e do próprio litoral brasileiro, e, segundo o historiador, serviu de guia tanto para a ação do Estado quanto da “iniciativa privada” do colonizador. No entanto, mesmo com esse cabedal de experiência acumulado, a Amazônia se mostraria peculiar e diferente das outras conquistas coloniais de Portugal. O êxito dos colonizadores só foi possível porque, partindo dessa experiência prévia, não teriam se negado a realizar na região uma conquista que procurou adaptar-se às suas contingências.
Na narrativa histórica de Arthur Reis, a colonização na Amazônia segue sempre essa dupla via do ímpeto conquistador lusitano e de sua experiência adaptativa, uma alimentando a outra. É o que Arthur Reis chama de “realismo português”: o êxtase ante a grandiosidade do quadro físico, que impelem à conquista, logo dão lugar a uma “ação realística”, marcada por disposição, impetuosidade, constância e capacidade realizadora.
Toda a legislação expedida da Corte em relação à Amazônia é utilizada por Arthur Reis para servir de base a tais argumentações. Havendo necessariamente a preocupação geopolítica, que visava proteger a conquista territorial da cobiça de outros povos – preocupação essa demonstrada no aparato militar das fortificações ao longo da fronteira –, não seria somente com essa demonstração de força que Portugal iria impor a legitimidade de sua conquista na região. Para o autor, seria necessário gerir uma sociedade “ativa e modelar”, construída com incentivo à imigração e posteriormente à miscigenação, à fundação de núcleos urbanos, à tentativa de integração do indígena à nova sociedade – e uma política econômica de incentivo à agricultura, a defesa da fauna e da flora contra a atividade predatória excessiva que caracterizava a atividade extrativista, a organização do sistema de trabalho, comércio e exportação. Dessa forma, tinha um caráter de ocupação, de criação de uma “área humanizada” na região: o desenvolvimento de um processo colonizador que não visava unicamente à exploração de suas riquezas.
O esforço teórico de Arthur Reis buscava demandar uma política federal mais atuante, embasada na ciência, que analisasse as possibilidades de desenvolvimento para a região. Para tanto, empenhou-se em demonstrar que os trópicos eram habitáveis, e a possibilidade de desenvolvimento e de civilização na Amazônia, era aceitável: o problema encontrava-se não na natureza, mas na forma como a região era administrada e estudada. Inclusive, para o autor, a própria inércia e desinteresse do Estado brasileiro pela região, deviam-se, em grande parte, à visão distorcida ou idealizada que se tinha dela, que findava por condená-la ao primitivismo.
Para Arthur Reis, se no passado a conquista da região foi efetivada a contento, como um ato de coragem dos colonizadores, no presente, seria o rigor da pesquisa técnico-científica que permitiria um conhecimento exato e minucioso do território. Era preciso, no presente, retomar e plenificar a obra iniciada pelo colonizador lusitano.
A par desse pequeno resumo de sua obra, podemos entender melhor a participação de Arthur Reis em programas governamentais como a Superintendência do Plano de Valorização Econômica da Amazônia (SPVEA) e no Instituto Nacional de Pesquisa da Amazônia (INPA) na década de 1950, que tinham por principal objetivo propor e executar projetos para retirar a região da crise em que se encontrava após o fim do boom da borracha. Mas a morosidade da máquina pública e as poucas verbas concedidas fizeram da SPVEA uma experiência frustrada.
Então em 31 de Março de 1964, com o golpe de Estado que implanta a ditadura civil-militar no Brasil, um novo regime se instala, prometendo moralizar a política e desenvolver o país. Parece que a promessa será cumprida uma vez que a Amazônia é encarada como região-problema dentro da Ideologia da Segurança Nacional – muito espaço, pouco ocupado, na visão dos militares corria o risco de servir de abrigo a guerrilheiros. Mais uma vez, a condição de “especialista em Amazônia” o torna um forte candidato a um cargo público, dessa vez, o de governador do Amazonas.
Mas para Arthur Reis, que assume o cargo de 1964 a 1967, guerrilheiros não eram a única ameaça à integridade da Amazônia. Em 1965, inicia uma campanha na imprensa contra a presença de instituições de pesquisa estrangeiras, instaladas na Amazônia com a conivência do Governo Federal. Entendia tais ações como um atentado à soberania nacional. Não por acaso, havia publicado em 1960 o livro A Amazônia e a Cobiça Internacional, considerado por muitos como sua obra-prima. Nele apresenta o imperialismo sondando a Amazônia desde os tempos coloniais. Isso fez dele um livro aplaudido tanto por nacionalistas conservadores como por militantes da esquerda, tendo sido alvo de sucessivas reedições ao longo dos anos 1960, 1970 e 1980.
Seu governo foi ambíguo: colecionou crises e patrocinou iniciativas ousadas, sendo taxado, paradoxalmente de “autoritário” e “inovador”. Quanto ás crises, estas foram basicamente duas: primeiramente, um atrito com a Assembleia Legislativa e logo em seguida um desentendimento com o Judiciário. A mesma Assembleia que em junho de 1964 tinha aplaudido – com a exceção do então deputado Bernardo Cabral – a posse do novo governador, em agosto o amaldiçoava por ter encerrado uma sessão e ordenado que tropas da polícia cercassem o prédio. O caso estampou as manchetes dos jornais nacionais quando o senador Desiré Guarani o relatou em Brasília. Após uma ameaça de intervenção federal e uma tentativa de renúncia, optou-se pelo “esquecimento” entre ambas as partes.
Em fins do mesmo ano, o juiz Oswaldo Salignac foi aposentado compulsoriamente pelo governador, gerando contenda entre os desembargadores sobre a constitucionalidade dessa medida. A solução? Reis invalidou sua ação e Salignac aposentou-se voluntariamente. O que estava por trás das duas contendas? No primeiro caso, os entraves dos deputados em relação às medidas que Reis propunha, enquanto que no segundo, a absolvição de um destacado membro da administração anterior, Jaime Araújo, pelo juiz em questão, gerou a exoneração de Salignac.
Em sua defesa, o historiador-governador alegava que procurava apenas aprofundar o ideal da “Revolução”, expurgando os elementos corruptos e subversivos do cenário político. No meio do caminho encontrou a resistência dos deputados e dos desembargadores. Antes mesmo de aplicar tais medidas, Reis já era visto pela oposição como uma má escolha por sua inexperiência política. Até então havia se envolvido apenas em cargos de menor teor partidário. Mas agora era diferente, agora ele se encontrava no “olho do furacão” – entre as ordens de um novo regime e os interesses dos políticos regionais. Jornais o comparavam a um macaco em uma sala de porcelana. Não tinha tato político nem popularidade, diziam.
Em seu livro Dois Anos de Governo afirma: “O poder não pode ser exercido com hesitações, fraquezas, medo de agir. Quando ele nos é confiado temos de despir-nos do que nos é o prazer da vida para, no peso do dever, decidir com energia e segurança”. Em outras palavras, estava apenas obedecendo a ordens. Mas talvez suas ações fossem uma resposta a esta descrença na sua habilidade política.
Em compensação, suas obras de infraestrutura refletem um impulso de modernização: a reforma no Porto de Manaus, a batalha pela instalação da Zona Franca de Manaus e a construção da Rodovia Manaus-Itacoatiara, dentre outras. No campo cultural, a promoção de concursos literários, a publicação de obras de autores locais através da volumosa coleção das “Edições do Governo do Estado”, a fundação da Universidade do Amazonas e a realização de festivais de cinema e teatro. Inclusive Glauber Rocha passou por aqui para produzir um vídeo promocional do Estado chamado Amazonas, Amazonas em 1966, quando o diretor ainda estava reunindo recursos para produzir Terra em Transe.
Por sua obra e sua atuação política, encontramos posições diferentes sobre o Arthur Cézar Ferreira Reis. Enquanto o cineasta Aurélio Michiles o aplaude por sua “renascença cultural”, Narciso Lobo, à época jornalista de um dos periódicos empastelados pelo governador, ressalta seu “falso liberalismo”. Celebrado em instituições tradicionais como a Academia Amazonense de Letras ou o Instituto Geográfico e Histórico do Amazonas, criticado nas universidades.
Considerado por mais de uma geração de pesquisadores como um pioneiro e um importante sistematizador do conhecimento sobre a Amazônia, é taxado também como um historiador “positivista”, “conservador”, “autoritário” ou “superado” como se estas categorias fossem o suficiente para defini-lo. Na maioria das vezes, como diria o antropólogo Luiz de Castro Faria, sua obra é mais alvo de reverência do que de referência, sendo mais reconhecida do que efetivamente conhecida. Entretanto, há muito que ser dito, ainda, não só sobre este historiador, mas também sobre o período em que viveu. E este é o momento mais que oportuno para isso. Então, falemos de Arthur Reis!

Hélio Dantas

Mestre em História (PPGH/UFAM) e professor de História da Rede Pública Estadual e Municipal. É autor da Dissertação de Mestrado “Colonização e Civilização na Amazônia: Escrita da História e Construção do Regional na obra de Arthur Reis (1931-1966)”.

Vinicius Alves do Amaral

Licenciado em História pela UNINORTE e Mestrando em História Social (PPGH/UFAM). É autor do artigo “O Seringal e o Seringueiro: a ‘epopeia amazônica’ em Arthur Reis”, defendido como seu Trabalho de Conclusão de Curso.

quarta-feira, 30 de janeiro de 2013

Etnografia e serpentina I

A Rainha, Luciana Santos, e o Rei Momo, Vanderson Dinhows Fernandes, do Carnaval 2013 na chegada da Kamélia no Aeroporto Eduardo Gomes.

Nunca fui de pular carnaval. Vou dizer por quê: não gosto de multidão. Acredito que multidão atrai confusão. Além do lado bicho-do-mato, não sou muito de curtir festas. Até sou, mas uma festinha aqui e ali. Não um final de semana inteiro, sabe?
Da minha infância guardo lembranças de carnaval de salão (não sou tão velho assim, apenas vivia perto de um clube muito antiquado) e de rua. Me atraia todo esse universo festivo, mas ao mesmo tempo me assustava. Principalmente os bate-bolas! (Acho que já falei disso aqui...)
Fui construindo todo um discurso, que peguei emprestado de muita gente que conheço, de que o carnaval é mais uma bobagem que um dado de nossa cultura. O carnaval é a ditadura da felicidade, como diria um personagem de Sérgio Biancchi. E realmente é - panis et circense, baby - mas não é só isso.
Mudei minha visão de mundo (principalmente depois que consultei o oftamologista) e consequentemente minha visão do carnaval. Acredito que continuo arisco em relação ás festas, mas não fujo delas. Se divertir não é pecado, mas só querer se divertir já traz alguns probleminhas... Festa não é só alienação. Festa é lazer também e cultura. Ainda que a globalização e o capitalismo tenham retalhado o carnaval, há ainda aquele espírito de festa popular aqui e ali. Principalmente no carnaval de rua.
Para minha surpresa, aportei nessa cidade amazônica onde os blocos de rua tem uma tradição tão antiga quanto a carioca. Por isso, cair na folia aqui, seja nas bandas da Bica, Difusora, Boulevard, Cinco Estrelas, Baixa da Égua, Galo, Caxuxa, do Álcool, dentre tantas outras, é quase que uma pesquisa de campo.

EVOÉ MANAUS!

sábado, 26 de janeiro de 2013

EVOÉ ARMANDO!

Na próxima quinta feira, dia 31, será lançado no Cine Teatro Guarany (ali na Vila Ninita, anexo do Palácio Rio Negro na Av. Sete de Setembro) o curta metragem Nessa cidade todo mundo já bebeu na Bica da diretora Keila Serruya. O documentário trata sobre memórias dos fundadores da Banda Independente Confraria do Armando, um dos mais tradicionais blocos de carnaval de rua de Manaus.
O vídeo de 14 minutos é mais uma grande contribuição para preservar a memória dessa importante instituição de cultura popular. Nos anos 70, Márcio Souza dizia que a historiografia amazonense era a mais oficialista do país. Hoje, depois de tantas águas passarem pelo moinho, creio que o quadro é inteiramente novo, embora continuem resquícios do triunfalismo aqui e acolá. Hoje acredito que não é tanto o oficialismo o maior inimigo de uma história popular, mas o esquecimento. Em uma cidade em que as transformações ocorrem tão rapidamente é muito fácil a memória popular ser engolida pelo esquecimento.
No entanto, aí está a Bica zombando de todos e principalmente do esquecimento.
Por isso celebremos a festa e celebremos a vida.

sexta-feira, 25 de janeiro de 2013

Sangue e dinheiro


A vida imita a arte, nem sempre nas boas coisas. O caso do triplo homicídio que aconteceu em Manaus na última semana, por exemplo, me lembrou imediatamente o filme Antes que o Diabo Saiba que Você está Morto, dirigido pelo grande Sidney Lumet.
Na história, dois irmãos planejam um roubo á joalheria dos pais. Mas algo sai errado e a mãe deles é morta no mal sucedido assalto. A diferença no caso de Jimmy Robert é que a intenção desde o começo foi eliminar seu progenitor, por conta de uma gorda herança. A tia e a prima foram mortas por acreditar que elas seriam as primeiras a desconfiar dele.
Alega-se que além do dinheiro estariam envolvidas mágoas em relação ao pai por não aceitar a homossexualidade do filho. Mágoas e ganância: combinação sangrenta.
Problemas familiares sempre existiram e continuarão a existir. Não é incomum alguns se tornarem casos de polícia. Mas o que chama a atenção aqui é que o crime foi motivado mais por indiferença que ódio. Segundo novas informações, Jimmy não teria participado, mas assistido as mortes. Tendo inclusive visto sua prima agonizar em seus momentos finais. Sartre combatia a validade do termo "desumano": tudo que fazemos é próprio de nós, só não queremos admitir isso. Não teríamos criado a brutalidade, mas com certeza a patenteamos. 

domingo, 13 de janeiro de 2013

Praça 14 de Janeiro


O bairro todo sorri
A noite é verde e rosa

Conciliação? Fernandes Pimenta? Portugal?
Praça, tu és muitas
inclusive nas alegrias.

Hora de cantar os parabéns:
Bate bate forte batuqueiro - o samba na 14 é de janeiro a janeiro!


sábado, 27 de outubro de 2012

Da série "A Cara de Manaus"


Acorda cedinho e vai vender picolé na rua. Digo, nas ruas.
Faz calor, do tipo implacável.
Você pede uma chuva. Dez mil picolezeiros rezam por mais calor. Não tem como competir, meu amigo. Em Manaus, o mormaço não é só uma questão climática, mas social também. Existe uma indústria por trás do mormaço: vendedores de água mineral, guarda-sol, picolé, água de coco, etc. Enfim, se acabar o calor, vêm o desemprego.
Pelo menos é o que ele pensava.
-Picolé da massa! Olha o picolé da massa! Vai?
Sacolejando no buzão, uma boa alma lhe dirige a palavra:
-Quais são os sabores?
Quais são os sabores? Ora, os sabores... os sabores...
Tá ficando velho, concluía.
Voltou para o igarapé, mas saiu de casa na pancada. Não era a sua casa. Nem era o seu igarapé. No labirinto de palafitas, na sua cabeça, em ambos se encontrava perdido.
Até hoje anda por aí, errante, á procura de uma pista sobre o passado que a doença repentina lhe tirou. No seu isopor, o picolé derretido se fundiu com o jornal formando algo que lembra o estado da sua mente hoje.

quarta-feira, 24 de outubro de 2012

Rapidinhas


Manaus, 50 graus, fez 343 anos. Eu rezando para São Pedro se sensibilizar e abrir a torneira e nada...
O julgamento do mensalão prossegue. A novidade foi a condenação de Marcos Valério á 40 anos de prisão. Em um país sério, eu ficaria contente com isso, mas...
Aliás, esse julgamento perto das eleições municipais é bem curioso, não? O governo, enquanto fazia a dança da cadeira com os ministros e lançava as obras do PAC, deve ter descuidado com a data.
Engraçado como o ministro Joaquim Barbosa, até então relativamente desconhecido, se tornou uma celebridade. Paladino da ética e da justiça pela direita e marionete da oposição para os governistas. Vi uma capa da Veja elogiando a trajetória do ministro e me lembrei que há alguns anos a mesma revista publicou um perfil do juiz, mas em tom menos elogioso. Na realidade, enxergavam a sua nomeação por Lula como mais um ato demagógico. Acusaram o cara de bater na mulher e tudo mais...
Na imprensa de esquerda ele é retratado como alguém que se atrapalha com as suas sentenças e que desconta a sua raiva contra as dificuldades enfrentadas em sua vida nos acusados. Os mesmos jornais que aplaudiram o ministro quando ele acusou o colega Gilmar Mendes de ser um coronel, em um momento em que estava de cabeça quente.
Eu? Não admiro, mas também não crucifico o cara. Aprendi a desconfiar dos paladinos da ética e justiça desde que Demóstenes Torres foi desmascarado. Por enquanto, só acompanho o andar da carruagem.
Outro fato que abalou a semana: a promessa de suicídio coletivo pelos povos Guarani Kaiowá no Mato Grosso do Sul. Na verdade, não falaram em suicídio, mas em dar sua vida pra continuar nessa terra. Na carta que enviaram ao STF demonstram toda a sua descrença com a justiça após terem confirmado mais uma reintegração de posse aos fazendeiros.
A etnia tem um dos índices mais altos de suicídio, daí a confusão geral. A falta de perspectiva e a carência em que vivem explica o porque dessa epidemia assombrosa. Manifestações estão sendo feitas a torto e direito. Será que cairão no esquecimento como o caso de Belo Monte?

quinta-feira, 11 de outubro de 2012

Agenda cheia!

jean cocteau: surrealista francês.

Não sou muito de apresentar a todos meus planos, mas hoje farei isso.
Ultimamente tenho o privilégio de estar fazendo parte de diversos projetos ao mesmo tempo, o que tem por um lado ofuscado os posts desse blog e por outro consumido muito mais da minha criatividade.
Desde de março tenho mantido uma coluna no site Almanaque Urupês, iniciativa memorável dos irmãos Angelo e Pedro Rubim de preservar a história e memória de Taubaté e do Vale do Paraíba paulista como um todo. O título dela é Manauté - junção das duas cidades que me inspiram diariamente: a capital do Amazonas onde atualmente resido e a terra natal de Monteiro Lobato, onde morei por 6 anos.
Os objetivos principais tem sido três: analisar a história e memória taubateana, relatar minha experiência enquanto morador de uma cidade pouco conhecida dos paulistas e comentar fatos e processos pertinentes do presente.
E a partir do começo desse mês passo a fazer parte da equipe do blog Fagocitando São Paulo do meu amigo Diego Gatto. É um projeto mais voltado para textos de opinião e/ou literários. Falando nisso, tenho certeza que quem acompanha o presente blog já deve ter percebido que o Bar tem se ocupado recentemente mais com contos (de todos os tipos: microcontos, nanocontos, contos tamanho família, etc.). Apenas estou experimentando um gênero que gosto muito. É um ótimo exercício narrativo também. Qualquer dia tentarei unir o tipo de narrativa com qual tenho me identificado com minhas pesquisas em História.
Voltando ao assunto, não bastasse isso tudo, também estou envolvido noutro projeto. Esse ainda em fase de realização, mas que posso adiantar a vocês que será fantástico. A proposta é ótima: unir 15 autores novatos, mas talentosos (cada um em um campo: poesia, crônica, contos, comentários esportivos, ensaios, etc.) que abordarão a cada semana o mesmo tema de perspectivas diferentes.
Existem também os projetos fora do mundo virtual. Dentre eles posso citar apenas um: uma peça teatral para a abertura da IX Semana da Consciência Negra da Uninorte. Será uma comédia que girará em torno do tema do evento desse ano: a África. Brincamos um pouco com os estereótipos e a história desse continente. Todo sábado ensaiamos. Todo ensaio termina com uma cervejada , digo, um happy hour. A experiência vem sendo trabalhosa, mas divertida. Assim como os demais projetos de que participo.

segunda-feira, 8 de outubro de 2012

Assim caminha Manaus...

Foto: Raphael Alves/ A Crítica.

Domingo o Brasil mudou. Se pra melhor ou pra pior é difícil dizer. Em Manaus a perspectiva não é das melhores. Há poucos minutos do resultado da apuração sobre os candidatos á prefeitura, Reizo Castelo Branco (PTB) já era tido como eleito por nada mais que 18 mil votos.
Os comentários que mais vi no Facebook foram: "Como isso pôde acontecer?" "Eu não entendo mais nada!" "Nessas horas dá vontade de sumir daqui de tanta vergonha".
Eu acho esse fato perfeitamente compreensível: o clientelismo ainda tá vivinho. A Zona Leste é uma das áreas mais beneficiadas pelo clã Castelo Branco, assim como o Educandos está para Bosco Saraiva. As obras, as cestas básicas, tudo, são o preço pelo voto dos moradores.
A função do vereador e do prefeito é justamente de melhorar a condição de vida dos cidadãos de sua cidade, mas não de forma paliativa como esses políticos tem feito, mas de forma profunda e eficiente. Assistencialismo ameniza, mas não resolve o problema. Sendo que há mais de 40 anos estamos adiando a solução. O assistencialismo tem agido como o barro que se coloca nos buracos nas ruas da cidade: não atrapalha, mas também não ajuda.
Foto: Anderson Silva/ G1.

Há ainda outro ponto: a disputa eleitoral para prefeito chegou ao impasse que será resolvido nas eleições de segundo turno. Entre Artur Neto (PSDB) e Vanessa Graziottin (PC do B), o povo se divide. Vanessa não parece estar preparada para o cargo, percebe-se pela sua campanha e seus discursos, apoiando-se geralmente em sua amizade com os governadores e a presidente. Artur esbanja personalidade própria, ainda que beire a demagogia e o ridículo, e tem ao seu lado a experiência. Arrisco dizer que ele ganhará.
Revelo que não simpatizo com esse candidato por dois motivos: primeiro por se posicionar como um paladino da Justiça e da Ética, sendo que até hoje não explicou os gastos de seu assistente no exterior quando ainda era senador, tampouco a sua aliança com ninguém menos que Amazonino Mendes. Em outras palavras, o considero um fanfarrão. Em segundo lugar, suas propostas podem ser ótimas para a iniciativa privada, mas não as enxergo contemplando os problemas essenciais da cidade de forma satisfatória. Parece que o PSDB em alguns aspectos (afinal, todo partido é plural e conserva elementos discordantes em seu bojo) confunde políticas sociais com assistencialismo.
Vanessa, por outro lado, defende que acolherá os movimentos sociais em seu governo. Estamos falando de cooptação. Assim como fez ao se batizar para atrair o eleitorado evangélico. Entramos de novo no papo do clientelismo. As questões como habitação e miséria poderiam ser tratadas de forma mais branda por seu governo, mas pendendo pra politicagem. Assim temos uma situação difícil em se tratando de questões sociais: ou oito ou oitenta. 
Outra coisa que considero um problema essencial é a forma como a prefeitura lidará com as transformações exigidas pela FIFA. Não creio que Artur, por mais que diga que tem pulso firme, irá combater medidas abusivas adotadas por causa da Copa. Muito menos Vanessa. Parece que falar mau da Copa é equivalente a um pecado político. Ou se está do seu lado ou contra, e os poucos que escolhem a última opção caem no ostracismo.
Resumindo, se pudesse, votaria nulo. Não por que assim fujo do dilema de escolher pelo menos pior - isso faço desde sempre, afinal, estamos no Brasil - mas por que não quero ser conivente com o sucateamento de Manaus e a continuação desse coronelismo velado. Ainda assim acho que voto nulo é muito pouco. Independente da minha decisão, alguém sairá eleito. Quem quer que seja deverá ser cobrado constantemente. Falo em pressionar nossos representantes, um dos nossos deveres, dos mais esquecidos. Mas pressionar não só no sentido de ganhar uma casa ou um emprego, mas de ajudar no bem estar da coletividade, afinal a cidade somos nós.

Enxergo muita gente indignada com o resultado do pleito. Mas indignação sem ação não leva a lugar nenhum. Espero que essa indignação continue nos acompanhando, só assim aplicaremos nosso dever de fiscalização. Parece clichê, mas precisamos de mais compromisso. 
Domingo o Brasil mudou, é inegável. No rank dos partidos que mais conquistaram prefeituras estão, até o momento, o PMDB (511), PSDB (395), PT (293) e PP (244). Em Manaus, os candidatos a prefeitura, com exceção de Henrique Oliveira e Jerônimo Maranhão, são velhas raposas. Políticos que pouco se reinventaram, mas ainda assim estão aí. Apesar das estatísticas apontarem que 55% da Câmara Municipal foi renovada, a sensação que se tem é de que pouca coisa mudou. 

sexta-feira, 5 de outubro de 2012

Programão pra quinta á noite!

Reuni algumas considerações em tempo real feitas por mim ontem no Facebook durante o último debate dos prefeituráveis:

Resumo do debate:
Serafim - A gente tem que voltar com a domingueira, meia catraca e colocar computador pra cada aluno!
Pauderney - Eu trouxe muitos recursos pra Manaus e votei a favor do salário mínimo.
Henrique - A gente precisa de oxigenação, vota no novo!
Artur - Manaus precisa de um prefeito altivo e fraterno como eu - e ela votou contra o salário mínimo!!!
Vanessa - Ah, tudo eu, tudo eu...
Sabino - Você, meu amigo, eu tenho uma novidade pra ti: a nova tekpix!...

Artur tava meio leso nesse debate: demorou um bloco pra atacar a Vanessa...
Eu me impressionei com o nível de profissionalismo do mediador (Heraldo Pereira). Qualquer outro jornalista não teria segurado o riso toda vez que ouvisse as respostas do Sabino.

Pauderney: Vou investir no lazer, no esporte, vou tirar o futebol amazonense da Série D...
Pauderney tá concorrendo á prefeitura ou á CBF?

Henrique: você foi sacana, deixou acontecer invasão lá no Carlinhos do Alcatraz!
Serafim: não, foi na gestão do Carijó.
Henrique: não, foi tua! Eu vi no Wikipédia!

Henrique: Eu vou implantar o projeto Meu Armazém, nós vamos te dar os produtos...
Sabino: Lá vamos nós voltar ao tempo dos seringais...
Rapaz, me surpreendi. Sabino por dentro da História, por dentro de alguma coisa que não fosse denúncia e pó - é, o mundo tá mesmo pra acabar...

Vanessa: vamos ampliar a domingueira...
Serafim: mediador, ela tá colando! Dá zero pra ela!

Sabino: você vai colocar tudo na mão dos empresários, dos mafiosos!
Artur: Se tem alguém que tem pulso para acabar com as máfias sou eu!
Falou o próprio Elliot Ness agora...

Serafim: é preciso ter transparência e buscar recursos junto ao governo federal.
Artur: mas o bom governante vai além: ele procura recursos federais, internacionais, espaciais... E ele sabe viver sozinho. O bom prefeito tem que ser ético, austero, puro, virge... epa.

Sabino: Eu sou o novo, eu tenho o exército invisível!
Medo agora, muito medo....

Na política, lembre-se: se tudo der errado, se faça de vítima!
Artur: eu não ataquei a colega, só falei a verdade: ela votou contra o salário mínimo. Estou sendo perseguido por dizer a verdade!!
Vanessa: vocês viram? eu não falei nada, podia ter falado da surra nos camelôs, mas eles teimam em me perseguir!
Esse debate teve mais "perseguições" que todos os filmes da série Identidade Bourne...

Rir faz bem a saúde: mais um motivo para você assistir os debates.

sábado, 15 de setembro de 2012

Cortaram a árvore, derrubaram a consciência

Foto: Ione Monteiro/ Amazonas Em Tempo.

As mangueiras no Terminal 1, na Avenida Constantino Nery, foram derrubadas. As vítimas seguintes foram as árvores do Largo São Sebastião. Não todas (ainda bem!), mas aquelas que ficavam logo depois da Banca de Revistas.
O ato já gerou uma onda de protestos nas redes sociais. O governo do Estado ainda não se manifestou sobre o assunto.
O que posso dizer? Os últimos dias foram de calor intenso e estamos derrubando árvores. Me parece que a lógica certa não deveria ser essa. Uma cidade como Manaus merece uma arborização bem cuidada. Na Zona Leste a falta de árvores produz um mormaço quase mortal. Num contexto como esse cada sombra é um oásis.
Vejamos a Avenida Getúlio Vargas, dona de frondosas árvores. Na hora mais quente do dia podemos desfrutar de uma bela brisa ali. Reconheçamos que o urbanismo da Belle Epóque podia ser etnocêntrico e excludente, mas ainda assim sabia equacionar bem as zonas verdes. Os boulevards que o digam. 
As obras faraônicas construídas pela cidade atualmente não parecem respeitar a vegetação nativa. Ou se utilizam no paisagismo plantas exóticas ou, pior, não se utiliza nada, conserva-se o concreto puro e nada mais.
O pequeno parque montado na Ponta Negra foi uma boa iniciativa, já não posso dizer o mesmo do chafariz na rotatória. Aliás, não só nessa rotatória como na "Bola do Mindu". Até parece que Manaus é uma cidade sem problemas de água para esbanjarmos tantos litros assim. Atentemos para as prioridades: água para a população primeiro, depois para o paisagismo.
Além disso, a mata do Parque do Mindu já fornece àquela área uma umidade relativa do ar. Um chafariz para amenizar o calor é o de menos. Ou seja, onde está a funcionalidade das obras em Manaus?
A funcionalidade e a fiscalização estão em falta. Entrevistas feitas com moradores locais apontaram que a cidade cresceu muito nos últimos sete anos, principalmente no plano vertical. Como diz Aldísio Filgueiras, daqui a pouco vamos estar vendendo metros cúbicos aéreos. Os edifícios tem proliferado espantosamente, sejam comerciais ou residenciais. Os preços não são baratos, até porque toda a rede de lobby feitas entre empreiteiras, prefeitura e imobiliárias demanda taxas altas para cada um dos topos dessa pirâmide.
Do que estamos falando? De pura e simples especulação imobiliária. Se os incêndios de favelas em São Paulo tem apontado que é possível que exista uma máfia imobiliária em terras tupiniquins, os assaltos no bairro D. Pedro e a proliferação de estabelecimentos comerciais ali não parece uma coincidência.
Foto: Michael Dantas/  A Crítica.

Em se tratando de trânsito, Manaus também não fica atrás de São Paulo. Os engarrafamentos habituais no horário de rush na Djalma Batista, Constantino Nery, Torquato Tapajós, Paraíba, Recife, Avenida Brasil, dentre tantas outras vias, estão se tornando via de regra. Aqui topamos com a falta de soluções do poder público, seja pela fiscalização ou pelas transformações na viação.
Mas sejamos sinceros: o governo não é o único responsável. O Plano Diretor da cidade é construído em sessão aberta á participação popular e o que mais se ouve ali são os zumbidos das moscas. Ok, as vontades dos tubarões sempre tem mais peso no traçado urbano, mas nós deveríamos ser mais incisivos na luta por uma cidade melhor. Enfim, que o luto por essas árvores nos leve á luta por uma cidade melhor.

quinta-feira, 13 de setembro de 2012

Momento tiete

Foto: Acervo A Crítica.

Olhei, não acreditei. Era o grande nome das letras amazonenses ali na minha frente. Um senhor de baixa estatura, cabelos há muito grisalhos, um cavanhaque bem tímido e olhar tranquilo. Era Luiz Bacellar.
Foi assim que vi pela primeira vez esse monstro sagrado da nossa literatura. O conhecia somente de vista e de verso. Não me atrevia a falar com o senhor Bacellar. Acontece que quando conhecemos nossos ídolos somos acometidos por uma leseira momentânea, um estado de espírito onde o sujeito de tão maravilhado não sabe o que falar direito.
Mais uma vez decidi abordá-lo. Estava ele no supermercado, conversando com um outro senhor, também escritor. O encontrei, como sempre, despreparado. Despreparado que eu digo para pedir um autógrafo seu.  Estava fazendo compras e tudo o que eu tinha era alguns biscoitos, um saco de arroz e a nota fiscal. Mas precisava de seu autógrafo. Pena não estar com um dos livros seus ali. Bem, na falta do livro foi a nota fiscal...
Pedi uma caneta emprestada de uma moça da banca de jornais me aproximei da mesa em que ele e o seu amigo estavam conversando. Pedi licença, perguntei se ele era Luiz Bacellar - como disse, a gente faz perguntas idiotas quando encontramos nosso ídolos... - e pedi seu autógrafo. Ao ver a nota fiscal, o poeta disse:
-O certo seria um livro, não é?
-Pois é...
-Mas tudo bem. Tá aqui.
Tentei engatar uma conversa, mas pensando bem, melhor não. Afinal, eu interrompi a conversa dos dois. E não queria dar uma de fã chato. Já bastava a gafe da nota fiscal. Me despedi e fui.

terça-feira, 11 de setembro de 2012

Luto

CANTIGA DO AMANHECER
Luiz Bacellar

O ovo do sol
canta nas landes
uma cantiga de gemas
com as claras nuvens
batidas de ventos.

Ovo da nhambu
a casca azul do céu
se abre em passarinhos
que já chilreiam
no choco desse ovo louro.

Pelo pasto verde claro
vai aquele touro novo
em seu cortejo
de borboletas
retouçando o dia
que começou quando o vôo
do ovo se derramou.

No dia 4 de setembro, Luiz Bacellar tinha feito 84 anos de vida dedicada á poesia. No dia 8 de setembro, Luiz Bacellar se tornou a própria poesia.

sábado, 4 de agosto de 2012

Folclore da Zona Franca



CRENÇA
Mesmo sendo ateu acreditava no inferno e chamava-o de distrito industrial.

MANÍACO
Á noite qualquer sombra pode ser um abrigo para o tarado da madrugada. O som de seu molho de chaves sempre anuncia o seu bote.

BOTO
Foi ganhar a vida na cidade e se surpreendeu com a dura concorrência. Aposentou o paletó branco, adotou o shortinho. Hoje faz ponto perto do porto: é o único rapaz de chapéu.

DIFERENÇAS CULTURAIS
Ah, o habitual engarrafamento das seis! Carros, buzinas, brigas, vendedores, som no último volume. Os ingleses não sabem o que estão perdendo com seu chá das cinco...

URUBUS
O rapaz teve um flashback: os três executivos no restaurante se transformaram em urubus almoçando o lixo de casa.

ROTA
Ônibus com ar condicionado na volta para casa era a única vantagem que ela via no trabalho.

CURUPIRA
Hoje trabalha como guia num desses hotéis de eco-turismo e mudou completamente de vida: trocou o catitu por um jipe e ganhou até um tênis ortopédico!

PAJELANÇA
Assim que bebeu se entusiasmou e decidiu chamar Zé Pilintra e Pomba Gira para o happy hour.

O JAPONÊS
Rígido, grosso e autoritário. Era odiado por todos do setor. Por sua causa Ricardo pegou nojo do Jaspion.

UIRAPURU
Bem educado, só canta quando há silêncio. A cidade cresceu e ele abandonou a carreira artística de vez.

SUCURI COM FARINHA
O gringo pensava que eram espinhas de peixe, mas na realidade era de outro animal de escamas de que se tratava o prato.

COMUNICAÇÃO
Taxistas poliglotas? Não, nós não temos. Mas temos motoristas muito bons de mímica!

DITADO MANAUARA
Depois da tempestade vem a bonança. E depois da chuva? Depende: se for de dia vem o engarrafamento, se for de noite vem o apagão.

PORTUGA
De todos os restaurantes, esse era o único com o bolinho de bacalhau digno do nome. Matava a saudade da mãe com eles. Por isso o colesterol se afeiçoou tanto á Dona Maria.

COBRA GRANDE
A Boiuna que se deu bem: na sua forma animal é protegida pelo IBAMA e na forma de barco pela Capitania dos Portos.

O MUTILADO
Sem dinheiro e sem braço, mas com muita muita raiva.

INVASÃO
Helicópteros, batalhão de choque. Guerra? Não, reintegração de posse.

DOENTE
Coração era do que ele precisava. Do Boi do Coração.

CAMELÔS
A calçada foi engolida pelas barracas. O dia só termina quando um bom negócio é fechado.

UM DIA NORMAL
No deserto de piche, todo vendedor de água mineral é um oásis ambulante.

RUA DE LAMA
A cada chuva o buraco crescia. Hoje eu diria que ele está na flor da idade.

TEATRO AMAZONAS
Os velhos barões e suas madames saíram para os turistas ruborizados e  suas famílias entrarem.

MANDARINS BARÉS
Neles tudo eram artificiais: o nariz, o cabelo, as promessas.

MANÍACO 2
Um dia é da caça e outro do caçador. Essa noite foi da caça: ela se chamava Claudete. Ou Claudino para os íntimos.

FILOSOFIA DE VIDA
Adorava o budismo, mas em se tratando de felicidade só conhecia um único caminho: o cartão de crédito.

(Manaus, 24-01-2012).