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Movimento Vem Pra Rua Manaus chega á Av. Djalma Batista em 20 de junho de 2013. |
"O gigante acordou". Se tem falado muito nisso. Não que eu desaprove esse momento porque estamos passando. Por muito tempo se falou da apatia do brasileiro. A onda de protestos que se iniciou em São Paulo por conta do Movimento do Passe Livre é saudável á democracia, mas, claro, desde que não se desvirtue em autoritarismo (o medo de 9 em cada 10 analistas dos movimentos).
Acredito que estamos ainda longe de um ponto de chegada, se é que ele existe. As reivindicações são ora pontuais (como abaixar o preço da passagem de ônibus), ora amplas demais (como acabar com a corrupção), mas são reivindicações, ora! Já vejo gente questionando qual a melhor tática: ir derrubando um problema de cada vez ou exigir soluções cada vez mais abrangentes. Só fato disso estar sendo discutido na rua já é louvável.
Na pauta de reclamações sobressai-se problemas diretamente ligados ao cotidiano dos cidadãos, como a saúde e o transporte público. Eder Sader, ao analisar os movimentos sociais dos anos 70 e 80, encontra processo semelhante o qual chamou de "politização do cotidiano". O cotidiano de uma cidade como Manaus, onde o planejamento e infra-estrutura são quase como água e óleo, é um barril de pólvora. Inúmeras foram as vezes em que Manaus se revoltou contra isso. Podemos ir até os tempos finais de Belle Époque onde protestos contra o monopólio dos serviços urbanos pelos ingleses geravam quebra-quebra também, ou podemos ir até os anos 80 e 90, quando manifestações de professores e de cidadãos de bairros sem saneamento básico ou que não eram atendidos pelo transporte público pipocavam pela cidade.
Existiram manifestações antes e existirão manifestações depois do Movimento Passe Livre em Manaus. O que salta aos olhos como novo é a conjuntura nacional favorável á elas e a condição peculiar de Manaus como uma das cidades sede da Copa de 2014 que já vem sendo remodelada (ou desfigurada) de forma cruel.
Eu saúdo a iniciativa de um grupo de militantes, ligados á diversos partidos e diversas ideologias, mas unidos pela mesma preocupação com essa cidade. Esse grupo uniu-se com mais força desde que um dia a Praça Nossa Senhora de Nazaré apareceu em obras. Logo ficou-se sabendo que se tratava de obras para melhorar o transporte ali na Av. Recife, criando uma baia para ônibus. Tudo bem. Mas e nos cantos da praça fora da avenida principal? Estava claro que a redução da praça partia de uma pressão já antiga de moradores de condomínios próximos de aumentar o número de vagas de carros estacionados nas ruas do entorno.
Esse grupo organizou várias ocupações da praça. Uma delas ocorreu na quinta passada. Tratava-se de vivenciar a praça fazendo um pequeno sarau ali. Foi uma experiência muito agradável. Rever a praça como um ambiente de socialização, um local de prazer e não mais um adereço, foi algo incrível. O grupo, que já se constitui como um grupo devidamente constituído possuindo inclusive um nome próprio (Direitos Urbanos), continua sua luta e nela revigora-se a praça. O mais interessante é ver como muitas pessoas que não tem ideia do que se está reivindicando param, sentam, observam, participam. É perfeitamente compreensível o porquê: ninguém quer uma cidade desumanizada e a praça respirando é exemplo maior da Manaus que queremos preservar.
Acho que mais importante que o gigante que acordou foram a praça e rua terem acordado.
A cidade são seus habitantes, quando a população é morta, a cidade é morta. Quando a população possui ideias e comportamentos embolorados, a cidade também embolora; mas quando mesmo o menor grupo de habitantes de uma área resolve ocupá-la, desfrutá-la, usufruí-la, tal como o chão que fecunda árvore frutífera, coisas nascem. Ocupar não é apenas passar por ali, é o ficar ali. É o deixar-se imprimir não só pegadas, mas PRESENÇA no ambiente, imprimindo personalidade, e deixando o ambiente imprimir-se no indivíduo. Excelente texto, meu sempre bom amigo!
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