Um poeta e um píntor e algumas imagens sobre a cultura negra. A proposta de nosso estudo é de vasculhar a presença da cultura africana na Região Norte através da literatura. Escolhemos dois poemas, criados por artistas influenciados pelo modernismo e comprometidos em formar uma cultura amazônica longe do beletrismo que vinha imperando na Amazônia até então, que são emblemáticos justamente por sugerirem muitos ganchos para o estudo do negro na região.
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Caricatura de Bruno de Menezes. |
Bruno de Menezes, poeta paraense apaixonado pela cultura negra e um dos grandes expoentes do modernismo na terra do carimbó, era um homem que frequentava desde academias literárias até batuques de candomblé. Já na década de 1950, quando o Clube da Madrugada aqui no Amazonas dá os seus primeiros passos, Bruno já era um intelectual reconhecido. Reconhecido inclusive pelos artistas amazonenses, muitos o considerando uma espécie de sacerdote do movimento cultural que pretendiam operar em Manaus. É o caso de Arthur Engrácio que o considerava um "poeta-poeta" ou Genesino Braga, da tradicional Academia de Letras do Amazonas, que já o chamava de imortal. O imortal veio a falecer nos anos 60, justamente quando o Clube da Madrugada adquire mais força, mas os intelectuais locais trataram de fazer uma merecida homenagem: um busto seu foi feito pelo pintor e escultor Afrânio de Castro ás pressas e exposto na Praça da Polícia, onde se localiza até hoje.
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Escultura póstuma de Bruno de Menezes feita por Afrânio de Castro em 1963. |
Afrânio de Castro foi um dos tantos discípulos de Bruno, bem como o pesquisador Vicente Salles no Pará. O pintor já tinha se dedicado a realizar uma arte amazônica, abstrata e minimalista, mas através de Bruno passou a se inspirar no colorido e nos significados da cultura negra. Ao lado de Moacir de Andrade, Afrânio foi um dos artistas plásticos que ganhou destaque com o Clube da Madrugada, expondo quadros dentro e fora de Manaus. Como todo bom artista da época, teve seus momentos de aperto, passando a morar no IGHA por um tempo graças ao favor de um amigo. O sujeito de personalidade forte e marretento, que manteve algumas arrengas com Moacir Andrade e Luiz Bacellar, veio a morrer afogado na Ponta Negra na década de 1970. A morte trágica parece acompanhar os artistas amazonenses: mais ou menos na mesma década o jovem pintor Hanneman Bacellar se suicidaria, por não aguentar mais o preconceito e a miséria.
Um fio condutor que une tanto as trajetórias do venerável Bruno de Menezes com a do intenso Afrânio de Castro é a preocupação em retratar uma cultura negra dentro de uma cultura amazônica. Veremos adiante, com mais detalhes, que cada um o faz á sua maneira.
O livro mais famoso de Bruno foi Batuque (1931), de onde retiramos o poema Pai João. Embora Afrânio seja mais reconhecido pelas Artes Plásticas, ele também nos deixou uma ampla produção poética e cronística no Suplemente Madrugada d'O Jornal. Recolhemos das páginas amareladas dos jornais o poema Macumba.
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