Quem acompanha o blog sabe que no último semestre de 2011 desenvolvemos uma pesquisa sobre o movimento negro no Amazonas do qual resultou um pequeno vídeo chamado "Negros em Movimento: A Luta da Memória contra o Esquecimento".
O que nos sustentou durante a pesquisa de campo foi um conhecimento ainda que pequeno sobre a história do movimento negro no Brasil. Nossa maior fonte de consulta foi o livro organizado por Amílcar Pereira e Verena Alberti, Histórias do Movimento Negro no Brasil. Um livro com os depoimentos das principais lideranças do movimento negro dos estados de São Paulo, Rio de Janeiro, Minas Gerais, Bahia e Maranhão, dentre outros.
Entre os tópicos abordados estão o que os levou a despertar esse sentimento de negritude, de identidade negra, e como se deu sua entrada na militância política. Alguns pontos despertaram nossa curiosidade e os enumerarei aqui para refletirmos com mais calma:
1) A periodização do movimento negro é muito flexível: a maioria dos depoentes acreditava que o que eles estavam fazendo no final da década de 1970 era um feito inédito, mas anos depois entrariam em contato com uma geração de intelectuais e ativistas negros muito mais antigos que eles que desde os anos 30 vinham organizando movimentos. O livro de Alberti e Pereira adota essa periodização: o movimento negro teria começado na década de 1930 com a criação da Frente Negra Brasileira, continuaria na década de 1940 com a criação do Teatro Experimental do Negro e após algumas desarticulações finalmente se fortaleceria nas décadas de 1970 e 1980, se consolidando nos anos 2000 com o maior espaço que seus militantes e suas propostas tem desfrutado nas instituições oficiais.
Petrônio Domingues em seu artigo Movimento Negro Brasileiro: Alguns Apontamentos Históricos cria uma baliza temporal um pouco mais ampla, abrangendo o início da Repúblico e o começo do novo milênio (1889-2000). Na sua visão a série de agremiações recreativas negras que surgiram em São Paulo e no Rio de Janeiro, só para ficar nos exemplos mais conhecidos como o Clube 13 de Maio dos Homens Pretos ou o Centro Cívico Zumbi dos Palmares, após a Abolição também podem ser entendidos como movimentos sociais negros, pois ao lado de atividades de lazer também reivindicavam medidas contra a discriminação e discutiam de forma lúdica a questão da identidade negra.
2) A dicotomia entre cultura e política: muitos militantes encaravam a relação destas duas categorias como opostas e não complementares, ou seja, militar politicamente era visto como a única solução possível enquanto a movimentação cultural, segundo sua opinião, não trazia nenhuma conquista substancial na luta contra o preconceito. E o mesmo acontecia com os militantes que se espraiavam para as atividades culturais.
Essa dicotomia também chegou na historiografia. A interpretação de Petrônio Domingues, por exemplo, enxerga na manifestação cultural uma forma de ação política também. O diferencial é que a historiografia atual, assim como o movimento negro hoje como um todo, não vê mais uma oposição entre estas duas instâncias, mas uma complementaridade.
![]() |
Hédio Silva Jr. |
3) Hédio Silva Júnior, um importante militante do movimento negro paulista, em depoimento no livro de Alberti e Pereira diz que o movimento negro no Brasil apesar de tantas medidas ainda falta conquistar uma coisa: a unidade nacional. O que lhe parece até uma vergonha se comparado com a iniciativa dos líderes dos anos 30 que com muito mais dificuldades que a atual geração enfrenta conseguiram criar um movimento nacional, com diretórios na maioria dos estados do país: a Frente Negra Brasileira.
Essa falta de unidade é um ponto muito interessante. Podemos até questionar se a FNB foi realmente um movimento nacional devido a centralidade que ocupava a capital paulista em suas atividades políticas e aos poucos estados no Norte e Nordeste que possuíam diretórios seus. No final dos anos 70, com a fundação do Movimento do Negro Unificado temos novamente a proposta de um movimento de grandes proporções, mas as diferentes linhas de pensamento dos líderes regionais é um grande obstáculo. Num primeiro momento ele é superado devido ao inimigo em comum (o regime militar), mas com a redemocratização o painel muda e as cisões internas produzem uma série de dissidências.
4)A diversidade regional também é um fator muito interessante: nos anos 80, o Nordeste era uma das regiões onde o movimento negro mais tinha força. Os Encontros do Negro do Norte e Nordeste, iniciados em 1988 em Alagoas, foram muito importantes nesse ponto porque permitiram que os líderes regionais se conhecessem, compartilhassem projetos, adotassem novas iniciativas.
O interessante é que o movimento negro no Amazonas encontrou um grande obstáculo: a presença pequena de negros. Esse fator aliado á mentalidade racista que teima que somos uma sociedade sem preconceitos raciais ajuda a explicar porque o movimento negro no Estado se desenvolveu pouco em tanto tempo.
![]() |
O primeiro encontro foi organizado no alto da Serra da Barriga, em Alagoas, por ocasião do tombamento de Palmares. |
5)A colaboração de outros movimentos sociais é um dado importante: na maioria dos depoimentos encontramos indícios de que os movimentos negros nasceram ou receberam grande ajuda do movimento estudantil, do sindicalismo, de partidos de esquerda, dentre outros atores políticos. Milton Barbosa, o Miltão, lembra que o MNU em parte nasceu da união de estudantes universitários e líderes políticos de índole trotkista. O próprio Movimento Alma Negra do ativista amazonense Nestor Nascimento nasceu com a benção do PCB local e tentou ser reerguido por ele no final dos anos 80 com a criação da Fração Afro-Brasileira dentro do partido.
![]() |
Nestor Nascimento por Vinicius AA. |
Outros depoentes preferem frisar que estes movimentos sociais e partidos políticos não se comprometeram realmente com a causa da negritude, mas apenas se usou dela para conseguir apoio na luta contra o regime militar. O argumento é justificado pela resistência encontrada dentro dos partidos de esquerda, por exemplo, em debater a questão racial, em alguns casos. A desculpa dada era que a prioridade era a luta social e não a luta racial. Isso deixa claro que o relacionamento entre entidades negras e movimentos sociais diversos não era totalmente harmoniosa nem completamente conflituosa.
Nenhum comentário:
Postar um comentário