sábado, 27 de outubro de 2012
Da série "A Cara de Manaus"
Acorda cedinho e vai vender picolé na rua. Digo, nas ruas.
Faz calor, do tipo implacável.
Você pede uma chuva. Dez mil picolezeiros rezam por mais calor. Não tem como competir, meu amigo. Em Manaus, o mormaço não é só uma questão climática, mas social também. Existe uma indústria por trás do mormaço: vendedores de água mineral, guarda-sol, picolé, água de coco, etc. Enfim, se acabar o calor, vêm o desemprego.
Pelo menos é o que ele pensava.
-Picolé da massa! Olha o picolé da massa! Vai?
Sacolejando no buzão, uma boa alma lhe dirige a palavra:
-Quais são os sabores?
Quais são os sabores? Ora, os sabores... os sabores...
Tá ficando velho, concluía.
Voltou para o igarapé, mas saiu de casa na pancada. Não era a sua casa. Nem era o seu igarapé. No labirinto de palafitas, na sua cabeça, em ambos se encontrava perdido.
Até hoje anda por aí, errante, á procura de uma pista sobre o passado que a doença repentina lhe tirou. No seu isopor, o picolé derretido se fundiu com o jornal formando algo que lembra o estado da sua mente hoje.
sexta-feira, 26 de outubro de 2012
Desabafo
O poeta italiano Giuseppe Ungaretti acreditava que o homem está destinado á grandeza. O único problema é largar a pequenez. Por que alguém não desejaria sair da menoridade? Ora, medo ou talvez maior comodidade. Muitas pessoas hoje desejam ser crianças de novo. Menos responsabilidades, menos problemas. É inegável que o conhecimento traga seus dilemas, a maioria complicadíssimos. Por isso, talvez muitos concordem com a visão de outro "poeta" italiano, Mussolini: "a ignorância é uma benção".
Nunca uma benção custou tão caro ao futuro. No Brasil, não há como discordar disso. Ai estão gente eleita pelo povo, esquemas construídos com base na omissão. O que mais me irrita é ouvir certas pessoas dizerem que melhor era na ditadura quando isso não existia. Corrupção sempre existiu, a ditadura não foi nada excepcional nesse aspecto. O que ela fazia no entanto era esconder muito bem os escândalos. E o pior é que quem a defende, sabe disso. Ou seja, o que os olhos não vêem o coração não sente.
É essa a lei que rege o mundo do Dr. Pangloss, o mundo dos otimistas alienados. Para alguém que fique somente na sua zona de conforto e acredite, como São Tomé, que se não vê é porque não existe, o Brasil está bem, muito bem. Não existe racismo aqui, nem vulcões, furacões ou terremotos. Hoje a fome é quase um problema do passado. Nosso sistema eleitoral é o melhor do mundo e nossa democracia hoje é sagrada.
Aquele que se aventurar para além do seu condomínio ou do mundo perfeito da sua imaginação descobrirá que nem tudo é verdade. Nossos problemas só se prolongam porque somos indiferentes á eles, consciente ou inconscientemente. Muita gente ainda precisa abrir os olhos.
quinta-feira, 25 de outubro de 2012
Thriller
Se encontraram numa temakeria. Desconhecidos, assim tem que ser. Só o que importa é que alguém precisa sumir. A quantia, a data e a hora já foram decididos. Nem tocaram no bolinho de arroz. Por que não pediram pra viagem?
Bandeiras, fogos. O homem no púlpito ainda está de pé. Um movimento, um estampido. O homem no púlpito não está mais de pé. Comoção. O homem no púlpito ainda respira.
O que fazer?
A polêmica dos Guarani Kaiowá coincidentemente estourou uma semana depois da entrega do relatório do caso do massacre Waimiri-Atroari á Comissão da Verdade. Nele trabalharam pesquisadores de várias áreas, destacando-se o missionário Egydio Schwade que vem divulgando o acontecimento há mais de 30 anos.
Na década de 60 e 70, a construção da rodovia BR-174 (Manaus-Boa Vista) em terras dos Waimiri-Atroari. A estrada foi sendo construída aos poucos, entre conflitos armados e mortes. No entanto, o caso foi abafado. Primeiramente, eram os tempos do regime militar. Em segundo lugar, o isolamento geográfico (estamos falando do interior da Amazônia).
Passaram-se mais de quarenta anos. Veio a Constituição de 1988 prometendo uma mudança na relação do Estado nacional e a sociedade brasileira com as etnias indígenas. No entanto, os problemas continuaram. De lá pra cá, a questão indígena continuou se pautando ora em querelas como a recente sobre a Reserva Raposa do Sol, ora em tragédias como o tímido aumento da taxa de suicídios na etnia Guarani Kaiowá.
Hoje, contudo, a visibilidade é muito maior. Quando da construção da usina hidrelétrica de Balbina nos anos 80 a resistência contra o projeto era pequena, restringindo-se á lideranças indígenas, antropólogos e missionários. O caso de Belo Monte se tornou uma causa abraçada por artistas os mais variados, assim como a mudança do Código Florestal. No entanto, a pressão toda não serviu para arquivar o Código Florestal pró-latifúndio e quanto á Belo Monte, a situação continua a mesma. As escavadeiras já removem a terra amazônica.
A mídia tem acompanhado com grande afinco os julgamentos do mensalão, só agora, depois da carta enviada pelos líderes Guarani Kaiowá, que eles se tornaram o centro das atenções. Onde quero chegar: toda a visibilidade que o caso tem alcançado é sinal de que conseguiremos reverter o quadro delicado em que essa etnia vive?
Não sei se é pessimismo, mas tenho enxergado nas redes sociais uma espécie de terceirização da revolta. A indignação se torna alimento para comunidades e programas que produzem abaixo-assinados e manifestações. Não confio na militância digital. Se algum ingênuo que não conhecesse nenhum pouco da realidade brasileira visitasse a rede social tupiniquim estaria convencido de que nesse país todos são politizados e revoltados pela quantidade de mensagens de crítica social e mudança política.
Compartilhamos o sentimentos de indignação e terminamos o dia achando que nosso dever para com o país foi cumprido. Acredito que nada substitui a ação. Manifestações são importantes, mas não devem partir só de uma classe específica, que se acha mais "iluminada". Falta convencermos o resto das pessoas de que índio não é bugre (a velha imagem do selvagem ou do aproveitador indígena, difundida no imaginário de muita gente), de que a questão indígena diz respeito a todos nós, porque ela está intimamente ligada á problemas como a reforma agrária, identidade nacional, violência e sustentabilidade, dentre outros.
Os demais casos recentes demonstraram que de a opinião de artistas e intelectuais não é bastante, falta ainda o grosso da população entender porque o trágico destino que se anuncia para toda uma etnia é tão importante para todos.
Não sei muito bem como ajudar os Guarani Kaiowá, para além da "militância digital", mas posso garantir que quanto maior for o esclarecimento e quanto mais adesões a causa tiver, mais próximo estamos da resolução desse impasse.
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Recomendo o artigo da jornalista e escritora Eliane Brum, Decretem nossa extinção e nos enterrem aqui.
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quarta-feira, 24 de outubro de 2012
Rapidinhas
Manaus, 50 graus, fez 343 anos. Eu rezando para São Pedro se sensibilizar e abrir a torneira e nada...
O julgamento do mensalão prossegue. A novidade foi a condenação de Marcos Valério á 40 anos de prisão. Em um país sério, eu ficaria contente com isso, mas...
Aliás, esse julgamento perto das eleições municipais é bem curioso, não? O governo, enquanto fazia a dança da cadeira com os ministros e lançava as obras do PAC, deve ter descuidado com a data.
Engraçado como o ministro Joaquim Barbosa, até então relativamente desconhecido, se tornou uma celebridade. Paladino da ética e da justiça pela direita e marionete da oposição para os governistas. Vi uma capa da Veja elogiando a trajetória do ministro e me lembrei que há alguns anos a mesma revista publicou um perfil do juiz, mas em tom menos elogioso. Na realidade, enxergavam a sua nomeação por Lula como mais um ato demagógico. Acusaram o cara de bater na mulher e tudo mais...
Na imprensa de esquerda ele é retratado como alguém que se atrapalha com as suas sentenças e que desconta a sua raiva contra as dificuldades enfrentadas em sua vida nos acusados. Os mesmos jornais que aplaudiram o ministro quando ele acusou o colega Gilmar Mendes de ser um coronel, em um momento em que estava de cabeça quente.
Eu? Não admiro, mas também não crucifico o cara. Aprendi a desconfiar dos paladinos da ética e justiça desde que Demóstenes Torres foi desmascarado. Por enquanto, só acompanho o andar da carruagem.
Outro fato que abalou a semana: a promessa de suicídio coletivo pelos povos Guarani Kaiowá no Mato Grosso do Sul. Na verdade, não falaram em suicídio, mas em dar sua vida pra continuar nessa terra. Na carta que enviaram ao STF demonstram toda a sua descrença com a justiça após terem confirmado mais uma reintegração de posse aos fazendeiros.
A etnia tem um dos índices mais altos de suicídio, daí a confusão geral. A falta de perspectiva e a carência em que vivem explica o porque dessa epidemia assombrosa. Manifestações estão sendo feitas a torto e direito. Será que cairão no esquecimento como o caso de Belo Monte?
quarta-feira, 17 de outubro de 2012
Cinco Dedinhos
CHUVA
As gotas sumiam no chão ou caíam na boca dela. Aos poucos, ela se encheu. Não se afogou, transbordou. Quem salvou foi Dona Mirtes que se lembrou onde tinha esquecido a bacia quando chegou a hora do banho do neném.
QUADRO
As mulheres nuas. Todas de costas. O homem altivo. De frente. O chicote na mão, os pés no chão. Rostos angustiados. A face impassível dele deixava escapar um fio de sadismo no canto da boca. Autoridade não traz nobreza.
AH, O PRIMEIRO BEIJO...
No começo me senti ridículo, mas a medida que meu rosto sumia naquele travesseiro isso pouco importava. Afinal, sem treino o beijo deixa de ser um momento mágico pra ser uma troca de salivas...
TESTEMUNHA OCULAR
"Quem quebrou o vaso?" Enquanto ela perguntava, o menino assobiava. O gato fingiu que não ouvi. Apontou para o cachorro. O calango na parede só fazia que sim, cínico.
CINDO DEDINHOS
TESTEMUNHA OCULAR
"Quem quebrou o vaso?" Enquanto ela perguntava, o menino assobiava. O gato fingiu que não ouvi. Apontou para o cachorro. O calango na parede só fazia que sim, cínico.
CINDO DEDINHOS
Me coloque aí cinco dedinhos de café. Agora uns três pingos de leite. Isso. Ah, e não se esqueça daquelas gramas de ânimo!
segunda-feira, 15 de outubro de 2012
De aluno e de professor, todo mundo tem um pouco
![]() |
| Bem que eu poderia ter colocado o Mestre Yoda pra ilustrar essa matéria também... |
Todos temos muito o que aprender, assim como temos o que ensinar também. Nessa vida, de aluno e professor todos temos um pouco. Mas existem aqueles que nos marcam, que nos ensinam mais do que esperamos. Não só conhecimento, mas atitudes. Á esses mestres meus parabéns.
Dedico esta homenagem principalmente aos mestres que tive o privilégio de conhecer: Fátima Toledo, Mauro Castilho, Rachel Duarte Abdala, Edson Trajano, Armindo Boll, Arcangelo Ferreira, Elisângela Maciel,Adriana Barata Cabral, Tarcisio Normando, João Rozendo, Cristiane Manique, José Vicente Aguiar, Adelson Barros, Stelio Dantas, Maurício Couto, Sônia Brandão, Zé Maria (o pequeno grande homem), Walter Grassi Jr., João Neto, dentre tantos outros.
Velozes e melancólicos
Ah, o existencialismo! Uma das filosofias de vida mais populares deste século (os hipsters, classificariam como "mainstream"). Eis que vejo Drive (2011) e percebo, além do caldeirão de referência ao cinema de ação, esse nosso colega.
O motorista sem nome (Ryan Gosling) encontra o sentido de sua vida, violenta e perigosa, na casa ao lado. Uma família a espera de um novo pai e um novo marido. E ele a procura de uma mulher e um filho. No entanto, as coisas nem sempre são perfeitas. No meio do caminho está o marido que saiu da cadeia, o roubo mal sucedido e dois mafiosos truculentos. O motorista sem nome então tem de usar seu sangue frio e sua violência para proteger quem ama (sim, clichê, mas bom).
O roteiro é pobre, mas a narrativa e os personagens, meu amigo... Drive usa violência explícita, mas de forma "moderada". Os diálogos são poucos, as interpretações são ricas. E é assim, cultivando paradoxos, que o filme constrói sua identidade.
E que identidade seria essa? Drive está a meio caminho entre o thriller e o sonho. A estética do filme, sempre privilegiando o brilho falso das luzes da cidade e a noite, e o figurino dos atores remete a um universo um tanto retrô (a década de 80 pra ser mais preciso). Ao mesmo tempo, esse é o presente: o layout dos carros deixa isso bem claro. É essa união de tempos que dá a sensação de estarmos pisando em um sonho, o casamento de duas eras distintas.
Ah, voltando ao existencialismo. Talvez essa incerteza temporal tenha sido planejada. Afinal, como dissemos antes, nosso herói é um aventureiro existencialista. Em seu mundo, tudo parecia vazio, menos os momentos que passou com Irene (Carey Mulligan) e seu filho. Daí a sua frieza e calculismo, a ausência de palavras e de afetos. A adrenalina e o dinheiro perdem o valor quando ele encontra uma família.
Aliás, esse tipo de vida não é privilégio do personagem principal. O mafioso cruel (Albert Brooks) não é muito diferente do protagonista. Leva a mesma vida melancólica do herói e também não se esconde atrás da adrenalina. O mecânico manco (Brian Cranyston) é um homem ganancioso, mas simpático. Vacila aqui e ali. Sua relação com o rapaz é sempre pautada pelos negócios, o espaço para a afetividade é relativamente pequeno.
No universo de Drive tudo parece ser indiferente e distante, por mais radical e violento que seja. O fato de não apelar, como os blockbusters fazem, faz com que se tenha dois tipos de reações possíveis diante do filme: ou se odeia ou se ama. No meu caso, foi a segunda opção. Ainda assim não acho que o filme seja tudo isso que estejam falando. Há críticos que dizem que esse filme é um divisor de águas. Penso que também não é assim.
Nicolas Winding Refn constrói um filme-tributo a todo um gênero, assim como faz Tarantino. A diferença é que o resultado aqui é menos divertido e menos explícito. As referências tem de ser garimpadas.
A trilha sonora? Música eletrônica. Em alguns momentos tenho a sensação de que é muito retro para o estilo dos filmes de ação, mas essa é a intenção. Os mafiosos parecem meio anacrônicos, assim como nosso protagonista. O mundo marginal do filme é tem um charme, uma aura cult.
Interessante o modo como o diretor privilegia a face de Ryan Gosling. Lembra os longos close-ups dos bang bangs de Sérgio Leone. É um cineasta sem medo de perder alguns minutos com uma mesma cena, não se deixa levar pelo frenesi, por isso a violência aqui parece muito orquestrada. Novamente outro elemento que me lembra Leone.
Falando no protagonista, ali está o clichê em pessoa. O cara durão de poucas palavras, que sabe brigar, tem sempre um plano. Só o que muda é a jaqueta. E se ficou alguma dúvida de que ele é um cara durão, ali está o palitinho na boca pra comprovar. Se o símbolo de Stallone já foi uma cobra, esse aqui utiliza um escorpião. Outro animal peçonhento e perigoso. Se ele parece gente boa perto de Irene, basta que um antigo cliente venha lhe perturbar com um novo serviço numa má hora que ele mostra suas garras. E quando é preciso agir, solta todo seu veneno.
Ele é desconstruído, aos poucos. Continua enigmático, mas sabemos que é violento, sensato e carente. Tão carente que o nível de amor para com Irene é quase platônico. Lembra e muito os cavaleiros errantes retratados pelos trovadores. Ao mesmo tempo em que é um bandido é um herói. É cruel e violento, mas também é romântico e amável. É a brincadeira com os lugares comuns. Isso não é nenhuma novidade, como falamos isso já vem sendo feito por inúmeros diretores.
A grande originalidade do filme está em fazer isso com uma refinação própria. Ao invés de seguir a escola de Tarantino ou de David Lynch (pra pegar o outro extremo do cinema), Refn faz seu filme de uma maneira diferente, apostando nesse olhar melancólico e anacrônico. Isso é inapropriado para um filme de ação?
Penso que a melancolia, assim como o humor, estão presentes nesse gênero. O que os novos cineastas tem feito é salientar essas características menores desses filmes em suas produções. Em Tarantino e Robert Rodriguez temos um filme sem vergonha de se assumir tosco. Em Refn, temos um filme que assume sua tendência existencialista. A marginalidade aqui parece fatalista, amarga. Substitua a tecno music pelo jazz, o motorista pelo escritor e então percebemos que estamos mais perto de Truffaut e Goddard do que Leone e Fuller. Por escolher ficar entre a Nouvelle Vague e o cinema de ação, Drive revela ser um filme que vale a pena ser assistido.
sexta-feira, 12 de outubro de 2012
QUILOMETRO 36 III
O
VISITANTE
Naquele lamaçal no meio
de tantas mãos sujas e camisas esburacadas, a figura do padre Orlando Marreiro
era completamente surreal. Ali estava ele, com sua batina, ruça, mas ainda
assim mais limpa que os trajes de seus fiéis. Ameaçava chover, mas a nuvem se
revelou uma fanfarrona. A missa, exigência dos trabalhadores, ocorreu bem.
Anos depois padre
Orlando me revelou que ao visitar o canteiro de obras tinha sentido algo
estranho, uma vibração negativa. Estava certo que havia algo de ruim ali, só
não se arriscava dizer de que entidade maligna se tratava.
Vocês nem imaginam o
quanto um nome é importante. Em se tratando de magia ele faz toda diferença. O
simples ato de nomear algo opera uma transformação. Se chego aqui, nesse
terreno cheio de barro vermelho e maritacas, e do nada o batizo de Muquira estou
condensando tudo o que ele simboliza em algumas palavras. Não faço ideia do que
quer dizer Muquira, mas esta palavra me remete imediatamente a um mocambo bem
aprazível, com suas casinhas de madeira pintadas de branco e azul claro.
Nas palavras se
condensam a essência das coisas. Existem nomes que captam o âmago do que lhes é
atribuído, principalmente se estamos falando de misticismo. Tudo tem o seu
significado e uma pista para encontrá-lo está no nome.
O nome é controle. O
fato de você saber o nome de certa entidade já é um trunfo, pois assim sabe
como evoca-la. Se pode evocar, pode desconjurar também. Claro, isso já é mais
complicado, depende mais da sua força. A chave para controlar o caboco era
saber seu nome.
Desde que se tinha
notícia da chegada do referido ente, nada dele se revelar. Outros pais de santo
e médiuns daqui já tentaram falar com a coisa ou ao menos perguntar do exus e
preto velhos. Nada. Sempre evasivos.
Andirá podia ser um
tanto medroso, mas antes de tudo estava disposto a provar que era um babalorixá
de peso. Depois de muito pensar na beira da cama, ao lado de Mãe Juriti,
decidiu. Certa quarta-feira, largou as bênçãos e pedidos de proteção de lado.
Foi direto. Queria saber o nome do sujeito. Qualquer que fosse a entidade que
por ali aparecesse, perguntaria.
Os tambores começaram
cedo. O cheiro de oferenda no ar, não era do incenso nem das velas romanas, mas
da própria noite. Noite de lua nova. A cantoria vai engrossando. Andirá e as
senhoras vão dando voltas pelo pátio de sua casa, arrastando a sandália e o
pouco de areia branca jogado no chão.
A toada já estava na
sua décima repetição. Uma das senhoras começou a sair do compasso. Cobria o
rosto. Podia ser um orixá. Recompunha-se. Pôs se a sorrir. Pediu um doce. Era
um preto velho.
Andirá lhe presenteou
com um saco cheio de balas. Logo foi se apresentando como Pai Manuel das Onças.
Ria com uma facilidade impressionante. Sua voz parecia estar constantemente
entoando uma ladainha.
-Pai Preto, o sinhô é
daqui?
Estava maravilhado com
uma maria-mole que achou no meio do mar de balinhas mixurucas, respondeu depois
de alguns minutos negativamente.
-Mas estou por aqui uns
tempos, minino...
-Pai Preto, haverá de
saber, por acaso, o nome de vizinho nosso que vive lá no mato, no oco de um
jatobá?
Preto velho não estava
fazendo suspense, apenas admirava o silêncio. Por alguns instantes só se ouvia
o saquinho de papel das balas sendo desembrulhado. Pediu com as mãos a garrafa
de pinga do rapaz que estava perto da zabumba. Com uma piscadela, metade da
cachaça já tinha ido embora. Quando terminou, estalou a boca.
Enxugando os lábios,
cantarolou um bocado e aí sim entrou na conversa.
-Pra que ôces querem
saber nomi dele se já deram nomi pra ele?
-Nós, Pai Preto, precisamos
do nome dele de verdade.
-Hmm... Eu inté podia falá,
mas promessa é promessa, né, meu fio? Caboco que mora no tronco é homi
perigoso, mas justo. Ôces não tem o que temer.
-Mas, Pai Preto, ele
pode se zangar conosco pelo que estão fazendo com sua casa, mas nós não podemos
impedir...
-Deixa disso, minino!
Ele sabe, ele sabe. Caboco é mano velho. Tá desde antes do Encoberto* por aqui.
Ôces tão com medo pruque é vizinho novo. Ôces não precebem que ele vai ajudar.
-Ajudar?
Preto velho fez uma
careta, como se tivesse comido algo amargo. Em seguida alisou a cabeça.
-Ajudar do jeito dele.
Medo, meu fio, é a língua que alguns homes entendi...
O estalo do chicote
ressoava, mas só Preto velho ouvia.
O visitante agradeceu o
lanche, se despediu abençoando cada um e dona Zuleide voltou a ser a ocupante
daquele corpo. Andirá passou mais uma noite sem dormir, tentando digerir o que
foi falado naquele quintal.
Seu Chico, quem diria,
foi preso. Patarra andou cochichando no ouvido do prefeito e antes do dia
terminar já haviam dois guardas parados na frente do bar do Waldinei a espera
do pescador.
-Seu Chico, tá querendo
esclarecer umas coisas com o senhor lá na Prefeitura.
Ele colocou o chapéu e
o anel no dedo. Nem cara de raiva fez.
-Se é pra esclarecer,
eu vou.
Quando chegaram na Prefeitura,
o delegado Coriolano Camarão arrumou um barraco porque os policiais não tinham
o algemado. Assim que foi pegar suas mãos, o velho esquivou.
-Eu vim aqui pra
esclarecer um negócio!
Major Leão,
pressentindo porrada a caminho, disse que a sabor das circunstâncias o melhor
seria prender Chico porque haviam indícios de que ele estava armando balbúrdia
em Muquira. Leia-se, assassinatos. Seu Chico se defendeu relatando seu eterno
cotidiano de pescador. “Seu Chico, temos provas”. Não tinham porra nenhuma.
Lembremos mais uma vez: esses eram os anos 70, boatos podiam prender alguém ou
matar.
O prefeito pediu
paciência do velho mocambeiro. Ficaria algemado só para acalmar os nervos do
delegado de Quatro Pés, depois de dar algumas explicações seria solto.
Coriolano não via a hora de interrogá-lo, mas á maneira antiga. Pediu permissão
do Major Leão para usar seu cassetete e uma bateria de carro, mas preocupado
com a imagem da Câmara relutou em dar carta branca ao delegado de queixo
anormal.
Eu e Juninho Sabiá
chegamos nesse momento. Já era noite e ninguém podia sair da cidade, por isso o
delegado, seu Chico, o prefeito e nós passamos um longo tempo juntos tentando
entender o que de fato tinha acontecido.
UMA
DESPEDIDA DEBAIXO DOS LENÇÓIS
Ah, não nos esqueçamos
do Dr. Osmar Menegullo. O bom rapaz que passava suas noites agora com Pequerrucha,
uma das muitas meninas do Salão Shangri-lá. Sua esposa Maria Veridiana em São
Paulo tricotava lendo suas cartas, entre um suspiro e outro. Não suspeitava
nenhum pouco que aquela menina de olhos pequenos, boca carnuda, rosto anguloso
e cabelos negros fazia o tipo de seu marido.
Pequerrucha, a conheci
também. Não vou ser hipócrita. Eu, malandro que era (e ainda sou), não viveria
em Jacamirim sem conhecer todos seus bares e puteiros. Salão Shangri-lá era o
maior deles. Seu dono, Raimundo Pereira, se orgulhava de monopolizar o cacau e
as putas de Jacamirim.
Para chegar lá, basta
cruzar o rio em uma voadeira. Desde que os candangos chegaram aqui, balsas
apinhadas de homens desesperados atravessavam essas águas toda noite.
A primeira vez em que
fui lá, suas paredes ainda tinham o desenho de um pôr de sol amazônico com
direito a garças e jacarés. Meio tosco, mas de encher os olhos. O chão era de
azulejos xadrez. A cantoria ficava a cargo de dois sanfoneiros e um rapaz de
bandolim que hoje tem quase dois metros de altura.
Assim que vi as meninas
saquei tudo. Eram iludidas a irem para a cidade grande, mas acabavam chegando
ali. A maioria era do interior. A exceção era uma gaúcha, a mais velha, que por
sinal batizou aquela indiazinha de Pequerrucha. Maria Chaleira, a gaúcha, se
orgulhava de ser cantora lírica antes de ter essa vida. Mas não renega seu
atual emprego de maneira nenhuma. Apenas fazia questão de lembrar os safados
que reclamavam do serviço que tinham dormido com a mulher que apertou a mão da
soprano Bidu Sayão.
Do Salão Shangri-lá,
apenas solicitei os serviços de três ou quatro empregadas. Maria era uma delas.
As outras duas eram Pimentinha e La Hespanhola, lindas morenas que mais tarde
descobriria que eram primas. As demais eram menores de idade e o escrúpulo,
moeda rara nessas bandas, me impedia, até certo ponto me enojava, sequer de
flertar com elas.
“O professor prefere a
experiência, né?”, dizia o dono da casa toda vez que me via. Vivia me
empurrando alguma “novinha”, mas eu resistia. Por fim, cansou de fazer isso.
Voltando a Pequerrucha,
era uma garota – 17 anos no máximo – cheia de curvas e com um olhar ora
melancólico ora altivo. Já foi disputada a bala entre dois peões. Felizmente,
nenhum deles ganhou, já que os jagunços de Raimundo deram cabo dos dois antes
que arrumassem mais quebra-pau em seu bordel.
Em algumas semanas, Dr.
Osmar, amado pelas irmãs da Paróquia, já era cliente com cadeira cativa naquele
antro de pecado. Convidado, aliás, pelo próprio dono. Penso que Raimundo, homem
de falsa humildade, queria que o jovem engenheiro ficasse em suas mãos, por
isso patrocinava suas aventuras sexuais ali, onde suas empregadas poderiam
espioná-lo.
Seja como for, ele já
tinha sua “novilha” fixa (expressão do próprio). Pequerucha ora perguntava se
seria capaz de fugir com ela, ora afirmava que iria esquecê-la com o fim das
obras. No seu íntimo rezava para que a construção demorasse. Pois bem, houve
uma noite em que seu amante encantado lhe revelou a meio caminho do sono que no
outro dia derrubaria a dita árvore. A menina arregalou os olhos, ficou muda.
Lhe deu um beijo, como se fosse uma despedida.
UM
TRONCO MORTO PODE SER BEM TEIMOSO
Duas coisas muito
importantes aconteceram em 17 de setembro de 1973. Primeiro, Chico Tapera,
independente dos nossos protestos, foi levado por Coriolano Camarão para a
delegacia de Quatro Pés. A segunda, a derrubada da famigerada casa do caboco.
Os tratores estavam a
postos. Alguns peões tinham saído da linha de frente e ficaram a olhar tudo de
longe. Não fossem os berros dos capatazes teriam sumido. Capinaram o entorno. O
susto da manhã foram duas cobras corais imensas. Um trabalhador pegou uma delas
e passou entre os dedos: “faz a gente tocar viola melhor”, explicou.
Osmar observava tudo de
sua tenda improvisada ali perto. Quando viu as escavadeiras avançando suas pás
no tronco oco, desviou o olhar. Terminou seu cálculo, mas um eis que aparece
Armindo Tavares, rouco, chamando-o.
A árvore não tinha
caído, mesmo com duas escavadeiras empurrando-a. Osmar pediu que repetissem o
feito. Nada. O tronco balançava, mas continuava fincado na terra. Os presentes
e as velas tinham sido pisoteados e amassados pelas rodas dos veículos. Eram
nada mais que uma pasta de parafina e líquidos podres.
Armindo pedia machados,
facões, motosserras. Poucos valentes obedeceram. Um deles se benzeu umas sete
vezes antes de tacar a peixeira nas raízes. Na terceira facada, caiu duro. Saía
sangue do seu ouvido. Os demais pararam.
-Morreu?
-Não, isso tudo é
psicológico.
-Patrão, tá escorrendo
sangue ali, olha!
-Levem ele pra tenda,
usem os primeiros socorros. Já!
Osmar tinha deixado o
lápis cair no barro. Estava boquiaberto. Armindo tentava não perder a
compostura. Ainda ditava ordens, mas os corajosos com facões e motosserras
tinham pensado duas vezes.
-Corte esse tronco!
-Corta você!
Estava perdendo a
moral. Três ou quatro correram, o capataz segurou. Um homem destinado a provar
que não tinha medo optou por enfrentar a árvore. Os dentes da motosserra já
tinham aberto uma ferida no tronco. Mas a máquina parou. Quando examinava-a,
repentinamente voltou a funcionar. Descontrolada arrancou-lhe a mão.
Desesperado, o homem
urrava de dor. Um círculo de homens ao seu redor agora tentava estancar o
sangramento com trapos de suas calças. Carregaram-no para longe dali. Armindo,
saindo do choque, voltou a dor ordens.
As escavadeiras
tentaram mais uma vez e nada. O jovem engenheiro se viu, em poucos segundos, no
olho do furacão. Tudo aconteceu ao seu redor. Dois homens tombaram e a árvore
não. Um vento sem igual atravessou o canteiro de obras. Alguns galhos voavam.
-Osmar, temos que
derrubar esse troço!
-Calma, calma, calma...
estou pensando.
No cérebro do rapaz
algo se materializava no meio de tanto assombro e caos. Cordas... Precisaríamos
de corda, anunciou.
-Dessa vez usaremos
três escavadeiras, não é possível que ela não caía...
Em cada veículo, uma
ponta da corda. Faltava amarrar as outras pontas no tronco. Quem queria fazer
agora? Os capatazes tinham se afastado. Beto, o mais próximo e franzino,
recebeu a ordem. Duvidaram de sua macheza. Claro que era macho, mas por um
momento desconfiar de sua virilidade parecia ser um bom preço a se pagar por
sua vida. Armindo foi com ele amarrar a corda.
-Você amarra essa.
-Eu?
Osmar se surpreendeu
com a ordem, mas estava tão assustado que parecia um menino obediente. Se
apoiou numa das raízes. Pode averiguar que elas estavam tortas, amassadas, mas
ainda rijas. Quando terminou o nó observou bem o corte feito pela motosserra.
Dele saía algo. Algo líquido e escuro.
Voltaram ao chão.
Armindo pediu para ligarem as máquinas, mas os operadores já tinham descido. O
jeito foi eles mesmos fazerem o serviço. Beto teimava que não poderia fazê-lo,
que tinham de liberá-lo porque não sabia mexer em escavadeira. O grisalho
engenheiro revelou os simples movimentos, não havia mais desculpa.
Ao seu comando, todos
deram partida. O ronco do motor era tudo que importava. Ao vendaval tentavam
impor indiferença, menos Beto. Cada escavadeira para um lado. Foram quatro
minutos de tensão. As cordas arrebentaram uma por uma.
A casa do calundu
sequer balançou.
Estava a essa altura na
cidade vizinha, junto com Juninho e Mestre Quinho, tentando conseguir com o
delegado turrão uns minutos com Chico. Sabia de sua total inocência, assim como
sabia que seria espancado por Coriolano quando estivessem ás sós. Nosso
objetivo inicial era impedir que o interrogatório começasse.
Na porta da delegacia
ficamos. Eu disse que seria o advogado do velho negro, mas não houve respostas.
O sargento barrigudo que tomava conta da porta não nos deixava entrar. Mestre
Quinho, homem pacífico de tudo, já estava a um passo de iniciar um
quebra-quebra.
Finalmente o infeliz
apareceu. Suando como um porco, o delegado chegou pedindo para que calássemos
nossas bocas se não iríamos pro xadrez também. Juninho pulou na sua frente.
Gritava: isso é uma injustiça, isso é uma injustiça!
Três tiros. O cano
fumegante de Coriolano calou a todos nós.
-Eu quero ordem nessa
porra!
Uma turma de crianças
apareceu. Estranho, porque em caso de tiro eles são os primeiros a correr. Mas
o fato é que eles chegaram correndo e quando deram por si o circo já estava
feito. Pronto para voltarem, foram indagado pelos delegado qual o motivo de
estarem tão afoitos. O mais magrinho, recuperando o fôlego, disse: a árvore.
E no seu tom meio fanho
ficamos inteirados da incrível batalha entre as escavadeiras e o tronco
maldito. Ficamos sem reação. Entreolhares, se foi o que fizemos, foi muito. O
próprio Coriolano engoliu seco a notícia.
-Não é possível, isso!
Deixem de papo e sumam daqui!
Enxotou e voltou para
sua caverna, sua delegacia. Nós continuamos ali, cada um com seu silêncio, com
seu pensamento. Dormimos na porta da “chefatura de polícia”. Esperávamos poder
falar com nosso amigo. E não sei se queríamos voltar depois daquela bizarra
notícia.
(CONTINUA...)
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*Encoberto: como o rei português D. Sebastião é conhecido em muitas partes do Brasil. No Tambor de Mina acredita-se que o rei não tenha desaparecido no Marrocos durante a batalha com os mouros em 1578, mas entrado em um portal que o levou anos depois para o Maranhão, onde faleceu.
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quinta-feira, 11 de outubro de 2012
Passos nas trevas
Tinha anoitecido. Nenhum sopro de luz. Continuava andando. Na sua cabeça era questão de tempo: mais um pouco e aparecerá um posto de gasolina ou no mínimo um borracheiro. As únicas luzes ali eram os vaga lumes: céu sem estrelas.
A mochila pesava demais. Cansaço já tinha lhe alcançado há mais de uma hora. Teimava em continuar. Não pode dormir na beira da rodovia. Quando acordar estará frito. O sol daqui não perdoa.
O vento assobiou. O assobio se estendeu. Engrossou. Vinha de trás. Olhou, não viu nada. Aliás, viu tudo. Quando se está na escuridão qualquer coisa aparece em forma de sombra. O som não parou. Parecia estar se aproximando.
Recomeçou a andar. Andar não, correr. Nunca se sabe. "Mas será que ninguém vive pra esse lado dessa porra de rodovia?" O passo não era mais de mochileiro, mas de maratonista. Uma força lhe surpreendeu. Caiu no chão. Seja o que for acertou apenas a sua mochila.
Tentava prosseguir, mas os dentes dessa vez lhe alcançaram. Suas pernas foram primeiro. Logo em seguida o pescoço. Em minutos não restava mais nada além de sangue e alguns ossos da costela. Agora ele sabia porque ninguém vivia por essas bandas.
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