quarta-feira, 31 de agosto de 2011

Museu Etnográfico Crisanto Jobim

Instituto Geográfico Histórico do Amazonas
Eu e minha amiga Anália Ferreira Silva fomos visitar o Instituto Geográfico Histórico do Amazonas (IGHA) semana retrasada. Quem nos apresentou tudo, além de nos ajudar a pesquisar os documentos de seu arquivo, foi nossa amiga Olga Almeida. Ela estava com dor na garganta e pedimos para ela nos apresentar o IGHA. Sim, abusamos da coitadinha. Fiquei com pena dela, tamanho era o esforço para falar, mas depois passou (a minha pena, não a falta de voz dela, claro).
Não vou falar de toda a visita e nem do arquivo hoje, por causa da falta de tempo. Falarei aqui somente do Museu Crisanto Jobim que fica nos fundos do IGHA. Em primeiro lugar, quem foi Crisanto Jobim (1879-1940)?
Desenho que fiz da foto de Crisanto Jobim do livro Manaus, Entre o Passado e o Presente (1999) de Durango Duarte.

Pesquisei e descobri umas coisinhas sobre ele: Crisanto Maria de Souza Moreira Jobim nasceu em Anadia, uma pequena cidade de Alagoas e começou sua carreira em Maceió como guarda de alfândega. Chega em Manaus para assumir o posto de escriturário da Delegacia Fiscal do Amazonas em 1915. Ocupou cargos importantes como a Secretartia da Prefeitura de Moura (hoje parte dos municípios de Barcelos e Coari) e a Secretaria Geral do Estado logo após a rebelião tenentista de 1924.
Por formação, Crisanto era engenheiro agronômo, mas possuía um grande interesse pelos povos indígenas. Passou a estudar Etnografia e Arqueologia. Chegou até a fundar um instituto antropológico chamado de Colégio Martius (homenagem ao naturalista alemão que passou pela Amazônia no século XIX).
Crisanto tentou construir uma espécie de coleção de objetos e material etnográfico. Nomeou sua coleção de Museu Rondon. Não se sabe muito bem quando ele começou a funcionar. Já na década de 1926, o IGHA manifesta interesse em comprar o acervo do pesquisador. Com os cinco conto de réis fornecidos pela Câmara Federal como auxílio para o IGHA, a instituição finalmente o compra em 1934. O museu só foi ser reorganizado em 1976, com a ajuda da Fundação Joaquim Nabuco e da Universidade do Amazonas. Mesmo assim nem todo o acervo foi catalogado. Em 1982, em homenagem á Crisanto a diretoria do IGHA nomeia o acervo com o seu nome.
Museu Etnográfico Crisanto Jobim. Foto de Olga Almeida.
Vamos ao Museu em si: ele está localizado nos fundos do IGHA e ocupa três salas. Logo na primeira temos uma maquete do que seria a Vila da Barra (atual Manaus) nos tempos da colônia. Como era de se esperar, lá está o Forte de São José do Rio Negro. Pode se ver os caboclos secando a carne do pirarucu, os soldados andando pela vila, as casas de taipa ao fundo. Enfim, se fosse falar dos detalhes ficaria aqui o dia inteiro. Basta dizer que é muito curioso. A maquete foi construída por Alfredo Loureiro e funcionários dos Laboratórios Reunidos.
Ao redor vemos as lanças, arpões, arcos e flechas indígenas. O mais interessante é uma pedra de quartzo meio oval a qual os Dessana acreditavam ser a avó do Universo. Na sala ao lado estão as urnas funerárias. Desde as menores até os fragmentos das gigantescas. Junto com elas, amoladores primitivos e pedras lascadas.


A terceira sala se desvia um pouco da temática indígena: lá estão vários retratos autografados de celebridades (Churchill, Álvaro Maia, Virgínia Lane, etc), algumas fotos da Manaus antiga e inúmeros animais empalhados. Um armário gigantesco, cheio de compartimentos onde podemos ver couros de sucuris, crânios de jacarés, ovos de pássaros e os próprios pássaros empalhados, divide a sala com a parede de quadros. Essa parte lembra muito os velhos gabinetes de ciências dos naturalistas, onde se guardavam as mais variadas espécies de plantas e animais. Claro que os objetos e animais empalhados aqui servem mais como curiosidade e enfeite do que artefatos científicos. E quanto aos quadros, tenho quase certeza que eles pertencem ao acervo do IGHA e não propriamente do Museu Rondon. São interessantes porque, juntos, parecem uma espécie de relicário de uma Manaus que não era mais a da Belle Epóque, mas pretendia ser cosmopolita ainda.

Enfim, o Museu Crisanto Jobim é muito interessante. Andar por ele pode ser divertido, aprendemos algumas curiosidades, mas para o pesquisador, professor ou mero interessado em História ele é um prato cheio para se falar de uma época em que a Antropologia dava seus primeiros passos no Brasil e na Amazônia. Lá vemos aquele que era considerado o objeto de estudo por excelência (o universo indígena) da Antropologia de então e um pouco do contexto de seus "pesquisadores" - homens que tinham profissões tradicionais e origens sociais abastadas, mas que pela curiosidade de se compreender uma cultura vista como "exótica" começaram a dar os primeiros passos da etnografia na região. Homens como Crisanto Jobim.

terça-feira, 30 de agosto de 2011

História vista de baixo: problemas

Coleção Povo de Lisboa do Arquivo de Manuel Gondinho.
Sharpe lembra que a História Vista de Baixo se iniciou com a ajuda do marxismo e da história social britânica (Thompson é um bom representante de ambos). No segundo momento, os historiadores dos Annales entraram na roda. As contribuições, no entanto, também trouxeram limitações.
A análise marxista se focava no período pré-industrialização, quando o capitalismo dava seus primeiros passos para sua consolidação. A pergunta colocada pelo autor do artigo é: como fazer História Vista de Baixo nos séculos anteriores ao da Revolução Industrial? Hobsbwam dizia que a Revolução Francesa, com a criação de seus arquivos sobre o cotidiano das pessoas, era um divisor de águas no quesito documentação. Nova pergunta então: como fazer História Vista de Baixo antes da Revolução Francesa.
Montaillou, de um membro da História Nova, é uma tentativa de responder essa pergunta. Afinal, estamos em uma aldeia francesa no início do século XVIII. Como foi possível construir esse estudo? Como dissemos antes, LeRoy Ladurie usou de documentos da Inquisição. A contribuição da História Nova pode ser encarada como um maior diálogo com a sociologia e a antropologia, um campo maior de fontes (incluindo aqui a história oral, por exemplo) e uma conceituação nova: as mentalidades.
Mentalidades é difícil de definir, mas pode ser encarada como o conjunto de elementos simbólicos que guiam as ações e os comportamentos de uma determinada sociedade. O conceito sofreu críticas por sua imprecisão e sua abrangência. O comandante da tropa e o soldado raso que escreve á esposa tem a mesma mentalidade? E a sua diferença social não interfere nisso?
Na História Vista de Baixo também foi criticada sua imprecisão. O que seria esse "de baixo"? Dentro do povo existem os mais variados grupos sociais e culturas, então chamar o estudo do povo de História Vista de Baixo não é uma generalização grotesca? Afinal, o "baixo" pode ser relativo: o capitão comparado ao comandante da tropa é de "baixo", assim como o soldado raso é mais "baixo" ainda se comparado ao capitão do batalhão. Alguns críticos acreditam que essa imprecisão é fruto do panfletismo, da defesa apaixonada das massas que acaba reduzindo-as á um termo que não dá conta de todo o seu tamanho.
Quanto á essa questão, além da necessidade de melhor questionamento e detalhamento, impõe-se sempre enxergar a História num âmbito total. Ou seja, a História Vista de Baixo não tem sentido se for tomada como um fim em si mesma, afinal o que é do "baixo" sem o de "cima"? Por isso, não podemos deixar de considerar as outras esferas da História.
Outro problema, esse menos teórico, decorre do insucesso da História Vista de Baixo fora da academia. Ora, a História Vista de Baixo tem um forte cárater social e político, afinal ela está reagindo á História oficial, a história das elites. Nada mais sensato que endereçá-la, além da academia, ao povo, á sociedade em geral. No entanto, os estudos mais tradicionais são os mais lidos fora das universidades. Será culpa da continuação daquela idéia de que a verdadeira história é a dos grandes feitos e dos grandes homens? Ou o historiador também tem culpa ao escrever teses com muitos conceitos teóricos e uma linguagem muito técnica que acaba afastando o povo? Corremos o risco de fazer uma História Vista de Baixo para quem está em "cima", então?

sábado, 27 de agosto de 2011

A Dor da Saudade

Hoje senti saudade de Taubaté e do Vale do Paraíba. Senti saudade também de pessoas que não estão mais entre nós. E quando se fala em saudade na mesma hora me vêem a nostálgica música do compositor  de São Luiz do Paraitinga, Elpídio dos Santos (1909-1970), que se tornou conhecida graças aos filmes de Mazzaropi: A Dor da Saudade.

A dor da saudade
Quem é que não tem
Olhando o passado
Quem é que não sente
Saudade de alguém...

Da pequena casinha
Da luz do luar...
Do vento manhoso
Soprando do mar...

A dor da saudade...

E até das mentiras
Que fazem sonhar
De alguém que se foi
Pra não mais voltar...

A dor da saudade...

Vá embora saudade
Dá minha casinha
Que eu quero bem



Aí embaixo, a música na voz de Suzana Sales e Lenine Santos:


Elpídio dos Santos
E aqui, a versão clássica de Mazzaropi:

Dalí contra a arte moderna

Os críticos da velha arte moderna foram sobretudo enganados e corneados pelo "moderno" mesmo. De fato, nada envelheceu mais depressa e pior do que aquilo tudo que num momento qualificaram de "moderno".

(...)

Pintor, não te ocupes
em ser moderno.
É a única coisa que,
infelizmente,
não importa o que fizeres
não poderás evitar de ser.

Salvador Dalí, pintor catalão em Libelo contra a Arte Moderna (1956).

História vista de Baixo: obras

Indivíduos I de Maria Burgaz.
O historiador britânico Jim Sharpe inicia seu artigo sobre a História Vista de Baixo lembrando da importância da Batalha de Waterloo, a derrota de Napoleão Bonaparte para a Inglaterra. Fazer História Vista de Baixo não é menosprezar a importância desse acontecimento, mas abordá-lo de uma outra forma. por exemplo, usando as cartas de um jovem soldado raso á sua amada. Cartas onde ele registra o cotidiano dos batalhões ingleses, a região em que está acampado e a própria batalha.
Bertold Brecht, poeta alemão, já se perguntava onde estão na História os responsáveis por construir as pirâmides. Só se ouve falar em quem comandou sua construção e não em quem participou dela efetivamente. É o caso do nosso soldado raso. Seu nome era desconhecido até Sharpe usá-lo como exemplo para abrir esse artigo.
O primeiro estudo de História Vista de Baixo, segundo o autor, vem de Edward Thompson com seu artigo History from Below (História vista de baixo) para uma revista britânica em 1966. Ali ele propõe que se faça uma história da classe trabalhadora inglesa que fale dos líderes e das organizações trabalhistas, mas não só delas. Fazer uma história que aborde também o trabalhador não engajado, afinal ele também é um trabalhador e faz parte dessa classe.
Na década de 1970, o estudo do historiador francês Emmanuel LeRoy Ladurie sobre denúncias de bruxaria numa pequena vila do Norte da França gerou um best-seller: Montaillou (o nome da tal vila). Por meio de processos da inquisição, ele pode ver como os seus moradores viviam e como reagiam á tais acusações.
Na mesma década surgiria outro estudo de História Vista de Baixo que se tornaria um best-seller: O Queijo e os Vermes de Carlo Ginzburg. Um moleiro italiano que tem suas próprias idéias sobre a criação do mundo é investigado pela Inquisição e através desse caso curioso, Ginzburg demonstra como era a cultura na Itália Moderna.
Há ainda muitos trabalhos, mas esses três são os fundamentais quando se fala em História Vista de Baixo. Eles demonstram como a história oficial esconde preciosidades como essas. Ladurie e Ginzburg trabalharam com documentos oficiais, processos da inquisição, e através de uma boa crítica - uma leitura á contrapelo- conseguem achar grupos sociais que foram escondidos pelo discurso oficial. Thompson utilizará num livro posterior (A Formação da Classe Trabalhadora Inglesa) vários tipos de fontes, sejam das organizações trabalhistas ou do próprio governo.

quinta-feira, 25 de agosto de 2011

Hobsbawm na berlinda

Eric Hobsbawm
O historiador britânico Tony Judt, conhecido por seus estudos de historiografia e sobre História Contemporânea, lançou há um tempo um livro onde estavam artigos sobre história e historiadores. O nome do livro é O Século XX Esquecido. Li apenas um artigo desse livro, o que falava sobre Eric Hobsbawm.
Hobsbawm é conhecido como um dos historiadores marxistas britânicos mais famosos mundialmente. Seus livros sobre "as eras" fizeram sucesso fora da Inglaterra e seus trabalhos sobre identidade nacional, a classe trabalhadora e o marxismo também se tornaram antológicos.
Hobsbawm é tido como um dos mais famosos neo-marxistas, ou seja, intelectuais que fizeram uma revisão sobre o comunismo enquanto política e teoria filosófica e historiográfica. Existe uma corrente do marxismo que surgiu justamente após os anos 50 chamada de Eurocomunismo que retira a violência de uma ditadura do proletariado e inclui em seus projetos a democracia e o pacifismo. Hobsbwam, politicamente, é tido como eurocomunista.
Judt inicia o artigo falando isso tudo e muito mais. Lembrando dos méritos impressionantes de Hobsbawm (sua trajetória, sua erudição, seu poder de análise e sua fama). Depois parte para uma crítica que pouca gente teria coragem de fazer. O autor tenta entender como Hobsbwam pode continuar filiado ao comunismo, sem nenhuma crise de consciência após as denúncias dos horrores do stalinismo e da queda do Muro de Berlim.Ora, existem muitos intelectuais que são comunistas hoje. O comunismo não é uma peça de museu ainda. Acabamos de falar á pouco de como ele se modificou e se faz presente hoje. Judt está falando daquele comunismo ortodoxo, meio dogmático. Para ele, Hobsbawm, embora seja considerado um dos expoentes do neo-marxismo, ainda conservava traços dele.
O historiador britânico seria, portanto, um homem mais apegado ás idéias que ao povo propriamente dito. A maior prova disso seria sua escrita altamente erudita e sua posição altamente acadêmica. Hobsbawm, ao contrário de Thompson, fala para os acadêmicos. Se apegaria mais á teorias que á sentimentos. Tanto que em nome da luta de classes, segundo Judt, transformaria bandidos em heróis populares em um estudo feito anos atrás - uma atitude que lembra muito as ações do marxismo ortodoxo, dos anos do stalinismo.
Tony Judt
Tony Judt é um historiador um tanto polêmico. Polêmico porque faz observações ácidas sobre a historiografia inglesa e internacional. Essas observações carregam, na maioria, um pouco de sua posição política (de direita), mas também não deixam de estar amarradas á algumas meias-verdades. Quando chama Hobsbawm de mandarim comunista, por exemplo, está cutucando tanto os historiadores neo-marxistas como o eurocomunismo. Mas tenho de concordar com ele em alguns aspectos, como o afastamento do historiador britânico de um público mais amplo. Hobsbawm tem uma linguagem que utiliza muitos termos técnicos e muita erudição, o que faz com que a maioria de seus livros (excetuando-se talvez A Era dos Extremos, onde, por conta do tema mais atual, ele se faz mais dinâmico) sejam criados quase que exclusivamente para acadêmicos. Aqui, no entanto, cabe relativizar um pouco: afinal, Hobsbawm escreve para o leitor inglês. Qual o nível de instrução do leitor inglês comum? Ele é compatível com a erudição do historiador? Se não for, acredito que isso não deve diminuir em nada o respeito que devemos ter por Hobsbawm, afinal suas contribuições á historiografia são enormes. É até interessante, porque isso nos lembra que esse grande historiador também é humano.

terça-feira, 23 de agosto de 2011

Um resumo provisório

Abaixo está um resumo sobre o artigo História dos Intelectuais na Década de Cinquenta de Leandro Konder. Um resumo muito breve. Prometo que farei outro mais coerente e crítico.


Leandro Konder em artigo para o livro Historiografia Brasileira em Perspectiva, organizado por Marcos Cézar Freitas, aborda como os intelectuais brasileiros da década de 1950 interpretavam a História e sua época.
Primeiro lembra o clima da época: o painel não era nada animador nos primeiros anos, mas no final da década tudo tinha mudado trazendo grandes expectativas. O medo de uma terceira guerra mundial tinha se dissipado com a "coexistência pacífica", acordo velado entre EUA e URSS. O conservador papa Pio XII tinha dado lugar ao papa João XXIII que criou medidas que influenciariam a Teologia da Libertação. O estranhamento com o biquini passou e agora ele era mania nacional. Tudo tinha mudado.
Os intelectuais enxergaram isso. Eles viram o Brasil e o mundo mudar. Cada um reagiu como forma sua origem social e sua posição ideológica. Os conservadores se assustavam com o rumo dos acontecimentos, já os marxistas se dividiam entre apreensão e o entusiasmo.
Uma corrente ideológica muito importante nascida nessa década foi o nacional-desenvolvimentismo. Konder credita á Hélio Jaguaribe seu surgimento. Jaguaribe pretendia entender porque o Brasil estava na fossa e propor então medidas para tirá-lo de lá. Por isso foi buscar na nossa História as razões de nosso subdesenvolvimento. Chegou á conclusão de que por nunca sofrermos nenhuma crise, nunca refletimos profundamente sobre nosso país e assim as mesmas medidas tomadas pela elite dirigente na colonização continuam sendo tomadas.
Os conservadores procuravam na História exemplos para guiar o povo no presente. Seja em grandes homens ou nos seus gloriosos atos. Quando não o faziam desmereciam o peso das mudanças históricas ou da crítica historiográfica, duas teclas em que os marxistas sempre batiam.
Konder dá mais destaque aos marxistas - afinal, ele é marxista e vivenciou esse período entre essa corrente de pensamento. Aqui ele fala de como o marxismo da época era dogmático e totalmente confuso, por causa de seu culto á figura de Stálin. Existiam, contudo, exceções como Caio Prado Júnior.
Por causa desse clima de "sociedade secreta", muitos intelectuais decidiram não se filiar ao partido. Outros queriam apenas conhecer melhor a teoria de Marx para depois se decidirem se o seguiriam ou não. É o que costumava acontecer nos grupos de estudo das universidades (Florestan Fernandes e Arthur Gianotti fizeram isso).
A morte de Stálin e as denúncias das atrocidades por ele cometidas (feitas por seu sucessor, Nikita Kruschev) pediram uma reformulação do marxismo que vinha sendo feito até então. Após reconhecerem o erro que cometeram, os "marxistas-leninistas" (como chama Konder) decidiram se aprofundar mais na teoria do filósofo alemão e na realidade brasileira.
Resumindo: os intelectuais na década de 1950 tinham inquietações suscitadas pelas mudanças que vinham observando. Essas inquietações os levaram a pesquisar nosso passado e o presente. As discussões e pesquisas se consolidariam e se radicalizariam na década seguinte. A década de 50 preparao terreno para o campo intelectual ousado e conflitivo da década de 60.

Mea Culpa ou nossa culpa?



Já faz um tempo que Amanda Gurgel, uma professora potiguar, fez um longo discurso atacando os políticos por  considerarem o professor o único responsável pela situação caótica da educação brasileira. Pois bem, coisa de dois dias atrás o governador do Ceará, Cid Gomes, disse: "Quem quer dar aula faz isso por gosto, e não pelo salário. Se quer ganhar melhor, pede demissão e vai para o ensino privado."
Ontem, na aula de Teoria e Prática do Ensino de História, ministrada pelo Prof. Tarcísio Serpa Normando falávamos justamente disso. Da idéia enraizada em nossa mentalidade do magistério enquanto sacerdócio. O professor tem a vocação para ensinar. Na sala de aula ele é o próprio saber, ele coloca na cabeça dos alunos todo o conhecimento.
De onde vem essa imagem? Levantamos algumas hipóteses: talvez a origem de nossa educação (afinal, os jesuítas dominaram a educação no Brasil por anos a fio) ou mesmo uma distorção do iluminismo (enxergando a Razão como uma entidade quase divina e o professor e o filósofo como os responsáveis por levá-la ás classes populares).
De qualquer maneira, o fato é que essa mentalidade tem mais culpa no cartório que o professor, pois ela justifica uma posição autoritária na sala de aula e falta de política educacionais que ajudem o professor nos órgãos responsáveis. O professor que se encara como um xamã não dialoga com seu aluno e assim vai se abrindo um fosso entre ele e sua turma. O político que encara o professor como sacerdote acredita que por ele estar servindo á uma causa maior não merece ter um bom salário, afinal o dinheiro corromperia sua "missão".
É claro que existem professores não comprometidos com a educação (e muitos), mas Cid Gomes apenas está procurando uma justificativa para os pequenos recursos destinados (ou desviados) á educação. E ao dizer isso se iguala á tantos políticos pelo nosso país. A culpa nunca é deles, mas dos professores. Muitos pais também acreditam que a culpa de seus filhos não aprenderem direito e não se comportarem seja do professor também. O que é um absurdo: a educação, como já falamos aqui antes, vai além dos muros da escola, ela está nas ruas e nas casas. E o sistema educacional é muito complexo que precisa que todas suas partes ajam conjugadas, o que não é o que acontece. Logo a culpa cai sempre sobre o elo mais fraco da corrente: o professor.
É muito fácil se desligar da responsabilidade de educar, Cid Gomes demonstra isso muito bem. Enquanto não houver professores comprometidos, pais comprometidos e políticos comprometidos com a educação o que podemos esperar?

sexta-feira, 19 de agosto de 2011

José Cândido de Carvalho

Realejo, Djanira.
Vou colocar aqui alguns dos pequenos e engraçados contos do escritor carioca José Cândido de Carvalho (1914-1989), um dos meus favoritos.




Adeus tardes fagueiras à sombra das laranjeiras
de Casemiro de Abreu


Alcimaco Azambuja, dono de muito boi e muito voto em Pirapora, tendo de resolver umas coisas e loisas com o governo, rebocou Zizinho Pinto para terras e mares do Rio de Janeiro. E, na porta do Palácio do Catete, que naqueles dias comandava a vida do Brasil, falou para o compadre Zizinho:

— Vou ver uns papéis que estão entalados nas gavetas do governo. Venha comigo.

Zizinho recusou:

— Compadre, careço de competência para pisar chão tão mimoso. Vou quedar do lado de fora, assuntando compadre.

O compadre sumiu pela larga porta de entrada enquanto Zizinho, instalado num bom cigarro de palha, ficava vendo aquele entrar e sair de gente em formato de formiga de correição. Alcimaco, depois de desencravar seus papéis, voltou e quis saber a opinião de Zizinho Pinto:

— Compadre, gostou do Catete? Coisa assim não tem em Pirapora.

E Zizinho de Pirapora:

— Eta, compadre, lugarzinho bom de especial para um varejo, para um comercinho de cachaça e rapadura!

E mais não disse nem lhe foi perguntado.

Porque Lulu Bergantim
não atravessou o Rubicon


Lulu Bergantim veio de longe, fez dois discursos, explicou por que não atravessou o Rubicon, coisa que ninguém entendeu, expediu dois socos na Tomada da Bastilha, o que também ninguém entendeu, entrou na política e foi eleito na ponta dos votos de Curralzinho Novo. No dia da posse, depois dos dobrados da Banda Carlos Gomes e dos versos atirados no rosto de Lulu Bergantim pela professora Andrelina Tupinambá, o novo prefeito de Curralzinho sacou do paletó na vista de todo mundo, arregaçou as mangas e disse:

— Já falaram, já comeram biscoitinhos de araruta e licor de jenipapo. Agora é trabalhar!

E sem mais aquela, atravessou a sala da posse, ganhou a porta e caiu de enxada nos matos que infestavam a Rua do Cais. O povo, de boca aberta, não lembrava em cem anos de ter acontecido um prefeito desse porte. Cajuca Viana, presidente da Câmara de Vereadores, para não ficar por baixo, pegou também no instrumento e foi concorrer com Lulu Bergantim nos trabalhos de limpeza. Com pouco mais, toda a cidade de Curralzinho estava no pau da enxada. Era um enxadar de possessos! Até a professora Andrelina Tupinambá, de óculos, entrou no serviço de faxina. E assim, de limpeza em limpeza, as ruas de Curralzinho ficaram novinhas em folha, saltando na ponta das pedras. E uma tarde, de brocha na mão, Lulu caiu em trabalho de caiação. Era assobiando "O teu-cabelo-não-nega, mulata, porque-és-mulata-na-cor" que o ilustre sujeito público comandava as brochas de sua jurisdição. Lambuzada de cal, Curralzinho pulava nos sapatos, branquinha mais que asa de anjo. E de melhoria em melhoria, a cidade foi andando na frente dos safanões de Lulu Bergantim. Às vezes, na sacada do casarão da prefeitura, Lulu ameaçava:

— Ou vai ou racha!

E uma noite, trepado no coreto da Praça das Acácias, gritou:

— Agora a gente vai fazer serviço de tatu!

O povo todo, uma picareta só, começou a esburacar ruas e becos de modo a deixar passar encanamento de água. Em um quarto de ano Curralzinho já gozava, como dizia cheio de vírgulas e crases o Sentinela Municipal do "salutar benefício do chamado precioso líquido". Por força de uma proposta de Cazuza Militão, dentista prático e grão-mestre da Loja Maçônica José Bonifácio, fizeram correr o pires da subscrição de modo a montar Lulu Bergantim em forma de estátua, na Praça das Acácias. E andava o bronze no meio do trabalho de fundição quando Lulu Bergantim, de repente, resolveu deixar o ofício de prefeito. Correu todo mundo com pedidos e apelações. O promotor público Belinho Santos fez discurso. E discurso fez, com a faixa de provedor-mor da Santa Casa no peito, o Major Penelão de Aguiar. E Lulu firme:

— Não abro mão! Vou embora para Ponte Nova. Já remeti telegrama avisativo de minha chegada.

Em verdade Lulu Bergantim não foi por conta própria. Vieram buscar Lulu em viagem especial, uma vez que era fugido do Hospício Santa Isabel de Inhangapi de Lavras. Na despedida de Lulu Bergantim pingava tristeza dos olhos e dos telhados de Curralzinho Novo. E ao dobrar a última rua da cidade, estendeu o braço e afirmou:

— Por essas e por outras é que não atravessei o Rubicon!

Lulu foi embora embarcado em nunca-mais. Sua estátua ficou no melhor pedestal da Praça das Acácias. Lulu em mangas de camisa, de enxada na mão. Para sempre, Lulu Bergantim.

Conceitos II

O que são conceitos? São ferramentas que nos ajudam a entender a realidade. Foi na Grécia Antiga que Sócrates definiu o que seriam conceitos. Os conceitos seriam palavras abstratas que nos ajudariam a entender o mundo concreto. A filosofia falaria á respeito de conceitos e não de opiniões.O conceito, por ser abstrato, nunca será fielmente o que pretende explicar. Ele é apenas uma representação, uma espécie de palavra-chave.
Da Grécia até hoje muitos conceitos foram criados, na filosofia e fora dela. Em história, por exemplo, qualquer trabalho científico deve vir acompanhado, logo no início, do referencial teórico, ou seja, os conceitos que o pesquisador usará.
Muitos acreditam que a história só se renovará quando se renovarem seus conceitos. Michel de Certeau acredita que não são os conceitos que irão renovar a história e as demais ciências, mas a própria sociedade. Para o historiador francês, as ciências estão mais do que ligadas nas relações sociais e seus conflitos, por isso quando mudanças significativas acontecem na sociedade elas se renovam.
Ele dá alguns exemplos: no tempo do entreguerras, principalmente durante a crise de 1929, a história voltou-se para a economia e formou vários conceitos como fase de expansão e retração. Enquanto que nas últimas décadas a globalização e a indústria cultural tem ajudado os pesquisadores a elegerem como o conceito mais importante desse começo de milênio a cultura.