quarta-feira, 19 de outubro de 2011

Tem boi na linha

No Brasil, transporte público virou sinônimo de martírio ou tortura. Em Manaus a situação não é muito diferente. Se a população fosse perguntada sobre quais os maiores problemas que Manaus têm, com certeza o transporte figuraria na lista. E não é para menos. Poucos ônibus e os que estão em circulação precisam de manutenção. Isso sem falar dos terminais e paradas, caindo aos pedaços. O trânsito caótico também não ajuda nenhum um pouco.
Eis que o prefeito de Manaus anuncia como uma das soluções para esse problema uma nova frota de ônibus. A frota chegou. Foi apresentada no dia 8, sábado passado. Os ônibus ocuparam de uma ponta a outra da Avenida das Torres. E começaram a entrar em circulação no começo da semana. O que surpreendeu a população, contudo, não foi a quantidade de ônibus, mas o preço que se cobraria para circular neles. Amazonino anunciou que aumentaria as tarifas de 2,25 para 2,75 e, para os ônibus executivos, de 3,00 para 5,50.
Claro está que o nosso prefeito está tentando acabar com o transporte alternativo: o aumento das tarifas foi um soco bem no meio do estômago dessas empresas. Ora, elas cresceram em cima da deficiência do transporte público. Por aí percebemos o que a urbanista Raquel Rolnik sempre afirma: o espaço urbano é regido por regras, principalmente economicas. O lobby das empresas de transporte coletivo e a prefeitura demonstra isso muito bem. O espaço urbano vira palco de tensões. Tensão entre o transporte público e o alternativo. Entre o povo e a prefeitura.

terça-feira, 18 de outubro de 2011

Eterno presente

Ontem conversava na faculdade com minha amiga Maria Lucirlei Barbosa sobre a consciência histórica, entendendo com isso aquele senso de que tudo ao nosso redor tem uma história.
Cirlei dizia que cresceu numa cidade relativamente recente, Vilhena, de um estado também recente, Rondônia, e por isso nunca pensou como essa cidade foi construída, pois presenciou a maior parte desse processo. Como tudo era recente, não havia o que falar sobre o passado. Por isso quando veio para Manaus ficou um pouco chocada com tantos monumentos antigos convivendo com a modernidade. A faculdade ajudou a entender isso e do estranhamento inicial veio a compreensão.

Vilhena hoje.
Eu partilho uma experiência semelhante: cresci em um bairro do Rio de Janeiro chamado Sepetiba que não é tão recente assim (já existia desde os tempos do Império), mas que só sofreu grandes transformações a partir das últimas décadas do século passado. Para mim, Sepetiba sempre existiu e não pensava que ela poderia ter uma história. Não havia muitas referências ao passado da cidade, a não ser nos nomes das ruas, por isso nunca me perguntei o que tinha vindo antes do momento em que vivi ali. Sabia que no Rio de Janeiro tinha acontecido mil e um fatos, mas não pensei que Sepetiba estava envolvida neles. O que me despertou esse senso de que o bairro podia ter uma história foi minha passagem por Taubaté, onde a história se faz muito presente nos casarões dos barões do café que ainda estão de pé e até nos armazéns da antiga indústria têxtil local.

Sepetiba hoje.
Engraçado essa nossa visão de que as coisas parecem terem sempre existido, que nosso bairro e nossos familiares são tão naturais como o vento ou a água que não paramos para nos perguntar como eles se formaram, como chegaram até aqui, o presente. O historiador José Honório Rodrigues chamava essa visão de "eterno presente" e dizia que ela era uma das formas de alienação do homem comum mais poderosas, porque quase não se percebe quando ela começa. A História tem como função justamente acabar com essa alienação, fazer enxergar para além do imediato para compreender o mundo ao redor e saber o que fazer para melhorá-lo.

sexta-feira, 14 de outubro de 2011

Pensando e repensando Javé II

Por abordar a questão da narrativa, como vimos no post anterior, Narradores de Javé pode levantar discussões interessantes á todo tipo de gênero que utilize esse recurso. Desde o conto popular até o cinema, da memória á história.
Todo causo tem um início, um meio e um fim, mas a forma como ele é contado nunca é mesma, pois o narrador nunca é o mesmo. No filme, vemos o caso da história da fundação de Javé. Toda narrativa sobre a fundação começa do mesmo ponto: uma pequena expedição parte em busca de uma terra para viver e acaba encontrando o vale do Javé. O que muda é quem chefiou essa expedição (se Indalécio, Indaléo ou Maria Dina), como ele achou essa terra (se numa batalha, se numa profecia, etc.) e por aí vai.
O estilo de contar uma história ajuda a transformar as narrativas em algo muito plural, mas a origem da história também. Pode ser que Vicentino, por exemplo, conte a história da fundação de Javé a partir do que lhe foi contado por seus pais, sempre reiterando o seu vínculo familiar com o nobre e valente fundador da cidade, e este acrescente alguns detalhes a mais.

Vou dar aqui outro exemplo: meu avô gostava de contar uma das tantas histórias que tinha ouvido sobre Lampião na qual o cangaceiro teria chegado numa cidade do interior do nordeste á procura de um lugar para comer e encontrou a pensão de uma senhora que, ávida para receber a recompensa pela sua cabeça, decidiu envenenar a sopa do rei do cangaço. Lampião, sagaz, sempre comia com uma colher de prata. Assim que colocou a colher na sopa, ela mudou de cor. O cangaceiro sabendo que a sopa estava envenenada teria pedido para a velha tomar um gole, por parecer muita cansada. A senhora teria tomado, literalmente, do próprio veneno e morreu ali mesmo. Fiquei sabendo de outra versão onde o cangaceiro, pintado como homem esperto, mas cruel e desumano, teria fuzilado a senhora assim que viu a cor da colher, que teria tentando matá-lo porque este teria matado seu filho quando entrou na cidade atirando para todos os lados.
É uma narrativa: o causo tem o começo, meio e fim. Em todos alguém tenta envenenar Lampião e acaba morto, só que em um o caráter do cangaceiro é mais nobre e noutro mais desumano. Isso reflete a própria ambiguidade de como Lampião é visto pela história e pela opinião pública: ora herói, ora vilão.
Resumindo, a narrativa popular é tão diversa porque está condicionada pela sua origem social e pela subjetividade do seu narrador. A mesma coisa vale para o historiador ou para o cineasta. A personalidade influi na narrativa cinematográfica, isso todos sabemos - tanto que sobre esse respeito existe até uma certa teoria dos autores.

Essa teoria, criada por críticos franceses, alega que mesmo o cineasta sendo limitado pelos poucos recurso e pelas restrições dos estúdios e produtores, em tudo que faz deixa uma marca da sua personalidade. Mesmo fazendo um filme comercial, o cineasta deixa escapar ali e acolá sua originalidade. Sabemos pelos ângulos da câmara, o foco em determinados personagens e a trilha sonora, por exemplo, quando vemos um filme de Sérgio Leone, o reinventor do faroeste. As imagens panorâmicas, os closes sobre os rostos e olhos sujos dos caubóis e a música grandiosa do maestro Ennio Morricone denunciaria fácil o autor do filme. Leone era um grande apreciador de ópera e muitos dizem que ele levou esse estilo para os faroestes. Seus filmes iniciam de forma minimalista para se tornarem, ao longo do enredo, algo épico. Ora, é um estilo de narrativa.
E na história? A escolha do tema que o historiador se propôe investigar é algo íntimo: ele procura respostas para perguntas, no presente, que lhe angustiem. É preciso afinidade com um tema para se debruçar sobre ele. As inquietações são pessoais, portanto, e a forma como elas são tratadas na hora de expor os resultados da pesquisa também o são.

O historiador suíço Jacob Buckhardt, por exemplo, elegeu como seu tema o Renascimento italiano e apresenta sua pesquisa como se fosse um mestre de cerimônias, abordando a partir de suas obras de arte preferidas determinados períodos e personagens do período. Segundo o historiador alemão Peter Gay que analisou o estilo de Buckhardt, isso demonstra muito da sua personalidade: Buckhardt era um homem conservador que se incomodava com os avanços do mundo moderno (viveu no século XIX) e que teria escolhido o Renascimento como tema, pois este período lhe parecia muito exótico e talvez pudesse explicar como a Humanidade teria chegado á esses novos e caóticos tempos.Buckhardt enxergava o Renascimento como uma época de excessos, algo do qual não gostava tanto. Ainda assim escolheu esse período para investigar por causa do exotismo e da excentricidade que parecia exalar. O modo como aborda o período, como um mestre-de-cerimônias, demonstra a sua austeridade, sua formalidade.
Temos a narrativa mutante do causo, a narrativa épica de Leone e a narrativa formal de Buckhardt nesse texto. Todas demonstram a diversidade desses recursos, diversidade essa que depende dos meios de se contar uma história e da personalidade de quem conta.

quarta-feira, 12 de outubro de 2011

Chumbo grosso

Em dezembro de 1968 é outorgado o Ato Institucional N. 5, conhecido como o começo dos anos de chumbo, o período em que a ditadura militar se tornou mais rígida. Muitos acreditam que o motivo para o famigerado AI-5 tenha sido o discurso do deputado Márcio Moreira Alves em setembro. Nesse discurso o deputado criticava os militares no poder pela conivência com as torturas executadas nas prisões e pedia que as mulheres dos soldados fizessem uma "greve" contra seus maridos e que todos boicotassem o Sete de Setembro. Altamente indignado com as afirmações do deputado, o presidente pedira a cassação de Márcio, porém ela fora negada pela Câmara dos Deputados.

Marechal Arthur da Costa e Silva imita Poncios Pilatos: lava as mãos diante do AI-5. Charge de Baptistão.
O historiador Carlos Fico critica esta visão e propôe uma nova forma de encarar o AI-5. Sim, o AI-5 aumenta o aparato repressivo, aprofunda a ditadura militar, mas sua origem não pode ser encontrada no discurso de Márcio, mas em pontos anteriores á esse. É consenso que o golpe de 1964 não foi feito por todos os militares e eles não tinham uma ideologia única e coerente os guiando. Era o anticomunismo e a insatisfação com o governo Goulart que os movia. Tanto que após concretizado o golpe, o governo levou muito tempo para se organizar, se consolidar. Muitos grupos disputavam a direção de regime, dentre eles o que ficou conhecido como "linha dura", constituído de militares guiados por uma utopia autoritária. Segundo Carlos Fico, utopia autoritária era a idéia de que o Brasil só se desenvolveria e se protegeria do comunismo se um governo autoritário fosse criado.

A história da ditadura militar pode ser encarada como a ascensão, consolidação e decadência da linha-dura. É apenas uma chave de compreensão, não quer dizer que seja a realidade em si. O fracasso do governo Castelo Branco, que se considera líder de um grupo mais moderado, em deter a ascensão da linha dura vem em 1967 com a indicação de Costa e Silva, um dos porta-vozes do grupo. O AI-5 pode ser visto, segundo essa chave de compreensão, como o cume desse processo da linha dura de tentar efetivar sua utopia autoritária.  Fico diz que a linha dura deixa de ser um simples grupo de pressão para se tornar, a partir do governo Costa e Silva, uma comunidade de informações e de segurança. O que significa isso? O grupo chega ao poder e passa a repousar em certas instituições estratégicas, instituições que investigam, censuram e reprimem. Instituições como o Serviço Nacional de Informações (SNI), a política política (que podia se ramificar no poderoso DOI-CODI ou nos serviços de inteligência das Forças Armadas, como o CIE, do Exército, ou o Cenimar, da Marinha) e os departamentos de censura.

Marechal Costa e Silva, general Médici, general Geisel e marechal Castelo Branco (de terno).
O começo do fim vem com a gradativa perda de apoio que o governo adquire por suas ações repressivas. O apoio de parte do empresariado, da Igreja Católica e do próprio povo vai se perdendo com as ações, com o consentimento ou não do governo, como os atentados do Comando de Caça aos Comunistas (CCC) ou da Operação Bandeirantes (OBAN). Além disso, a imagem do Brasil no exterior não é das melhores, por conta das denúncias de tortura nunca investigadas. As organizações de Direitos Humanos iniciam uma campanha rigorosa contra o Brasil. Não bastasse isso, os primeiros efeitos do "milagre brasileiro" encetado pelo governo Médici começam a ser sentido ainda na década de 1970. Em 1974, para piorar, temos a crise do petróleo. A linha dura estava desmoralizada e "encurralada", para usar a expressão do jornalista Elio Gaspari. Daí Ernesto Geisel decretar  início de uma abertura "lentra e gradual". Uma das séries de medidas do Pacote de Abril é justamente a revogação do AI-5.

Carlos Fico
Ascensão e ocaso da linha dura. É uma hipótese interessante afinal. Traz uma nova luz sobre um momento tão rico de nossa história sobre o qual não é muito refletido do ponto de vista historiográfico. Os historiadores, vejam só, são novatos na discussão sobre a ditadura militar. Grande parte da produção sobre o assunto, nos mostra Carlos Fico, vem de cientistas políticos e de memorialistas. O período fica entre o discurso panfletário da direita ou da esquerda e as análises políticas da academia, a maioria internacional (os chamados brasilianistas). Os historiadores chegaram á pouco tempo na discussão, questionando o caráter estrutural (se o papel maior se deve á economia ou á política) ou não do golpe, as práticas culturais ou não das instituições do regime, dentre outros aspectos. O tema está longe de ser esgotado.

Entender o hoje

Muitos pesquisadores e professores, ao refletir sobre o ensino de História, destacam a função do professor de História em conscientizar seus alunos sobre o conhecimento histórico e o mundo em que vivem.
Num mundo onde somos inundados por informações a todo momento, não há nada que dê sentido á essa avalanche de dados. Hoje sabemos que as ditaduras árabes estão caindo, mas não sabemos o que isso significa. A História conecta estes acontecimentos com processos maiores e mais antigos. A pilha de informações ganha sentido. E passamos a ver que o imperialismo europeu no Oriente Médio, no começo do século XX, tem algo a ver com esse movimento de contestação ás velhas ditaduras criadas na região para impedir o avanço do fundamentalismo ou para assegurar o petróleo ás potências estrangeiras.
Por outro lado, aquilo que o aluno pensa ter sempre existido também é relativizado com a História. Muitos acreditam, por exemplo, que a escola tenha sempre existido. Qual o nosso espanto quando descobrimos que a escola como hoje a conhecemos é uma instituição recente, criada na Idade Moderna no contexto de formação dos Estados nacionais e dos conflitos religiosos entre católicos e protestantes.
Seja como for, o professor de Hístória deve dialogar com o universo do aluno. Deve fazê-lo entender o que significam os processos que ele vê na TV ou na sua própria cidade. Por isso, o professor de História deve se manter atualizado, para captar as carências do presente, como fala Jörn Rusen. Ele tem de construir suas aulas a partir desse interesse em entender o presente, uma interesse que o levará a entender o passado, já que, como sabemos, ambos estão mais do que inter-relacionados.

Pensando e repensando Javé I

O filme Narradores de Javé (2003) de Eliana Caffé é um terreno fértil para discussões, principalmente para o professor de História. Falaremos nesse blog sobre algumas delas, não se preocupem, mas uma por vez. Hoje, por exemplo, falaremos da questão da narrativa.
O filme todo é a narrativa de um dos líderes de uma comunidade no interior da Bahia preocupado em salvar sua cidade das águas que a inundarão caso a represa prometida pelo governo seja construída. Esse homem, Zaqueu (Nelson Xavier), encontra uma solução: tombar a cidade como patrimônio histórico e cultural. Para isso precisa provar á todos que Javé, a tal cidade, é uma cidade com uma história muito importante. A única pessoa capaz de escrever tal história, contudo, é um homem odiado por todos: Antônio Biá (José Dumont).
Biá era um funcionário do Correio que para não perder o emprego passou a escrever uma série de cartas falando sobre todos moradores da cidade, sendo expulso há alguns anos por conta disso.
Desculpado e indicado para o serviço, Biá começa a coletar as histórias dos moradores e percebe que cada um tem sua versão sobre a fundação da cidade. Cada morador o procura querendo contar sua versão e assim ele nunca tem sossego e nunca sabe o que escrever. O que é interessante é que cada morador tem seu estilo de contar a história, cada morador tem sua fórmula narrativa. A história de Firmino é cômica e mística, a história de Vicentino é pomposa e heróica, já a do ancião do quilombo é mais mítica.
A diversidade de narrativas precisa ceder espaço á uma forma narrativa, á do pesquisador. O livro será escrito por Biá, será a sua versão que prevalecerá. E a narrativa de Biá é muito criativa e até anedótica, como percebemos em certa passagem. Biá fala que tem de se mudar a história falada para a história escrita. A história escrita, mesmo sendo História, é uma narrativa. Biá descobriu o que os historiadores levaram décadas para concluir: todo tipo de História é uma narrativa, afinal seu autor está querendo apresentar suas teorias, mas antes tem de contextualizá-las e descrevê-las. Uma narrativa é a tentativa de dar sentido para algum, de ordenar a história que se pretende contar. E não é o que fazemos?
Isso implica que a História tem a sua subjetividade sim. Cada narrador traz a sua personalidade, seu ponto de vista na narração. Podemos até argumentar que a história toda pode não corresponder ao acontecido, uma vez que quem está contando é Zaqueu, que não estava na cidade durante todo o processo. Mais uma versão dos fatos? Será que a história foi realmente assim? No final Zaque diz que foi assim que aconteceu, mas quem quiser dar sua versão que venha contar. É a abertura para o diálogo de narrativas. É uma das propostas de Eliana Caffé.

terça-feira, 11 de outubro de 2011

Ontem e Hoje

José Roberto do Amaral Lapa
José Roberto do Amaral Lapa, na metade dos anos 70, fez um balanço da historiografia brasileira e chegou a conclusão de que os estudos sobre o período republicano estavam crescendo e em pouco tempo superariam os sobre o período colonial. Qual a importância disso? Existia uma tendência na academia, no que tange á História, na década de 40, 50 e 60 de se privilegiar o Brasil Colonial em seus estudos. Os velhos catedráticos acreditavam que o período colonial definiria melhor o Brasil atual e era algo muito mais histórico que o período colonial, considerado muito recente para ser avaliado com frieza e objetividade. Lapa chama essa tendência de conspiração anticontemporânea.
Ela começa a cair por quê? Alguns motivos: a consolidação do marxismo nas faculdades, a profissionalização dos cursos de pós-graduação de História pelo país, a radicalização do regime militar, a influência da História Nova dos Annales, etc.
No entanto, ainda hoje há uma espécie de desconfiança com a História do Tempo Presente em nosso país. Sim, ela se tornou um campo específico com os Annales. Segundo seus pioneiros, não há o que temer se levarmos em conta os métodos e teorias apropriados para encarar o tempo presente. Por falta de tempo e espaço, limito a dizer que são métodos que frisam o caráter provisório de muitas notícias e imagens (por conta do fluxo constante de informações, das medidas tomadas no calor da hora) e das teorias que buscam compreender as mudanças não a partir do acontecimento, mas de algo além, de uma visão estrutural.

domingo, 9 de outubro de 2011

A Operação Historiográfica IV

Continuamos a acompanhar as reflexões de Michel de Certeau sobre a historiografia, dessa vez sobre um fator um pouco traiçoeiro: a escrita. Traiçoeiro por quê? Porque transformar uma pesquisa em texto acarreta algumas mudanças.
O que temos que ter em vista é que o mundo do texto é diferente do mundo da pesquisa: a pesquisa nunca tem fim, ela se movimenta por conta das lacunas (das perguntas sem respostas), enquanto o texto tem um começo e um fim e não deixa espaços vazios. Os espaços vazios (as perguntas que movimentaram a pesquisa) são preenchidos (pelas respostas que foram encontradas durante a pesquisa).
O texto histórico em especial tem mais uma série de pequenas contradições: a cronologia, os conceitos, as citações. Falemos da cronologia: ela é mais do que necessária. Em História devemos sempre contextualizar o recorte temporal que nos propomos a pesquisar. Acontece que na pesquisa começamos pelo presente. Fazemos o movimento contrário, saímos do presente para ir ao passado.

Há ainda o problema dos dados. Certeau diz que devemos entender nossos dados a partir de duas categorias: acontecimento e fatos históricos. Acontecimento seria todo aquele dado êfemero, elementar, enquanto fato histórico seria todo dado com um sentido por trás de si, uma espécie de processo. Os dois são precisos no texto histórico. Por quê? O acontecimento é usado primeiramente como apoio didático (sabemos os limites de tempo e de espaço quando se trata de escrever um artigo, não há como falar tudo o que queremos falar) enquanto o fato histórico carrega em si todo um sentido essencial para o estudo.
Nem só de acontecimentos e fatos vivem os textos históricos. Existem vários outros conceitos que povoam esse mundo: Antiguidade, Cultura, Brasil, Ciências Humanas, etc. Os conceitos servem como códigos. O leitor precisa saber o que eles significam para poder entender aonde o autor está querendo chegar.

O historiador quer expor uma tese, para isso ele se vale de conceitos, eles são como degraus para atingirmos a polpa do texto, a tese do autor. O problema é que nem sempre esses conceitos são homogêneos ou exatos e muitas vezes alguns acabam se auto-excluindo ou gerando associações confusas. Por isso Certeau diz que o discurso histórico é a produção e errosão de unidades de compreensão.
Sim, o historiador francês utiliza muito o conceito "discurso", ao invés de "texto". Isso porque Certeau pertence a uma geração de intelectuais que passaram a contestar a neutralidade da ciência e a detectar subjetividades em todo tipo de produção científica. O texto era entendido como uma estrutura puramente inocente, afinal ela era apenas o meio de um cientista expor seu trabalho. Com esses pensadores, o texto passa a ser visto como um ambiente cheio de pequenos valores e opiniões pessoais camuflados. O texto vira discurso.

O historiador também coloca em seus estudos suas opiniões. O que temos é sua versão dos fatos e ela pode ser limitada pelos valores pessoais desse pesquisador. Afinal, ela já é limitada pelas características próprias da escrita (como mostramos acima). Mas há um espaço no discurso histórico para o Outro. É aí que entram as citações. Citar é mostrar as referências usadas, as fontes com as quais o autor dialogou. Claro que elas não podem se manifestar, elas chegam até nós graças ao pesquisador, ou seja, um pouco da autonomia delas é perdido, mas ainda assim, lá estão elas, dialogando com o autor.
O Outro do historiador pode ser suas fontes, seu leitor ou mesmo a morte. O texto é escrito sempre tentando reiterar a autoridade do historiador. Em outras palavras, ele também é escrito para atender um pouco da vaidade do pesquisador, de provar ao leitor que seu autor é alguém que sabe do assunto diferente de quem está lendo agora.

E a morte, o passado? Como se dá essa relação do historiador com o passado no discurso historiográfico? É uma relação ambígua: por um lado, ele o retira do esquecimento, por outro, o coloca em um lugar útil para o presente. A cronologia ajuda muito nisso: ela usa o passado para explicar o presente. O passado é ressuscitado brevemente apenas para descobrirmos porque estamos aqui. O passado é celebrado ou amaldiçoado, por ter nos legado alguma coisa boa ou algum problema, mas ele também é exorcizado, afinal estamos no presente e "o que passou, passou". As pessoas de que fala o historiador em seu estudo são ressuscitadas para compreender porque elas são importante para o presente.
Enfim, Certeau acredita que essa é uma das características básicas do texto historiográfico. Essa perante todas as outras das quais falamos aqui nas oportunidades anteriores. Só para relembrar: o texto historiográfico está limitado pela subjetividade do seu autor (seu lugar social, sua cultura) e por limitações próprias da ciência histórica (as técnicas para selecionar e interpretar fontes) e da escrita histórica (os meios usados para transformar a pesquisa em texto). Quando estivermos diante de um trabalho de um historiador, portanto, segundo Certeau, devemos levar em conta todos esses fatores.

sábado, 8 de outubro de 2011

Um pistoleiro ás ordens do capitalismo

Smedley Butler (1881-1942)
Quando se fala em imperialismo, o texto do major-general Smedley Butler é um dos documentos mais emblemáticos. As declarações que o militar norte-americano fez em um livro (War is a Racket) que publicou em 1935 se tornaram conhecidas por sua ironia sobre o serviço dos mariners (fuzileiros navais norte-americanos):

Dediquei trinta e três anos e quatro meses ao serviço ativo de nossa força militar mais ágil: a Infantaria de Marinha. Ascendi do posto de segundo-tenente até o posto de major-general. Durante todo este período dediquei a maior parte do meu tempo a servir aos interesses dos Grandes negócios, a Wall Street e aos banqueiros. Em resumo, fui um pistoleiro às ordens do capitalismo...

Contribuí para converter o México e especialmente Tampico em lugar seguro para os interesses petrolíferos dos norte-americanos em 1914. Ajudei o Haiti e Cuba a se tornarem um lugar seguro para os rapazes do National City Bank efetuarem suas cobranças... Ajudei também a Nicarágua a cumprir seus compromissos com a casa bancária internacional de Brown Brothers em 1919-1922. Em 1916, facilitei os interesses açucareiros norte-americanos na República Dominicana. Contribuí para que Honduras seguisse uma política 'apropriada' para as companhias bananeiras norte-americanas em 1903. Em 1927, servi na China para que a Standard Oil seguisse seu caminho sem ser perturbada.

Durante todos esses anos desfrutei, como disseram os 'rapazes' de magníficas prebendas. Fui premiado com honrarias, medalhas e promoções. Olhando para trás, penso que até poderia ter dado alguns conselhos para Al Capone. Ele, no máximo, pôde operar seus negócios sujos em três distritos da cidade de Chicago, nós marines operávamos em três continentes.

quarta-feira, 5 de outubro de 2011

O choro de Raoni

Em 1 de junho desse ano, junto com a mensagem de que o IBAMA tinha concedido a licença ambiental para a construção da Usina de Belo Monte, foi divulgado na mídia uma foto do Cacique Raoni chorando, ao saber da notícia. Raoni teria desmentido tudo no seu site alguns dias depois: "Eu não chorei por causa da autorização de construção e o começo dos trabalhos no canteiro de obras de Belo Monte. O tanto que eu viverei, eu continuarei a me bater contra essa construção (...) será a presidente Dilma Rousseff que chorará, eu não. Eu quero saber quem deu essa foto e propagou essa falsa informação (...) será preciso que a presidente Dilma me mate em frente ao Palácio do Planalto. Lá, somente, vocês poderão construir a Barragem de Belo Monte".
Alguns dizem que a foto foi tirada em 2002 durante o funeral de Orlando Villas-Boas, outros, contudo, alegam que Raoni estava participando de um ritual em homenagem á todos os falecidos da comunidade. Em todo caso, mais uma confusão da internet. Mas, quero aproveitar a oportunidade e discutir a tensão que a construção de uma usina hidrelétrica anda gerando não só na região em que vai ser implantada, mas também na mídia (principalmente internacional).
O projeto da Usina Hidrelétrica de Belo Monte já é antigo, foi criado na ditadura militar, contudo não foi implantado por conta das tensões acirradas que gerou. Raoni, líder da etnia Kaiapó, foi fundamental nesse processo: através de protestos nacionais e internacionais, o velho chefe conseguiu convencer o todo-poderoso Ministro da Viação e Obras Públicas, Mário Andreazza, a engavetar Belo Monte.
Durante o governo Lula o projeto foi ressuscitado. Por quê? Quando o novo presidente do Paraguai, Fernando Lugo, assumiu o poder começou a atacar a quantia injusta de energia que a Usina de Itaipu (construída no Rio Paraguai pelo Brasil em cooperação com o país vizinho na década de 1970) destinava á seu pais - quase que 90% da energia vinha para o Brasil. Com medo de perder uma das fontes de energia mais preciosas, o governo começou a pensar em outras soluções. Energia eólica? A produção de energia não é tão regular e abrangente assim. Energia nuclear? Apesar de Angra III está sendo construída, a tendência é não investir tanto em energia nuclear, por conta dos gastos excessivos e do perigo ao meio-ambiente. A solução, para o governo, deveria ser uma usina hidrelétrica. Belo Monte por Itaipu: elas por elas.
Não que Itaipu passe a ser somente dos paraguaios, mas ter uma outra usina complementando a energia é uma medida de segurança. E agora o projeto ganharia um bom argumento: a busca por energias limpas. No entanto, o impacto ambiental que a construção dessa usina no interior do Pará pode produzir é enorme. Não só o impacto ambiental como também social: comunidades indígenas do Xingu e ribeirinhos teriam de ser transferidos para outras áreas. O Parque do Xingu foi construído na década de 1960 com a ajuda dos irmãos Villas-Boas, reunindo diversas etnias, muitas transferidas de seus locais de origem por conta de conflitos de terra e de construção de rodovias. Os povos que acostumaram a viver ali teriam de ser transferidos para outra localidade, ainda incerta.

O governo diz que a Usina trará empregos para a região, principalmente para a cidade de Altamira, e que as transferências e indenizações serão feitas com cuidado, sem falar que os impactos ambientais não serão tão grandes assim. O problema é que a população pobre local suspeita que as mudanças serão boas para um pequeno círculo de pessoas (alguns empresários locais) e não para toda a comunidade, como sempre vem acontecendo no interior do país. Principalmente quando essa mudança implica em destruir o modo de vida dessa comunidade. Não se sabe ainda para onde serão transferidos e se isso realmente vai ser feito direito, com indenização e tudo mais. Para a comunidade indígena a questão se torna mais problemática ainda, já que a mudança seria muito radical: após décadas vivendo naquelas terras teriam de se mudar mais uma vez, certos de que serão explorados fora das reservas.

Raoni descobriu há muito tempo que a melhor maneira de se ganhar uma batalha hoje é ganhar a opinião pública. Por isso, há mais de 20 anos vem divulgando a causa indígena e os problemas que ela vem encontrando no Brasil principalmente no exterior. Raoni tornou-se conhecido, aliás, por participar de turnês com o cantor Sting, quando este participava de uma campanha dos direitos humanos internacional. O que é bizarro é justamente isso: Raoni é mais famoso lá fora que aqui dentro. Penso que isso demonstra a própria falta de interesse do brasileiro com a questão indígena. Muitos ao assistirem as notícias nos jornais sobre as manifestações contra Belo Monte não entendem o porque disso tudo, afinal é só uma usina.
Por outro lado, a opinião pública internacional se interessa com a questão indígena só até certo ponto. Ainda se enxerga o indígena com aquele exotismo. Convidar Raoni para falar na França sobre a questão indígena, ao meu ver, é uma estratégia do governo francês de propagandear uma imagem de que é multicultural e tolerante, apesar de proibir que as mulheres muçulmanas utilizem véu e que comunidades ciganas sejam restritas á determinados guetos. Na hora de pressionar o governo brasileiro para procurar outra alternativa para Belo Monte, nenhum país "simpático" á causa indígena se manifesta. Vimos á pouco tempo o diretor James Cameron defender o fim de Belo Monte. Uma iniciativa um tanto isolada e suspeita (afinal, ecologia se tornou palavra de ordem, justificando até certos imperialismos).
Reforma agrária, questão indígena, ecologia e crise energética: tudo parece se embolar quando se trata de Belo Monte. Uma solução adequada, contudo, ainda não foi achada para essa série de impasses.