sábado, 6 de outubro de 2012

Quilômetro 36

Bem, gente, aqui vai um pedaço do conto de suspense que ando preparando. Espero que gostem:

QUILOMETRO 36

O ENCONTRO
Sussurros. Não eram nossos. Todos estavam rigorosamente quietos. Até os pássaros. Rezava para que fosse o vento.  Do meio do mato, avisto algo. Era ela. Imponente, erguida como um monumento aos espíritos da selva. A torre vegetal era seca e não tinha uma copa como suas irmãs. No centro uma estranha mancha negra. Meus olhares, contudo, se concentraram nas raízes que abrigavam todo tipo de oferenda: carabinas, enxadas, retratos, bonecos...
Em cada ponto uma vela. Aquelas velhas coloridas tingiam as raízes largas da árvore, como se a planta estivesse sangrando. O cheiro era horrível. Restos de comida com parafina e coisas mofadas. Tudo parecia velho e digno de ser saboreado pelas moscas, mas depois de um dia na mata tudo fica com essa cara.
Circundava lentamente a toca do espírito tão falado. Chico Tapera sempre me acompanhava. Os outros não ousavam entrar na clareira. Cochichavam. Aquela mancha... Não é produto de uma queimada. Parece algo que brotou de dentro da árvore, como um cancro.
“Não toca, senão morre”, adverte Chico. Esclarece: “Se tocar, ele vai te matar”. Agradeci, de forma mecânica, mas hoje sei o quanto devo á esse homem pelo aviso. Admirava a mancha tão profundamente. Nem por um minuto reparei que os sussurros tinham parado. Agora pairava um silêncio de morte.
Tapera revirava a algibeira a procura de algo. “Vamos logo, seu moço”.  Enfim achou o presente: depositou o par de sandálias nos pés da planta sobrenatural, sem olhar pra cima. Perguntei se tinha algum critério para a oferenda. Respondeu-me, apressando o passo: “O que tiver na mão, seu moço...”
Saímos de lá. Ninguém tinha coragem de olhar para trás. Eu não via a hora para desenhar a famosa Árvore do Calundu no meu bloquinho. Há meses que espero por esse momento mágico que no final das contas se revelou sinistro. Que o digam os calafrios que ainda passam pelo meu corpo quando menciono o fato.
Sim, calundu. É como são chamados alguns espíritos nas culturas de raízes africanas. São geralmente muito emotivos, deixando-se levar pelo dengo ou pelo ódio. Depende da situação. Há céticos, assim como eu, que dizem que eles são apenas uma forma encontrada por estes povos para explicar mudanças repentinas de estado de espírito como aquelas enfrentadas pelas pessoas bipolares.
O que vivia naquela árvore, no entanto, não era um calundu, mas na falta de nome melhor ficou conhecido como tal. Calma, explicarei melhor: os terreiros da comunidade de Muquira são visitados por muitas entidades do Tambor de Mina, uma religião de matriz africana predominante aqui no Norte do país, e foi por uma delas (Pomba Gira) que descobriu-se que um espírito vivia naquela árvore solitária.
Entre uma gargalhada e outra, a Pomba Gira respondeu ao Pai Deco:
- Mais cuidado tem que ter com o sinhô que vive lá no meio do mato. Aquele caboco, aquele quimbundo !
Até então todo mundo já estranhava que havia algo de errado com os corpos encontrados na mata. Eram gente experiente em abrir caminho no meio do mato que morriam de fome ou envenenados. Um foi encontrado vivo, mas amalucado. Ouvia todo tipo de sussurro. Diz que o dia se fez noite, a água do cantil sumiu e espinhos surgiram na alpercata. Esse era Timbó, mateiro* e pai de Chico Tapera.
No terreiro de Pai Deco certa noite tiraram a dúvida através da Dama da Noite. Então todo mundo passou a reparar naquele jatobá seco.  A mancha que trazia em seu tronco não existia antes, todos tinham certeza. Para evitar mais mortes, só agradando o caboco**. Qualquer um que passe tem de depositar ali uma pequena oferenda ao espírito zombeteiro. Senão, capaz de se perder nessas bandas. E em caso de mexer com o lar da criatura, a pena vem na forma da morte mais horrenda que puder imaginar.
Claro, sabe-se disso há uns 40 anos atrás. Tempo suficiente para todo mundo conhecer o caboco. E quem conhece, teme. Não tem nome, não aparece no terreiro, mas é presença confirmada na prosa dos velhos no boteco ao fim do dia. Sempre alguém retira um causo do calundu do jatobá lá do fundo da memória.

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Em todos os meses em que morei em Jacamirim só conversei com o prefeito duas vezes. “Conversa” na realidade é eufemismo: “interrogatório” é mais adequado. A primeira foi assim que cheguei aqui. Um dos seus assessores foi me receber no Porto das Catraias e revelou que o Major Rubens Leão queria falar comigo. Esperei por uns 30 minutos em uma antessala da câmara, contando quantos azulejos estavam encardidos e quantos estavam limpos ali. Enfim, fomos apresentados. Major Leão era um homenzinho a caminho da calvície, digno de ser esquecido não fosse seu marcante bigode, geometricamente aparado.
-Fez boa viagem?
-Sim. Só quando estávamos aqui perto que houve um rebuliço. Parecia que haviam muitos bancos de areia...
-É típico. Época de seca, os bancos de areia surgem no rio. É típico... Professor, que mal lhe pergunte, mas qual a sua opinião sobre o Brasil?
-Como assim?
-Sua opinião política sobre o Brasil? Você acha que as coisas vão bem ou...?
Em outras palavras, ele queria saber se eu era comunista. Hoje uma pergunta direta não intimida ninguém, na verdade, até constrange alguns, mas intimidar, não mais. Mas, entendam, eram os anos 70. Tempos de Milagre Brasileiro, Tempos de Araguaia. Você é um prefeito e de repente chega na sua cidade um rapaz paulistano com cara de alemão que diz que vai se embrenhar na mata para fazer uma “pesquisa de campo”. O que pensaria?
Fiquei desconcertado, mas fui bem retórico na minha resposta. Na realidade, tinha rompido com o pessoal do Partidão e no momento nenhum daqueles grupos radicais me agradavam. Guerrilha era algo que não me convencia. Eu também já estava meio pessimista em relação á revolução, mas de alguma forma ainda me considerava de esquerda.
Passaram-se sete meses, nunca mais fui chamado para “dar pingos aos is”, mas me sentia vigiado. Pode ser paranoia minha, mas em todo canto achava alguém que desviava o olhar quando reparava que eu tinha olhado para ele.  Então, o secretário de educação, Dr. Alexandre Patarra, o nosso pedante municipal, me disse que o prefeito desejava me ver novamente.
Lá fui eu para aquela repartição pública triste e quente. A cor do chão e dos batentes era um verde amarronzado, lembrando vômito. A decoração sempre diz tudo... Encontro um Major Leão de sorriso fácil e careca lisa. O bigode continuava o mesmo, majestoso. Depois dos habituais salamaleques entramos de cabeça no assunto em questão:
-O senhor sabe da estrada, não?
Como não saber, é só no que se fala aqui. Em estrada e hidrelétrica. E pra variar, em hidrelétrica e estrada.  O governo prometeu fazer uma rodovia que vai ligar o interior do Pará com Manaus. As construções já começaram a seguir o Tapajós e encontraram a pacata Jacamirim.
-O senhor que vive em Muquira há um certo tempo... pode me ajudar a responder uma coisa: o povo de lá anda revoltado com a estrada?
-Bem, revoltado não. Estão mais para preocupados, afinal ela vai passar muito perto da comunidade deles e tem alguns recantos que eles não podem perder como as cacimbas, a árvore...
-É típico. Até entendo a preocupação com as cacimbas, mas aquela árvore morta? O meu maior medo, professor, é que justamente por se tratarem de pessoas que não tem o estudo que eu e o senhor tivemos eles possam arrumar confusões por coisas sem sentido como essa árvore, me entende?
Para bom entendedor meia palavra basta: a rodovia derrubaria a Árvore do Calundu. Como essa conversa se deu antes de todo o acontecido, preocupei-me mais com os quilombolas que com os infelizes que mexeriam com o caboco.
-Professor, tudo o que lhe peço é que apazigue os ânimos daquele pessoal. Essa rodovia é ordem de cima e irá ajudar a desenvolver a nossa cidade. É justo sacrificar o destino inteiro de uma cidade por causa de uma miserável planta?
Deixei nosso Napoleão ribeirinho contemplando seus memorandos. Estava puto da vida. Já vi que seria eu o primeiro a dar aquela notícia á meus amigos.

DE COMO CHEGUEI AQUI
Tudo é caos, tudo. Mas a maior das anarquias sempre é despertada pelo menor dos detalhes. É o que diz a Teoria do Caos. Uma borboleta provocando furacões é difícil de acreditar, principalmente quando você acha que é dono do seu próprio destino. Difícil de admitir que o seu futuro esteja nas mãos, digo asas, de um pequeno e singelo inseto.
O responsável por minha estadia aqui nessa cidadezinha não foi uma borboleta, mas uma traça. Lá pelos meus vistosos anos de graduação em Antropologia, decidi consultar a biblioteca de meu falecido pai. Procurava livros que pudesse trocar nos sebos. Naquelas estantes abarrotadas encontro um exemplar atacado por uma traça impiedosa. Passaria totalmente desapercebido como os outros, não fosse aquele buraco imenso. Folheando, tentando ter uma dimensão do estrago, me deparo com uma foto.
Um totem esculpido em uma pedra. Olhos imensos, cortados por ao que parecia uma sobrancelha maligna. Para completar, uma boca monstruosa com dentes afiados. Uma pequena planta tinha nascido ao lado da rocha, dando a impressão de ali se encontrar a pata da criatura. Adivinhe com que sonhei naquela noite.
Fiquei de tal forma maravilhado que decidi me enveredar pelo campo de estudo das práticas mágico-religiosas. Não desejava falar de pequenas capelas de beira de estrada, mas de coisas com maior impacto em suas comunidades. De cara, mirei minha bússola para o Norte-Nordeste. Era onde todo mundo na época dizia que ainda sobrevivia “formas arcaicas” de cultura. Fui na onda desse pessoal.
Em um simpósio um pesquisador de Tambor de Mina me diz que lá no interior do Pará existe uma comunidade quilombola que cultua uma árvore onde dizem morar um espírito. “Alguém já falou sobre isso, Sérgio?” Diante da negativa, meus olhos brilharam.
Seria o trabalho da minha vida. A obra prima acadêmica de Reinaldo Denker, herdeiro irresponsável e antropólogo de quinta. Despedi-me de minha irmã e meti o pé na estrada. Melhor, no avião. Minha mana tento me convencer a desistir dessa loucura. Primeiro, por causa dos militares, depois por causa dos pistoleiros, índios, enfim, da gente do sertão. Foi em vão. Sou teimoso.
E aqui estou desde então, graças àquela maldita traça.
Foi difícil no começo. Tive que mudar radicalmente de vida. Não podia ser um bon vivant em plena selva amazônica. Estranhamente todos na cidade se demonstraram simpáticos com o “gringo”, tirando, claro, os homens do Major Leão e o mocambo de Muquira.
Os moradores do mocambo são pessoas desconfiadas de tudo. Não lhes tiro a razão. Quando me dirigi ao líder da comunidade, Mestre Quinho, este me fez uma série de condições tal qual um negociador puro sangue de Wall Street. Eu, impactado, aceitei. Uma delas era explicar tintim por tintim a minha pesquisa.  A outra era não publicar nada que não passe pelo crivo de Quinho ou de seus afilhados.
A árvore só seria apresentada depois que tivessem certeza de minha índole. No começo me conformei com isso, afinal, era bom que assim captava um pouco do cotidiano da vila e de alguns de seus personagens. Depois, me desesperei: o prazo do mestrado não era tão curto e a tal árvore a cada dia parecia mais longe.
Á essa altura já era conhecido como Tio Branco pelas crianças. Todo mundo me chamava de “Professor” ou de “Alemão”, pelas costas. Chico era o único que ainda me tratava como “seu moço”. Respeitava-me muito, e a recíproca era verdadeira. Tinha cara de poucos amigos, um olhar de congelar a alma e um silêncio por si só expressivo. Mestre Quinho sempre o consultava, para inveja do sucessor do Pai Deco, Andirá. Sobre seu passado não tenho muito conhecimento.  Juninho Sabiá disse que ele já foi garimpeiro e jagunço. Não duvido.
Em Jacamirim era conhecido como o homem que matou uma onça com as mãos.  O sábio Alexandre Patarra cansou de desmitificar o “causo do preto mentiroso” no jornal Diário do Tapajós. Uma vez, para minha sorte, ouvi o próprio Chico contar a história: sabia que ela estava o seguindo, então subiu no alto de uma árvore, quando ela passou por debaixo, se atirou. Apertou a sua garganta até matá-la. Levou algumas mordidas, mas o importante é que saiu vivo e com um couro de onça impecável.
O couro? Vendeu para um regatão. “Mas, seu Chico, não seria melhor guardar ele como recordação?” “Seu moço, de recordação já conta o cotoco que ganhei”, dizia alisando o que um dia foi seu polegar.

(CONTINUA...)

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*Mateiro: sujeito responsável por abrir picadas e caminhos no meio do mato.
**"Caboco": forma como referem-se ás entidades menores no culto de Umbanda e Tambor de Mina na região Norte.

3 comentários:

  1. Caralho... termina essa merda...termina isso pelo amor de tudo que é mais sagrado... vou agonizar de curiosidade até vc fazer isso! Me coloco a disposição para a edição desse texto =)

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    1. Eu to tentando terminar há duas semanas. Mas já estou na metade do caminho, em breve coloco o resto aqui.

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  2. Francisco Ricardo4 de março de 2014 23:51

    gostei do estilo, sem muitos rodeios, por mais que as vezes eu ache que precisaria trabalhar mais os modos como voce pretende criar tensao em cada capitulo, nao se afobar em apresentar as informacoes de uma vez, deixar o leitor ter a duvida em relacao a algumas, mas a descriçao da arvore de arepiar, gostei bastante.

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