quarta-feira, 12 de outubro de 2011

Chumbo grosso

Em dezembro de 1968 é outorgado o Ato Institucional N. 5, conhecido como o começo dos anos de chumbo, o período em que a ditadura militar se tornou mais rígida. Muitos acreditam que o motivo para o famigerado AI-5 tenha sido o discurso do deputado Márcio Moreira Alves em setembro. Nesse discurso o deputado criticava os militares no poder pela conivência com as torturas executadas nas prisões e pedia que as mulheres dos soldados fizessem uma "greve" contra seus maridos e que todos boicotassem o Sete de Setembro. Altamente indignado com as afirmações do deputado, o presidente pedira a cassação de Márcio, porém ela fora negada pela Câmara dos Deputados.

Marechal Arthur da Costa e Silva imita Poncios Pilatos: lava as mãos diante do AI-5. Charge de Baptistão.
O historiador Carlos Fico critica esta visão e propôe uma nova forma de encarar o AI-5. Sim, o AI-5 aumenta o aparato repressivo, aprofunda a ditadura militar, mas sua origem não pode ser encontrada no discurso de Márcio, mas em pontos anteriores á esse. É consenso que o golpe de 1964 não foi feito por todos os militares e eles não tinham uma ideologia única e coerente os guiando. Era o anticomunismo e a insatisfação com o governo Goulart que os movia. Tanto que após concretizado o golpe, o governo levou muito tempo para se organizar, se consolidar. Muitos grupos disputavam a direção de regime, dentre eles o que ficou conhecido como "linha dura", constituído de militares guiados por uma utopia autoritária. Segundo Carlos Fico, utopia autoritária era a idéia de que o Brasil só se desenvolveria e se protegeria do comunismo se um governo autoritário fosse criado.

A história da ditadura militar pode ser encarada como a ascensão, consolidação e decadência da linha-dura. É apenas uma chave de compreensão, não quer dizer que seja a realidade em si. O fracasso do governo Castelo Branco, que se considera líder de um grupo mais moderado, em deter a ascensão da linha dura vem em 1967 com a indicação de Costa e Silva, um dos porta-vozes do grupo. O AI-5 pode ser visto, segundo essa chave de compreensão, como o cume desse processo da linha dura de tentar efetivar sua utopia autoritária.  Fico diz que a linha dura deixa de ser um simples grupo de pressão para se tornar, a partir do governo Costa e Silva, uma comunidade de informações e de segurança. O que significa isso? O grupo chega ao poder e passa a repousar em certas instituições estratégicas, instituições que investigam, censuram e reprimem. Instituições como o Serviço Nacional de Informações (SNI), a política política (que podia se ramificar no poderoso DOI-CODI ou nos serviços de inteligência das Forças Armadas, como o CIE, do Exército, ou o Cenimar, da Marinha) e os departamentos de censura.

Marechal Costa e Silva, general Médici, general Geisel e marechal Castelo Branco (de terno).
O começo do fim vem com a gradativa perda de apoio que o governo adquire por suas ações repressivas. O apoio de parte do empresariado, da Igreja Católica e do próprio povo vai se perdendo com as ações, com o consentimento ou não do governo, como os atentados do Comando de Caça aos Comunistas (CCC) ou da Operação Bandeirantes (OBAN). Além disso, a imagem do Brasil no exterior não é das melhores, por conta das denúncias de tortura nunca investigadas. As organizações de Direitos Humanos iniciam uma campanha rigorosa contra o Brasil. Não bastasse isso, os primeiros efeitos do "milagre brasileiro" encetado pelo governo Médici começam a ser sentido ainda na década de 1970. Em 1974, para piorar, temos a crise do petróleo. A linha dura estava desmoralizada e "encurralada", para usar a expressão do jornalista Elio Gaspari. Daí Ernesto Geisel decretar  início de uma abertura "lentra e gradual". Uma das séries de medidas do Pacote de Abril é justamente a revogação do AI-5.

Carlos Fico
Ascensão e ocaso da linha dura. É uma hipótese interessante afinal. Traz uma nova luz sobre um momento tão rico de nossa história sobre o qual não é muito refletido do ponto de vista historiográfico. Os historiadores, vejam só, são novatos na discussão sobre a ditadura militar. Grande parte da produção sobre o assunto, nos mostra Carlos Fico, vem de cientistas políticos e de memorialistas. O período fica entre o discurso panfletário da direita ou da esquerda e as análises políticas da academia, a maioria internacional (os chamados brasilianistas). Os historiadores chegaram á pouco tempo na discussão, questionando o caráter estrutural (se o papel maior se deve á economia ou á política) ou não do golpe, as práticas culturais ou não das instituições do regime, dentre outros aspectos. O tema está longe de ser esgotado.

Entender o hoje

Muitos pesquisadores e professores, ao refletir sobre o ensino de História, destacam a função do professor de História em conscientizar seus alunos sobre o conhecimento histórico e o mundo em que vivem.
Num mundo onde somos inundados por informações a todo momento, não há nada que dê sentido á essa avalanche de dados. Hoje sabemos que as ditaduras árabes estão caindo, mas não sabemos o que isso significa. A História conecta estes acontecimentos com processos maiores e mais antigos. A pilha de informações ganha sentido. E passamos a ver que o imperialismo europeu no Oriente Médio, no começo do século XX, tem algo a ver com esse movimento de contestação ás velhas ditaduras criadas na região para impedir o avanço do fundamentalismo ou para assegurar o petróleo ás potências estrangeiras.
Por outro lado, aquilo que o aluno pensa ter sempre existido também é relativizado com a História. Muitos acreditam, por exemplo, que a escola tenha sempre existido. Qual o nosso espanto quando descobrimos que a escola como hoje a conhecemos é uma instituição recente, criada na Idade Moderna no contexto de formação dos Estados nacionais e dos conflitos religiosos entre católicos e protestantes.
Seja como for, o professor de Hístória deve dialogar com o universo do aluno. Deve fazê-lo entender o que significam os processos que ele vê na TV ou na sua própria cidade. Por isso, o professor de História deve se manter atualizado, para captar as carências do presente, como fala Jörn Rusen. Ele tem de construir suas aulas a partir desse interesse em entender o presente, uma interesse que o levará a entender o passado, já que, como sabemos, ambos estão mais do que inter-relacionados.

Pensando e repensando Javé I

O filme Narradores de Javé (2003) de Eliana Caffé é um terreno fértil para discussões, principalmente para o professor de História. Falaremos nesse blog sobre algumas delas, não se preocupem, mas uma por vez. Hoje, por exemplo, falaremos da questão da narrativa.
O filme todo é a narrativa de um dos líderes de uma comunidade no interior da Bahia preocupado em salvar sua cidade das águas que a inundarão caso a represa prometida pelo governo seja construída. Esse homem, Zaqueu (Nelson Xavier), encontra uma solução: tombar a cidade como patrimônio histórico e cultural. Para isso precisa provar á todos que Javé, a tal cidade, é uma cidade com uma história muito importante. A única pessoa capaz de escrever tal história, contudo, é um homem odiado por todos: Antônio Biá (José Dumont).
Biá era um funcionário do Correio que para não perder o emprego passou a escrever uma série de cartas falando sobre todos moradores da cidade, sendo expulso há alguns anos por conta disso.
Desculpado e indicado para o serviço, Biá começa a coletar as histórias dos moradores e percebe que cada um tem sua versão sobre a fundação da cidade. Cada morador o procura querendo contar sua versão e assim ele nunca tem sossego e nunca sabe o que escrever. O que é interessante é que cada morador tem seu estilo de contar a história, cada morador tem sua fórmula narrativa. A história de Firmino é cômica e mística, a história de Vicentino é pomposa e heróica, já a do ancião do quilombo é mais mítica.
A diversidade de narrativas precisa ceder espaço á uma forma narrativa, á do pesquisador. O livro será escrito por Biá, será a sua versão que prevalecerá. E a narrativa de Biá é muito criativa e até anedótica, como percebemos em certa passagem. Biá fala que tem de se mudar a história falada para a história escrita. A história escrita, mesmo sendo História, é uma narrativa. Biá descobriu o que os historiadores levaram décadas para concluir: todo tipo de História é uma narrativa, afinal seu autor está querendo apresentar suas teorias, mas antes tem de contextualizá-las e descrevê-las. Uma narrativa é a tentativa de dar sentido para algum, de ordenar a história que se pretende contar. E não é o que fazemos?
Isso implica que a História tem a sua subjetividade sim. Cada narrador traz a sua personalidade, seu ponto de vista na narração. Podemos até argumentar que a história toda pode não corresponder ao acontecido, uma vez que quem está contando é Zaqueu, que não estava na cidade durante todo o processo. Mais uma versão dos fatos? Será que a história foi realmente assim? No final Zaque diz que foi assim que aconteceu, mas quem quiser dar sua versão que venha contar. É a abertura para o diálogo de narrativas. É uma das propostas de Eliana Caffé.

terça-feira, 11 de outubro de 2011

Ontem e Hoje

José Roberto do Amaral Lapa
José Roberto do Amaral Lapa, na metade dos anos 70, fez um balanço da historiografia brasileira e chegou a conclusão de que os estudos sobre o período republicano estavam crescendo e em pouco tempo superariam os sobre o período colonial. Qual a importância disso? Existia uma tendência na academia, no que tange á História, na década de 40, 50 e 60 de se privilegiar o Brasil Colonial em seus estudos. Os velhos catedráticos acreditavam que o período colonial definiria melhor o Brasil atual e era algo muito mais histórico que o período colonial, considerado muito recente para ser avaliado com frieza e objetividade. Lapa chama essa tendência de conspiração anticontemporânea.
Ela começa a cair por quê? Alguns motivos: a consolidação do marxismo nas faculdades, a profissionalização dos cursos de pós-graduação de História pelo país, a radicalização do regime militar, a influência da História Nova dos Annales, etc.
No entanto, ainda hoje há uma espécie de desconfiança com a História do Tempo Presente em nosso país. Sim, ela se tornou um campo específico com os Annales. Segundo seus pioneiros, não há o que temer se levarmos em conta os métodos e teorias apropriados para encarar o tempo presente. Por falta de tempo e espaço, limito a dizer que são métodos que frisam o caráter provisório de muitas notícias e imagens (por conta do fluxo constante de informações, das medidas tomadas no calor da hora) e das teorias que buscam compreender as mudanças não a partir do acontecimento, mas de algo além, de uma visão estrutural.

domingo, 9 de outubro de 2011

A Operação Historiográfica IV

Continuamos a acompanhar as reflexões de Michel de Certeau sobre a historiografia, dessa vez sobre um fator um pouco traiçoeiro: a escrita. Traiçoeiro por quê? Porque transformar uma pesquisa em texto acarreta algumas mudanças.
O que temos que ter em vista é que o mundo do texto é diferente do mundo da pesquisa: a pesquisa nunca tem fim, ela se movimenta por conta das lacunas (das perguntas sem respostas), enquanto o texto tem um começo e um fim e não deixa espaços vazios. Os espaços vazios (as perguntas que movimentaram a pesquisa) são preenchidos (pelas respostas que foram encontradas durante a pesquisa).
O texto histórico em especial tem mais uma série de pequenas contradições: a cronologia, os conceitos, as citações. Falemos da cronologia: ela é mais do que necessária. Em História devemos sempre contextualizar o recorte temporal que nos propomos a pesquisar. Acontece que na pesquisa começamos pelo presente. Fazemos o movimento contrário, saímos do presente para ir ao passado.

Há ainda o problema dos dados. Certeau diz que devemos entender nossos dados a partir de duas categorias: acontecimento e fatos históricos. Acontecimento seria todo aquele dado êfemero, elementar, enquanto fato histórico seria todo dado com um sentido por trás de si, uma espécie de processo. Os dois são precisos no texto histórico. Por quê? O acontecimento é usado primeiramente como apoio didático (sabemos os limites de tempo e de espaço quando se trata de escrever um artigo, não há como falar tudo o que queremos falar) enquanto o fato histórico carrega em si todo um sentido essencial para o estudo.
Nem só de acontecimentos e fatos vivem os textos históricos. Existem vários outros conceitos que povoam esse mundo: Antiguidade, Cultura, Brasil, Ciências Humanas, etc. Os conceitos servem como códigos. O leitor precisa saber o que eles significam para poder entender aonde o autor está querendo chegar.

O historiador quer expor uma tese, para isso ele se vale de conceitos, eles são como degraus para atingirmos a polpa do texto, a tese do autor. O problema é que nem sempre esses conceitos são homogêneos ou exatos e muitas vezes alguns acabam se auto-excluindo ou gerando associações confusas. Por isso Certeau diz que o discurso histórico é a produção e errosão de unidades de compreensão.
Sim, o historiador francês utiliza muito o conceito "discurso", ao invés de "texto". Isso porque Certeau pertence a uma geração de intelectuais que passaram a contestar a neutralidade da ciência e a detectar subjetividades em todo tipo de produção científica. O texto era entendido como uma estrutura puramente inocente, afinal ela era apenas o meio de um cientista expor seu trabalho. Com esses pensadores, o texto passa a ser visto como um ambiente cheio de pequenos valores e opiniões pessoais camuflados. O texto vira discurso.

O historiador também coloca em seus estudos suas opiniões. O que temos é sua versão dos fatos e ela pode ser limitada pelos valores pessoais desse pesquisador. Afinal, ela já é limitada pelas características próprias da escrita (como mostramos acima). Mas há um espaço no discurso histórico para o Outro. É aí que entram as citações. Citar é mostrar as referências usadas, as fontes com as quais o autor dialogou. Claro que elas não podem se manifestar, elas chegam até nós graças ao pesquisador, ou seja, um pouco da autonomia delas é perdido, mas ainda assim, lá estão elas, dialogando com o autor.
O Outro do historiador pode ser suas fontes, seu leitor ou mesmo a morte. O texto é escrito sempre tentando reiterar a autoridade do historiador. Em outras palavras, ele também é escrito para atender um pouco da vaidade do pesquisador, de provar ao leitor que seu autor é alguém que sabe do assunto diferente de quem está lendo agora.

E a morte, o passado? Como se dá essa relação do historiador com o passado no discurso historiográfico? É uma relação ambígua: por um lado, ele o retira do esquecimento, por outro, o coloca em um lugar útil para o presente. A cronologia ajuda muito nisso: ela usa o passado para explicar o presente. O passado é ressuscitado brevemente apenas para descobrirmos porque estamos aqui. O passado é celebrado ou amaldiçoado, por ter nos legado alguma coisa boa ou algum problema, mas ele também é exorcizado, afinal estamos no presente e "o que passou, passou". As pessoas de que fala o historiador em seu estudo são ressuscitadas para compreender porque elas são importante para o presente.
Enfim, Certeau acredita que essa é uma das características básicas do texto historiográfico. Essa perante todas as outras das quais falamos aqui nas oportunidades anteriores. Só para relembrar: o texto historiográfico está limitado pela subjetividade do seu autor (seu lugar social, sua cultura) e por limitações próprias da ciência histórica (as técnicas para selecionar e interpretar fontes) e da escrita histórica (os meios usados para transformar a pesquisa em texto). Quando estivermos diante de um trabalho de um historiador, portanto, segundo Certeau, devemos levar em conta todos esses fatores.

sábado, 8 de outubro de 2011

Um pistoleiro ás ordens do capitalismo

Smedley Butler (1881-1942)
Quando se fala em imperialismo, o texto do major-general Smedley Butler é um dos documentos mais emblemáticos. As declarações que o militar norte-americano fez em um livro (War is a Racket) que publicou em 1935 se tornaram conhecidas por sua ironia sobre o serviço dos mariners (fuzileiros navais norte-americanos):

Dediquei trinta e três anos e quatro meses ao serviço ativo de nossa força militar mais ágil: a Infantaria de Marinha. Ascendi do posto de segundo-tenente até o posto de major-general. Durante todo este período dediquei a maior parte do meu tempo a servir aos interesses dos Grandes negócios, a Wall Street e aos banqueiros. Em resumo, fui um pistoleiro às ordens do capitalismo...

Contribuí para converter o México e especialmente Tampico em lugar seguro para os interesses petrolíferos dos norte-americanos em 1914. Ajudei o Haiti e Cuba a se tornarem um lugar seguro para os rapazes do National City Bank efetuarem suas cobranças... Ajudei também a Nicarágua a cumprir seus compromissos com a casa bancária internacional de Brown Brothers em 1919-1922. Em 1916, facilitei os interesses açucareiros norte-americanos na República Dominicana. Contribuí para que Honduras seguisse uma política 'apropriada' para as companhias bananeiras norte-americanas em 1903. Em 1927, servi na China para que a Standard Oil seguisse seu caminho sem ser perturbada.

Durante todos esses anos desfrutei, como disseram os 'rapazes' de magníficas prebendas. Fui premiado com honrarias, medalhas e promoções. Olhando para trás, penso que até poderia ter dado alguns conselhos para Al Capone. Ele, no máximo, pôde operar seus negócios sujos em três distritos da cidade de Chicago, nós marines operávamos em três continentes.

quarta-feira, 5 de outubro de 2011

O choro de Raoni

Em 1 de junho desse ano, junto com a mensagem de que o IBAMA tinha concedido a licença ambiental para a construção da Usina de Belo Monte, foi divulgado na mídia uma foto do Cacique Raoni chorando, ao saber da notícia. Raoni teria desmentido tudo no seu site alguns dias depois: "Eu não chorei por causa da autorização de construção e o começo dos trabalhos no canteiro de obras de Belo Monte. O tanto que eu viverei, eu continuarei a me bater contra essa construção (...) será a presidente Dilma Rousseff que chorará, eu não. Eu quero saber quem deu essa foto e propagou essa falsa informação (...) será preciso que a presidente Dilma me mate em frente ao Palácio do Planalto. Lá, somente, vocês poderão construir a Barragem de Belo Monte".
Alguns dizem que a foto foi tirada em 2002 durante o funeral de Orlando Villas-Boas, outros, contudo, alegam que Raoni estava participando de um ritual em homenagem á todos os falecidos da comunidade. Em todo caso, mais uma confusão da internet. Mas, quero aproveitar a oportunidade e discutir a tensão que a construção de uma usina hidrelétrica anda gerando não só na região em que vai ser implantada, mas também na mídia (principalmente internacional).
O projeto da Usina Hidrelétrica de Belo Monte já é antigo, foi criado na ditadura militar, contudo não foi implantado por conta das tensões acirradas que gerou. Raoni, líder da etnia Kaiapó, foi fundamental nesse processo: através de protestos nacionais e internacionais, o velho chefe conseguiu convencer o todo-poderoso Ministro da Viação e Obras Públicas, Mário Andreazza, a engavetar Belo Monte.
Durante o governo Lula o projeto foi ressuscitado. Por quê? Quando o novo presidente do Paraguai, Fernando Lugo, assumiu o poder começou a atacar a quantia injusta de energia que a Usina de Itaipu (construída no Rio Paraguai pelo Brasil em cooperação com o país vizinho na década de 1970) destinava á seu pais - quase que 90% da energia vinha para o Brasil. Com medo de perder uma das fontes de energia mais preciosas, o governo começou a pensar em outras soluções. Energia eólica? A produção de energia não é tão regular e abrangente assim. Energia nuclear? Apesar de Angra III está sendo construída, a tendência é não investir tanto em energia nuclear, por conta dos gastos excessivos e do perigo ao meio-ambiente. A solução, para o governo, deveria ser uma usina hidrelétrica. Belo Monte por Itaipu: elas por elas.
Não que Itaipu passe a ser somente dos paraguaios, mas ter uma outra usina complementando a energia é uma medida de segurança. E agora o projeto ganharia um bom argumento: a busca por energias limpas. No entanto, o impacto ambiental que a construção dessa usina no interior do Pará pode produzir é enorme. Não só o impacto ambiental como também social: comunidades indígenas do Xingu e ribeirinhos teriam de ser transferidos para outras áreas. O Parque do Xingu foi construído na década de 1960 com a ajuda dos irmãos Villas-Boas, reunindo diversas etnias, muitas transferidas de seus locais de origem por conta de conflitos de terra e de construção de rodovias. Os povos que acostumaram a viver ali teriam de ser transferidos para outra localidade, ainda incerta.

O governo diz que a Usina trará empregos para a região, principalmente para a cidade de Altamira, e que as transferências e indenizações serão feitas com cuidado, sem falar que os impactos ambientais não serão tão grandes assim. O problema é que a população pobre local suspeita que as mudanças serão boas para um pequeno círculo de pessoas (alguns empresários locais) e não para toda a comunidade, como sempre vem acontecendo no interior do país. Principalmente quando essa mudança implica em destruir o modo de vida dessa comunidade. Não se sabe ainda para onde serão transferidos e se isso realmente vai ser feito direito, com indenização e tudo mais. Para a comunidade indígena a questão se torna mais problemática ainda, já que a mudança seria muito radical: após décadas vivendo naquelas terras teriam de se mudar mais uma vez, certos de que serão explorados fora das reservas.

Raoni descobriu há muito tempo que a melhor maneira de se ganhar uma batalha hoje é ganhar a opinião pública. Por isso, há mais de 20 anos vem divulgando a causa indígena e os problemas que ela vem encontrando no Brasil principalmente no exterior. Raoni tornou-se conhecido, aliás, por participar de turnês com o cantor Sting, quando este participava de uma campanha dos direitos humanos internacional. O que é bizarro é justamente isso: Raoni é mais famoso lá fora que aqui dentro. Penso que isso demonstra a própria falta de interesse do brasileiro com a questão indígena. Muitos ao assistirem as notícias nos jornais sobre as manifestações contra Belo Monte não entendem o porque disso tudo, afinal é só uma usina.
Por outro lado, a opinião pública internacional se interessa com a questão indígena só até certo ponto. Ainda se enxerga o indígena com aquele exotismo. Convidar Raoni para falar na França sobre a questão indígena, ao meu ver, é uma estratégia do governo francês de propagandear uma imagem de que é multicultural e tolerante, apesar de proibir que as mulheres muçulmanas utilizem véu e que comunidades ciganas sejam restritas á determinados guetos. Na hora de pressionar o governo brasileiro para procurar outra alternativa para Belo Monte, nenhum país "simpático" á causa indígena se manifesta. Vimos á pouco tempo o diretor James Cameron defender o fim de Belo Monte. Uma iniciativa um tanto isolada e suspeita (afinal, ecologia se tornou palavra de ordem, justificando até certos imperialismos).
Reforma agrária, questão indígena, ecologia e crise energética: tudo parece se embolar quando se trata de Belo Monte. Uma solução adequada, contudo, ainda não foi achada para essa série de impasses.

sexta-feira, 30 de setembro de 2011

Algumas músicas interessantes do Segundo Festival Amazonas de Música:

Anjo de Cor
(Compositor e intérprete: Afonso Toscano de Melo)

Ê São Benedito
Chegou a hora de abençoar
Nosso irmão Nestor
É um anjo de cor
A sua força não pode faltar
É Nestor Nascimento
Que por nascimento
Nasceu brasileiro
De Luanda, de Angola,
Da Praça 14 de Janeiro
Ele é filho de xangô
Qual o pai é um guerreiro
Na resistência da raça
Foi sempre o primeiro
Ê São Benedito
Foi mamãe Sofia
Que lhe ensinou a soletrar,
Com sua tia Lurdinha
Compreendeu o ritual
De Benedito, do mastro
De Fátima, da procissão
O tambor do candomblé
Festa no jaquerão
Mil amores, mil donzelas
Cada donzela um varão
Ê São Benedito...
Batalha do Calabouço
Defendendo a nação
Encarando a polícia
Do ditador de plantão
Briga de estudante
Chupando manga com cão
Dentes quebrados, surdez
Quase perda da visão
Nestor, meu anjo de cor
Nada disso, foi em vão.

Amazônia Terra de Ninguém
(Compositor e intérprete: Ivan Nunes Moraes de Melo)

Ontem eu andei pela floresta encantada
E de repente ouvi todo o temor da macacada
Pássaros voando em revoada
E o homem destruindo toda mata.

Ontem acordei até mais cedo
E vi todo deserto pelo espelho
um clarão na selva se formando
E nossa Amazônia se acabando.

Que coisa triste, quantos deslizes
A selva mais bonita do planeta
Agora está virando uma espoleta.
U.S.A. montando as bases
Amazônia só disfarces
U.S.A. montando as bases
Amazônia só disfarces

Amazônia terra de ninguém
Amazônia estamos refém
Amazônia pátria mãe querida
Amazônia ainda tem saída.

No Reino das Palafitas
(Compositor e intérprete: Cileno de Oliveira Conceição)

É... A feira da Panair já foi Pan-Air.
A fúria do Prosamim secou igarapés
O expresso passou tão ligeiro e eu a pé
A espera de um tal de monotrilho, se vier...
Ei... O porto privatizado já foi Rodoway
No Cine Ypiranga me vi na Broadaway
Bandido, mocinho, um herói fora da lei
No reino das palafitas eu era um rei.

Sim, Manaus é saudade, é Praça da Matriz
Passeio de bonde, banho de chafariz
Eu, curumim, um moleque, mas feliz
Sim, Manaus do encontro das águas pontual
Teatro Amazonas, amigos de quintal
Estórias e lendas de boto e coisa e tal...
Sim, Manaus é mais que "porto de lenha" e "liverpool"
Mais que Zona Franca, Zona Norte, Zona Sul
É o coração de uma gente batendo tum tum tum.

quinta-feira, 29 de setembro de 2011

Cultura, industrialização e alguns gatos

Robert Darnton dizia que o passado é uma terra estrangeira. Quando assistimos trabalhadores matando gatos e morrendo de rir com isso, na passagem do século XVIII para o XIX, temos de concordar com ele. O que há de tão engraçado em matar gatos? A resposta só pode estar no passado, na terra estrangeira em que eles viveram. Esse estranho fato chamou a atenção do pesquisador norte-americano que tentando descobrir seu significado acabou fazendo uma história cultural dos primórdios da industrialização na França.

Robert Darnton
Quem relata o massacre de gatos é um tipógrafo que em um pequeno caderno conta como foi o começo de sua carreira profissional. Na época, esse tipógrafo trabalhava numa oficina e partilhava com um amigo muito zombeteiro um quarto. Ao contrário do que a historiografia tradicional pensa, o período da pré-industrialização não foi assim tão pacífico quanto se imaginava: o tipógrafo nos conta que a vida de aprendiz (iniciante no ofício) era dura, com péssimas condições de trabalho, de higiene e de moradia. Além disso, havia o ódio contra o patrão. Enquanto os aprendizes quase se matavam de trabalhar, o dono da oficina esbanjava dinheiro e tinha mais cuidado com os inúmeros gatos que sua mulher criava do que com seus trabalhadores.

O historiador acredita que na época já havia uma certa consciência de classe: os trabalhadores, por causa de sua péssimas condições de trabalho, se uniam, mas ainda não partiam para a luta de classes explícita. A prova de que eram unidos está nas inúmeras agremiações que os tipógrafos tinham, quase sociedades secretas destinadas aos melhores e mais confiáveis trabalhadores. Outra prova pode ser encontrada nos rituais por que os aprendizes tinham que passar para serem considerados verdadeiros tipógrafos.
Mas vamos ao caso dos gatos: o amigo gozador do autor do caderno de memórias resolve empregar uma peça no patrão. Durante a noite vai até a sua casa e fica miando. A sua intenção é não deixar o burguês não dormir direito. Mas acaba tendo um efeito colateral: por causa dos miados insistentes, o patrão acredita que os gatos estão endemoniados e no dia seguinte pede que os seus empregados se livrem deles, menos da gata cinza (a favorita de sua mulher). É justamente a gata cinza o alvo de toda fúria: ela é enforcada. Os demais foram mortos á pauladas, enquanto todos riam.

Darnton entra no folclore da época para tentar entender o significado da figura do gato e descobre que ele poderia simbolizar desde a ligação com a feitiçaria, a sensualidade desenfreada e a identificação com o dono. Portanto, quando enforcaram a gata cinza poderia estar dizendo que sua dona era uma bruxa ou uma adúltera, ou podiam estar fazendo o que queriam fazer com seus donos - enforcá-los.
O massacre de gatos em sim demonstra que no início da industrialização na Franca existia sim uma luta de classes, mas através do simbolos. Os trabalhadores usavam dos elementos de sua cultura e das mentalidades do período para poder atingir o patrão, para ridicularizá-lo, como fizeram os tipógrafos com os gatos do dono da oficina. Era uma luta de classes onde o humor e a cultura andavam de mãos dadas.

sábado, 24 de setembro de 2011

O curioso caso do Rabi Emmanuel Muuyal

O Túmulo de Rabi Shalom Imanu El-Muyal. Foto: Equipe Desvairada Baricéia.
Um rabino como santo popular? Parece até um conto de Millôr Fernandes, mas é verdade. No Cemitério São João Batista, o túmulo do rabino (ou rabi ou ribi, como se fala no Oriente Médio) Emmanuel Muuyal ou Shalom Imanu El-Muyal tornou-se foco de uma devoção popular. Muitos vão ali pedir pequenos milagres e quando atendidos fazem questão de deixarem no túmulo (cercado por um pequeno muro para explicitar a origem não-católica do homem ali enterrado justamente porque na época não existiam cemitérios israelistas em Manaus) votos, agradecimentos.
Hoje seu túmulo se encontra no Cemitério Israelita, ao lado do Cemitério São João Batista, no Boulevard. Foi preciso construir uma grade para que a quantidade de votos não engolisse o próprio túmulo. A Comunidade Judaica de Manaus, a cada ano recitava uma prece pelos que ali descansam, e foi assim que acompanharam, ano por ano, o crescimento da devoção ao "santo rabino milagreiro de Manaus". Turistas israelenses já vieram a Manaus só para conhecer o tão falado rabi, prova de que sua devoção ultrapassou os limites da Amazônia.
Na década de 1980, seu sobrinho, Eliahu Muyal, figura importante na política israelense (membro do Parlamento de Israel e Ministro dos Transportes) tomou conhecimento através de um amigo que foi visitar Manaus que seu tio tinha sido sepultado ali. Logo endereçou uma carta ao presidente da Comunidade Judaica de Manaus, o então professor Samuel Benchimol, pedindo que os restos mortais de seu tio fosse transladados para Israel. Benchimol pensou bastante e respondeu que não poderia fazer isso, já que a comunidade católica da cidade ficaria furiosa ao verem um de seus santos milagreiros serem retirados de sua terra.
Engraçado. O rabi Muyal tinha vindo á Manaus á pedido de seu mentor e grande amigo Rabi Refael Encáua, chefe da Comunidade Judaica Marroquina, justamente para aprofundar o judaísmo na Amazônia e acabou sendo cultuado como santo pela população amazonense que é, em sua maioria, católica. O rabino aqui chegou em 1908 e veio a falecer dois anos depois, vítima de uma doença tropical. Os milagres teriam começado não muito tempo depois de ter sido enterrado. A fama de milagreiro se espalhou e hoje existem inúmeras histórias sobre as "graças alcançadas". Essa é uma das tantas ironias da História. E, no caso, uma boa ironia, uma vez que ajudou a aproximar a população local com a cultura judaica. Mesmo que tenha deturpado um pouco seu significado, esse culto popular é um elo de ligação importante com a comunidade hebraica que tanta importância tem em nosso Estado.

Mais informações sobre o caso do Rabi Muyal:
-Documentário Eretz Amazônia- Os Judeus na Amazônia (2004), dirigido por Alan Rodrigues (veja aqui o trailer);
-Artigo de David Salgado, A Verdadeira História de Ribi Muyal, na revista digital Morashá.