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quinta-feira, 7 de fevereiro de 2013

Pare, olhe, ouça, pense


Toda cidade deveria ter um cineclube. É um desejo não só meu, mas de colegas cinéfilos. Estudando um pouco da história de cinéfilos de outrora percebemos que existiam inúmeras dificuldades: conseguir uma cópia do filme, conseguir reunir todos, etc. Hoje a maior dificuldade é tirar o cinéfilo de casa.
Ora, podendo baixar todos os filmes a qualquer hora quem se habilita a assistir um filme no cinema ou na casa de fulano? Não é questão de ser nostálgico, mas sempre tenho como referência meus tempos de menino onde os cinemas não tinham se tornado ainda igrejas. Se o filme em questão já tivesse saído de cartaz, o jeito era esperar sair na locadora ou na TV. E quando saía, era o assunto na sala de aula ou numa roda de amigos. "Você viu ontem Parque dos Dinossauros? Vi, que massa, cara!".
E não se trata apenas de filmes. Com tantos sites, música é o que não falta aí esperando ser baixada. Aconselho lerem esse post do guitarrista Mateus Starling sobre essa característica dos nossos tempos. Adianto dizendo que ele coloca a questão nesses termos:O acesso extremamente fácil à música acabou por produzir um ponto negativo que é a falta de qualidade na audição. Um Mp3 player tem fácil 2 mil álbuns de música. A pergunta é: Qual o propósito de se ter 2 mil álbuns novos na sua coleção? A resposta vem a seguir: A situação é muito obvia, se você tem 2 mil álbuns te esperando e a ansiedade é enorme o que vai acontecer? Audição de má qualidade.
O tema aqui é bem nítido: a facilidade em se obter bens culturais como canções e filmes pode democratizar o acesso á artes, mas também podem mercantilizá-las, coisificá-las. E o tema não é novo - Walter Benjamin quando fala da perda da aura da arte nos anos 30 está se referindo a esse processo. Cultivar um espírito contemplativo não faz mal a ninguém e pode ajudar a diminuir um pouco essa apreciação frenética, que de apreciar tem só o nome.

domingo, 3 de fevereiro de 2013

Swartzianas

Qual o legado de Aaron Swartz?
Essa foi a pergunta que mobilizou a jornalista Tatiana Dias e o jurista Rafael Zattana em uma mesa redonda mediada por Leandro Chemalle, um dos coordenadores do Partido Pirata, no penúltimo dia do mês de janeiro durante o ciclo de eventos da Campus Party. A videoconferência foi transcrita no blog de Zanatta, o E-mancipação. A leitura é mais que recomendada.
Destaco na fala de Zanatta essa proposta de conhecimento sem limites, que já é antiga mas foi revigorada recentemente, e esse aproveitamento do sistema legal a favor do cyberativismo, estes dois pontos que ele identifica como centrais em Aaron,e que parecem distantes do debate brasileiro. A posse de Renan Calheiros como presidente do Senado então foi um banho de água fria em muitos sentidos, inclusive no cyberativismo tupiniquim.

domingo, 13 de janeiro de 2013

Cyberativismo chora a perda


Se antes hackers eram geralmente gênios anônimos, hoje eles possuem rosto e uma causa: a internet livre. Nos EUA, o projeto conhecido como SOPA gerou tanta polêmica, tanta pressão, que foi vetado. Já no Brasil um projeto similar, o Marco Civil, está sendo proposto.
Os ciberativistas norte-americanos estão de luto por conta do falecimento de um de seus maiores nomes, Aaron Swartz, na sexta feira passada. A imprensa pinta Aaron como um rapaz brilhante - afinal aos 14 anos ajudou a inventar o recurso RSS - mas com problemas psicológicos, afinal a nota oficial diz que o hacker se suicidou.
Não quero levantar mais uma teoria da conspiração, mas é muito estranho que ele tenha se suicidado sem deixar maiores pistas de seu comportamento depressivo além de algumas poucas frases pessimistas em seu blog. Claro, a possibilidade de ser condenado á 35 anos de prisão por roubar 4,8 milhões de artigos científicos dos servidores do Instituto de Tecnologia de Massachusetts (MIT) pode até contar como um agravante. Mas ainda assim parece muito estranho.
Creio que muitos vão dizer que a luta pela internet livre já tem o seu primeiro mártir.

terça-feira, 2 de outubro de 2012

O fetichismo da Internet

APRENDER A APRENDER
Celso Castro
O Bibliotecário, Giuseppe Arcimboldo.

Para escrever seus Ensaios, publicados a partir de 1580, o filósofo Michel de Montaigne utilizou quase todo o patrimônio literário greco-romano disponível: menos de trezentos livros. A familiaridade de Montaigne com esse acervo era tamanha que, comparando-se trechos citados nos Ensaios com os originais, podem-se perceber pequenas alterações que sugerem que ele conhecia vários desses livros de cor. Em 1748, Montesquieu publicou Do espírito das leis consultando sua biblioteca pessoal de 3.000 volumes. À média de um livro por semana, levaríamos 55 anos para ler esse total, que podemos tomar como o quase-limite daquilo humanamente possível de se ler ao longo de uma vida. Avançando um século e meio, nos deparamos com uma cena em que o sofisticado Jacinto de Tormes, personagem de Eça de Queirós em A cidade e as serras, fica paralisado diante de sua biblioteca de 70 mil livros. A simples tarefa de escolher um livro para se distrair antes de dormir torna-se sobre-humana perante tamanha oferta de informação.
Contemporâneo de Jacinto, o filósofo Georg Simmel chamou a atenção para essa desproporção crescente entre a cultura objetiva -  aquele acervo material e imaterial disponível no mundo - e a cultura subjetiva, entendida como a proporção desse acervo que, individualmente, podemos processar. Enquanto a primeira cresce sem parar, a capacidade de os indivíduos cultivarem a si mesmos através da interação com as coisas permanece constante. Nesse sentido, à medida em que o acervo à sua disposição aumenta, o indivíduo pode aproveitar uma parcela decrescente dessa riqueza.
Com a popularização da imprensa e, principalmente, com a enorme quantidade de informação disponível pela Internet, a fenda entre nossa capacidade de aprendizado e a quantidade de informações que podemos digerir aumentou exponencialmente, e continua a aumentar sem cessar. A desorientação daí decorrente leva facilmente a um fenômeno que chamo de "fetichismo da Internet": a falsa ideia de que a rede tem vida própria, independente. Mecanismos de busca na Internet tornam-se uma espécie de oráculo moderno: muitas vezes, acreditamos que todas as respostas estão à distância de um clique do mouse.
Não se trata de negar a enorme potencialidade desse acervo de informações à nossa disposição. O que cabe é perguntar como agir, nesse cenário em que podemos processar apenas uma fração decrescente daquilo que existe para ser apreendido. É preciso privilegiar, no processo de formação intelectual, a importância do espírito crítico e a necessidade constante de aprendizado. Aprender é um processo de alargar a percepção de nossa ignorância daquilo que não sabemos, mais do que um ato de se acumular conhecimento. O importante é "aprender a aprender" constantemente, estimulando a imaginação criadora. É esse processo que permite lançar pontes sobre a fenda crescente da cultura humana.

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CELSO CASTRO É PESQUISADOR E DIRETOR DO CPDOC DA FUNDAÇÃO GETÚLIO VARGAS.

In: REVISTA DE HISTÓRIA DA BIBLIOTECA NACIONAL. n. 03, Setembro de 2005, p. 98.

sábado, 29 de setembro de 2012

Blogosfera Tour


Zanzando pela internet, pulando de blog em blog, cheguei há algumas conclusões. A primeira: existem mais blogs hoje que grãos de areia na praia. A segunda: a maioria gira em torno de informações não pessoais, mas gerais. 
A imagem que temos do blogueiro é aquela do sujeito que relata cada minuto da sua vida na internet. No entanto, nos blogs que dei uma passada (no mínimo uns 127, não parei pra contar) eles estão mais para jornalistas. Claro, os blogs de maior sucesso são aqueles que compartilham notícias e informações específicas (culinária, por exemplo). Há também os de entretenimento (e aqui cabe humor, cinema, seriados, etc.) 
Blogs autorais, ao contrário do que se possa imaginar, não estão extintos. Pelo contrário, proliferaram. Não sei se porque mais deles foram criados ou porque entrei em contato com mais gente que conhecia mais blogs assim. Chegar nos blogs autorais é difícil, a não ser que o dono tenha uma relativa fama. Mas essas páginas costumam ter um público pequeno, porém fiel.
Evidente que isso aqui não é um censo. É só uma impressão que tive. O que nos leva á última conclusão: a inclusão digital tem reforçado um fenômeno: o desenvolvimento de conteúdos "anônimos" e "reduzidos". Muitos blogs se tornam intermediários, verdadeiros entrepostos, apenas repassando uma notícia ou um viral. Tenta se reafirmar a originalidade (ou então a posse do conteúdo) por meio de marca d'águas, mas sua eficiência é cada vez mais obsoleta hoje com os recursos de modificação de imagens. A informação é repassada tantas vezes que não se sabe mais de onde veio. Para que se atraia a atenção do leitor, o ideal é diminuir o tamanho do conteúdo. O limite de 140 caracteres tem ultrapassado o raio de ação do twitter.
O que podemos esperar disso? Pessoas com maior capacidade de assimilação e de síntese? Ou uma geração acomodada com informações esparsas e rápidas? Não ouso arriscar qual das duas opções será a correta.

quarta-feira, 22 de agosto de 2012

Escrevendo para o mar



Penso que escrever crônicas seja um pouco como fazia o padre Anchieta todas manhãs na praia: escrevia na areia alguns poemas, poemas que logo seriam apagados pelas ondas do mar.
A crônica é efêmera, mais um objeto para nossa pilha de banalidades diárias. Não estou denegrindo a imagem desse gênero, apenas considero a banal, pois o fato de ser publicada todo dia acaba por retirar sua excepcionalidade.
O que tira a sua excepcionalidade não é o autor ou o veículo em que é publicada, mas o tempo. É verdade que alguns cronistas conseguem ser geniais na maioria dos casos, mas a genialidade não é algo que se repete todo dia. Escrever crônicas é como escrever para as ondas do mar.
Amanhã essa será a crônica de ontem. E assim caminha a Humanidade... Aí vem a pergunta: qual o sentido disso tudo? Além dos sentidos práticos (o cronista precisa sobreviver, os jornais ou revistas precisam de um espaço para algo além da pura informação, uma espaço de opinião), posso entrever algumas respostas. Entreter? Muitos se deliciam com os textos de certos cronistas simplesmente porque acham eles divertidos e sempre esperam com ansiedade o próximo sair do forno. Informar? Há o cronista que dá mais informações do que sua opinião propriamente dita.
Essas são apenas algumas das possíveis respostas. Por que são tantas? O próprio status da crônica permite que as possibilidades sejam várias. A crônica nasceu com o princípio de ser um relato, principalmente histórico, hoje, após as várias vanguardas literárias, ela se tornou um meio caminho entre o conto, a poesia e o relato.

No Brasil, a crônica, desde começos do século XX, é o grosso de nossa literatura. A crônica divulgou ao brasileiro médio o mundo das letras. E a crônica está em constante transformação. Ela é, como na música, essa metamorfose ambulante.
Hoje temos a internet e o blog se tornou a plataforma ideal para as crônicas. O blog democratiza a crônica. Assim, descobrimos muitos cronistas desconhecidos e que até desconhecem que o que estão escrevendo sejam crônicas. 
Com o blog, nasce a crônica digital: marcada pela seu pequeno tamanho (na maioria dos casos), os retalhos do maneirismo da linguagem da internet e aberta aos links (se tornando aqui uma espécie de hipertexto, um texto que possui vários caminhos possíveis).
As crônicas continuarão, seja na tela do computador, no jornal ou no que mais vier por aí. Continuarão porque precisamos de banalidades diárias. São o que de mais precioso existe em nosso cotidiano, pois elas nos dão certa segurança. Se muitas vezes a rotina nos sufoca, noutras ela pode ser um porto seguro para um mundo onde tudo é líquido, tudo está mudando a todo momento (parafraseando Bob Dylan). E a crônica está aí, no rol das banalidades diárias mais dinâmicas que existe.

(Recanto das Letras, 29/ 09/ 2011).

domingo, 12 de agosto de 2012

Já comentou algo hoje?


Um blog se alimenta de comentários. Li isso em algum lugar. Na realidade é mais fácil um blog sobreviver com acessos - se você usa aquele recurso do Ad Sense e coisa e tal. Mas comentários?
O blog pode muito bem continuar por teimosia do seu proprietário. Mas a verdade é que alguns comentários ajudam a construir futuros post, por incitar novas questões ou aconselhar novos temas. Além disso há algo mais...
O que um blogueiro quer não é apenas que leiam suas postagens, mas que digam algo sobre elas. Que aconselhe, que critique, que elogie, etc. Numa plataforma como essa é preciso saber que não estamos escrevendo para nós mesmos.
Há artistas que se realizam mais com os aplausos que com a bilheteria do show. Guardada as devidas proporções, é o que acontece com os blogs. Muitos blogueiros vivem á espera desse diálogo com o leitor. Diálogo esse que é muito mais rápido e pontual que de um livro publicado.
Constatei que o acontece muito é isso: os blogs são muito acessados e pouco comentados. Talvez a falta de tempo expliquei um pouco disso. Mas como explicar as pessoas que passam mais de 2h nas redes sociais e que não tem coragem de gastar 2 min lendo um post ou escrevendo um comentário?
Em conversa com o Prof. Tarcísio Serpa Normando chegamos a conclusão de que as redes sociais funcionam porque há a liberdade total, enquanto no blog existem regras. O blog é a biblioteca, o Facebook é a mesa de bar. A grande sacada aqui é a interatividade. A interatividade e a conectividade: você pode dizer qualquer coisa, compartilhar qualquer coisa com o seu amigo, pois sabe que está conectado com ele.
Como o blogueiro pode competir com isso? Não pode. Não há como superar as redes sociais porque elas fazem muito bem o que se propõem a fazer, resta a nós fazermos o mesmo.
Um blog, pelo menos ao meu ver, é um espaço de informação e opinião - e porque não de entretenimento? Ora, são recursos que as redes sociais também oferecem, mas não de forma duradoura. Afinal, seu foco é a interação. O nosso é outro. Podemos muito bem agir de forma complementar: fornecendo conteúdo para se discutido ou acessado nas redes sociais.
Acho muito louvável a atitude de muitos grupos e pessoas que tem promovido essa divulgação da blogosfera, como é o caso, por exemplo da comunidade Blogs Brasil. É um meio de criarmos um público e, melhor ainda, um público participativo.

terça-feira, 12 de junho de 2012

www.utopia.com


Na era da informação não são raros os dilemas que surgem aqui e ali por conta justamente da informação. Ou melhor, do jeito como essa informação é transmitida. Creio que seria melhor chamarmos essa como a era da informação compartilhada, uma vez que no século passado a informação ganhou a notoriedade que desfruta hoje graças á imprensa, a TV e o rádio.
Hoje temos a internet e em menos de dois minutos já sabemos o que aconteceu na Birmânia á um minuto atrás. O mundo ficou mais pequeno. E essa é uma das razões da internet fazer parte da utopia da globalização: a informação não tem mais fronteiras, é o que dizem. No entanto, que tipo de informação estamos falando? Não nos iludamos: as grandes corporações também existem no mundo virtual e podem manipular as notícias tanto como os donos dos grandes jornais.
Claro, a capacidade de alguém comum ter maior visibilidade agora é maior do que nos tempos do rádio. Você pode editar conteúdos e até acessar documentos secretos, como os hackers fazem. Um bom exemplo desse lado subversivo da internet foi nos dado pela Wikileaks de Julian Assange que apresentou ao mundo vários relatórios secretos do governo norte-americano.
Mas ainda assim, a internet continua sendo um território cheio de tensão. Nos blogs, principalmente os políticos, em tempo de eleição ou de algum novo escândalo de corrupção, os ataques explodem. Nas redes sociais há a perseguição á pessoas acusadas de terem feito algo terrível. Muitos também, se beneficiando do anonimato ou de uma identidade fake, passam a pintar e bordar por aí.

O otimismo digital voltou á cena quando eclodiu a Primavera Árabe, onde a maioria dos movimentos, principalmente no Egito, foram organizados por meio das redes sociais como o Twitter. O potencial político e emancipador da internet voltou a ser ressaltado. A rapidez e o nível de alcance das mensagens fez com que muitos outras bandeiras fossem defendidas via web.
Hoje já temos pessoas que se definem não só politicamente através do mundo virtual, mas também em outros sentidos. As comunidades no Orkut ou as páginas e grupos no Facebook servem como evidências dos traços culturais e pessoais que os usuários buscam afirmar.
E então? A internet é tudo isso que se tem dito ou não? Eu acredito que sim. Ela pode ser isso tudo e mais um pouco. Levamos um tempo para digerir o impacto dessa invenção, para nos livrarmos de algumas expectativas e criarmos outras. Mas talvez daqui há um tempo o mundo virtual e o mundo real não sejam tão distantes como parecem ser. Eles podem vir a se tornar complementares, como os últimos acontecimentos tem nos provado. Afinal, a internet é apenas uma ferramenta. As ferramentas em si não são nem boas nem más. Isso depende do modo e da intenção em que elas são usadas. A internet pode nos fazer engolir algumas mentiras, assim como também pode esquentar a chapa de alguns ditadores. Ela é ambígua, porque o ser humano é ambíguo.

sábado, 10 de março de 2012

AVISO

Os bloqueiros agora devem estar se familiarizando com essa visão.
Nessa sexta-feira fui surpreendido com a notícia de que Escritório Central de Arrecadação (Ecad) começaria a cobrar as músicas divulgadas em blogs. Caligraffitti e A Leitora foram os primeiros a serem cobrados. O valor:  R$ 352, 99. Isso por cada música!
O Ecad é responsável desde 1976, quando foi criado, por cobrar os direitos de reprodução de músicas. A novidade é ele ter migrado agora para o meio digital, alegando que os blogs deveriam pagar pelo direito de veiculação das músicas. A resposta dos blogueiros tem sido: como o blog pode estar retransmitindo a música se ele o faz utilizando o Youtube como fonte, ou seja, o Youtube continuaria sendo a plataforma de retransmissão e não o blog. Até agora não ouvi a réplica.
O que sei é que a blogosfera anda agitada. Se há algo de bom nessa jogada mercantilista é que a nossa lei de direitos autorais será revista agora (ela foi criada em 1998 quando a internet engatinhava em solo tupiniquim). Até lá, meus amigos, tenho que lhes dizer que esse blog terá de se livrar de muitos vídeos que acompanharam nossas postagens. Espero que essa amputação seja provisória, pois desse jeito muitos posts perderam um pouco da sua dinâmica. De qualquer maneira, Bar Brikolagen continua vivo. E em breve abordaremos o tema: Internet e Direitos Autorais. Não sei por que...

Mais informações sobre o Ecad: O que é Ecad? E por que ele está cobrando direito autoral dos blogs?

terça-feira, 7 de fevereiro de 2012

Desconectados

Piquenique no Ibirapuera.
Há um ditado, desses que se ouve em conversas com seus amigos de idade avançada na calçada da rua, que diz mais ou menos o seguinte: "Meu pai andou a pé, eu andei de carroça, meu filho anda de carro e meu neto andará a pé". Não entendeu? A ideia básica aqui é simples: as coisas evoluem, até certo ponto, depois elas voltam a ser o que eram. Os caras da banda Devo são um dos adeptos dessa visão de mundo, criaram até a Teoria da Involução - basicamente ela diz que depois que a Humanidade atingir o seu ápice, seja na tecnologia ou no conhecimento, ela vai começar a se emburrecer e voltaremos ao tempo das cavernas. Por essa Darwin não esperava...
Enfim, essa introdução toda para falar de um livro que tem um raciocínio semelhante. Pelo artigo do Tião Gomes na Carta Capital tomei conhecimento desse livro de um jornalista norte-americano sobre a internet e o modo como agimos com ela. O nome do livro é Os Imperfeccionistas e seu autor se chama Tom Rachman. A tese de Rachman é de que toda geração surge refutando a anterior. Se temos uma geração altamente conectada na internet (a chamada Geração Y), logo teremos uma geração de pessoas que renegaram a vida virtual.
Tom Rachman
Mark Mothersbaugh, vocalista do DEVO.












Estas pessoas, que o jornalista chama de "últimos românticos" já possui um número considerável de membros pelo mundo. Ciclistas se aventurando pela noite paulistana, bandas e apreciadores de música indie e folk no Macapá se reunindo para saraus, esses são os exemplos dos "desconectados" que conheço. Alguns usam a internet sim, mas somente para marcar encontros ou combinar de irem juntos á algum evento. Outros, mais radicais, nem isso.
Por que correr da web como o diabo foge da cruz, alguém poderia perguntar. Ora, existem vários motivos. Dentre eles a quantidade incrível de informações, muitas delas inúteis, ou mesmo o desperdício de horas preciosas. Meu amigo Diego Gatto costuma dizer que Facebook parece mala de viajante amnésico: de cinco em cinco minutos tem que checar. E nessa de saber o que seus amigos estão fazendo todo o tempo, você acaba levando horas e horas no computador.
Existem aqueles que enjoam. Afinal, viver  sempre á espera de alguma notícia dos amigos ou se expressando apenas através de 140 caracteres pode ser muito monótono depois de um tempo. Claro, existem pessoas que podem perfeitamente conviver com essa existência virtual e com sua própria vida, ou seja, complementando as duas.
Essa ideia de toda geração refuta a outra (parece aquela lei da química: toda ação leva a uma reação) é uma meia-verdade, na minha opinião. Seres humanos são muito diferentes de substâncias químicas. Há rupturas mais profundas entre algumas gerações, mas geralmente elas readaptam elementos de suas predecessoras. Ora, a tal Geração Y não se valeu de um dos produtos da Geração da Década Perdida, a internet? Isso sem falar das diferentes matizes musicais: punk, rock, pagode, etc.
Quanto á essa previsão de Rachman, concordo em partes. Não acho que vai haver uma desplugagem coletiva. Estamos caminhando cada vez mais para uma convivência moderada com o mundo virtual. Após o primeiro impacto, tudo é novidade, depois ela pode se tornar algo tão banal quanto nossa geladeira. Banal no sentido de já estar entranhada no nosso cotidiano. Bem, pode até existir essa possibilidade dos "últimos românticos" se transformarem em maioria, mas não acredito que seja algo tão duradouro. Se acontecer seria como uma espécie de onda, assim como tem sido a moda das redes sociais.

sexta-feira, 3 de fevereiro de 2012

Conectados


Falar que o jovem brasileiro hoje é totalmente ligado nas redes sociais é chover no molhado. Ainda assim é interessante essa pesquisa feita por um setor da Editora Abril sobre a relação dos adolescentes com as redes sociais. Vou apresentar aqui algumas das conclusões:

-Twitter é a rede social mais popular.
140 caracteres hoje é muito conveniente para pessoas que dizem viver sem tempo. Além disso, o contato com suas celebridades favoritas é mais intenso pelo Twitter.
-O Facebook é mais popular do que o Orkut entre os jovens de 19 a 24 anos, mas entre os jovens de 15 a 18 anos o Orkut ainda é mais forte.
-Música, entretenimento, jogos e revistas foram os temas citados como relevantes em redes sociais pelos entrevistados.
Nesse aspecto o Facebook e o Orkut tem uma vantagem: a capacidade de poder compartilhar informações, sejam músicas ou posts interessantes. Ainda assim, segundo a pesquisa, a maioria utiliza a rede social de Marc Zuckeberg para jogar e usar seus aplicativos.
-85% dizem que não conseguem ficar mais de um mês sem acesso às redes.
É difícil resistir ao vício: todos seus amigos estão nas redes sociais e você deseja conversar com eles enquanto baixa uma música ou vê um vídeo. E elas só ganham mais apoio dos novos celulares, ipods, mobiles e etc que usam tecnologia de convergência (ou seja, eles usam várias comandos num aparelho só: enviar mensagens, conectar á redes sociais, captar ondas de rádio, etc).
-34% conhece alguém que teve informações roubadas ou violadas nas redes sociais. A grande maioria ainda pensa que fornecer informações pessoais nas redes sociais não é seguro, e tem medo de ser vítima de roubo de informações.
Mesmo praticamente vivendo na internet, eles conhecem seus perigos. Vamos ser sinceros: roubar informações hoje não está tão difícil como o era há 10 anos atrás. As redes sociais até ajudam a fornecer dados demais, ou melhor, o suficiente para que uma pessoal mal-intencionada faça uma marvadeza. É claro, em alguns casos a sensatez pode ajudar, mantendo o mínimo de discrição, mas em outros não há como escapar. Um hacker potente pode entrar aonde quiser nas redes sociais.
Essa geração aprendeu a ter duas vidas: a real e a digital. E a próxima? Como será?

SOPA, PIPA... Ahn?

Você que está boiando nesse papo de SOPA, Megaupload, PIPA e o escambau, não se preocupe. Vamos explicar o básico do básico para você:


SOPA é a abreviação de Stop Online Piracy Act.
Já PIPA são as iniciais de Protect Intelectual Property Act. Estes são dois projetos apresentados no Congresso norte-americano no começo do ano que estão causando o maior burburinho.
O que estes projetos pretendem fazer é simples: criar regulamentos e leis para controlar os direitos autorais na terra do Tio Sam, o que implica na proibição da pirataria pela web. Quem propôs o projeto foi um senador republicano (Lamar Smith é seu nome), mas quem está por trás dele, é óbvio, são as grandes gravadoras de música e os mega-estúdios de cinema. Os maiores lesados com os donwnloads gratuitos.
Não é brincadeira: existe mesmo um Partido Pirata Brasileiro.
Se aprovada a lei proibiria que sites locais e com acesso aos EUA baixassem músicas, arquivos, vídeos, tudo. Várias pessoas criticaram o projeto. Dentre elas o próprio criador da internet, Tim Berners-Lee. Enfim, uma pilha de abaixo-assinados era encontrada toda manhã na casa dos senadores, sem falar das manifestações em frente ao Senado. Alguns sites como a Wikipédia e o Google entraram em greve. Enfim, foi uma puta mobilização e, no final das contas, os senadores voltaram atrás. A votação da SOPA foi cancelada e a da PIPA adiada. Mas nem todos os internautas saíram ganhando. O rebu sobre a antipirataria nos EUA veio acompanhado da notícia da prisão do dono do site de downloads Megaupload, Kim Dotcom, por uma operação do FBI contra pirataria.
O que pouca gente sabe ou se lembra, é que já tivemos nossa SOPA aqui, com direito a caldinho mineiro. Desde 2005 o senador do PSDB de Minas, Eduardo Azeredo, tem lutado para que seu projeto de lei sobre infodelitos, dentre eles a pirataria, seja regulamentado. A Lei Azeredo prevê que os provedores monitorem as contas de todos seus usuários, para em caso de um deles cometer algum crime na web foi rapidamente rastreado. A lei foi aprovada pela Comissão de Ciência e Tecnologia, pelo Senado e agora só falta a Câmara dos Deputados, apesar de mais de 140 mil assinaturas em um abaixo-assassinado e de protestos em Brasília e São Paulo.
O assunto é muito, muito complicado mesmo pois envolve várias questões como, por exemplo, a liberdade de expressão, a impunidade de crimes digitais, a violação da privacidade, etc. Quem dera fosse fácil colocar os que são a favor do controle da internet no banco dos vilões e os internautas e nerds nos dos heróis. A realidade é muito mais complexa que isso. O post de hoje é só uma introdução. Nos próximos dias falaremos desses problemas um por um. Vejo vocês até lá.

quarta-feira, 25 de janeiro de 2012

Manifesto digital


O site Pirate Bay, um dos maiores disponibilizadores de downloads da internet, publicou uma nota semana passada manifestando sua indignação com os projetos de lei que pretendem controlar os conteúdos da internet que rolam no Congresso norte-americano. Achei muito interessante o argumento histórico que ele utiliza na nota para provar que a indústria cultural está lutando contra algo do qual ela se nutriu por muitos anos. Aí embaixo está o conteúdo da nota:

INTERNETS, 18 de janeiro de 2012

Há mais de um século, Thomas Edison conseguiu a patente para um aparelho que faria “para o olho o que o fonógrafo fez para o ouvido”. Ele o chamou de cinetoscópio [Kinetoscope]. Edison não foi apenas o primeiro a gravar vídeo, mas foi também a primeira pessoa a ser dono do copyright de um filme cinematográfico.

Por causa das patentes de Edison para filmes cinematográficos, quase foi financeiramente impossível criar filmes de cinema na costa oeste norte-americana. Os estúdios de cinema, assim, mudaram para a Califórnia e fundaram o que hoje chamamos de Hollywood. A principal razão é que ali não haviam patentes.

Não havia também nada de copyright, então os estúdios podiam copiar velhas histórias e fazer filmes a partir delas – como Fantasia, um dos maiores hits da história da Disney.

Portanto, toda a base dessa indústria, que está hoje aos gritos sobre perda de controle sobre direitos não-materiais, é que eles driblaram direitos não-materiais. Eles copiaram (ou, de acordo com sua terminologia,”roubaram”) as obras criativas de outras pessoas sem pagar por isso. Eles o fizeram para obter grandes lucros. Hoje, eles são todos bem-sucedidos e a maior parte dos estúdios está na lista da Fortune das 500 empresas mais ricas do mundo. Parabéns – está tudo baseado em ser capaz de reutilizar criações de outras pessoas. E hoje eles detém os direitos das criações de outras pessoas. Se você quer lançar alguma coisa, você tem que seguir as regras deles. As regras que eles criaram depois de driblar as regras de outras pessoas.

A razão pela qual eles estão sempre reclamando dos “piratas” hoje é simples. Nós fizemos o que eles fizeram. Nós driblamos as regras que eles criaram e criamos as nossas próprias. Nós esmagamos o seu monopólio ao dar às pessoas algo mais eficiente. Nós permitimos que as pessoas tenham comunicação direta entre si, driblando o intermediário lucrativo, que em alguns casos levar mais que 107% dos lucros (sim, você paga para trabalhar para eles).

Tudo se baseia no fato de que representamos competição.

Provamos que a forma atual como existem não é mais necessária. Somos simplesmente do que eles são.

E a parte engraçada é que as nossas regras são muito similares às ideias que fundaram os EUA. Lutamos pela liberdade de expressão. Enxergamos as pessoas como iguais. Acreditamos que o público, não a elite, deveria governar a nação. Acreditamos que leis deveriam ser criadas para servir o público, não corporações ricas.

O Pirate Bay é uma comunidade verdadeiramente interacional. Nossa equipe está espalhada por todo o globo – mas ficamos fora dos EUA. Temos raízes suecas e um amigo sueco nos disse isso:

A palavra SOPA significa “lixo” em sueco. A palavra PIPA significa “um cano” em sueco. É claro que isso não é coincidência. Eles querem tornar a internet um cano de mão única. Eles por cima empurrando lixo cano abaixo para o resto de nós, consumidores obedientes.

A opinião pública nesse assunto é clara. Pergunte a qualquer um na rua e você vai descobrir que ninguém quer ser alimentado com lixo. Por que o governo americano quer que o povo americano seja alimentado com lixo foge à nossa compreensão, mas esperamos que você o impeça, antes que afoguemos todos.

A Sopa não pode fazer nada para brecar o Pirate Bay. Na pior das hipóteses, mudaremos o domínio principal: do atual .org para uma das centenas de nomes que também já usamos. Em países onde estamos bloqueados (os nomes China e Arábia Saudita são os primeiros que vêm à cabeça), eles bloqueiam centenas de nomes de domínios nossos. E adianta? Não muito.

Para consertar o “problema da pirataria” deveria se ir à raiz do problema. A indústria do entretenimento diz que eles estão criando “cultura”, mas o que eles realmente fazem é vender coisas como bonecas caríssimas e fazer meninas de 11 anos se tornar anoréxicas. Seja de trabalhar nas fábricas que criam as bonecas por praticamente salário nenhum, seja por assistir filmes e programas de TV que as fazem pensar que são gordas.

No grande jogo de computador de Sid Meiers, Civilization, você pode construir maravilhas do mundo. Um dos mais poderosos é Hollywood. Com ele, você controla toda a cultura e mídia do mundo. Rupert Murdoch ficou feliz com MySpace e não via problemas com sua própria pirataria até seu fracasso. Agora ele reclama que o Google é a maior fonte de pirataria do mundo — porque ele está com ciúmes. Ele deseja manter seu controle mental sobre as pessoas e está claro que você consegue um visão mais honesta das coisas na Wikipedia e no Google do que na Fox News.

Alguns dos fatos (anos, datas) nesse texto estão provavelmente erradas. O motivo é que não podemos acessar essas informações quando a Wikipedia está fora do ar. Por causa da pressão de nossos rivais decadentes. Pedimos desculpas por isso.

—THE PIRATE BAY, (K)2012
(Retirado do Blog do Estadão.)