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sábado, 27 de abril de 2013

Quase nirvana

Foto: Keyce Jhones.

Quando somos cínicos demais
é preciso redescobrir as pequenas coisas.

A folha seca que toca a superfície da água
traz lições de leveza.

Já o apressado beija-flor
se alimenta da beleza
lembrando que se pode encontrar
néctar em cada esquina.

quinta-feira, 29 de novembro de 2012

Jaguaretê


Os olhos da onça
garimparam o mato
Uma infeliz silhueta
se revelou.

As patas que acariciavam
o chão de folhas
em minutos
perderão toda sua delicadeza.

O ruído denuncia
mas já é tarde.
Agora, uma batalha se desenrola.
Na imensidão verde, manchas se perseguem.
Silêncio:
Menos uma capivara no mundo.

sexta-feira, 12 de outubro de 2012

QUILOMETRO 36 III


O VISITANTE
Naquele lamaçal no meio de tantas mãos sujas e camisas esburacadas, a figura do padre Orlando Marreiro era completamente surreal. Ali estava ele, com sua batina, ruça, mas ainda assim mais limpa que os trajes de seus fiéis. Ameaçava chover, mas a nuvem se revelou uma fanfarrona. A missa, exigência dos trabalhadores, ocorreu bem.
Anos depois padre Orlando me revelou que ao visitar o canteiro de obras tinha sentido algo estranho, uma vibração negativa. Estava certo que havia algo de ruim ali, só não se arriscava dizer de que entidade maligna se tratava.
Vocês nem imaginam o quanto um nome é importante. Em se tratando de magia ele faz toda diferença. O simples ato de nomear algo opera uma transformação. Se chego aqui, nesse terreno cheio de barro vermelho e maritacas, e do nada o batizo de Muquira estou condensando tudo o que ele simboliza em algumas palavras. Não faço ideia do que quer dizer Muquira, mas esta palavra me remete imediatamente a um mocambo bem aprazível, com suas casinhas de madeira pintadas de branco e azul claro.
Nas palavras se condensam a essência das coisas. Existem nomes que captam o âmago do que lhes é atribuído, principalmente se estamos falando de misticismo. Tudo tem o seu significado e uma pista para encontrá-lo está no nome.
O nome é controle. O fato de você saber o nome de certa entidade já é um trunfo, pois assim sabe como evoca-la. Se pode evocar, pode desconjurar também. Claro, isso já é mais complicado, depende mais da sua força. A chave para controlar o caboco era saber seu nome.
Desde que se tinha notícia da chegada do referido ente, nada dele se revelar. Outros pais de santo e médiuns daqui já tentaram falar com a coisa ou ao menos perguntar do exus e preto velhos. Nada. Sempre evasivos.
Andirá podia ser um tanto medroso, mas antes de tudo estava disposto a provar que era um babalorixá de peso. Depois de muito pensar na beira da cama, ao lado de Mãe Juriti, decidiu. Certa quarta-feira, largou as bênçãos e pedidos de proteção de lado. Foi direto. Queria saber o nome do sujeito. Qualquer que fosse a entidade que por ali aparecesse, perguntaria.
Os tambores começaram cedo. O cheiro de oferenda no ar, não era do incenso nem das velas romanas, mas da própria noite. Noite de lua nova. A cantoria vai engrossando. Andirá e as senhoras vão dando voltas pelo pátio de sua casa, arrastando a sandália e o pouco de areia branca jogado no chão.
A toada já estava na sua décima repetição. Uma das senhoras começou a sair do compasso. Cobria o rosto. Podia ser um orixá. Recompunha-se. Pôs se a sorrir. Pediu um doce. Era um preto velho.
Andirá lhe presenteou com um saco cheio de balas. Logo foi se apresentando como Pai Manuel das Onças. Ria com uma facilidade impressionante. Sua voz parecia estar constantemente entoando uma ladainha.
-Pai Preto, o sinhô é daqui?
Estava maravilhado com uma maria-mole que achou no meio do mar de balinhas mixurucas, respondeu depois de alguns minutos negativamente.
-Mas estou por aqui uns tempos, minino...
-Pai Preto, haverá de saber, por acaso, o nome de vizinho nosso que vive lá no mato, no oco de um jatobá?
Preto velho não estava fazendo suspense, apenas admirava o silêncio. Por alguns instantes só se ouvia o saquinho de papel das balas sendo desembrulhado. Pediu com as mãos a garrafa de pinga do rapaz que estava perto da zabumba. Com uma piscadela, metade da cachaça já tinha ido embora. Quando terminou, estalou a boca.
Enxugando os lábios, cantarolou um bocado e aí sim entrou na conversa.
-Pra que ôces querem saber nomi dele se já deram nomi pra ele?
-Nós, Pai Preto, precisamos do nome dele de verdade.
-Hmm... Eu inté podia falá, mas promessa é promessa, né, meu fio? Caboco que mora no tronco é homi perigoso, mas justo. Ôces não tem o que temer.
-Mas, Pai Preto, ele pode se zangar conosco pelo que estão fazendo com sua casa, mas nós não podemos impedir...
-Deixa disso, minino! Ele sabe, ele sabe. Caboco é mano velho. Tá desde antes do Encoberto* por aqui. Ôces tão com medo pruque é vizinho novo. Ôces não precebem que ele vai ajudar.
-Ajudar?
Preto velho fez uma careta, como se tivesse comido algo amargo. Em seguida alisou a cabeça.
-Ajudar do jeito dele. Medo, meu fio, é a língua que alguns homes entendi...
O estalo do chicote ressoava, mas só Preto velho ouvia.
O visitante agradeceu o lanche, se despediu abençoando cada um e dona Zuleide voltou a ser a ocupante daquele corpo. Andirá passou mais uma noite sem dormir, tentando digerir o que foi falado naquele quintal.
Seu Chico, quem diria, foi preso. Patarra andou cochichando no ouvido do prefeito e antes do dia terminar já haviam dois guardas parados na frente do bar do Waldinei a espera do pescador.
-Seu Chico, tá querendo esclarecer umas coisas com o senhor lá na Prefeitura.
Ele colocou o chapéu e o anel no dedo. Nem cara de raiva fez.
-Se é pra esclarecer, eu vou.
Quando chegaram na Prefeitura, o delegado Coriolano Camarão arrumou um barraco porque os policiais não tinham o algemado. Assim que foi pegar suas mãos, o velho esquivou.
-Eu vim aqui pra esclarecer um negócio!
Major Leão, pressentindo porrada a caminho, disse que a sabor das circunstâncias o melhor seria prender Chico porque haviam indícios de que ele estava armando balbúrdia em Muquira. Leia-se, assassinatos. Seu Chico se defendeu relatando seu eterno cotidiano de pescador. “Seu Chico, temos provas”. Não tinham porra nenhuma. Lembremos mais uma vez: esses eram os anos 70, boatos podiam prender alguém ou matar.
O prefeito pediu paciência do velho mocambeiro. Ficaria algemado só para acalmar os nervos do delegado de Quatro Pés, depois de dar algumas explicações seria solto. Coriolano não via a hora de interrogá-lo, mas á maneira antiga. Pediu permissão do Major Leão para usar seu cassetete e uma bateria de carro, mas preocupado com a imagem da Câmara relutou em dar carta branca ao delegado de queixo anormal.
Eu e Juninho Sabiá chegamos nesse momento. Já era noite e ninguém podia sair da cidade, por isso o delegado, seu Chico, o prefeito e nós passamos um longo tempo juntos tentando entender o que de fato tinha acontecido.
UMA DESPEDIDA DEBAIXO DOS LENÇÓIS
Ah, não nos esqueçamos do Dr. Osmar Menegullo. O bom rapaz que passava suas noites agora com Pequerrucha, uma das muitas meninas do Salão Shangri-lá. Sua esposa Maria Veridiana em São Paulo tricotava lendo suas cartas, entre um suspiro e outro. Não suspeitava nenhum pouco que aquela menina de olhos pequenos, boca carnuda, rosto anguloso e cabelos negros fazia o tipo de seu marido.
Pequerrucha, a conheci também. Não vou ser hipócrita. Eu, malandro que era (e ainda sou), não viveria em Jacamirim sem conhecer todos seus bares e puteiros. Salão Shangri-lá era o maior deles. Seu dono, Raimundo Pereira, se orgulhava de monopolizar o cacau e as putas de Jacamirim.
Para chegar lá, basta cruzar o rio em uma voadeira. Desde que os candangos chegaram aqui, balsas apinhadas de homens desesperados atravessavam essas águas toda noite.
A primeira vez em que fui lá, suas paredes ainda tinham o desenho de um pôr de sol amazônico com direito a garças e jacarés. Meio tosco, mas de encher os olhos. O chão era de azulejos xadrez. A cantoria ficava a cargo de dois sanfoneiros e um rapaz de bandolim que hoje tem quase dois metros de altura.
Assim que vi as meninas saquei tudo. Eram iludidas a irem para a cidade grande, mas acabavam chegando ali. A maioria era do interior. A exceção era uma gaúcha, a mais velha, que por sinal batizou aquela indiazinha de Pequerrucha. Maria Chaleira, a gaúcha, se orgulhava de ser cantora lírica antes de ter essa vida. Mas não renega seu atual emprego de maneira nenhuma. Apenas fazia questão de lembrar os safados que reclamavam do serviço que tinham dormido com a mulher que apertou a mão da soprano Bidu Sayão.
Do Salão Shangri-lá, apenas solicitei os serviços de três ou quatro empregadas. Maria era uma delas. As outras duas eram Pimentinha e La Hespanhola, lindas morenas que mais tarde descobriria que eram primas. As demais eram menores de idade e o escrúpulo, moeda rara nessas bandas, me impedia, até certo ponto me enojava, sequer de flertar com elas.
“O professor prefere a experiência, né?”, dizia o dono da casa toda vez que me via. Vivia me empurrando alguma “novinha”, mas eu resistia. Por fim, cansou de fazer isso.
Voltando a Pequerrucha, era uma garota – 17 anos no máximo – cheia de curvas e com um olhar ora melancólico ora altivo. Já foi disputada a bala entre dois peões. Felizmente, nenhum deles ganhou, já que os jagunços de Raimundo deram cabo dos dois antes que arrumassem mais quebra-pau em seu bordel.
Em algumas semanas, Dr. Osmar, amado pelas irmãs da Paróquia, já era cliente com cadeira cativa naquele antro de pecado. Convidado, aliás, pelo próprio dono. Penso que Raimundo, homem de falsa humildade, queria que o jovem engenheiro ficasse em suas mãos, por isso patrocinava suas aventuras sexuais ali, onde suas empregadas poderiam espioná-lo.
Seja como for, ele já tinha sua “novilha” fixa (expressão do próprio). Pequerucha ora perguntava se seria capaz de fugir com ela, ora afirmava que iria esquecê-la com o fim das obras. No seu íntimo rezava para que a construção demorasse. Pois bem, houve uma noite em que seu amante encantado lhe revelou a meio caminho do sono que no outro dia derrubaria a dita árvore. A menina arregalou os olhos, ficou muda. Lhe deu um beijo, como se fosse uma despedida.
UM TRONCO MORTO PODE SER BEM TEIMOSO
Duas coisas muito importantes aconteceram em 17 de setembro de 1973. Primeiro, Chico Tapera, independente dos nossos protestos, foi levado por Coriolano Camarão para a delegacia de Quatro Pés. A segunda, a derrubada da famigerada casa do caboco.
Os tratores estavam a postos. Alguns peões tinham saído da linha de frente e ficaram a olhar tudo de longe. Não fossem os berros dos capatazes teriam sumido. Capinaram o entorno. O susto da manhã foram duas cobras corais imensas. Um trabalhador pegou uma delas e passou entre os dedos: “faz a gente tocar viola melhor”, explicou.
Osmar observava tudo de sua tenda improvisada ali perto. Quando viu as escavadeiras avançando suas pás no tronco oco, desviou o olhar. Terminou seu cálculo, mas um eis que aparece Armindo Tavares, rouco, chamando-o.
A árvore não tinha caído, mesmo com duas escavadeiras empurrando-a. Osmar pediu que repetissem o feito. Nada. O tronco balançava, mas continuava fincado na terra. Os presentes e as velas tinham sido pisoteados e amassados pelas rodas dos veículos. Eram nada mais que uma pasta de parafina e líquidos podres.
Armindo pedia machados, facões, motosserras. Poucos valentes obedeceram. Um deles se benzeu umas sete vezes antes de tacar a peixeira nas raízes. Na terceira facada, caiu duro. Saía sangue do seu ouvido. Os demais pararam.
-Morreu?
-Não, isso tudo é psicológico.
-Patrão, tá escorrendo sangue ali, olha!
-Levem ele pra tenda, usem os primeiros socorros. Já!
Osmar tinha deixado o lápis cair no barro. Estava boquiaberto. Armindo tentava não perder a compostura. Ainda ditava ordens, mas os corajosos com facões e motosserras tinham pensado duas vezes.
-Corte esse tronco!
-Corta você!
Estava perdendo a moral. Três ou quatro correram, o capataz segurou. Um homem destinado a provar que não tinha medo optou por enfrentar a árvore. Os dentes da motosserra já tinham aberto uma ferida no tronco. Mas a máquina parou. Quando examinava-a, repentinamente voltou a funcionar. Descontrolada arrancou-lhe a mão.
Desesperado, o homem urrava de dor. Um círculo de homens ao seu redor agora tentava estancar o sangramento com trapos de suas calças. Carregaram-no para longe dali. Armindo, saindo do choque, voltou a dor ordens.
As escavadeiras tentaram mais uma vez e nada. O jovem engenheiro se viu, em poucos segundos, no olho do furacão. Tudo aconteceu ao seu redor. Dois homens tombaram e a árvore não. Um vento sem igual atravessou o canteiro de obras. Alguns galhos voavam.
-Osmar, temos que derrubar esse troço!
-Calma, calma, calma... estou pensando.
No cérebro do rapaz algo se materializava no meio de tanto assombro e caos. Cordas... Precisaríamos de corda, anunciou.
-Dessa vez usaremos três escavadeiras, não é possível que ela não caía...
Em cada veículo, uma ponta da corda. Faltava amarrar as outras pontas no tronco. Quem queria fazer agora? Os capatazes tinham se afastado. Beto, o mais próximo e franzino, recebeu a ordem. Duvidaram de sua macheza. Claro que era macho, mas por um momento desconfiar de sua virilidade parecia ser um bom preço a se pagar por sua vida. Armindo foi com ele amarrar a corda.
-Você amarra essa.
-Eu?
Osmar se surpreendeu com a ordem, mas estava tão assustado que parecia um menino obediente. Se apoiou numa das raízes. Pode averiguar que elas estavam tortas, amassadas, mas ainda rijas. Quando terminou o nó observou bem o corte feito pela motosserra. Dele saía algo. Algo líquido e escuro.
Voltaram ao chão. Armindo pediu para ligarem as máquinas, mas os operadores já tinham descido. O jeito foi eles mesmos fazerem o serviço. Beto teimava que não poderia fazê-lo, que tinham de liberá-lo porque não sabia mexer em escavadeira. O grisalho engenheiro revelou os simples movimentos, não havia mais desculpa.
Ao seu comando, todos deram partida. O ronco do motor era tudo que importava. Ao vendaval tentavam impor indiferença, menos Beto. Cada escavadeira para um lado. Foram quatro minutos de tensão. As cordas arrebentaram uma por uma.
A casa do calundu sequer balançou.
Estava a essa altura na cidade vizinha, junto com Juninho e Mestre Quinho, tentando conseguir com o delegado turrão uns minutos com Chico. Sabia de sua total inocência, assim como sabia que seria espancado por Coriolano quando estivessem ás sós. Nosso objetivo inicial era impedir que o interrogatório começasse.
Na porta da delegacia ficamos. Eu disse que seria o advogado do velho negro, mas não houve respostas. O sargento barrigudo que tomava conta da porta não nos deixava entrar. Mestre Quinho, homem pacífico de tudo, já estava a um passo de iniciar um quebra-quebra.
Finalmente o infeliz apareceu. Suando como um porco, o delegado chegou pedindo para que calássemos nossas bocas se não iríamos pro xadrez também. Juninho pulou na sua frente. Gritava: isso é uma injustiça, isso é uma injustiça!
Três tiros. O cano fumegante de Coriolano calou a todos nós.
-Eu quero ordem nessa porra!
Uma turma de crianças apareceu. Estranho, porque em caso de tiro eles são os primeiros a correr. Mas o fato é que eles chegaram correndo e quando deram por si o circo já estava feito. Pronto para voltarem, foram indagado pelos delegado qual o motivo de estarem tão afoitos. O mais magrinho, recuperando o fôlego, disse: a árvore.
E no seu tom meio fanho ficamos inteirados da incrível batalha entre as escavadeiras e o tronco maldito. Ficamos sem reação. Entreolhares, se foi o que fizemos, foi muito. O próprio Coriolano engoliu seco a notícia.
-Não é possível, isso! Deixem de papo e sumam daqui!
Enxotou e voltou para sua caverna, sua delegacia. Nós continuamos ali, cada um com seu silêncio, com seu pensamento. Dormimos na porta da “chefatura de polícia”. Esperávamos poder falar com nosso amigo. E não sei se queríamos voltar depois daquela bizarra notícia.

 (CONTINUA...)
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*Encoberto: como o rei português D. Sebastião é conhecido em muitas partes do Brasil. No Tambor de Mina acredita-se que o rei não tenha desaparecido no Marrocos durante a batalha com os mouros em 1578, mas entrado em um portal que o levou anos depois para o Maranhão, onde faleceu. 

segunda-feira, 8 de outubro de 2012

QUILÔMETRO 36 II

Aí está a segunda parte do conto, espero que gostem.


NINGUÉM SEGURA ESSE PAÍS
Muquira estava em polvorosa. Lembro bem: foi numa terça feira. Dei a notícia no boteco do Waldinei, na presença de Mestre Quinho, Chico, Sabiá e mais outro. O velho Mestre Quinho até tirou os óculos. Pensei que veria uma lágrima sair dali.
-Vão tirar a gente daqui não é?
-Eu não sei. Só sei que vão passar pela árvore.
Chico deu um sobressalto.
-Bando de quimbundo* safado! Não sabem de nada, esses filhos dumas putas...
Primeira vez em que ouvi um palavrão vindo do grande Chico. Mestre Quinho não disse nada, ficou pensando. Mais tarde consultou Pai Andirá para saber o que aconteceria se derrubassem a morada do caboco. “Eu sei de uma coisa: muita desgraça vem por aí!”
Aquela terça terminava com um por de sol violento. A noite foi povoada de pesadelos. Eu quase cai de minha rede duas vezes. Sonhava com aquele totem novamente. Depois de tanto tempo...
Noutro dia perguntei se poderia ver novamente a árvore, só para fixar bem a sua imagem. Não vi nem sombra de Mestre Quinho. Estava tentando entrar na prefeitura. Seu Chico me respondeu: “Estamos indo pra lá mesmo...”
A caravana cruzou o mato. Pai Andirá com seus colares entre os dedos, remexendo-os, na frente. Os outros homens carregavam bacias com cachaça, batata e frangos degolados. Eu próprio carreguei uma delas. Novamente as vozes. Fiquei com vergonha de perguntar se só eu as ouvia.
Colocamos as tigelas entre as raízes. O babalorixá começou a rezar. Disparou algumas palavras em jeje e tombou no chão. Antes que o levantássemos, acordou. “Pronto, agora vamos ver...”, finalizou.
Pensei que esse tinha sido meu último encontro com aquele obelisco de celulose.
Dois dias se passaram e alardeava-se no Diário do Tapajós a chegada dos engenheiros e dos tratores. Pai Andirá tinha assegurado que nada aconteceria ao povo do Muquira: á eles pelo menos o calundu não dirigiria sua fúria. Mestre Quinho protestava quase todo dia na prefeitura. A secretária só não lhe evitava porque não tinha para onde fugir. Engraçado que ele sempre saía com a mesma camisa azul, o que lhe valeu o apelido de Azulão pelos mexeriqueiros.
-Lá vem o Azulão reclamar!
O alto e grisalho marceneiro ficava ainda mais fulo da vida com as brincadeiras. Começava a discursar para o vento, uma vez que todos se afastavam quando percebiam a intenção do ancião do mocambo.
Os tratores ficaram instalados atrás da Rua do Comércio, protegidos pelos capatazes do Sr. Raimundo Pereira, fazendeiro de cacau e mantenedor de um bordel do outro lado do rio. A recepção aos engenheiros partiu de Alexandre Patarra. Mestre Quinho compareceu, assistindo a tudo de braços cruzados. No meio da oratória, um vendaval arrebatou a folha da mão de Patarra. Despenteou também o belo Dr. Osmar Menegullo, o engenheiro chefe no alto de seus vinte e poucos anos.
O secretário de educação se recompôs e completou o discurso no improviso com um habitual viva ao presidente e o progresso. “Ninguém segura esse país!” foi o ponto final.
OS TERRÍVEIS “PIAUÍ”
Os tratores já tinham arrancado da terra úmida um cem número de raízes. O chão de folhas secas estava pelado.  Acompanhava o avanço das máquinas dia a dia o Dr. Osmar Menegullo e os seus assistentes, Dr. Péricles Santos e Dr. Armindo Tavares. Dois homens de meia idade que invejavam o cargo e a fama de seu jovem superior.
O número de candangos era proporcional ao número de frequentadores da Taberna da Lua. Confusão não faltava. Era cidadão tentando provar que era mais homem que o outro na bala e coisa e tal. Eu sei que a polícia dali, pela primeira vez na vida, teve trabalho.
E os policiais já tinham uma tipologia do crime: os cearenses eram mais de beber, os paraibanos eram mais enxeridos com as meninas-dama e os piauienses, esses eram brabos.  Tinha um bando de irmãos, os Piauí, que tinham uma fama lendária. Cada um deles carregava nas costas pelo menos sete óbitos. Mas morte mesmo ali, enquanto a construção rolava, nenhuma.
Por enquanto.
Um dia alguém surge na frente do escritório improvisado do Dr. Osmar. Um negro troncudo, braço cheio de veias, chapéu escuro, costeletas grisalhas, olhar miúdo, mas forte.
-Preciso falar com o senhor, Dr. Osmar.
-Pois não?
Depois de se cumprimentarem, Osmar percebe a falta de um dedo na mão de seu visitante.
-Sou morador dessas bandas, venho lá do mocambo. Me chamo Francisco. Nós lá, somos gente simples, sabe? Por isso o prefeito não nos ouve. Eu vim falar com o senhor, fazer um pedido.
-Qual seria?
-Por favor, lhe peço por tudo que é mais sagrado: não mexa naquela árvore.
-Que árvore?
-É um jatobá que tem há uns passos daqui. Grande, seca, escura. Tá cheio de coisa em volta dela. É que, o senhor pode até estranhar, mas vive um bicho, um espírito dentro dela e não é bom mexer com essas coisas.
O rapaz ouviu tudo. Os boatos do prefeito só foram confirmados por Chico: são macumbeiros contra o progresso. Disse que veria o que faria, que tentaria desviar a estrada da árvore. Mas entre o projeto e o mocambo não era difícil adivinhar quem ele obedeceria.
Naquele dia tive um sonho. Assim que acordei anoitei no meu caderno amarelo (das minha divagações próprias) aquela história surreal: Tudo estava embaçado, tudo cinza. Respirava ofegante, mas de uma forma estranha. Sabia que estava no mato, porque ouvia o som das folhas sendo pisadas. Sem ver e ouvir direito, corria. Sentia as folhas, os galhos roçarem em meu rosto. Não doía. Era então uma força selvagem. Disparei. Manchas brancas lá. Aproximei mais furtivamente. Sombras, aqui e ali. Avancei sobre as duas e o resto ficou no terreno dos sonhos esquecidos pela manhã.
O mocambo amanheceu com o cantar manhoso do galo de Dona Veridiana. Quando estava preparado para devorar o pão com tucumã de Dona Zuleide, minha anfitriã na comunidade, acompanhado daquele cafezinho forte o guarda me aparece. Pálido e sem fôlego.
-Vocês... notaram... alguma coisa estr... estranha, por aqui?
-Não, por que?
-Nada...
Dona Zuleide se impôs:
-Ah não, entrou na minha casa e não quer dividir a fofoca, eu expulso.
-Mataram... umas pessoas... os Piauí.
-Meu Deus! Veja só!
As notícias começaram a chegar, de todos os tipos e tamanhos. Com o tempo chegamos a um consenso: dois peões, depois de beberem, voltando para a sua tenda, foram emboscado pelos irmãos. Agora, onde estavam os Piauí? Numa hora dessas no Piauí de novo, arriscava Mestre Quinho.
O mais bizarro era o estado dos corpos. “Ticados”, no dizer do povo daqui. Ou seja, cortados em vários pedaços como um legítimo churrasquinho grego. E isso não foi obra de faca, mas de enxada, pelo tamanho dos cortes.
Pai Andirá chegou na reunião com um olhar dramático. Com aquela cara de que sabe de algo que os outros nem imaginam, tremendo o beiço (como era dramático!).  Mestre Quinho perguntava do afilhado se isso era um sinal do calundu. Isso não é um sinal, é um acerto de contas, revelou como se recitasse Macbeth.
*
O toque de recolher tinha atingido até a Taberna do Laerte. Não era algo imposto pelo prefeito, assustado, mas coisa da própria população, temerosa que os malfeitores voltassem e fizessem mais uma vítima.
Nesse momento as atenções recaíam sobre dois colegas de trabalho que tinham sido jurados de morte pelos irmãos. Um deles, um homem chamado Severino, andava armado com todo tipo de coisa, de facão a pistola. Sempre atento, sempre arisco.
As obras prosseguiam. Dr. Osmar aparecia agora só esporadicamente no caminho lamacento aberto no mato. A poucos metros do temido jatobá estava o próximo picão, demarcando a área que seria “limpada” em breve. Eis que surge no meio das obras um homem gritando.
Imundo, colérico, aquela figura carrega algo na mão. Uma cabeça!
-Eu consegui! Eu ganhei!
Olhando mais a fundo o homem misterioso revela-se ser Severino. Controlado pelos peões, põem-se a chorar.
-Pensei que ia morrer...
A cabeça. Um corajoso a pegou. Bateu o olho, reconheceu. Piauí, o caçula. É ele, carcomido, mas é.
Uma multidão esperava a polícia trazer o novo sortudo morador da prisão de Quatro Pés, cidade vizinha. O delegado encheu de porrada o homem. Queria ouvir algo com sentido da boca do sujeito, mas nada. Só dizia que se perdeu, que os Piauí apareceram, que os três irmãos viraram cem, um deles virou onça, outro sucuri. Desesperado e encurralado, avançou com seu facão. Só conseguiu atingir um deles. Depois saiu em disparada.
Essa história já é manjada. Alucinação de quem não entrega presente ao calundu. Resultado: perde-se o caminho, perde-se a razão. Mas a cabeça do delinquente era bem real.
Buscas foram feitas na mata do Muquira. Chico Tapera á frente. Eu, como sempre curioso e enxerido, estava no meio. Um cheiro podre atacou nossas narinas. As moscas denunciaram a posição dos defuntos. Todos os irmãos Piauí, até o degolado. Mortos há dias, deduzindo pelo estado de suas ossadas.  Sem rastro de bala ou de faca. Não trouxeram presente também, deu nisso, concluía seu Chico longe dos policiais.
Bem, nesse momento ainda se apegava á meu racionalismo. Cheguei a imaginar até um encontro a la Era uma Vez no Oeste entre os irmãos maléficos e o jurado de morte. Mas não haviam balas. A posição do mais velho me intrigava: ajoelhado.
A suposição de Mestre Quinho era bem interessante: o espírito matou os dois primeiros candangos por terem tocado na árvore quando estavam bêbados. Sabendo das mortes e que seriam incriminados por elas, os irmãos fugiram. Passaram pelo jatobá sem saber das oferendas. Ficaram amalucados e morreram, depois chegou a vez de Severino, que cruzou o caminho do espírito sem saber, e pagou com a perda da sanidade.
Muito interessante, mas refutei por não acreditar em espíritos. Alexandre Patarra também. Culpava os candangos por terem feito da nossa amada cidade o cenário de um faroeste sangrento. Na janela da prefeitura, Major Leão observava a cidade, recitando em segredo o Salmo 91.

RASTROS
Você pode imaginar como o clima ficou pesado na cidade depois da prisão de Severino e a descoberta dos restos dos Piauí. Os trabalhadores da estrada estavam tensos. Ouviam falar nas ruas que o culpado de tudo era uma visagem que vivia em um tronco. Era o bastante para pensarem duas vezes antes de irem descansar á sombra de qualquer árvore na hora do almoço.
As primeiras fugas começaram a preocupar o grisalho Dr. Armindo Tavares. A empreiteira, já preocupada, recrutava trabalhadores locais. Mas poucos se dispunham a enfrentar o terreno do calundu maldito.
Em Muquira se respirava medo, embora Pai Andirá garantisse que nada aconteceria com a comunidade. Até que ponto algo é 100% seguro? Uma vez em Nhamundá preparado para matar um jacaré amarrado e segurado pelos seus parceiros um homem morreu. O jacaré não precisou fazer nada. Ele foi levantar o machado, perdeu o equilíbrio e caiu do barranco. Quando parou de rolar, já tinha quebrado a perna. Morreu a caminho do hospital.
As obras foram interrompidas por um tempo. Uma rápida folga poderia afastar essa besteira de espírito do mato da cabeça dos peões. Osmar ainda acreditava ferrenhamente que o responsável pelas mortes era o negro velho que veio lhe falar. As mortes foram o meio que ele encontrou para barrar o andamento das construções. Não podia provar, infelizmente, mas já tinha apresentado a sua hipótese ao prefeito e ao secretário de educação.
Foi o bastante para que o esquálido secretário se tornasse Sherlock Patarra. Pegou seu fusca Wolkswagen 66, o carro mais possante da cidade até a chegada do Toyota amarelo de Menegullo, e foi para Quatro Pés. Da conversa com o delegado não pode aproveitar muita coisa. Severino continuava aluado. Conseguiu dois minutos com o prisioneiro para perguntar quem tinha o contratado para matar os candangos. Ao invés de “Chico Tapera” ouviu “Nosso Senhor Jesus Cristo”. No final do dia a sensação de ter gastado gasolina e tempo á toa veio.
Mestre Quinho evitava falar no acontecido, ao contrário de Dona Zuleide que para cada vez que mencionava o caboco se benzia três vezes. Eu apenas anotava a reação das pessoas em meu bloco de notas. Para mim isso tudo ainda era uma pesquisa etnográfica. Revirando as folhas do caderno amarelo encontrei coisas esquisitas. Era a minha letra só que muito mais inclinada e corrida, como se todas as aulas de caligrafia do jardim de infância tivessem sido em vão.
Era meu sonho, tinha anotado ele. Talvez após acordar suando em bicas tenha vindo á minha mente o desejo de registrar essa loucura para que futuramente um psicanalista a decifre. O fato era que não me lembrava de tê-lo escrito. Aos poucos algumas imagens e sensações foram emergindo e formando um quebra cabeça de peças soltas: aquele emaranhado de escuridão, sombras se movendo, as folhas e o barro sob o meu pé, o vento batendo no rosto como um chicote, gritos. Quebrei a cabeça a tarde inteira. Na falta de solução fui ao bar do Waldinei procurar respostas num copo de cachaça e num papo com os amigos. A embriaguez pode ser um bom método investigativo também...

(CONTINUA...)
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*Quimbundo: palavra de origem africana, forma pejorativa de se referir á alguém.

sábado, 6 de outubro de 2012

Quilômetro 36

Bem, gente, aqui vai um pedaço do conto de suspense que ando preparando. Espero que gostem:

QUILOMETRO 36

O ENCONTRO
Sussurros. Não eram nossos. Todos estavam rigorosamente quietos. Até os pássaros. Rezava para que fosse o vento.  Do meio do mato, avisto algo. Era ela. Imponente, erguida como um monumento aos espíritos da selva. A torre vegetal era seca e não tinha uma copa como suas irmãs. No centro uma estranha mancha negra. Meus olhares, contudo, se concentraram nas raízes que abrigavam todo tipo de oferenda: carabinas, enxadas, retratos, bonecos...
Em cada ponto uma vela. Aquelas velhas coloridas tingiam as raízes largas da árvore, como se a planta estivesse sangrando. O cheiro era horrível. Restos de comida com parafina e coisas mofadas. Tudo parecia velho e digno de ser saboreado pelas moscas, mas depois de um dia na mata tudo fica com essa cara.
Circundava lentamente a toca do espírito tão falado. Chico Tapera sempre me acompanhava. Os outros não ousavam entrar na clareira. Cochichavam. Aquela mancha... Não é produto de uma queimada. Parece algo que brotou de dentro da árvore, como um cancro.
“Não toca, senão morre”, adverte Chico. Esclarece: “Se tocar, ele vai te matar”. Agradeci, de forma mecânica, mas hoje sei o quanto devo á esse homem pelo aviso. Admirava a mancha tão profundamente. Nem por um minuto reparei que os sussurros tinham parado. Agora pairava um silêncio de morte.
Tapera revirava a algibeira a procura de algo. “Vamos logo, seu moço”.  Enfim achou o presente: depositou o par de sandálias nos pés da planta sobrenatural, sem olhar pra cima. Perguntei se tinha algum critério para a oferenda. Respondeu-me, apressando o passo: “O que tiver na mão, seu moço...”
Saímos de lá. Ninguém tinha coragem de olhar para trás. Eu não via a hora para desenhar a famosa Árvore do Calundu no meu bloquinho. Há meses que espero por esse momento mágico que no final das contas se revelou sinistro. Que o digam os calafrios que ainda passam pelo meu corpo quando menciono o fato.
Sim, calundu. É como são chamados alguns espíritos nas culturas de raízes africanas. São geralmente muito emotivos, deixando-se levar pelo dengo ou pelo ódio. Depende da situação. Há céticos, assim como eu, que dizem que eles são apenas uma forma encontrada por estes povos para explicar mudanças repentinas de estado de espírito como aquelas enfrentadas pelas pessoas bipolares.
O que vivia naquela árvore, no entanto, não era um calundu, mas na falta de nome melhor ficou conhecido como tal. Calma, explicarei melhor: os terreiros da comunidade de Muquira são visitados por muitas entidades do Tambor de Mina, uma religião de matriz africana predominante aqui no Norte do país, e foi por uma delas (Pomba Gira) que descobriu-se que um espírito vivia naquela árvore solitária.
Entre uma gargalhada e outra, a Pomba Gira respondeu ao Pai Deco:
- Mais cuidado tem que ter com o sinhô que vive lá no meio do mato. Aquele caboco, aquele quimbundo !
Até então todo mundo já estranhava que havia algo de errado com os corpos encontrados na mata. Eram gente experiente em abrir caminho no meio do mato que morriam de fome ou envenenados. Um foi encontrado vivo, mas amalucado. Ouvia todo tipo de sussurro. Diz que o dia se fez noite, a água do cantil sumiu e espinhos surgiram na alpercata. Esse era Timbó, mateiro* e pai de Chico Tapera.
No terreiro de Pai Deco certa noite tiraram a dúvida através da Dama da Noite. Então todo mundo passou a reparar naquele jatobá seco.  A mancha que trazia em seu tronco não existia antes, todos tinham certeza. Para evitar mais mortes, só agradando o caboco**. Qualquer um que passe tem de depositar ali uma pequena oferenda ao espírito zombeteiro. Senão, capaz de se perder nessas bandas. E em caso de mexer com o lar da criatura, a pena vem na forma da morte mais horrenda que puder imaginar.
Claro, sabe-se disso há uns 40 anos atrás. Tempo suficiente para todo mundo conhecer o caboco. E quem conhece, teme. Não tem nome, não aparece no terreiro, mas é presença confirmada na prosa dos velhos no boteco ao fim do dia. Sempre alguém retira um causo do calundu do jatobá lá do fundo da memória.

MÁS NOTÍCIAS
Em todos os meses em que morei em Jacamirim só conversei com o prefeito duas vezes. “Conversa” na realidade é eufemismo: “interrogatório” é mais adequado. A primeira foi assim que cheguei aqui. Um dos seus assessores foi me receber no Porto das Catraias e revelou que o Major Rubens Leão queria falar comigo. Esperei por uns 30 minutos em uma antessala da câmara, contando quantos azulejos estavam encardidos e quantos estavam limpos ali. Enfim, fomos apresentados. Major Leão era um homenzinho a caminho da calvície, digno de ser esquecido não fosse seu marcante bigode, geometricamente aparado.
-Fez boa viagem?
-Sim. Só quando estávamos aqui perto que houve um rebuliço. Parecia que haviam muitos bancos de areia...
-É típico. Época de seca, os bancos de areia surgem no rio. É típico... Professor, que mal lhe pergunte, mas qual a sua opinião sobre o Brasil?
-Como assim?
-Sua opinião política sobre o Brasil? Você acha que as coisas vão bem ou...?
Em outras palavras, ele queria saber se eu era comunista. Hoje uma pergunta direta não intimida ninguém, na verdade, até constrange alguns, mas intimidar, não mais. Mas, entendam, eram os anos 70. Tempos de Milagre Brasileiro, Tempos de Araguaia. Você é um prefeito e de repente chega na sua cidade um rapaz paulistano com cara de alemão que diz que vai se embrenhar na mata para fazer uma “pesquisa de campo”. O que pensaria?
Fiquei desconcertado, mas fui bem retórico na minha resposta. Na realidade, tinha rompido com o pessoal do Partidão e no momento nenhum daqueles grupos radicais me agradavam. Guerrilha era algo que não me convencia. Eu também já estava meio pessimista em relação á revolução, mas de alguma forma ainda me considerava de esquerda.
Passaram-se sete meses, nunca mais fui chamado para “dar pingos aos is”, mas me sentia vigiado. Pode ser paranoia minha, mas em todo canto achava alguém que desviava o olhar quando reparava que eu tinha olhado para ele.  Então, o secretário de educação, Dr. Alexandre Patarra, o nosso pedante municipal, me disse que o prefeito desejava me ver novamente.
Lá fui eu para aquela repartição pública triste e quente. A cor do chão e dos batentes era um verde amarronzado, lembrando vômito. A decoração sempre diz tudo... Encontro um Major Leão de sorriso fácil e careca lisa. O bigode continuava o mesmo, majestoso. Depois dos habituais salamaleques entramos de cabeça no assunto em questão:
-O senhor sabe da estrada, não?
Como não saber, é só no que se fala aqui. Em estrada e hidrelétrica. E pra variar, em hidrelétrica e estrada.  O governo prometeu fazer uma rodovia que vai ligar o interior do Pará com Manaus. As construções já começaram a seguir o Tapajós e encontraram a pacata Jacamirim.
-O senhor que vive em Muquira há um certo tempo... pode me ajudar a responder uma coisa: o povo de lá anda revoltado com a estrada?
-Bem, revoltado não. Estão mais para preocupados, afinal ela vai passar muito perto da comunidade deles e tem alguns recantos que eles não podem perder como as cacimbas, a árvore...
-É típico. Até entendo a preocupação com as cacimbas, mas aquela árvore morta? O meu maior medo, professor, é que justamente por se tratarem de pessoas que não tem o estudo que eu e o senhor tivemos eles possam arrumar confusões por coisas sem sentido como essa árvore, me entende?
Para bom entendedor meia palavra basta: a rodovia derrubaria a Árvore do Calundu. Como essa conversa se deu antes de todo o acontecido, preocupei-me mais com os quilombolas que com os infelizes que mexeriam com o caboco.
-Professor, tudo o que lhe peço é que apazigue os ânimos daquele pessoal. Essa rodovia é ordem de cima e irá ajudar a desenvolver a nossa cidade. É justo sacrificar o destino inteiro de uma cidade por causa de uma miserável planta?
Deixei nosso Napoleão ribeirinho contemplando seus memorandos. Estava puto da vida. Já vi que seria eu o primeiro a dar aquela notícia á meus amigos.

DE COMO CHEGUEI AQUI
Tudo é caos, tudo. Mas a maior das anarquias sempre é despertada pelo menor dos detalhes. É o que diz a Teoria do Caos. Uma borboleta provocando furacões é difícil de acreditar, principalmente quando você acha que é dono do seu próprio destino. Difícil de admitir que o seu futuro esteja nas mãos, digo asas, de um pequeno e singelo inseto.
O responsável por minha estadia aqui nessa cidadezinha não foi uma borboleta, mas uma traça. Lá pelos meus vistosos anos de graduação em Antropologia, decidi consultar a biblioteca de meu falecido pai. Procurava livros que pudesse trocar nos sebos. Naquelas estantes abarrotadas encontro um exemplar atacado por uma traça impiedosa. Passaria totalmente desapercebido como os outros, não fosse aquele buraco imenso. Folheando, tentando ter uma dimensão do estrago, me deparo com uma foto.
Um totem esculpido em uma pedra. Olhos imensos, cortados por ao que parecia uma sobrancelha maligna. Para completar, uma boca monstruosa com dentes afiados. Uma pequena planta tinha nascido ao lado da rocha, dando a impressão de ali se encontrar a pata da criatura. Adivinhe com que sonhei naquela noite.
Fiquei de tal forma maravilhado que decidi me enveredar pelo campo de estudo das práticas mágico-religiosas. Não desejava falar de pequenas capelas de beira de estrada, mas de coisas com maior impacto em suas comunidades. De cara, mirei minha bússola para o Norte-Nordeste. Era onde todo mundo na época dizia que ainda sobrevivia “formas arcaicas” de cultura. Fui na onda desse pessoal.
Em um simpósio um pesquisador de Tambor de Mina me diz que lá no interior do Pará existe uma comunidade quilombola que cultua uma árvore onde dizem morar um espírito. “Alguém já falou sobre isso, Sérgio?” Diante da negativa, meus olhos brilharam.
Seria o trabalho da minha vida. A obra prima acadêmica de Reinaldo Denker, herdeiro irresponsável e antropólogo de quinta. Despedi-me de minha irmã e meti o pé na estrada. Melhor, no avião. Minha mana tento me convencer a desistir dessa loucura. Primeiro, por causa dos militares, depois por causa dos pistoleiros, índios, enfim, da gente do sertão. Foi em vão. Sou teimoso.
E aqui estou desde então, graças àquela maldita traça.
Foi difícil no começo. Tive que mudar radicalmente de vida. Não podia ser um bon vivant em plena selva amazônica. Estranhamente todos na cidade se demonstraram simpáticos com o “gringo”, tirando, claro, os homens do Major Leão e o mocambo de Muquira.
Os moradores do mocambo são pessoas desconfiadas de tudo. Não lhes tiro a razão. Quando me dirigi ao líder da comunidade, Mestre Quinho, este me fez uma série de condições tal qual um negociador puro sangue de Wall Street. Eu, impactado, aceitei. Uma delas era explicar tintim por tintim a minha pesquisa.  A outra era não publicar nada que não passe pelo crivo de Quinho ou de seus afilhados.
A árvore só seria apresentada depois que tivessem certeza de minha índole. No começo me conformei com isso, afinal, era bom que assim captava um pouco do cotidiano da vila e de alguns de seus personagens. Depois, me desesperei: o prazo do mestrado não era tão curto e a tal árvore a cada dia parecia mais longe.
Á essa altura já era conhecido como Tio Branco pelas crianças. Todo mundo me chamava de “Professor” ou de “Alemão”, pelas costas. Chico era o único que ainda me tratava como “seu moço”. Respeitava-me muito, e a recíproca era verdadeira. Tinha cara de poucos amigos, um olhar de congelar a alma e um silêncio por si só expressivo. Mestre Quinho sempre o consultava, para inveja do sucessor do Pai Deco, Andirá. Sobre seu passado não tenho muito conhecimento.  Juninho Sabiá disse que ele já foi garimpeiro e jagunço. Não duvido.
Em Jacamirim era conhecido como o homem que matou uma onça com as mãos.  O sábio Alexandre Patarra cansou de desmitificar o “causo do preto mentiroso” no jornal Diário do Tapajós. Uma vez, para minha sorte, ouvi o próprio Chico contar a história: sabia que ela estava o seguindo, então subiu no alto de uma árvore, quando ela passou por debaixo, se atirou. Apertou a sua garganta até matá-la. Levou algumas mordidas, mas o importante é que saiu vivo e com um couro de onça impecável.
O couro? Vendeu para um regatão. “Mas, seu Chico, não seria melhor guardar ele como recordação?” “Seu moço, de recordação já conta o cotoco que ganhei”, dizia alisando o que um dia foi seu polegar.

(CONTINUA...)

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*Mateiro: sujeito responsável por abrir picadas e caminhos no meio do mato.
**"Caboco": forma como referem-se ás entidades menores no culto de Umbanda e Tambor de Mina na região Norte.

domingo, 26 de agosto de 2012

Crônicas das águas


Em homenagem ao grande poeta das águas, Alcides Werk (1934-2000).

ÁGUA CORROMPIDA
As pequenas ilhas são  sofás, caixotes.
Os peixes agora são garrafas peti,
os verdadeiros, de carne e osso, viraram fantasmas.
Quem sabe aquela bolha ali seja mais um agonizando.
As casas com as canelas finas mergulhadas no igarapé
e os urubus na outra margem despovoada
apenas observam essa triste metamorfose
da água cristalina em alguma forma de pixe.

CALÇADA
A mangueira rega a calçada
e as plantas sedentas ao redor
observam a vida que escorre.


DA POESIA
Água - simples, cristalina e vivificante.
A poesia almeja ser como a água.
O poeta é como um alquimista,
mas sua meta não é fazer do chumbo ouro, mas água.
-Já saciou sua sede de poesia hoje?


TORNEIRA
A válvula abre
e ela jorra.
Mãos sujas,
pratos manchados
e copos usados
agradecem a pequena cachoeira encanada.

TIETÊ
Água maltratada pode ser vingativa.
Enjaulada pelo concreto,
espera as chuvas para sua vendeta.


ENCONTRO DAS ÁGUAS
Duas cores se abraçam
no meio da serpente líquida.
É o espetáculo que se repete á milhões de anos
- A Natureza sempre pede bis.

POROROCA
A onda vem engolindo as margens só para depois devolvê-las.
Vem rápida, arrasta troncos e desavisados.
E se dilui no rio-mar,
afinal esse é o destino das ondas solitárias.


HORA DO ALMOÇO
Pernas e braços batendo,
pranchas e bóias se mexendo.
Há sempre algum tubarão faminto
que aprecie esse caos.


DESENCONTRO DAS ÁGUAS
Manilhas vomitam no rio
podridão e desrespeito.
Se peixes pudessem chorar
já teriam salgado essas águas á muito tempo.


PARAÍBA DO SUL
O barro divide espaço com o lixo.
O rio assiste á estranhos monumentos tentando domá-lo.
Corre, enquanto pode, para seu encontro com o oceano.

A MAGIA DAS ÁGUAS BARRENTAS
Na água turva, ocorre a transformação:
Jacaré vira tronco
Peixe vira folha-seca
Tartaruga vira pedra.
E alguns seres desaparecem,
como aquela cobra que estava olhando para a folha-seca.



quinta-feira, 2 de agosto de 2012

Caeiro na canoa


Enquanto atravessava a planície líquida, admirava suas margens. Os galhos se intrometendo no caminho, as folhas reluzindo como vitrais, os troncos afogados. Maritacas, jandaias e araras celebrando a manhã. A manhã que nunca será a mesma. As araras descobriram o valor da vida antes dos filósofos, pensava. Não há melhor metafísica que o esquecimento. O doce esquecimento que repousa na sensação. O doce esquecimento da selva.
A canoa atravessou o igapó e ele deixou para trás uma gota de saudade.

quarta-feira, 11 de julho de 2012

Meu amazonólogo favorito


Muito já foi pensado e falado sobre a Amazônia. Acredito que a maior contribuição veio de Djalma Batista (1916-1979).
Médico e amante das artes, principalmente da literatura. Devotado á saúde e a Amazônia, á saúde da Amazônia.
Colocou seu estetoscópio no coração da Hiléia e ouviu sua respiração ofegante, cansada de massacres e de desperdício.
O diagnóstico era simples: o desconhecimento gera desentendimentos, seja entre os homens, seja entre o homem e a natureza.
A primeira parte do tratamento não é tarefa fácil: conhecer. Conhecer o que Euclides da Cunha chamou de indefinido. Desvendar a selva e seus signos ajuda a entender a consequência de sua má utilização.
O segundo passo é apostar na utilização consciente dos recursos locais. A Amazônia, conclui Djalma, possui uma grande força que é ser um bioma tão rico e uma grande fraqueza por ser um bioma muito vulnerável. O imediatismo e o egoísmo do homem só tem realçado essa fraqueza.
A história da Amazônia tem sido a exploração desordenada. O homem só tira da selva, quase não cultiva ou preserva. É muita presunção e ingenuidade pensar que a floresta sobreviverá para sempre ou que os campos de gado, madereiras ou pólos industriais podem trazer mais benefícios que desvantagens.
O remédio, diz o bom doutor, é um processo racional de exploração. Algo que nos ajude sem destruir a floresta. É o "desenvolvimento auto-sustentado".
Na época, os anos de chumbo no Brasil e a guerra fria no mundo, poucos colocariam fé nesse seu remédio, hoje porém o que mais se fala é em desenvolvimento sustentável.
Grande Djalma: além de médico e intelectual também era um profeta, um profeta da sustentabilidade.

(Notas, 25 de Agosto de 2009 - Manaus/AM)

domingo, 1 de julho de 2012

Tombaram a Cidade Maravilhosa!


A novidade chegou pela boca da ministra da Cultura Ana Holanda que estava em Haia, Suíça, em uma reunião com a cúpula da UNESCO: A cidade do Rio de Janeiro foi tombada como patrimônio mundial da Humanidade. É possível tombar uma cidade? Sim, existe um quesito para patrimônio histórico e cultural na UNESCO que engloba justamente as cidades: Paisagem Cultural Urbana. Na realidade a cidade inteira não é tombada, mas apenas alguns pontos considerados como centrais. No nosso caso, foram  Baía de Guanabara, Enseada de Botafogo, Pão de Açúcar, Corcovado, Floresta da Tijuca, Aterro e Parque do Flamengo, Jardim Botânico, Praia e Forte de Copacabana, Morro e Forte do Leme, Arpoador, Pedra da Gávea,Jardim Botânico e Passeio.
Claro que é preciso um diferencial para certa cidade ser classificada e outra não e no caso do Rio, segundo os relatórios encomendados, esse diferencial seria a relação que o carioca tem com o ambiente. O modo como ele se adapta á geografia dos morros, das florestas e das praias. Com o tombamento confirmado, agora resta o governo municipal, estadual e federal se comprometerem a preservar estes locais, relatando periodicamente como os cuidados tem sido ministrados á estes lugares.
Eu fiquei feliz, como todo carioca ficaria, e preocupado, como todo bom carioca ou como todo bom carioca pessimista ficaria, ao saber disso. Mas deixo para dizer o porquê em outra oportunidade.

quinta-feira, 21 de junho de 2012

Mais uma prova de que aqui a poesia é uma doença tropical:

A VÁRZEA
ALDÍSIO FILGUEIRAS

A várzea sofre
tantas cirurgias plásticas
que o olho
arguto dos práticos
se perde
na ciência do rio.

O rio não se decide
A terra não pára

A margem
figura
e
geografia nômades
tem os seus dias contados
tem os seus dias contados

mas é aí que o homem
se planta e vegeta
sua rude solidão.

(Estado de Sítio, 1968).

sábado, 19 de maio de 2012

29, 8 metros!


O assunto da semana tem sido a cheia do rio Negro. A marca do nível do rio já ultrapassou o das enchentes históricas de 1953 e 2009. Vou propor aqui uma comparação entre estes dois momentos.
Em 1953 Manaus ainda era uma cidade que estava sofrendo com o fim da economia da borracha. A cidade não tinha serviços urbanos eficientes, porque a maioria, que ficou a cargo das companhias inglesas, estava ao desalento. Na época, a cidade não era tão grande e não tinha políticas públicas adequadas. A enchente aqui foi devida muito mais ao próprio regime das águas que ás ações do homem.
Em 2009 a situação já é diferente: aqui estamos nós diante de uma Manaus rica por conta da Zona Franca, mas desigual. A cidade cresceu, a população cresceu desordenadamente, mas o modo como se pensa a cidade ainda não é eficiente. Em muitos sentidos é até anacrônico. Tratamento de esgoto aqui é algo exótico. Metade do esgoto deságua no rio, sem contar que os navios que transitam em nosso porto só pioram o estado de nossas águas. Os passeios turísticos também têm sua carga de culpa: dando uma volta pelo encontro das águas vi muitos detritos flutuando e em outros momentos flagrei alguns porcalhões jogando lixo ali.
Na "histórica" enchente desse ano o rio subiu de nível e inundou as galerias fluviais (leia-se aqui "esgoto"). Pior para a área próxima do porto, como ali nas redondezas da Praça da Matriz. As causas aqui foram naturais como em 1953? Duvido muito. Basta passarmos pela lagoa provisória ali perto do prédio da Alfândega e veremos uma quantidade imensa de lixo, sem falar do cheiro.
O modo como a cidade foi ocupada, como ela foi e é tratada é o grande responsável pela enchente desse ano. Se o aquecimento global tem algo a ver com esse caso a sua participação não é tão grande quanto se imagina.

sábado, 28 de abril de 2012

Código Desflorestal


O Código Florestal, sim o afamado Código Florestal aplaudido pela nossa bancada ruralista, foi aprovado na Câmara Federal. E agora pipocam nas redes sociais manifestações pedindo para que a presidente vete o projeto de lei. Se lembram que quando Aldo Rabelo terminou de redigir o texto do projeto de lei a mídia noticiou em peso, até demonstrando as implicações das novas medidas? Pois é. Não se ouviu mais falar em Código Florestal na mídia. Os ambientalistas continuaram seus protestos, mas como sempre, o apoio da maior parte da população não veio.
Para mim, a vitória do Código Florestal pró-latifúndio significa que ainda há um abismo entre a causa ambientalista e a sociedade civil. O movimento ambientalista no Brasil tem tradição, tem nomes como José Lutzemberg, Leonardo Boff, dentre outros, mas ele ainda continua um tanto incipiente. Por quê? Porque ele ainda não se enraizou na consciência dos brasileiros.
Existem vários fatores aqui que podem explicar isso, mas acho que um dos principais é de que a mensagem ambientalista não foi traduzida na linguagem popular adequadamente. Claro, a maior parte das pessoas tem uma mentalidade individualista e imediatista e os danos ambientais tem efeito coletivo e de longo prazo, mas hoje, com as enchentes e secas atingindo muitas cidades brasileiras, não é possível que as pessoas não atinem para a relação entre meio ambiente e catástrofes naturais.
Claro, divulgar a mensagem ecológica não significa vulgarizá-la ou simplificá-la ao extremo, mas transmitir ás pessoas comuns o essencial dessa mensagem. E o que seria o essencial? Entender que precisamos deixar de enxergar a natureza como algo a ser dominado, domesticado, mas como uma entidade com a qual devemos respeito. Continuar insistindo na dominação da natureza pode exauri tanto a natureza como nós mesmos. Nossa sobrevivência depende da convivência e não da dominação. E a convivência depende do respeito e do cuidado.