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sexta-feira, 5 de abril de 2013

Mentira tem perna curta, mas corre que é uma beleza

APOLOGIA DA INVERDADE
por Fabiano Mourão

Não entendo porque tantas pessoas condenam a mentira. É como criticar o oxigênio por ser um gás inodoro. Nós respiramos mentiras todos os dias. Andamos sobre mentiras, bebemos mentiras e sonhamos com mentiras. 
Não quero com isso dizer que toda inverdade é aceitável. Acredito que podemos classificar a massa de mentiras em dois tipos: as boas e as más. A mentira boa é aquela que não magoa, aquela que encobre para não ferir quem quer que seja. A mentira má já é diferente: sua intenção é salvar seu usuário ou então ajudá-lo a custa dos outros.
O pai que mente pro filho dizendo que o cachorrinho morto na verdade está hibernando está pensando no seu filho, em poupá-lo da dor da morte. Já o vigarista que mente sobre o "negoção" que está arrumando pro amigo enquanto encampa o seu suado dinheiro está pensando em nadar em Miami através da ingenuidade dos outros.
Percebeu a diferença?
Alguém me perguntou uma vez: por que mentir? Meu amigo, é simples: porque a verdade dói. Tá certo, ela liberta em algumas horas, mas na maior parte do tempo ela incomoda e preocupa. Já pensou admitir que não existe vida após a morte, que reconfortante seria? Tem gente, amigos meus (não revelo o nome nem sob tortura!), que sabem que a mulher não é lá esse anjinho e mesmo assim continuam teimando em vê-las como santas. Como diz mesmo o ditado? "O que os olhos não vêem, o coração não sente". É por aí mesmo...
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Fabiano Mourão é PhD em contos da carochinha, laureado com o VII Prêmio Pinóquio pela Associação de Munchausen e consultor do governo para mentiras oficiais e afins.

domingo, 31 de março de 2013

"A velha e boa ditadura..."

Fortuna.


31 de março caiu em um dia santo esse ano. Então você me pergunta: sim, e daí? Acontece que há mais de 40 anos atrás algo muito importante aconteceu em 31 de março e se você não sabe a que estou me referindo aconselho a dar uma "googlada". Vou até facilitar pra você: procure por "Golpe de 1964" ou então "Revolução de 1964", enfim, você escolhe. Enquanto muitos comemoravam a Páscoa, outros comemoravam este fato.
Como pesquisador, procuro entender 1964 e os anos posteriores como um processo multifacetado onde atores sociais (militares, classe média, empresariado, sacerdotes, camponeses, políticos, etc) lutaram contra, se aliançaram ou negociaram construíram aquele contexto.
Como cidadão, procuro entender como as pessoas podem sentir falta desta época. É natural a qualquer pessoa sentir saudades do passado. Mas a memória ás vezes nos prega peças. "Naquele tempo não havia corrupção". Claro que havia, você não sabia pelo mesmo motivo que receitas de bolo eram colocadas no lugar de matérias que soassem suspeitas de subversão. "Naquele tempo não havia violência nas ruas". Tampouco liberdade. E outra, a brutalidade policial que temos hoje é filha desse tempo, onde articulações entre governo e grupos de extermínio ajudou a consolidar esses últimos. Não só a brutalidade, mas também o crime organizado: só lembrando, o Comando Vermelho nasceu nas celas da prisão da Ilha Grande. O Jogo do Bicho, aliás, ajudou a máquina de repressão (leia Memórias de uma Guerra Suja de Cláudio Guerra).
Enfim, procuro entender esse tempo, mas sem a mínima vontade que ele volte. Nossa democracia pode parecer falha ás vezes, mas todo regime tem seus defeitos. Creio que não devemos aceitar isso como um aval para sermos conformistas. Precisamos sim melhorar muita coisa. As soluções de força podem parecer mais rápidas, mas com certeza não são o caminho para isso. 31 de março taí para nos lembrar disso.

terça-feira, 19 de fevereiro de 2013

Os historiadores e a Comissão da Verdade


No último dia (13/12/2012) do I Encontro Estadual da ANPUH/AM debateu-se em uma mesa redonda composta pelo jornalista Wilson Reis, os historiadores Hideraldo Costa e Benito Bisso Schmidt a relação entre a Comissão da Verdade e os historiadores. Também participou da mesa, na condição de mediador, o Prof. Dr. Auxiliomar Ugarte.
A Comissão Nacional da Verdade foi criada pela Lei 12528/2011 e começou a se estruturar em maio de 2012 tendo como meta apurar violações de Direitos Humanos entre 18 de setembro de 1946 e 5 de outubro de 1988. Ainda que o recorte seja amplo a maior polêmica tem se concentrado em um espaço de vinte anos, os anos da ditadura militar (1964-1985).

Wilson Reis, jornalista e membro do Comitê da Verdade do Amazonas, nos apresentou as atribuições do grupo e seus desafios. Iniciou sua fala perguntando: Se trata de um mesmo discurso sobre um mesmo fato? Não, a questão é dar voz aos que não tiveram, ou seja, trata-se de reparação histórica e judicial.
Uma vez cientes disso os trabalhos do Comitê estadual começaram. Uma avalanche de casos apareceram. Qual o mais importante? Qual o mais urgente? O critério para fazer a triagem de casos a serem investigados foi a notoriedade. Assim, as primeiras investigações se debruçaram sobre o suicídio do sindicalista Antogildo Paiva, o desaparecimento do militante Antonio Tomaz Meirelles (Tomazinho) e o massacre dos Waimiri-Atroari.
O relatório deste último caso causou um impacto nacional. Direcionou o olhar da cidade para o campo, dos militantes de esquerda para os indígenas. Logo depois um documentário chileno perdido veio a tona mostrando alguns detalhes de milícias indígenas criadas pela ditadura que também participavam da repressão, ou seja, índios torturando índios.

Hideraldo Costa, historiador e também membro do Comitê estadual, começou sua fala lembrando o velho mito de que a ditadura no Amazonas não foi brutal: não temos desaparecidos, não temos torturados, apenas corruptos foram cassados e jornais censurados e fim de papo. O Comitê está provando que não foi bem assim.
Quando foi instaurado o Comitê em maio do ano passado, além dos organizadores só se fizeram presentes um vereador e um deputado. Hideraldo associa a indiferença da sociedade manauara com um discurso que perpetua uma memória silenciosa e cega sobre a ditadura no Amazonas. O curioso é que os historiadores locais não se sentiram atraídos pelo tema.
O Comitê estadual, assim como a Comissão Nacional, é pautado pela pluralidade: nesse grupo formado por aproximadamente 15 pessoas a maioria são políticos, mas existem jornalistas, geógrafos e um historiador (Hideraldo). Salientou o diálogo necessário entre três áreas do saber (História, Geografia e Comunicação Social) e o intercâmbio mais que urgente com as universidades.  "A minha tarefa no Comitê é mostrar que a dinâmica da pesquisa é diferente da dinâmica da militância". A pesquisa demanda mais tempo e certos cuidados metodológicos e os movimentos sociais clamam por resultados mais imediatos, daí o embate.
Segundo o palestrante, o Comitê estadual está começando a estruturar melhor suas ações por meio da construção de uma agenda. Ressaltou mais uma vez a repercussão dos relatórios do comitê estadual: a questão indígena agora entrou na pauta da Comissão Nacional e ajudou a rever muitos dados consagrados como por exemplo o número de desaparecidos (de 465 agora subiu para 2.000).


Benito Bisso Schmidt, presidente nacional da ANPUH, dedicou-se a pensar alguns aspectos da relação historiador/ Comissão da Verdade:
1) A importância dos comitês regionais: O eixo Rio de Janeiro e São Paulo sempre esteve sob os holofotes, mas agora a diversidade da ditadura aparece nos estudos regionais. No Rio Grande do Sul a questão da repressão ditatorial se relaciona com um contexto mais amplo como os contatos com a Operação Condor. Já no Mato Grosso e no Amazonas temos a questão indígena se imbricando com a política latifundiária e ideológica. E esses são apenas alguns exemplos de casos que podem nos fazer pensar e repensar tudo o que sabíamos sobre a ditadura militar no Brasil;
2) A importância da Comissão da Verdade: O objetivo da Comissão não é julgar, mas reparar e esclarecer. Sendo assim não se trata de revanchismo como quer a direita ou de demagogia política como alega a esquerda, mas de um direito. O direito á verdade. Estas investigações e a reflexão aberta por elas é extremamente necessária porque, na visão do historiador, ajuda a expurgar os demônios da democracia.
3) O papel do historiador é polêmico: Não criamos narrativas oficiais porque não existe verdade absoluta. O que a Comissão procura é apurar a verdade absoluta. E a direção das investigações tem se direcionado sobre militantes da esquerda, endossando uma narrativa já conhecida sobre a ditadura. O historiador Carlos Fico acredita que por conta desses dois pontos o compromisso do historiador com a Comissão seja extremamente problemático. Schmidt confessa que envolve sim uma série de vicissitudes, mas isso não impede o historiador de participar desse grupo. Basta apenas que ele tenha o cuidado de diferenciar a verdade da testemunha, a verdade do Direito e a verdade da História. Quanto ás narrativas canônicas, Schmidt enxerga como um problema a ser superado e oferece o caso do Peru como exemplo: não foi investigado apenas as ações do Estado, mas também do Sendero Luminoso.
5) A relação conturbada entre História e Memória: eis aí mais um elemento problemático, aliás, elemento esse que é um dos eixos da Comissão. A memória está mais ligada ao afeto, daí a exigência dos parentes de desaparecidos, presos e torturados para que seus casos sejam devidamente investigados e reparados. Ao historiador compete um certo distanciamento para não escorregar na visão de verdade absoluta. Isso não quer dizer que ele deva se abster de qualquer compaixão, o historiador não é um robô. Apenas quer dizer que é preciso ter encarar episódios traumáticos á luz da metodologia da História.
Resumindo, o historiador pode participar da Comissão da Verdade? Na visão de Schmidt, sim. Basta que ele mantenha sempre os cuidados requeridos pelo seu ofício.


sexta-feira, 8 de fevereiro de 2013

Apenas profissionais ou bons profissionais?

Prof. Dr. Hideraldo Lima abre o I Encontro Estadual de História .

Para mim, o último grande acontecimento de 2012 foi o I Encontro Estadual da Associação Nacional dos Professores Universitários em História (ANPUH) da Seção Amazonas.
O evento ocorreu dos dias 10 a 13 de dezembro no Instituto de Ciências Humanas e Letras (ICHL) da UFAM, sendo organizado pelo presidente da ANPUH regional, Prof. Dr. Hideraldo Lima Costa. O encontro se desdobrou em manhãs, tardes e noites, por isso comentarei aqui apenas alguns episódios do evento.
O grande tema era O Profissional de História: Ensino e Pesquisa. Tema esse que vem em boa hora: a profissionalização do historiador deixou de ser promessa á uma realidade cada vez mais palpável. A regularização não deve servir, no entanto, como ponto de chegada, mas como ponto de partida para novas práticas e questões. 
Alguns minicursos tocaram nesse problemática, outros foram mais específicos. Eu optei por fazer o minicurso Possibilidades de Pesquisa em História da Amazônia no Ensino Básico, ministrado pelo Prof. Dr. Francisco Jorge dos Santos. A oficina se mostrou uma proveitosa conversa com esse grande conhecedor da Amazônia colonial sobre sua experiência não só enquanto professor, mas como escritor do livro didático História Geral da Amazônia.
Francisco Jorge dos Santos em certo momento do minicurso.

Resumo abaixo alguns pontos da aula introdutória do professor:
*O aluno é materialista, quer algo concreto, e o trabalho do historiador é eminentemente intelectual, então como incutir a historicidade na cabeça do menino? Fazendo-o pensar. "Tem que concatenar o cotidiano do aluno à cultura histórica do professor". Desnaturalizar o presente é uma boa tática. Ás vezes até algo inesperado pode nos ajudar como os erros nos livros didáticos (datas ou nomes trocados), porque nos ajuda a desconstruir o livro.
*Em relação á pesquisa em História é preciso ter em mente que ela pertence ao aluno e não ao professor. Não se trata de satisfazer uma curiosidade do professor, mas do aluno. Nós bem sabemos que tarefa de casa ou não é feita ou é deixada para os pais fazerem, em nome de uma boa nota. Estimular a curiosidade é um meio de impedir que o aluno opte por essas duas saídas. Uma vez interessado ele mesmo partirá para a pesquisa.
*Mas é importante saber que a pesquisa não pode ser ampla demais. Por isso, professor, desde o começo delimite o campo de fontes. O aluno não tem a missão de ser um pesquisador, lançando-se a todo tipo de arquivo em busca de algo que talvez nem exista ali. Para que a pesquisa não se torne um tiro no escuro é necessário que o professor estabeleça os locais em que se encontram fontes valiosas para a pesquisa. É uma forma de não traumatizar o aluno com a pesquisa e de não perder o controle desta tarefa.
*Nesse sentido, o professor deve atuar como um orientador, sugerindo rumos que a pesquisa pode tomar. "Ser professor de História não é uma simples profissão. É um estilo de vida". E entramos então no mérito da profissionalização do pesquisador: ora, ela é um passo importante e não o único passo a ser dado. É importante que essa medida venha acompanhada da qualificação das licenciaturas. O ensino não pode ser menosprezado. Afinal, queremos apenas profissionais ou bons profissionais?

domingo, 3 de fevereiro de 2013

Etnografia e serpentina II


Esse é o momento em que podemos ser puramente ridículos. Não ria, momentos assim são preciosos. Hoje somos mais sérios do que antes. Não que não gargalhemos mais - Ora, quantas vezes você já não riu daquele folião bêbado? - mas não rimos mais de nós mesmos.
Rir de si mesmo é uma terapia. Alguém me disse isso, só queria lembrar quem. 
O importante é que assimilei.
Quando nos fantasiamos estamos assumindo essa arriscada tarefa de nos auto-ridicularizar. A não ser que você seja um cosplayer - esses levam a fantasia a sério, eu sei. Mas é que quanto mais sóbrio, mais posudo, mais você é respeitado. Se você brinca com sua própria moda está abrindo um perigoso precedente para que os outros te ridicularizem a qualquer hora, certo? Pode até ser. Seria mais fácil estabelecer limites, mas com tantas linhas na rua e artigos na constituição quem mais quer saber de limites?
Só sei de uma coisa: eu continuo indo no Bloco das Piranhas.

sexta-feira, 25 de janeiro de 2013

Sangue e dinheiro


A vida imita a arte, nem sempre nas boas coisas. O caso do triplo homicídio que aconteceu em Manaus na última semana, por exemplo, me lembrou imediatamente o filme Antes que o Diabo Saiba que Você está Morto, dirigido pelo grande Sidney Lumet.
Na história, dois irmãos planejam um roubo á joalheria dos pais. Mas algo sai errado e a mãe deles é morta no mal sucedido assalto. A diferença no caso de Jimmy Robert é que a intenção desde o começo foi eliminar seu progenitor, por conta de uma gorda herança. A tia e a prima foram mortas por acreditar que elas seriam as primeiras a desconfiar dele.
Alega-se que além do dinheiro estariam envolvidas mágoas em relação ao pai por não aceitar a homossexualidade do filho. Mágoas e ganância: combinação sangrenta.
Problemas familiares sempre existiram e continuarão a existir. Não é incomum alguns se tornarem casos de polícia. Mas o que chama a atenção aqui é que o crime foi motivado mais por indiferença que ódio. Segundo novas informações, Jimmy não teria participado, mas assistido as mortes. Tendo inclusive visto sua prima agonizar em seus momentos finais. Sartre combatia a validade do termo "desumano": tudo que fazemos é próprio de nós, só não queremos admitir isso. Não teríamos criado a brutalidade, mas com certeza a patenteamos. 

quinta-feira, 15 de novembro de 2012

Comemorar?


Em 15 de Novembro proclamou-se a República. A república que não foi. Hoje, mais que nunca, sabemos disso. Depois de maracutaias, crises e golpes chegamos á uma república embaraçada por não ser tão popular quanto tencionava ser.
O Império reunia uma espécie de valor simbólico ao redor do seu monarca. Aura que blindava o imperador e de quebra conferia unidade ao Brasil, é o que dizem. É importante lembrar que a legitimação da monarquia no Brasil foi iniciada durante o período da Regência por uma equipe de políticos e intelectuais. A unidade territorial foi mantida, mas a forma como ela foi construída (por meio da conciliação de interesses ou então imposição central) acabou por abalar os alicerces desse regime. Províncias como São Paulo ou Rio Grande do Sul abraçaram o republicanismo por conta de sua promessa de autonomia regional.

No entanto, algo não se pode negar: em relação ao Império, os republicanos contavam com menos aceitação popular. Alguns nomes já eram conhecidos e admirados pelo seu papel em eventos das décadas finais do Império, como é o caso do marechal Deodoro da Fonseca que lutou em mais de três batalhas no Paraguai. Ou seja, o novo regime precisava se legitimar como a monarquia o fez durante a Regência e aí temos a garimpagem de heróis e símbolos de ideologias vinculadas ao novo regime, como nos mostra muito bem o historiador José Murilo de Carvalho em A Formação das Almas.
Novos estudos como o de Maria Thereza Chaves Mello, A República Consentida, revisitam o silêncio do povo diante da Proclamação. Por meio da imprensa e de conferencias, líderes republicanos e positivistas conseguiram difamar nosso "Antigo Regime tropical" contribuindo para que a maioria da população não se indignasse com o fim do Império. O silêncio popular foi o silêncio do consentimento. Mas fé no novo regime também não havia. Quando a República sinaliza seu caráter aristocrático, as revoltas pipocam tendo motivos vários como pretexto, como é o caso de Canudos.

Os primeiros anos do novo regime ficaram conhecidos como República do Café com Leite, dada a importância que os estados de São Paulo e Minas (respectivamente, os maiores produtores de café e leite, dois itens que alimentavam o grosso da nossa economia) tiveram em seus arranjos políticos. Hoje nosso sistema político é outro. Depois de várias mudanças constitucionais (algumas até bisonhas), chegamos a um sistema representativo que lembra em muito o das modernas democracias liberais. Ainda assim, a corrupção, o elitismo e a apatia política perduram, claro, com novos nuances.
Por causa desse status quo, vejo muitos argumentos perigosos se desenvolverem e ganharem inúmeros adeptos: primeiro, o de que a transição de regimes não significou nada, uma vez que nada mudou; segundo, hoje estamos pior que antes, já que durante o Império não existiam tantos escândalos. O primeiro desclassifica a transformação histórico, o segundo idealiza um passado que nunca existiu. A corrupção não é uma invenção exclusiva da República, mas uma prática que já nos acompanha de longe. Na realidade, muitos pesquisadores tentam entender como a corrupção se transforma com o tempo, como esse fator estrutural dialoga com o contexto, ou seja, como ela se adapta aos novos tempos.

Quanto á negação de mudanças, tão habitual ao conservadorismo, ela tem suas raízes, nesse caso em especial, na interpretação da corrupção e do autoritarismo como um dado estrutural da nossa sociedade, quase como um órgão monolítico. Claro que o modo como se rouba hoje não representa o mesmo modo como se fazia no passado, embora os motivos para tal crime deem a impressão de que nada mudou. Há outros aspectos, que nos parecem menores á primeira vista, que devem ser levados em consideração, como a gradativa conquista de espaço da população e dos movimentos sociais na política. O reconhecimento do poder da massa e das organizações da sociedade civil fez com que a classe política tentasse cooptá-los de diversas maneiras como foi o caso do trabalhismo e do populismo. Até que ponto conseguiram ou até que ponto o povo se aproveitou disso são outros quinhentos.
Bem, então voltemos á vaca-fria: hoje é 15 de Novembro e o que temos a comemorar? Pouca coisa na verdade, mas nem por isso devemos jogar a República Velha ou todo os 120 anos do regime republicano no lixo. Antes, devemos ter essa longa trajetória em mente para saber o que ainda nos impede de termos um governo democrático e um povo compromissado.

quarta-feira, 24 de outubro de 2012

Rapidinhas


Manaus, 50 graus, fez 343 anos. Eu rezando para São Pedro se sensibilizar e abrir a torneira e nada...
O julgamento do mensalão prossegue. A novidade foi a condenação de Marcos Valério á 40 anos de prisão. Em um país sério, eu ficaria contente com isso, mas...
Aliás, esse julgamento perto das eleições municipais é bem curioso, não? O governo, enquanto fazia a dança da cadeira com os ministros e lançava as obras do PAC, deve ter descuidado com a data.
Engraçado como o ministro Joaquim Barbosa, até então relativamente desconhecido, se tornou uma celebridade. Paladino da ética e da justiça pela direita e marionete da oposição para os governistas. Vi uma capa da Veja elogiando a trajetória do ministro e me lembrei que há alguns anos a mesma revista publicou um perfil do juiz, mas em tom menos elogioso. Na realidade, enxergavam a sua nomeação por Lula como mais um ato demagógico. Acusaram o cara de bater na mulher e tudo mais...
Na imprensa de esquerda ele é retratado como alguém que se atrapalha com as suas sentenças e que desconta a sua raiva contra as dificuldades enfrentadas em sua vida nos acusados. Os mesmos jornais que aplaudiram o ministro quando ele acusou o colega Gilmar Mendes de ser um coronel, em um momento em que estava de cabeça quente.
Eu? Não admiro, mas também não crucifico o cara. Aprendi a desconfiar dos paladinos da ética e justiça desde que Demóstenes Torres foi desmascarado. Por enquanto, só acompanho o andar da carruagem.
Outro fato que abalou a semana: a promessa de suicídio coletivo pelos povos Guarani Kaiowá no Mato Grosso do Sul. Na verdade, não falaram em suicídio, mas em dar sua vida pra continuar nessa terra. Na carta que enviaram ao STF demonstram toda a sua descrença com a justiça após terem confirmado mais uma reintegração de posse aos fazendeiros.
A etnia tem um dos índices mais altos de suicídio, daí a confusão geral. A falta de perspectiva e a carência em que vivem explica o porque dessa epidemia assombrosa. Manifestações estão sendo feitas a torto e direito. Será que cairão no esquecimento como o caso de Belo Monte?

quarta-feira, 25 de julho de 2012

Para além do "another brick in the wall"


Não há lugar melhor para se entender política que a sala de aula. E há quem pense que a escola é um lugar inocente...
Há professores que de primeira já desqualificam os alunos porque não sabem conjugar dois verbos no tempo certo. Ou então pelas preferências musicais deles. Mas há de se reconhecer que os alunos estão longe de serem burros. A maioria tem uma leitura de contexto muito aguçada.
O aluno, principalmente de Ensino Médio, sabe muito bem o que é autoridade, por mais indiferente ou rebelde que seja. Ele sabe que o professor é o representante direto da autoridade escolar. Ele sabe que se aproximar dele significa mais status. Assim como sabe também que enfrentá-lo, desafiá-lo, tem o mesmo efeito.
O soberania na sala de aula, acredita ele, reside nos demais colegas e não no professor. Ele é apenas um cara que acha que manda em alguma coisa. Na teoria ele manda sim na sala, mas se todos os alunos reprovam suas ações ele não pode fazer nada. Quando ninguém quer ter aula, acaba não tendo. A não ser que o professor incorpore Ivan, o Terrível e toque o terror na galera.

Há de se levar em consideração também que o aluno de Ensino Médio está em uma idade onde ele quer se afirmar no mundo, por isso precisa de atenção a todo minuto. A encrenca não é gratuita, ela pode servir como um letreiro neon, chamando a atenção da turma para um sujeito carente em vários sentidos.
Deixando um pouco o papo pedagógico, o fato é que o aluno quer ser percebido e para tanto se usa de diversas estratégias, sendo uma delas a bagunça. A outra pode ser aproximação com o professor em busca de reconhecimento e eventualmente de algum favorzinho. O professor tem de estar consciente disso. A sala de aula é também um tabuleiro de xadrez. Há vários interesses envolvidos. Como administrá-los?
Isso varia de sala para sala. O professor tem de ter a sensibilidade para saber onde está pisando, para dosar sua resposta a estes desafios. A compreensão do universo do aluno e a interação com ele é uma das bandeiras que os novos métodos pedagógicos defendem. Mas vamos problematizar um pouco mais isso: até que ponto é válido o professor se aproximar do aluno?
O que tenho percebido no estágio é que essa é uma prática arriscada, mas que pode dar bons frutos. A professora que acompanhei no estágio cultivava muitas amizades com as turmas, ao ponto de saber exatamente quando uma aluna estava triste ou um aluno estava nervoso, apesar das maneiras que muitos disfarçam. Mas ainda assim, ambas as partes se respeitavam. Muitos não diziam palavrão na presença dela. E convenhamos, garotos e moças com os hormônios á flor da pele não falando palavrão é mais raro que mico-leão dourado.

Já outro colega se aproximou de tal maneira dos alunos que estes não mais o respeitavam em sala de aula. A todo momento apelavam para a forte amizade que tinham como forma de escapar de um exercício ou mesmo ficavam bravos por terem tirado uma péssima nota. O que fica patente aí é que os estudantes não costumam encarar as pessoas como multifacetadas. Ou seja, um professor pode ser um cara nobre e sério numa hora, mas em outro momento, em uma roda de bar, por exemplo, pode ser o homem mais engraçado e companheiro do planeta, mas para eles isso é impensável. O professor chato de Química é chato 24 horas por dia na semana.
O aluno é multifacetado também. Na sala de aula ele pode se sentir mais livre para ser piadista ou cafajeste, enquanto em casa é mais inibido. O aluno tem seus alter-egos. Apesar de todos sermos diversos, cometemos esse erro. Os dois lados cometem esse erro: o professor não coloca fé no aluno e o estudante não procura entender o seu educador.
Voltando á polêmica: um professor pode ser amigo de seus alunos? Pode perfeitamente, desde que ele imponha limites para essa amizade. Sabendo que muitos confundem profissionalismo com amizade, é preciso dosar a intimidade. Fazê-lo entender que da porta para cá é uma coisa e do portão para a rua é outra. Entender essa divisão de espaços ajuda até no amadurecimento do aluno.
E quanto á questão de quem manda na aula? Continua sendo o professor. Mas atenção: ele não deve mandar como um rei absolutista. Ele tem de atuar como um administrado e um diplomata. Primeiro, expondo diretrizes. Depois, negociando interesses. O conhecimento é construído e não vomitado na cabeça dos alunos. Para construirmos esse conhecimento precisamos ter no mínimo uma direção senão o caos criativo da sala de aula pode se tornar uma anarquia estudantil.

Um professor se propõe a falar de Grandes Navegações e Expansão Marítima, digamos, e um aluno pergunta sobre a veracidade dos Evangelhos do Mar Morto. Boa pergunta, mas o tema da aula não é esse. Um bom professor responderia, mas não se estenderia demais no assunto. Se ele não respondesse, criaria o trauma nos alunos, inibindo que outros façam mais perguntas. Se respondesse e se alongar no papo chegaria ao fim da aula com um monte de teorias da conspiração (e os alunos adoram isso!) e nada de mercantilismo.
Mas há casos e casos. Dois exemplos: em uma aula sobre a Independência do Brasil se fala do endividamento do país e alguém pergunta como está a dívida externa hoje; falando sobre holocausto, alguns estudantes começam uma discussão sobre ética que não estava planejada na aula. Eu acho que nos dois casos é necessário se estender um pouco mais no tema. 
Primeiro, por que o interesse nas aulas é difícil de se construir. Claro que o bom professor consegue reverter essa situação. Segundo, o interesse do aluno vem geralmente de algo que dialogue com seu mundo e sua vida - e essa é uma das maneiras de fazê-los participar das aulas. Eles estão tentando entender o mundo a sua volta e ao mesmo tempo construir sua identidade. Eles não sabem o que é dívida externa, globalização, neoliberalismo, mas sabem que eles estão ai, na cara de todo mundo. Eles querem construir o seu caráter e uma lição de vida, por mais clichê que possa parecer, pode ajudá-los.
Enfim, se fosse comparar o bom professor com alguém seria com o líder populista. Sem pensar duas vezes! Não estou me referindo ao aspecto da demagogia e da corrupção, mas da sensibilidade que o político populista tem em relação ao seu eleitorado e como ele administra os interesses de todos de forma a criar uma certa "paz social". A sala de aula tem de ser um ambiente saudável. O conflito é bom, afinal democracia é conflito também, mas um tipo de conflito mais sutil e não o conflito pelo conflito. É preciso que todos se sintam á vontade para fazerem perguntas e contribuições. Lembrando que no âmbito da "política escolar", a boa conexão entre professor e alunos é algo frágil, mas ainda assim poderosa.

terça-feira, 24 de julho de 2012

O super-herói, o filósofo e a galinha.


A pedido do meu amigo Diego Gatto, retorno o tema do "super-homem" de Nietzsche. Tema que evoquei por conta de uma análise do filme do Homem Aranha. De cara já parece arriscado tal feito. Nietzsche é contra todo tipo de herói. Então, de onde surgiu essa mistura louca que eu fiz?
A minha pretensão era comparar a visão do filme sobre o herói com a visão do filósofo alemão sobre o homem. Eu achei uma semelhança entre ambos: a necessidade de se superar barreiras que construímos. Falando assim parece auto-ajuda, e na realidade, uma análise sobre esse tipo de literatura e as teorias de Nietzsche também renderiam uma boa discussão.
Em O Espetacular Homem Aranha, temos dois personagens assolados por seus próprios fantasmas: Peter Parker é um rapaz franzino que apanha na escola e se pergunta o tempo todo porque seus pais te largaram pouco antes de morrerem; já o Dr. Curt Connors, amigo do pai de Peter, é obcecado em recuperar o braço que perdeu (nas HQs, ele tinha o perdido na Guerra do Vietnã), pois não gosta de ser visto como um homem digno de pena. Todos os dois estão cansados de serem vistos como os "coitadinhos". Mas para se tornarem donos de seu próprio destino e dignos de reconhecimento eles devem vencer suas próprias barreiras.
No filme, essas barreiras seriam a timidez e o passado traumático de Peter Parker e a deficiência física do Dr. Connors. Cada um encontra na ciência meios de superá-las. Para Nietzsche existe todo um universo de coisas que castram nosso potencial como a ideologia. A ideologia sempre está por trás das ditas "verdades universais". Por isso, a religião figura como um dos maiores males do ser humano para o filósofo. Como superá-las? Com a reflexão e com a arte. A reflexão questiona as "verdades", tira a venda de nossos olhos, e a arte faz tudo o que veremos a seguir menos insuportável.

Certo, eu sei que comparar um filme de super-herói com uma tese de filosofia é forçar a barra, porque ao fazer isso excluímos toda a complexidade das ideias de Nietzsche e a proposta fundamental do filme - divertir. Além do ódio de Nietzsche por heróis, que dirá super-heróis então! Não é bem um ódio, mas uma desavença ideológica. O herói é um ser humano excepcional, cuja trajetória de glória e nobreza já é predestinada na maioria das vezes, e que por isso inspira que muitos o sigam ou o utilizem como modelo.
O problema, segundo o filósofo, é que heróis por emocionarem tanto as pessoas podem ajudar manipulá-las. A própria noção de moral manipula as pessoas: seja bonzinho, obedeça seus pais. A moral não deixa que você pense por si próprio. A questão aqui é a autonomia.
Kant já dizia mais ou menos isso: o homem cresce, mas isso não significa que ele amadureça na sua consciência. Ele pode continuar sendo tratado como criança, sempre dependendo do que os outros dizem, se não desenvolver senso crítico. Ou ele pode até usar da razão, mas não em público, por uma série de motivos. A grande questão da filosofia ocidental desde Descartes até Adorno tem sido: como conscientizar as pessoas sobre o mundo e o potencial de si mesmas? A filosofia se impõe como um meio de se libertar das armadilhas do óbvio. Questionar para entender, entender para transformar. E como diria o Tear For Fears, todos querem mudar o mundo.
Outro ponto recorrente na filosofia e no pensamento social como um todo: o homem é excepcional porque diferente dos outros animais possui a capacidade de ir além da sua condição natural. O que isso quer dizer? Ele modifica o seu meio e a si próprio. Não temos asas, mas podemos voar através do avião. Em uma cidade cortada por córregos podemos fazer um terreno plano com aterros. E por que isso? De onde vem essa vontade de transformar tudo? Mário Quintana dizia que o motor do progresso é a preguiça: a preguiça de andar criou o carro, por exemplo. Marx acredita que o homem exercita melhor esse seu potencial transformador no trabalho, porque é ali que ele se utiliza de sua criatividade, sua perícia e sua força, todas conjugadas.
Nietzsche também acreditava no potencial do homem. Qualquer um pode ser excepcional, basta se livrar do que o infantiliza. Qualquer um pode tomar as rédeas de seu próprio destino. Os tiranos só existem porque existem os subservientes. E anos depois, Jean Paul Sartre reafirmaria isso acrescentando que a alienação é muito conveniente pois poupa o indivíduo de uma série de dilemas éticos e existenciais. Por isso, o homem tem que aceitar que está condenado á liberdade e, portanto, se fizer algo, será sua e somente sua responsabilidade.

Voltemos ao herói aracnídeo: o que impedia Peter de ser um cara popular na escola e de sair com a garota mias bonita dali? Aparentemente, não tinha força para lutar com os valentões e nem coragem para convidá-la pra sair. E desse estado ele não saiu. Foi preciso que uma aranha geneticamente alterada o picasse para que pudesse superar esses problemas. Com Dr. Connors foi uma injeção que prometia a regeneração de seu braço. As barreiras de Parker são mais fáceis de ser escapar que as de Connors - afinal força pode ser cultivada com exercícios físicos, coragem pode vir com desenvolvimento de uma auto-estima, mas e um membro amputado? Pode ele voltar?

Connors precisaria mudar radicalmente seu modo de vida. Em outras palavras, diferente de Parker que poderia simplesmente mudar, ele tem aceitar sua limitação física. Aqui lembro-me novamente de Leonardo Boff que em seu livro já citado dizia que o ser humano precisa equilibrar o seu potencial transformador com a sua visão pragmáticas das coisas. Ele exemplifica isso com uma pequena história sobre uma águia que foi criada por galinhas e que quando se descobriu águia já era tarde, se espatifou no chão por que ainda se considerava uma galinha. A galinha mantém os pés no chão, a águia já vive no céu. Em outras palavras, é a dimensão prática e sonhadora da vida de que estamos falando aqui. Não se pode ser sonhador demais, nem prático demais. O sujeito prático se acomoda com as condições que lhe aparecem, ele se adapta. Connors precisaria se adaptar mais, enquanto Parker poderia "voar mais alto".

Mas enfim lá está a ciência para fazer os sonhos da vida humana se transformarem em realidade. Como uma poção mágica, Parker é alçado a condição de um super-herói e Connors de um super-vilão. Connors é tomado pela megalomania. Vamos reconhecer: o ser humano nunca foi de ser equilibrado, vivemos mesmo é de excessos. Quem tenha experimentado o poder de mudar o mundo pode perfeitamente se achar um deus vivo. Sonhadores podem se tornar arrogantes. Connors se torna o Lagarto e vai desenvolvendo a ideia de que só podemos ser perfeitos se deixarmos de sermos humanos. A deficiência e a fraqueza sumiria se todos se tornassem reptilianos como ele. O sonho de um mundo sem fraquezas se torna um pesadelo.

Nessa parte do outro post, comparei a ideia do bichão com o velho conceito de eugenia. Eugenia significa aperfeiçoar a raça (hoje sabemos que se trata de espécie) humana, livrando-a de fraquezas físicas e intelectuais. Qual é mesmo o sonho dos filósofos? Uma sociedade de indivíduos conscientes. Há quem acredite que se possa realizar esse sonho por meio da eugenia. Ora, Adolf Hitler era uma delas. Mas até que ponto "conscientes"? Confunde-se aqui "consciência" com "disciplina". Obedecer é ser consciente de seu papel no mundo. Isso é completamente o contrário do que afirmava Nietzsche.

O super-homem idealizado por Nietzsche não é a montanha de músculos, mas o sujeito consciente e agente. Ele não respeita classes ou pudores, ele apenas é sincero com seus princípios. O homem consciente está acima do bem e do mal. Ele é humano, apenas humano. Pode aspirar ser mais que isso, mas será ainda humano. A grande tragédia, diria o filósofo, seria essa nossa condição limitada, marcada pela morte. Tentamos enganar nossa mortalidade produzindo obras primas, peças que possam perdurar por muito tempo com nosso nome. O homem que não aproveitar o pouco de vida que tem é um alienado.

Apesar dessa diferença abissal, o super-homem foi apropriado pelos pensadores nazistas e reformulado como sinônimo da raça ariana. Devemos boa parte dessa deturpação á irmã do filósofo, Elizaberth Förster-Nietzsche, a quem ele confiou suas obras, e que nutria muitas simpatias com o nazismo. O super-homem nada mais é que alguém ciente de seus limites, mas que mesmo assim saiba aproveitar deles.
Nietzsche, como todos sabem, não era homem dos mais otimistas com os destinos da humanidade. Assombrava-se com o grau de alienação das pessoas com a religião e com a ciência, que na época estava mais do que determinada a mudar completamente o mundo e transformá-lo numa utopia tecnológica e social. O tempo mostrou que ele estava certo. A religião nos deu mais guerras santas e a ciência, guerras nucleares e biológicas.  Como dissemos antes, o potencial do homem é tremendo, ainda que seja limitado pela morte, portanto, ele pode influenciar tanto para o bem quanto para o mal o resto do mundo. Grandes poderes trazem grandes responsabilidades. Já ouvi isso em algum lugar...

Para os interessados na relação entre Nietzsche e o nazismo, recomendo esse ótimo artigo de Rubem Antonio Silva Filho: Nietzsche e o nazismo - nas asas da mentira.

quarta-feira, 11 de julho de 2012

Meu amazonólogo favorito


Muito já foi pensado e falado sobre a Amazônia. Acredito que a maior contribuição veio de Djalma Batista (1916-1979).
Médico e amante das artes, principalmente da literatura. Devotado á saúde e a Amazônia, á saúde da Amazônia.
Colocou seu estetoscópio no coração da Hiléia e ouviu sua respiração ofegante, cansada de massacres e de desperdício.
O diagnóstico era simples: o desconhecimento gera desentendimentos, seja entre os homens, seja entre o homem e a natureza.
A primeira parte do tratamento não é tarefa fácil: conhecer. Conhecer o que Euclides da Cunha chamou de indefinido. Desvendar a selva e seus signos ajuda a entender a consequência de sua má utilização.
O segundo passo é apostar na utilização consciente dos recursos locais. A Amazônia, conclui Djalma, possui uma grande força que é ser um bioma tão rico e uma grande fraqueza por ser um bioma muito vulnerável. O imediatismo e o egoísmo do homem só tem realçado essa fraqueza.
A história da Amazônia tem sido a exploração desordenada. O homem só tira da selva, quase não cultiva ou preserva. É muita presunção e ingenuidade pensar que a floresta sobreviverá para sempre ou que os campos de gado, madereiras ou pólos industriais podem trazer mais benefícios que desvantagens.
O remédio, diz o bom doutor, é um processo racional de exploração. Algo que nos ajude sem destruir a floresta. É o "desenvolvimento auto-sustentado".
Na época, os anos de chumbo no Brasil e a guerra fria no mundo, poucos colocariam fé nesse seu remédio, hoje porém o que mais se fala é em desenvolvimento sustentável.
Grande Djalma: além de médico e intelectual também era um profeta, um profeta da sustentabilidade.

(Notas, 25 de Agosto de 2009 - Manaus/AM)

sábado, 28 de abril de 2012

Código Desflorestal


O Código Florestal, sim o afamado Código Florestal aplaudido pela nossa bancada ruralista, foi aprovado na Câmara Federal. E agora pipocam nas redes sociais manifestações pedindo para que a presidente vete o projeto de lei. Se lembram que quando Aldo Rabelo terminou de redigir o texto do projeto de lei a mídia noticiou em peso, até demonstrando as implicações das novas medidas? Pois é. Não se ouviu mais falar em Código Florestal na mídia. Os ambientalistas continuaram seus protestos, mas como sempre, o apoio da maior parte da população não veio.
Para mim, a vitória do Código Florestal pró-latifúndio significa que ainda há um abismo entre a causa ambientalista e a sociedade civil. O movimento ambientalista no Brasil tem tradição, tem nomes como José Lutzemberg, Leonardo Boff, dentre outros, mas ele ainda continua um tanto incipiente. Por quê? Porque ele ainda não se enraizou na consciência dos brasileiros.
Existem vários fatores aqui que podem explicar isso, mas acho que um dos principais é de que a mensagem ambientalista não foi traduzida na linguagem popular adequadamente. Claro, a maior parte das pessoas tem uma mentalidade individualista e imediatista e os danos ambientais tem efeito coletivo e de longo prazo, mas hoje, com as enchentes e secas atingindo muitas cidades brasileiras, não é possível que as pessoas não atinem para a relação entre meio ambiente e catástrofes naturais.
Claro, divulgar a mensagem ecológica não significa vulgarizá-la ou simplificá-la ao extremo, mas transmitir ás pessoas comuns o essencial dessa mensagem. E o que seria o essencial? Entender que precisamos deixar de enxergar a natureza como algo a ser dominado, domesticado, mas como uma entidade com a qual devemos respeito. Continuar insistindo na dominação da natureza pode exauri tanto a natureza como nós mesmos. Nossa sobrevivência depende da convivência e não da dominação. E a convivência depende do respeito e do cuidado.

terça-feira, 31 de janeiro de 2012

A Banalidade do Mal

Eichmann durante seu julgamento em Israel em 1961.
Hannah Arendt foi cobrir o julgamento de Adolf Eichmann em Israel com ansiedade: não saberia como reagir diante de um monstro como aquele que mandou milhares de judeus para os campos de concentração com simples canetadas. Eichmann, quando a guerra apertou para o lado dos alemãos, chegou a propor um acordo para os americanos: trocar 100 judeus por um caminhão novinho.
Lá estava o ex-oficial nazista, dentro de uma redoma de vidro ladeada por policiais, com um fone no qual o tradutor lhe explicava do que estava sendo acusado. No fundo, Eichmann já sabia.
Arendt se decepcionou. Eichmann não parecia um homem desumano, muito pelo contrário, lembrava e muito um homem comum. A decepção se tornou preocupação. A filósofa alemã concluiu que qualquer homem comum pode se tornar um monstro, como Eichmann. Afinal, quem sustentou o delírio de Hitler ou de Mussolini foram pessoas comuns. Ditaduras não sobrevivem sem alguma espécie de apoio do povo.
Por que o homem comum apoiou tantas barbaridades? Por que lhe parecia certo na hora, afinal a Alemanha precisava se levantar e o Fuehrer dizia que os judeus eram os obstáculos para isso. Por que estava apenas obedecendo ordens. Por uma série de motivos.
Mas no fundo, eles sabiam o que estavam fazendo. Por que não reagiram? Por que, de certa forma, gostavam disso.
Em cada pessoa há um instinto que clama por poder, por selvageria. É uma parte do inconsciente. Alguns juram de pés juntos que sabem delimitar a parte do cérebro responsável por essa ânsia de violência. O caso é que ninguém está imune dela. Alguns sabem controlá-la melhor que outros, só isso. Essa é a banalidade do mal, conceito criado por Arendt para exprimir essa tendência a cometer atos desumanos. Ao contrário do que ela pensava antes de testemunhar o julgamento de Eichmann, a maldade não é feita somente por pessoas excepcionalmente más, mas também, e, principalmente, por pessoas comuns.
Umberto Eco, anos mais tarde, diria que o Fascismo não era apenas um movimento político totalitário que surgiu na Itália na década de 20. É mais que isso. É uma parte de nosso ser. Cada um de nós tem esse sentimento de apelar para a violência, de passar por cima dos outros como se fosse um trator, de se achar superior, de se achar no direito de humilhar pessoas que considera mais fracas que nós. No dia-a-dia ele pode se manifestar das mais diferentes maneiras. Não há como eliminá-lo, vaporizá-lo. Mas há como domesticá-lo.
E você? Anda domesticando seu pequeno fascista interior?

(Publicado no Recanto das Letras em 16/10/11).

terça-feira, 21 de junho de 2011

A lição de Shutruk Nahunte

O filme Clube do Imperador nos oferece algumas reflexões muito boas sobre a prática de educar. A história, dirigida por Michael Hoffman, se baseia no relacionamento entre um professor de História Antiga, John Hundert (interpretado por Kevin Kline) e seus alunos da Escola Saint Benedict para Garotos, principalmente Sedgwick Bell (Emile Hirsch), um garoto-problema.
Hundert é um homem extremamente ético que possui uma concepção clássica (no sentido de relembrar o pensamento dos filósofos gregos) de educação: para ele, o ensino é capaz de mudar o homem. Se o caráter de um homem é o seu destino, como afirma no começo do filme, a educação pode ensinar um homem a ser ético. É o que Hundert tenta fazer com seus alunos. Ele tenta despertar o interesse pelo aprendizado e utiliza os personagens históricos como modelos para as atitudes de seus alunos. Até mesmo o desconhecido Shutruk Nahunte, um general cartaginês que ganhou uma batalha, mas foi esquecido pela história porque ela não alterou em nada o status da guerra, foi uma conquista pessoal. Nahunte é um modelo do que não deve ser seguido: segundo Hundert, uma conquista baseada somente na ambição, sem contribuição, é uma falsa conquista.

Hundert e Bell.
Em 1976, chega á escola um aluno novo, Bell, filho de um eminente político norte-americano e que não leva nada á sério. Hundert o desaprova, mas após conhecer seu pai, se empatiza com o garoto e decide ajudá-lo. Afinal, o menino não tem culpa de ter um pai que não se importa com ele. O que Bell queria era ter o orgulho do pai e a forma dele conquistá-lo podia ser através de boas notas. Hundert o incentiva a entrar para um tradicional campeonato de perguntas sobre História Antiga, o Clube do Imperador, mas como ele não consegue a nota mínima para ser um dos colocados ele manipula os resultados e o inscreve na competição.
Para seu desapontamento, Hundert percebe que Bell estava colando e lhe manda uma pergunta improvável, passando a vitória para o outro finalista. Bell volta a ser o aluno problema que era antes e Hundert fica decepcionado não só com seu pupilo como consigo próprio por ter manipulado os resultados e retirado um aluno capaz da competição.
Passam-se os anos e Hundert espera ser o próximo reitor do colégio, mas perde o cargo para um colega que tinha melhores contatos. Desapontado, deixa a escola, mas é convidado para ser jurado de uma competição no estilo do Clube do Imperador. Uma revanche, mas dessa vez todos são homens feitos. Bell se tornou empresário e é o responsável pela nova competição. Hundert vai com a esperança de que as coisa sejam consertadas dessa vez, no entanto, Bell repete o mesmo ato (colando) e Hundert repete a fórmula que o desclassificou fazendo uma pergunta tão óbvia que não podia estar na cola. Bell não perde a compostura e faz um discurso lançando a sua candidatura política. Assim, Hundert entende finalmente a motivação dessa revanche: uma forma de Bell se auto-promover.
Hundert dessa vez tira satisfações com Bell e este justifica suas ações com base em seu sucesso. Hundert tenta agir certo e está no fundo do poço, enquanto seu aluno corrupto está cada vez mais rico. No entanto, seu filho ouve a conversa e se decepciona com o pai. Parece que a história se repete: um novo abismo entre pai e filho. Hundert então se pergunta até que ponto as conquistas de Bell foram realmente conquistas.
Antes de ir embora, o professor pede desculpas ao antigo aluno que desclassificou para ajudar Bell e recebe uma homenagem de todos seus ex-alunos. A consideração que eles possuem por ele o sensibilizou. Hundert pode perceber que conseguiu atingir o seu objetivo, pois a maioria de seus antigos pupilos eram realmente homens éticos. Bell foi um dos poucos erros.

Hundert entre seus alunos.
Assim ele volta a dar aulas. Pouco lhe importa que a instituição não lhe reconheça, o que importa é que ele está fazendo o certo; está formando homens responsáveis e maduros e estes reconheceram um dia a dívida que tem para com ele. Pouco lhe importa que um aluno não conseguiu aprender isso, pois o que realmente importa é não desistir e continuar tentando atingir esse objetivo com outros alunos.
Hundert possui uma prática pedagógica, como dissemos, clássica, mas que tem muito em comum com a maioria dos filósofos da educação, uma vez que todos concordam que a educação não é só conhecimento, mas também atitudes e habilidades que devem transformar o homem em um ser independente e responsável.
Hundert também algo em comum com nós, atuais e futuros professores: ele não é devidamente reconhecido pelos órgãos oficiais. Nossa profissão possui essa característica muito interessante de ser supervalorizada como instrumento de mudança e desenvolvimento da sociedade e, por outro lado, de não valorizar seu profissional. Ao professor recai as mazelas do sistema educacional: não se enxerga a educação como um processo que merece a atenção de todos. O filme salienta inclusive o papel da família na educação, através do senador que não quer que Hundert molde seu filho, Bell.
O ramo da educação é algo muito difícil. É uma luta diária. Sabemos que o sistema educacional brasileiro foi feito para estimular a alienação (uma vez que ele está subordinado ao Estado e ao capitalismo). Além de possuir esse objetivo, o sistema não é eficiente e está falindo. O resultado é o que vemos na televisão: alunos sem condição de estudar por causa da falta de recursos na sala de aula (inclusive merenda) por conta do desvio de verbas e professores se desdobrando em mil para poder ensinar uma sala de milhares de pessoas.
No entanto, o filme nos passa uma mensagem que está longe de ser conformista: a situação é difícil, mas a realização de ensinar vale a pena. O verdadeiro professor é aquele profissional que sabe disso. O verdadeiro professor é um lutador se pensarmos bem. E a educação nesse país precisa de lutadores, de pessoas comprometidas. Senão nunca conseguiremos formar homens éticos. Senão toda conquista no campo educacional será vazia como a de Shutruk Nahunte.

sábado, 14 de maio de 2011

História contra a bárbarie

Walter Benjamin
Walter Benjamin era um intelectual alemão que já tinha participado de movimentos estudantis e reservado para lutar na Primeira Guerra Mundial. Ele mesmo se considerava um pessimista. Talvez a visão das trincheiras ou mesmo as perseguições aos judeus tenham contribuído para isso. Sua reflexão é pautada por essa espécie de pessimismo que encontra, a partir da década de 1930, no fascismo seu ponto alto.
Bombardeio de Dresden (Alemanha) em 1945
Benjamin, como os demais pensadores da Escola de Frankfurt, tenta entender o fascismo e para isso se envolve com a pesquisa histórica. No entanto, sua opinião sobre a história não se torna uma filosofia da história propriamente dita, no sentido dele enumerar leis para a realidade histórica. O pensamento de Benjamin vem na forma de ensaios ou frases fragmentadas (influenciado nesse estilo pelo poeta francês Baudelaire, um dos escritores marginais mais famosos da Europa). Vamos tentar, então, mostrar o ponto principal de sua visão sobre a história.
Para Benjamin, história é ideologia. Não se pode reviver o passado, talvez somente em sonhos (por isso defendia uma espécie de historiografia onírica, baseada na interpretação de sonhos), mas a ciência histórica não pode fazer isso. O passado não volta e o passado é complexo demais para ser reduzido á algumas palavras. A história, portanto, é uma tentativa de entender esse passado, mas uma tentativa parcialmente fracassada. A ideologia ajuda a esconder a verdade, o que realmente aconteceu. O que temos, na realidade, é uma história dos vencedores, onde os vencidos não aparece. É uma ideologia que praticamente está querendo dizer: vocês nunca fizeram algo digno de ser lembrado e não farão.
Reprodução d'O Turco: a porta aberta indica onde ficava o anão corcunda.
Benjamin gosta de falar através de imagens e utiliza para falar de história duas imagens: a do anão corcunda e a do angelus novus de Paul Klee. No século XVIII, um inventor francês apresentou á corte de Viena uma máquina que jogava xadrez. Era um boneco enfeitado como um muçulmano, por isso ficou conhecido como O Turco, fixo á uma mesa de xadrez. Esse protótipo de robô ganhava todas partidas de xadrez (ganhou ate de Napoleão) e o segredo de seu funcionamento continuou até o século XIX quando foi revelado que dentro do boneco existia um anão corcunda hábil em xadrez que operava a máquina. Para o filósofo alemão, a história é como O Turco: por fora, um oponente aristocrático e reluzente, mas na realidade quem o sustenta e opera é um homem deformado e habilidoso. A história dos grandes homens esconde o seu anão corcunda, o povo.

O Angelus Novus de Paul Klee observa as ruínas.
Tomando um quadro de seu amigo Paul Klee como metáfora, Benjamin passa a falar do historiador.O quadro em questão é Angelus Novus, onde vemos retratado um anjo abstratamente. O historiador deve ser como esse anjo: uma entidade fora do plano terreno (do plano histórico) que observa tudo, mas que não é obrigado a concordar com tudo que vê. Se a história para Benjamin é feita de massacres e silêncios, a função do historiador é não compactuar com eles. A função do historiador seria construir uma história dos vencidos.

Judeus sendo revistados por soldados nazistas no Gueto de Varsóvia, década de 1940.

Já está claro que Benjamin toma a história como uma sucessão de massacres e mentiras. Os poucos fatos heróicos são manipulados e desvirtuados de seu significado. Além disso, Benjamin tem uma posição radicalmente diferente dos demais pensadores marxistas: ele rejeita a idéia de progresso, uma vez que enxerga nessa idolatria ao nosso progresso e evolução moral o germe da nova bárbarie, do fascismo. Ora, é pelo próprio ideal de progresso que a sociedade capitalista tem explorado as classes populares. Benjamin, ao contrário de Marx, não acredita que a revolução seja inevitável, fruto do progresso. Pelo contrário, ela seria uma tentativa de impedir esse "progresso". Essa revolução deveria ser guiada pelo sentimento do povo e não por uma vanguarda. A revolução deveria salvar o mundo da bárbarie e tomar cuidado para não se tornar ela mesma bárbarie (aliás, essa sua crítica ao progresso e todo otimismo dele decorrente é um dos pontos que o mais destaca dentro do marxismo, segundo o historiador Michael Löwy).
Mas mesmo assim manifesta pessimismo com relação á essa revolução: talvez ela nunca chegue. Benjamin acreditava que essa onda de irracionalismo era o começo do fim do mundo. Tentando fugir da Alemanha nazista atravessando os Pirineus, Benjamin, com medo de ser preso pela Gestapo, se suicidou em 1940. Sua morte ainda está envolta em mistério, mas para muitos, inclusive amigos, esse fim se encaixava com sua posição radical e sua visão um tanto pessimista do mundo. Já na década de 1920, Benjamin manifestara sua intuição sobre o futuro da Europa: "Pessimismo em toda a linha. Sim, na verdade, e totalmente. Desconfiança quanto ao destino da literatura, desconfiança quanto ao destino da liberdade, desconfiança quanto ao destino do homem europeu, mas sobretudo desconfiança tripla diante de qualquer acomodação: entre as classes, entre os povos, entre os indivíduos".

De qualquer forma, seus pensamentos sobre a história nos ajudam a refletir não só sobre o fazer historiográfico, mas nos convida a repensar o dever ético do historiador: um dos conselhos dado para o historiador é que este não deve julgar os acontecimentos, mas essa pretensa neutralidade não é também é uma forma de compactuar com o silêncio? Se quisermos transformar a história em algo transparente, como uma casa de vidro na expressão de Benjamin, mostrando tanto os lados positivos como negativos do processo histórico, estamos fazendo uma história dos vencidos?

sexta-feira, 13 de maio de 2011

Educação contra bárbarie

A partir da década de 1930, na Alemanha, um grupo de intelectuais se reuniram ao redor de um instituto de pesquisas que ficou conhecido como Escola de Frankfurt. Estes pensadores tinham em comum sua orientação marxista, mas também uma busca por um marxismo mais crítico. Alguns dizem que do marxismo eles apenas pegaram o conceito de classes sociais e ideologias, outros contudo afirmam que eles se aprofundaram em um tema então menor no marxismo - a superestrutura (cultura, política, psicologia, etc).
De qualquer forma, em um ponto todos concordam: estes intelectuais trouxeram uma contribuição muito original para a filosofia ao utilizar conceitos da psicanálise e até da filosofia kantiana para discutir os limites do esclarecimento. Esclarecimento aqui é entendido como a racionalidade em ação. Talvez o livro mais emblemático seja Dialética do Esclarecimento de Theodor Adorno e Max Horkheimmer, onde estes autores tentam demonstrar como o esclarecimento possui seus limites e se não os reconhecermos entraríamos na bárbarie mais uma vez.

Benito Mussolini e Adolf Hitler, dois expoentes do fascismo.
O grande tema dos pensadores de Escola de Frankfurt foi o fascismo, movimento este, aliás, responsável  pela saída destes homens da Alemanha com a ascensão de Hitler ao poder a partir de 1933. O fascismo, para todos eles, era o maior exemplo de irracionalismo e bárbarie que a história teve até hoje. Adorno acreditava que o fascismo era a maior prova de que o capitalismo e o esclarecimento tinha chegado ao seu extremo. Segundo o pensador alemão, a civilização é construída pela necessidade do homem dominar a natureza e sua natureza (seus impulsos). Impulsos esses que não podem ser anulados, afinal são parte de nós. Quanto mais os reprimimos, eles se voltam contra nós mais forte ainda. O esclarecimento é uma tentativa de dominar esses impulsos. A ilusão do esclarecimento de que pode controlá-los completamente ajuda que eles aflorem e sejam justificados pela razão (é o caso do colonialismo: uma dominação que tinha como pretexto o ideal evolutivo e etnocêntrico).

Alegoria do Iluminismo: a Verdade tira o mundo das Trevas.
Assim sendo, temos de esclarecer o esclarecimento. Lembrá-lo de seus limites. Só não perdendo de vista que criticá-lo não significa abandoná-lo. Ainda que possua seus limites ele ainda é o melhor que temos para lutar contra a bárbarie. Como esclarecer o esclarecimento? Através da educação. Num artigo chamado Educação após Auschwitz Adorno propôe uma diretriz para a educação: "A exigência de que Auschwitz não se repita é a primeira de todas para a educação." A educação tem o papel, assim, de impedir que a civilização se torne bárbarie. Adorno apesar dessa diretriz não constrói um plano de ensino detalhado. Apenas defende que a educação para atingir esse objetivo tem de ensinar os indivíduos a serem independentes (e não individualistas ou alienados, o que contribuiu, aliás, para a difusão do fascismo) e começar a superar a oposição campo e cidade (afinal, no campo ainda sobreviviam formas de dominação arcaicas que se aproveitavam da pobreza e da alienação de seus moradores).

Propaganda de molho de tomate: a indústria cultural se refina.
Mesmo depois do fim da Segunda Guerra Mundial, Adorno continuou preocupado com a bárbarie, mas principalmente com aquela que poderia vir com a sociedade integrada (termo que utilizava para definir uma sociedade que estava muito bem organizada e dispunha de instrumentos eficazes para dominar seus indivíduos). Vivendo agora nos EUA, Adorno enxergava na mídia um desses instrumentos da sociedade integrada para alienar as pessoas. Chamou este instrumento que começava se expandir com o final de guerra de indústria cultural, ou seja, o capitalismo já tinha avançado tanto que agora chegava na esfera da arte, produzindo em larga escala "obras de arte" e "opiniões formadas" esvaziando-as assim de seus sentido original. Como dissemos a preocupação de Adorno é que estes instrumentos, que se demonstravam então muito eficazes (principalmente ao venderem a imagem do American Way of Life para os EUA e para o mundo), produzissem mais um exército de alienados para um futuro fascismo, agora abastecido com novas técnicas e armas criadas pelo esclarecimento (bombas atômicas, guerras biológicas, por exemplo). Por isso a autonomia era, para Adorno, o objetivo mais importante para deter a bárbarie. Autonomia se alcança através de uma educação crítica, ativa e não mais passiva como vinha então sendo feita na Alemanha e em boa parte do mundo dito civilizado.

terça-feira, 5 de abril de 2011

O dilema do mandarim

Um dos últimos livros do escritor português Eça de Queiroz, O Mandarim (1880), tem como enredo uma história de cunho fantástica. Theodoro, um típico funcionário público que mora em uma pensão e tem uma vida pouco emocionante, certa noite, ao ler um livro qualquer encontra esta proposta:

«No fundo da China existe um Mandarim mais rico que todos os reis de que a Fabula ou a Historia contam. D'elle nada conheces, nem o nome, nem o semblante, nem a sêda de que se veste. Para que tu herdes os seus cabedaes infindaveis, basta que toques essa campainha, posta a teu lado, sobre um livro. Elle soltará apenas um suspiro, n'esses confins da Mongolia. Será então um cadaver: e tu verás a teus pés mais ouro do que póde sonhar a ambição d'um avaro. Tu, que me lês e és um homem mortal, tocarás tu a campainha?»

O que esse trecho propôe, basicamente, é que Theodoro sacrifique a vida de um homem, o qual ele não conhece, em nome de um mundo diferente para si. E de forma limpa: basta tocar a campainha. A mesma premissa encontramos no filme A Caixa (2009), do diretor Richard Kelly. Um homem misterioso (Mefistóteles?) surge com a solução para os endividamentos de uma família de classe média norte-americana: uma caixa. Basta apertar seu botão e essa família ganhará mais dinheiro, ás custas de vidas desconhecidas tiradas aleatoriamente pela caixa.

Sr. Steward (Frank Langella) e Norma (Cameron Diaz), em cena d' A Caixa.
A ficção, mais uma vez, pega a vida real de jeito: o que querem dizer com essa proposta indecente o escritor portugues e o diretor norte-americano? A vida é feita de escolhas e, quando fazemos as nossas, será que distinguimos o que é fácil do que é correto? Ora, é muito fácil conseguirmos dinheiro e luxo com uma simples campainha ou um botão. Se uma vida que desconheço será perdida é lamentável, mas o fato de mal conhecê-la alivia a dor de tirá-la e com isso a escolha torna-se muito fácil. Mas e essa pessoa que você tirou a vida? E se ela fosse como você? E se você fosse ela?

Esse dilema do mandarim está muito longe de ser algo fora de nosso dia-a-dia. Afinal, quantas vezes no decorrer de nossa vida somos forçados a tomar decisões parecidas e, na maior parte das vezes, prevalece o mais cômodo. O dilema do mandarim, portanto, leva ao extremo esta situação corriqueira para nos fazer refletir.
Existe um campo na filosofia própria para esse tipo de reflexão chamado Ética, que se divide em dois aspectos: um mais geral, dedicado a discutir os conceitos de Bem e Mal, e outro mais próximo das ações cotidianas, que abrange os vários dilemas morais que enfretamos em nossa vida.
É costume nosso criticar a "falta de ética" nos políticos, mas o exame de consciência sobre a nossa ética é quase sempre adiado ou justificado pela necessidade de sobreviver. Quando alguém tem de sobreviver, pouco importa o que acontecerá com o próximo. No entanto, nem tudo é permitido e nem sempre isso é verdade - na maior parte das vezes, se torna uma desculpa, uma desculpa para mascarar o que é conveniente.
Atender ás suas próprias exigências nem sempre significa respeitar a vida das outras pessoas. Pense num homem que estaciona na vaga de um deficiente só porque é mais fácil que procurar um estacionamento. O que acontecerá com esse deficiente não passa na cabeça desse indivíduo. A corrupção e a violência são duas formas, as mais marcantes, de desrepeito ao outro, mas nos esquecemos dessa forma, talvez porque estejamos imersos nela ou porque simplesmente não queremos pensar nisso.

O primeiro passo para superarmos essa situação de desrespeito ao outro, seja ele quem for, é percebemos que nossas escolhas afetam outras pessoas e um meio para se chegar á isso é a interrogação: uma vida alheia vale a pena em nome do meu conforto? Jogar lixo na rua ou nos rios é mais cômodo, mas não vai acarretar problemas para mim ou mesmo para meus filhos? Desviar recursos de uma escola vai me deixar mais rico, mas também írá roubar um destino melhor de muitas crianças, o que pode gerar miséria e criminalidade. Será que um dia as consequências desse meu ato não voltarão para mim ou para as pessoas com quem me importo? O dilema do mandarim está aí, cabe a nós escolhermos. Tocarás tu a campainha?

segunda-feira, 21 de março de 2011

Educador e Anti-educador

Esse post resulta de discussões feitas em sala de aula, na disciplina de Filosofia da Educação com o professor Stelio Dantas:

O que é educação? Educação é um processo no qual um indivíduo adquire conhecimento.
Existem vários tipos de conhecimento, como já discutimos aqui antes, sendo assim a educação pode ser feita nos mais diferenciados espaços.
Por que a escola, então, é vista como espaço privilegiado da educação? A escola é uma instituição criada quando as sociedades se tornam tão complexas e especializadas que precisam de um espaço e de um profissional dedicado exclusivamente á educação.
A educação não é neutra. Ela pode transmitir uma herança cultural ou uma ideologia á seus aprendizes.
Muitos pensadores da educação concordam que sua principal função, sua maior força, seja construir indivíduos autonômos, independentes. Sendo assim, quando a educação é usada para incutir na cabeça das pessoas que as coisas não devem mudar e que ele deve obedecer á alguém estamos falando de anti-educação.
Enquanto o educacor visa criar a autonomia, o anti-educacor reproduz a dependência e o conformismo.