sábado, 6 de outubro de 2012

Quilômetro 36

Bem, gente, aqui vai um pedaço do conto de suspense que ando preparando. Espero que gostem:

QUILOMETRO 36

O ENCONTRO
Sussurros. Não eram nossos. Todos estavam rigorosamente quietos. Até os pássaros. Rezava para que fosse o vento.  Do meio do mato, avisto algo. Era ela. Imponente, erguida como um monumento aos espíritos da selva. A torre vegetal era seca e não tinha uma copa como suas irmãs. No centro uma estranha mancha negra. Meus olhares, contudo, se concentraram nas raízes que abrigavam todo tipo de oferenda: carabinas, enxadas, retratos, bonecos...
Em cada ponto uma vela. Aquelas velhas coloridas tingiam as raízes largas da árvore, como se a planta estivesse sangrando. O cheiro era horrível. Restos de comida com parafina e coisas mofadas. Tudo parecia velho e digno de ser saboreado pelas moscas, mas depois de um dia na mata tudo fica com essa cara.
Circundava lentamente a toca do espírito tão falado. Chico Tapera sempre me acompanhava. Os outros não ousavam entrar na clareira. Cochichavam. Aquela mancha... Não é produto de uma queimada. Parece algo que brotou de dentro da árvore, como um cancro.
“Não toca, senão morre”, adverte Chico. Esclarece: “Se tocar, ele vai te matar”. Agradeci, de forma mecânica, mas hoje sei o quanto devo á esse homem pelo aviso. Admirava a mancha tão profundamente. Nem por um minuto reparei que os sussurros tinham parado. Agora pairava um silêncio de morte.
Tapera revirava a algibeira a procura de algo. “Vamos logo, seu moço”.  Enfim achou o presente: depositou o par de sandálias nos pés da planta sobrenatural, sem olhar pra cima. Perguntei se tinha algum critério para a oferenda. Respondeu-me, apressando o passo: “O que tiver na mão, seu moço...”
Saímos de lá. Ninguém tinha coragem de olhar para trás. Eu não via a hora para desenhar a famosa Árvore do Calundu no meu bloquinho. Há meses que espero por esse momento mágico que no final das contas se revelou sinistro. Que o digam os calafrios que ainda passam pelo meu corpo quando menciono o fato.
Sim, calundu. É como são chamados alguns espíritos nas culturas de raízes africanas. São geralmente muito emotivos, deixando-se levar pelo dengo ou pelo ódio. Depende da situação. Há céticos, assim como eu, que dizem que eles são apenas uma forma encontrada por estes povos para explicar mudanças repentinas de estado de espírito como aquelas enfrentadas pelas pessoas bipolares.
O que vivia naquela árvore, no entanto, não era um calundu, mas na falta de nome melhor ficou conhecido como tal. Calma, explicarei melhor: os terreiros da comunidade de Muquira são visitados por muitas entidades do Tambor de Mina, uma religião de matriz africana predominante aqui no Norte do país, e foi por uma delas (Pomba Gira) que descobriu-se que um espírito vivia naquela árvore solitária.
Entre uma gargalhada e outra, a Pomba Gira respondeu ao Pai Deco:
- Mais cuidado tem que ter com o sinhô que vive lá no meio do mato. Aquele caboco, aquele quimbundo !
Até então todo mundo já estranhava que havia algo de errado com os corpos encontrados na mata. Eram gente experiente em abrir caminho no meio do mato que morriam de fome ou envenenados. Um foi encontrado vivo, mas amalucado. Ouvia todo tipo de sussurro. Diz que o dia se fez noite, a água do cantil sumiu e espinhos surgiram na alpercata. Esse era Timbó, mateiro* e pai de Chico Tapera.
No terreiro de Pai Deco certa noite tiraram a dúvida através da Dama da Noite. Então todo mundo passou a reparar naquele jatobá seco.  A mancha que trazia em seu tronco não existia antes, todos tinham certeza. Para evitar mais mortes, só agradando o caboco**. Qualquer um que passe tem de depositar ali uma pequena oferenda ao espírito zombeteiro. Senão, capaz de se perder nessas bandas. E em caso de mexer com o lar da criatura, a pena vem na forma da morte mais horrenda que puder imaginar.
Claro, sabe-se disso há uns 40 anos atrás. Tempo suficiente para todo mundo conhecer o caboco. E quem conhece, teme. Não tem nome, não aparece no terreiro, mas é presença confirmada na prosa dos velhos no boteco ao fim do dia. Sempre alguém retira um causo do calundu do jatobá lá do fundo da memória.

MÁS NOTÍCIAS
Em todos os meses em que morei em Jacamirim só conversei com o prefeito duas vezes. “Conversa” na realidade é eufemismo: “interrogatório” é mais adequado. A primeira foi assim que cheguei aqui. Um dos seus assessores foi me receber no Porto das Catraias e revelou que o Major Rubens Leão queria falar comigo. Esperei por uns 30 minutos em uma antessala da câmara, contando quantos azulejos estavam encardidos e quantos estavam limpos ali. Enfim, fomos apresentados. Major Leão era um homenzinho a caminho da calvície, digno de ser esquecido não fosse seu marcante bigode, geometricamente aparado.
-Fez boa viagem?
-Sim. Só quando estávamos aqui perto que houve um rebuliço. Parecia que haviam muitos bancos de areia...
-É típico. Época de seca, os bancos de areia surgem no rio. É típico... Professor, que mal lhe pergunte, mas qual a sua opinião sobre o Brasil?
-Como assim?
-Sua opinião política sobre o Brasil? Você acha que as coisas vão bem ou...?
Em outras palavras, ele queria saber se eu era comunista. Hoje uma pergunta direta não intimida ninguém, na verdade, até constrange alguns, mas intimidar, não mais. Mas, entendam, eram os anos 70. Tempos de Milagre Brasileiro, Tempos de Araguaia. Você é um prefeito e de repente chega na sua cidade um rapaz paulistano com cara de alemão que diz que vai se embrenhar na mata para fazer uma “pesquisa de campo”. O que pensaria?
Fiquei desconcertado, mas fui bem retórico na minha resposta. Na realidade, tinha rompido com o pessoal do Partidão e no momento nenhum daqueles grupos radicais me agradavam. Guerrilha era algo que não me convencia. Eu também já estava meio pessimista em relação á revolução, mas de alguma forma ainda me considerava de esquerda.
Passaram-se sete meses, nunca mais fui chamado para “dar pingos aos is”, mas me sentia vigiado. Pode ser paranoia minha, mas em todo canto achava alguém que desviava o olhar quando reparava que eu tinha olhado para ele.  Então, o secretário de educação, Dr. Alexandre Patarra, o nosso pedante municipal, me disse que o prefeito desejava me ver novamente.
Lá fui eu para aquela repartição pública triste e quente. A cor do chão e dos batentes era um verde amarronzado, lembrando vômito. A decoração sempre diz tudo... Encontro um Major Leão de sorriso fácil e careca lisa. O bigode continuava o mesmo, majestoso. Depois dos habituais salamaleques entramos de cabeça no assunto em questão:
-O senhor sabe da estrada, não?
Como não saber, é só no que se fala aqui. Em estrada e hidrelétrica. E pra variar, em hidrelétrica e estrada.  O governo prometeu fazer uma rodovia que vai ligar o interior do Pará com Manaus. As construções já começaram a seguir o Tapajós e encontraram a pacata Jacamirim.
-O senhor que vive em Muquira há um certo tempo... pode me ajudar a responder uma coisa: o povo de lá anda revoltado com a estrada?
-Bem, revoltado não. Estão mais para preocupados, afinal ela vai passar muito perto da comunidade deles e tem alguns recantos que eles não podem perder como as cacimbas, a árvore...
-É típico. Até entendo a preocupação com as cacimbas, mas aquela árvore morta? O meu maior medo, professor, é que justamente por se tratarem de pessoas que não tem o estudo que eu e o senhor tivemos eles possam arrumar confusões por coisas sem sentido como essa árvore, me entende?
Para bom entendedor meia palavra basta: a rodovia derrubaria a Árvore do Calundu. Como essa conversa se deu antes de todo o acontecido, preocupei-me mais com os quilombolas que com os infelizes que mexeriam com o caboco.
-Professor, tudo o que lhe peço é que apazigue os ânimos daquele pessoal. Essa rodovia é ordem de cima e irá ajudar a desenvolver a nossa cidade. É justo sacrificar o destino inteiro de uma cidade por causa de uma miserável planta?
Deixei nosso Napoleão ribeirinho contemplando seus memorandos. Estava puto da vida. Já vi que seria eu o primeiro a dar aquela notícia á meus amigos.

DE COMO CHEGUEI AQUI
Tudo é caos, tudo. Mas a maior das anarquias sempre é despertada pelo menor dos detalhes. É o que diz a Teoria do Caos. Uma borboleta provocando furacões é difícil de acreditar, principalmente quando você acha que é dono do seu próprio destino. Difícil de admitir que o seu futuro esteja nas mãos, digo asas, de um pequeno e singelo inseto.
O responsável por minha estadia aqui nessa cidadezinha não foi uma borboleta, mas uma traça. Lá pelos meus vistosos anos de graduação em Antropologia, decidi consultar a biblioteca de meu falecido pai. Procurava livros que pudesse trocar nos sebos. Naquelas estantes abarrotadas encontro um exemplar atacado por uma traça impiedosa. Passaria totalmente desapercebido como os outros, não fosse aquele buraco imenso. Folheando, tentando ter uma dimensão do estrago, me deparo com uma foto.
Um totem esculpido em uma pedra. Olhos imensos, cortados por ao que parecia uma sobrancelha maligna. Para completar, uma boca monstruosa com dentes afiados. Uma pequena planta tinha nascido ao lado da rocha, dando a impressão de ali se encontrar a pata da criatura. Adivinhe com que sonhei naquela noite.
Fiquei de tal forma maravilhado que decidi me enveredar pelo campo de estudo das práticas mágico-religiosas. Não desejava falar de pequenas capelas de beira de estrada, mas de coisas com maior impacto em suas comunidades. De cara, mirei minha bússola para o Norte-Nordeste. Era onde todo mundo na época dizia que ainda sobrevivia “formas arcaicas” de cultura. Fui na onda desse pessoal.
Em um simpósio um pesquisador de Tambor de Mina me diz que lá no interior do Pará existe uma comunidade quilombola que cultua uma árvore onde dizem morar um espírito. “Alguém já falou sobre isso, Sérgio?” Diante da negativa, meus olhos brilharam.
Seria o trabalho da minha vida. A obra prima acadêmica de Reinaldo Denker, herdeiro irresponsável e antropólogo de quinta. Despedi-me de minha irmã e meti o pé na estrada. Melhor, no avião. Minha mana tento me convencer a desistir dessa loucura. Primeiro, por causa dos militares, depois por causa dos pistoleiros, índios, enfim, da gente do sertão. Foi em vão. Sou teimoso.
E aqui estou desde então, graças àquela maldita traça.
Foi difícil no começo. Tive que mudar radicalmente de vida. Não podia ser um bon vivant em plena selva amazônica. Estranhamente todos na cidade se demonstraram simpáticos com o “gringo”, tirando, claro, os homens do Major Leão e o mocambo de Muquira.
Os moradores do mocambo são pessoas desconfiadas de tudo. Não lhes tiro a razão. Quando me dirigi ao líder da comunidade, Mestre Quinho, este me fez uma série de condições tal qual um negociador puro sangue de Wall Street. Eu, impactado, aceitei. Uma delas era explicar tintim por tintim a minha pesquisa.  A outra era não publicar nada que não passe pelo crivo de Quinho ou de seus afilhados.
A árvore só seria apresentada depois que tivessem certeza de minha índole. No começo me conformei com isso, afinal, era bom que assim captava um pouco do cotidiano da vila e de alguns de seus personagens. Depois, me desesperei: o prazo do mestrado não era tão curto e a tal árvore a cada dia parecia mais longe.
Á essa altura já era conhecido como Tio Branco pelas crianças. Todo mundo me chamava de “Professor” ou de “Alemão”, pelas costas. Chico era o único que ainda me tratava como “seu moço”. Respeitava-me muito, e a recíproca era verdadeira. Tinha cara de poucos amigos, um olhar de congelar a alma e um silêncio por si só expressivo. Mestre Quinho sempre o consultava, para inveja do sucessor do Pai Deco, Andirá. Sobre seu passado não tenho muito conhecimento.  Juninho Sabiá disse que ele já foi garimpeiro e jagunço. Não duvido.
Em Jacamirim era conhecido como o homem que matou uma onça com as mãos.  O sábio Alexandre Patarra cansou de desmitificar o “causo do preto mentiroso” no jornal Diário do Tapajós. Uma vez, para minha sorte, ouvi o próprio Chico contar a história: sabia que ela estava o seguindo, então subiu no alto de uma árvore, quando ela passou por debaixo, se atirou. Apertou a sua garganta até matá-la. Levou algumas mordidas, mas o importante é que saiu vivo e com um couro de onça impecável.
O couro? Vendeu para um regatão. “Mas, seu Chico, não seria melhor guardar ele como recordação?” “Seu moço, de recordação já conta o cotoco que ganhei”, dizia alisando o que um dia foi seu polegar.

(CONTINUA...)

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*Mateiro: sujeito responsável por abrir picadas e caminhos no meio do mato.
**"Caboco": forma como referem-se ás entidades menores no culto de Umbanda e Tambor de Mina na região Norte.

sexta-feira, 5 de outubro de 2012

Programão pra quinta á noite!

Reuni algumas considerações em tempo real feitas por mim ontem no Facebook durante o último debate dos prefeituráveis:

Resumo do debate:
Serafim - A gente tem que voltar com a domingueira, meia catraca e colocar computador pra cada aluno!
Pauderney - Eu trouxe muitos recursos pra Manaus e votei a favor do salário mínimo.
Henrique - A gente precisa de oxigenação, vota no novo!
Artur - Manaus precisa de um prefeito altivo e fraterno como eu - e ela votou contra o salário mínimo!!!
Vanessa - Ah, tudo eu, tudo eu...
Sabino - Você, meu amigo, eu tenho uma novidade pra ti: a nova tekpix!...

Artur tava meio leso nesse debate: demorou um bloco pra atacar a Vanessa...
Eu me impressionei com o nível de profissionalismo do mediador (Heraldo Pereira). Qualquer outro jornalista não teria segurado o riso toda vez que ouvisse as respostas do Sabino.

Pauderney: Vou investir no lazer, no esporte, vou tirar o futebol amazonense da Série D...
Pauderney tá concorrendo á prefeitura ou á CBF?

Henrique: você foi sacana, deixou acontecer invasão lá no Carlinhos do Alcatraz!
Serafim: não, foi na gestão do Carijó.
Henrique: não, foi tua! Eu vi no Wikipédia!

Henrique: Eu vou implantar o projeto Meu Armazém, nós vamos te dar os produtos...
Sabino: Lá vamos nós voltar ao tempo dos seringais...
Rapaz, me surpreendi. Sabino por dentro da História, por dentro de alguma coisa que não fosse denúncia e pó - é, o mundo tá mesmo pra acabar...

Vanessa: vamos ampliar a domingueira...
Serafim: mediador, ela tá colando! Dá zero pra ela!

Sabino: você vai colocar tudo na mão dos empresários, dos mafiosos!
Artur: Se tem alguém que tem pulso para acabar com as máfias sou eu!
Falou o próprio Elliot Ness agora...

Serafim: é preciso ter transparência e buscar recursos junto ao governo federal.
Artur: mas o bom governante vai além: ele procura recursos federais, internacionais, espaciais... E ele sabe viver sozinho. O bom prefeito tem que ser ético, austero, puro, virge... epa.

Sabino: Eu sou o novo, eu tenho o exército invisível!
Medo agora, muito medo....

Na política, lembre-se: se tudo der errado, se faça de vítima!
Artur: eu não ataquei a colega, só falei a verdade: ela votou contra o salário mínimo. Estou sendo perseguido por dizer a verdade!!
Vanessa: vocês viram? eu não falei nada, podia ter falado da surra nos camelôs, mas eles teimam em me perseguir!
Esse debate teve mais "perseguições" que todos os filmes da série Identidade Bourne...

Rir faz bem a saúde: mais um motivo para você assistir os debates.

Por entre quatro paredes

Família, Tarsila do Amaral.

SANIDADE
-Querida, por favor, largue isso! Eu não vou te machucar. Ninguém vai te levar pro hospício, fique calma! Eu só acho que você precisa de tratamento...
Suas palavras tocaram o coração dela. Pena que ela tocou o coração dele com uma faca.

INGENUIDADE
Acorda e vem olhar a lua. Olha aquele queijo boiando no espaço. Quando se é pequeno pode-se ouvir isso e acreditar piamente que os homens tenham escondido esse queijo gigante dos ratos fora da Terra. Crianças...

VERACIDADE
Há pessoas que tem uma história pra contar. Marilza tinha muitas. Aquela vez em que salvou o marido de ser atacado por um catitu, por exemplo. E teve um dia em que foi arrastada para o fundo do rio por um boto. Todas verdídicas, assegurava o filho ao repórter.

CONFIANÇA
Quem desconfia, esconde. Raimundo desconfiava. Foi preciso ter morrido para acharem aquela moringa cheia de dinheiro deixada numa tábua solta de seu quarto. Hoje quem esconde é Lorena, para ira dos filhos.

CREDIBILIDADE
Não acredito em bruxas ou mesmo em fadas. Mas acredito em fantasmas. Eles são um tanto confusos, mas dá para se acreditar nas suas histórias. O finado primo Eleutério, por exemplo, é a diversão da família.

terça-feira, 2 de outubro de 2012

O fetichismo da Internet

APRENDER A APRENDER
Celso Castro
O Bibliotecário, Giuseppe Arcimboldo.

Para escrever seus Ensaios, publicados a partir de 1580, o filósofo Michel de Montaigne utilizou quase todo o patrimônio literário greco-romano disponível: menos de trezentos livros. A familiaridade de Montaigne com esse acervo era tamanha que, comparando-se trechos citados nos Ensaios com os originais, podem-se perceber pequenas alterações que sugerem que ele conhecia vários desses livros de cor. Em 1748, Montesquieu publicou Do espírito das leis consultando sua biblioteca pessoal de 3.000 volumes. À média de um livro por semana, levaríamos 55 anos para ler esse total, que podemos tomar como o quase-limite daquilo humanamente possível de se ler ao longo de uma vida. Avançando um século e meio, nos deparamos com uma cena em que o sofisticado Jacinto de Tormes, personagem de Eça de Queirós em A cidade e as serras, fica paralisado diante de sua biblioteca de 70 mil livros. A simples tarefa de escolher um livro para se distrair antes de dormir torna-se sobre-humana perante tamanha oferta de informação.
Contemporâneo de Jacinto, o filósofo Georg Simmel chamou a atenção para essa desproporção crescente entre a cultura objetiva -  aquele acervo material e imaterial disponível no mundo - e a cultura subjetiva, entendida como a proporção desse acervo que, individualmente, podemos processar. Enquanto a primeira cresce sem parar, a capacidade de os indivíduos cultivarem a si mesmos através da interação com as coisas permanece constante. Nesse sentido, à medida em que o acervo à sua disposição aumenta, o indivíduo pode aproveitar uma parcela decrescente dessa riqueza.
Com a popularização da imprensa e, principalmente, com a enorme quantidade de informação disponível pela Internet, a fenda entre nossa capacidade de aprendizado e a quantidade de informações que podemos digerir aumentou exponencialmente, e continua a aumentar sem cessar. A desorientação daí decorrente leva facilmente a um fenômeno que chamo de "fetichismo da Internet": a falsa ideia de que a rede tem vida própria, independente. Mecanismos de busca na Internet tornam-se uma espécie de oráculo moderno: muitas vezes, acreditamos que todas as respostas estão à distância de um clique do mouse.
Não se trata de negar a enorme potencialidade desse acervo de informações à nossa disposição. O que cabe é perguntar como agir, nesse cenário em que podemos processar apenas uma fração decrescente daquilo que existe para ser apreendido. É preciso privilegiar, no processo de formação intelectual, a importância do espírito crítico e a necessidade constante de aprendizado. Aprender é um processo de alargar a percepção de nossa ignorância daquilo que não sabemos, mais do que um ato de se acumular conhecimento. O importante é "aprender a aprender" constantemente, estimulando a imaginação criadora. É esse processo que permite lançar pontes sobre a fenda crescente da cultura humana.

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CELSO CASTRO É PESQUISADOR E DIRETOR DO CPDOC DA FUNDAÇÃO GETÚLIO VARGAS.

In: REVISTA DE HISTÓRIA DA BIBLIOTECA NACIONAL. n. 03, Setembro de 2005, p. 98.

segunda-feira, 1 de outubro de 2012

Cinefilias

A volta do cinéfilo: se preparem porque a TV a cabo liberou o sinal dos canais Telecine nessa semana e enchi meu caderninho de cinema com anotações.
Vamos lá!

A um Passo da Morte - Faroeste antigão (1955!), com um Kirk Douglas jovem e um Walter Mathau quase moleque. O título original é The Indian Fighter e cai como uma pluma. Douglas é um aventureiro que está entre o mundo dos brancos e dos índios e que por causa de alguns trapaceiros afoitos por colocar as mãos em uma mina de ouro em posse dos peles vermelhas se vê no meio de uma guerra.
Como vocês podem ver, a história não é muito original. Até o velho forte apache está presente aqui. O final é previsível. Valeu assistir por conta da atuação de Douglas.

Missão Impossível 4: Protocolo Fantasma - Pense numa franquia bem sucedida! Claro, o segundo filme foi tosco, mas já passou. Estamos mais uma vez acompanhando o agente Ethan Hunt, dessa vez contra um maluco que deseja criar uma hecatombe nuclear. O enredo me pareceu tirado de algum filme do 007 dos anos 70 (aliás, o vilão parece um pouco com Adolfo Celi em 007 Contra a Chantagem Atômica).

Enfim, divertido e competente para o gênero. Brad Bird, o diretor, provou que sabe unir ação com algumas doses de bom humor. O filme não trava, é dinâmico e até zomba dos clichês do mundo da espionagem, como a tecnologia de ponta por exemplo. Os habituais desafios ao bom senso continuam firmes e fortes também (aquele papo de subir o prédio nos Emirados Árabes, sinceramente, é uma lorota épica).

Kung Fu Panda 2 - O primeiro filme achei interessante, mas não tão engraçado quanto parecia ser ou pelo menos prometia. Essa sequência, no entanto, me atraiu mais. O clima diferente (afinal, agora estão longe do bucólico vale) e a proposta diferente (a tecnologia contra o kung fu) me encantaram. É um filme um tanto divertido, mas que me deixa um tanto magoado porque poderia sê-lo muito mais. Não por culpa do diretor, da fotografia, do próprio estilo da animação, mas do roteiro. 

Duelo de Gigantes - Estranho: é o que me vêm na cabeça quando penso nesse filme. Assisti porque me deixei levar pela expectativa. A reunião de dois monstros da sétima arte, Jack Nicholson e Marlon Brando, em um western: esse filme promete! Pelo menos foi o que eu pensei. Os minutos iniciais denunciam que esse não é um faroeste épico como os antigos ou mesmo os italianos. Aqui se preza o realismo e uma narrativa sem pressa. Como o filme é produzido por Arthur Penn, realizador que revolucionou o gênero com O Pequeno Grande Homem, isso era de se esperar. Mas então, o filme toma outro rumo. Diálogos bizarros, tensões obscuras, ações inesperadas. Talvez precise assistir de novo, sei lá...

Rango - Animação despretensiosa, mas que se revela um caldeirão de referências. Seja do western ou da cultura pop (percebi em muitos takes aquele humor típico da franquia Piratas do Caribe, da qual o diretor, gore Verbinski, participou). É um filme que aposta no grotesco dos personagens, no absurdo das situações e no respeito á fórmula do bang bang. Achei muito divertido, mas vocês sabem que sou suspeito para falar isso.

Pandorum - Ficção científica e suspense. Um misto de Alien, o Oitavo Passageiro com O Segredo do Horizonte. Enredo confuso, com muitas falhas. A densidade psicológica de alguns personagens não convence. O Dennis Quaid que me perdoe, mas esse filme foi uma perda de tempo.

Gigantes agora adormecidos


Hoje o mundo perdeu um de seus maiores historiadores.
Nem bem tinha aceitado a perda do grande Cyro Resende Filho, lá se vai Eric Hobsbawm. Se nesse canto do Atlântico a comoção se concentrou em São Paulo e Taubaté, dois centros onde a produção e atuação de Cyrão era ativa e reconhecida, a morte do historiador britânico repercutiu em todo mundo.
Hobsbawm (ou Roberval, segundo alguns amigos meus) faleceu com 95 anos, com uma contribuição incontável para a História. Sua série de livros sobre o capitalismo (de A Era das Revoluções a Era dos Extremos) são antológicos. Assim como seus ensaios.
Admirava muito Hobsbawm, principalmente pela sua erudição incrível. O homem parecia um banco de dados ambulante: sabia recitar de cabeça a Ilíada e conhecia todos os grandes e obscuros nomes do jazz norte-americano. Antes de ler seus textos tinha que me preparar para a viagem: uma hora estava em Istambul, então passamos para a Melanésia e antes do fim do parágrafo voltamos á Argentina. Poucos sabem, mas um de seus países favoritos era o Brasil. Seu amor fica mais explícito em A Era dos Extremos em algumas rápidas considerações sobre a nossa grande arte, o futebol.
Conhecimento aprofundado e poder de síntese, duas combinações poderosas que Hobsbawm possuía. Seu estilo era coerente e flexível, livresco e ao mesmo tempo dinâmico. Difícil de explicar. Só lendo mesmo.
Fonte: Angelo Rubim/ Almanaque Urupês.

Quanto á Cyrão, meu professor de História Antiga, Medieval e Econômica durante minha estada na Universidade de Taubaté (UNITAU), possuía quase as mesmas qualidades. Suas grandes obras (História Econômica  Geral, Economia Brasileira Contemporânea e Rommel, a Raposa do Deserto) revelam um estilo objetivo, coerente e dinâmico.
Polêmico, tinha uma visão de mundo bem peculiar. Suas considerações em sala de aula e fora já eram folclóricas na época. Diferente de Hobsbawm, considerado por muitos como neo-marxista, Cyro era gramsciano "na veia". Era confundido por muitos como um carrasco, mas na realidade era apenas um professor exigente. Graças a ele, dentre meus outros mestres, descobri uma concepção de História nova que hoje tomo como bandeira também: mais importante que o fato é o processo, mais importante que a "decoreba" é entender.
Do ponto de vista acadêmico, essa semana começou melancólica portanto.

sábado, 29 de setembro de 2012

Blogosfera Tour


Zanzando pela internet, pulando de blog em blog, cheguei há algumas conclusões. A primeira: existem mais blogs hoje que grãos de areia na praia. A segunda: a maioria gira em torno de informações não pessoais, mas gerais. 
A imagem que temos do blogueiro é aquela do sujeito que relata cada minuto da sua vida na internet. No entanto, nos blogs que dei uma passada (no mínimo uns 127, não parei pra contar) eles estão mais para jornalistas. Claro, os blogs de maior sucesso são aqueles que compartilham notícias e informações específicas (culinária, por exemplo). Há também os de entretenimento (e aqui cabe humor, cinema, seriados, etc.) 
Blogs autorais, ao contrário do que se possa imaginar, não estão extintos. Pelo contrário, proliferaram. Não sei se porque mais deles foram criados ou porque entrei em contato com mais gente que conhecia mais blogs assim. Chegar nos blogs autorais é difícil, a não ser que o dono tenha uma relativa fama. Mas essas páginas costumam ter um público pequeno, porém fiel.
Evidente que isso aqui não é um censo. É só uma impressão que tive. O que nos leva á última conclusão: a inclusão digital tem reforçado um fenômeno: o desenvolvimento de conteúdos "anônimos" e "reduzidos". Muitos blogs se tornam intermediários, verdadeiros entrepostos, apenas repassando uma notícia ou um viral. Tenta se reafirmar a originalidade (ou então a posse do conteúdo) por meio de marca d'águas, mas sua eficiência é cada vez mais obsoleta hoje com os recursos de modificação de imagens. A informação é repassada tantas vezes que não se sabe mais de onde veio. Para que se atraia a atenção do leitor, o ideal é diminuir o tamanho do conteúdo. O limite de 140 caracteres tem ultrapassado o raio de ação do twitter.
O que podemos esperar disso? Pessoas com maior capacidade de assimilação e de síntese? Ou uma geração acomodada com informações esparsas e rápidas? Não ouso arriscar qual das duas opções será a correta.

quarta-feira, 26 de setembro de 2012

Faroeste Caboco: As balas mandam lembranças IV


A mata não tem preferidos. Morre quem vacila. Na cidade não é muito diferente. Embora sempre exista algum jeitinho de escapar, mesmo que mais tarde ou mais seja alguém lhe de um bote.
Toninho estava fora da cidade. O temor pelo seu nome não existia ali naquele matagal. Era só ele e o rapaz. O moleque atrevido que decidiu matá-lo logo no seu sítio. Mas ele teve muita sorte, viu! Pensava. Se estivesse trazendo o resto da turma pra passar um sabadão aí, ele tava fodido. Estaria em desvantagem.
Mas nesse ramo, vocês bem sabem, os amigos nunca estão no lugar certo na hora certa.
Ouviu algo vindo dali. Caminhou. Som de água. Não muito longe do sítio tinha um igarapé. É dos mais afastados. Era nele que rolavam os balneários do esquadrão. Antes, quando era policial, todo sábado. Hoje, uma vez por mês e olhe lá.
As águas do igarapé continuam a rolar. O sol reluzindo nelas, como se esse confronto mortal não estivesse acontecendo por aqui. Mas sempre é assim. A natureza é indiferente com essas lutas. Testemunha e ás vezes some com os vestígios das batalhas. Mas interferir, nunca.
Se bem que aquela cobra coral... Quase fez Toninho rodar.
André Mineiro nem imagina a sua sorte. Pelo contrário, só lhe vem a cabeça o quanto está azarado hoje: não acertou nenhum tiro no cara, está com uma bala na perna sangrando e drenando suas forças em mata aberta. Se esse é um jogo, sua perda já é certa. Mas aquela hora... aquela hora em que ouviu Berto. Parecia que ele estava ali.
Uma pergunta cretina ocupa seus pensamentos: por que Berto lhe mandaria exatamente para cá, para morrer? Está se vingando de quem? De seu matador ou do irmão que sempre lhe renegou? Mineiro não puxou o sangue cearense, nem paraense que corre em suas veias: nunca foi dos meninos mais faladores, sapecas ou safos. Quieto toda vida, quase desconfortável com as palavras e o contato humano. Cresceu assim, querendo viver afastado de todos. O irmão mais velho perturbava-o: "larga disso, maninho, se joga na vida!" E ele nada. 
Berto tinha noivado uma vez e pedira para que fosse o padrinho, mas André fez careta e perguntou se outro podia assumir a função. Não é segredo que isso nunca foi bem digerido pelo irmão falecido. Não que odiasse o mano, mas demonstrações de carinho não eram seu forte. No funeral, arrependia-se disso.
E agora se arrepende da sua vingança mal elaborada. Não levara nem uma semana para traçar o plano. As lições que o pai deu quando era mais novo precisariam ser reforçadas. Perdeu várias oportunidades de ouro. Acabou com o carro do tio. E o pior, em vão! É um pré-defunto á espera do último prego do seu caixão que virá em forma de bala fumegante.
Um brilho ao longe. Estranho. Ah, é um igarapé! Se segui-lo, posso chegar á algum balneário, encontrar gente que possa me ajudar, se iludia. Quando o reflexo da água já tomava completamente o seu rosto, veio a pontada. Era o último prego. Tombou na água. A correnteza arrastava o corpo, mas o tronco caído, só de teimosia, o segurou. O boné continuou o itinerário. De um bolo de galhos e folhas secas quase tocando a água do rio saiu o autor do disparo. Ao se dar conta de sua obra, sorriu. Não se continha em vê-lo ali: tinha que deixá-lo ser carregado pelo rio. Mas antes, precisa saber: quem é esse merdinha?
Estava de bruços, o rosto ainda escondido. Toninho desvirou. Não devia ter feito isso. Mas não deu tempo de pensar em arrependimento: três tiros - dois no pescoço, um na cabeça, perto da maçã do rosto. E agora quem o rio carregava era Antônio Gama Bayma, cão de caça do tráfico e terror do Zumbi.
Não foi morto por Brocales, o carrasco da facção rival, ou por algum matadorzinho tentando fazer fama, mas por um rapaz que tinha a própria morte como certa. 
A promessa feita ao fantasma tinha sido cumprida. As balas encontraram seu destinatário. A vingança foi terminada, mas o sangue continua jorrando da perna e agora do ombro. Se arrastar para a caminhonete do bandidão está fora de cogitação. Segue o plano anterior: seguir o curso do rio. Deixa-se levar pela correnteza. Sente os pés arrastando no fundo do igarapé, revirando as folhas secas e os seixos. Tenta deixar a cabeça por cima da água: á frente, mais mato e rio.
Tem algo ali: o corpo de Toninho, atravessando as plantas aquáticas. Aparentemente sem vida. Mas André continua sua trilha. Água e mais água no caminho. O tempo fecha, não é culpa das nuvens, mas sim da copa das árvores que agora escondem o céu. O fundo do rio some. A força da água se esvai. André não entende.  Nada um pouco. A margem está longe. É uma cacimba: está explicada a surpresa. O rio deu num olho d'água. Como toda cacimba, funda. Próximo das rochas da margem esquerda, Mineiro sente um beliscão na perna. Mas enquanto andava era o que mais sentia na perna moribunda. Novo beliscão. Esse não é impressão. Alguém pegou sua perna. Toninho? Só se ele tiver dentes nas mãos.
Mineiro nunca pensou que no sítio Capa Preta estaria sozinho, sem nenhum parceiro de crime por perto. Pois ali estava um deles estraçalhando o rapaz: o jacaré que que foi apelidado pelo bandido carinhosamente de "Lixão".  Essa era outra razão para os balneários terem sumido do igarapé. Assim que passou a usar a jaquetona preta, sua marca, e os óculos escuros, enquanto a consciência e a ética ficaram escondidas no armário, soterradas de naftlalina, Toninho pensou que precisaria de um lugar para desovar seus "presuntos". O Zumbi não era mais seguro. Pensou no sítio lhe presentado pelo deputado Anderson Brito. A cacimba era funda. No segundo mês se surpreendeu com o novo morador. Depois, lhe deu um emprego: sumir com evidências.
Mineiro era uma evidência agora. Assim como Toninho, depois dessa "refeição".

segunda-feira, 24 de setembro de 2012

Faroeste Caboco: As balas mandam lembranças III


O silêncio. Nem canto de pássaro nem zumbido de mosca. Então, veio aquele som. Lembrava um mugido de boi. Mas não. Era o rugido de raiva do motor de um Opala 77 prestes a destruir o portão de madeira do Sítio Castanheiras. O carro atravessou não só aquelas ripas de madeira como também a varanda da casa.  Só parou quando destruiu a porta, deixando seu para-choque a meio metro do sofá onde Toninho estaria dormindo.
Mineiro, se recuperando do impacto, vê o que sobrou da porta caído no capô.
-PUTA MERDA! O tio vai me comer vivo!
Um estampido. Lá se foi o retrovisor. Do corredor alguém saíra atirando. Dois, três, quatro tiros. André dá a marcha ré. Sem se preocupar para onde ia, esbarra na caminhonete de Toninho. Sai do carro e se joga para baixo da picape do seu inimigo. Destrava o 38 do pai, procura pela faca. Está na bainha em sua cintura. Não vê mais Toninho, não ouve mais tiros. Novamente o silêncio. 
Procura agora pelo outro pente com as balas. São poucas, não vai desperdiçar. Atirar, só quando ter certeza. Da janela da casa vê uma coisa. Vai arriscar: é a cabeça de Toninho. Atira, mas acerta somente o parapeito da janela. Capa Preta não perdoa e solta dois balaços na direção dos carros. Não sabe onde está o cara, não sabem nem se é um só.
Mineiro não está mais debaixo do carrão batido. Ele se embrenhou no mato e vai dar a volta na casa, tentar entrar pelos fundos. O matador se irrita com a falta de tiros. Talvez já estejam na casa.
Quase rastejando, André chega no quintal. Ouve algo. Se refugia debaixo do tanque de lavar roupas. Encontra duas camisas manchadas num balde e algumas camisinhas. Cheiro nojento. Novamente ouve algo. Um baque quase surdo. Ele está na cozinha. A qualquer momento pode abrir aquela porta e meter um tiro na cabeça de Mineiro.
Olha á sua volta: o que fazer? pra onde correr? Um garrafão perto do balde atrai o olhar desesperado do garoto. Abre ele. Cheiro de gasolina. Gasolina...
Toninho se apóia na pia da cozinha tentando olhar discretamente pelo vasculhante. O suor cai nos olhos. Barulho vindo do banheiro. Algo quebrou. Quando vai ver a cortina do box está pegando fogo. Liga o chuveiro. A janela está quebrada. Ruídos na cozinha: no chão uma camisa e mil pedaços de vidro ardendo no fogo. O filho da puta está fazendo coquetel molotov, pensava. Outra janela, quebrada, essa na sala. Toninho distribui tiros e amaldiçoa o dia em que esqueceu aquele garrafão de gasolina lá fora.
Mineiro, pra completar, joga o resto da gasolina no balde e com ele o seu isqueiro. Deixa debaixo do tanque e volta para o mato. Agora é só esperar o cara sair. A não ser que ele consiga apagar tudo.
Mas o homem estava muito afobado. Apagou o fogo na sala com o tapete, mas descuidou da cozinha. O fogo tinha alcançado o butijão de gás. Estrondo poderoso sai de lá dentro. Imensas labaredas chegam na sala. Toninho sai pelo buraco deixado pela batida, assustado. Há uma chama insistente no seu short.
Mineiro ainda o espera sair de casa, mas pela porta dos fundos. Só então, ele se toca que seria muito mais fácil ele sair pela nova porta que ele abriu com seu Opala. Quando chega lá na frente, encontra o matador tentando ligar a caminhonete. Atira. Pega de raspão no braço de Toninho, que se abaixa, mas continua pisando no acelerador. A porra da chave quebrou, concluiu com o estalo. O garoto se aproxima. Capa Preta recarrega a arma. Espera ele chegar mais. Mais um pouco. Pronto!
Mineiro cai, mas rasteja pra trás do que sobrou do carro do tio. A dor é terrível. Nem quando quebrou a perna pulando no rio a dor foi tanta. A bala está na perna. Na batata da perna.
A porta da picape se abriu. Mineiro espera pelo pior. Nada. Alguém está correndo. Toninho fugiu. Se chegar á estrada nunca mais vai vê-lo.
Com a força que nem sabe de onde tirou, André Mineiro se levanta e anda pela trilha. O matador não está muito longe. Ainda bem que não é muito bom de corrida. Toninho na verdade está morto de fome. A pança também não ajuda.
O garoto dá um tiro que pega na cerca. O matador se jogou no mato. Assim fica mais difícil de vê-lo.
Agora calcula; só viu um rapaz, na verdade um menino. Isso não é execução, é uma piada. Toninho Capa Preta fugindo de um moleque? Não, não é possível. A estrada que se dane, Toninho só sai daqui depois de matar esse garoto burro.
Mineiro também se embrenhou na mata. Não ouve, nem vê mais o matador barrigudo. Arrasta a perna machucada e melada de sangue entre as folhas secas. Tenta não fazer o menor ruído, mas nem pisando leve adianta. Sente que está por perto. Ouve por um instante a voz de Berto.
Na moita a quase dois metros dali, um homem espera que um rapaz perdido entre na sua mira. A ferida no braço arde, os pés estão frios. Mais que frios, estão gelados. E o que é isso? Escamas? Toninho olha pra baixo: uma cobra coral está entre a tira da sandália e seu calcanhar. Muita calma nessa hora: se mexer a cobra pode morder e denunciar sua posição, se continuar assim, mas cedo ou mais tarde, ela vai picá-lo. Se prepara. Dá um chute, jogando o réptil longe. Voltando a mira... cadê o moleque?

(Continua...)

Faroeste Caboco: As balas mandam lembranças II


Faltava ainda uma meia hora para chegar em Rio Preto da Eva. Era sábado de manhã. Pouca gente na estrada, mas ainda assim tinha movimento.
-"Assim você mata o papai. Ai, ai, ai..."
Toninho cantava junto com o rádio. Olhou para o retrovisor. Não queria saber da estrada, só dos cabelos. Entrou em crise sexta porque achou quatro fios brancos. Mas veja só... aquele Opala de novo.
Já passou por ele umas duas vezes. Só se foram dois Opalas diferentes. Não, são muito parecidos.
Decidiu usar o celular, antes que saísse de área.
-Que foi, cara?
-Acho que tão me seguindo.
-Aonde?
-Aqui na estrada pra Rio Preto da Eva. Tem um Opala que tá há um tempão atrás de mim.
-Rapaz, larga disso! Não deve ser nada, deixa de ser paranoico! Se lembra que da última vez que tu ficou assim tu fez merda? Se contr....
Saiu de área.
Tem uma ideia: vai desacelerando. Dá passagem para o carro. O Opala passa lentamente. É um rapaz dirigindo. Parece que está no celular. Distraído o suficiente. Toninho está aquietado, mas ainda desconfiado.
Sempre foi cabreiro. Isso, no seu ramo, lhe ajuda a sobreviver. Mas algumas vezes pode te prejudicar, como aquela vez em que atirou num pedinte que veio bruscamente na direção do seu carro.
Por enquanto, irá continuar nessa velocidade. A ideia é chegar na cidade na hora do almoço. Comer num restaurante por ali no centro e depois ir pro seu sítio, tomar um banho de igarapé. Não, comer no restaurante não. Vai almoçar no sítio. Vai pegar a marmita e almoçar no sítio.
Ele pensando onde almoçar e o rapaz do Opala pensando onde matá-lo. Na cidade mesmo? No sítio? Como fazer isso? Usando o facão do seu tio ou a arma do pai? Será que na hora vai acertar o alvo? O pai lhe ensinou como atirava nos cachorros do mato, mas uma coisa é um cachorro do mato e outra um desgraçado com um três oitão. E vai chegar perto o suficiente para usar esse facão?  Se tiver uma chance poderia atropelá-lo. Seria mais seguro.
Mas não dá. O tio vai perguntar como ele amassou o seu carro. O que dizer? Além disso, podem anotar o número da placa e aí quem se ferra seria o velho. Não, vai ser ou na faca ou na bala. Mineiro vai antecipando esse momento. 
Olha no retrovisor. Ainda consegue ver a caminhonete lá atrás. Precisa arrumar um jeito de chegar ao sítio de Capa Preta. Ele sabe que está indo para Rio Preto da Eva, só não sabe pra que parte. O dono do boteco em frente á sua casa foi muito vago: "Todo final de semana ele vai pra Rio Preto da Eva. Tem sítio lá". Não perguntou mais porque seu interesse repentino pelo matador poderia deixar Janjão cabreiro. O homem só falou porque conhece Mineiro: é rapaz comportado, inofensivo, gente fina. Mas não nesse sábado, não hoje.
A cidade não estava tão cheia, mas o sol estava tinindo. Estacionou o carro na avenida principal, perto de um restaurante. Ficou esperando. A caminhonete está demorando. Talvez ele tenha voltado. Vai ver foi buscar reforço. As dúvidas são suspensas: a picape cinza está oficialmente na cidade. André liga o carro.
Capa Preta vira á esquerda, para no Lanche da Luíza. Entra dando bençãos e elogios á comidinha da dona Luíza e pega um engradado de cerveja. Manobra e corta a cidade. Passa pela réplica do Cristo Redentor, se benzendo. Depois de duas placas, entra numa trilha. Barro puro e mato quase cobrindo o céu. Dois minutos depois, um Opala para no acostamento. Mineiro já sabe onde é. Mas e aí? Entra agora? Estará ele sozinho no sítio? Perguntas, dúvidas. Se continuar pensando não vai conseguir fazer nada. De agora em diante, será puro instinto. Tomara que todos aqueles filmes de ação e os videogames lhe ajudem agora.

Toninho abriu o portão do sítio já com uma latinha na mão. Sentiu um calafrio. O cabelo na nuca arrepiou. Já sabia o que vinha por aí.

(Continua...)