sexta-feira, 17 de dezembro de 2010

Amazonas Negro


Geralmente quando se fala em Amazonas a primeira figura que nos vêem á mente é a do índio. Sim, a presença indígena é grande na região, mas ela não é a única. A complexidade amazônica é enorme: na cidade de Manaus podemos encontrar japoneses, judeus marroquinos, sírios, libaneses, dentre tantos outros povos.
A presença negra no Amazonas, no entanto, é dada como quase inexistente. A historiografia demonstrou que isso não é verdade: apesar de nos tempos coloniais o trabalho compulsório indígena ser hegemônico em Manaus e Belém, os negros tiveram sua participação na história amazônica através da Companhia de Comércio do Grão Pará, fundada por Pombal justamente para fornecer escravos africanos á região.
Estes se concentraram mais no Pará, mas muitos vieram para o Amazonas, fugidos ou comprados por fazendeiros e comerciantes locais. Está claro que sua presença foi limitada, mas não inexistente, como se costuma pensar. Aliás, a escassez de escravos africanos na capital do Amazonas não significa que aqui a escravidão tenha sido mais branda. Se assim fosse, por que os escravos fugiam para o interior da floresta constituindo assim os mocambos? Ou por que tentavam fugir para outros estados?
Com a instalação da província do Amazonas, precisava-se construir uma capital á altura de uma grande província e como mão-de-obra nesse processo de remodelamento temos principalmente os indígenas e os negros. O governo provincial declarava-se insatisfeito com esses dois trabalhadores por sua indisciplina (ambos fugiam ou faziam "corpo mole" durante o trabalho, segundo os governadores) e tentou em vão incentivar a imigração estrangeira para o estado. Diante da falta de sucesso, o jeito foi apostar em Institutos de Instrução como o Instituto de Artífices do Educandos (esse voltado mais para os índios).
Com as grandes secas e a descoberta do valor da borracha, as grandes massas de imigrantes do Nordeste chegam na cidade e tanto o braço índio quanto o braço negro são ofuscados pelos novos trabalhadores que irão agora se embrenhar nos seringais e no remodelamento da Paris dos Trópicos.
Muitos autores nos revelam que tanto tapuias como negros foram alçados ao mesmo nível de marginalização: viviam nos igarapés, tinham má instrução e más condições de moradia e saúde. Essa população se formou á margem da cidade da Belle Epoque. O negro, mais ainda que o índio, foi colocado para debaixo do tapete de uma cidade que pretendia ser uma nova cidade européia. No entanto, a cultura negra se desenvolveu e se arraigou na cultura amazônica: basta lembrarmos do tambor de mina, da capoeira, do conhecimento da metalurgia, dentre tantas outras contribuições.
Movimentos que reconheçam essa contribuição em Manaus são recentes, se não me engano datam dos anos de 1970 através principalmente da ação do grande ativista Nestor José Soeiro. Como o movimento negro, a historiografia sobre o negro em Manaus é recente também, mas tem reservado ótimas surpresas e excelentes trabalhsos, que, espero, estão longe de acabar.

quinta-feira, 16 de dezembro de 2010

Rio 40 Graus



É hora de falar sobre um assunto marcante desse ano que está se acabando, talvez, para os brasileiros, um dos mais marcantes do ano: a guerra contra a violência no Rio de Janeiro.
Como historiador, não posso abordar o assunto sem antes dar um panorama histórico que desembocou nesse evento. Como carioca, sou impelido a não só dar meu depoimento e minha opinião sobre o assunto como também propor algumas soluções. Mas, daremos aqui um passo de cada vez; primeiro, um rápido painel histórico.
A violência existe em toda cidade grande e geralmente é fruto de uma série de fatores presentes na construção do espaço urbano, como as políticas públicas de urbanização. Caso clássico: o projeto urbanístico da cidade não contempla os grupos mais carentes da sociedade, pelo contrário, procura os esconder o máximo. Em Manaus, eles foram escondidos nos igarapés, no Rio nos morros. Mas, atenção, a marginalização urbana não determina a violência, é apenas um dos seus fatores mais gritantes; a proliferação da violência depende, por exemplo, das más condições educacionais e econômicas.
O Rio de Janeiro previsto pelo prefeito Pereira Passos era uma nova Paris, no entanto, para viabilizar seu sonho os pobres foram empurrados para os morros de onde surgiram as favelas. Favela, como se sabe, vem das favas, um tipo de feijão com gsoto de carne que eram plantados principalmente nesses morros por seus moradores. Seus habitantes costumavam vendê-las nas feiras na cidade, aliás, por causa das plantações no alto dos morros que veio o nome de uma das mais emblemáticas favelas da cidade, a Rocinha. Ou seja, tal fato demonstra que o morro e o asfalto estavam separados e ao mesmo tempo ligados.
Os imigrantes, principalmente do Nordeste, engrossam os barracões das favelas. A cidade, durante todo o século XX, por ser a capital, enche-se, melhor, incha-se. Mas esse inchamento não foi devidamente tratado pelas políticas públicas. Um grande exemplo pode ser a própria Cidade de Deus, construída para abrigar os moradores pobres do centro do então Estado da Guanabara que teriam suas terras originais tomadas para construir um belo condomínio residencial. Essa medida, diferente da de Pereira Passos (operada entre os anos de 1900 no Rio), foi feita nos anos 60 pelo governador da Guanabara Carlos Lacerda.
Correndo o risco de cair em generalizações, quase todos os governos cariocas parecem repetir a mesma atitude ambígua para com os morros: endossar sua ocupação e ao mesmo tempo desprezá-la. O morro deixou de ser tabu a pouco tempo. Na década de 30, quando o cineasta Humberto Mauro tentou filmar uma história sobre moradores do morro, foi preso e acusado de comunismo. Mesmo os diretores do Cinema Novo foram repreendidos pela própria população da cidade por mostrarem os morros em seus filmes, no entanto, eles contribuíram para a quebra desse tabu.
Os morros não representavam um perigo, apenas um inconveniente. Essa situação muda a partir dos anos 70 quando começam a surgir as primeiras organizações criminosas como o Comando Vermelho. Essas organizações, a partir dos anos 80, saem dos assaltos a bancos e entram em um negócio muito mais rendoso: o tráfico. Contudo, nesses primeiros anos, o Rio era apenas um entreposto comercial para a rota das drogas (a maioria ia para os EUA ou para a Europa). Mas pouco a pouco, a cidade passa a ser uma consumidora também, a tal ponto que o objetivo das drogas agora não são tanto os EUA, mas a própria cidade.
Agora, se me permitem, darei meu depoimento sobre a violência no Rio nos anos 90, porque foi neles em que eu fui criado. Na época não tinha nenhuma noção do que representava o tráfico, mas sabia muito bem associar as imagens dos bandidos e de seus ataques á violência. Na época sempre aparecia nos jornais o nome do Escadinha, um dos mais famosos membros do CV, responsável por uma fuga de helicóptero da cadeia de Ilha Grande. Além disso, haviam notícias sobre o Morro de Santa Marta a toda hora; muitas batidas policiais violentas foram documentadas ali. E havia ainda o espectro da Chacina de Vigário Geral. Mesmo não sabendo o que significava chacina já podia perceber que era uma palavra que mudava a expressão das pessoas instantaneamente.
Esses são apenas alguns casos dos quais me lembro, mas existem muitos outros que tomei melhor conhecimento hoje, seja por curiosidade, seja por histórias da família. Mas uma coisa é interessante: essas notícias, pelo menos na minha memória, vinham sempre acompanhadas de denúncias de corrupção por parte dos políticos locais. Era a época de Luís Paulo Conde, Marcelo Alencar, César Maia, Leonel Brizola, Garotinho. A política também não ficava atrás: o secretário de segurança do Rio, Nilton Cerqueira, se tornou folclórico por matar Lamarca e pela criação da "medalha Bangue-Bangue", uma premiação para o policial que mais bandidos matasse.
Esse triste painel que peguei em minha infância e que acompanho desde então produziu em mim, e não só em mim como na maioria das pessoas que conheço, a desilusão com qualquer tipo de mudança na política e sociedade da cidade. A corrupção já havia se enraizado no poder público e na polícia, a ponto de se tornar, como muitos analistas dizem, cultural. Onde o Estado não estava, crescia o tráfico e a violência. As organizações criminosas se proliferaram: ADA, Comando Vermelho, traficantes independentes. Além, é claro, dos grupos de extermínio, mantidos por policiais, e as milícias.
Nosso pessimismo dizia que uma mudança que viesse para solucionar o crime no Rio só viria quando a situação estivesse insustentável. A onda de violência em que a cidade mergulhou desde que as Unidades Pacificadoras da Polícia tomaram alguns bairros nos fez tremer, mas não imaginássemos que algo seria feito. Então, temos a tomada da favela do Cruzeiro e a imagem emblemática dos traficantes fugindo naquela estrada de terra. Logo depois a tomada do Complexo do Alemão. Confesso que tanques andando pela favela eram mais ou menos aquilo em que eu imaginava no dia que resolvessem acabar com o tráfico no Rio, tal o ponto de periculosidade e força atingira os traficantes.


A população cansada de guerra apoiava dessa vez os policiais e militares. Todos estão cansados desse status quo, de viver com medo, essa é a verdade. Nós tínhamos medo de demorar muito em nossas visitas aos parentes, preocupados em ser atacados por bandidos, policiais, quem quer que fosse. Toda semana notícias de mortes na Avenida Brasil, além das habituais vítimas, inocentes, nos tiroteios entre a polícia e os bandidos.
A tomada dessas favelas representou, especialmente para mim, um ato tão inesperado quanto o contato com extraterrestres. Recuperei um pouco da minha esperança nas mudanças, no entanto, minha desconfiança logo retornou. A imprensa mostrava uma luta do bem contra o mal, apareciam políticos discursando na tv sobre a necessidade de ser firme contra o crime. Alguns reconheciam que a tomada dos territórios do tráfico era apenas o primeiro passo. Concordo. O segundo passo é uma reestruturação desses territórios, tornar acessível educação e saúde á essas pessoas que sofreram tanto. O terceiro e o mais difícil seria uma reestruturação da própria política e da política, de forma a extirpar a corrupção de seus quadros. Ora sem esses dois passos o tráfico pode voltar facilmente, pois, não sejemos íngênuos, os traficantes foragidos ainda estão por aí e planejando.
Minha apatia, creio que seja algo que compartilho com a maioria dos cariocas, com a política e a polícia, me diz que o terceiro passo, e mesmo o segundo, estão muito longe de serem concretizados. Mas essa é uma hora para refletir nossos pessimismos, não só as atitudes do governo, mas de nós mesmo. Será que nossa apatia não permitiu a consolidação desse status quo também? Fica a pergunta.

segunda-feira, 13 de dezembro de 2010

História Social

Hoje fala-se muito em História Social, mas uma definição precisa do termo é cada vez mais difícil de se dar.
Hebe Maria Mattos, em Domínios da História (Cardoso, Vainfas, 1997), diz que História Social em um primeiro momento era tudo aquilo que não fosse a história tradicional (factual, encomiástica, acrítica, polítca, etc), uma vez que tal conceito foi muito utilizado pelos fundadores e membros da Escola dos Annales. Desde então História Social e Annales são quase sinônimos.
Os Annales propunham uma história total e problema, preocupada em resgatar os demais aspectos da história (não apenas a política ou a economia, mas todas atuando em conjunto). No entanto, com o decorrer do tempo vários campos vão surgindo dentro da proposta dos Annales como a história das mentalidades, a história regional, etc.
A História Social tem suas problemáticas e métodos específicos. Hebe acredita que sim: seriam, respectivamente, entender como se formam e como interagem os diversos grupos sociais e, como métodos, a demografia, a história oral, a prosopografia, dentre tantos outros.
E como o Brasil está em termos de produção dentro da História Social? Ainda segundo a autora, nós estivemos e estamos em sintonia com a História Nova (mesmo que antes essa produção estivesse mais vinculada aos sociólogos e antropólogos e somente a partir dos anos 70 tenha vindo para as mãos dos historiadores).
Um aspecto interessante das questões criadas dentro da História Social, aliás um aspecto fundamental de toda historiografia, é o dilema sobre o protagonismo da História: ele cabe ás estruturas ou aos indíviduos? A pergunta está longe de ser resolvida, mas atualmente, guardada as devidas proporções, a maioria dos historiadores concordam que tanto os sujeitos históricos como as estruturas agem e interagem, sendo difícil especificar quem detém mais poder diante de todos os acontecimentos.

Referências:
CASTRO, Hebe. História Social. In:CARDOSO, Ciro Flamarion; VAINFAS, Ronaldo (orgs.). Domínios da História: Ensaios de Teoria e Metodologia. Rio de Janeiro: Elsevier, 1997.

Fim de período

Antes gostaria de desculpar pela ausência. Á dois meses esse blog esteve tão ativo como uma cidade fantasma. Mas o motivo é interessante.
Além das provas habituais de final de período, tive que produzir algumas comunicações e apresentá-las, juntamente com meus colegas de equipe, como parte do projeto de extensão desenvolvido pela faculdade. O tema do projeto, creio já ter mencionado antes, é a presença negra e indígena no Brasil e na Amazônia. Em um primeiro momento, privilegiamos a historiografia e a presença negra (com a aproximação do dia 20 de novembro) através de uma apresentação na Semana de Consciência Negra da Uninorte e de uma apresentação na I Mostra Interinstitucional de Ensino, Pesquisa e Extensão na Ufam. Agora, nosso trabalho é produzir um artigo sobre o tema para a revista da Faculdade.
Foi um período cheio e cansativo, mas muito produtivo e rico.
Agora está na hora de tirar um pouco da poeira desse blog.

Epistemologia

-A síntese á seguir é uma versão editada (é claro) de produtivas discussões numa mesa de bar, sexta-feira á noite:

O que é epistemologia? A resposta é um pouco complicada, no entanto, altamente necessária a qualquer pesquisador.
Digamos que você seja um cientista e seu objeto de estudo seja uma garrafa d’água. O modo como você vai analisar essa garrafa é o que chamamos de teoria. A epistemologia questionaria se a garrafa d’água pode ser apreendida e, se pode, como.
Em outras palavras, a epistemologia é uma parte da filosofia dedicada a pensar e repensar os princípios do conhecimento.
As principais perguntas da epistemologia são: como o homem é capaz de conhecer? O conhecimento é imparcial e objetivo? Se não é, como separar o que é verdade e o que é subjetivo? E uma das clássicas: existe a verdade?
Não preciso aqui nem dizer o tamanho da importância da epistemologia para qualquer ramo da ciência. Um cientista ou um pesquisador, antes de tudo, é um homem e deve conhecer os limites do que estuda e de si próprio; a reflexão oferece um bom caminho para essa tomada de consciência e a epistemologia é uma das melhores estradas em se tratando de refletir.

quarta-feira, 27 de outubro de 2010

Estado tupiniquim


O jornalista e escritor Laurentino Gomes declarou em uma entrevista recente que pretende escrever um último livro sobre história do Brasil, sobre o momento de transição da monarquia para a República. O nome será, naturalmente, 1889. O autor, que ficou conhecido com seu livro sobre a vinda da família real portuguesa para o Brasil (1808) e, agora, com a proclamação da independência (1822), revelou com isso que seu projeto é cria rum trilogia sobre a formação do Estado brasileiro.

Não posso falar muito sobre Laurentino uma vez que ainda não entrei em contato com seus livros, no entanto, seu projeto é extremamente interessante. A formação do Estado nacional é um dos grandes temas de nossas ciências sociais e, como o autor já tem um certo prestígio com o público leigo, essa discussão pode ser melhor popularizada.

O Estado brasileiro, como já vimos em posts anteriores, nasceu de uma forma muito peculiar (segundo o padrão latino-americano), pois se originou de uma aproximação entre a Coroa e a colônia, graças ao contexto de guerra na Europa. Muitos acreditam que essa aproximação evitou que o Brasil se fragmentassem em milhares de pequenas repúblicas, a exemplo de seus vizinhos. Outros ressaltam que essa aproximação criou o germe de uma espécie de cultura da conciliação em nossa política, que sobreviveria até hoje.

Seja como for, mais de 120 anos se passaram e aqui estamos nós, diante desse polêmico (e cada vez mais desprestigiado) aparelho. Há muito ainda que ser dito (e lido) sobre a formação do Estado brasileiro, esperamos que Laurentino contribua com isso.

sábado, 16 de outubro de 2010

Alegria e Melancolia

Menino com pião, Portinari.
Numa terra radiosa vive um povo triste. Assim começa o livro de Paulo Prado, Retrato do Brasil, com o revelador subtítulo de Ensaio sobre a tristeza brasileira. O autor considera a melancolia um traço cultural nos legado pelos colonizadores, mas não só ela: a sensualidade e a ambição. Dois fatores que direcionaram nossa colonização e hoje fazem parte de nossa mentalidade.

Paulo Prado
Prado não foi o primeiro a tentar explicar nossa singularidade e encontrá-la em nossas emotividade, nem será o último. Na mesma época ainda persistia a idéia de que o brasileiro diferia do europeu por conta de sua preguiça inata e sua obscenidade, fruto, talvez, do clima tropical. Gilberto Freyre, em Casa grande e Senzala, tenta nos dar uma explicação mais pontual ao dizer que o brasileiro era único por causa de preservar as diversas culturas, as diversas emoções, com uma certa moderação. Esse fator, chamado por ele de antagonismos em equilíbrio, seria responsável pela intimidade entre o senhor e o escravo. Freyre, nacionalista, vê isso com orgulho, enquanto Sérgio Buarque de Hollanda enxerga nesse traço um de nossos maiores obstáculos para a modernização. Em Raízes do Brasil, Sérgio critica essa cordialidade brasileira, essa passionalidade que leva ao patrimonialismo, á corrupção, ao jeitinho. Se o Brasil quisesse se modernizar e acabar com esses problemas teria que saber usar a impessoalidade.
Nas décadas seguintes (Prado escreveu seu livro em 1928, Freyre em 1933 e Sérgio Buarque em 1935) as emoções saem um pouco de lado para cederem lugar a um novo paradigma: a estrutura social. O Brasil passa a ser explicado pelo seu subdesenvolvimento, pela sua economia. As interpretações que levam em conta essa emotividade voltam a partir dos anos 80 quando a história cultural entra no Brasil. Essa geração é responsável por reabilitar Freyre ao chamar a atenção para o antagonismos em equilíbrio (sem usá-lo como argumento para a democracia racial). Alegre ou triste, o brasileiro é único não só pelo conjunto de emoções presente em nossa cultura. Nossa singularidade não precisa ser necessariamente uma, mas várias.

quarta-feira, 15 de setembro de 2010

11 de setembro

Semana passada, os atentados de 11 de setembro fizeram nove anos.
Me lembro que nesse dia só ouvi a notícia depois de sair da escola, meu pai comentava com a minha mãe enquanto nos levava para casa. A primeira coisa que fez quando chegou em casa foi ligar a tv e vimos as Torres Gêmeas sendo atacadas e desmoronando.
Mesmo existindo vários canais de comunicação - todo mundo se gabava de estarmos vivendo um mundo sem fronteiras, onde a informação corre livremente e com mais velocidade ainda - ninguém sabia ao certo o que estava acontecendo. Só repetiam que era um ataque terrorista. Depois descobriram um outro atentado no Pentágono e um atentado frustrado pelos passageiros de um avião sequestrado que acabou na morte de todos. E ficava nesse burburinho. Me lembro que disseram que haviam mais de 4 atentados, tamanho era a boataria.
Mas depois a poeira abaixou e percebemos que foram somente quatro, mas só o das Torres Gêmeas já bastariam para chocar meio mundo. Foi o primeiro atentado terrorista significativo em território norte-americano (antes houve um outro atentado ao World Trade Center em 1992, uma caminhonete com uma bomba no estacionamento).
Então a Al-Qaeda assumiu a responsabilidade pelo ataque e Osam Bin Laden passou a ser o inimigo número um dos EUA (nos anos 80 ele havia sido contratado pela CIA para ajudar a combater os soviéticos no Afeganistão, o mundo dá voltas). O presidente Bush invadiu o Afeganistão e disse que Saddam Hussein ajudou os terroristas acobertando-os e dando munições á eles. Aí começou a Guerra do Iraque. Na tv só se falava na guerra, mostravam vídeos das bombas teleguiadas atacando Bagdá. A ONU dizia que tentava impedir uma guerra, mas suas visitas e inspeções ao Iraque não adiantaram muito. Ficava a impressão de que os EUA poderiam invadir qualquer país que quisesse.
Virou costume ver nos noticiários atentados de homens-bombas contra soldados americanos. E aquelas fotos sobre as torturas em Abu Grhaib não surtiram muita surpresa nas pessoas. Só agora, quase oito anos depois, que as tropas americanas estão saindo do país. A impressão que eu tive, olhando bem, era que depois de um momento de empatia para com os EUA, devido aos atentados, veio logo a antipatia, com o início da guerra do Iraque. De repente, o atentado virara pretexto para guerra, para explorar o petróleo de um tirano caquético. E a população apoiava, movidos pela dor de perderem seus amigos e parentes e pelo medo disso acontecer de novo.
Hoje, os próprios norte-americanos, a maioria, reconhecem que os anos Bush, principalmente pós-11 de setembro, foram um desvirtuamento de tudo que acreditam (o ideal de liberdade que dizem estra presente na fundação de seu país). No entanto, não é de hoje que os EUA agem assim; basta nos lembrarmos das intervenções na América Latina no século passado, além das guerras da Coréia, do Vietnã, do Golfo. O que aconteceu é que desde o fracasso do Vietnã eles se desiludiram dessa "defesa do mundo livre" e com o 11 de setembro passaram a se perguntar "por que o mundo nos odeia?" ou "por que lutamos?" (aliás, título de um ótimo documentário).
O atentado criou um interesse pelo Oriente Médio, os livros e idéias de Bernard Lewis e Edward Said passaram a ser discutidos e até apropriados pelos mais variados discursos. E a guerra desiludiu a todos sobre o líder nacional do momento, pois as despesas cresciam, a economia ficou sob a mão de cartéis, gerando a crise de 2008.
O 11 de setembro, como podemos ver, é muito importante para entender o contexto mundial, pois fala não só do momento em que passa o Ocidente, como também o Oriente. É também um episódio rico em interpretações e emoções. Foi um momento onde pudemos ver o melhor do ser humano através de atos heróicos, principalmente dos bombeiros na tentativa de salvar as vítimas dos atentados, e também vimos o pior, através da perseguição e intolerância para com grupos desvinculados ao terrorismo e a defesa da guerra e da tortura. De qualquer maneira, uma coisa é fato: o 11 de setembro criou muitas cicatrizes na América, para o bem ou para o mal.

sábado, 11 de setembro de 2010

O monsenhor

Quando ainda estava em Taubaté na minha procura por um tema acabei por esbarrar no nome do monsenhor Antonio Nascimento Castro (1857-1942). Na maioria dos jornais falava-se nele. Á medida que me aprofundei na pesquisa regional descobri que ele era não só um importante homem de imprensa (polemista, principalmente), mas um hábil político.

Nascido em São Luís do Paraitinga, de pai desconhecido (o que levantou suspeitas de sua paternidade ter vindo de um padre local chamado Francisco Calasâncio), Nascimento Castro tinha, até onde sabemos dois irmãos: José Valois de Castro (1856-1939) e Calasâncio de Castro. Valois também veio a se tornar cônego e um dos mais importante nomes do Partido Republicano Paulista, sendo deputado federal e senador diversas vezes.

Nascimento Castro estudou no Seminário Episcopal de São Paulo, ou seja, teve uma formação romanizadora (a romanização ou ultramontanismo era parte de um movimento da Igreja Católica que pregava á volta á ortodoxia e á liturgia e visava expandir a influência da Igreja, diante da ameaça do liberalismo e do socialismo). Em 1881 veio para Taubaté onde se tornou vigário da paróquia de São Francisco das Chagas, hoje conhecida como Igreja Matriz.

Em pouco tempo se tornou uma das figuras mais importantes da comunidade, não só por o seu peso simbólico como o vigário da cidade, mas por suas ações na imprensa e na política.

Nascimento Castro tinha muita admiração pela literatura e pela apológética (formas de defender a ortodoxia religiosa), por isso se envolveu na imprensa. Primeiro passou a colaborar com o jornal conservador O Noticiarista, fundado em 1888, com artigos sobre a Virgem Maria, as liturgias católicas, além de atacar personalidades liberais e maçônicas da cidade. Em 1906 ajudou a fundar o jornal A Verdade, que se dizia um jornal eminentemente católico, e ali assinava artigos virulentos contra o poder municipal, então nas mãos dos liberais. Finalmente em 1910 também participa da fundação do jornal oficial da recém-criada Diocese de Taubaté (formada em 1908), O Lábaro, o qual foi o redator-chefe até a sua morte em 1942.


Na política destacava-se a sua ação em nome do grupo mais conservador, reunido em torno do Visconde de Tremembé, e que tinha como principais porta-vozes os irmãos Câmara Leal. Nascimento Castro foi nomeado vereador em 1892 e se tornou intendente municipal por ocasião de uma viagem forçada que o intendente eleito teve que fazer. Participou, na Câmara, das obras para revitalizar a rede de esgoto da cidade e a iluminação, mas o fato mais polêmico foi, sem dúvida, o seu pedido de 2 contos de réis para reformar a Igreja Matriz. Polêmico porque suscitou um debate entre os liberais e conservadores, aqueles dizendo que a Câmara não tem esse dever para com a igreja, uma vez que a República é um estado laico e estes alegando que a religião católica era parte da própria identidade nacional, sendo impossível separá-la dos nossos deveres cívicos. Nascimento Castro foi implacável, mas os 2 contos de réis não vieram e isso gerou um grande descontentamento na elite local, cindindo até os próprios liberais.


A ação de Nascimento Castro também foi significativa no caso do Visconde de Tremembé. O nobre tinha se envolvido em uma luta com o operário alemão Augusto Kreye, por causa das cabras dele terem invadido a propriedade do Visconde. A discussão terminou em tentativa de assassinato -o Visconde deu um tiro em Kreye, mas pegou em seu chapéu. Kreye abriu um processo contra o nobre, apoiado principalmente por Eugênio Guisard (irmão do industrial Félix Guisard que tinha idéias socialistas), mas o grupo conservador fez de tudo para "melar" as audiências. Inclusive Nascimento Castro, que pediu para verem a ficha do operário na capital, onde ele esteve antes, e ao descobrir que havia sido preso por agitação consegui prende-lo com a ajuda das autoridades paulistanas. O processo acabou em um acordo entre ambas as partes, tão desgastado estava o assunto.


Nascimento Castro, como podemos ver, é um personagem muito rico, pois analisar suas ações nos abre um leque de possibilidades de analisar Taubaté em meados da República. Vimos aqui apenas dois desses aspectos de sua vida, a imprensa e a política, mas existem muitos outros como a educação (participou da fundação e organização de muitas escolas como o Externato São José, o Instituto de Agricultura e Comércio, dentre outros) e a questão social (afinal ele tinha fundado um Centro dos Operários Católicos). De qualquer maneira, Nascimento Castro, desconhecido hoje na memória local, começa a ser compreendido á luz de seu tempo pelo trabalho de grandes pesquisadores como Isnard Albuquerque Câmara Neto, Mauro Castilho Gonçalves e Tiago Donizette Cunha. Espero um dia contribuir para essa compreensão.

quarta-feira, 8 de setembro de 2010

A província do Amazonas

Vi no jornal ontem uma reportagem constatando que existem poucos monumentos ou menções á independência do Brasil em Manaus. Ora, me espantaria se houvesse tantos assim.

O Amazonas pertencia então ao Grão-Pará, uma colônia descoberta pelo espanhol Vicente Pinzón e que não estava ligada á colônia descoberta por Pedro Álvares Cabral. O Grão-Pará tinha uma estreita ligação com Portugal, graças á proximidade com a metrópole e a grande quantidade de membros da Corte na região no controle do comércio.

O Grão-Pará tinha sua dinâmica social e econômica própria: as drogas do sertão e os demais produtos da selva, incluindo aqui os peixes, tartarugas e etc, eram a verdadeira renda desta colônia. O Amazonas era a Capitania de São José do Rio Negro e não representava grande coisa quando comparado ao Pará, principalmente á cosmopolita Belém.

A falta de comunicação com a colônia ao sul também ajudava na diferenciação. A notícia da independência do Brasil chegou com um ano de atraso no Grão-Pará, a 2 de setembro de 1823. A independência para o Grão-Pará foi um grande prejuízo, como nos revela a historiadora Magda Ricci:
O Grão-Pará foi um dos primeiros locais a desejar aderir ás Cortes de Lisboa, ao constitucionalismo e ao novo império Ultramarino; entretanto, foi um dos últimos a acatar a idéia de uma união mais estreita com os povos do Rio de Janeiro e ao parlamento brasileiro. Finalmente, o Pará foi um dos territórios precursores da policultura, da média propriedade e do uso do trabalho livre, mas somente integrou-se ao Brasil retomando a monocultura ou extrativismo da borracha, o latifúndio e o trabalho semicompulsório, com a migração nordestina e o regime de endividamento característico da relação seringueiro-seringalista na cultura gomífera.
(p. 192, RICCI, Magda. O Fim do Grão-Pará e o Nascimento do Brasil: movimentos sociais, levantes e deserções no alvorecer do Novo Império (1808-1840) in: DEL PRIORE, Mary e GOMES, Flávio (orgs.) Os Senhores dos Rios. Rio de Janeiro: Elsevier, 2003).
São José do Rio Negro ainda era uma comarca da província do Pará, mas já haviam aqueles que defendiam a sua emancipação da nova província. Nos pedidos para a criação da província do Amazonas se destaca o esforço dos deputados paraenses, na certa, tentando com isso se livrar da comarca do Rio Negro, que dava muitos problemas administrativos e economicos ao Pará. Finalmente em 5 de setembro de 1852 é dado o aval para a criação da província do Amazonas pelo governo central.
A pesquisadora Regina Márcia Lima defende que devido á fragildade econômica do Rio Negro (uma vez que seus produtos deviam ser escoados pelo porto de Belém e comprados ali) a nova província, criada tanto pelo interesse dos paraenses de se livrarem de uma onerosa comarca quanto pelo interesse do Império em expandir seu domínio territorial e cultural, a política local também passou a ser fortemente dependente, seja dos políticos paraenses como da Corte. A maior prova, segundo a historiadora, está nas fraudes eleitorais, nos estadistas eleitos (paraenses ou vindos de outras províncias á mando da Corte) e na incapacidade da elite política local se unir contra seus opositores.