quinta-feira, 19 de julho de 2012

Rapidinhas


-Demóstenes Torres, o arauto da ética, quem diria, tinha o rabo preso. Se de tudo podemos tirar uma lição, a desse caso seria: desconfie principalmente dos "honestos". Mas, peraí: ele foi cassado, mas continua no cargo de procurador em Goiás? Esqueça a lição de moral, estamos falando de culinária mesmo - é pizza de novo!

-Acabei de saber que a pizza israelense não tem bordas, nem tempero. Rafael Sabbá só não cortou os pulsos porque pelo menos no falafel eles capricham!

-Tem gente que nunca entende o que está acontecendo no Oriente Médio. Tem gente que nunca entende o que está acontecendo em Manaus. Tem gente que nunca entende o que está acontecendo em sua casa. E tem gente que eu nunca entendi.

(Notas, Manaus - 18 de Julho de 2012).

terça-feira, 17 de julho de 2012

Resmungos: como tudo começou


Muitos acham que quando escrevo Resmungos estou simplesmente colocando ali minha opinião sobre as coisas. Na realidade, uma parte de mim, a mais rabugenta, está ali sim, mas a maior parte dos resmungos partem de um personagem que criei. Seu nome seria José Braga Jr., mas que seria conhecido como Zé Praga pelos amigos. O Zé seria uma união de todos os mal-humorados que conheci. Um cara de meia-idade com trabalho, família e falta de paciência. Um Seu Lunga urbano.
Criei o personagem há uns dois anos, mas não encontrava uma história para encaixá-lo. Só recentemente, após ler um livro de Ferreira Gullar chamado Resmungos, Zé Praga se tornou protagonista de uma série. Não uma série de TV, nem de quadrinhos, mas de crônicas. Breves e ácidas crônicas.
Qual a proposta de escrever sobre um homem ranzinza? Acho muito interessante como muitas colocações do mau humor podem ser sagazes e outras não, completamente amparadas em preconceitos. Algumas tocam em feridas escondidas da sociedade, já existe outras que apenas reproduzem um velho discurso. Seja como for, é impossível não pensar o rabugento como um cronista: descrevendo o mundo á sua volta e revelando sua personalidade, tudo á sua maneira.
Resmungos pretende ser uma série de crônicas bem humoradas, apesar do seu conteúdo ranzinza, sobre a nossa sociedade e sobre pessoas como Zé Praga, que não tem papas na língua.

segunda-feira, 16 de julho de 2012

Sinais


CULPA
Encolheu os ombros, desviou o olhar, em suma, o suspeito já tinha confessado seu hediondo crime com o vaso de plantas.

GULA
O bigode parecia um varal, sustentando alguns grãos de arroz, lembranças do almoço. A boca escorria molho de frango e os olhos á procura de goiabada.

DIGNIDADE
A carteira caída voltou ao seu dono, inteira. A maior recompensa foi a consciência tranquila.

PIEDADE
Considerava bem: o esforço do garoto ou a resposta errada? O professor titubeou por uns instantes, depois o aluno já estava aprovado.

LUXÚRIA
Os cílios convidavam para o prazer, enquanto o computador prendia ao trabalho. Mas a máquina perdeu feio para aquelas pernas.

AMOR
A palavra que não saía, o olhar que se encontrava, as mãos nervosas. Todo mundo já sabia, menos ela.

domingo, 15 de julho de 2012

A revista da socióloga sofisticada

Mais um dos Sociais da Depressão:

Sobre aranhas e lagartos


Só passando aqui para comentar uma crítica do Cineplayers, do Heitor Romero sobre o Espetacular Homem Aranha, que achei muito interessante. O subtítulo revela muito do seu conteúdo: "A esperança de viver em um mundo livre de fraquezas".
Ele analisa o filme através de uma dualidade: Peter Parker e Curt Connors seriam pessoas muito próximas, com problemas muito parecidos, mas com fins diferentes. Parker é o loser, o adolescente desajustado. Um garoto definido pelo sumiço misterioso dos pais. Connors é um homem brilhante, mas que não consegue conviver com a perda de seu braço. Sua obsessão se espraia para a ciência.
A ciência aqui concede poderes aos dois, porém Peter aprende a usar o seu fardo para além dos seus traumas. Larga a vingança pessoal em nome da segurança da cidade. Deixa de ser inseguro para tomar as rédeas de sua vida. Connors não consegue conviver com a ideia de viver com uma deficiência, por isso almeja se transformar permanentemente no Lagarto. O bom doutor não supera seus problemas, ao contrário de Parker, ele os leva adiante, a um novo nível de megalomania.
Em certo momento a professora de literatura do colégio diz mais ou menos o seguinte: "conheci um homem que disse que existem dez tipos de enredos. Eu discordo. Existe só um: Quem sou eu?" O que isso quer dizer? É a saga do herói que depois de uma longa e tortuosa jornada tem como recompensa o auto-conhecimento. É a história de cada um de nós. Nós, seres humanos, tentando encontrar seu lugar no mundo e ao mesmo tempo tentando descobrir sua verdadeira força.
E aqui dá até pra usar o bom e velho Nietzsche: essa é a nossa ânsia de libertarmos das amarras que nos fazem medíocres para revelarmos todo nosso potencial, nos transformarmos em "super-homens"! Amarras que podem ser traumas, preconceitos, medos, limitações físicas, etc. A aspiração maior, essencial, do homem é a liberdade, mas ela só parece ser atingida plenamente quando sabemos exatamente o que podemos fazer com ela. Segundo essa fórmula, saber é poder.
No entanto, nem tudo é tão simples. Como humanos, temos a tendência a escorregar ás vezes na linha do equilíbrio. Liberdade total pode se tornar anarquia e a busca pela nossa força interior pode se transformar em perfeccionismo. Ora, lembremos de que o nazismo se utilizou do ideal de "super-homem" de Nietzsche com a maior facilidade, deturpando seu conteúdo original. A liberdade vai para o escanteio e a noção de superioridade entra em campo. O potencial do homem não é canalizado para seu próprio bem, mas para dominar o outro. Se Parker se aproxima do "super-homem" de Niezsche, o Lagarto está mais para o "super-homem" hitlerista.
Esse é um tema universal, mas particularmente interessante para o público adolescente que passa a conviver de maneira mais intensa essa tensão entre vontade e responsabilidades, entre identidade e alienação, dentre outras questões. Isso tudo já faz de Homem Aranha um mito pop sobre o amadurecimento.

sábado, 14 de julho de 2012

Reflexões caiçaras



Consciência Histórica. Esse é um dos temas mais repetitivos desse blog. Já o abordei aqui de várias perspectivas diferentes. Por que falar de novo então? Nunca é demais falar de um assunto essencial, ainda mais se o faremos por novos ângulos.
Bem, o que é ela? O que é a consciência histórica? Para ser curto e grosso, quando alguém tem conhecimento de como o mundo á sua volta, seja de forma geral ou regional, se tornou o que é hoje então dizemos que essa pessoa tem uma consciência histórica. 
Digamos que estamos em uma comunidade de pescadores. Há ali um senhor que está aqui desde o começo da vila e que portanto presenciou tudo o que aqui ocorreu. Esse senhor tem consciência histórica? Podemos dizer que sim, afinal, a experiência a construiu. Quem não viveu esse momento todo adquire como? Através das palavras do ancião, a não ser que um deles saiba onde e o que pesquisar pra saber a origem dessa comunidade.
Você já deve ter percebido algo. Consciência histórica aqui está muito próxima do conceito de memória. O que diferenciou história de memória por muito tempo foi a maior objetividade concedida á história. Hoje isso já é questionável, já que o paradigma da neutralidade foi derrubado. Ora, o historiador também pode idealizar um passado tal qual o ancião da comunidade caiçara faria.
Outra coisa: se alguém de fora chegar na vila e perguntar ao velho se ele sabe quem foi Getúlio Vargas ou o que está acontecendo no Oriente Médio e ele responder que não, ainda assim podemos dizer que ele tem uma consciência histórica? Depende. Sobre um recorte mais amplo talvez não, mas sobre o seu contexto, a sua vila, ele tem sim.

Nosso mundo hoje anda encolhendo e vilas caiçaras já possuem TVs e até internet. Um garoto da vila pode saber tudo o que tá acontecendo lá no Egito, mas não saberia dizer como surgiram as casas de sua terra. Aí temos o exemplo oposto. A consciência histórica regional é perdida. Com a globalização e o avanço tecnológico é muito mais fácil descuidarmos da vida em nossa terra. São tantas informações e tão fáceis de achar. Mas será que temos uma consciência do contexto geral mesmo?
As notícias nos chegam fragmentadas, afinal são notícias. A todo momento algo acontece. O acontecimento por si só é valorizado e as causas são deixadas de lado. O garoto lá na vila, vendo na internet o povo egípcio se libertar de um ditador usando redes sociais não sabe muito mais além disso. Ele tem noção da importância desse fato? Ele sabe que isso representa a queda de um modelo de política no Oriente Médio? Pergunte á alguém na rua o que está acontecendo no Oriente Médio e depois pergunte o que isso representa. Faça esse teste.

O que importa mais? A memória ou a história? O contexto geral ou local? O fato ou o processo? Acredito que todos esses elementos são complementares. A história se alimenta de memória, o geral e o particular se articulam e o processo gera fatos e vice-versa. Acredito que o mais importante aqui é entendermos que na construção de uma consciência histórica hoje devemos levar em conta a subjetividade, a espacialidade e casualidade. Aprendamos com a comunidade caiçara a refletir sobre nosso papel como educadores e historiadores.

sexta-feira, 13 de julho de 2012

Eu acredito é na rapaziada...

HOMENAGEM AO SÉTIMO PERÍODO


Todo mundo que já passou pelo Curso de História da Uninorte entre 2009 e 2012 já ouviu falar neles: a Turma de 2009. A turma que no começo eram duas, mas se juntaram. A turma da Velha Guarda, da Escola das Análias, dos Espartanos. A turma que marca presença nos eventos, seja nos bastidores ou fora deles.

Não é mistério para ninguém que gosto muito dessa turma. Quando me transferi para Uninorte por causa de uma confusão nessa maldita grade curricular cai na sala deles. Eu, todo arisco, logo fui apresentado ás tribos da sala. Com uns fiz amizade de cara, com outros demorei mais um pouco.

Acontece que fiquei impressionado com essa turma. Primeiro, pela sagacidade. Tinha lá seus abestalhados... Mas que no final das contas acabaram saindo "bilontras". Em segundo lugar, porque apesar de tantos grupos e visões de mundo diferente todos se respeitavam. E por último, é uma turma que tem a incrível capacidade de rir de si mesma.

Eu não me sentia numa sala de aula, mas numa roda de amigos. E vocês não sabem o quanto esses amigos me ajudaram a crescer. Por que o que se aprende com eles não é ensinado na faculdade: amizade, bom humor, respeito e, claro, muita sacanagem. E espero continuar aprendendo com vocês sempre.

Abraços á todos.

(Nota, Manaus - 12 de Julho de 2012).

Não foi dessa vez...


Vamos lá! Primeiro, fiquei muito ressabiado com o filme diante dos pareceres de meus amigos, todos fãs do Homem Aranha. "Mudaram a história toda e coisa e tal!" Mas fui assistir e tirar minhas próprias conclusões.
O Espetacular Homem Aranha é um dos universos da Marvel do nosso herói aracnídeo, onde acompanhamos simultaneamente as aventuras de Peter Parker no combate ao crime e na puberdade. Perceba como a escolha dos produtores não é inocente: apelo teen para reerguer a franquia. Agora o curioso: escolheram Marc Webb para ser o diretor. Marc Webb? Conhece? Diretor de 500 Dias com Ela. É um cara que tem muita experiência como produtor de filmes indies e comédias românticas e você percebe isso muito bem nos momentos familiares e amorosos da película (não é aquele sentimentalismo fabricado com famílias ideais e frases feitas, aliás, é muito interessante como ele usa um tipo diferente de diálogo nos encontros de Peter e Gwen). 
A grande pergunta era: conseguirá Marc Webb fazer um filme de ação, capaz de ressuscitar Homem Aranha do fracasso da terceira sequência? E a resposta é sim. Sim, o Espetacular Homem Aranha promete o que cumpre, mesmo de que dê muitas deslizadas aqui e ali. Vamos primeiro falar dos acertos: a direção, claro, deu o diferencial com essa visão dinâmica e mais viva dos relacionamentos do nosso herói. Ela dá essa sensação de realismo em alguns momentos, em outras palavras, faz a história se tornar plausível. Os atores são outro ponto positivo. Andrew Garfield conseguiu fazer o Peter Parker ético, mas irônico desse universo. Martin Sheen como Tio Ben ficou ótimo e talvez isso tenha apagado um pouco a figura da Tia May de Sally Field. A Gwen Stacy de Emma Stone também não está nada mal: logo fica claro que ela não se trata da ingênua e indecisa Mary Jane.

Quanto ao vilão... vamos demorar um pouco nesse tópico. Rhys Ifans como Curt Connors foi competente. Como Lagarto foi estupendo. A loucura e a megalomania do bichão ficaram muito bem expressas (tem até uma parte que na hora me lembrou a cena em que a máscara do Duende Verde começa a falar com Norman Osbourne no primeiro filme). Estava com medo que fizessem o monstro nos moldes da história antiga: como uma criatura bestial que só pensa em destruir tudo em seu caminho alternando com um bom doutor, quase como em Hulk. Aqui o Lagarto tem a força do monstro e a inteligência de um bioquímico, o que deixa as coisas muito mais complicadas e emocionantes. Me incomodei um pouco com a mudança no visual do vilão (o papo do focinho e coisa e tal), mas superei.

O que faltou se trabalhar aqui é a ligação de Peter com Curt. Ele se torna a figura paterna do protagonista o que torna tudo mais difícil na hora do Homem Aranha lutar com o Lagarto, pois ele se preocupa com o doutor. No filme, ambos são apenas dois interessados em cruzamento genético. Talvez essa afetividade tenha sido transferida para o pai de Peter, que aqui aparece ao contrário das histórias em quadrinhos.
Agora, os erros. Basicamente o maior erro está no roteiro. São encontradas soluções muito bizarras para alguns entraves na história. Por exemplo, Gwen trabalharia no laboratório do amigo do pai de Peter. Quanta coincidência! Me espantei com a velocidade dos elevadores e dos fabricadores de antídoto. Em dois minutos, o sujeito já estava no terraço da maior torre de Nova York. Em oito minutos temos um soro saindo  quentinho do forno para uma fórmula que se levou anos para ser encontrada. Enfim, provas de falta de criatividade do autor.
A maior mudança na história, contudo, foi a presença dos pais de Peter. Aliás, não é só a presença deles, mas a sua ligação com a sua mutação e com Osbourne, que fica sempre na penumbra - a promessa de uma sequência. Essa intriga toda de espionagem me deixa cismado: será que uma mudança tão radical como essa ajudou a desenvolver a história? Ajudou nesse filme, mas volta e meia cai em alguns buracos no meio do caminho como os já apontados acima. Só não sou mais cético, porque ao que tudo indica a trama se perpetuará nos próximos filmes. Veremos se essa será uma mudança benigna.
Minha conclusão: filme bem executado, mas mal roteirizado. O que a direção deixa plausível o roteiro desfaz. Enquanto o Homem Aranha parece cada vez mais humano, alguns escorregões te lembram vez ou outra que esse é apenas um filme de ação. É uma pena porque se os problemas no roteiro fossem contornados, esse seria um ótimo filme. Um filme espetacular!

quarta-feira, 11 de julho de 2012

Meu amazonólogo favorito


Muito já foi pensado e falado sobre a Amazônia. Acredito que a maior contribuição veio de Djalma Batista (1916-1979).
Médico e amante das artes, principalmente da literatura. Devotado á saúde e a Amazônia, á saúde da Amazônia.
Colocou seu estetoscópio no coração da Hiléia e ouviu sua respiração ofegante, cansada de massacres e de desperdício.
O diagnóstico era simples: o desconhecimento gera desentendimentos, seja entre os homens, seja entre o homem e a natureza.
A primeira parte do tratamento não é tarefa fácil: conhecer. Conhecer o que Euclides da Cunha chamou de indefinido. Desvendar a selva e seus signos ajuda a entender a consequência de sua má utilização.
O segundo passo é apostar na utilização consciente dos recursos locais. A Amazônia, conclui Djalma, possui uma grande força que é ser um bioma tão rico e uma grande fraqueza por ser um bioma muito vulnerável. O imediatismo e o egoísmo do homem só tem realçado essa fraqueza.
A história da Amazônia tem sido a exploração desordenada. O homem só tira da selva, quase não cultiva ou preserva. É muita presunção e ingenuidade pensar que a floresta sobreviverá para sempre ou que os campos de gado, madereiras ou pólos industriais podem trazer mais benefícios que desvantagens.
O remédio, diz o bom doutor, é um processo racional de exploração. Algo que nos ajude sem destruir a floresta. É o "desenvolvimento auto-sustentado".
Na época, os anos de chumbo no Brasil e a guerra fria no mundo, poucos colocariam fé nesse seu remédio, hoje porém o que mais se fala é em desenvolvimento sustentável.
Grande Djalma: além de médico e intelectual também era um profeta, um profeta da sustentabilidade.

(Notas, 25 de Agosto de 2009 - Manaus/AM)

1932: O Vale vai á Guerra


"Revolução Constitucionalista de 1932". Eu prefiro o termo revolta ou guerra ao invés de revolução, como já expliquei aqui antes. Revolução implica uma mudança total na ordem social e 1932 pode ter inspirado medidas democráticas por parte do governo federal, mas não impediu que Vargas decretasse o Estado Novo. Em relação á própria "Revolução de 1930" também tenho minhas dúvidas, já que o que os revoltosos conseguiram fora destruir o arcabouço jurídico administrativo da República Velha e não as oligarquias estaduais que dele se utilizou. Assim o peso das mudanças era menor e se concentrava nas cidades, enquanto no interior o governo negociava com os donos do poder.
Mas voltando á 1932, seria essa uma revolta de caráter plenamente democrático? Na minha opinião não. São Paulo tinha um projeto político, gestado ainda durante a República Velha, de ser hegemônica - por conta da sua economia cafeeira e industrial. Com a ascensão de Vargas esse projeto foi frustrado. O estopim para a revolta veio com a morte dos quatro estudantes em uma manifestação anti-varguista.
O brasilianista Stanley Hilton afirma que a Guerra Constitucionalista de 1932 foi uma manifestação da elite que ganhou as massas. Essa elite seriam os velhos oligarcas, os empresários industriais e os profissionais liberais que antes tinham se dividido em dois órgãos políticos nos anos 20 (de um lado, o conservador Partido Republicano Paulista e do outro o liberal Partido Democrático), mas que se uniram novamente na Frente Única Paulista quando se sentiram ameaçados.
O seu discurso apelava para a democracia e para a Constituição, mas havia nuances mais obscuras nesse emaranhado de motivos para se fazer uma guerra contra o governo federal. Alguns apelavam para o regionalismo paulista que durante os anos iniciais da República tinha flertado com o separatismo, outros já se agarravam ao anticomunismo, como Ibrahim Nobre, enxergando em Vargas um líder bolchevique e não um demagogo populista.

O povo paulista entrou nessa guerra pelos mais variados motivos também: seja para defender os ideais liberais, regionalistas, separatistas ou mesmo anticomunistas, seja para se alimentar (a Casa do Soldado fornecia um rango para quem se alistasse) ou mesmo para provar a sua virilidade (Mário de Andrade lembra que aqueles que não iam para o front eram ridicularizados como maricas pela maioria da população).
Quanto á Taubaté, a adesão á causa constitucionalista se fez sem maiores mistérios. Primeiro, a cidade, ao contrário de São Paulo, estava em decadência por conta das crises do café e já clamava por políticas de valorização do produto há bastante tempo. Segundo, nesse contexto, o regionalismo local, que já era grande durante a virada do século (a elite taubateana tinha um certa rivalidade com a oligarquia paulistana por se acreditar ser mais tradicional e legítima que aquela), aflora em discursos contrários á diretriz centralizadora de Vargas. 
No discurso oficial aparece uma Taubaté unida por sentimentos de honra que deseja mais uma vez ser a vanguarda cívica do país libertando-o da ditadura varguista. O interessante é que algum tempo antes os ataques entre os setores mais conservadores, os chamados costistas (curiosamente ligados ao setor mais liberal da política, o Partido Democrático), e os mais liberais, liderados por Félix Guisard (esses filiados ao PRP) tomaram uma proporção enorme. No entanto, diante da ameaça externa, estas duas facções da elite local se unem. Essa seria a prova maior de que na cidade não havia lutas fratricidas e, mais ainda, luta de classes.
Até que ponto o povo comprou a Guerra de 1932 em Taubaté? Não sei dizer. Maria Cristina Soto acredita que a maioria da população tenha ficado indiferente, tanto que após a confirmação da derrota da causa paulista não houve qualquer manifestação popular espontânea na cidade. Mas é sempre bom nunca subestimar o poder do clientelismo e da doutrinação: e se alguns foram lutar por conta de favores ou pela força do regionalismo? Isso só uma pesquisa pode dizer.
O certo é que Taubaté participou do conflito de duas maneiras: fornecendo apoio logístico e humano e propagando a "causa paulista". Do primeiro ponto de vista, temos a cidade se transformando em base dos constitucionalistas, cedendo alguns prédios e espaços para os soldados e voluntários. Concedendo recursos para os batalhões ou para as mulheres dos soldados. E, é claro, formando seus próprios batalhões também. O mais famoso foi o Batalhão Jacques Félix, idealizado por Joviano Barbosa e Juvenal Machado, dentre outros. Este corpo militar veio a se unir ao Vigésimo Quarto Batalhão de Caçadores comandado pelo coronel Veiga Abreu que participou de uma vitória em Cunha contra as forças legalistas.

No segundo ponto de vista, temos a imprensa divulgando as notícias que recebe de São Paulo. O rádio já era um instrumento utilizado na capital paulista há muito tempo como forma de propagar o ideal constitucionalista, mas em Taubaté a radiofusão ainda era insipiente. O maior veículo de comunicação ainda era o jornal. No entanto, as redações sofreram alguns problemas, como a escassez de papel para as impressões. Ainda assim, continuaram funcionando.
A Revolta Constitucionalista é um assunto importantíssimo para o Vale do Paraíba, pois foi nele que as maiores batalhas foram travadas. Se em São Paulo se encontrava o epicentro do conflito, foi no Vale do Paraíba e em algumas partes do Oeste Paulista que ele se desenvolveu. No entanto, pouco se sabe ainda sobre como isso se deu aqui. O que se sabe são dados superficiais sobre as batalhas. Onde está a memória dos voluntários? Não só os voluntários famosos, mas os comuns. Onde se está a dinâmica interna dos municípios? Quer dizer que a disputa política foi suspensa no meio tempo em que a guerra ocorreu? No caso de Taubaté, costistas e perrepistas se reconciliaram de fato mesmo? E em relação a todos aqueles que não apoiaram a causa: Foram presos? Quais eram seus argumentos?

Falta vasculhar mais a memória do Vale sobre a Revolta Constitucionalista de 1932. Não só pelo heroísmo, mas pelo compromisso com a verdade e a História. É preciso compreender antes de glorificar. Silêncio, esquecimento e conjecturas não bastam. Além disso, até agora só temos visto o conflito do ponto de vista político. Será que não houve consequências na cultura vale-paraibana? Enfim, o número de perguntas e possibilidades de perguntas portanto é enorme, ouso arriscar que quase infinito. Esse pode ser um tema polêmico, mas pelo menos parece ser um assunto que está longe de ser esgotado.