sábado, 19 de novembro de 2011

VIII SEMANA DA CONSCIÊNCIA NEGRA - UNINORTE

Aqui está (com um certo atraso) a programação da oitava Semana da Consciência Negra, cujo tema deste ano será A Presença da Cultura Negra no Brasil e na Amazônia, promovida pelo curso de História da Uninorte:

Foto: Maurílio Sayão.


Dia 16

18h30mim
Abertura com ritual africano
William Daniel (Grupo Zimbábue)

19h30min
Palavras da Coordenação do Curso
Profa. Msc. Elisângela Socorro Maciel

19h10min
As Ideologias Afro-Brasileiras
(encenação com alunos e egressos do curso)

20h
Palestra: Movimentos negros no Amazonas
Profa. Msc. Arlete Anchieta (CDB/FOPAAM)

21h
Debate

22h
Encerramento
__________


Dia 17

18h30min
Abertura com dança
Grupo Zimbábue

19h
Negros em Movimento: a luta da memória contra o esquecimento
Documentário produzido por:
Prof. Msc. Arcângelo da Silva Ferreira, Antônio Everton Andrade, Francisca Anália Silva, Maria Lucirlei Barbosa, Maurílio Sayão e Vinicius Alves do Amaral.

19h30min
Debate

19h50min
Palestra: Resistência Escrava Política da Escravidão e Precarização da Liberdade no Amazonas Imperial
Prof. Ygor Olinto Rocha (UFAM)

20h50min
Debate

21h20min
Apresentação do projeto Faculdade no Meu Terreiro
Prof. Esp. Maurício Aurélio Couto Marques, Heberson Cardoso, Náira Pthera Fonseca de Souza e Washington Philipi Correa Barbosa.

22h
Encerramento
___________


Dia 18

18h30min
Abertura: apresentação de capoeira

19h
Palestra: Encantaria
Pai Jean Karlos Lima Nascimento

20h
Palestra: Encantaria na Amazônia
Prof. Marlon Seabra

20h50min
Atrações musicais: discentes do curso de Licenciatura em História
Miquéias William, Eusimar Fernandes e Franciley Jibson.

22h
Encerramento

Foto: Maurílio Sayão.

sexta-feira, 18 de novembro de 2011

Senghor

O texto abaixo é apenas um fragmento de um ensaio escrito por Ieda Machado Ribeiro dos Santos para o site do movimento literário Quilombhoje. O texto na íntegra pode ser encontrado aqui.

LEOPOLD SÉDAR SENGHOR
(1906-2001)

Ieda Machado Ribeiro dos Santos

Introdução
Certo dia, eu saía para trabalhar quando a vizinha me chamou:

— Espere, Ieda. O Dr. Fulano vai para o Campo Grande e pode lhe dar uma carona.

O Dr. Fulano era um senhor grisalho, muito cheio de mesuras e gentilezas.

— Professora, estou encantado em conhecê-la. Soube que a senhora sabe tudo sobre a África.

— Ninguém sabe tudo sobre nenhum assunto — retruquei.

Mas ele não deu nenhuma importância à minha interrupção porque, de fato, aquilo era um mero preâmbulo à cretinice que veio logo em seguida.

— Já que a senhora sabe tudo sobre a África, não acha que, sendo o cérebro do negro comprovadamente menor do que o do branco, ele é, naturalmente, menos inteligente?

Confesso que me senti tão irritada quanto vocês estão se sentindo agora, ao ler esta idiotice. Mas parece que o velho Oxalá jogou o seu alá sobre mim e eu permaneci bastante calma, respondendo com outra pergunta:

— O senhor já ouviu falar em Léopold Senghor?

— Não, nunca ouvi.

Então eu comecei a falar sobre Léopold Sédar Senghor, africano, filho de pai e mãe africanos (porque se for mestiço eles dizem que a inteligência vem do lado branco). Contei como Senghor, muito jovem, lecionou francês, na França, aos franceses. Que ele era membro da Academia Francesa de Letras, vencendo todos os escritores franceses que competiram com ele. Que ele era traduzido para o alemão, o japonês, o inglês e até para o português. Que ele era Doutor em Honoris Causa em mais de 20 Universidades do mundo inteiro, que havia ganho mais de 15 prêmios internacionais de poesia... E, como se tudo isso não bastasse, era um grande estadista, respeitado no mundo inteiro.

Chegando ao nosso destino, mais ou menos uns dez minutos depois, o Dr. Fulano admitiu:

— A senhora me convenceu.

Ao que respondi, com ironia:

— E com um crioulo só.

Gosto de contar essa história como demonstrativo da fragilidade do racismo e também de que, às vezes, uma argumentação tranqüila e bem fundamentada funciona melhor do que nossos gritos de cólera, embora essa cólera seja mais que justificada.

Mas, quando começo a escrever sobre Senghor, vejo que toda a sua vida foi exatamente isto: negar, e não apenas para os brancos, como querem os seus inimigos, mas para os próprios negros, principalmente os negros da diáspora, quanta falácia foi escrita e "cientificamente comprovada" sobre nossa inferioridade intelectual, sobre não termos História, Civilização ou Cultura. (...)


Consciência Negra

SOU NEGRO
Solano Trindade
(1908-1974)

A Dione Silva

Sou Negro
meus avós foram queimados
pelo sol da África
minh'alma recebeu o batismo dos tambores atabaques, gonguês e agogôs

Contaram-me que meus avós
vieram de Loanda
como mercadoria de baixo preço plantaram cana pro senhor do engenho novo
e fundaram o primeiro Maracatu.

Depois meu avô brigou como um danado nas terras de Zumbi
Era valente como quê
Na capoeira ou na faca
escreveu não leu
o pau comeu
Não foi um pai João
humilde e manso

Mesmo vovó não foi de brincadeira
Na guerra dos Malês
ela se destacou

Na minh'alma ficou
o samba
o batuque
o bamboleio

e o desejo de libertação...

segunda-feira, 14 de novembro de 2011

Falam dele, mas quem fala não tem razão?


"Nosso Mussolini", esse foi o apelido que o general Newton Cruz recebeu da midia. Também não era para menos. O próprio Newton Cruz reconheceu, em entrevista recente á Geneton Moraes Neto, que sempre foi muito esquentado. Numa das coletivas de imprensa, o então chefe do Serviço Nacional de Informações (SNI) perde a cabeça com as perguntas feitas por um repórter. O jornalista relata que teria sido agredido, o que enfurece Cruz que vai pegá-lo no braço para que peça desculpas na frente de todo mundo.
Bem, não preciso descrever muito. O vídeo acima mostra muito bem como tudo aconteceu.
Isso explica porque Newton Cruz se tornou uma figura tão folclórica. Episódios como esse não eram raros com esse general linha-dura. O criador do SNI, general Golbery do Couto e Silva, gostava da competência dele, mas sempre ressaltava que seu temperamento punha quase sempre tudo a perder.
Newton Cruz também ficou associado á ditadura militar. A intolerância com que tratava os repórteres se tornou uma espécie de símbolo da censura á imprensa impsota pelo regime. Tanto que sua exoneração é uma das primeiras medidas tomadas pelo Comando do Exército após o fim da ditadura: o objetivo era apagar tudo aquilo que pudesse lembrar o que veio antes de 1985 e depois de 1964.
Essa atitude tomada pelo Estado Maior do Exército para que houvesse uma abertura á democracia sem maiores atritos, como se pode imaginar, teve um peso muito grande para Cruz que na entrevista mencionada antes afirma que guarda uma mágoa sem tamanho contra o general Leônidas Pires Gonçalves, que acredita ser o responsável por "fazer a cabeça" do Estado Maior.
Esta entrevista, concedida em 2010, é muito importante, ao meu ver, não só porque revela alguns pontos omitidos pelos dados oficiais (como um possível atentado da linha dura, nas proporções do Riocentro, e a proposta indecente feita pelo então candidato á presidência Paulo Maluf ao general para "dar sumiço" em Tancredo), mas porque também procura enxergar Newton Cruz além desses estereótipos construídos por suas ações e em parte pela mídia.
Aliás, a entrevista parece toda construída em cima dessa proposta: o entrevistado tentando desconstruir os mitos ao seu respeito. A todo momento, Newton Cruz tenta deixar de ser o "nosso Mussolini". Acaba que em alguns momentos ele reitera isso, com alguns arroubos de truculência. Fora isso, Newton Cruz, já aos 80 anos, demonstra ser apenas um senhor muito falador e arraigado na doutrina anticomunista. No final, cantando a música "Falam de mim/ mas quem fala não tem razão", reitera esse desejo de esclarecer que é um homem incompreendido, cuja fama, que não dizia respeito á realidade, teria o prejudicado. A pergunta que fica é: será?

sexta-feira, 11 de novembro de 2011

Novidades

A equipe na ilha de edição: Maria Lucirlei Barbosa, Maurílio Freitas Sayão, Francisca Anália Ferreira Silva e eu. No computador, Edson Egas.
Foto: Maurílio Sayão.
Os leitores frequentes desse blog (se por acaso ele tiver alguns) devem estar se perguntando por que a demora em novas atualizações. O motivo vem a ser meu envolvimento com o projeto de extensão da faculdade sobre alteridade e diversidade na Amazônia Brasileira. Nosso projeto está em uma fase muito interessante e agitada: estamos construindo um pequeno vídeo sobre o movimento negro no Amazonas.
O pretenso documentário será exibido na VIII Semana de Consciência Negra do Departamento de História da Uninorte, entre os dias 16 e 18 desse mês.
Estamos muito cansados por conta da carga de material que coletamos e agora estamos editando, no entanto, também estamos muito ansiosos para vermos o produto pronto e a recepção do nosso público. Ficamos um pouco triste, pois tivemos que retirar muita coisa importante por conta do tempo, mas pretendemos fazer futuramente um documentário que englobe mais discussões e mais fontes.

Período Populista: alguns conceitos

No esquema de hoje vamos esclarecer alguns pontos:

ECONOMIA
Desde o fim dos anos 30, duas correntes econômicas passaram a dominar as políticas econômicas dos governos. A primeira defende que o Estado intervenha na economia protegendo os interesses nacionais. A segunda acredita que o Estado não deve interferir na economia, mas incentivar a entrada do capital estrangeiro no país. São conhecidas, respectivamente, como protecionismo e liberalismo.
Aos poucos foram ganhando outros apelidos: desenvolvimentismo e entreguismo.
Charge sobre o Plano de Metas de JK.
Vargas era o maior exemplo de governo protecionista. Grandes ações nesse sentido do seu segundo governo foram a criação da Petrobrás e a lei de remessa de lucros, que propunha que 1/3 dos lucros das empresas estrangeiras instaladas no Brasil fosse remetido ao estado nacional. Jango tinha um projeto parecido, mas não pode aplicá-lo como pretendia, pois estava mais preocupado em sanar a inflação que vinha atordoando o país.
Já o governo do Marechal Dutra adotou uma política mais "entreguista", pedindo ajuda econômica do FMI para financiar um projeto de incentivo á melhorias em várias esferas da vida pública nacional (como o transporte público, os postos de saúde, as escolas, etc.) Esse projeto ficou conhecido como SALTE e foi um grande fracasso: houve desvio de verbas e na prática a burocracia emperrou muitas das medidas previstas.
Um destaque especial vai para o governo de Juscelino Kubiscthek que adotou um misto dessas duas correntes em seu Plano de Metas. A idéia era desenvolver o país (50 anos em 5) através da união do capital privado (empresas brasileiras), estatal (empresas públicas nacionais) e estrangeiro (multinacionais e o FMI). Claro que as empresas privadas, principalmente de construção civil, foram privilegiadas pelo projeto de construção de Brasília e de rodovias pelo país inteiro. Mas a entrada de fábricas de produtos automobilísticos ganhou muitos incentivos fiscais e lucrou com uma mão-de-obra pouco especializada.
O detalhe é que o empréstimo pedido ao FMI aumentou a dívida externa, que já havia sido aumentada por Dutra e não foi resolvida por Vargas. É o começo de um processo de inflação que duraria quase 10 anos.
Por isso, a política econômica dos governos de Jânio e Jango é quase inexpressiva. O que eles tentavam fazer era basicamente acabar com essa crise. A inflação só é acalmada no governo militar, com os planos de Roberto Campos (um economista liberal).
O governo militar, de certa forma, imitou um pouco a política econômica de JK: fortaleceu as empresas estatais e protegeu os industriais nacionais, mas ao mesmo tempo incentivou a entrada de mais multinacionais no país e contraiu um empréstimo gigantesco com o FMI para patrocinar as obras faraônicas do governo Médici (a Transamazônica, por exemplo). O resultado foi uma nova inflação que se agravou com a crise do Petróleo em 1974. A dívida externa continuou fazendo o Brasil tremer. A inflação só foi controlada já nos anos 90 com o Plano Real.
Concluindo, do ponto de vista econômico o período populista foi um caos. Se formos pensar bem, de 1945 á 2000 o Brasil experimentou oscilações entre momentos críticos e momentos menos críticos na economia - a inflação foi o grande monstro, foi o que assustou e hoje continua a assustar, mas nem tanto, o brasileiro.
Um ponto interessante é a ideologia nacional-desenvolvimentista que surgiu a partir da década de 1950 e reuniu intelectuais dos mais diversos posicionamentos (desde pensadores liberais como Hélio Jaguaribe até o marxista ortodoxo Nelson Werneck Sodré). Tinha por objetivo entender o subdesenvolvimento brasileiro e propor alternativas para superá-lo, assim tornando o Brasil um país "avançado". A maioria destes pensadores se reuniram no Instituto de Estudos Brasileiros (ISEB), que teve uma vida relativamente curta.
Só para não fundirmos a cuca, vejamos abaixo os goveros e suas respectivas políticas economicas desse período:
Dutra (1946-1950) - SALTE
Vargas (1951-1954) - não há um projeto em específico
JK (1955-1959) - Plano de Metas
Jãnio Quadros (1961)
Parlamentarismo - Tancredo Neves, Hermes Lima e Brochado da Rocha (1961-1963)
Jango (1963-1964) - Planos Trienais

POLÍTICA
Os partidos políticos criados por Vargas, como vimos, foram dois instrumentos para angariar votos: um no povo e outro na elite. Vargas criou uma máquina para se sustentar no poder. Ao se apoiar em vários setores da sociedade para poder governa ele criou o que Boris Fausto chama de Estado de Compromisso: quase todos os grupos sociais estão ligados á ele. No seu primeiro governo ele já fazia isso, mas foi após 1945 que essa política se reforçou, pois a democracia exigia novos métodos.
Charge: o encontro entre Brizola, Vargas e Jango.
Já comentamos aqui que a sombra de Vargas parece pairar em todo esse período. O motivo é simples: ele criou essa máquina eleitoral. PTB e PSD eram os maiores partidos nacionais: um tinha amplo apoio popular e outro apoio dos "donos do poder". A UDN tentava quebrar essa lógica por meio de fortes ataques á estes partidos, mas perceberam que sua força era muito grande, por isso procuraram seus própios aliados e os encontraram no meio das Forças Armadas, onde o nacionalismo se unia lentamente ao anti-comunismo.
A UDN conseguiu quebrar essa lógica e de forma democrática em 1960 com a eleição de Jânio Quadros, um político paulista que tinha a simpatia popular e não simpatizava com o trabalhismo. Essa foi a primeira vez que um presidente do partido da oposição ganhou as eleições com milhões de votos.
A posse de Jango foi fruto do sistema de voto desvinculado, uma herança da República Velha. Jango era popular, sua pessoa era muito ligada á imagem de Vargas. No entanto, tanto a esquerda como a direita não gostavam dele. Isso porque Jango era um estancieiro gaúcho que tinha aprendido com Vargas a arte de manipular interesses. Jango se apoiava em todos os grupos sociais que lhe aparecesse não só porque temia ser deposto, mas porque queria implantar um Estado de Compromisso. Uma ditadura? Creio que não. As mudanças que Jango pretendia fazer na Constituição diziam respeito á reeleição e a questão de nenhum parente do presidente poder se candidatar ao cargo (afinal, Leonel Brizola poderia ser um ótimo herdeiro político seu, embora fosse seu cunhado).
Boa parte da esquerda brasileira conseguia ver as estratégias políticas de Jango para continuar com seu projeto político, por isso desconfiavam de suas atitudes. Todos sabiam que ele não era comunista. Prestes tinha total consciência disso, mas decidiu apoiá-lo para acatar aquele projeto de revolução por etapas (primeiro a burguesa e depois a comunista) que o stalinismo tinha difundido pelos PCs pelo mundo.
As medidas de Jango (as discussões sobre as reformas de base, principalmente) eram um meio de conquistar mais apoio, por isso se acentuaram em momentos em que parecia que a UDN estava a um passo de conseguir sua renúncia. A reforma agrária proposta po Jango não era total, mas seletiva. Ela buscava contornar o problema central, o poder do latifúndio, assim como o fez o INCRA no regime militar: enquanto o projeto da ditadura de reforma agrária consistia em mandar lavradores para se ocupar regiões da Amazônia, o projeto de Jango pretendia começar distribuindo terras devolutas (como as no entorno das rodovias) á alguns camponeses.
A força de Vargas estava nos grandes centros urbanos, entre os trabalhadores e a classe média. O campo durante boa parte de seus governos manteve-se inalterado. O motivo pode ser encontrado no grande número de latifundiários que integravam os quadros do PSD e do PTB (ora, o próprio Vargas e Jango eram estancieiros). A reforma agrária foi adiada também no governo de JK, cujo alvo principal de sua política de industrialização se encontrou nas grandes cidades do Sudeste do país, como São Paulo. Jango recorreu á reforma agrária como instrumento político, mas já era tarde.
O populismo é um meio de manipular as massas, esse novo personagem que passa a ter cada vez mais poder com o fim do século XIX. Na República Velha, o povo ficava bem longe do aparato político, por isso muitos a chamam de República das Oligarquias. Com Vargas, as massas passam a ter mais poder, mas um poder limitado pelo controle do Estado. Não é a toa que os estádios de futebol ficavam cheios diante de algums discurso de Vargas no dia do trabalho. De 1945 em diante, as massas continuam sendo manipuladas, vez ou outra representadas, mas majoritamente manipuladas.
Interessante é enxergamos como esse foi um período tenso, onde experimentamos um sopro de democracia constantemente ameaçado com golpes e revoltas. É um período expremido entre duas ditaduras.

CULTURA
Este período é encarado como um dos mais efervescentes culturalmente. Existe aqui um aprofundamento das propostas modernistas de criar uma arte autenticamente brasileiras, principalmente na música. Os anos 50 são tidos como os "anos Bossa Nova", momento em que este estilo musical, surgido da reunião do samba com gêneros musicais norte-americanos como o jazz, aparece nos discos de João Gilberto e nas letras de Vinícius de Moraes e Tom Jobim. O samba, até então marginalizado pela sua origem social (era feito em sua maioria pelo pessoal dos morros, das favelas), era reinventado e valorizado.
Esse interesse pelo samba reflete uma tendência presente na maioria dos intelectuais brasileiros: um interesse suscitado tanto pelo flerte com os movimentos de esquerda como pelo namoro com as propostas modernistas. Nos anos 60, tenta-se recuperar uma cultura popular, em contraposição á cultura erudita, marca da burguesia. É nessa conturbada década que surge a iniciativa dos Centros Popular de Cultura (CPC). Em parte, iniciativa do movimento estudantil e de líderes da esquerda brasileira.

O ator Oduvaldo Vianna Filho, um dos maiores membros dos CPCs.
No entanto, buscava-se não preservar a cultura popular, mas transformá-la em um instrumento político para atingir o povo e conclamá-lo á luta. Muitos dos entusiastas dos CPCs, como Ferreira Gullar, anos depois reconheceriam que apesar da proposta revolucionária, adotaram uma política autoritária ao descartarem tudo aquilo que não parecesse engajado.
O jornalista amazonense Narciso Lobo lembra que nesses anos cultura e política eram categorias quase intrínsecas. Podemos estender essa afirmação á todo o período populista, uma vez que a política adquiriu um status importante em nosso país através das lutas entre o trabalhismo e seus detratores, com uma pequena ressalva: claro que nos anos 60 tudo se acirra, se radicaliza mais. Afinal, basta nos lembrarmos do papel do Festival Folclórico de Manaus, de como esse evento foi palco de manifestações culturais e de articulações políticas.

domingo, 30 de outubro de 2011

Período Populista: Amazonas II


O Boto X o Ganso
Como vimos, Gilberto Mestrinho é eleito em 1958 governador do Estado do Amazonas. Seu programa de governo é uma espécie de continuidade do governo Plínio Coelho: medidas assistencialistas, reformas urbanas e diálogo com os líderes sindicais e as esquerdas. No entanto, o discípulo começa a se desentender com o mestre: Mestrinho começa a disputar com Plínio o prestígio político que detém em Manaus e fora dela. O cume dessa rivalidade subterrânea foi á prisão do Ganso do Capitólio sob a acusação de que este teria ordenado ao seu sobrinho que matasse Mestrinho. Na realidade, uma tentativa de assalto foi feita na casa do governador. O sobrinho de Plínio teria confessado que o tio estava envolvido.
Plínio conseguiu sair da cadeia com a ajuda de seu advogado. Pressões vindas de dentro do Amazonas e fora (da direção geral do PTB) pediam que ambos se reconciliassem uma vez que o partido precisava de todo o apoio para a campanha de Lott-Goulart em 1960. Ambos se reconciliaram. Ficou decidido que tudo ficaria no passado e que nas próximas eleições Plínio seria o candidato á governador, enquanto Mestrinho permaneceria na política ocupando o cargo de deputado federal por Rondônia.

Elas por elas
O resultado das eleições de 1960 era mais que previsível: Plínio ganha mais uma vez. Curioso que um dos seus primeiros atos é nomear um novo chefe de polícia, Genésio Braga, e expedir uma ordem para que ele prendesse Kliger da Costa, o antigo chefe de polícia, responsável por sua prisão no incidente anterior. A mensagem seria para Mestrinho, caso tencionasse sobrepujar Plínio mais uma vez.

Roadaway, parte do Porto de Manaus, na década de 40.

A constança
Com algumas pequenas exceções, os governos de Coelho-Mestrinho-Coelho foram um dos mais continuístas da história do Amazonas, uma vez que as mesmas medidas continuaram sendo aplicadas e o mesmo estilo de fazer política prevalecia nas ruas e nos bairros. O que desagradava muito os setores mais conservadores, enxergando nesse movimento uma anomalia. Plínio pretendia caprichar no seu segundo governo: inicia as construções de novas rodovias ligando a capital ao interior, cria um plano diretor para urbanizar a cidade baseado em critérios modernistas (inspirado no arquiteto de Brasília) e continua a presentear seus eleitores com cestas básicas, casas e, para os mais íntimos, cargos.
Contudo, no governo de Mestrinho, o trabalhismo se fortalecera mais, graças a sua união com as lideranças sindicais locais, principalmente dos estivadores. Oyama Ituassu lembra das incontáveis greves organizadas por essa categoria, paralisando o Porto de Manaus por dias a fio. O jurista também lembra do poder dos motoristas e choferes, que em 1961 organizaram uma greve na qual impediram o tráfego de veículos por toda cidade, inclusive limitando os postos de gasolina de abastecerem os carros que não tinham sua permissão.
A prova de que eles tinham o apoio oficial seria a proteção que a polícia civil e militar dispensava aos cordões grevistas. Em alguns momentos o Exército entrou em atrito com a polícia justamente por pretender abafar as manifestações em nome da ordem pública. Outro exemplo desse apoio foi a rápida passagem de Mestrinho pela avenida Eduardo Ribeiro, quando da paralisação dos motoristas, aplaudindo a causa dos grevistas.

O ritual trabalhista
O ponto alto do trabalhismo no Amazonas, quase que seu ritual de consagração, era o Festival Folclórico do Amazonas, realizado desde 1957 na Praça General Osório. Mestrinho logo percebeu o poder de manipulação e popularização que este evento poderia produzir nas pessoas ao descobrir o intenso número de brincantes e organizadores de quadrilhas e danças que a frequentaria. Plínio se aproveitara de todo o instrumental que Mestrinho tinha criado em volta do Festival, como os seus discursos populistas e sua aparição triunfal, quase como um campeão olímpico, segundo o jornalista Narciso Lobo.
É justamente num Festival Folclórico que Plínio Coelho recebe a notícia de que os militares tinham deposto João Goulart e o manteriam em prisão preventiva agora. Plínio consegue convencer os policiais a fazer o discurso de abertura do Festival. Basicamente nesse discurso o líder trabalhista fala que terá de sair do poder por uma incontigência histórica, mas voltará algum dia nos braços do povo.

Charge sobre Plínio Coelho em O Jornal de 1958. Fonte: Cel. R.Mendonça.

 
Caça ás bruxas
Plínio tinha sido preso, mas não fora cassado, ao contrário de Gilberto Mestrinho, cujo nome foi colocado na lista de cassados pelo Ato Institucional (AI) pelo general Augusto Cesar Moniz de Aragão, que quando foi Comandante da Base Militar do Amazonas entrou em conflito com Mestrinho por ter inflamado o povo contra as Forças Armadas.
Mestrinho teve de fugir do Amazonas com a identidade de Vivaldo Lima. Plínio foi solto e ainda passou a governar por alguns meses, enquanto a Assembléia Legislativa do Estado e o governo federal decidiam o que fazer com ele e quem colocar em seu lugar. Finalmente, em maio de 1964, Plínio é cassado e o Anfremon Monteiro, presidente da Assembléia, se torna o governador em exercício.
No Amazonas existia uma longa lista de personalidades que deveriam ser presas em 1964, a maioria ligada aos governos de Plínio e Mestrinho. Gente como o líder sindical dos estivadores Antogildo Paiva, o líder dos bancários Aldemar Bonates, o jornalista Arlindo Porto e o líder comunista Aldo Moraes.

Uma base forte
Na realidade, o Amazonas representava um dos pontos mais sólidos do trabalhismo. Não é a toa que dois dos maiores líderes trabalhistas no Congresso eram amazonenses: Arthur Virgílio Filho e Almino Affonso. Nem no Rio Grande do Sul, onde Leonel Brizola acreditava ser o nascedouro do movimento o partido tinha chegado tão fortemente em todos as esferas do Estado. No entanto, devemos lembrar que nem todos políticos dos governos trabalhistas no Amazonas eram realmente trabalhistas. Muitos atingiam postos importantes por tráfico de influência. O clientelismo tinha criado uma rede segura para o trabalhismo.
Quando o golpe de 1964 se tornou vitorioso, essa mesma rede resolveu se debandar para o lado do vencedor. O que explica o por quê certos elementos, não tão radicais, não foram cassados.

64 em Manaus
Como o golpe de 1964 se fez em Manaus? Essa é uma pergunta que pretendo responder em um futuro artigo. Por enquanto posso dizer que as classes anti-trabalhistas já vinham preparando um golpe há muito tempo (Arthur Reis revela em um livro escrito no tempo em que fora governador que já tinha participado de diversas conspirações, envolvendo militares, para depor Plínio e Mestrinho. Confabulações que não foram levadas adiante).
Quando souberam do destino de Jango na capital, resolveram aproveitar a oportunidade e finalmente dispensar seu próprio golpe. Além disso, a instituição militar sempre contou com muito poder no Amazonas e as ações do presidente, de quebrar a hierarquia e ferir a honra militar, nos seus últimos meses de governo teriam agravado mais ainda a situação.

sábado, 29 de outubro de 2011

A Falta de Vergonha

A Crítica, 30 de Junho de 1964.
Ás vezes você ouve por aí: "Ah, não existia tanta corrupção assim antigamente!" Ou, melhor: "No tempo da ditadura que era bom - não tinha corrupção!"
Ledo engano, meus amigos. A corrupção sempre existiu. Houve tempos em que esteve mais exarcebada e outros que não. Quanto á ditadura militar, o simples fato de não ser divulgado algum lobby não significa que não existia corrupção. A diferença de ontem pra hoje é que ela é mais visível e naquele tempo não.
Uma curiosidade: uma das bandeiras dos militares que fizeram a "Revolução" de 1964 foi a de acabar com a corrupção e a subversão ("o perigo vermelho"), para tanto, logo após se tornarem vitoriosos, instalaram a Comissão Geral de Investigações (CGI), um órgão responsável por analisar processos contra subversivos e corruptos.
O responsável por chefiar a CGI era o exaltado Marechal Estevão Taurino de Resende. Este, conhecido por ser um militar linha-dura, após tomar conhecimento de todos os 1110 processos abertos de abril á novembro de 1964 chegou a conclusão de que "o problema do comunismo perde expressão diante da corrupção administrativa nos últimos anos": a maioria dos processos era sobre corrupção e terminaram em pizza porque as investigações acabavam esbarrando em figuras poderosas como o ministro da Economia Roberto Campos ou o Arcebispo do Rio de Janeiro D. Jaime Câmara. Indignado, uma de suas frases estampou os jornais de 1964: "No Brasil não há comunismo, mas sim falta de caráter e de vergonha!" Curiosamente, anos depois, nos tempos das Diretas Já, um dos líderes da oposição ao regime, Teotônio Vilela, repetia as palavras do marechal elevado á condição de inquisidor-geral: "O maior problema do Brasil é a falta de vergonha!"
Os processos foram arquivados, enquanto os demais, sobre subversão, continuaram a todo vapor. Logo este problema, considerado um dos maiores entraves para o desenvolvimento do Brasil na época, foi deixado de lado em nome da "ameaça comunista". E disso pouca gente sabia na época e hoje. Graças á ideologia propagada pelo governo nas escolas toda uma geração repete a falsa idéia de que a corrupção foi erradicada no regime militar, justamente quando aconteceu o contrário: ela continuou rolando solta, ao lado de outras formas de contravenção, como a tortura.

Pensando e repensando Javé III

Narradores de Javé (2003) também pode ser pensado como uma narrativa mítica. Não só porque muito do que é contado pelos moradores tem esse tom, mas porque o próprio rumo da história indica isso.
Javé é uma cidade fundada por pessoas á procura de terras seguras para poder viver. O que a represa faz, inundando a cidade, é retomar ao começo: novamente temos pessoas á procura de uma nova área onde, com certeza, fundarão uma nova cidade.
Essa circularidade, chamada de eterno retorno, é um dos pontos básicos do mito.O mito, já falamos aqui antes, é uma narrativa, uma tentativa de compreender o mundo. Quase sempre é utilizado como forma de legitimar uma ordem social. As histórias contadas pelos moradores podem ser vistas como tentativas de cada um se legitimar, de reclamar pra sim um status todo especial que remonta ás origens.
As origens, aqui está outro ponto interessante. Todo mito se reporta á origem, seja do mundo ou de determinada sociedade. A origem de Javé se torna mito. Seus fundadores se tornam guerreiros destemidos, bravas mulheres, cavaleiros cômicos e até mesmo líderes quilombolas. De todos os narradores, o ancião do quilombo é o que mais encarna essa dimensão mítica da fundação da cidade: ele conta a história através de elementos místicos e reais, dando especial importância para o ato de contar, tanto que decide não falar mais depois de ver a incredulidade de Biá.
Ao final, a história se repete e os javeenses tem de encontrar um novo local onde poderão contar e recontar essa história como acharem convenientes, pelo que dá a entender não só pela última fala de Zaqueu, mas pelo recomeço do bafafá sobre quem salvou o sino da igreja em torno de Antônio Biá.

sexta-feira, 28 de outubro de 2011

A ponte do futuro

Na última segunda feira se comemorou os 342 anos da cidade Manaus. A história já começa complicar aí, mas deixo para explicar a causa dessa data ser tão problemática em outra oportunidade. O que quero falar hoje é sobre outra comemoração: a inauguração da Ponte Rio Negro.
Lá estavam as bandas tradicionais de Manaus, como Rabo de Vaca e até o "princípe do brega" Nunes Filho. Compareceu Omar Aziz, Dilma Roussef e Lula. Só não compareceu Amazonino. E o motivo é claro.
Uma pena, porque organizaram uma manifestação de amor ao caro prefeito, como podemos ver nas fotos.
Muitas pessoas não resistiram e cruzaram a ponte. Conheço milhares que fizeram isso. Alguns até sairam queimados pelo sol, só para completar o trajeto á pé.

Vamos á ponte: o projeto foi sugerido há mais de cinco anos atrás. O deputado Francisco Souza fez questão de assumir a paternidade da criança. Na época governador, Eduardo Braga se comprometeu a construir a ponte, sabendo que custaria uma verdadeira fortuna tal empreendimento. Afinal, o Rio Amazonas é um dos maiores rios do mundo em comprimento, um verdadeiro mar.
Após quatro anos a obra é concluída, pairando no ar a polêmica de se instalar cabines de pedágio ou não. O pedágio não veio, mas já preveniram que o custo da manutenção da ponte é alto e o jeito é cortar os recursos dispensados ás balsas. Nenhuma novidade: uma obra faraônica tem despesas faraônicas.
O objetivo da ponte era ligar as duas margens do rio, incrementar a urbanização do lado de lá. Soube que muitos terrenos já foram loteados, alguns permanecendo nas mãos de verdadeiros empresários imobiliários, no melhor estilo capitalismo selvagem.
Enquanto Manaus piora a cada dia e tenta passar a imagem de que tem infra-estrutura, principalmente para justificar a sua escolha para ser uma das sedes da Copa, investe-se numa obra que ao que parece fará uma urbanização desorganizada em outro local. Os problemas (de trânsito, explosão demográfica e falta de saneamento básico) não são resolvidos, são contornados. Melhor, passamos por cima deles atravessando de ponte.