terça-feira, 22 de fevereiro de 2011

Igarapé Antigo

Vou compartilhar (mania de facebbok) aqui com vocês um poema da grande Rosa Clement que também não deixa de ser um relato sobre as transformações urbanas em Manaus:


Igarapé Antigo
Rosa Clement

Esse pequeno rio que via
passar a minha infância
em suas águas de cristal,
mudou de rumo.
Passou a sustentar palafitas,
encher garrafas e latas atiradas
que lhes davam relevos sombrios.
Por fim, passado á limpo,
ressurgiu uma versão domada,
sem poderes cristalinos,
sem o movimento apurado
das ondas marginais,
com águas que passam o tempo
exercitando correntes
agora livres de detritos.
É rio que já não é tão rio
e eu também, quando passo por ele,
já não sorrio.

Lobato, Lobatos


Outro dia falávamos de Monteiro Lobato. Acho Lobato um dos escritores nacionais mais interessantes. Não é só pelo fato de escrever bem, mas pela sua ousadia. Lobato era um rebelde, um rebelde em partes.

Nascido em um contexto patriarcal e escravocrata, como dissemos, ele teve uma infância dividida entre leituras e brincadeiras pela chacará de seu avô, João Francisco Monteiro, o poderoso Visconde de Tremembé. Quando a República é proclamada, Lobato está ingressando no Colégio Kennedy, de propriedade de pastores norte-americanos na cidade, contudo logo é transferido para o Colégio Paulista (o Colégio Kennedy, por seu ideal protestante e liberal, é perseguido, principalmente pelo nosso velho e conhecido vigário Nascimento Castro, e se muda para São Paulo, onde veio a se tornar o Mackenzie).

Graças á um pistolão feito por seu avô (ele mesmo admite), consegue uma vaga na tradicional Faculdade de Direito do Largo de Sâo Francisco, na capital paulista. São Paulo ainda não era uma grande cidade, mas o dinheiro advindo do café, das ferrovias e o universo estudantil fazia dela, sem dúvida, uma cidade muito maior e cosmopolita que a velha Taubaté. Na faculdade, ele se envolve com a imprensa, com idéias anticlericais, as leituras de Nietszche que fez na juventude tornam-se mais encorpadas.

No entanto, ele precisava de um trabalho depois de formado e seu avô novamente consegue abrir portas com seu prestígio: Lobato vai ser promotor em Areias. A curta passagem pela promotoria de Areias foi um dos momentos mais duros da vida do escritor taubateano que havia se acostumado com aquele ambiente cosmopolita da capital paulista. Experiência pior viveria quando, logo depois, seu avô lhe dera a posse da fazenda de seu falecido pai em Buquira, na Serra da Mantiqueira. Lobato estava ansioso por tentar utilizar nessa terra todas as modernas técnicas agrícolas que ouvira falar nos jornais, essa fazenda seria o seu laboratório. No entanto, ele esbarrou na má vontade dos seu trabalhadores, capatazes e camaradas. Diante de tal fracasso, Lobato escreve um artigo para o Estado de São Paulo chamado A Velha Praga no qual ele identifica no caipira o motivo do Brasil ainda ser um país pobre e miserável. O caipiria seria um parasita da terra, dela apenas quer se alimentar, não está disposto á mudanças, ele trava o progresso. O artigo tornaria Lobato famoso, temos que lembrar que nessa época, começo do século XX, ainda era dominante o ideal romântico sobre o índio e nosso país, e Lobato desconstrói todo esse mito com base em sua experiência.

Essa visão romântica é coisa de quem não conhece realmente a situação do campo, dizia. É uma invenção de uma elite que vive olhando para a Europa, que se prende á futilidades, que quer aparentar ser culta e civilizada com seus bacharéis. Nesse momento podemos perceber como Lobato é pontual e como não dispensa ataques á ninguém, muito embora ele esteja também contaminado de um pouco desse "modismo" de nossas elites, principalmente no preconceito para o trabalhador nacional e a valorização do homem caucaseano, como falamos no post anterior. Além disso, localmente ele ainda era afiliado ao partido conservador de seu avô, ajudando-o inclusive no caso do crime do Visconde como advogado.

Ora, sua polêmica foi utilizada pela mesma elite que criticava como argumento para o projeto de embranquecimento da população local. O ponto máximo de sua consagração é quando o então candidato á presidência, o jurista baiano Ruy Barbosa adota a imagem do Jeca Tatu em sua propaganda. Anos depois, com base em estudos realizados por médicos sanitaristas em meio ao sertão, Lobato voltaria atrás, ele identificaria qual a verdadeira praga: as péssimas condições de vida. O caipira era assolado por doenças como o amarelão que lhe impediam de ser um trabalhador nato. Esse seria o problema vital, nome, aliás, de um de seus livros. Envolve-se então na campanha do sanitarismo, mudando então o Jeca tatu de preguiçoso incurável á homem rico e forte se tratado.

Lobato criticava a elite nacional por se apegar demais á Europa e uma de suas tentativas de emancipar o Brasil, por assim dizer, desse laço seria a construção de uma editora nacional (antes todos os livros brasileiros tinham que ser editados e publicados em Portugal), esforço para o qual contou com a ajuda de muitos amigos escritores e jornalista do Estado de S.Paulo, onde desde seu pioneiro artigo passou a trabalhar. Se não morria de amores pela Europa, admirava pelo menos o Estados Unidos, por ter ultrapassado a condição de colônia e se tornado uma república democrática e progressista (embora ele também tenha duras críticas á democracia, que podem ser conferidas n'O Presidente Negro). Admirava especialmente Henry Ford, o criador do carro Ford Modelo T que revolucionou o mercado por produzir carros em escala industrial, mas não por esse fato e sim por sua iniciativa de fomentar o trabalho (afinal, Ford queria que seus próprios trabalhadores comprasse seu carro, que ele fosse acessível á todos).Tornou-se adido da embaixada brasileira nos EUA durante o governo Washington Luís e essa experiência foi uma das que mais lhe marcaram.

Em busca de emancipar o Brasil economicamente, enquanto o fazia culturalmente com sua editora Companhia Nacional, Lobato se envolveu na campanha pelo petróleo. Estávamos nos primeiros anos da Era Vargas e Lobato já era visto como um elemento ligado ainda á República Velha. Além de mal visto pelo novo governo havia também a proposta de desenvolver a indústria de base no país e o medo do comunismo, por isso quando Lobato começa a atacar o governo por não incentivar á pesquisa do solo e por se aliar gradativamente aos governos fascistas europeus começa a ser perseguido. A partir da instituição do Estado Novo em 1937 ele passa a ser perseguido com mais força, chegando até a ser preso por um certo período. Quando no fim da ditadura, em 1945, é solto e a campanha do Petróleo é Nosso ganha força, mas agora pela voz do general Horta Lima.

Profundamente desiludido com a Segunda Guerra Mundial e o governo que se delineava com o Marechal Dutra, para ele simples instrumento dos militares e empresas estrangeiras, Lobato passa a se aproximar do comunismo, defendendo agora como solução para o desenvolvimento do Brasil a reforma agrária. Agora nasce um novo personagem Zé Brasil, que tem como seu principal inimigo um poderoso coronel. Lobato ensaia até alguns votos de entusiasmo á Luiz Carlos Prestes, mas então entra em profunda depressão quando seu filho falece, retirando-se da vida pública. Vem a falecer em São Paulo em 1948.

Como podemos ver, Lobato é um feixe de contradições: em determinado ângulo apóia a democracia e em outro a despreza, conserva um interesse no progresso acima de tudo, mas escorrega em muitos preconceitos ainda da sociedade escravocrata. No entanto, sua pena era afiada e ninguém escapava dela, nem seus amigos e nem seus inimigos. Se visse algo que não concordasse logo dizia e se visse uma deficiência logo colocava a mão na massa para saná-la. Lobato é um tema que não se esgota, pois ele próprio era um homem multifacetado, haviam muitos Lobatos e até hoje ainda há muito o que falar sobre eles.

domingo, 20 de fevereiro de 2011

Pensamentos do Lalau


Para começarmos bem a semana, deixo aqui alguns pensamentos de Stanislaw Ponte Preta, o pseudônimo de nosso querido Sérgio Porto (1923-1967):

No Brasil as coisas acontecem, mas depois, com um simples desmentido, deixaram de acontecer.

Nos trens suburbanos não livram a cara nem de padre, que dirá mulher de minissaia.

O mais perigoso é que já estão confundindo justa causa com calça justa.

O Reino Unido não é tão unido assim como eles dizem, não.

Consciência é como vesícula, a gente só se preocupa com ela quando dói.

Difícil dizer o que incomoda mais, se a inteligência ostensiva ou a burrice extravasante.

Quem não tem quiabo não oferece caruru.

Mania de grandeza é a desses suplementos literários que têm um aviso dizendo que é proibido vender separadamente.

Pode-se dizer a maior besteira, mas se for dita em latim muitos concordarão.

Homem que desmunheca e mulher que pisa duro não enganam nem no escuro.

Esperanto é a língua universal que não se fala em lugar nenhum.

Nem todo rico tem carro, nem todo ronco é pigarro, nem toda tosse é catarro, nem toda mulher eu agarro.

Nem todo gordo é bom, muitos se fingem de bonzinhos porque sabem que correm menos.

O importante é não deixar nunca que o menino morra completamente dentro da gente. Caso contrário, ficamos velhos mais depressa. Dizem que é por isso que os chineses, de incontestável sabedoria, conservam o hábito de soltar papagaio (ou pipa, se preferirem) mesmo depois de adultos. Não sei se é verdade, nunca fui chinês.

Profissão: Historiador

Outro dia, discutindo na faculdade com meus colegas sobre o caráter de nosso curso tocamos um ponto recentemente levantado, mas no momento em questão emperrado: a profissionalização do historiador.
Fazemos um curso de licenciatura, o que significa que nossa atuação, legalmente, será direcionada para o ensino, a educação, enquanto o bacharelado engloba também a pesquisa. Em certo ponto da discussão, alguém levantou a questão: mas existe mercado de trabalho para alguém dedicado á pesquisa em nossa região e em nosso país?
Quando se fala em pesquisa, ou falamos de universidades ou das fundações de amparo á pesquisa. Nos últimos anos, a pesquisa tem crescido bastante, estamos consolidando um ambiente acadêmico no país. Muito embora, esse ambiente ainda esteja centralizado no Sudeste do país. Acompanhando essa tendência, a ANPUH (Associação Nacional de Professores Universitários de História) desenvolveu um projeto de lei para a profissionalização do historiador no começo do ano de 2000. Só em 2009, o projeto ganhou o apoio dos políticos, quando o senador Paulo Paim tentou levar o projeto em diante. No entanto, a aprovação não saiu nem naquele ano nem em 2010, por estarmos próximos das eleições. O burburinho sobre o projeto desapareceu por um tempo, mas parece que tem se reacendido recentemente.
A questão é que a profissionalização apóia a consolidação da pesquisa histórica, mas não deve vir sozinha, como sabemos, mas acompanhada de outras medidas, principalmente na descentralização do incentivo á pesquisa. Enquanto isso, esperemos.

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Para os interessados em ver o projeto, aqui está ele.

sábado, 19 de fevereiro de 2011

Geny Marcondes

Com muito atraso, confesso, noticio aqui a perda de uma mulher pioneira em muitos aspectos: Geny Marcondes. Nascida em 1916, em Taubaté, Geny era música, começou sua carreira tocando na orquestra Fego Camargo, quando esta musicava os filmes mudos. Logo depois compôs operetas sobre o Sítio do Pica-Pau Amarelo, arrancando elogios de seu criador, Monteiro Lobato.
Sua carreira dá um grande salto quando muda para a então capital federal e cultural do país: Rio de Janeiro. Começa a trabalhar na Rádio MEC, aquela fundada por Roquette Pinto, dirigindo muitos quadros. Tempos depois passa para a trabalhar também na televisão, como produtora. Aliás, ela foi uma das primeiras mulheres a ministrar um curso sobre multimídia no país, quando a palavra ainda era nova. Morava em Petrópolis até que em 1988, as chuvas provocaram um desastre na região, parecido com esse último, e então muda-se para sua cidade natal.
Foto: Álbum Taubateano, 1945.
Geny veio a falecer no dia 30 de janeiro, perto de completar 95 anos.  Á família e á Taubaté, meus sentimentos. O Almanaque Urupês fez uma homenagem muito especial.

Apontamentos para a história do Cinema em Manaus

-Segundo Selda Vale Costa, entre 1920 e 1967 existiam em Manaus os seguintes cinemas:

Cine Alcazar, mais tarde Cine Guarany, fundado em 1907 e fechado em 1984. Localizado na Praça Heliodoro Balbi, parte central da cidade.

Cinema Avenida, fundado em 1909, sendo fechado, reaberto alguns anos depois até ser fechado definitivamente em 1973. Localizado na avenida Eduardo Ribeiro.

Cinema Popular, fundado em 1920, funcionou por um tempo até ser fechado, reabrindo seis anos depois. Então só fecharia totalmente em 1970. Localizado na avenida Joaquim Nabuco, numa região próxima do centro.

Cinema Rio Branco, cuja data de fundação ainda é um tanto misteriosa, no entanto fechou em 1920. Situava-se na região central da cidade, na rua Barroso.

Cine Ideal que funcionou até a década de 70 no bairro de São Raimundo.

Cine Ypiranga, fundado pelo empresário Adriano Bernardino em tempo recorde na praça General Carneiro em 1959 e fechado no dia de Finados de 1983, ficava no bairro de Cachoeirinha, na rua Carvalho Leal.

Cine Glória, fundado na década de 20 e fechado nos anos 50, justamente no bairro da Glóia.

Cinema Polytheama, fundado em 1912 e extinto em 1973, situado na avenida Eduardo Ribeiro.

Cine Odeon, fundado em 1913 e extinto no mesmo ano do Polytheama, localizado na mesma avenida.

Cine Vitória, aberto nos anos 50 e fechado também em 1973. Localizava-se na avenida Leopoldo Peres, no bairro de Educandos.

Ideal Cine, fundado em 1928 e fechado definitivamente em 1930. Situava-se no bairro de Aparecida, na rua Comendador Alexandre Morim.

Finalmente, o emblemático Cine Eden, que no decorrer de sua existência (1945-1989), mudou de nome diversas vezes (Cine veneza, Novo Veneza, Cine-Teatro Guarany).

Nas palavras do geógrafo José Aldemir de Oliveira, "o cinema constituiu-se, até o aparecimento da televisão no final dos anos sessenta, num elemento lúdico, empreendimento comercial e componente criador do imaginário coletivo pela possibilidade de criar condições de saber sobre o espaço. Era o lugar privilegiado do encontro não apenas para assistir ao filme, mas para ouvir as orquestras dos principais cinemas do centro ou para trocar gibi nos cinemas dos bairros". (p. 158, Oliveira, 2003).


Referências:
-COSTA, Selda Vale da. Eldorado das Ilusões. Cinema & Sociedade: Manaus 1897-1935. Manaus: Editora da Universidade do Amazonas, 1996. pgs. 258-266.
-OLIVEIRA, José Aldemir de. Manaus de 1920-1967: A Cidade Doce e Dura em Excesso. Manaus: Editora Valer/ Governo do Estado do Amazonas/ Editora da Universidade do Amazonas, 2003.

sexta-feira, 18 de fevereiro de 2011

Proposta de expiação

Gostaria aqui de comentar um post do escritor paraibano Bráulio Tavares. O título é bem pontual: O nosso pecado original. Bráulio aborda um tema já saturado, seja nas Ciências Sociais ou na Literatura, por uma nova perspectiva.
O autor começa nos apresentando o que se entende por pecado original. Se formos á raiz do termo, chegaríamos então ao Jardim do Éden no instante em que Deus pune Adão e Eva do local por terem comido do Fruto Proibido. A partir daquele momento, Adão e seus descendentes seriam punidos com o trabalho duro como único meio de sobreviver e Eva e suas eventuais filhas com a dor do parto.
Em outras palavras, é "um pecado que não cometemos, mas que foi cometido por quem nos trouxe ao mundo, e que de certo modo nos influencia. Quando um indivíduo toma consciência desse pecado, que não dependeu de uma decisão ou de uma opção sua, sente uma culpa que o habita mas não lhe pertence, e que por isso mesmo lhe parece impossível de expiar".
Nós, brasileiros, teríamos além desses dois pecados originais mais um: a corrupção. A corrupção, em suas mil formas, está entranhada em nossa vida política, empresarial, econômica. Onde quer que exista muito dinheiro (e, de maneira perversa, onde exista dinheiro público) a corrupção surge. Acabamos entrando no labirinto da corrupção diretamente, através da nossa participação, ou indiretamente, principalmente através da vista grossa. Ser honesto e ético no meio de um ambiente viciado é quase impossível. Em outras palavras, no envolvemos na corrupção mesmo quando somos indiferentes á ela.
No entanto, o dinheiro desviado é usado em outra coisa, em outros setores, mesmo que seja de fachada, ajudando a financiar novas formas de produção. Do dinheiro sujo nasce, assim, algo diferente. Tentar limpar a nossa economia dele seria dificílissimo e até prejudicial á economia nacional.
Não, leitor, essa não é uma espécie de apologia á corrupção. Bráulio, diante das inúmeras afirmativas do cárater cultural da corrupção em nosso país e das propostas de "expiar esse pecado", manifesta uma certa descrença. Afinal, se é cultural uma medida política de última hora não mudaria tudo num piscar de olhos. Além disso, a maioria das alternativas propostas pregam uma reestruturação total de nossa cultura, como se para o Brasil se ver livre da corrupção teria que deixar de ser Brasil e se tornar uma espécie de país europeu nos trópicos.
A solução, melhor, a "proposta de expiação" que Bráulio imagina é diferente. A corrupção é um pecado original meu, seu, de todos nós. Mesmo não roubando acabamos, por vias transversas, nos beneficiando de coisas geradas com o produto do roubo (comércio, indústria, serviços, lazer). Não há batismo que nos purifique por inteiro. Talvez tenhamos que tratar a corrupção como outros pecados originais nossos (a escravidão, o latifúndio, os massacres étnicos) e tirar dela algo de positivo. O dinheiro pode ter origem suja, mas ainda assim pode ser reaplicado, num estado de limpeza provisória, na corrente econômica.  Ser honesto hoje passaria por tentar modificar o que nos chega em mãos, o dinheiro sujo, aplicá-lo em formas honestas e éticas de produção, "purificá-lo". Alguém poderia dizer que ele substituiu o combate pela corrupção pela aceitação; não acredito, penso que Bráulio apenas está propondo uma nova maneira de se combater a corrupção, que não é de certa forma uma aceitação, pois não passa pela indiferença. E o texto se endereça a todos, não a um círculo de pensadores e cientistas políticos. É uma proposta para o dia- a- dia. Uma proposta melhor que a apatia em que muitos vivem atualmente e, como dissemos acima, ajuda e muito esse status quo. Talvez assim o Brasil finalmente alcance a tão esperada "redenção".

quinta-feira, 17 de fevereiro de 2011

Sagrado e Profano

O Jardim das Delícias, Hieronymus Bosch

Segundo um dos maiores pesquisadores sobre as religiões, o romeno Mircea Eliade o homem é formado por duas dimensões: a sagrada e a profana. A profana diz respeito á vivência cotidiana, á vida mundana, enquanto o sagrado fala sobre um mundo mais abstrato e metafísico, um mundo transcendental. Sempre foi assim, hoje, a dimensão sagrada parece ter sido um pouco reduzida, mas ainda está aí.
Eliade começa a analisar o sagrado e nos apresenta aquilo que acredita serem pontos fundamentais de sua estrutura: o sagrado é um canal para interagir com uma ou umas divindades, por isso o homem sempre procura em seus rituais e orações uma volta aos primórdios, quando elas criaram o mundo, por ser um momento onde sua ação e vitalidade é muito maior.
Assim sendo o sagrado tem sua própria temporalidade: é o eterno retorno. O rito, os altares, o mito tem essa função: a de ligar o homem ao início de tudo, ás divindades, no seu dia-a-dia. Claro que tudo isso também tem uma função social:  legitimar uma ordem através de tabus e rituais.
Eu entrei em contato com esse texto durante minhas aulas de Introdução aos Estudos Históricos. O objetivo da professora (Cristiane Manique, uma das melhores professoras que tive) era nos fazer repensar o conceito de tempo. O tempo em si é uma coisa inefável, indizível, impossível de ser capturado totalmente. O que existe são tentativa de defini-lo e de medi-lo. Essas tentativas se refletem no conhecimento histórico: cada historiador tenta entender os processos históricos, tenta conferir á história um sentido e uma finalidade. E o que a professora nos fez ver é que isso não é privilégio somente dos historiadores. O mito e a religião são uma forma de conhecimento, embora por anos tenhamos os desprezados por não terem uma "cientificidade". São uma forma de conhecimento e, em certos casos, uma filosofia da história também. Filosofia da História é toda tentativa de ver a história além dos acontecimentos, encontrar um nexo entre os diversos fatos, encontrar estruturas ou outra forma de totalidade. Assim, sendo uma religião pode ser uma filosofia da História pois ela confere á todos os fatos a vontade das divindades. O Cristianismo é uma das "filosofias da História" com quem mais os filósofos dialogaram, seja atacando ou acatando os desígnios da Providência na história. A filosofia da História, no ocidente, se "profaniza" com os iluministas, principalmente Voltaire, e desde então temos aí o idealismo, o materialismo histórico, o historicismo e por aí vai.
Como podemos ver, a história,. como a nossa própria vida, também está entre o sagrado e o profano.

Pais x Estado

Zanzando pela internet, me deparei com a seguinte notícia:  Condenado pela Justiça, casal de MG mantém os filhos fora da escola. O caso em questão é que esses pais decidiram educar seus filhos em casa e foram punidos pela Justiça por isso. Incomodados pela intromissão do Estado numa questão que consideram, antes de tudo particular, esse casal fundou uma associação para os pais que querem educar seus filhos sem precisar colocá-los na escola.
A questão reacendeu uma polêmica que já é lugar comum da história da educação de nosso país: a educação deve ser, antes de tudo, pública ou privada? Além disso, temos aqui o outro lado da moeda de um personagem geralmente odiado por pedagogos e educadores em geral: o pai que deixa para a escola toda a responsabilidade pela educação de seus filhos. O consenso hoje é de que o aluno é educado não só na escola, mas em casa e na rua e são justamente nesses dois lugares em que os pais teriam que tomar mais cuidado.
Os pais de que trata a reportagem decidiram reveter a situação: a casa vira o lugar da educação por excelência, e a rua e a escola locais de educação mais periféricos. Os pais tem direito de escolher que educação seus filhos terão, concordo, e a própria Constituição concorda com isso, no entanto, ela cai em contradição ao delegar ao Estado a última palavra na decisão do ensino.
Um argumento de um dos pais - a reportagem trata de casos em Lavras (MG), Serra Negra (SP) e Maringá (PR) - é justamente de que a educação nas escolas públicas está cada vez mais pobre e o ambiente mais perigoso. Ora, um dos argumentos da Defensoria Pública é de que essas crianças estariam privadas do contato social que a escola proporciona e isso acarretaria problemas psicológicos futuros. Concordo, o convívio social deve ser cultivado, mas que convívio é esse que muitas escolas públicas (e particulares) podem oferecer.  A pouco tempo se falava muito do buyilling, a perseguição á colegas menos populares. Temos que enfrentar isso, isso tudo. Temos que enfrentar a falta de infra-estrutura na educação e esta tradição do buyilling. Muitos podem dizer que isso é problema só do Estado, mas é mentira, o problema é de todos nós. Louvo a decisão desses pais por se preocuparem com a educação de seus filhos, mas acredito que eles deveriam fazer um movimento mais organizado para pressionar o Estado a não só respeitar sua decisão como também trabalhar por um ensino de qualidade.

Lusíndia

Samuel Benchimol é um dos monstros sagrados das Ciências Sociais no Amazonas. Intimamente preocupado com a região, propôs no decorrer de sua vida inúmeras alternativas e projetos para seu desenvolvimento. O empenho partia de alguém que sentia enorme admiração e encanto por esta terra, expressos na maioria de suas obras e ações.
Podemos percebê-lo em uma de suas últimas obras: Amazônia - Formação Social e Cultural (1999). Aqui, Benchimol pretende fazer um balanço da história não só do Amazonas, como do Pará, uma vez que falar de todos os estados que compõem a Amazônia Brasileira seria muito mais dispendioso. Logo na sua introdução percebemos que o autor toma esta obra como um compêndio de todo seu trabalho enquanto historiador, encontrando aqui dois de seus antológicos estudos sobre os judeus e os cearenses na Amazônia entre novos estudos.
Ainda na introdução podemos perceber os mestres de Benchimol, aqueles que lhe influenciaram muito: o antropólogo pernambucano Gilberto Freyre e o historiador amazonense Arthur Cézar Ferreira Reis. O último fora parceiro de Samuel por muitos anos, seja como pesquisador ou como político, e á ele cabe o posto de pioneiro na pesquisa e na divulgação do trabalho histórico no Amazonas. Freyre, dispensa apresentações, mas gostaria de ressaltar que sua influência sobre Benchimol se dá de duas maneiras: através da forma, como bem lembra o ensaísta Elson Farias, e da tese do luso-tropicalismo, mais perceptível que a primeira.
Na forma, porque o pensador pernambucano tinha um estilo que flertava com a literatura, muitos alegam até que suas obras são ensaios. Quanto á "tropicólogia", Freyre a desenvolveu como um ramo de sua sociologia dedica a estudar como se dá essa miscigenação principalmente cultural típica dos trópicos e que tem seu maior exemplo no caso brasileiro (daí luso-tropicalismo).
Como isso se reflete em Benchimol? Por meio de um estilo maduro e mais literário, típico de um ensaio, e na defesa de uma identidade mestiça por excelência por todo o livro. Nos trabalhos anteriores, o autor se dedicara á estudar a presença do judeu e do nordestino na Amazônia, nesse sua empreitada aumenta: agora ele quer ver a presença do negro, dos asiáticos, dos anglo-saxões e dos sírio-libaneses, dentre tantos outros.
Ao falar de todas essas presenças, Benchimol chega á conclusão de que a Amazônia é mestiça por excelência. Se Freyre dizia que o Brasil é a miscigenação em pessoa e o principal mediador desse processo fosse o negro, o historiador e empresário amazonense nos diz que a Amazônia é a coroação desse processo, embora o mediador aqui não seja o negro, mas o indígena. Esse processo, iniciado na colônia durante o processo de conquista, gerou uma fusão entre o elemento europeu e o elemento indígena, fusão que ele batizou de Lusíndia.
A Lusíndia permanceu assim por muito tempo, até a chegada do "cearense" (como os nordestinos em geral são chamados na região) que "abrasileira" a região, segundo Benchimol. 'Abrasileira" no sentido de integrar a Amazônia culturalmente ao resto do país, uma vez que sua formação sui generis, a Lusíndia, esteve isolada por tanto tempo. A Lusíndia, então, estaria hoje diluída graças ás levas de imigrantes e migrantes que aqui aportaram, mas a identidade caboca, filha dessa Lusíndia, ainda permance viva.
A Amazônia, uma vez destrinchada pelo escritor, é vista como uma grande lição ao mundo de harmonia, de coexistência entre tantas culturas diferentes, mas ainda cheia de contradições e problemas, principalmente econômicos e ambientais, que sua população não conseguiu resolver, seja por problemas internos (corrupção, analfabetismo) ou externos (a ganância de países estrangeiros). Á Benchimol, cabe criticarmos sua visão um tanto idílica da história amazônica, embora ele reconheça a violência desse processo de construção da Lusíndia, assim como criticamos Freyre pelo mesmo motivo. No entanto, muitas de suas reflexões ainda nos parecem válidas e promissoras, como o papel das culturas analisadas e da identidade local.