terça-feira, 15 de fevereiro de 2011

Dona Eugenia no Sítio do Pica-Pau Amarelo


Ontem, na faculdade, comecei uma discussão com meus colegas sobre Monteiro Lobato. A discussão não poderia ter sido outra senão sobre suas considerações preconceituosas expostas em um de seus livros sobre o Sítio do Pica-Pau Amarelo.  Ora, Lobato em um outro livro, O Presidente Negro, extrapola mais ainda nos comentários sobre os negros, mulheres, judeus e americanos.

Só relembrando, a pouco tempo atrás um grupo de professores queria retirar um de seus livros infantis da lista de leitura das crianças por expor racismo. Agora, não sei em que pé anda a discussão, mas alguns até sugeriram que o livro continuasse, mas com pequenas notas que expliquem o contexto do escritor. Lobato nasceu em uma família tradicional de cafeicultores, intimamente ligada ao Império (ora, seu avô era o prestigiado Visconde de Tremembé) e á escravidão. Mesmo se rebelando contra parte dessa  sua herança cultural, criticando os barões de café, o Império e a escravidão, Lobato também não estava livre limitações.

Ora, é reconhecido que ele tinha uma enorme simpatia com as idéias eugenistas, aquelas que propunham melhorar a população brasileira por meio de casamentos e uniões entre indivíduos mais fortes e aptos de "raças" melhores, como a européia. Só assim salvaríamos o Brasil da inércia em que se encontrava graças á sua população cabocla apática e preguiçosa. Contudo, o próprio Lobato reavaliou estas idéias no decorrer de sua vida: depois de entrar em contato com as pesquisas dos sanitaristas pelos sertões, o escritor taubateano reconheceria que o problema não era o caboclo, mas a situação precária em que ele se encontrava. Nos últimos anos de vida, depois da Segunda Guerra Mundial, o escritor até absorveria alguns pontos do comunismo, passando a criticar o latifúndio, segundo ele, principal causa da fragilização do povo.

Não creio que por suas limitações Lobato tenha de ser expurgado das escolas. Não defendo com isso que esqueçamos delas, não; o caso serviria até para ensinar aos alunos um pouco sobre o tempo em que ele vivia e como o ser humano pode ser contraditório. Mesmo cheio de muitos méritos, seja na literatura, na política ou na cultura, Lobato ainda tinha seus defeitos, como todos nós.

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Mais informações sobre o Lobato eugenista podem ser consultadas aqui, nesse ótimo artigo de André Fernandes de Castro no Almanaque Urupês.

segunda-feira, 14 de fevereiro de 2011

Uma visão da Era Lula



No mês passado, saiu um artigo muito interessante do cientista político Wanderley Guilherme Santos na revista Carta Capital (cuja versão digital pode ser visualizada aqui). O artigo é baseado numa pesquisa do próprio em censos e levantamentos de dados dos últimos oito anos. A conclusão a que chega o cientista político é de que Lula mudou os rumos da República derrubando alguns mitos criados pelo conservadorismo entre 1945 e 1964 que continuam vivos até hoje. Quais sejam: a idéia de que crescimento econômico sempre viria acompanhado de inflação. De onde saiu essa idéia? Da experiência do governo de Juscelino Kubitschek, onde o PIB (Produto Interno Bruto) cresceu bombasticamente junto com o encarecimento dos produtos básicos. No entanto não foi isso que aconteceu nos dois governos de Lula:
A retomada do crescimento econômico veio acompanhada de inflação cadente e sob controle, acrescida de inédito aumento na massa de rendimento do trabalho. Em particular, o salário mínimo real dos empregos formais aumentou em 54% , entre 2002 e 2010, estendendo-se o número de trabalhadores com carteira assinada a mais de metade da população economicamente ocupada (...). A curva do desemprego, outro fantasma da excessiva prudência conservadora, apresentou uma evolução favorável, com taxas cadentes desde 2005 até o recorde favorável de 2010, quando a taxa de desocupação foi reduzida a 5,9 % da população economicamente ativa.

Além disso, com base em outros levantamentos, houve um maior cadastramento da população brasileira, o que poderá ajudar nos programas futuros do governo. A Justiça tornou-se mais acessível e as medidas implantadas pelo governo ajudaram a diminuir a pobreza e o preconceito no país, assim como suscitaram muitos debates na sociedade. Wanderley conclui:
Mas o pernóstico debate sobre o atribuído assistencialismo do programa ofusca o princípio ordenador das prioridades do governo e o sentido histórico dos dois mandatos do presidente Lula da Silva. Crescimento econômico, inflação sob controle, expansão do emprego e redução das desigualdades sociais são metas compatíveis, sim, entre si e com a democracia, desde que o governante adote política em harmonia com a agenda preferencial do povo - isto é, do povo de Lula.

Concordo com Wanderley em partes: o governo Lula, ao meu ver, seguiu uma cartilha econômica dos governos anteriores e inovou em outras partes, principalmente na "ousadia do crescimento econômico sem inflação" de que fala o cientista político. Quanto ás políticas públicas, é inegável que elas tenham algo de assistencialismo e politicagem, mas isso não deve ofuscar a outra face da moeda: a ousadia em propor tais medidas. Essas medidas realmente suscitaram e suscitam um debate enorme, principalmente as cotas raciais, o que, na minha opinião, é uma demonstração de que a democracia está deitando raízes em nosso país. No entanto, ela não foi a única coisa que se consolidou por aqui: a corrupção também. Se o governo Lula conseguiu superar um discurso conservador na economia não teve o mesmo sucesso em combater essa "instituição". Claro que mudanças nessa esfera são lentas, tão entranhada está a corrupção em nossa vida pública, no entanto, pode ser que o fortalecimento da democracia ajude a minar suas bases.

sexta-feira, 11 de fevereiro de 2011

Novas esperanças ou novos temores?

Ainda sobre os movimentos no mundo árabe que tem tomado as manchetes dos jornais, gostaria de resumir aqui uma visão sobre estes acontecimentos.
Esta visão foi feita pelo analista do Oriente Médio do Woodrow Wilson Center, Roger Hadry, e tem como título "Revolta no mundo árabe é início de processo longo e incerto". Segundo Roger, é mais que evidente que os protestos se dirigem aos estadistas árabes que há décadas governam ditaduras, em grande parte apoiadas pelo EUA. No entanto, o alvo está mais centrado neles e não, como nas outras revoltas, a "nós", ocidentais, embora muitos culpem ambos pela situação precária em que vivem.
Sim, "nós" temos culpa no cartório, afinal os atuais ditadores árabes foram colocados ali graças aos planos dos estadistas ocidentais. Em outras palavras, durante todo o século XX, praticamente, o mundo árabe foi personagem secundário de sua própria história, sendo manipulado ora pelo neocolonialismo ora pela Guerra Fria. "Agora, líderes ocidentais, incluindo Barack Obama, se tornaram meros espectadores enquanto os acontecimentos se sucedem com velocidade rumo a um desfecho que ninguém pode prever".
De certa forma, todos foram transformados em espectadores, até aqueles que finjem terem controle, como o Irã e a Al-Qaeda. Enquanto o aiatolá Khamenei, autoridade máxima do Irã, diz que o Egito fará uma "revolução islâmica", Hadry diz que a maioria da oposição tem outros planos. Fazer do país uma democracia nos moldes da Turquia basicamente, adotando os confortos do mundo ocidental, principalmente as novas mídias sociais que foram tão importantes nas agitações.
No entanto, embora as aspirações liberais e democráticas sejam grandes, elas não são tão organizadas assim, como a Irmandade Muçulmana, que, com os anos, renegou um pouco de seu fanatismo inicial. Enquanto escrevo essas linhas é noticiado nos jornais e na internet que o presidente caquético do Egito, Hosni Mubarak, finalmente renunciou, daí me ater tanto nesses detalhes. Bem, uma especulação agora de que rumo tomará o Egito e o mundo árabe é um empreendimento muito vago e quase inútil, por isso faço minhas as últimas considerações de Roger:
A quem o futuro pertence?
Analistas fariam bem em exercitar um pouco a humildade.
Meu palpite, tenha ou não algum valor, é que isso não é o início de uma primavera árabe, mas algo mais confuso e longo.
A velha ordem ainda tem muito a lutar.
A batalha para o futuro árabe está começando. Já que as apostas são altas, a luta será feroz.

quinta-feira, 10 de fevereiro de 2011

O Aeroporto

Merhan Karimi Nasseri e sua "casa".
Quem aqui nunca se estressou com a burocracia? Na vida atual ela é um dos personagens que mais teima em aparecer, principalmente aqui, no Brasil. Impossível não se lembrar de Franz Kafka, escritor tcheco que a transformou em material principal de sua obra. Nas páginas de seus livros as pessoas são apanhadas de surpresa pela rotina e pela burocracia, são sufocadas por procedimentos vazios e sem sentido algum. O maior exemplo, sem dúvida, pode ser O Processo, história na qual o protagonista vê-se repentinamente num processo assustador sem saber ao menos do que é acusado.
Bem, recentemente ouvi falar de um caso que bem poderia ter se tornado um conto de Kafka. O caso de Merhan Nasseri, um refugiado iraniano que por seus documentos terem sido extraviados teve que morar no Aeroporto Charles de Gaulle, na França, de 1988 até 2006, quando teve de ser hospitalizado e finalmente conseguiu novos documentos. Você deve estar pensando: já ouvi isso antes... Ouviu sim, melhor, viu. Ao ouvir falar do homem, Steven Spielberg decidiu fazer uma história sobre sua vida que acabou descanbando para um filme de ficção: O Terminal (2004). No final, o portagonista vivido por Tom Hanks consegue finalmente sair do aeroporto antes de completar uma década de espera. Na vida real, Nasseri, depois de ter sua vida legalizada, não conseguia mais se manter no "mundo lá fora" e decidiu voltar ao aeroporto. Pois é, Nasseri se acostumou com sua situação incomôda, tornando-a, assim, comôda. E é o que acontece quando aceitamos nossos absurdos kafkeanos de cada dia.

quarta-feira, 9 de fevereiro de 2011

Felicidade...

(In)felicidade é só uma questão de prefixo.
Marina Prazeres


Eu gostaria aqui de contar uma história. Ela está presente no filme do cineasta francês Alain Resnais, A Vida é um Romance (1983). É uma das três narrativas que se desenvolve no filme.

Estamos acompanhando a jovem e bela Lívia (Fanny Ardant) e seu amado Raoul (André Dussolier) na visita á última iniciativa do excêntrico Conde Michel Fobrek (Ruggero Raimondi): o Castelo da Felicidade. Sim, o milionário nos apresenta a maquete de seu projeto e anuncia que se pretende casar com Lívia. Ah esqueci de dizer: estamos em 1914, então, a Primeira Guerra Mundial está prestes a explodir. E quando explode, Raoul é convocado para lutar no front. Lívia, sabe que ele morrerá e por isso aceita se casar com o quixotesco nobre e, assim, acompanhar a sua empreitada.


André Dussolier e Fanny Ardant em cena de A Vida é um Romance (1983)

Bem, quando o filme volta á história de Lívia e Fobrek o Castelo da Felicidade deixou de ser uma maquete. Agora ele é uma imponente fortaleza e seu interior lembra certamente uma paisagem extraterrestre, tamanha a estranheza. Como cobaias para a experiência, Fobrek contou com muitos de seus colegas aristocratas. Aliás, quem não queria ver um mundo melhor diante do espantoso cenário de uma guerra mundial? O experimento consiste em, por meio de uma poderosa droga, apagar a memória de seus "convidados" e pouco a pouco apresentar a eles tudo o que há de mais puro e inocente no mundo. Assim, o Conde lhes agracia com o mais extasiante perfume, a mais bela música e os pratos mais deliciosos. Lívia, a única a conservar sua memória, observa tudo com estranhamento e um fio de angústia.

No seu empreendimento, Fobrek não pode deixar ninguém fugir do castelo. Durante todo o processo, contudo, ele sofre algumas perdas como um convidado recente e misterioso (que no futuro se revelerá ser Raoul, de volta da guerra) que decidiu fugir e seu próprio pai que cansou de acompanhar "essa tolice". Abalado, mas não intimidado diante das perdas, Fobrek ordena: "Continuemos!"
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A experiência é coroada quando todas as cobaias, até então reclusas e repousando em seus quartos, se encontram no salão principal. Purificadas pelas drogas e pelas sensações intensas que o conde lhes proporcionara nos últimos meses, todas passam a interagir entre si como se estivessem em um transe. Lívia observa tudo e se assusta. Atravessando o salão, em uma câmara separada, descobre um Fobrek contemplando dois corpos, sendo um deles o seu amado. Martíres na sua jornada para descobrir a fórmula da felicidade geral, segundo ele. Mas Lívia, abalada, o ataca, critica todo o seu absurdo projeto. O homem fica colérico e avança contra seu amor não-correspondido, recebendo um golpe na cabeça que o atordoa, mas não o bastante para seguir Lívia. Ela entra no salão principal e lhe apresenta o seu "magnífico" resultado: um bando de zumbis. O conde, atordoado pela cassetada e pelas críticas de sua mulher, parece reconhecer o seu completo fracasso, expressando-o em um olhar de frustração pungente.

Como vocês podem ver, essa história é muito interessante. Podemos extrair muitos significados dela, principalmente sobre a transformação de belas utopias em regimes de horrores, como a história tem nos revelado. Mas não é sobre isso que eu gostaria de falar. Esse texto pretende falar sobre o mote principal dessa história. Essa narrativa, onírica e ao mesmo tempo filha da ficção científica, funcionou no filme de Resnais como uma fábula, uma fábula sobre a felicidade.

O que é felicidade? Felicidade é um daqueles termos que todos levamos na cabeça, mas na hora de definirmos as palavras nos escapam. Talvez porque o termo seja muito relativo: o que é felicidade pra mim, pode não ser felicidade para você. Por efeito, tomemos uma definição usual: estado de espírito de satisfação. Todo aquele com o mínimo de experiência em viver, o que não é muito difícil, sabe que o ser humano nunca está satisfeito e por isso mesmo a felicidade é uma meta sempre perseguida e, segundo muitos, nunca alcançada.

Há sempre a desilusão. As pessoas pensam que uma vez alcançada a felicidade não fugirá, mas, como sabemos, isso sempre acontece. Por isso, há sempre a pergunta: há como "ser feliz" ou apenas o "estar feliz"? Tenho para mim que as duas alternativas são válidas, uma vez que é possível alguém ter mais momentos de felicidade e, assim, ser feliz ou estar feliz por mais tempo. Bem, maiores discussões sobre felicidade procurem o Espinoza, pois agora nos deteremos nas condições para a felicidade.

Alguns autores de livros de auto-ajuda ou de gerenciamento costumam sugerir um planejamento da felicidade, ou seja, estabelecer metas menores de felicidade e assim domesticando suas vontades. Resnais (e seu roteirista Jean Gulraut), no entanto, sugerem, através dessa fábula que as condições para a felicidade são simples e ao mesmo tempo complexíssimas. A primeira condição seria o amor, o amor que Fobrek não consegue ter de Lívia. A segunda a liberdade, a liberdade que Fobrek tira de suas cobaias em nome de uma felicidade geral. A terceira seria a aceitação da desilusão, o que Fobrek só consegue fazer no final e ainda assim de forma trágica. A desilusão é intrínseca á vida, todos temos falsas expectativas, o que é natural. Como diria Vinicius de Moraes, a dor é inevitável, mas o sofrimento é opcional. Vai de cada um como lhe dar com sua dor e com o que entende por felicidade, afinal todos somos livres. Alguém me perguntaria: livres até que ponto? Suponha que você nasça com problemas de locomação e sonhe em ser um corredor olímpíco, aonde fica a liberdade aqui? Claro, somos condicionados pelo passado e pela anatomia, mas fora isso, podemos muito bem escolher o que fazer com o que nos foi dado. Há problemas que podemos contornar, outros que não, é um fato; aceitar é diferente de se conformar.

E o amor? Há muitas formas de amor, mas é unânime que o amor é uma das maiores fontes de felicidade (e também sofrimento) do mundo. Penso que as mesmas condições estipuladas para a felicidade por Resnais possam ser aplicadas ao amor: liberdade, compreensão, aceitação, empatia, etc. Por maior empatia que Fobrek nutrisse pela humanidade e por sua amada Lívia, ele não poderia tornar ambas feliz suprimindo sua liberdade e parte de sua personalidade. Por isso, como disse antes, muito das utopias universais tem um "quê" de desprezo com a alma humana, mesmo a mais sombria de suas partes, pois, na maioria das vezes, retira ou da coletividade ou do indivíduo sua liberdade, o que revela um futuro anárquico ou totalitário. Não estou com isso declarando guerra ás utopias, somente pedindo cuidado na hora de transformar "teoria" em "prática".

No entanto, uma fórmula para o amor e para a felicidade, como procurava Fobrek, é uma experiência fadada ao fracasso. Ou por se remeter á algo que é indizível ou por ser um valor muito subjetivo. Não se pode construir um manual da felicidade, o ser humano é muito diverso e imprevisível (o que talvez seja sua maior força e sua maior fraqueza). A vida é e não é um romance, como afirma duas personagens do filme em momentos diferentes. Resnais nos dá assim a possibilidade de escolher qual dessas afirmativas escolher, sabendo que qualquer afirmativa taxativa, como seu conde o queria, é inútil. Dessa mesma maneira gostaria de terminar esse texto: a felicidade pode ser uma questão de prefixo... ou talvez não.

Ideologia


"Não é prudente nem econômico!
Abandonar uma ideologia só porque ela saiu de moda. Pois ela é, no fundo, a própria moda.
O que você tem a fazer é encurtar um pouco a bainha, ou mandar tingir de outra cor, talvez alargar um pouco aqui assim, nos ombros, alargar a cintura (a gente era mais jovem), colocar uns babados, e pronto!, A ideologia está de novo ápitudeite.
Você pode ir com ela ao baile sem nenhuma vergonha.
Ninguém vai notar que está com mais de 10 anos de uso".


Millôr Fernandes, jornalista e humorista brasileiro.

[Há dois dias atrás, o mestre Millôr foi internado na Clínica da Gávea. O motivo da internação não foi divulgado. Força Millôr!]

Tradição


“Sem dúvida, um povo só pode pensar o mundo através da sua tradição. Mas uma coisa é pensar através de uma tradição que passou por um desenvolvimento contínuo até o presente, uma tradição de que o presente faz parte integrante, uma tradição continuamente renovada, revisada e criticada; outra coisa é pensar através de uma tradição de desenvolvimento interrompido há séculos, uma tradição afastada do presente pelo profundo abismo que os progressos da ciência cavaram entre ela e a ciência.”

Mohammed Abdel al-Jabri, filósofo marroquino.

terça-feira, 8 de fevereiro de 2011

Uma sociologia da exclusão

Há mais ou menos um ano, entrei em contato com a obra de Robert Castel. Castel, sociólogo francês nascido em 1933 e formado pela tradicional Escola de Altos Estudos Sociais da França, que nos deu nomes como Levi-Strauss e LeGoff, por exemplo.


Li apenas um de seus livros, As Metamorfoses da Questão Social: Uma Crônica do Salário (Ed. Vozes, 1997). Questão social era como convencionou-se a chamar as preocupações suscitadas pela emergência do proletariado na Europa do século XIX. Preocupações sobre o trabalhador, que cada vez mais tomava consciência de seu peso político, e sobre o seu oposto, o vagabundo, que também representava um perigo em potencial, sinônimo de crime e insurreição. Castel vai mais longe e diz que essas preocupações sempre existiram, são intrínsecas a toda sociedade. Toda sociedade se preocupa com aqueles personagens que podem abalá-la.

O sociólogo mostra isso ao analisar a história da Europa, principalmente da França, com base nos estudos dos maiores nomes da Escola dos Annales. Assim que uma sociedade cresce, torna-se complexa, ela deixa de se autor-regular. Foi o que aconteceu na Idade Média. Para deter os trabalhadores e os pobres, a Igreja e o Estado, que vinha se consolidando, criaram medidas variadas de controle. As mais famosas vieram com o Antigo Regime, séculos depois: os asilos, as associações de caridade, etc.
O Estado geralmente toma a frente nas medidas, mas a partir do século XIX a iniciativa privada também participa do "jogo", por meio das associações de caridade e as sociedade de socorro, no caso dos trabalhadores. Chegamos aos nossos dias, num contexto de neoliberalismo, onde o papel do Terceiro Setor é forte através das ONGs, principalmente sobre o que fazer com os excluídos. O mesmo acontece na área dos "incluídos", os trabalhadores, sendo que aqui a iniciativa privada também adquire importante proeminência.
Castel revisita o termo exclusão, usado a torto e direito nas ciências sociais mundiais. Ninguém está excluído, mesmo os ditos excluídos, aqueles que não participam da sociedade seja produtivamente ou politicamente, pois eles estão dentro de uma rede de relações sociais. Os excluídos estão dentro da sociedade, a mesma que os cria. A oferta de trabalho, as crises, o estado de desenvolvimento de cada país, tudo isso ajuda a "fabricar" excluídos.
Parte da tese de Castel é justamente de que o capitalismo reproduz essa desigualdade e de que a estabilidade é um mito: o "incluído" pode ser facilmente "excluído". A partir da consolidação da Revolução Industrial, as corporações de ofício, responsáveis por proteger os trabalhadores, somem, assim como a idéia de uma sociedade estamental, onde cada um nasce e morre numa esfera da sociedade. Agora temos uma vulnerabilidade de massas, alguém que nasceu nobre pode se tornar pobre.

Essa vulnerabilidade só aumenta com o tempo e assim temos hoje um cenário onde o desemprego é uma realidade de muitos países, até os que se dizem mais desenvolvidos. O mercado pede profissionalização, as entidades trabalhistas se enfraqueceram e as flutuações na economia internacional só ajudam o desemprego. Assim temos uma grande parte da população que vive no mercado informal ou na sua própria subsistência. A realidade, para Castel, é essa: os "in" podem facilmente estar "out", apesar que precisamos relativizar ainda esse "out".

A "professorinha" Aleixo

Geralmente a visão que temos de professora é daquela mulher generosa, compreensiva e geralmente solteira. Tão carinhosa e próxima de nós que passamos a nos referir á ela no diminutivo: a "professorinha". Em suma, uma figura materna. Tão materna que passa a ser irmã da mãe dos seus alunos, tornando-se assim a tão adorada "tia".

Bem, alunos de uma escola em Vespasiano, na Grande BH, não vêem sua professora de Ciências exatamente como uma "tia". Alexandra Aleixo atraiu a atenção da imprensa por reclamações de pais e alunos contra a sua maneira de se vestir. A professora de 38 anos usa na sala de aula roupas pouco recatadas. Diz ela até que foi coagida pela direção da escola para parar de se vestir assim.


O caso deve ter lembrado muitos leitores do caso Geyse Arruda, claro. Levando em consideração as oportunidades geradas com a repercussão dos dois casos (Aleixo pouso para um ensaio fotográfico já e foi convidada para participar de um bloco carnavalesco no Recife), as semelhanças são grandes mesmo. Mas a questão aqui é que todo mundo é livre para se vestir do jeito que quiser. No entanto, vai de cada um a consciência do que é mais apropriado. O modo de se vestir diz muito de uma pessoa, mas não o essencial. Se for uma boa professora, tudo bem.
Mesmo assim o caso é divertido por sacudir um pouco com a imagem da "professorinha".
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A título de curiosidade: um trabalho sério sobre a imagem da "professorinha" e a ideologia por trás dela pode ser encontrado no livro do pedagogo Paulo Freire, Professora sim, Tia não!

segunda-feira, 7 de fevereiro de 2011

Trânsito e Democracia


Um dos maiores nomes da antropologia e do pensamento social brasileiro está lançando um livro sobre o trânsito. Hein? Isso mesmo. Roberto DaMatta publicou o livro Fé em Deus e Pé na Tábua no qual tenta analisar a situação do trânsito nas grandes cidades.

Morador de Niterói, DaMatta diz que a inspiração para escrever o livro partiu de sua convivência frustante com o trânsito em sua cidade. A quantidade de barbaridades nas ruas é uma realidade no Brasil inteiro e agora não só nas grandes cidades. O antropólogo, em uma entrevista para o Canal Livre da Band ontem (que pode ser vista aqui), disse que o livro não é um tratado sociológico sobre o trânsito, mas um grito de alerta para essa situação caótica no trânsito.

Segundo DaMatta, o Código de Trânsito Brasileiro não veio acompanhado de um debate, nem de maiores cuidados. O motorista, por sua vez, encara as leis impostas como um obstáculo á sua liberdade e dela tenta escapar, através do afamado "jeitinho". O problema do trânsito seria, portanto, político e cultural.

Ponto central da obra de DaMatta é essa "sociologia dual", segundo o pesquisador Jessé Souza, na qual o brasileiro, por meio de uma análise de suas imagens consagradas (como o carnaval, por exemplo) e de comparações com outras sociedades, é descoberto num espaço indefinido entre a ordem e a desordem, entre o autoritarismo e o "jeitinho". E essa indefinição do brasileiro é justamente o maior obstáculo para a consolidação da democracia no país.

O trânsito é um espaço privilegiado, pois nele podemos perceber muito bem essas tendências. Uma conjunção de fatores políticos, econômicos e culturais ajudam a criar um comportamento no trânsito pautado pela violência e o desrespeito para com os motoristas e os pedestres. O primeiro passo para acabar com essa cultura do desrespeito é a disciplina. “É um problema de internalizar regras igualitárias nos motoristas para que eles possam dizer não a eles mesmos”, afirma o antropólogo. Reconhecer no motorista/pedestre não um superior ou um inferior, mas um igual, esse seria o objetivo e as ferramentas para isso podem ser as mais diversas, como a educação, repressão e o debate, de preferência, todas se articulando entre si.

Uma questão atual e fundamental analisada por um dos monstros das Ciências Sociais brasileiras, portanto, um livro imperdível.