sexta-feira, 11 de fevereiro de 2011

Novas esperanças ou novos temores?

Ainda sobre os movimentos no mundo árabe que tem tomado as manchetes dos jornais, gostaria de resumir aqui uma visão sobre estes acontecimentos.
Esta visão foi feita pelo analista do Oriente Médio do Woodrow Wilson Center, Roger Hadry, e tem como título "Revolta no mundo árabe é início de processo longo e incerto". Segundo Roger, é mais que evidente que os protestos se dirigem aos estadistas árabes que há décadas governam ditaduras, em grande parte apoiadas pelo EUA. No entanto, o alvo está mais centrado neles e não, como nas outras revoltas, a "nós", ocidentais, embora muitos culpem ambos pela situação precária em que vivem.
Sim, "nós" temos culpa no cartório, afinal os atuais ditadores árabes foram colocados ali graças aos planos dos estadistas ocidentais. Em outras palavras, durante todo o século XX, praticamente, o mundo árabe foi personagem secundário de sua própria história, sendo manipulado ora pelo neocolonialismo ora pela Guerra Fria. "Agora, líderes ocidentais, incluindo Barack Obama, se tornaram meros espectadores enquanto os acontecimentos se sucedem com velocidade rumo a um desfecho que ninguém pode prever".
De certa forma, todos foram transformados em espectadores, até aqueles que finjem terem controle, como o Irã e a Al-Qaeda. Enquanto o aiatolá Khamenei, autoridade máxima do Irã, diz que o Egito fará uma "revolução islâmica", Hadry diz que a maioria da oposição tem outros planos. Fazer do país uma democracia nos moldes da Turquia basicamente, adotando os confortos do mundo ocidental, principalmente as novas mídias sociais que foram tão importantes nas agitações.
No entanto, embora as aspirações liberais e democráticas sejam grandes, elas não são tão organizadas assim, como a Irmandade Muçulmana, que, com os anos, renegou um pouco de seu fanatismo inicial. Enquanto escrevo essas linhas é noticiado nos jornais e na internet que o presidente caquético do Egito, Hosni Mubarak, finalmente renunciou, daí me ater tanto nesses detalhes. Bem, uma especulação agora de que rumo tomará o Egito e o mundo árabe é um empreendimento muito vago e quase inútil, por isso faço minhas as últimas considerações de Roger:
A quem o futuro pertence?
Analistas fariam bem em exercitar um pouco a humildade.
Meu palpite, tenha ou não algum valor, é que isso não é o início de uma primavera árabe, mas algo mais confuso e longo.
A velha ordem ainda tem muito a lutar.
A batalha para o futuro árabe está começando. Já que as apostas são altas, a luta será feroz.

quinta-feira, 10 de fevereiro de 2011

O Aeroporto

Merhan Karimi Nasseri e sua "casa".
Quem aqui nunca se estressou com a burocracia? Na vida atual ela é um dos personagens que mais teima em aparecer, principalmente aqui, no Brasil. Impossível não se lembrar de Franz Kafka, escritor tcheco que a transformou em material principal de sua obra. Nas páginas de seus livros as pessoas são apanhadas de surpresa pela rotina e pela burocracia, são sufocadas por procedimentos vazios e sem sentido algum. O maior exemplo, sem dúvida, pode ser O Processo, história na qual o protagonista vê-se repentinamente num processo assustador sem saber ao menos do que é acusado.
Bem, recentemente ouvi falar de um caso que bem poderia ter se tornado um conto de Kafka. O caso de Merhan Nasseri, um refugiado iraniano que por seus documentos terem sido extraviados teve que morar no Aeroporto Charles de Gaulle, na França, de 1988 até 2006, quando teve de ser hospitalizado e finalmente conseguiu novos documentos. Você deve estar pensando: já ouvi isso antes... Ouviu sim, melhor, viu. Ao ouvir falar do homem, Steven Spielberg decidiu fazer uma história sobre sua vida que acabou descanbando para um filme de ficção: O Terminal (2004). No final, o portagonista vivido por Tom Hanks consegue finalmente sair do aeroporto antes de completar uma década de espera. Na vida real, Nasseri, depois de ter sua vida legalizada, não conseguia mais se manter no "mundo lá fora" e decidiu voltar ao aeroporto. Pois é, Nasseri se acostumou com sua situação incomôda, tornando-a, assim, comôda. E é o que acontece quando aceitamos nossos absurdos kafkeanos de cada dia.

quarta-feira, 9 de fevereiro de 2011

Felicidade...

(In)felicidade é só uma questão de prefixo.
Marina Prazeres


Eu gostaria aqui de contar uma história. Ela está presente no filme do cineasta francês Alain Resnais, A Vida é um Romance (1983). É uma das três narrativas que se desenvolve no filme.

Estamos acompanhando a jovem e bela Lívia (Fanny Ardant) e seu amado Raoul (André Dussolier) na visita á última iniciativa do excêntrico Conde Michel Fobrek (Ruggero Raimondi): o Castelo da Felicidade. Sim, o milionário nos apresenta a maquete de seu projeto e anuncia que se pretende casar com Lívia. Ah esqueci de dizer: estamos em 1914, então, a Primeira Guerra Mundial está prestes a explodir. E quando explode, Raoul é convocado para lutar no front. Lívia, sabe que ele morrerá e por isso aceita se casar com o quixotesco nobre e, assim, acompanhar a sua empreitada.


André Dussolier e Fanny Ardant em cena de A Vida é um Romance (1983)

Bem, quando o filme volta á história de Lívia e Fobrek o Castelo da Felicidade deixou de ser uma maquete. Agora ele é uma imponente fortaleza e seu interior lembra certamente uma paisagem extraterrestre, tamanha a estranheza. Como cobaias para a experiência, Fobrek contou com muitos de seus colegas aristocratas. Aliás, quem não queria ver um mundo melhor diante do espantoso cenário de uma guerra mundial? O experimento consiste em, por meio de uma poderosa droga, apagar a memória de seus "convidados" e pouco a pouco apresentar a eles tudo o que há de mais puro e inocente no mundo. Assim, o Conde lhes agracia com o mais extasiante perfume, a mais bela música e os pratos mais deliciosos. Lívia, a única a conservar sua memória, observa tudo com estranhamento e um fio de angústia.

No seu empreendimento, Fobrek não pode deixar ninguém fugir do castelo. Durante todo o processo, contudo, ele sofre algumas perdas como um convidado recente e misterioso (que no futuro se revelerá ser Raoul, de volta da guerra) que decidiu fugir e seu próprio pai que cansou de acompanhar "essa tolice". Abalado, mas não intimidado diante das perdas, Fobrek ordena: "Continuemos!"
.
A experiência é coroada quando todas as cobaias, até então reclusas e repousando em seus quartos, se encontram no salão principal. Purificadas pelas drogas e pelas sensações intensas que o conde lhes proporcionara nos últimos meses, todas passam a interagir entre si como se estivessem em um transe. Lívia observa tudo e se assusta. Atravessando o salão, em uma câmara separada, descobre um Fobrek contemplando dois corpos, sendo um deles o seu amado. Martíres na sua jornada para descobrir a fórmula da felicidade geral, segundo ele. Mas Lívia, abalada, o ataca, critica todo o seu absurdo projeto. O homem fica colérico e avança contra seu amor não-correspondido, recebendo um golpe na cabeça que o atordoa, mas não o bastante para seguir Lívia. Ela entra no salão principal e lhe apresenta o seu "magnífico" resultado: um bando de zumbis. O conde, atordoado pela cassetada e pelas críticas de sua mulher, parece reconhecer o seu completo fracasso, expressando-o em um olhar de frustração pungente.

Como vocês podem ver, essa história é muito interessante. Podemos extrair muitos significados dela, principalmente sobre a transformação de belas utopias em regimes de horrores, como a história tem nos revelado. Mas não é sobre isso que eu gostaria de falar. Esse texto pretende falar sobre o mote principal dessa história. Essa narrativa, onírica e ao mesmo tempo filha da ficção científica, funcionou no filme de Resnais como uma fábula, uma fábula sobre a felicidade.

O que é felicidade? Felicidade é um daqueles termos que todos levamos na cabeça, mas na hora de definirmos as palavras nos escapam. Talvez porque o termo seja muito relativo: o que é felicidade pra mim, pode não ser felicidade para você. Por efeito, tomemos uma definição usual: estado de espírito de satisfação. Todo aquele com o mínimo de experiência em viver, o que não é muito difícil, sabe que o ser humano nunca está satisfeito e por isso mesmo a felicidade é uma meta sempre perseguida e, segundo muitos, nunca alcançada.

Há sempre a desilusão. As pessoas pensam que uma vez alcançada a felicidade não fugirá, mas, como sabemos, isso sempre acontece. Por isso, há sempre a pergunta: há como "ser feliz" ou apenas o "estar feliz"? Tenho para mim que as duas alternativas são válidas, uma vez que é possível alguém ter mais momentos de felicidade e, assim, ser feliz ou estar feliz por mais tempo. Bem, maiores discussões sobre felicidade procurem o Espinoza, pois agora nos deteremos nas condições para a felicidade.

Alguns autores de livros de auto-ajuda ou de gerenciamento costumam sugerir um planejamento da felicidade, ou seja, estabelecer metas menores de felicidade e assim domesticando suas vontades. Resnais (e seu roteirista Jean Gulraut), no entanto, sugerem, através dessa fábula que as condições para a felicidade são simples e ao mesmo tempo complexíssimas. A primeira condição seria o amor, o amor que Fobrek não consegue ter de Lívia. A segunda a liberdade, a liberdade que Fobrek tira de suas cobaias em nome de uma felicidade geral. A terceira seria a aceitação da desilusão, o que Fobrek só consegue fazer no final e ainda assim de forma trágica. A desilusão é intrínseca á vida, todos temos falsas expectativas, o que é natural. Como diria Vinicius de Moraes, a dor é inevitável, mas o sofrimento é opcional. Vai de cada um como lhe dar com sua dor e com o que entende por felicidade, afinal todos somos livres. Alguém me perguntaria: livres até que ponto? Suponha que você nasça com problemas de locomação e sonhe em ser um corredor olímpíco, aonde fica a liberdade aqui? Claro, somos condicionados pelo passado e pela anatomia, mas fora isso, podemos muito bem escolher o que fazer com o que nos foi dado. Há problemas que podemos contornar, outros que não, é um fato; aceitar é diferente de se conformar.

E o amor? Há muitas formas de amor, mas é unânime que o amor é uma das maiores fontes de felicidade (e também sofrimento) do mundo. Penso que as mesmas condições estipuladas para a felicidade por Resnais possam ser aplicadas ao amor: liberdade, compreensão, aceitação, empatia, etc. Por maior empatia que Fobrek nutrisse pela humanidade e por sua amada Lívia, ele não poderia tornar ambas feliz suprimindo sua liberdade e parte de sua personalidade. Por isso, como disse antes, muito das utopias universais tem um "quê" de desprezo com a alma humana, mesmo a mais sombria de suas partes, pois, na maioria das vezes, retira ou da coletividade ou do indivíduo sua liberdade, o que revela um futuro anárquico ou totalitário. Não estou com isso declarando guerra ás utopias, somente pedindo cuidado na hora de transformar "teoria" em "prática".

No entanto, uma fórmula para o amor e para a felicidade, como procurava Fobrek, é uma experiência fadada ao fracasso. Ou por se remeter á algo que é indizível ou por ser um valor muito subjetivo. Não se pode construir um manual da felicidade, o ser humano é muito diverso e imprevisível (o que talvez seja sua maior força e sua maior fraqueza). A vida é e não é um romance, como afirma duas personagens do filme em momentos diferentes. Resnais nos dá assim a possibilidade de escolher qual dessas afirmativas escolher, sabendo que qualquer afirmativa taxativa, como seu conde o queria, é inútil. Dessa mesma maneira gostaria de terminar esse texto: a felicidade pode ser uma questão de prefixo... ou talvez não.

Ideologia


"Não é prudente nem econômico!
Abandonar uma ideologia só porque ela saiu de moda. Pois ela é, no fundo, a própria moda.
O que você tem a fazer é encurtar um pouco a bainha, ou mandar tingir de outra cor, talvez alargar um pouco aqui assim, nos ombros, alargar a cintura (a gente era mais jovem), colocar uns babados, e pronto!, A ideologia está de novo ápitudeite.
Você pode ir com ela ao baile sem nenhuma vergonha.
Ninguém vai notar que está com mais de 10 anos de uso".


Millôr Fernandes, jornalista e humorista brasileiro.

[Há dois dias atrás, o mestre Millôr foi internado na Clínica da Gávea. O motivo da internação não foi divulgado. Força Millôr!]

Tradição


“Sem dúvida, um povo só pode pensar o mundo através da sua tradição. Mas uma coisa é pensar através de uma tradição que passou por um desenvolvimento contínuo até o presente, uma tradição de que o presente faz parte integrante, uma tradição continuamente renovada, revisada e criticada; outra coisa é pensar através de uma tradição de desenvolvimento interrompido há séculos, uma tradição afastada do presente pelo profundo abismo que os progressos da ciência cavaram entre ela e a ciência.”

Mohammed Abdel al-Jabri, filósofo marroquino.

terça-feira, 8 de fevereiro de 2011

Uma sociologia da exclusão

Há mais ou menos um ano, entrei em contato com a obra de Robert Castel. Castel, sociólogo francês nascido em 1933 e formado pela tradicional Escola de Altos Estudos Sociais da França, que nos deu nomes como Levi-Strauss e LeGoff, por exemplo.


Li apenas um de seus livros, As Metamorfoses da Questão Social: Uma Crônica do Salário (Ed. Vozes, 1997). Questão social era como convencionou-se a chamar as preocupações suscitadas pela emergência do proletariado na Europa do século XIX. Preocupações sobre o trabalhador, que cada vez mais tomava consciência de seu peso político, e sobre o seu oposto, o vagabundo, que também representava um perigo em potencial, sinônimo de crime e insurreição. Castel vai mais longe e diz que essas preocupações sempre existiram, são intrínsecas a toda sociedade. Toda sociedade se preocupa com aqueles personagens que podem abalá-la.

O sociólogo mostra isso ao analisar a história da Europa, principalmente da França, com base nos estudos dos maiores nomes da Escola dos Annales. Assim que uma sociedade cresce, torna-se complexa, ela deixa de se autor-regular. Foi o que aconteceu na Idade Média. Para deter os trabalhadores e os pobres, a Igreja e o Estado, que vinha se consolidando, criaram medidas variadas de controle. As mais famosas vieram com o Antigo Regime, séculos depois: os asilos, as associações de caridade, etc.
O Estado geralmente toma a frente nas medidas, mas a partir do século XIX a iniciativa privada também participa do "jogo", por meio das associações de caridade e as sociedade de socorro, no caso dos trabalhadores. Chegamos aos nossos dias, num contexto de neoliberalismo, onde o papel do Terceiro Setor é forte através das ONGs, principalmente sobre o que fazer com os excluídos. O mesmo acontece na área dos "incluídos", os trabalhadores, sendo que aqui a iniciativa privada também adquire importante proeminência.
Castel revisita o termo exclusão, usado a torto e direito nas ciências sociais mundiais. Ninguém está excluído, mesmo os ditos excluídos, aqueles que não participam da sociedade seja produtivamente ou politicamente, pois eles estão dentro de uma rede de relações sociais. Os excluídos estão dentro da sociedade, a mesma que os cria. A oferta de trabalho, as crises, o estado de desenvolvimento de cada país, tudo isso ajuda a "fabricar" excluídos.
Parte da tese de Castel é justamente de que o capitalismo reproduz essa desigualdade e de que a estabilidade é um mito: o "incluído" pode ser facilmente "excluído". A partir da consolidação da Revolução Industrial, as corporações de ofício, responsáveis por proteger os trabalhadores, somem, assim como a idéia de uma sociedade estamental, onde cada um nasce e morre numa esfera da sociedade. Agora temos uma vulnerabilidade de massas, alguém que nasceu nobre pode se tornar pobre.

Essa vulnerabilidade só aumenta com o tempo e assim temos hoje um cenário onde o desemprego é uma realidade de muitos países, até os que se dizem mais desenvolvidos. O mercado pede profissionalização, as entidades trabalhistas se enfraqueceram e as flutuações na economia internacional só ajudam o desemprego. Assim temos uma grande parte da população que vive no mercado informal ou na sua própria subsistência. A realidade, para Castel, é essa: os "in" podem facilmente estar "out", apesar que precisamos relativizar ainda esse "out".

A "professorinha" Aleixo

Geralmente a visão que temos de professora é daquela mulher generosa, compreensiva e geralmente solteira. Tão carinhosa e próxima de nós que passamos a nos referir á ela no diminutivo: a "professorinha". Em suma, uma figura materna. Tão materna que passa a ser irmã da mãe dos seus alunos, tornando-se assim a tão adorada "tia".

Bem, alunos de uma escola em Vespasiano, na Grande BH, não vêem sua professora de Ciências exatamente como uma "tia". Alexandra Aleixo atraiu a atenção da imprensa por reclamações de pais e alunos contra a sua maneira de se vestir. A professora de 38 anos usa na sala de aula roupas pouco recatadas. Diz ela até que foi coagida pela direção da escola para parar de se vestir assim.


O caso deve ter lembrado muitos leitores do caso Geyse Arruda, claro. Levando em consideração as oportunidades geradas com a repercussão dos dois casos (Aleixo pouso para um ensaio fotográfico já e foi convidada para participar de um bloco carnavalesco no Recife), as semelhanças são grandes mesmo. Mas a questão aqui é que todo mundo é livre para se vestir do jeito que quiser. No entanto, vai de cada um a consciência do que é mais apropriado. O modo de se vestir diz muito de uma pessoa, mas não o essencial. Se for uma boa professora, tudo bem.
Mesmo assim o caso é divertido por sacudir um pouco com a imagem da "professorinha".
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A título de curiosidade: um trabalho sério sobre a imagem da "professorinha" e a ideologia por trás dela pode ser encontrado no livro do pedagogo Paulo Freire, Professora sim, Tia não!

segunda-feira, 7 de fevereiro de 2011

Trânsito e Democracia


Um dos maiores nomes da antropologia e do pensamento social brasileiro está lançando um livro sobre o trânsito. Hein? Isso mesmo. Roberto DaMatta publicou o livro Fé em Deus e Pé na Tábua no qual tenta analisar a situação do trânsito nas grandes cidades.

Morador de Niterói, DaMatta diz que a inspiração para escrever o livro partiu de sua convivência frustante com o trânsito em sua cidade. A quantidade de barbaridades nas ruas é uma realidade no Brasil inteiro e agora não só nas grandes cidades. O antropólogo, em uma entrevista para o Canal Livre da Band ontem (que pode ser vista aqui), disse que o livro não é um tratado sociológico sobre o trânsito, mas um grito de alerta para essa situação caótica no trânsito.

Segundo DaMatta, o Código de Trânsito Brasileiro não veio acompanhado de um debate, nem de maiores cuidados. O motorista, por sua vez, encara as leis impostas como um obstáculo á sua liberdade e dela tenta escapar, através do afamado "jeitinho". O problema do trânsito seria, portanto, político e cultural.

Ponto central da obra de DaMatta é essa "sociologia dual", segundo o pesquisador Jessé Souza, na qual o brasileiro, por meio de uma análise de suas imagens consagradas (como o carnaval, por exemplo) e de comparações com outras sociedades, é descoberto num espaço indefinido entre a ordem e a desordem, entre o autoritarismo e o "jeitinho". E essa indefinição do brasileiro é justamente o maior obstáculo para a consolidação da democracia no país.

O trânsito é um espaço privilegiado, pois nele podemos perceber muito bem essas tendências. Uma conjunção de fatores políticos, econômicos e culturais ajudam a criar um comportamento no trânsito pautado pela violência e o desrespeito para com os motoristas e os pedestres. O primeiro passo para acabar com essa cultura do desrespeito é a disciplina. “É um problema de internalizar regras igualitárias nos motoristas para que eles possam dizer não a eles mesmos”, afirma o antropólogo. Reconhecer no motorista/pedestre não um superior ou um inferior, mas um igual, esse seria o objetivo e as ferramentas para isso podem ser as mais diversas, como a educação, repressão e o debate, de preferência, todas se articulando entre si.

Uma questão atual e fundamental analisada por um dos monstros das Ciências Sociais brasileiras, portanto, um livro imperdível.

Revolução no mundo árabe

Nasser (1918-1970) falando ao povo, 1961.

Há 50 anos atrás, o oficial do exército egípcio Gamal Abdel Nasser e mais alguns colegas que ficaram conhecidos como o grupo dos Oficiais Livres lideraram uma insurreição no Egito contra o governo do rei Farouk I conhecida como a Revolução de 1952. O monarca foi expulso e os oficiais livres instituíram uma república secular. O movimento obteve forte apoio da população. O motivo? Farouk I, aos olhos de todos, era um "pau-mandado" do governo britânico que controlara o Egito por tantos anos. Os egípcios estavam cansados dessa dominação. Nasser surgiu com um projeto político que respondia essas expectativas: o pan-arabismo.

O pan-arabismo, ao contrário do que muitos pensam, não foi criado por Nasser, mas por intelectuais libaneses, como Michel Aflaq, na década de 1920. Era uma ideologia que apostava na união dos povos que habitavam a Península da Árabia, uma vez que estavam ligados pela história, contra o imperialismo ocidental. A inspiração do movimento era mais secular que religiosa, uma vez que esses intelectuais viam na religião um fator de potencial conflito entre os próprios povos árabes.

Precisamos compreender que o pan-arabismo era uma proposta para mudar o status quo de dominação que os povos árabes vinham sido submetidos desde o enfraquecimento do Império Turco Otomano, uma das maiores potências mundiais da Humanidade. O Ocidente se erguia triunfante com sua Revolução Industrial e os califas turcos, diferente dos séculos XVI e XVII, pareciam caquéticos e carcomidos senhores tentando governar um império que se desafazia em províncias corruptas e rebeldes. Nesse cenário de pobreza e miséria, os governos ocidentais, ávidos por mão-de-obra barata e consumidores, repartiram as sobras do Império entre si. Era um momento de vergonha para o mundo árabe, que fora um dos mais esclarecidos do mundo desde sua formação até a chegada dos mongóis.

Projetos para reerguer o mundo árabe então começaram a serem feitos: existiam primeiramente os que acreditavam que se adequar ao modo de vida ocidental seria a melhor maneira de sobreviver. Do outro lado, haviam aqueles que renegavam o modo de vida ocidental e valorizavam ao máximo o modo de vida local. Claro, que estou simplificando muito as coisas aqui: nem tudo era preto e branco, havia muitos tons de cinza. Estes dois lados são as raízes dos movimentos ocidentalistas e fundamentalistas atuais. Na fronteira entre os dois se desenvolveu o pan-arabismo: defendendo a cultura árabe, mas adotando alguns princípios do mundo ocidental como o governo laico e secular.

Esse debate entre contra e pró-Ocidente também se fazia no Egito. Em 1928, um jovem professor chamado Hassan al-Banna funda com mais cinco pessoas uma organização chamada Irmandade Muçulmana que tinha como proposta justamente uma regeneração do Egito e do mundo árabe através de uma volta radical para o islã dos primeiros tempos. A organização de Banna parecia a mais popular, até surgirem os Oficiais Livres e seu carismático líder Nasser. Nasser impulsiou o pan-arabismo, que parecia até então discussão para um pequeno grupo de intelectuais, com seu carisma e suas habilidades políticas e o transformou em um projeto político extremamente popular.

As primeiras medidas de seu governo, quando foi devidamente empossado, foram atacar o imperialismo ocidental, seja através da nacionalização do Canal de Suez (antes sob domínio da Inglaterra) em 1956 ou pela tentativa de dominar território de Israel, vista pelo mundo árabe de então (e até hoje) como representante local do imperialismo ocidental. A tomada do Canal de Suez levou a uma pequena guerra, em comparação com as posteriores feitas com Israel, na qual participaram inclusive brasileiros. É importante que se diga que Nasser era admirado em muitos países do Terceiro Mundo por representar uma política independente, ou seja, não se submeter nem aos EUA nem á URSS (embora ele tenha contado com a ajuda da URSS em determinados momentos para "peitar" Israel e os EUA).

O maior inimigo interno de Nasser era a Irmandade Muçulmana que via nesse governo secular um embrião de corrupção e imoralidade diante das leis do Profeta. Muitos atentados foram feitos contra Nasser e seus conselheiros. Com a morte de Banna, nos anos 50, um novo líder surge. Mais radical e mais influente que Banna, Sayd Qutb elegia como o "Grande Satã" os EUA devido á seu desrespeito para os seus próprios preceitos morais (ele se referia á religião cristã) e do Islã e apoiava toda sorte de atentados terroristas. Qutb foi preso e executado pelo governo de Nasser em 1966, o que lhe garantiu uma onda de violência. Mas a influência de Qutb já era grande demais: a direção que ele imprimiu á Irmandade Muçulmana pode ser responsável pela criação, nos anos seguintes, de grupos como o Hamas, Jihad Islâmica e o Hezbollah.

A derrota para Israel na Guerra dos Seis Dias (1967), a execução de Qutb e os fracassos da Liga dos Países Não-Alinhados e de uma República Árabe Unida com a Síria pesavam contra Nasser que faleceu no começo dos anos 70. O mundo árabe ficou órfão de um líder influente como ele (Yasser Arafat tentou em vão ocupar esse posto anos depois). Seu seguidor, Anwar Sadat ocupou o governo do Egito e decidiu levantar o país da inflação e do caos político. Sadat percebeu que a solução para o seu país passava pela paz e iniciou um diálogo com as autoridades israelenses. O diálogo resultou numa visita ao Parlamente israelense (Knesset) em 1977 e o Acordo de Paz de Camp David entre Sadat e Menachin Begin, premiê israelense de então. A aproximação com Israel custou a vida de Sadat, assassinado por membros da Jihad Islâmica em 1981. Seu sucessor foi Muhammed Hosni Mubarak, então membro do Estado Maior de Sadat, que desde sua posse demonstrou seu interesse em continuar a colaborar com o mundo ocidental e reprimir as organizações terroristas em seu país. Mubarak foi contudente e conseguiu diminuir e muito o alvo de atuação dos terroristas. Durante seu governo, a Irmandade Muçulmana renegara um pouco a imagem de Qutb, tornando-se mais moderada, mas mesmo assim defensora aguerrida do Islã.

Mubarak tornara-se um importante aliado tanto para os EUA quanto para Israel nesses últimos 30 anos, como podemos ver. Há anos no poder, Mubarak tem investido no turismo e no comércio, mas mesmo assim o país não tem se conseguido reerguer desde a crise financeira de 2008. Mubarak tornou-se símbolo de um pan-arabismo frustrado, que não conseguiu alcançar seu objetivo: desenvolver o mundo árabe. O Oriente Médio se encontra atualmente dividido em ditaduras e regimes fundamentalistas, onde pobreza, corrupção e violência são palavras-chaves, sede dos conflitos mais sangrentos de nossa época. O que aconteceu? Essa situação foi provocada pela combinação de fatores externos (guerra fria) e internos (grupos terroristas, pequenos movimentos nacionalistas, pan-arabismo, etc).

No entanto, protestos iniciados na Tunísia por causa de um jovem que ateoou fogo ao próprio corpo por ter perdido tudo que tinha culminou na expulsão do ditador Muhammed Zine Ben Ali e a formação de um novo governo popular em janeiro desse ano. A revolta se transformou em onda, espraiou-se pelo Iemên, Síria, Argélia, Marrocos, Mauritânia, dentre outros, e encontrou seu caso mais emblemático no Egito. Há dias manifestações na praça Tahrir, região central do Cairo, pedindo a saída de Mubarak do poder tem conquistado a atenção do mundo. A oposição, articulada entre setores mais liberais e a Irmandade Muçulmana, tem atacado o dirigente, que fez até algumas concessões, mas não arreda a idéia de fazer uma transição "lenta, segura e gradual". Negociações começaram essa semana, entre os líderes da oposição, destacando o premiado cientista Mohammed El-Baradei, e o governo, tendo como principal articulista o Exército (que conquistou essa posição de força com a chegada dos Oficiais Livres em 1940).

Por que devemos acompanhar essas mudanças? Estamos presenciando uma transformação que pode mudar a cara do Oriente Médio, para bem ou para o mal. Interessante é como essa transformação tem um caráter original: diferente das outras "revoluções" no mundo árabe, nessa muito dos atores políticos locais e internacionais que manobravam a política regional agora são, como disse um analista, meros espectadores. Daí o medo de Israel, EUA e até do Irã. O cenário no Egito é tão inovador, tendo em vista o que acontece na região nos últimos 30 anos, que ninguém sabe onde isso irá parar. Além disso, o Egito tem um caráter de vanguarda na região. É possível que as transformações ocorridas ali se alastrem para a maioria do Oriente Médio.

sexta-feira, 4 de fevereiro de 2011

Heroís ou vilões?


Qualquer um aqui que acompanhe os jornais deve saber o que está acontecendo no Egito e em boa parte dos países do Oriente Médio. Mas não é sobre isso que pretendo falar nesse post hoje. Invoco aqui outro acontecimento recente: a prisão do fundador do Wikileaks, Julian Assange, por disponibilizar documentos secretos do governo norte-americano, por exemplo.

Esses últimos acontecimentos levaram a um debate sobre as mídias sociais. Boas ou más?, basicamente é essa a questão principal. Ao disponibilizar informações secretas, Assange ajuda á população á ter ciência do que seu governo faz ou atrapalha operações de fundamental importância? Muitos analistas brasileiros reclamam do esquentado nível dos comentários políticos na blogosfera, nível que se revela mais acentuado nos EUA, como já comentamos antes aqui. Enquanto muitos defendem a democratização da informação pelas mídias sociais e a consolidação do regime democrático por causa das mesmas, o especialistas em mídias sociais Evgene Morozov disse essa semana que "a idéia de que a internet ajuda a democracia é uma tecno-utopia".

Acredito que a questão não é se elas são boas ou más, mas quem as utiliza. As novas mídias sociais são ferramentas que potencializam a expressão individual e a ação coletiva. Realmente as mídias sociais democratizaram a informação (em partes, afinal metade do mundo ainda continua sendo analfabeta e sem acesso a computadores). Ora, vejam a maré de blogs, muitos são intimistas, mas existem, claro, aqueles mais dedicados a certos temas como a política ou a imprensa. E vejam também os movimentos de revoltas no Oriente Médio: os protestos do Egito e da Síria foram organizados por meio das mídias sociais, como o twitter ou o facebook. O poder dessa revolução digital é grande, mas essa tecnologia está nas mãos da Humanidade que, como sabemos, utiliza grandes descobertas para os mais variados objetivos.

Olhando por essa lado, as mídias sociais são dúbias: ora conservadoras, ora revolucionárias. Exemplos não faltam, aliás, muitos estão presentes aqui no corpo do texto. Por causa dessa sua posição, outra questão nos é imposta: devemos controlar esse avanço ou não? Afinal, ondas de ódio podem ser facilmente disseminadas pela internet, como tem acontecido na China quando usuários identificam uma pessoa com a qual abominam e a perseguem (essa espécie de buylling virtual é conhecido como "busca de carne humana"). Já existem, inclusive no Brasil, projetos para uma "polícia da web", mas pelo próprio caráter dessa tecnologia, controle absoluto sobre a rede ainda parece muito difícil. A China, por exemplo, vem tentando barrar esse avanço, temendo as consequências já expostas aqui, mas cada vez mais a internet parece estar se soltando de suas amarras lá.

O que fazer então? Bem, as mídias sociais talvez sejam parte dessa terceira revolução tecnológica que tanto tem se falado ultimamente. Sim, elas nos ajudam e nos atrapalham. Outra coisa também é certa: elas dificilmente sairão de nossas vidas tão cedo. Esses debates demonstram que estamos tentando achar uma maneira de conviver com os novos desafios que ela trouxe. Se acharemos formas de controle ou escapismo, só saberemos com o tempo.